Notas iniciais
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FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 54

Entre Irmãos

Shaolin caminhava devagar em direção à saída da escola com Kasumi ao seu lado, estava satisfeito por ter se saído bem nas provas. Ainda bem que Kasumi pôde ajudá-lo.

‘Que bom que foi bem nas provas…’ Kasumi comentou, vendo o rosto satisfeito do amigo.

Ele voltou-se para ela e franziu a testa. ‘Você já fez todos os exames que o médico pediu?’

Kasumi rolou os olhos e soltou um suspiro, entediada. Depois que havia passado mal na casa do amigo, a mãe a carregou para o hospital, junto com Shaolin. Ele não precisava ter ido, já estava se sentindo melhor. O pai apareceu logo em seguida igualmente nervoso. O médico a examinou e concluiu que a menina devia ter comido algo que lhe fez mal. Não havia com o que se preocuparem. Tentou convencer os pais em vão. A mãe insistiu com o médico, dizendo que a filha tinha estômago de avestruz e nunca passaria mal por conta de alguma comida. No final, fez o médico solicitar alguns exames.

‘Tem que ficar em jejum de 12 horas para fazer os exames de sangue.’ Ela resmungou. ‘Detesto isso! Você sabe que fico mal-humorada quando estou com fome.’

Shaolin continuou encarando-a seriamente. ‘Nunca a vi daquela forma, Kasumi. O que aconteceu?’

Ela desviou os olhos dele e fitou o chão da escola. ‘Não sei direito.’

‘Você falou que tinha sido um pesadelo. Com o quê?’ Ele insistiu.

Ela mordeu de leve o lábio inferior. ‘Não sei direito, Shaolin… Talvez fossem bobagens da minha cabeça.’

O menino tinha o rosto fechado, tentou tirar satisfação com Retorno depois que voltou do hospital onde tinha ido com a tia levar Kasumi. Só voltou para casa quando ela recebeu alta.

Retorno foi evasivo nas respostas, mesmo sendo pressionado pelo menino e por Kazuo que confirmou o estado debilitado da amiga do irmão para o pai e Sakura. A única coisa que a Carta respondeu foi que “Kasumi era muito mais do que aparentava ser”, mas se recusou a falar qualquer outra coisa, apesar da irritação dos dois irmãos.

Syaoran teve que intervir para que a discussão não se tornasse uma briga séria. O pai garantiu que Sakura conversaria com Retorno, dizendo que a Carta não faria mal à Kasumi de propósito e que Shaolin devia saber disso. E era verdade. Ele sabia, mas o problema era que isso apenas o deixava mais preocupado, pois Retorno não era dado a fazer manifestações aleatórias, muito menos quando não solicitado.

Kasumi olhou para o amigo e sorriu abertamente para passar-lhe confiança. ‘Não se preocupe! Eu estou realmente bem!’ Encolheu de ombros de leve. ‘Você disse que o poder de Retorno não é causar enjoo, então eu devo ter comido alguma coisa estragada e, talvez, isso tenha afetado a minha cabeça, foi apenas isso!’

Shaolin fitou a amiga em silêncio por alguns segundos e não teve como não sorrir de leve ao ver o belo sorriso que ela lhe dava. ‘Está bem…’ Falou por fim. ‘Mas me prometa que fará os exames.’

‘Um dia…’ Ela respondeu de forma marota.

Ele balançou a cabeça de leve. Sabia que a amiga era teimosa. Ficar 12 horas em jejum seria impossível para ela, principalmente quando ela já tinha feito aquele “sacrifício” durante o check-up anual.

‘Bem… Já que você está bem… Acho que vou comprar um sorvete enorme para você.’ Ele falou alegre. ‘Por ter me ajudado nas matérias. Não acredito que consegui escapar delas.’

‘Não foi nada. Você sabe que pode contar comigo. Além disso, você sempre me ajuda em matemática.’ Ela comentou.

‘Está negando sorvete?’ Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

‘Não foi isso que eu falei!’ Ela rebateu rapidamente. ‘Em nenhum momento neguei sua oferta!’

Ele sorriu para ela. ‘Então vamos lá. Vou comprar um enorme para você.’

Estava caminhando animado quando percebeu a presença do meio-irmão que se aproximava da escola. Franziu a testa, fechando o rosto. O meio-irmão até podia ter ajudado no dia que a Kasumi passou mal, mas isso não queria dizer nada.

Assim que atravessou o portão principal da escola, viu Kazuo do outro lado da rua. Nem na escola ele conseguia se livrar daquele cara, pelo jeito. Ele estava encostado numa mureta com os braços cruzados sobre o peito, observando com atenção o movimento dos estudantes. Soltou um suspiro irritado.

Kazuo, ao perceber a aproximação de Shaolin, fitou o menino, mas estava mesmo procurando por outra pessoa. Sabia que a ruiva metida também estava por perto. Olhou para os dois e sorriu de leve, vendo Kasumi. Acenou para ela que retribuiu.

‘Inferno…’ Shaolin deixou sair entre seus dentes. ‘O que ele está fazendo aqui?’

‘Acho que veio buscar você.’ Kasumi respondeu e viu o amigo fazer uma careta.

‘Só o que me faltava era esse cara vir me buscar na escola como se eu fosse um bebê.’

‘Pelo que você e a Nee-san me contaram…’ Kasumi comentou, olhando de esguelha para Shaolin. ‘Ele não tem muita noção do que é certo ou errado, não é? Não entende muito bem as coisas…’ Ela falou. ‘Então, não é como se ele fosse o bebê?’

Shaolin franziu a testa. ‘Pensando por este lado…’ Reteve-se por alguns segundos. ‘Mas não deixa de ser um irritante mesmo assim. Além de ser metido pra caramba.’

‘Como todo irmão mais velho.’ Ela retrucou e viu novamente o amigo fazer uma careta. ‘Eu acho… Nee-san também pega no seu pé...’

Shaolin olhou para a amiga. ‘Pega no meu pé com relação a quê?’

‘Ah, sei lá… de uma forma geral… eu acho que ela provoca você, não? Na verdade, nós dois, né?’

Shaolin soltou um suspiro. ‘É, tem razão… ela me chama de pirralho até hoje. Acho que posso ter 20 anos e ela vai continuar me chamando assim.’ Ele observou o irmão e reparou que ele ainda olhava para os lados como se estivesse procurando alguém. Ergueu uma sobrancelha. ‘Humph.’ Murmurou e depois sorriu de lado. ‘Vai ver… Ele não está aqui bem para me buscar, não é?’

Kasumi franziu a testa. ‘E você acha que ele está aqui por quê?’

Shaolin olhou para o outro lado e viu a prima sair pelo portão da escola, alargou o sorriso, vendo que Kazuo descruzou os braços e ajeitou o corpo, a aura do irmão tinha se agitado. ‘Não sei…’

‘Você está mentindo.’ Ela retrucou ele. ‘Está vermelho.’

‘Ah! Não me enche você também, Kasumi!’ Ele rebateu. ‘Já tem muita gente no meu pé.’ Soltou outro suspiro e olhou para a prima que também tinha estaqueado no portão, observando Kazuo. Reparou que a aura dela tinha se agitado mais, assim como a do rapaz. ‘Isso está ficando interessante…’ Soltou.

‘O quê?’ Kasumi perguntou novamente.

Shaolin deu de ombros. ‘Nada.’ E olhou de esguelha para a amiga. ‘Se falar que eu estou mentindo… Brigo com você também, entendeu?’ Falou, caminhando em direção a Kazuo.

Kasumi abriu a boca para retrucar, mas logo a fechou, observando o garoto atravessar a rua. Foi atrás dele.

Kazuo desviou os olhos de Marie e observou Shaolin parando a sua frente. Desviou os olhos para Kasumi e sorriu de leve. ‘Olá, Kasumi, você está bem? Não passou mal novamente, né?’

‘Não, não! Estou ótima!’ Ela respondeu alegre.

‘Ah! Eu lembrei de você ontem! Tem razão! Carne é muito melhor que apenas vegetais.’

