.

FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques

Capítulo 55

A Abertura do Portal

Sakura caminhava pisando duro em direção a Shaolin e Kazuo. Os dois estavam sentados, ou melhor, largados no gramado olhando para ela. Trincou os dentes, vendo o filho todo machucado.

Droga! Tinha visto tantas e tantas vezes o marido daquela maneira que agora lhe dava raiva ver o próprio filho assim, também. Desviou os olhos para Kazuo, que também estava todo sujo de terra e sangue, mas começava a se recuperar devido à capacidade de cicatrização.

Ela simplesmente não tinha acreditado quando sentiu a energia, tanto de Kazuo quanto de Shaolin, explodindo de forma violenta. Inicialmente estavam agitadas apenas, depois ficaram agressivas.

Passou por Marie que tentou falar alguma coisa, mas só levantou a mão pedindo para nem pensar em lhe dar uma desculpa esfarrapada em defesa do primo. Passou por Kasumi e franziu mais a testa. A garota estava com o rosto sério, devia ter sido difícil para ela assistir Shaolin agir daquela forma.

Parou entre os dois garotos com as mãos na cintura e o rosto sério. Shaolin engoliu em seco e nem tentou se levantar. Kazuo deu um longo suspiro. O irmão realmente tinha razão, ela estava bem brava, diferente do que sempre viu no rosto bonito da esposa do pai.

‘Os dois…’ Ela começou a falar, olhando de um para o outro. ‘Expliquem-se.’

Kazuo olhou para Shaolin e depois fitou a esposa do pai. ‘A gente estava treinando.’ Falou, encolhendo os ombros. Desviou os olhos dela quando a viu estreitar os olhos nele.

Shaolin pigarreou e ergueu o rosto, encarando a mãe. ‘Exatamente isso! Tentamos inovar um pouco, sabe?’ Ele desviou os olhos dela, sabendo que ela não tinha engolido a desculpa. ‘Experimentando uns golpes novos… estas coisas.’

‘Está ficando mentiroso agora, Shaolin?’ Ela indagou com a voz baixa.

O garoto soltou um suspiro e se levantou. ‘A gente brigou. Pronto! Coisa de irmãos.’

Sakura sorriu de forma irônica para o filho. ‘Coisa de irmãos? Para tentar me tapear, agora, vocês dois…’ Ela falou, olhando do filho para Kazuo e depois voltando a fitar o filho. ‘Viraram irmãos?!’

Shaolin levantou as mãos ao lado do corpo, encolhendo os ombros. ‘Não era isso que você e tousan queriam?’

Sakura olhou para o filho séria, soltou um longo suspiro, sentindo vontade de colocá-lo de castigo por um ano por ter se machucado daquela forma. ‘Conversaremos melhor sobre isso em casa. Agora… você tem que ir para o hospital.’

‘Não é para tanto.’ Ele falou, tentando minimizar a situação.

‘Você tem um corte no braço.’ Ela falou. ‘Kazuo-san, eu sei que cicatriza por conta própria. Você, não.’

‘Ele pode estar precisando de um analgésico.’ Shaolin comentou, coçando a bochecha sem graça.

‘Para quê ele tomaria um analgésico se foi apenas uma briga entre irmãos?’ Sakura rebateu, aproximando-se do filho e pegando-o pelo outro braço.

‘Ah, sei lá… tousan conseguia ficar bom de todos os ferimentos antes?’

‘Eu estou de boa!’ Kazuo falou mais alto, aproximando-se. ‘Daqui a pouco o braço fica bom. Já quebrei ele antes.’

Sakura arregalou os olhos, encarando o filho. ‘Você teve coragem de quebrar o braço do seu irmão?! Ficou maluco, Shaolin?!’ Ela ralhou com ele, arrastando-o em direção à casa. Olhou por cima do ombro direito. ‘Kazuo-san, você vem junto!’

‘Não foi nada. Daqui a pouco fico novo em folha.’

‘Agora.’ Ela falou entre os dentes, franzindo a testa e fazendo o rapaz colocar-se em movimento, seguindo-a.

Kazuo sorriu de leve, vendo Sakura, literalmente, arrastar o irmão que ainda tentava convencê-la de que estava tudo bem e que ela estava exagerando. Ela estava bem brava, dava para perceber pela agitação da aura dela, mas ao mesmo tempo conseguia perceber a preocupação. A aura dela envolvia a do irmão como se, de alguma forma, tentasse protegê-lo.

Sakura voltou-se para trás. ‘Anda, Kazuo-san!’ Ralhou com ele, percebendo que se mantinha ainda distante.

Kazuo ajeitou o corpo e apressou o passo. Ficou na dúvida se realmente deveria se aproximar ou não, invadindo o campo de atuação da aura dela. Isso não seria certo, não é?

Levado pela curiosidade, acabou parando ao lado de Sakura quando alcançaram o carro e Kazuo se sentiu envolvido pela aura dela também. Era uma sensação calorosa, diferente de qualquer coisa que ele estava acostumado a sentir.

Sakura pegou um lenço e amarrou no corte do braço do filho. Estava realmente tentada a chamar Alada e ir voando para o hospital, mas não daria para levar os dois. Abriu a porta do carro e, com um gesto, mandou o filho entrar, virou-se para Kazuo que estava perto dela. ‘Entra no carro você também. Vou levar os dois para o hospital.’ Ela ordenou sem perceber que o rapaz desviou os olhos dela com o rosto corado.

Sakura olhou por cima do ombro do rapaz e gritou por Kasumi. Tinha que levar a menina para casa também e precisava conversar com ela. Observou-a caminhando em direção a eles e estranhou vê-la com o semblante preocupado, mas não assustado. Às vezes, achava que Kasumi era parecida demais com Tomoyo. Parecia nunca perder a calma, na verdade, parecia conseguir superar a amiga com relação a isso.

‘Marie-chan!’ Sakura gritou, fazendo a jovem que acompanhava a menina fitá-la. ‘Converso com a senhorita depois.’

Ela daria um sermão daqueles em cada um dos adolescentes rebeldes que a cercavam, mas tinha uma lista de prioridades. E agora, no topo da lista, estava ir para o hospital. Olhou para Kazuo que ainda não havia entrado no carro.

‘Anda, Kazuo-san!’ Falou, tocando o ombro dele e sentiu que o rapaz estremeceu. Talvez estivesse mais machucado do que aparentava. Franziu a testa, pegando-o pelo queixo, para que o rapaz a olhasse nos olhos. ‘Hei, você tem o mesmo poder de cicatrização que Syaoran possuía, não é? Está tudo bem mesmo?’

Kazuo concordou com a cabeça. ‘Eu vou ficar.’ Respondeu antes de entrar no carro, sentando-se ao lado de Shaolin.

‘Eu não disse?’ Ouviu ainda o irmão murmurar para ele.

Kasumi sentou na frente e Sakura contornou o carro. Antes de entrar, levantou o rosto e viu Eriol e Kaho na porta da mansão. Eles estavam apreensivos, assim como ela, mas nem para verificar o que acontecia no próprio quintal. Suspirou. Teria uma conversa com os dois, também. Trocou um rápido cumprimento com Hiiraguizawa antes de entrar no carro e partir.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Kasumi estava sentada no banco do hospital ao lado de Kazuo que observava o lugar com curiosidade. Shaolin estava na emergência e Sakura estava falando no celular com o marido enquanto o enfermeiro dava os pontos no braço do garoto.

‘Então é assim que os humanos se tratam? Em lugares como este…’ O rapaz falou.

Kasumi olhou para ele e soltou um suspiro. ‘É, sim… Eu não gosto muito deste lugar, mas… Acho que deve ser interessante para você. Diferente.’

‘Kasumi, de onde eu vim, isso aqui seria considerado o paraíso só por causa da baixa temperatura.’ Ele retrucou.

‘Espera então chegar o inverno quando cai neve. Acho que você irá gostar bastante.’

‘Neve?’

‘Isso… é muito bonito.’ Ela falou e tirou o saquinho de biscoitos da pasta. Olhou para o rapaz e estendeu para ele. ‘Pode pegar um pouco, você deve estar com fome. Eu estou.’

‘Vai dividir comigo?’ Ele perguntou, incrédulo.

‘Claro que sim. Como é que eu vou comer sozinha, sabendo que você está com fome?’

O rapaz pegou um biscoito e levou à boca. Virou-se, observando a menina que comia o seu em silêncio.

‘Você gosta muito dele, não é?’ Perguntou, reparando que ela olhava fixamente para a porta por onde o irmão tinha desaparecido.

Ela soltou um suspiro. ‘Você e Shaolin são dois malucos por terem lutado daquela forma.’ Kasumi falou contrariada, não respondendo a pergunta do rapaz. ‘Eu nunca o vi lutando assim. Nem comigo.’ Falou antes de colocar mais um biscoito na boca.

Kazuo a observou com a testa franzida. ‘Ele luta com você?’

‘Depois do que eu vi hoje, ficou óbvio que não. Acho que ele sempre me deixou vencer.’

‘Ah! Mas isso porque você é a fêmea dele. Ele não quer ter problemas com você depois. É o mais sensato.’ Ele comentou, como se fosse óbvio.