A menina abriu um sorriso. ‘Um dia eu e Shaolin podemos fazer um prato que…’

‘Eu não vou fazer droga nenhuma.’ O garoto a cortou, olhando feio para ela que deu de ombros. Tudo bem que o irmão realmente tinha ajudado naquela situação de emergência, mas também não era para ela ficar agora toda amiga dele.

Ela soltou um suspiro e voltou para o rapaz. ‘Eu faço então e você me ajuda. Pode ser?’

‘Claro!’ Kazuo falou, sorrindo. ‘Você prometeu me ensinar a fazer korokkes.’

‘Verdade!’ Ela comentou, animada. ‘Você vai ver que são muito bons.’

‘Podemos fazer vários, então.’ Kazuo falou. ‘E dividimos só entre eu e você.’

‘Kerberus realmente come demais!’ Kasumi reclamou. Já tinha entrado em uma briga com o bichano por conta de comida.

‘E não ajuda em nada.’ Kazuo rebateu. ‘Só reclama.’

Ela concordou com a cabeça de leve. ‘A gente pode fazer lá na minha casa.’ Sugeriu, fazendo o rapaz sorrir mais abertamente.

Shaolin olhou de um para o outro conversando de forma animada. Era só o que faltava Kazuo querer agora ficar amigo da sua amiga.

‘O que é que você veio fazer aqui?’ Shaolin perguntou, olhando feio para o irmão.

‘Oyaji pediu para eu vir aqui… e ir treinar com você na casa daquela ruiva metida.’ Ele se justificou por estar ali.

‘Sei…’ O garoto falou, balançando o corpo de leve. Olhou para o lado onde a prima se aproximava depois que se recuperou do espanto por encontrar Kazuo na frente dos colégios dos dois. ‘Realmente… você é um filho muito obediente.’ Provocou de propósito.

Kazuo estreitou os olhos nele, percebeu o tom do garoto e não gostou. ‘Está querendo me provocar, não é, pirralho?’

‘Eu?’ Falou, fingindo inocência. ‘Não sou eu que fico irritado o tempo todo. Provocar você é fácil.’

‘Ele está provocando você, sim.’ Kasumi falou de forma calma e recebeu um aceno positivo de Kazuo e um olhar contrariado de Shaolin.

Kazuo inclinou o corpo a frente, encarando o garoto. ‘Sou eu que fico irritado o tempo todo? Tem certeza disso?’

‘Estou apenas dando o troco.’ Falou, devolvendo a encarada.

‘Você… é insuportável.’

‘Tanto quanto você.’

‘Quer provar um?!’ Kasumi falou, estendendo a frente dos dois seu precioso saquinho de biscoitos e quebrando o contato visual dos irmãos.

Kazuo desviou os olhos do irmão e observou a garota olhar para ele com um sorriso. Ergueu o corpo e soltou um suspiro. ‘Posso?’

‘Claro!’ Ela falou e ele pegou um, levando à boca.

Shaolin olhou contrariado para os dois, sabia muito bem que Kasumi não gostava de dividir comida. Cruzou os braços.

‘Isso é bom!’ Ele falou.

‘Só um já está bom para provar.’ Kasumi falou, colocando o pacote dentro da pasta para deixar claro que nem adiantava ele pedir outro. Kazuo sorriu para ela. ‘Então você veio aqui só para buscar seu irmão? Que legal!’

‘Meio-irmão.’ Shaolin resmungou ao lado dela.

‘Isso aí.’ Ele respondeu, ignorando o comentário de Shaolin. ‘Ordens do oyaji.’

Kasumi reparou que ele desviou brevemente os olhos dela e corou de leve. Estava mentindo, igual ao Shaolin. Ergueu uma sobrancelha.

‘Você é um péssimo mentiroso, igual ao seu irmão!’ Ela falou, olhando para o rapaz que a fitou arregalando os olhos, assustado.

Kazuo estreitou os olhos na garota, não sentia nenhuma magia vindo dela, era uma humana normal, não tinha poderes mágicos. Como será que conseguia ler mentes?

‘O que você está fazendo aqui?’ Marie já soltou sem cumprimentar ninguém, encarando Kazuo.

‘Ele veio para ir treinar com a gente.’ Shaolin respondeu pelo rapaz rapidamente.

‘Bem… depois da surra que você levou do ojisan, naquele dia…’ Ela falou, sorrindo de lado para o rapaz. ‘Realmente acho que tem que treinar muito.’

Kazuo respirou fundo e soltou o ar bem devagar. O pai realmente estava de sacanagem com ele em achar que conseguiria treinar numa boa com o irmão pirralho e a ruiva metida. Estava realmente tentado a desistir e ir treinar sozinho. Talvez Luta aceitasse treinar com ele de novo.

‘Deve ser divertido treinar com mais gente, não?’ Kasumi falou, observando Marie. ‘Sempre são só você e o Shaolin. Pelo menos agora… tem o Kazuo-kun.’

‘Ah… Vai ser realmente muito divertido.’ Marie falou em tom irônico.

‘Desisto.’ Kazuo falou já pronto para se afastar quando Kasumi parou à frente dele, impedindo-o de se afastar.

‘Tão rápido assim?’ A garota falou, estreitando os olhos nele. ‘Pensei que com esta natureza aí que o Shaolin me explicou que você tem… Você fosse mais persistente.’

‘Esta natureza aí que eu tenho?’ Ele retrucou, fitando a menina. ‘Se você sabe sobre isso, deveria ter medo de mim, não?’

Kasumi deu de ombros. ‘Você é irmão do Shaolin… não tem porque eu ter medo de você.’

‘Meio-irmão.’ O menino consertou, novamente. ‘E acho que ele tem razão… Você deveria ter medo dele, sim.’

‘Olha!’ Kazuo falou, de repente. ‘Você concorda comigo em alguma coisa, pirralho?’ Retrucou. ‘Já sei… Está com ciúmes da sua namoradinha.’

Shaolin franziu a testa, encarando novamente o irmão. ‘Você não estava desistindo e caindo fora?’

Marie rodou os olhos. ‘Vamos logo lá para casa para treinar… Já que, pelo jeito, vocês dois estão afim de ficar se implicando o tempo todo.’ Ela deu as costas a eles, começando a caminhar. ‘Então, usem essa energia durante o treinamento.’

Kazuo desviou os olhos do irmão e observou Marie se afastando. Ela era muito metida mesmo. ‘Merda…’ Soltou irritado, estava realmente tentado a desistir de treinar com eles. ‘Ela é outra insuportável.’

‘Rá!’ Shaolin falou, chamando a atenção dele. ‘Você não viu nada.’ O garoto soltou um suspiro e depois voltou-se para Kasumi que estava ao seu lado. ‘Eu vou com eles, então. Já que foi tousan quem “mandou”.’

Kasumi concordou com a cabeça e virou-se para o grupo de estudantes com quem os dois normalmente voltavam para casa. ‘Então… Acho que vou indo com o pessoal.’ Falou. ‘Tchau, Kazuo-kun. Bom treino.’

‘Hei!’ O rapaz a chamou, fazendo-a se voltar para ele. ‘Não quer ir com a gente?’ Kazuo sugeriu.

Kasumi virou-se para ele e inclinou a cabeça, olhando brevemente para Shaolin. ‘Acho melhor não…’

‘Eu estou convidando.’ Ele falou e virou-se para o irmão que só faltava pular no pescoço dele. Sorriu de lado. Já que tudo o que ele fazia irritava o garoto, então, pelo menos, podia se divertir fazendo isso de propósito. ‘Ou está com medo que ela veja você apanhando?’ Perguntou, provocando-o.

‘Você…’ Shaolin começou a falar e reteve-se, estava realmente tentado a soltar uns palavrões para o irmão, mas era arriscado falar alguma coisa tão perto da escola. Considerando sua recente falta de sorte, era bem capaz da mãe se materializar ao seu lado para repreendê-lo pelo linguajar.

Kasumi olhou de um para o outro, soltou um suspiro. ‘É um treino de magia. Eu não tenho porque ir até lá.’ Ela falou e o rapaz voltou a fitá-la com o semblante decepcionado. ‘Melhor deixar vocês três treinarem tranquilamente.’ Completou, sorrindo de leve para Kazuo que acenou com a cabeça ainda parecendo chateado com a recusa dela.

‘Tranquilidade é o que eu menos tenho ultimamente.’ Shaolin falou.

Kasumi pousou uma mão no ombro dele. ‘É só você ficar calmo. Espero você para treinar comigo no dojo algum outro dia.’ Ela falou sorrindo e estava para se afastar, despedindo-se de Kazuo quando o menino pegou a mão dela. Kasumi voltou-se para ele.

‘Hã… se você quiser… pode ir com a gente.’ Falou sem graça, apertando a mão dela.

‘Mesmo?’ Kasumi perguntou, arregalando os olhos de leve.

‘Sim.’ Ele respondeu.

‘Maravilha!’ Kazuo falou contente, fazendo o irmão soltar a mão da garota, constrangido. ‘Pelo menos uma pessoa com quem conversar esta tarde.’ Disse, sorrindo para a menina de leve.

Kasumi sorriu para o rapaz, mas depois fechou o rosto. ‘Não vou lhe dar outro biscoito.’

‘Só mais um.’ Ele ainda insistiu, indo atrás dela que já começava a caminhar atrás de Marie.

‘Não.’ Ela respondeu. ‘Estes biscoitos são especiais de kaasan. Receita de família e é muito difícil de fazer.’

Shaolin observou o rapaz caminhando ao lado de Kasumi. Eles pareciam se dar bem. Franziu a testa, Kasumi nunca foi simpática desta forma com ninguém. Além disso, ela era sua amiga e, sabendo que ele não gostava daquele ali, ela deveria ficar ao lado dele e hostilizar Kazuo, não é?

Kasumi virou-se para trás e olhou para Shaolin que estava parado, olhando para os dois.

‘Shaolin! Não vem, não?’ Ela falou, chamando-o.

Ele balançou a cabeça e começou a caminhar em direção deles.

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Kasumi estava ao lado de Marie, observando Shaolin e Kazuo que caminhavam ainda discutindo em direção ao centro do gramado.

‘Eles não param de discutir.’ A menina falou. ‘Nem percebem o quanto são parecidos.’

Marie sorriu de lado. ‘Verdade.’ Olhou para Kasumi. ‘Legal o Shaolin–kun finalmente ter convidado você para vir aqui.’ Falou com sinceridade.

Kasumi encolheu os ombros. ‘Acho que ele não gostou muito, mas…’ Ela soltou um suspiro. ‘Eu gostaria que ele entendesse que não precisa esconder mais as coisas de mim.’

A ruiva concordou com a cabeça. ‘Shaolin–kun não gosta muito de usar magia para combater.’ Ela explicou. ‘Ele no final… Não gosta muito de treinar. Faz porque ojisan o obriga.’

‘Por quê?’ Kasumi perguntou, fitando Marie que desviou os olhos dela para observar os dois irmãos.

‘Isso eu já não sei direito… Mas o ojisan não costuma fazer as coisas sem um propósito.’ Marie respondeu. ‘Talvez… Shaolin-kun tenha muitos problemas no futuro.’

Kasumi comprimiu os lábios. ‘Ele me contou parte da história…’

‘Nem ele sabe direito a história toda da vida dos pais, do irmão e a dele mesmo.’ A jovem falou, observando a menina. ‘Se você gosta mesmo dele… vai ter que entender que magia nem sempre é tão legal quanto parece. Traz sempre um monte de problemas junto.’

‘Problemas?’ Ela perguntou com os olhos cravados no garoto de olhos verdes que se posicionava à frente de Kazuo, ainda trocando farpas com ele. ‘Gostaria de ajudá-lo, mas… Não sei como.’

‘Acho que, só em você estar a salvo já o estará ajudando.’ Marie começou a responder. ‘Ele se importa muito com você. Sentia-se muito mal em mentir sobre magia. Em ter que esconder de você essa parte da vida dele.’

A menina suspirou. ‘É… Acho que sim. Somos como irmãos, não é? Fomos criados juntos. Achei que não tínhamos segredos um para o outro, mas ele nunca havia me contado sobre magia.’

‘Talvez...’ Marie falou, balançando o corpo de leve e sorrindo. ‘Ele não a veja assim como uma irmã, não é? Por isso não lhe contou sobre magia.’ Kasumi desviou os olhos do menino e fitou de forma interrogativa a ruiva ao seu lado. ‘Você não tem magia, então talvez ele não quisesse que você pensasse que ele fosse “diferente”.’

‘Como assim?’

‘Não sei… você deveria perguntar isso diretamente para ele.’ Ela se esquivou da resposta direta. Fez um gesto em direção a eles. ‘Acho que hoje o treino vai ser diferente, mas não se assuste. Eles precisam disso para se acertarem de vez. Normalmente... É bem mais tranquilo.’

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Kazuo encarou Shaolin a sua frente. Pegou a esfera negra que tinha ganhado do pai e jogou para cima. ‘Vi que você também tem uma dessa, não é?’ Ele comentou.

Tinha observado o pai treinando com o Shaolin depois de ter lutado contra ele naquele domingo. Reparou que o irmão lutava muito bem apesar de ser mais novo. Syaoran não tinha pegado leve com o pirralho também, mas, diferente do que aconteceu com ele, Shaolin tinha se esquivado bem melhor e atacado de forma mais eficaz o pai. Além disso, manejava a espada muito bem e usava magia com segurança. Magia realmente muito parecida com a do pai.

Só que tinha reparado em algo interessante no irmão mais novo, ou melhor, no meio-irmão. Ele hesitava um monte. Tinha potencial, mas volta e meia, travava, inclusive recebendo bastantes repreensões do pai com relação a isto.

‘É… Tenho sim.’ Shaolin falou, pegando a esfera negra do bolso. Olhou de esguelha para onde as garotas estavam e franziu a testa.

‘Você hesita um bocado em usar magia, pirralho.’ Kazuo falou.

‘E você não pensa nem um pouco antes de agir.’ Rebateu.

Kazuo estreitou os olhos no irmão, a presença dele estava agitada, mais até do que no dia em que treinou com o pai. Apesar de ter reparado que ele criticava bastante o garoto, Shaolin não perdia a calma. Simplesmente ouvia e tentava melhorar seguindo as instruções que recebia.

Não podia negar que isso o intrigava bastante. Tinha consciência que não tinha aquela paciência do irmão. Sabia muito bem que, pelo garoto, ele já teria sumido, na verdade, não teria nem aparecido. Respirou fundo e soltou o ar devagar. Por mais que não quisesse admitir isso incomodava-o bastante.

Shaolin agia muitas vezes como se ele não existisse. Ele não deveria estar nem aí para o pirralho, mas, por mais que tentasse fazer o mesmo e ignorar a existência do garoto, não conseguia.

As Cartas falavam dele o tempo todo. Todas elas adoravam o garoto e agora estavam mais felizes ainda em saber que não precisavam mais serem discretas quando Kasumi estava com ele. Todas estavam radiantes com isso, mesmo depois do ocorrido com Retorno. A pirralha gulosa era legal com ele e tratava-o de maneira gentil, divertia-se bastante em conversar com ela, mas ela também adorava Shaolin. Gostaria que ela o considerasse da mesma forma que fazia com o irmão.

A ruiva metida implicava com o garoto o tempo todo, mas Kazuo tinha percebido o quanto ela se preocupava e gostava do pirralho. O pai, enquanto não se acertou com o garoto, estava não só irritado como bem magoado. Isso sem contar que ele tinha uma mãe completamente o oposto da dele. Shaolin tinha tudo! Todos gostavam dele. Todos o tratavam com carinho. Todos se preocupavam com ele.

Trincou os dentes de leve, observando o irmão enquanto jogava a esfera na mão esquerda para cima, pegando-a em seguida, diferente do garoto que apertava a dele na mão, mostrando-se nervoso. Nervoso demais para um treinamento, estranhou.