Kasumi sentiu o queixo cair no chão e o rosto esquentar. ‘Fêmea? Como assim?’

‘Fêmea e macho.’ Ele falou, olhando para ela. Arregalou os olhos de leve, lembrando-se que o pai já havia lhe explicado que não era assim que se falava. ‘Hum… Da onde eu venho é assim que a gente chama, mas aqui é diferente, né? A “fêmea” do oyaji é a Sakura.’

‘A Sakura-ba-san é esposa do Syaoran-ji-san.’ Kasumi esclareceu, olhando para o rapaz. ‘Ah! Sim… Você é considerado um demônio macho. É isso, não?’

‘Isso aí.’ Ele falou, sentindo-se satisfeito por alguém o entender.

‘Mas aqui você não é um demônio macho, você é um garoto. Entendeu?’

‘Não gosto que me chamem de “garoto”.’ Ele resmungou.

‘Hum… Certo… Bem, você é um rapaz. Ficou melhor?’

‘Rapaz?’

‘Isso!’

‘E você é o que então?’

‘Sou uma garota.’ Kasumi respondeu antes de colocar outro biscoito na boca.

Kazuo franziu a testa, pensativo e pegou outro também, aproveitando que Kasumi realmente parecia não se importar. Eles eram bons realmente. Com fome, ficavam ainda melhores.

‘Ah!’ Ele exclamou de repente. 'Então, “Namoradinha” é como esposa só que pequena, não é? Você é como a esposa do Shaolin?’

Kasumi engasgou e tossiu, o rapaz levantou o braço e bateu de leve nas costas da menina, ajudando-a a melhorar. Tinha visto a esposa do pai fazer isso quando o mesmo tinha se engasgado.

‘Não! Hã…’ Ela se ajeitou na cadeira com o rosto tão vermelho quanto um tomate maduro. ‘Sou amiga do Shaolin. Somos como irmãos.’ Esclareceu, desviando os olhos dele. Estendeu o pacote para ele. ‘Toma! Come mais um.’ Quem sabe, com a boca cheia, ele pararia de fazer comentários constrangedores.

Kazuo não se fez de rogado, pegando mais um doce e jogando-o na boca de forma divertida. ‘Shaolin tem sorte. Você é bem legal. Seja como irmã ou namoradinha.’

‘Você também é legal.’ Ela comentou, voltando a fitar a porta da Emergência.

Kazuo virou-se para ela, observando-a curiosamente. Era a primeira vez que ficavam realmente sozinhos. Normalmente Shaolin ficava cercando a menina. ‘Não tem medo de mim, mesmo? Você sabe que eu sou um demônio, não sabe? Existem uns muito maus.’

Kasumi olhou de soslaio para o rapaz ao seu lado. ‘Demônios maus existem, sei exatamente do que está falando… Mas não é o seu caso. Existem seres humanos piores que demônios. Acredite em mim.’

Kazuo franziu a testa. ‘Oyaji já me falou sobre isso.’

Ela assentiu, pegando mais um biscoito. ‘Deveria ouvi-lo, então…’

Kazuo fitou o chão do hospital e soltou um suspiro, chamando a atenção da menina.

‘Ele me contou coisas bem estranhas. Sobre como este universo é. O pessoal gosta muito de um negócio chamado… Hum… como é o nome mesmo?’

Ela soltou um suspiro cansada. ‘Dinheiro? Poder?’

‘Isso! Dinheiro! Aquela coisa que se troca para pegar o que se quer, não?’

Ela olhou para ele com carinho. ‘Exatamente.’ Realmente, como Shaolin e Marie haviam comentado, aquele rapaz ao seu lado ainda estava aprendendo sobre o mundo. Voltou a ficar séria e sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. ‘Também existem seres humanos sádicos que se divertem ou tem prazer em ver ou fazer outros sofrerem. Acredite em mim, há seres humanos capazes de atrocidades que para você que é um demônio, seriam repugnantes. Tenho certeza disso.’

Agora foi ele quem endireitou-se na cadeira e sentiu o rosto esquentar. ‘Eu machuquei muito o Shaolin. E ele é menor que eu… Foi covardia.’

‘Vocês realmente exageraram… Mas foi uma briga entre irmãos. Eu já saí no tapa com ele algumas vezes.’ Ela falou e ficou alguns segundos em silêncio pensativa. Depois abriu um sorrisinho maroto. ‘Acho que ele, naquelas vezes, não deve ter me deixado ganhar…’ Falou, lembrando-se do rosto do garoto irado quando eles brigavam por brinquedos ou doces. Era briga para valer e, na maioria das vezes, quem levava o objeto de disputa era ela.

‘Se eu fosse seu irmão, não brigaria com você.’

‘Pode apostar que brigaria.’ Falou de forma faceira. ‘Todos os irmãos brigam… Faz parte do contrato fraternal.’

Ele balançou a cabeça de leve. ‘Realmente… é muito estranho…’

Kasumi fitou-o. ‘Independente de você ser de qualquer natureza, você é legal.’ Sentenciou sorrindo. ‘Por isso deixo você comer alguns biscoitos. Mas só alguns.’

Ele sorriu para ela, satisfeito em ouvir aquilo. Ficaram em silêncio, comendo os biscoitos um do lado do outro, olhando as pessoas passando de forma apressada pelo corredor.

‘Sabe… Eu não estou entendendo uma coisa.’ Kazuo falou de repente. ‘Estas relações familiares estão muito confusas.’

Kasumi franziu a testa e o encarou inclinando a cabeça. ‘Como assim?’

‘Você falou que era irmã do Shaolin.’ Voltou ao ponto inicial da conversa. ‘Mas a Marie fala que você é namoradinha dele o que, pelo que eu entendi, é como se fosse a fêmea dele.’

Kasumi arregalou os olhos de leve e sentiu o rosto esquentar novamente. Como explicar para o rapaz aquilo que nem ela entendia direito.

‘Às vezes… Sentimentos são complicados.’ Ela virou-se para ele e sorriu de leve. ‘Melhor não entender… Apenas sentir.’ Desviou os olhos. ‘Achar explicações ou rotulá-los só vai fazer você ficar mais confuso.’

Kazuo franziu a testa de leve, observando a menina. Estendeu a mão para pegar um punhado dos biscoitos e a sentiu batendo na mão dele.

‘Um de cada vez.’ Ela ralhou, fazendo-o soltá-los. ‘Há coisas que são melhores quando apreciadas devagar… Não seja apressado para entender tudo…’ Ela estreitou os olhos nele, fazendo-o suar. 'E nem para comer tudo…’ Ela desviou o olhar, mas o rapaz ainda a fitava apreensivo. ‘Principalmente os meus biscoitos especiais de família. Entendeu, Nii-san?’ Concluiu, sorrindo de leve para ele antes de colocar um biscoito na boca.

Kazuo arregalou os olhos de leve, observando a menina a sua frente. Endireitou o corpo, sentindo-se satisfeito por ouvi-la chamando-o daquela forma. Sorriu de forma aberta para ela e estendeu a mão pegando apenas um e como ela sugeriu, comeu devagar.

Um senhor parou em frente aos dois. Kasumi levantou o rosto e sorriu de leve, reconhecendo o enfermeiro que a atendeu quando passou mal na semana anterior. ‘Boa noite, Taniguchi-san.’

‘Boa noite, Kurogane-chan… Sente-se melhor?’ Perguntou de forma suave.

‘Sim… sim…’ A menina respondeu corada. ‘Desculpe-me pela confusão que kaasan e tousan fizeram... Eles estavam muito preocupados.’ Ela falou sem jeito, ao se lembrar dos pais quase enlouquecendo o médico e o enfermeiro, solicitando exames e mais exames na menina.

O enfermeiro sorriu de forma suave. ‘Não se preocupe. Seus pais são muito atenciosos e só estavam preocupados com uma filha tão bonita.’ Ele virou-se para o lado e franziu a testa, observando Kazuo ao lado da menina. O rapaz encarou o senhor desconfiado.

‘Eu não conheço você de algum lugar, garoto?’ Perguntou com o rosto sério.

Kazuo negou. ‘Impossível.’

O enfermeiro olhou para Kasumi, que comprimiu os lábios, e depois voltou a olhar para o rapaz. ‘E o que estão fazendo aqui?’ Ele perguntou, olhando para os dois, embora nitidamente intrigado com o rapaz. ‘Está com a roupa suja de sangue, já se tratou na emergência?’

Os dois se entreolharam sem saber bem o que responder.

‘Ele só deu mal jeito no braço, mas já tomou um analgésico.’ Kasumi falou por fim.

‘Caramba! Aquele negócio é bom mesmo! Tomei e a dor parou quase na hora!’ Kazuo falou, lembrando-se do remédio que Sakura o obrigou a engolir assim que chegou ao hospital.

O senhor ainda olhava desconfiado para eles. ‘Então, por que ainda estão aqui?’

‘Estamos esperando o namoradinho dela, que é meu irmão. Ele entrou por aquela porta ali e não saiu ainda.’ O rapaz respondeu, apontando para a porta da emergência.

Foi o rapaz terminar de falar que a porta se abriu e Shaolin passou por ela. Sakura estava logo atrás dele com o rosto ainda duro. O garoto estava com curativos no rosto e no braço.

Kasumi se levantou, parando em frente a Shaolin e olhando para o garoto. ‘Você está bem?’

‘Estou.’ O garoto respondeu, desviando os olhos dela. Sabia que precisaria explicar melhor o que aconteceu.

‘Ah, boa noite, Taniguchi-san.’ Sakura cumprimentou o senhor que se virou para ela.

‘Boa noite, Li-san.’ Ele falou, sorrindo para ela. Desviou os olhos para Shaolin e franziu a testa. ‘Andaram brigando, é?’ Perguntou agora com um sorriso irônico. ‘Estes jovens andam bem revoltados.’ Comentou, olhando de Shaolin para Kasumi.

Kazuo observava os dois e franziu a testa. Sentiu quando o senhor tocou no seu ombro para chamar sua atenção.

‘Fica de olho nestes dois.’ Comentou em tom alto o suficiente para que o casalzinho ouvisse. ‘Eles são muito jovens para ficarem de agarramento.’ Disse ainda, antes de se afastar. ‘Se ela aparecer com um bebê, o pai dela mata o seu irmão, hein?’

‘Agarramento? Bebê?’ Kazuo repetiu sem entender, olhando depois para o irmão e vendo-o encolher os ombros enquanto a garota olhava para o chão com o rosto vermelho. ‘O que ele quis dizer com isso?’

‘Esquece, Kazuo. Esquece.’ Shaolin respondeu, cobrindo o rosto com a mão, sem encarar nem o irmão e muito menos a amiga.

Sakura pigarreou, chamando a atenção do enfermeiro. ‘Sua imaginação sempre foi perigosa, Taniguchi-san.’ Comentou, afastando-se do senhor com um sorriso. Foi acertar as contas antes de saírem do hospital.

‘Isso é o tal do contato especial para reprodução?’ Kazuo perguntou, fazendo o irmão não saber onde enfiava a cara.

‘Eu não falei para você esquecer isso?’ Perguntou, irritado.

‘Eu só estou perguntando. Se ela é a sua namorada, então você deve saber.’ Falou, apontando para Kasumi que parecia querer se esconder.

A menina soltou um suspiro e, apesar do rosto vermelho de vergonha, levantou-o encarando o rapaz. ‘Nii-san! O que eu falei ainda há pouco? Uma coisa de cada vez, lembra?’

Kazuo olhou contrariado, mas ela tinha razão, tinha que ter mais calma para tentar entender aquele universo. Ele apenas assentiu com a cabeça, informando que tinha entendido.

Shaolin franziu a testa ao reparar em como Kasumi chamou Kazuo. Olhou para o irmão e depois para a menina novamente. ‘Humph.’ Murmurou, chamando a atenção da amiga que o encarou de forma interrogativa. ‘Nii-san?’

Ela alargou o sorriso. ‘Oras… exatamente. Marie-nee-san e Kazuo-nii-san! Eles combinam tanto! Não formam um lindo casal?’

Agora foi a vez de Kazuo se engasgar e começar a tossir, ficando vermelho como um pimentão, pensando que os dois eram um casal de pirralhos doidos. Imagina se ele ia ter alguma coisa com aquela ruiva metida!

Shaolin não resistiu em rir de forma irônica, vendo o irmão explodir de constrangimento.

Kasumi levantou o braço e bateu nas costas dele assim como ele tinha feito pouco tempo atrás. ‘Respira fundo, nii-san... Respira fundo.’ Recomendou, dando uma risadinha.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Syaoran entrou no quarto e encontrou a esposa sentada na cama. ‘Acabei de conversar com os dois.’ Falou e soltou um suspiro. ‘Acho que finalmente acertaram as diferenças, pois agora estão unidos até para contarem desculpas esfarrapadas.’

‘É… Eu percebi.’ Sakura comentou. Ela balançou a cabeça contrariada. ‘Shaolin nunca foi violento, sempre foi pacífico... até demais. O que deu nele para simplesmente brigar daquela forma?’ Indagou, fitando o marido. ‘Ele quebrou o braço do Kazuo-san tentando imobilizá-lo com uma chave de braço. Disse que não conseguiu controlar a força. Que estava nervoso… e o pior foi o Kazuo-san minimizando… “Ah, foi só um braço quebrado… isso é tranquilo. Logo melhoro”. Eu tive vontade de dar umas palmadas nos dois! Colocá-los de castigo por anos!’ Falou, balançando as mãos.

Syaoran franziu a testa. ‘Eles não têm mais idade para isso.’

‘Eu sei, Syaoran!’ Ela falou. ‘Mas parecem duas crianças que brigaram por um brinquedo.’

‘Crianças não lutam com espadas.’ Ele retrucou.

Sakura estreitou os olhos no esposo. ‘Está querendo dizer o quê com isso?’

Syaoran soltou um suspiro. ‘Que eles são quase dois homens. Na idade de Kazuo eu estava no treinamento e na idade de Shaolin, eu…’

‘Não precisa me lembrar!’ Ela o interrompeu, erguendo a voz. ‘Não precisa.’ Repetiu com a voz mais controlada, mas com o rosto ainda sério, encarando o marido. ‘Eles não são você.’

‘Exatamente. Espero sinceramente que eles sejam melhores que eu. Apesar do que o Kazuo viveu até agora… Espero tentar… Não sei… Melhorar de alguma forma a vida dele.’

Sakura observou o marido sentar na cama, apoiando os braços no joelho.

Ele suspirou, olhando para a esposa de esguelha. ‘Acho que tudo vai ficar bem agora.’

‘Eles poderiam ter se matado.’ Sakura retrucou.

‘Nós dois, com dez anos, caçávamos as cartas Clow. Brigávamos e ainda corríamos um monte de riscos. Não precisa se preocupar tanto assim, Sakura.’

‘Será que apenas eu estou vendo a gravidade da situação?’

‘Não estou falando que não foi grave.’ Ele rebateu. ‘Apenas que não adianta você ficar preocupada desta maneira.’

‘Syaoran…’ Ela falou, sentando-se ao lado dele na cama. ‘Quando fui levar Kasumi-chan para casa, ela me falou que eles brigaram feio, sem se conterem. Você sabe que ela não é de esconder as coisas e nem de exagerar, ela é bem sincera. Até demais.’

Syaoran respirou fundo. ‘Não sei porque Shaolin a levou para o treinamento hoje. Não sei o que deu nele. Ele não deveria usar magia para se exibir para a Kasumi.’

‘Foi Kazuo-san quem forçou a situação. Você sabe como Shaolin sempre reagiu sobre magia… Ele não aceita muito bem. Principalmente, usar magia na frente da Kasumi-chan.’

Syaoran ergueu uma sobrancelha. ‘Mas ele não tinha contado para ela sobre magia antes?’

‘Sim… mas é diferente. Uma coisa é você contar sobre ter magia, a outra é mostrar o quanto a magia pode também ser perigosa.’

‘Este foi um dos motivos pelo qual pedimos para ele não contar a ela. Mas ele foi teimoso.’ Ele deu um suspiro e olhou de forma serena para a esposa. ‘Apesar de que ela saberia de um jeito ou de outro sobre isso. Shaolin não conseguiria esconder dela por muito mais tempo. Estava no limite dele.’

‘Não agimos certo em pedir para ele não falar nada para Kasumi-chan. O erro foi nosso. Criamos este medo nele, talvez como um reflexo de tudo que passamos por possuirmos magia.’

Syaoran concordou com a cabeça de leve. Soltou um suspiro. ‘Kasumi é centrada. Conversei com ela sobre o assunto, até por causa de Kazuo.’

‘Nossa sorte é que ela gosta muito do Shaolin…’

‘Eles foram criados juntos, é o normal, não?’

Sakura sorriu de leve. ‘Acho que sim. Ela está sabendo enfrentar os medos dela melhor do que Shaolin. Falei com ela enquanto a levava para casa. Ela disse que só quer dar apoio para os dois.’

‘É uma boa menina. Muito parecida com Tomoyo.’ Ele falou com a voz suave, reparando na esposa. Sabia que Sakura sentia muita falta de Tomoyo, justamente, nesse apoio que a morena sempre lhe dera, independente de ter ou não magia. ‘Sobre o que houve com ela na semana passada, as Cartas já lhe contaram o que aconteceu?’ Perguntou preocupado.

‘Nada, desde o comentário sobre ela não ser o que aparenta.’ Sakura balançou a cabeça de leve, negando. ‘E eu sei que Retorno está me evitando, além de ser uma das que, no fundo, todas as outras respeitam mais.’

Syaoran ergueu uma sobrancelha. ‘Precisamos tirar aquilo a limpo. Para Shaolin e Kazuo ficarem nervosos daquela forma, foi algo bem grave…’

‘Kagami me falou que Retorno sempre foi intrigado em relação a Kasumi-chan. Desde a primeira vez que a viu brincando com Shaolin.’

‘Intrigado?’

Ela deu um suspiro. ‘Retorno é uma das Cartas mais introspectivas. Foi realmente estranho demais ele se manifestar. Normalmente, ele prefere ficar dentro do livro, assim como Tempo, Silêncio e Sombra.’