O pirralho tinha visto a luta dele com o pai, então sabia o que esperar dele, assim como ele também tinha ideia do que esperar do meio-irmão. Por que aquele nervosismo todo?

Reparou que Shaolin olhou rapidamente para onde as garotas estavam. Franziu a testa e soltou um suspiro. O problema era Kasumi. Se soubesse que o garoto ficaria daquela maneira por causa da presença dela, não teria sugerido que ela viesse.

Mas por que diabos o garoto estava daquela forma? Ele era forte, não tinha motivo para ficar reticente em lutar na frente dela. Mostraria a ela que ele era forte, era assim que os machos se comportavam, não?

Ou será que naquele universo as coisas eram ao contrário? O pai tinha dito que quem mandava era a Feiticeira que era a fê-… esposa! Esposa dele. A ruiva metida tinha cara de que mandaria em qualquer um. Pobre diabo seria quem ela escolhesse.

Talvez o meio-irmão não queria se mostrar forte para Kasumi. Isso fazia até certo sentido, pensando agora com calma. Arrependeu-se de ter convidado a menina, mas realmente gostava de conversar com ela. Kasumi era muito simpática com ele, além de gostar de explicar as coisas para ele de forma divertida.

Kazuo materializou sua espada e encarou o irmão. ‘Olha não tem porque você ficar assim. De onde eu venho os machos sempre devem se mostrar fortes para as fêmeas.’ Falou numa tentativa de se mostrar camarada.

Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Você está de sacanagem comigo, não é?’

‘Estou falando sério.’ O rapaz falou, rodando a espada na mão.

‘Dá para você parar de rodar esta espada desta maneira!’ Shaolin falou mais alto. ‘Você não consegue nem empunhá-la direito! Vai acabar se cortando…’

‘Se isso acontecer, eu cicatrizo.’ Deu de ombros, fazendo pouco caso. ‘Pirralho… Sempre aprendi a me virar sozinho. Este negócio de ficar levando bronca o tempo todo não é comigo. Daqui a pouco eu pego o jeito com ela.’ Falou, olhando orgulhoso para a imponente arma que tinha na mão e que era só dele!

Shaolin balançou a cabeça de leve. ‘Você não prestou atenção em nada do que tousan falou?’ Reparou que o irmão voltou a encará-lo sério. ‘Não adianta ter uma arma tão boa quanto esta se você não aproveita o melhor dela.’

‘Eu já falei… De onde eu vim,vence quem tem mais resistência. A gente tem que sobreviver ou cortam a sua cabeça na primeira oportunidade.’

O menino desviou os olhos dele. ‘Hum… Nee-san me contou um pouco de como as coisas são por lá.’

‘Ela?’ Kazuo falou incrédulo. ‘Aquela ruiva metida não deve saber de nada. Só acha que sabe. Ela é humana assim como você. Não entendem como o Mundo das Trevas realmente é.’

Shaolin soltou um suspiro. ‘Você… Realmente precisa abrir seus horizontes.’

‘Rá!’ Soltou de forma irônica. ‘Eu? Não sou eu que estou morrendo de medo só porque tem uma fêmea olhando para mim. Você nem está conseguindo materializar sua espada. E eu vi que conseguiu fazer isso sem dificuldade.’

O garoto balançou a cabeça de leve novamente. ‘Você não entende.’ Depois voltou a fitá-lo. ‘Acho que nem adianta explicar para você.’

‘Realmente seria perda de tempo. Isso tudo aqui…’ Ele falou, apontando com a espada. ‘Daqui a pouco será passado. Vou voltar para o Mundo das Trevas na primeira oportunidade.’

Shaolin observou Kazuo por alguns segundos em silêncio, reparando no rosto do irmão. Ele estava falando aquilo da boca para fora. Dava para perceber isso. Era bem arrogante. Metido. Não devia se importar. Se ele quisesse voltar para o Mundo das Trevas ou para o raio que o parta, o problema seria dele, certo?

Não deveria se importar se o irmão desaparecesse da face da Terra. Seria mais fácil e conveniente não gostar dele. Tudo bem que ficou preocupado com o rapaz enquanto estava lutando contra o pai e reparou que ele não conseguia nem segurar a arma direito. Não deveria ter se preocupado, mas não conseguia controlar tudo que sentia. E ele, mais que ninguém, sabia exatamente como doía um golpe do pai.

Quando Kazuo caiu de joelhos depois de receber o golpe final de Syaoran, não conseguiu se controlar e se levantou para ir até lá e… bem, não sabia nem o que podia fazer, mas não tinha como ignorar a situação. Só parou quando sentiu a mão da mãe no seu ombro e ela lhe falando para deixar que eles se entenderiam. No entanto, a aura dela estava tão ou mais agitada que a dele. Só relaxou quando o rapaz aceitou a ajuda do pai para se levantar. Além disso, reparou também que Kazuo realmente tinha uma recuperação rápida conforme tinham lhe contado. Porém isso não tivesse dissipado totalmente sua preocupação. Não era por ter cicatrização rápida que os golpes seriam menos dolorosos.

Provavelmente, se o irmão voltasse para o Mundo das Trevas, sobreviveria por algum tempo a mais, até encontrar um oponente mais forte. Marie tinha lhe contado sobre a mãe dele e a ambição dela. Comprimiu os lábios, sem tirar os olhos do irmão. Ele acabaria morrendo lá. Quando o viu pela primeira vez, tinha um baita ferimento no braço que logo cicatrizou. Não ignorou a informação que ele lhe deu, dizendo que ardia bastante até cicatrizar.

Apertou a esfera negra com força. Droga! Ele só queria ser um garoto normal. Não queria ter magia. Como é que ele poderia ter uma vida normal, conviver com pessoas normais se a vida dos pais sempre foi uma confusão e agora tinha até um irmão que surgiu através de uma invasão dos sonhos do pai?

Respirou fundo e soltou o ar devagar. Não sabia se Kazuo realmente voltaria para o Mundo das Trevas ou se permaneceria com eles. Não queria se meter naquela decisão, mas, se o rapaz continuasse cabeça dura como parecia ser, a arrogância o faria subestimar o inimigo.

Sabia que Kazuo o subestimava por ser menor e mais novo. Isso poderia ser um erro fatal para ele. Não que se importasse se ele morresse ou não… Mentira! Se importaria, sim; por mais raiva que sentisse ao constatar isso.

Quando o rapaz surgiu para ajudá-lo na ocasião em que Kasumi havia passado mal, não tinha como negar que havia ficado aliviado por ter alguém que pudesse ajudá-lo a socorrer Kasumi. Kazuo poderia ter ficado afastado da situação, mas ofereceu ajuda. Também tinha sentido-se mais confiante quando tentou tirar satisfação de Retorno e a Carta se mantinha inflexível em responder seus questionamentos. E quando foi contar para os pais o que aconteceu, eles poderiam ter pensado que ele estava exagerando, mas com o rapaz confirmando o que ele tinha contado e se colocando ao lado dele no interrogatório à Carta, não pôde negar que gostou de sentir o apoio dele.

No fundo, não sabia o que sentia pelo irmão, então tentava se manter afastado. Evitava-o, em parte para fugir de uma resposta. Era mais fácil simplesmente estar sempre na defensiva contra ele. No entanto, não podia negar que não gostaria que ele sofresse ou morresse naquele inferno ao qual ele insistia em dizer que queria voltar.

‘E você acha que vai sobreviver por quanto tempo por lá se não conseguiu nem fazer o tousan suar direito lutando contra ele?’

Kazuo trincou os dentes. ‘Aquilo foi inesperado.’

Shaolin deu de ombros. ‘Assim como seria inesperado se aparecesse um inimigo que lutasse com você da mesma forma.’ Falou. ‘Você mesmo falou que, teoricamente, seria mais forte que tousan porque é um demônio e ele é humano.’

‘Eu estava distraído.’ Kazuo rebateu.

Shaolin jogou a esfera dele para cima e materializou a espada na mão. ‘Pois bem… Agora espero que não esteja distraído, então.’