‘É verdade…’ Syaoran concordou. ‘Quando Shaolin era menor, lembro-me que ele ficava mais próximo dele.’

Ela franziu a testa de leve. ‘Verdade… Isso mudou quando Gabriel-san apareceu.’

Syaoran concordou. ‘Exatamente.’

‘Acha que tem alguma relação?’ Sakura começou a ficar mais preocupada ainda.

Agora foi a vez de Syaoran respirar fundo e soltar o ar devagar. Tentou relaxar os músculos do pescoço. ‘Realmente não sei, Sakura… Talvez fosse melhor conversarmos com ele. Tem algo estranho… Desde que aquele episódio aconteceu, tem vezes que eu juro que consigo ver…’ Ele reteve-se sem coragem de falar para a esposa.

Sakura arregalou os olhos de leve. ‘Uma aura púrpura em volta de Kasumi-chan?’

Ele arregalou os olhos. ‘Então você também consegue ver? É tão rápido, oscilante, que eu pensei estar vendo coisas.’

‘Sim… é muito breve, muito mesmo. Tinha a mesma impressão, mas se você também anda percebendo…’

‘Precisamos falar com Retorno. Precisamos saber o que está acontecendo.’ Falou sério e a viu assentir com a cabeça.

Ficaram em silêncio por um tempo, até Sakura sorrir de leve ao se lembrar de Kasumi relatando o que tinha acontecido. A garota gostava muito do filho. Perguntava-se se realmente o filho não tinha percebido nada ainda. Considerando que ela era tão distraída quando criança, talvez ele também o fosse.

‘Estava pensando…’ Ela chamou a atenção do esposo novamente. ‘Shaolin às vezes é muito distraído.’

‘Será?’ Syaoran falou, levantando-se e caminhando ao armário para pegar uma muda de roupa para tomar um banho e encerrar aquele dia. A conversa com os dois garotos fora bem desgastante.

Ela semicerrou os olhos no marido. ‘O que você quer dizer com isso?’

‘O que você quis dizer com Shaolin ser distraído?’ Rebateu a pergunta.

Sakura franziu a testa, observando o marido caminhar em direção ao banheiro. Levantou-se, indo atrás dele. ‘Da Kasumi-chan.’

‘Ah!’ Ele soltou, parando na porta do banheiro e sorrindo de leve. ‘Então também percebeu…’

‘A gente tem que ficar de olho neles dois. Eles são muito jovens.’ Ela comentou. ‘Tomoyo-chan já conversou comigo sobre isso, quando achamos que os dois estavam brigados um tempo atrás, antes de Kazuo-san chegar.’

Syaoran franziu a testa, pensando. ‘Hum… Eu me lembro, Shaolin estava cometendo mais erros que o normal naquela época durante os treinos.’ Soltou um suspiro. ‘Além de andar bem contrariado com tudo também…’

‘Ele não se abre nem com você?’ A esposa perguntou com a testa levemente franzida.

Syaoran fitou a esposa por alguns segundos, também com o rosto preocupado. ‘Pelo visto, não. Ou talvez nem ele entenda direito o que está acontecendo com ele.’

‘Ele é bem parecido com você nisso… Às vezes, parece uma conchinha quando se fecha.’

‘Não é bem assim…’ Ele rebateu. ‘É que realmente é difícil tentar falar o que não se entende direito. Mas você tem razão… Ele realmente anda agindo bem parecido comigo.’ Concluiu e sorriu, balançando a cabeça de leve ao se lembrar de quando ele mesmo encontrava-se confuso e irritado por não compreender o que sentia pela esposa quando ainda era mais novo que o filho.

Sakura sorriu, observando o marido. ‘Por que diz isso?’

Ele ergueu uma sobrancelha, encarando a esposa. ‘Esta fase é sempre complicada.’

‘Ah! Complicada?’

‘Muito.’ Ele respondeu devagar, segurando a cintura da esposa. ‘Muito complicada. E, pelo jeito, não importa muito a época, adolescentes vão ser sempre complicados. Principalmente os meninos.’

‘Não tão complicados quanto as meninas.’ Ela rebateu, sorrindo ao se lembrar da própria confusão que estava a cabeça dela antes de descobrir o que realmente sentia pelo marido.

‘Ainda bem que se cresce, não?’

‘Ainda bem.’ Ela concordou. ‘E as coisas ficam mais fáceis… ou talvez mais complicadas.’

‘Depende do ponto de vista.’ Ele falou se inclinando e beijando o pescoço da esposa devagar. ‘Algumas coisas são difíceis, para tornar outras mais fáceis.’

‘Como por exemplo?’ Ela se fez de desentendida, fechando os olhos enquanto sentia o marido beijando seu pescoço.

‘Pense em quantos obstáculos superamos… tudo foi bem difícil, então acabou sendo fácil eu aceitar que amava você.’

Ela se afastou levemente dele, olhando-o diretamente. ‘Amava?’

‘Porque eu amo você.’ Ele consertou, beijando o rosto dela e logo alcançando os lábios da esposa que os entreabriu para ele aprofundar o beijo, enquanto começava a despi-la para tomarem banho.

Ela se afastou dele. ‘Os garotos… eles podem ouvir…’ Falou, sussurrando.

‘Eles não são nem malucos de baterem na porta agora, Sakura.’ Falou, impedindo que ela se afastasse. ‘Ou quem vai dar uma surra neles, sou eu.’

Ela sorriu antes de voltar a beijar o marido.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Shaolin chegou em casa, jogando a pasta com o material escolar no chão e tirando os sapatos. Espelho aproximou-se dele, mas o garoto já foi falando que estava tudo bem e que era para Kagami não se preocupar com nada. Que só estava com dor de cabeça.

Estava subindo as escadas quando Salto pulou na sua cabeça, tentando fugir de Corrida que estava em seu encalço.

‘Ah, me deixem em paz!’ Ele falou, tentando tirar a criatura mágica que estava na sua cabeça enquanto a outra tentava pular por cima dele. Teria ido escada abaixo se o irmão não o tivesse segurado por trás.

‘Hei! Tá tudo bem?’ Kazuo perguntou, percebendo que o garoto chegou em casa com a aura tão irritada que chegou a lhe chamar a atenção.

‘Está tudo ótimo!’ Falou finalmente se livrando de Salto que continuou a pular pela casa com Corrida atrás dele.

Continuou a subir as escadas, pisando duro e seguindo para o seu quarto, pronto para bater a porta com força… ou talvez não tanta força porque… bem, dor de cabeça... trancando-se lá dentro, quando se lembrou do que o irmão comentou sobre não enfrentar os seus problemas.

Voltou-se para Kazuo e, como imaginava, estava lá o irmão olhando para ele com os braços cruzados. ‘Eu preciso ficar sozinho. Não é fugir dos problemas. É usar o tempo para pensar em como resolvê-los.’

Kazuo deu de ombros. ‘Por que está me dando explicações?’

‘Porque você está aí olhando para mim com uma cara de “eu não disse?”’

‘Eu não falei nada.’ Kazuo rebateu, erguendo as mãos na defensiva.

Shaolin trincou os dentes, irritado, mas não com o irmão. ‘Eu briguei com a Kasumi. Foi isso que aconteceu! Eu pedi para ela se manter afastada desta confusão toda, mas ela disse que eu não precisava me preocupar. Como assim não preciso me preocupar?!’ Falou tudo de uma vez, sem nem conseguir respirar direito.

Tinha realmente discutido com a menina, tinha pedido, na verdade exigido, para ela ficar afastada de tudo, inclusive do irmão. Não a queria próxima de Kazuo. O rapaz não entendia as coisas direito ainda e podia, sem querer, colocá-la em perigo. Ou talvez estivesse apenas sentindo ciúmes dela mesmo. Kasumi era sua amiga. Ele nunca a tinha visto ser tão simpática com alguém antes. Mesmo com Marie, demorou um tempo antes das duas se entenderem.

‘Ela é fêmea… as fêmeas são assim, mesmo as pequenas.’ Kazuo falou, balançando a cabeça de leve. ‘Por isso elas invadem a cabeça da gente… Elas são traiçoeiras.’ Ele falou, apontando para própria cabeça.

‘Não é nada disso!’ Shaolin falou. ‘Ela não entra na minha cabeça.’

‘Mas você não para de pensar nela.’

Ele arregalou os olhos de leve. Balançou a cabeça com força. ‘Não é nada disso!’ Ele falou e estava pronto para voltar a se trancar no quarto, quando se virou e encarou o irmão. Fechou os olhos e respirou fundo. ‘Ela é teimosa demais.’ Disse por fim. ‘Você tem razão… eu vou… sei lá o que eu vou fazer! Eu vou esquecer que ela existe! Pronto!’ Sentenciou, por fim, entrando finalmente no quarto.

Soltou um suspiro apoiando-se na porta. Colocou uma mão no rosto. Quem ele estava querendo enganar? Queria ir ao dojo hoje mesmo, para tentar fazer as pazes com Kasumi, mas sabia que precisava se controlar. Kasumi era teimosa e tinha impressão de que ela se fazia de tonta de propósito.

Era tão óbvio que ele não queria que ela ficasse perto deles. Se não fosse o escudo de Marie, ela teria sido atingida durante a briga dos dois. Ele não se controlou. Não conseguiu se controlar e poderia tê-la machucado. Não se perdoaria nunca se isso tivesse acontecido. Já estava difícil aceitar que a tinha colocado numa situação de risco.

Nunca sentiu uma agonia tão grande quanto ao vê-la passando mal e enfraquecida, quando foi envolvida pela energia de Retorno. Como tinha medo de perdê-la, de que algo acontecesse a ela, de não poder vê-la novamente. Era algo tão forte que ele não conseguia nem explicar. Quando a menina o estava evitando alguns meses atrás, por estar chateada com ele, havia sentido falta dela demais.

Apertou mais forte a mão no rosto, massageando a testa e apertando os olhos. Inferno! O que estava acontecendo com ele? Por que sentia aquele peso enorme no peito, aquela aflição? Aquele medo?

‘Merda.’ Soltou entre os dentes.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Kazuo virou-se para descer as escadas quando quase tropeçou em Troca que resolveu brincar com Salto e Corrida pela casa. Assim que desceu o último degrau, Espelho veio ao encontro dele.

‘O que aconteceu?’ Ela perguntou preocupada. ‘Ele está com dor de cabeça mesmo?’

O rapaz franziu a testa de leve. ‘Deve estar. Aposto como a Kasumi está entrando na cabeça dele o tempo todo, por isso ele anda tão irritadiço. Aquela fêmea pequena é muito mais do que aparenta. Daqui a pouco… aparece um filho dele e eu quero ver o que vai dar. O tal “enfermeiro” também já avisou sobre isso…’

‘Filho?!’ Espelho perguntou, olhando para o rapaz. ‘Você está maluco?’

‘Não é assim que vocês fazem? Entram na cabeça da gente.’ Ele rebateu, olhando para Espelho.

Ela soltou uma gargalhada. ‘Não! Não é isso, não! Nem todas as fêmeas são súcubos.’ Ela falou para ele. ‘Você é bem limitado.’ Completou, rindo e fazendo o rapaz ficar sem graça, mas depois ela ficou séria. ‘Além disso, Shaolin é um menininho ainda.’ Disse, sorrindo de leve.

‘Sei…’ Kazuo falou, afastando-se dela. ‘Menininho…’

‘Oras… ele é muito novo para pensar nestas coisas.’ Espelho foi atrás do rapaz. ‘Ele nasceu ainda ontem.’

‘Aqui o tempo passa muito devagar.’ Kazuo ainda falou, afastando-se de Espelho e indo para o quintal, onde outras cartas estavam fazendo uma algazarra. Franziu a testa, suspirando. ‘Aqui é sempre tão barulhento...’

Espelho deu um longo suspiro. ‘Quando os mestres não estão… é sempre assim. Elas estão acostumadas com Shaolin brincando sempre, então não ligam quando ele chega.’ Ela sorriu novamente. ‘Ainda ontem ele brincava no quintal com a gente.’

‘Ele cresceu.’ Kazuo falou para Espelho. ‘Você é que agora anda limitada.’

‘Hei! Você é bem petulante.’ Ela ralhou com ele.

‘Eu?’ Ele falou, abrindo os braços. ‘Ah! Deixa para lá.’ Disse, voltando para a sala onde a bagunça que Troca, Corrida e Salto estavam fazendo parecia menos barulhenta que a das outras.

Sentou no sofá e colocou os pés na mesa de centro. Trovão se aproximou dele e deitou perto do sofá. O rapaz ainda estendeu a mão, fazendo um carinho na cabeça da criatura mágica. Gostava de Trovão, não era barulhento como os outros.

Às vezes, Silêncio se irritava tanto, que simplesmente fazia todos perderem a voz, o que rendia alguns minutos de paz, porém hoje ela nem tinha se manifestado, preferindo ficar quietinha como era da personalidade dela.

Algumas cartas preferiam permanecer dentro do livro, como se estivessem dormindo. Outras, simplesmente não conseguiam se conter e precisavam ficar andando de um lado para o outro interagindo entre si. Todas tinham personalidades diferentes. Já estava até se acostumando com elas, conhecendo-as.

Olhou para o lado, vendo que Espelho volta e meia aparecia na porta da cozinha e olhava para cima onde o irmão permanecia. Sorriu de lado, ela estava bem preocupada, olhando assim parecia até ser mãe dele. Shaolin tinha sorte, no final. Tinha uma mãe humana e uma que era um demônio.

Franziu a testa, constatando isso. Espelho era, originalmente, um demônio, como Midoriko. Por que então era tão diferente dela? Sempre atribuiu a diferença enorme entre Sakura e Midoriko ao fato de uma ser humana e outra não, mas agora, reparando em Espelho, pensou que a diferença não fosse só uma questão de naturezas diferentes.

Ajeitou-se melhor no sofá e percebeu que Trovão levantou a cabeça encarando-o. Sorriu de leve para a criatura mágica ainda passando a mão pelo dorso dela, que apreciava bastante isso. ‘Aqui tudo é diferente, né?’

Tinha perguntado, mas não esperava uma resposta.

‘Ah, sim… Jovem mestre.’ Ouviu uma voz que o fez levantar o rosto e fitar o rapaz com aparência de adolescente parado a sua frente com os braços cruzados. ‘Aqui é tudo diferente.’

‘Acho que sim, Disparo.’ Ele respondeu, desviando os olhos dele.

‘E anda tudo muito calmo ultimamente.’ Disparo rebateu, sentando ao lado dele e colocando as pernas na mesa de centro também. ‘Eu lembro quando a Mestra me chamava o tempo todo. Eram bons tempos aqueles!’

‘O tempo todo?’ Kazuo indagou.

‘Eu era o preferido.’ Falou, sorrindo de lado. ‘Salvei a vida do Mestre um monte de vezes. Sou o mais rápido, entende?’

‘E tem a língua mais rápida também.’ Kazuo retrucou.

Disparo deu de ombros. ‘Às vezes, Flecha também era bem solicitada, mas eu ainda era o preferido para resolver alguns problemas imediatos.’ Ele soltou um longo suspiro. ‘Mas ultimamente… tudo tem ficado tão calmo. Shaolin não gosta de usar a gente para combate. Ele não entende que, algumas vezes, é necessário e que nos sentimos úteis quando pedem nossa ajuda. Ainda assim, é bem melhor do que o outro mestre, que nos via apenas como objetos.’

‘Vocês tiveram outro mestre?’ Kazuo perguntou.

‘O que nos aprisionou.’ Disparo soltou um assobio zombeteiro. ‘Esperança deve estar bem nervosa com a situação atual dela.’

‘Não deveria brincar com isso.’ Terra apareceu atrás deles, olhando com o rosto duro para Disparo. ‘A presença dela está cada vez mais instável. Ela deve estar realmente sofrendo…’

Disparo encolheu os ombros. ‘Não foi isso que eu quis dizer.’ Falou, envergonhado.

‘Você é um moleque. Tem que crescer.’ Ela o repreendeu, antes de se afastar.

Kazuo observou a figura feminina se afastando e depois voltou-se para o rapaz. ‘Quem é Esperança? Volta e meia vocês falam dela. Ela fugiu ou voltou para o Mundo das Trevas?’

Disparo esticou o pescoço para se certificar que Terra tinha se afastado, não queria ser repreendido novamente, depois voltou-se para Kazuo. ‘Esperança era nossa líder.’ Respondeu. ‘Dura na queda. Quando eu a encontrei no mundo das trevas pensei que seria o meu fim. Na época ela era conhecida como Khala’a.’

Kazuo franziu a testa. ‘Acho que já ouvi este nome antes.’ Ele falou, tinha impressão de que alguém já tinha lhe falado alguma coisa sobre ela.

‘Ela era esperta, em vez de cortar a nossa cabeça, ela nos liberava e pedia só para tomar um pouco do nosso sangue e bingo! Acumulava nossos poderes. Aí… era muito mais jogo continuarmos acompanhando-a. Questão de sobrevivência, você sabe como é?’

‘Sei.’ Ele respondeu e percebeu que Trovão deitou-se novamente aos seus pés. ‘E que fim ela levou? No Mundo das Trevas ela não estava, porque não a encontrei.’

‘Ah, não! Ela até voltou para lá com a Mestra para resgatar o Mestre quando ele era um de nós, mas não voltou da mesma forma.’

Kazuo franziu a testa. ‘Como assim?’

‘Ela agora é humana.’ Ele respondeu.

‘Humana?’ Kazuo perguntou. ‘Como assim humana?’

‘Você realmente tem a língua bem solta, não é, Disparo?’ Trevas apareceu atrás dos dois, fazendo o rapaz novamente se encolher. ‘Fica enchendo os ouvidos do jovem mestre para quê?’

‘Foi ele quem perguntou.’ Disparo se levantou, sabendo que hoje todas resolveram pegar no seu pé. ‘Eu estou indo. Vocês hoje estão chatas demais.’ Falou se afastando.

Kazuo observou o rapaz se afastando e logo virando uma lâmina mágica que voou para dentro do livro. Voltou-se para Trevas que o encarava séria.