‘Tá mesmo achando que vai me derrotar, pirralho?’

‘Sou humano, mais novo que você, mais baixo e mais fraco, não?’ Shaolin falou, posicionando-se. ‘Teoricamente... Eu não tenho chances de ganhar, certo?’

‘Exatamente.’ Kazuo falou, estreitando os olhos nele e posicionando-se.

O garoto soltou um suspiro, vendo o rapaz se posicionar de maneira errada novamente. Ergueu o corpo, saindo da posição para iniciar a luta. ‘Você tem que prestar mais atenção! Você viu tousan se posicionar umas duzentas vezes com a espada, por que não tenta… sei lá… imitá-lo?’ Falou em tom despretensioso, tentando fazer com que Kazuo não encarasse aquilo como uma provocação. Uma das coisas que facilmente constatou era que o rapaz era bem cabeça quente. Mais até que ele.

Kazuo observou o garoto e percebeu que ele tinha certa razão. ‘Tá querendo me ajudar, por quê? Está achando que desta forma eu vou pegar leve com você?’

‘Se você continuar segurando a espada desta maneira, vou conseguir arrancá-la da sua mão em menos tempo do que o seu ego iria aguentar.’ Shaolin falou, suspirando e voltando a se posicionar. ‘Se tousan posiciona-se sempre daquela forma antes de iniciar uma luta, deve ter um motivo, não?’

Shaolin sorriu de leve, percebendo que apesar de reclamar Kazuo voltou a se posicionar de maneira mais correta. Ele até que era esperto, só impulsivo demais. Esperava realmente que Kazuo elevasse sua técnica antes de voltar lá para onde ele queria, e se ele pudesse ajudar… não custava nada. No fundo, sempre quis ter um irmão mais novo. Não um marmanjão daquele tamanho metido e arrogante, mas como sempre… sua vida nunca seria normal como tanto almejava.

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Marie soltou um longo suspiro, observando os dois. O pirralho realmente não perdia aquela mania de ficar “ajudando” o adversário. Se continuasse assim, quanto tivesse que lutar para valer, acabaria levando uma coça.

Franziu a testa. Se o inimigo realmente estivesse afim de acabar com ele, com aquela atitude, só daria mais aberturas para perder. Ela tinha pensado que uma luta entre os dois faria Shaolin parar com aquela mania, mas estava enganada. Balançou a cabeça de leve, sentindo-se frustrada.

Kasumi olhou incomodada para a espada nas mãos de Shaolin. Desviou os olhos e soltou um suspiro que chamou a atenção de Marie.

'O que foi, Kasumi-chan?’

A menina se ajeitou, sentando melhor sobre as pernas. 'Não sei… Tenho a impressão que já vi Shaolin manuseando uma espada antes…’

‘Ele falou que não luta com armas nas aulas de Kung fu por que você não gosta de participar delas.’

Ela encolheu os ombros. ‘Eu não posso.’

Marie franziu a testa, olhando para Kasumi. ‘Como assim, não pode? Tomoyo-ba-san não deixa você lutar com espadas?’

Kasumi balançou a cabeça de leve, negando. ‘Eu apenas não posso, nee-san.’ Respondeu, virando-se para a amiga e a encarando.

Marie engoliu em seco, sentindo-se incomodada. Tinha alguma coisa em Kasumi que, às vezes, não combinava com ela. Ou melhor, não combinava com a pirralha gulosa a quem ela adorava. Não sabia exatamente o que era. Se era o olhar ou a maneira dela impor as coisas, mas chegava a sentir um calafrio percorrer-lhe a espinha.

Kasumi sorriu para ela, desanuviando o clima entre as duas. ‘Shaolin luta bem com espadas?’ Perguntou, de repente.

Marie piscou algumas vezes, observando o semblante suave de Kasumi. Balançou a cabeça de leve. ‘Ele luta bem de qualquer maneira. O problema é este coração mole dele.’ Ela falou contrariada.

Kasumi estreitou os olhos no menino e apertou o tecido da saia sobre os joelhos. ‘Isso não deveria ser um problema, não é? É bom hesitar quando se desfere um golpe em alguém. Mostra que tem compaixão. Que não é frio e indiferente à vida de quem está lutando contra ele.’

‘Eles estão apenas em um treinamento, Kasumi-chan. Não se preocupe tanto.’

Ela apertou mais forte a saia sobre os joelhos. ‘Prefiro vê-lo hesitar desta forma a vê-lo…’ Balançou a cabeça. ‘Estou falando besteiras. Acho que estou nervosa.’ Explicou, forçando um sorriso para Marie.

‘Está tudo bem, Kasumi-chan?’

‘Está sim, nee-san. Não se preocupe.’ Ela respondeu e virou-se para os dois rapazes. ‘Acho que eles vão começar.’

Marie ficou ainda um tempo, observando o perfil de Kasumi. Desviou os olhos para Shaolin e franziu a testa.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Shaolin arregalou os olhos de leve quando o rapaz avançou sobre ele sem aviso, tentando atacá-lo. Conseguiu se defender sem muitos problemas, e reparou que ele era tão forte quanto o pai. Rápido também. Muito rápido.

‘Nada mal, pirralho.’ Kazuo falou, e voltou a tentar golpeá-lo.

Levantou a espada para acertar Shaolin, que bloqueou o ataque, por cima. Depois tentou pela direita e, novamente, as espadas se chocaram. Sem dar tempo para o Shaolin respirar, começou o ataque pelo outro lado, fazendo o meio-irmão dar alguns passos para trás para se defender.

Kazuo sorriu de lado, para quem estava tentando dar uma aula de posicionamento e tal, o garoto poderia até estar se esquivando bem, mas estava longe também de contra-atacar.

Foi este pensamento passar pela cabeça dele e suas pernas foram atingidas por uma rasteira, fazendo-o cair sentado no chão. Trincou os dentes e rolou o corpo, saindo do alcance de Shaolin e levantando-se em seguida.

Shaolin deu alguns passos em direção a ele e se posicionou novamente. ‘Seu ataque é muito forte e rápido, mas você esquece de proteger outras partes do corpo. Se eu o atacasse com a espada, poderia fazer um corte nas suas pernas.’

‘Está querendo me ensinar, pirralho?’

Shaolin deu de ombros. ‘Estou só comentando.’

‘Você só se protege e recua.’

‘Para achar o melhor momento de atacar. Cada um luta de uma forma diferente. Precisa estar preparado para enfrentar todos os tipos de adversários… Se realmente quer...’ Ele encolheu os ombros de leve. ‘Voltar lá para aquele inferno.’

Kazuo franziu a testa. ‘Acha que você sobreviveria lá, pirralho?’

Shaolin negou com a cabeça. ‘Provavelmente, não.’

‘Ainda bem que sabe disso.’ Kazuo falou com sarcasmo.

Shaolin sorriu de lado. ‘Mas estou começando a achar que você também não sobreviveria por muito mais tempo…’

Kazuo se posicionou novamente, flexionou os joelhos e avançou sobre Shaolin que, novamente, tentou se defender dos ataques sequenciais da sua espada.

Shaolin teve que segurar com mais força a empunhadura da espada para que, com o impacto dos golpes, não acabasse soltando a arma das mãos.

Kazuo saltou por cima do irmão que levantou o rosto, só observando o que ele faria; pegou impulso no tronco de uma árvore próxima, indo na direção do garoto.

Shaolin foi pego de surpresa pela súbita mudança de percurso e teria sido atingido pela espada de Kazuo, caso não desviasse do ataque no último segundo. Chegou a levar uma mão no rosto achando que tinha sido atingido.

‘Vou mostrar como é que se luta por lá.’ Kazuo falou, sério.

‘Vamos ver.’ Shaolin rebateu e voltou a se posicionar.

‘Acha que só porque tem técnica e não sei mais o quê, conseguirá me vencer? Vou fazer você entender que a prática é que faz de você um vencedor.’

‘Isso… Funciona até você encontrar um adversário com tanta prática quanto você, mas com técnica.’

Kazuo sorriu de lado. ‘Mas nada, pirralho, substitui o instinto de sobrevivência.’

Voltaram a se golpear de forma rápida. Kazuo iniciava os ataques, que eram defendidos por Shaolin até o garoto achar uma brecha para golpeá-lo. Só que no processo, o garoto já tinha alguns arranhões no corpo e Kazuo também.

Shaolin podia ter até conseguido algumas vezes atingir Kazuo, mas não tinha a força do pai para efetivamente ferir o rapaz.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Marie estreitou os olhos nos dois. Pelo menos, agora, estavam lutando para valer. Trocavam algumas farpas durante o processo, mas Kazuo começava a se posicionar melhor com a espada e Shaolin saiu da defensiva.

Ou o garoto começava a usar magia, ou o negócio ficaria difícil para ele. Kazuo era muito mais forte fisicamente que Shaolin. Por mais técnica que ele tivesse, não conseguia acertar o rapaz de forma realmente eficaz.

“Oras… até que o Moleque não é de todo burro”, ela pensou sorrindo de lado. Era cabeça-dura, mas sabia quando poderia tirar proveito de alguma coisa.

Kazuo era forte e tinha de sobra a experiência que faltava a Shaolin. No Mundo das Trevas, ou você se adapta, ou morre. E Marie pôde perceber que esse instinto de sobrevivência era bastante desenvolvido no Moleque irritante, pela forma rápida como ele se acostumara ao estilo estilo de luta de Shaolin. Além disso, também estava aprendendo como manejar melhor a espada, inclusive com o próprio meio-irmão, observando e copiando.

A diferença entre eles logo passaria para um segundo plano, obrigando o Shaolin a usar magia ou Kazuo finalizaria a luta em poucos minutos.

Marie reparou que o primo havia duas vezes ameaçado pegar um talismã e viu a mandala piscar aos pés dele, mas tinha travado, olhando de esguelha para ela e Kasumi. Ou ele parava com aquela palhaçada ou levaria uma coça do meio-irmão.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Kazuo observou Shaolin erguendo o corpo, que já tinha um machucado maior no braço direito, assim como ele próprio tinha alguns machucados ardidos pelo corpo.

‘Você ia usar magia. Por que não o fez?’ Kazuo perguntou para o garoto. Será que o irmão continuaria a ser tão indiferente a ele daquela forma? Como se ele realmente não existisse! Será que o pirralho nunca conseguiria, pelo menos, admitir a existência dele?

‘Isso não interessa.’ Shaolin respondeu entre os dentes.

‘Se não usar… Não vai ter como continuar a lutar comigo, pirralho. Nossas forças estão em níveis bem diferentes.’ Faria Shaolin enxergá-lo nem que fosse para temê-lo.

Kazuo deu um longo suspiro e rodou a espada na mão. Segurou-a com as duas mãos e voltou a atacar o garoto, que novamente se defendeu.

As espadas se chocavam assim como tentavam se acertar com cotoveladas, chutes altos e rasteiras. O rapaz não podia negar que Shaolin era forte, mas em termos de força, ele não tinha como ter o mesmo nível de um demônio que lutava para sobreviver desde que podia se lembrar. Kazuo acabou acertando uma cotovelada no rosto do garoto que caiu no chão.

Shaolin saiu do alcance de Kazuo com um rolamento para evitar ser atingido por outro golpe. Levantou-se, passando a mão na boca para limpar o sangue que escorria do canto da boca. Trincou os dentes. Kazuo estava fazendo de tudo para forçá-lo a usar magia.

Kazuo olhou para o meio-irmão com o rosto sério. ‘Você continua hesitando demais.’ Falou com a voz brava. ‘No mundo das trevas, você sabe o que acontece quando se hesita desta forma?’ Perguntou e observou que o garoto tinha os olhos vidrados nele. ‘Você perde a sua cabeça e, logo depois… os que estão com você…’ Ele falou, apontando a espada em direção às garotas. ‘Perdem as cabeças também, entendeu?’ Reparou que os olhos verdes de Shaolin se arregalaram.

Shaolin levou uma mão ao lado da cabeça. Inferno! Por que raios ele tinha que falar justo daquilo? Desde que o irmão apareceu na vida dele, quase todas as noites, vinha tendo sempre aquele maldito pesadelo. Era sempre o mesmo pesadelo.

Começava com ele correndo por um deserto, num calor infernal, sob um céu em chamas. Estava, inicialmente, sozinho, mas então ouvia um grito sofrido da mãe que o fazia se virar para trás. Ela estava envolvida por sua aura multicolorida que, em segundos, tornava-se negra, como que engolida por uma energia nociva. Um pouco afastado estava o pai e, do outro lado, Kazuo; havia uma terceira pessoa de quem a mãe, literalmente, cortava a cabeça, fazendo-a rolar pela areia.

E, então, ele acordava. Algumas vezes, Sonho estava ao lado da sua cama, olhando diretamente para ele. Outras vezes, não. Mas era sempre o mesmo sonho. A cabeça rolando.

Shaolin deu dois passos para trás e balançou a cabeça de leve. Kazuo tinha razão. Levantou o rosto para o rapaz que o olhava, ainda, de forma dura.

‘Vou ter que forçar você a usar magia.’ Falou, concentrando a energia na mão esquerda. A mandala octogonal do baguá surgiu, púrpura, aos pés do rapaz enquanto ele franzia a testa, encarando o garoto.

‘Droga!’ O garoto soltou, entre os dentes, reparando que a presença de Kazuo aumentava de forma estúpida.

O irmão realmente não estava brincando. Olhou de esguelha novamente para Kasumi e detestou ser obrigado àquilo, mas não dava mais para ficar só na defensiva com a magia. Pegou um dos talismãs e o levou até seu rosto, a mesma mandala de Kazuo surgiu aos pés de Shaolin, em azul pálido.

‘Metal, Madeira, Água, Fogo, Terra... Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas... Eu vos invoco para meu auxílio.’ Raios mágicos vindo do céus, terra, das árvores, do sol e do lago próximo circularam o corpo do garoto como um redemoinho.

Kazuo sorriu de lado. Agora estava sentindo firmeza! Com um gesto, liberou a energia que havia acumulado na mão em direção ao garoto.

Shaolin jogou o talismã para o alto e encostou a espada nele. ‘Agora!’ Gritou, liberando a energia que se chocou com a de Kazuo fazendo os dois serem jogados para trás pela onda de choque que os atingiu.

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Marie levantou o escudo protegendo tanto ela quanto Kasumi, que olhava assustada para o que estava acontecendo. A ruiva estava em pé e tinha o rosto preocupado, agora. No final, os dois haviam puxado um ao outro a extremos.

Kazuo acabou aprendendo e usando mais técnica em vez de atacar de forma aleatória e forçou Shaolin a finalmente usar magia de forma combativa, principalmente, na frente de Kasumi.

Só que ela não imaginou que os dois usariam seus poderes de forma tão violenta um contra o outro. Talvez nem tivessem ideia do que tinham feito, até serem atingidos.

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Kazuo havia se chocado contra uma árvore, derrubando-a antes de atingir o chão, já Shaolin tinha cravado a espada no chão, evitando ser arremessado mais longe.

O garoto olhou para onde a prima estava com a amiga e franziu a testa, vendo que Marie teve que levantar o escudo para protegê-las. Merda! Eles poderiam ter machucado Kasumi se a prima não estivesse ao lado dela. Não deveria ter trazido a garota para assistir àquele treinamento. Passou a mão no rosto e sentiu que tinha um outro corte na maçã do rosto que sangrava e que antes não tinha percebido.

E se não desse tempo de Marie levantar o Escudo para protegê-las? Reparou parte do jardim destruido. Se atingissem Kasumi, que não tinha como se proteger? Ela se machucaria. Ele a machucaria! Desviou os olhos e encarou Kazuo que se levantava devagar, ainda atordoado. Estava com o rosto machucado, assim como ele, mas tinha um estúpido sorriso debochado nos lábios.

‘Sabia que você estava escondendo o jogo.’ O rapaz falou satisfeito, olhando o garoto.