‘Que história é essa?’ Ele perguntou, curioso.

Trevas se inclinou, ficando com o rosto na altura do rapaz que estava ainda sentado no sofá. ‘Curiosidade matou o gato. Sabia?’

‘O quê?’

‘É um ditado humano bem pertinente à sua situação agora.’ Trevas falou, erguendo o corpo. ‘Melhor ficar fora disso, garoto. Tem coisas que é melhor deixar no passado.’ Disse, afastando-se dele.

Kazuo franziu a testa, observando-a se afastar lentamente. Voltou a fitar Trovão que só levantou a cabeça para ele e depois voltou a se deitar. ‘Humph’. Murmurou. ‘Bem… não sou um gato mesmo.’ Falou, soltando um suspiro. ‘Só que agora eu fiquei bem curioso para saber que história é essa.’

Shaolin apareceu na sala e encarou o irmão. ‘Você não quer dar uma volta? Kagami vai ficar me cercando o tempo inteiro e perguntando se eu estou bem.’ Ele falou. ‘Tousan falou para não ir treinar hoje por causa do braço.’ O menino falou, olhando para o curativo que protegia os pontos.

Se ficasse em casa, era capaz de ligar para Kasumi e se desculpar, mas não faria isso mesmo. Pior, acabaria indo no dojo para falar com ela e se desculpar pessoalmente pela briga que tiveram. Não! Não se desculparia para ela. Kasumi tinha que entender a situação e fazer o que ele tinha pedido. Era para o bem dela. Para a segurança dela.

Kazuo abaixou os pés. ‘Está bem. Vamos dar uma volta. Hoje… como todos os dias, está uma loucura aqui em casa.’

Shaolin virou-se, caminhando em direção a porta para calçar os tênis. ‘Aqui só fica calmo quando os pais chegam. Ninguém me respeita mesmo e, pelo visto... também não respeitam muito você.’ Falou rindo.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Smith levantou o rosto, observando o sol aos poucos ser coberto pelo satélite lunar. Estava no extremo norte da Irlanda onde o eclipse solar seria total. Rosas estava ao seu lado, estava tenso e, por causa disso, começara a murmurar alguma coisa em latim, provavelmente um salmo ou uma oração para tentar se acalmar. Aquilo o estava irritando.

Afastou-se, observando o grupo de quase 50 jovens que estava a sua frente. Tinham sido instruídos para seguirem até a energia do Pilar e atacá-lo. Entre eles estava Charles Holey, que havia, assim como ele, abandonado o Círculo de forma aberta. Assim como Charles, outros Feiticeiros, xamãs e detentores de magia haviam se juntado a ele.

Caminhou decidido até Charles, parando ao seu lado. ‘Sabe o que tem que fazer, não?’

Charles acenou que sim com a cabeça de forma decidida. ‘Assim que atravessarmos o portal já procuraremos pela energia do Pilar.’

‘Durante a cerimônia solicitarei que o portal seja aberto próximo ao Pilar, mas não sei o quanto isso será eficaz ou não.’ Smith falou. ‘Fique atento.’

‘Estou atento.’ Charles rebateu. Ele olhou rapidamente para Rosas e depois voltou a fitar Smith. ‘Acredita que conseguirá entrar em contato com o plano inferior?’

‘Assim que o pilar estiver enfraquecido, será fácil abrir uma brecha para lá e esperar que eles venham até nós. Já entrei em contato com alguns, por meios indiretos.’

‘Acha que pode confiar naqueles seres?’ Charles perguntou com o tom preocupado.

‘Eles possuem interesses em comum conosco. Não é porque são seres que vivem no plano inferior que são estúpidos. Às vezes, são mais inteligentes que nós.’

‘Mas se estão lá, é porque não possuem honra ou caráter. Se eu fosse você, teria cuidado.’

Smith sorriu de lado. ‘Não se preocupe com isto. Faça a sua parte, que eu saberei como entrar em acordo com eles para consquistarmos nossos objetivos.’

Charles suspirou, olhando para o grupo de jovens a sua frente. ‘Estes são os que mais se destacaram no treinamento, selecionados por Reyume Li, mas espero que realmente estejam preparados.’

‘Foram preparados por mais de cinco anos. Finalizaram com sucesso o mesmo treinamento, com as orientações específicas de Clow, tanto em lutas como em magia, que os Li usaram para formar o guardião.’ Smith fez uma pausa. ‘Não há como falhar por causa deles… agora espero que realmente esteja preparado para a sua tarefa.’

Charles respirou fundo e fitou duas xamãs que estavam um pouco mais afastadas deles. ‘Elas pareciam bem interessadas em enfraquecer o pilar, acho que possuem algum interesse também. Precisamos ficar de olho.’

‘Caro amigo.’ Smith falou em tom paternal. ‘Todos aqui possuem algum interesse. Precisa apenas saber administrar os interesses dos outros para que os seus sejam atingidos.’

‘É isso que você faz?’ Charles perguntou, encarando-o.

‘Estou aqui por um motivo maior que todos, Charles. Estou aqui para manter a segurança do nosso universo.’ Falou com convicção. ‘Nossa causa é maior que os interesses pessoais mundanos. Tenho esta missão e não recuarei até que ela esteja completa.’

Charles encarou-o por alguns segundos em silêncio. ‘Assim espero.’

‘Assim será, amigo.’ Falou colocando uma mão no ombro dele. ‘Agora, vamos iniciar o ritual.’ Disse olhando para o céu. ‘O Eclipse total acontecerá em poucos minutos. Tudo tem que ser perfeito.’

Smith olhou em volta e percebeu que tudo estava preparado. Tinham construído um círculo perfeito com pedras de sal, que era interrompido em duas partes simetricamente opostas. Interrompendo a linha de pedras havia algo representando os quatro elementos. De um lado havia uma tocha queimando e um grande recipiente de cristal com água cristalina. No extremo oposto havia um grande drusa de ametista aberta ao meio deixando a mostra os cristais perfeitos e brilhantes, além de vários incensos que queimavam tornando o ambiente perfumado com ervas que se espalhavam pelo ar.

Smith apertou a chave de Janos em sua mão e fitou a estátua do deus romano, que ele também havia roubado de um museu. A estátua de um homem com dois rostos, um jovem e o outro velho, voltados para lados opostos, estava no centro do círculo.

Smith contou rapidamente o número de pessoas dentro do círculo para ter certeza que teriam a mesma quantidade de homens e de mulheres. Pediu a Rosas e alguns outros que saíssem da circunferência e foi prontamente atendido por eles.

Olhou novamente para o céu. Agora faltava muito pouco. Caminhou devagar, pedindo por silêncio e que todos se concentrassem. Para abrir um portal era necessária muita energia mágica e, desta vez, não iria apenas trazer alguém para este universo. Precisaria manter o portal aberto por tempo suficiente para que o exército treinado e escolhido por Reyume atravessasse.

Sentiu-se nervoso. Ele seria o mediador, pois não confiava em mais ninguém para isso. Tinha lido e estudado por anos sobre as invocações para abrir os portais, tinha contratado os melhores estudiosos de línguas mortas e antropologistas. Ele sabia que ninguém estaria mais preparado para aquilo. Pegou o caderno de anotações onde tinha a invocação preparada, palavra por palavra. Reparou que o dia começou a escurecer como a noite. As auras dos jovens estavam brilhantes, tornando o ambiente energizado para o ritual.

Apertou a chave de Janos na mão e subiu uma pequena escada, observando o orifício entre as mãos da imagem. Respirando profundamente, finalmente, iniciou o ritual, colocando a chave nas mãos da grande figura de bronze. O encaixe era perfeito.

‘Spiritus magnus. Ignis et Aquae Spiritus. Aeris et Terrae Spiritus’ (Grande espírito. Espíritos do fogo e da água. Espíritos do ar e da terra). Smith começou a falar e sentiu que a energia de todos os detentores de magia por perto estava aumentando de forma gradativa.

‘Pedimos autorização para abrirmos este portal, por intermédio de Janos, aquele que intercede pelos opostos, pela divergência entre o tudo e o nada. Entre o céu e o inferno. Entre o belo e o repulsivo.’

A chave que estava presa à imagem de Janos começou a acumular toda aquela magnífica energia e brilhava de forma esplêndida. A estátua também começou a brilhar. O bronze adquiriu uma aparência de metal na forja, incandescente e parecendo respirar.

Smith prosseguiu. ‘Entre o masculino e o feminino. Entre o novo e o velho. Entre a Luz e as Trevas.’

A energia propagava-se dentro do círculo fazendo a labareda de fogo crescer, a água do recipiente vibrar e expandir, a energia da drusa aumentar assim como a terra aos pés de todos começar a se levantar, impulsionada pela rajada de vento que circulava como um tornado preso naquele círculo mágico.

‘Solicitamos, humildemente, vossa interferência, vossa sabedoria e poder para localizarmos um universo onde encontraremos um Pilar de sustentação da Vida similar ao que sustenta o nosso.’

A energia circulava de forma violenta, obrigando alguns a fechar os olhos e proteger os rostos com os braços. Da chave de Janos, saiu um feixe de luz em direção ao centro do Sol que estava encoberto pela Lua.

‘Solicitamos, agora, a abertura de um portal que nos leve até este poder!’

A imagem de Janos se moveu, formando um plano mágico onde era possível ver a mudança da paisagem. Smith sorriu. A brecha estava sendo rasgada entre os universos, unindo-os para que pudessem atravessá-los.

‘Suplicamos por vossa clemência e vossa permissão para que a passagem entre os universos se mantenha aberta! Até a finalização deste Eclipse Solar.’

Smith olhou para o céu, eles teriam apenas alguns minutos para que todos atravessassem antes do desalinhamento dos astros e o fechamento do portal.

Olhou para Charles. ‘Agora! Atravessem!’ Ordenou e foi atendido pelo Feiticeiro, seguido pelos escolhidos.

Conforme atravessavam o plano mágico, percebia que suas auras não eram mais sentidas. Smith olhou para o céu preocupado. Eram muitos, tinham que ser mais rápidos ou o portal se fecharia sem que todos o atravessassem.

‘Mais rápido!’ Gritou, apressando-os.

O Sol começava a ser descoberto pela Lua, fazendo o dia sair das trevas momentâneas. Smith observou o último jovem atravessar o portal e, em seguida, a energia do portal enfraqueceu, tornando a imagem do outro universo menos nítida.

Smith conseguiu ainda ver o seu grupo caminhando por uma grande e densa floresta, antes que tudo se tornasse opaco e ele perdesse o contato visual.

Sorriu de forma aberta. Ele tinha conseguido. Agora era questão de tempo para que eles chegassem até o Pilar e, finalmente, seus planos poderiam ser colocados em ação. Era melhor já comprar suas passagens para o Japão.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura observou Shaolin e Kazuo chegando em casa depois de treinarem na casa de Marie. Conversavam em voz alta. Tinha até levado um susto inicialmente, pensando que estavam discutindo, mas prestando atenção no conteúdo da conversa estavam apenas trocando farpas leves. Lembravam, até certo ponto, ela e Touya.

Reparou que Kazuo prestava atenção quando Shaolin explicava para ele algum golpe ou alguma maneira de se posicionar melhor, assim como o menino também parava para ouvir o irmão, quando ele falava sobre a demora em decidir como agir ou quando hesitava. Não brigavam mais, apenas, volta e meia, implicavam um com o outro de leve.

Os dois a cumprimentaram assim que a viram e já subiram as escadas, tinham achado um esquema deles para decidirem quem tomaria banho primeiro. Algumas vezes, um reclamava que o outro estava tentando passá-lo para trás, fazendo-a até rir da situação, principalmente, quando os dois se uniam para tentar passar ela ou Syaoran para trás em alguma coisa.

Ela observou os dois se afastando e soltou um suspiro. Tinha que conversar com Syaoran sobre a situação de Kazuo. Ele precisaria de um registro, documentação e essas coisas mais burocráticas. Ele tinha também que pensar em escola, formação, coisas que humanos pensam e fazem planos. Não havia a menor possibilidade do rapaz voltar para o Mundo das Trevas, então seria mais prudente acertar sua vida como um humano.

Deu um longo suspiro, pensando em ter que forçar o rapaz a estudar para tentar, mais tarde, entrar numa escola normal. Franziu a testa de leve, pensando que apesar dele ser muito inteligente, teria que se esforçar também para tentar recuperar o tempo perdido. Ele tinha aparência de 16 anos e, pelas contas dela, seria mais ou menos este o tempo em que tudo tinha acontecido no mundo das trevas.

Teria que conversar com Eriol sobre isso, apesar de o amigo não gostar muito de falar sobre demônios. Talvez fosse interessante falar com os Asakuras, também, a respeito do que eles sabiam sobre demônios. Saber se Kazuo envelheceria neste universo e como isso aconteceria, para poderem planejar melhor as possibilidades para ele. Queria que ele fosse feliz e ela já tinha percebido que Kazuo estava gostando bastante de viver com eles.

Voltou-se para a cozinha para finalizar a janta, hoje eram ela e Shaolin que deveriam prepará-la, já que Syaoran chegaria um pouco mais tarde. Seus pensamentos ainda estavam em como acertar a situação de Kazuo. Talvez pudesse usar magia para “criar” um registro para ele.

Lembrou-se de toda a complicação com a documentação de Syaoran quando ele voltara do Mundo das Trevas pela primeira vez. Balançou a cabeça de leve, pensando que teria sido muito mais fácil ela simplesmente ter resolvido tudo usando magia, mas na época achava que isso seria errado. Besteira.

Se a magia fazia parte da vida deles, não tinha porque eles terem tanto receio de usá-la desta forma. Soltou uma risadinha irônica pensando na mudança enorme que acabou acontecendo na vida deles depois que os dois voltaram do Mundo das Trevas. Tudo tinha simplesmente mudado. Poderia ser mudado novamente, para tentar incluir Kazuo nesta vida. Criar uma documentação não seria muito difícil e não prejudicaria ninguém.

Ela percebeu a presença de Kazuo descendo as escadas e se virou para a porta da cozinha, vendo-o já de banho tomado.

‘Precisa de ajuda?’ Ele perguntou de forma tímida.

Ela sorriu para ele e acenou que sim com a cabeça. ‘Se não se importa de preparar os legumes para a janta, seria de uma enorme ajuda.’

Ele se aproximou e franziu a testa de leve. ‘Daquela forma que o Shaolin me explicou na semana passada?’

‘Exatamente.’ Ela respondeu e reparou que o rapaz se aproximou para ajudá-la.

Aos poucos ele começara a fazer parte do cotidiano da casa, de forma tímida inicialmente. Depois que acertou os ponteiros com Shaolin, tinha se sentido mais a vontade para participar das tarefas pequenas do dia a dia. Shaolin também estava se aproveitando disso. Sakura já tinha percebido que o filho agora incluía o irmão em tudo para dividir as tarefas da casa. Ela pensou em chamar-lhe a atenção, mas, no final, ponderou que era o certo a se fazer.

Kazuo não passaria apenas uma temporada com eles. Não era um visitante, e, sim, parte da família. Então ajeitaram o quarto que antes era de Kero para o rapaz, deixando-o, além de responsável por aquele cômodo, também mais a vontade nele, sabendo que aquele seria o seu “cantinho”. Kero chiou, mas aceitou se mudar para uma grande gaveta no escritório com um upgrade do aparelho de videogame.

‘Como foi o treinamento hoje?’ Ela perguntou, observando-o cortar os legumes.

Kazuo deu de ombros. ‘Foi normal.’ Respondeu. ‘A Marie criou umas criaturas esquisitas. Ela tem uma imaginação muito grande para criar aquelas coisas lá para a gente lutar.’ Falou, sorrindo de leve. ‘Nem no mundo das trevas vi umas coisas tão feias.’

Sakura riu. ‘Ela deve fazer isso para inovar. É melhor este tipo de treinamento do que vocês lutarem entre si.’ Ela falou e olhou de esguelha para o rapaz. ‘Vai que não conseguem controlar a força, não é?’

Kazuo pigarreou e ajeitou o corpo. ‘Às vezes, é interessante lutar um contra o outro.’ Olhou para ela rapidamente. ‘Mas agora a gente se controla muito melhor. Principalmente eu e Shaolin.’

Ela acenou com a cabeça. ‘Se estivessem sempre com as cabeças frias, não teria problema.’

‘Shaolin gosta de explicar as coisas. É legal.’ Ele falou, finalizando o corte dos legumes, olhou para ela. ‘Está bom assim?’ Perguntou, mostrando-os.

‘Está ótimo.’ Respondeu, pegando-os para colocar na panela para cozinhar a vapor.

‘Isso fica bom.’ Ele comentou. ‘Bem que oyaji falou que esse negócio de comer pode ser bom, também. Apesar de que sentir fome é chato pra caramba. A Kasumi me convidou para ir algum dia na casa dela. Ela falou que a cozinha é mais equipada que a daqui.’ Falou, olhando para os lados. ‘Não entendi muito bem o que ela quis dizer com isso…’

Sakura sorriu olhando para ele. ‘Ela é uma menina muito querida e realmente cozinha muito bem.’

Ele assentiu. ‘Ela é legal. Não sei porque o Shaolin brigou com ela.’

Sakura balançou a cabeça de leve. Sabia muito bem o porquê. O filho estava enciumado e com medo. Em grande parte, ela sentia como se fosse culpa dela que o filho tivesse todo aquele receio.

‘Outro dia fui com oyaji no dojo e a vi lutando. Ela é muito rápida.’ Ele falou, sorrindo de leve.

‘Shaolin foi com vocês?’

Ele acenou a cabeça de leve com um sorriso no canto dos lábios. ‘Ele ainda está com aquela cara emburrada para ela. Mas acho que ela nem liga mais para isso.’

‘Kasumi-chan e Shaolin se conhecem desde que nasceram. Às vezes, eles brigam, mas daqui a pouco fazem as pazes.’

‘Ela agora me chama de nii-san.’ Kazuo falou orgulhoso.

‘Eu percebi.’ Sakura sorriu para ele. ‘Ela não é muito sociável, mas simpatizou com você desde o começo.’