‘Agora chega.’ Shaolin falou. ‘Não vale a pena. Não posso fazer isso.’

Kazuo estreitou os olhos no irmão, sentindo-se decepcionado. ‘Está desistindo, pirralho?’

Shaolin olhou novamente de esguelha para onde Kasumi estava e depois encarou Kazuo de forma acusadora. Ela não deveria estar ali! Ele nunca a teria convidado se o meio-irmão idiota não o tivesse instigado. Precisava tirá-la dali, levá-la para casa, mantê-la a salvo. ‘Sim! Eu desisto. Pronto...’ O garoto falou, abrindo os braços. ‘Você é o melhor. Satisfeito?’ Perguntou, transformando a espada em esfera. ‘Não era isso que queria provar? Conseguiu…’ Falou, afastando-se do irmão.

‘Hei, hei, hei!’ O rapaz o chamou, correndo em direção a ele e parando a sua frente. ‘Está fugindo como um covarde!’

‘Vai para o inferno!’ Shaolin falou, mal conseguindo se controlar. Sentia a raiva circulando seu corpo de forma rápida. Era melhor se afastar do irmão. ‘Quer dizer… Volta para lá!’ Consertou, tentando desviar do meio-irmão para ir embora, mas o rapaz segurou o braço dele, impedindo-o.

‘Você continua com medo de usar magia.’ Kazuo falou entre os dentes. O pirralho continuaria a ignorá-lo. ‘Até quando acha que vai conseguir fugir das coisas desta maneira? Você só sabe fugir e não encara os problemas de frente!’

Shaolin empurrou o rapaz. ‘O que você acha que sabe da minha vida? Você surgiu do nada e agora acha que sabe de tudo? Que agora é o filho mais velho, o irmão mais velho?!’ Gritou. ‘Eu entendi o que aconteceu, mas eu não aceito você, entendeu?’

Kazuo arregalou os olhos e depois riu. ‘E desde quando eu preciso da sua aceitação, pirralho?! Se estou aqui é por causa daquela ruiva lá. Não foi por vontade minha.’

‘E por que não volta? Teve que se enfiar lá em casa e agora se acha parte da família, é? Você não faz parte da minha família!’

‘Eu não tenho família e nunca quis ter, também!’ Kazuo gritou de volta. ‘É uma fraqueza e não serve para nada, mas você é estúpido demais para entender isso. Até quando acha que vai poder simplesmente se trancar no seu quarto e ficar de cara feia esperando que os outros resolvam seus problemas?’

Shaolin riu de forma debochada. ‘Ah, sim! De onde você veio, quando alguém olha para você com a cara feia, simplesmente se corta a cabeça dele, não é?’

‘Exatamente!’ Ele respondeu. ‘E, se eu pudesse, cortaria a sua cabeça, pirralho. Você é mimado demais. Isso que dá não ter levado umas porradas quando merecia. Ficam só no blá-blá-blá com você e olha só o que deu? Você é mole demais, tem pena demais e se preocupa com os outros demais!’

‘Sabe de uma coisa?’ Shaolin falou, cerrando os punhos. ‘Tenta cortar a minha cabeça para você ver o que vai acontecer com a sua.’

Kazuo abriu um sorriso de lado. ‘Olha! Está me ameaçando?’

Shaolin deu um passo a frente, encarando-o. ‘Estou lhe alertando.’

Kazuo encarou-o de volta. ‘Eu vou adorar ver você tentar cortar a minha cabeça e vou adorar ver a sua rolando.’

‘Eu também.’ Shaolin rebateu.

Kazuo cravou a espada que ainda tinha nas mãos no chão e pegou o garoto pelo colarinho, levantando-o.

Shaolin segurou os pulsos do rapaz, tomou um impulso e chutou forte o peito de Kazuo que acabou o soltando. Pousou no chão e já ficou na posição para voltar a lutar contra o meio-irmão.

‘Agora é no mano a mano, pirralho.’ Falou, abrindo um sorriso debochado. ‘Aí não tem perigo de machucar os outros, não é? Quero ver até quando você vai continuar pensando assim.’

‘Cala a boca!’ O garoto gritou. ‘A culpa foi sua! Eu deveria protegê-la, não a colocar em perigo!’

Kazuo arregalou os olhos. ‘Do que você está falando?!’

‘Você não tem ideia do que é perder alguém com quem se importa!’ Shaolin respondeu, mal conseguindo controlar a fúria agora.

Os dois voltaram a se atacar com chutes e socos.

Kazuo podia até ser mais forte, mas Shaolin era menor e se esquivava mais rápido, além de ter muito mais técnica. Acabou conseguindo imobilizar o rapaz, mas não teve força suficiente para manter. Embora, por incrível que pareça, teve a impressão de que realmente quebrou o braço do irmão. Ele não se importou. Ergueu uma sobrancelha, observando Kazuo mexer o braço machucado, fazer uma cara mais feia ainda e voltar a dar alguns passos na direção dele, pronto para voltar a lutar.

‘Você é bom… mas é humano.’ Kazuo falou. ‘E ainda é um pirralho.’

‘E você é um demônio maluco que resolveu aparecer e se fingir de humano.’ Shaolin falou entre os dentes.

‘Fingir de humano? Por que eu faria isso?’ Perguntou, segurando o punho de Shaolin que tentou golpeá-lo, girou o corpo e depois o soltou, arremessando o irmão que caiu no chão rolando por alguns metros.

Shaolin levantou-se, em seguida, e correu na direção dele. ‘Para entrar na minha família e bagunçar a minha vida.’ Tentou golpeá-lo, mas Kazuo se esquivou e tentou contra-atacar.

Shaolin se abaixou, prendeu as pernas do rapaz com uma tesoura e, usando o corpo, conseguiu fazê-lo ir ao chão. Levantou-se e tentou acertar uma cotovelada em Kazuo que segurou seu braço impedindo o golpe. Encararam-se com os rostos a centímetros um do outro.

‘Você é que entrou na minha vida! Você sempre teve tudo e não tem ideia do que é ter que lutar para sobreviver.’ Kazuo disse entre os dentes, empurrando o garoto.

Shaolin girou o corpo e tentou acertar o rapaz novamente, aproveitando que ele ainda estava no chão, mas Kazuo rolou, evitando o golpe e fazendo Shaolin acertar o solo.

Kazuo levantou o corpo e encarou o garoto. ‘Tem que levar uns tapas na cara para aprender a respeitar os mais fortes, pirralho.’

‘Tenta.’ Shaolin desafiou, partindo para cima do meio-irmão novamente. Estava bem dolorido e machucado, mas sentia o sangue correr rápido por suas veias, explodindo de raiva.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

‘Eles vão se matar.’ Kasumi falou, olhando para os dois que brigavam e se xingavam ao mesmo tempo. Olhou para Marie. ‘Nee-san, levanta aquela coisa transparente, aquele... aquele campo de força que você usou na gente entre eles!’

Marie desviou os olhos dos dois e olhou para a menina. ‘Eles precisam lavar a roupa suja de uma vez para poderem se entender.’ Falou, encolhendo os ombros.

‘Você está maluca?!’ Kasumi falou. ‘Kazuo-kun é mais forte fisicamente! Shaolin está todo machucado. Os dois estão machucados!’

‘Shaolin-kun vai saber se virar. Não precisa ficar tão preocupada.’

‘Sa-saber se virar?! Ele está todo machucado!’ Repetiu. Franziu a testa e a encarou séria. ‘Nee-san! Ou você faz alguma coisa ou eu me meto entre os dois!’

Marie ergueu uma sobrancelha. ‘E você tem coragem para isso? Vai acabar sobrando para você.’

‘Você quer apostar?!’ Kasumi falou, estreitando os olhos em Marie.

‘Tá aí! Eu adoraria ver se você teria mesmo coragem de se meter para tentar parar os dois.’

Kasumi franziu a testa e olhou para Marie daquela maneira que a fazia engolir em seco. Marie detestava receber aquele olhar.