‘Isso é bom. Gosto dela.’ Falou satisfeito. ‘Fiquei muito preocupado quando ela passou mal aquela vez. Pensei que o Shaolin surtaria também.’

Sakura olhou de soslaio para o rapaz, tinha percebido bem a preocupação dele naquele momento.

‘Que bom que tudo não passou de um grande susto.’ Falou sorrindo de leve. ‘Fico feliz que goste dela. É uma menina muito especial.’

‘Sim… Ela falou que não se importa por eu ser um demônio.’

Sakura franziu a testa de leve. Já tinha conversado sobre isso com o marido. Kazuo estava encantado com a maneira que Kasumi o tratava, independente de saber que ele era um demônio ou de tê-lo visto lutar de forma violenta contra Shaolin. Ela parecia indiferente. Estavam ponderando se era arriscado ou não para a menina, mas não podiam negar que isso estava fazendo muito bem para Kazuo.

Pensou que deveria tentar novamente falar com Retorno sobre o que tinha acontecido aquele dia, mas foram tantos acontecimentos, um em cima do outro, que ela não tinha conseguido uma segunda chance para falar com a Carta. Além disso, ela percebeu que Retorno voltou a se recolher como antes, ficando sempre dentro do livro com a intenção de evitar aquela conversa.

Ela sorriu para o rapaz. ‘Você pode ajudar a preparar o suco?’

‘Claro.’ Respondeu. ‘Pode ser daquela coisa mais ácida?’

Ela sorriu. ‘Pode ser limonada. Os limões estão na cesta ali.’ Indicou-os com um gesto da cabeça.

‘Isso também é bom’. Ele comentou, pegando as frutas.

‘Bem, no final, vocês três têm o gosto parecido.’ Sakura constatou, balançando a cabeça de leve.

Kazuo encolheu os ombros. ‘Isso, às vezes, não faz muito sentido para mim.’

Ela ergueu uma sobrancelha, observando-o. ‘Do que você está falando?’

Kazuo levantou uma mão apontando em volta de si. ‘Esta convivência de vocês. É estranho ver isso…’ Ele fez uma pausa. ‘É estranho fazer parte disto.’

‘Por que acha isso?’

‘Uma comunidade de seres mágicos não deveria ser assim. Sempre imaginei que haveria um líder e os outros seguiriam, de forma inquestionável, suas decisões. Oyaji, no início, foi bem autoritário, mas agora, depois deste tempo todo, dá para perceber que vocês tomam as decisões em acordo.’ Ele falou com a testa franzida, como se realmente estivesse se esforçando para entender as coisas. ‘As Cartas… Elas são felizes e brincam o tempo todo. Algumas, até demais. Não era assim que eu imaginava que seria um grupo tão grande de demônios. Não é bem assim que as coisas funcionam de onde eu vim.’

Sakura mordeu de leve o lábio inferior, pensando no que falar. Tirou os legumes do vapor e depois voltou-se para ele. ‘E o que você pensa disso tudo?’

‘Como assim o que eu penso?’ Ele a encarou, confuso.

‘Oras… se você se sente bem, feliz ou triste. Se sente falta do mundo das trevas. Se realmente quer voltar para lá.’

Ele abaixou o rosto levemente e encolheu os ombros. ‘Lá ainda é meu lugar, não é?’

‘Não.’ Ela respondeu de forma firme, parando de fazer tudo e virando-se para ele. ‘Seu lugar não é lá.’

Kazuo levantou o rosto, encarando-a.

‘Seu lugar é com sua família. E, se seu pai vive aqui, então o seu lugar é ao lado dele. Dele e do seu irmão, não acha?’

Kazuo não respondeu, mas ela percebeu que a aura dele começou a se agitar, pois estava ruminando o que ela tinha dito. Soltou um suspiro, desviando os olhos dele e voltando ao preparo da janta.

‘Você não é obrigado a nada, Kazuo-kun. Não precisa fazer as coisas só porque acha que é como as coisas devem ser. Se você realmente decidir que quer voltar para aquele lugar de merda e convencer a gente de que será mais feliz lá…’ Ela soltou um suspiro. ‘Daremos nosso apoio a você. Agora, se você não quiser voltar, não tem que fazer isso.’

‘Midoriko deve estar me procurando como louca.’ Ele respondeu.

Sakura comprimiu os lábios, segurando todos os xingamentos possíveis que gostaria de falar. Fechou os olhos de leve, tentando controlar sua presença mágica, pois percebeu que ela aumentara, sem querer, e que o rapaz se assustou com isso.

Tinha que se manter fria. Quando encontrasse novamente aquele demônio feminino traiçoeiro, tiraria as coisas a limpo com ela. Bem limpo.

‘Claro… Midoriko…’ Ela falou entre os dentes, ainda tentando controlar a agitação da sua aura mágica e voltando a sua atenção para a panela onde estava preparando o jantar. Na afobação de tentar se controlar, acabou tocando o metal quente e queimou a mão. ‘Droga!’ Soltou, levando a mão à boca.

‘Você está bem?’ Kazuo perguntou, olhando-a com preocupação.

Sakura voltou-se para ele, empurrando-o de leve, para chegar até a pia e colocar a mão debaixo da água. ‘Está tudo bem. Eu só encostei a mão na panela quente. Isso acontece.’ Justificou, tentando controlar a voz.

‘Você não gosta nem um pouco dela, não é?’ O rapaz falou, balançando a cabeça de leve.

Sakura não respondeu. Se abrisse a boca para falar de Midoriko, acabaria soltando todos os xingamentos que bravamente lutava para não saírem de sua boca. Ele era filho dela, nenhum filho gosta de ouvir alguém falando cobras e lagartos da própria mãe, certo?

‘Eu devo a minha vida a ela. Por isso me sinto em dívida.’ Ele justificou, desviando os olhos de Sakura.

‘Eu acho que você já pagou com juros tudo o que devia a ela.’ Sakura respondeu em tom baixo, ainda entre os dentes.

Kazuo apenas encolheu um pouco mais os ombros e cerrou com força os punhos.

Sakura respirou fundo, tentando se controlar melhor. ‘Ela quebrou o acordo que tinha feito com Enma Daiyoh quando caiu fora antes de combatermos o guardião da última brecha. Ela perdeu o direito a qualquer domínio quando fez isso. Mas, pelo que você me falou, ela já tinha até um grupo de seguidores e controlava um bom território. Território ao qual não tinha direito nenhum, porque foi você quem derrotou os donos daqueles domínios.’ Ela voltou-se para ele, encarando-o. ‘Por isso eu digo que você já pagou o que devia a ela, e que não precisa se sentir em dívida por nada.’ Ela reparou que ele franziu a testa novamente, sentindo-se incomodado com a colocação dela. ‘Além disso, Kazuo-kun, ela é um demônio forte e tem vários seguidores, não é? Vai saber se virar sem você… Afinal, ela sobreviveu muito bem sozinha antes de você nascer.’ Comentou, balançando as mãos a frente do corpo. ‘Ou você acha que ela é frágil e indefesa?’ Fitou-o, erguendo uma sobrancelha em tom zombeteiro.

Kazuo balançou a cabeça de leve, curvando os lábios. ‘Acho… acho que você tem razão.’ Kazuo respondeu de forma tímida. ‘Ela sempre falou que eu era um imprestável mesmo.’ Completou, encolhendo os ombros.

Sakura voltou a olhar para o rapaz com o rosto sério. ‘Imprestável é ela, e não você. Entendeu?’ Falou, mandando para o espaço sua decisão racional de não ofender Midoriko. ‘Eu não acredito nisso! Na verdade, é bem a cara dela, mesmo! Aquela idiota...’ Ela soltou entre os dentes.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Recompondo-se, Sakura soltou um longo suspiro e voltou a encarar o rapaz. Deu um passo a frente, pegando o rosto de Kazuo entre as mãos e forçando-o a olhar para ela. Tinha percebido que ele estava desviando o olhar o tempo todo.

‘Olha, você já é parte disso aqui. Você é filho do Syaoran; é irmão do Shaolin. Você não precisa fazer nada para ser parte de algo. Você existir já é mais do que suficiente, Kazuo-kun. Seu pai está feliz por você estar aqui com ele; seu irmão está feliz, as Cartas e eu estamos felizes porque você existe. É simples assim, entendeu?’ Perguntou, pressionando de leve o rosto dele e vendo-o acenar com a cabeça. Sakura sorriu e puxou o rosto dele, fazendo-o se abaixar levemente para depositar um beijo estalado na bochecha dele. ‘Ótimo.’ Falou satisfeita antes de voltar sua atenção à janta. ‘Vamos terminar logo isso, porque vocês devem estar com fome e o seu pai já deve estar chegando. Além disso…’ Ela falou, sorrindo de leve. ‘Eu também estou com fome e me admira Kero-chan ainda não ter aparecido reclamando.’ Disse em tom mais animado para quebrar o clima tenso que se instalou ao falarem de Midoriko.

Kazuo ficou observando Sakura e inclinou a cabeça de leve enquanto passava a mão na face que ela tinha beijado. Não tinha certeza do que estava sentindo e nem exatamente do que realmente queria, mas sabia de uma coisa: não queria voltar para o mundo das trevas.

Continua.