Kasumi desviou o olhar da ruiva e começou a caminhar em direção a eles. Marie balançou a cabeça forte, tentando se refazer daquela sensação e arregalou os olhos, observando-a caminhar decidida em direção aos dois.

‘Kasumi-chan! Espera!’ Marie falou e correu até ela. ‘Está bem!’ Gritou e, com um gesto, fez com que o escudo se formasse entre Kazuo e Shaolin que bateram com força na barreira mágica. ‘Pronto! Só não chegue perto dos dois. Ainda estão muito agitados.’ Estava para segurar o braço dela, mas se reteve.

Não era exatamente medo que sentia da menina, mas, quando Kasumi a olhava daquela forma, de alguma maneira louca, lembrava-lhe demais a forma como Syaoran-ji-san olhava para seus oponentes antes de matá-los, principalmente quando estavam no mundo das trevas. Aquilo não combinava com Kasumi.

‘Espere eles se acalmarem…’ Pediu, fazendo a menina parar de caminhar, observando os dois.

Kazuo e Shaolin estavam com tanta raiva um do outro que continuaram a se xingar enquanto golpeavam o escudo de Marie.

Ainda se xingaram por alguns minutos antes que se dessem conta da barreira mágica entre eles e se deixassem cair sentados no gramado e se encarando através do escudo.

Marie estava com os braços cruzados, encarando os dois enquanto Kasumi olhava de um para o outro.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Kazuo balançou a cabeça de leve, o braço que o pirralho tinha quebrado ainda estava ardendo enquanto o osso não calcificava por completo. Doía bastante. Tinha vários ferimentos pelo corpo que estavam ardendo pra caramba por causa das duas lutas.

Levantou o rosto, observando o garoto do outro lado da barreira mágica. Estava num estado tão ruim quanto o seu. E não tinha poder algum para cicatrizar aquele monte de machucados, levaria um tempão para ficar bom. Coçou a cabeça de leve. O meio-irmão era tão persistente e teimoso quanto ele.

Talvez, se tivessem se conhecido de outra forma, poderiam se dar melhor. Não gostaria de tê-lo como inimigo se o encontrasse no mundo das trevas. Seria um adversário bem complicado de enfrentar dali alguns anos, quando estivesse mais forte. Provavelmente, Midoriko gostaria de tê-lo como aliado ou seguidor, ou sei lá o quê, para ajudá-la a se tornar a rainha toda poderosa daquele lugar de merda.

Também tinha que concordar com ele e com o pai, se ele, como demônio e teoricamente mais forte, não foi capaz de vencê-los, era apenas uma questão de tempo até encontrar um adversário que realmente fosse capaz de derrotá-lo. E aí? De que adiantava sua existência? Midoriko, com certeza, logo arranjaria outro demônio para continuar com sua ambição.

Além disso, não podia negar que o garoto tinha certa razão em estar bravo. Estava realmente invadindo o território dele e, se acontecesse o contrário, ele tomaria a mesma atitude. Era assim que se resolviam as coisas no mundo das trevas, também, então aquele universo não era tão diferente assim de onde ele tinha vindo. Algumas coisas tinham que ser resolvidas mesmo no braço, ou pelas espadas, ou enfim, com uma luta.

‘Você tem razão.’ Kazuo falou, chamando a atenção do garoto que o encarou com a respiração ainda acelerada. ‘Vou cair fora da sua casa.’

Shaolin franziu a testa e desviou os olhos dele. ‘A casa não é minha, é dos meus pais.’ Respondeu. ‘Se você é filho de tousan, então… a casa também é sua. E se a kaasan não liga.’ Ele deu de ombros. ‘Sou voto vencido lá. Kero-chan não conta.’

‘Acho que não. Aquela bola de pelo não faz muita coisa a não ser comer.’

‘Exatamente.’ Shaolin falou. ‘Mesmo que eu e ele votássemos para você cair fora, quem ainda mandam lá são kaasan e tousan.’

‘Então o território é deles.’ Kazuo concluiu.

‘É… Acho que sim… Deve ser assim que você encara as coisas.’ Shaolin falou, passando a mão no rosto e limpando o sangue que escorria no canto da boca e na bochecha. ‘Merda... Kaasan vai encher o meu saco quando nós chegarmos assim em casa.’

‘Ela vai encher o meu.’ Kazuo retrucou.

‘Não. Ela vai encher o meu, porque ela me manda ficar longe de briga. Ela não é tonta… Apesar de parecer, às vezes. Ela vai saber que quem provocou fui eu.’ Passou a mão nos cabelos. ‘Vou ouvir um sermão a noite inteira.’

‘Melhor você falar com ela, então, e a gente divide a culpa.’

Shaolin balançou a cabeça de leve e sorriu. ‘Você não entende.’

‘É melhor do que apanhar o tempo todo.’ Kazuo falou, franzindo a testa de leve. ‘Ouvir sermão dela não deve ser tão ruim.’

Shaolin ergueu uma sobrancelha e encarou o rapaz. Marie tinha lhe falado sobre o mundo das trevas e, apesar de tentar ignorar a informação, não dava para se enganar pensando que o meio-irmão tivesse sido feliz lá e que estava ali apenas para atrapalhar sua vida. Não era tão egocêntrico daquela maneira. Sabia que, para ele ser tão forte daquela forma sem nenhum treinamento, era porque realmente tivera que lutar para sobreviver.

Deu um longo suspiro e se sentiu pior. Tinha brigado com o pai, com a mãe, com Marie, com todo mundo por causa de Kazuo. Tinha perdido o controle e colocado Kasumi em perigo porque não aguentou a provocação dele. Inclusive estava todo dolorido daquela forma porque tinha brigado com o meio-irmão, de fato.

E, no final, não mudava nada. Kazuo continuaria ali e ainda seria seu meio-irmão. E, se fosse honesto consigo mesmo, se estivesse no lugar dele, também gostaria de escapar daquele lugar. Além disso, Marie tinha comentado sobre a mãe dele, também.

Desviou os olhos, fitando a grama ao seu lado. Sakura era uma mãe maravilhosa. Era, muitas vezes, chata, como todas as mães, mas ele sabia que sempre poderia contar com ela, que ela sempre lhe daria apoio e suporte para tudo e, principalmente, nunca o colocaria em perigo.

Kazuo não conviveu com o pai. Syaoran era bastante exigente, mas também sabia ser amigo quando precisava. Também sempre o apoiara em tudo e, apesar de o criticar, respeitava-o bastante. Seria realmente injusto da parte dele querer, de alguma forma, impedir a convivência do meio-irmão com o pai deles.

‘Eu lhe devo desculpas.’ Falou por fim para Kazuo sem encará-lo. ‘Você tem o mesmo direito que eu. Temos o mesmo pai. Na verdade, pensando friamente, eu sempre o tive ao meu lado e você, não. Então... Acho que você tem até mais direito de conviver com ele do que eu, agora. Para tentar compensar o tempo perdido, sabe? Ele é duro e tal, mas é o melhor pai que você poderia pedir. Eu posso garantir isso.’

Kazuo observou Shaolin e sorriu de leve. ‘Acho que dá para dividir a bronca da sua mãe e a atenção dele sem problema, não é?’

O garoto virou-se para ele e sorriu. ‘Acho que você deveria realmente pensar melhor sobre dividir a bronca de kaasan. Ela parece doce daquela forma, mas você ainda não a viu brava.’

‘Não dá para imaginá-la brava.’

‘Ah! Mas logo você vai ver. E, se realmente pretende ficar, vai ter que se acostumar. É ela quem manda lá em casa, afinal.’

‘Oyaji já falou isso.’

‘Então…’ O garoto deu um longo suspiro. ‘Você só tem alguns segundos para reconsiderar sua oferta.’ Falou, sorrindo para ele e depois olhando para a casa da prima, sentindo que a presença da mãe se aproximava.

E ela estava uma fera!

Continua.

Notas finais
AVISO: Está acontecendo o terceiro desafio valendo prêmio no grupo do Facebook de FEITICEIROS! (www.facebook.com/groups/1916900561872975). Participe e Boa Sorte !!!!