FEITICEIROS
53 Ecos do Passado
.
FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques
Capítulo 53
Ecos do Passado
Tomoyo olhou para a filha que estava tomando o café da manhã. Sorriu, perguntando-se, não pela primeira vez, como ela podia comer tanto. Tinha um metabolismo excelente para manter-se em forma comendo daquela maneira.
A menina finalizou a refeição, agradeceu a mãe, e soltou um suspiro pesado que imediatamente chamou a atenção dos pais. Kasumi não era de suspirar daquela forma.
‘Kasumi-chan.’ Ela a chamou com a voz doce, fazendo a menina levantar o rosto e fitá-la. Tomoyo franziu a testa reparando nos olhos tristes dela. ‘O que aconteceu, meu anjo?’
Kasumi desviou os olhos da mãe, voltando a fitar o prato. ‘Estou bem...’ Respondeu à mãe.
Kurogane pigarreou. ‘Você não tem se esforçado nos treinos no dojo.’ Ele comentou e viu a menina encolher os ombros um pouco. ‘Anda muito distraída.’
‘É muita atividade para ela.’ Tomoyo cortou o marido. ‘Ela não precisa ser sempre a melhor em tudo.’
Kasumi olhou para o pai e para a mãe. ‘Vou me esforçar mais, tousan.’
‘Não!’ Tomoyo interrompeu novamente. ‘Você não precisa.’ Olhou seriamente para a filha. ‘Se está cansada, seu pai vai entender, não é Yuo?’
Kurogane levantou as sobrancelhas de leve. ‘Claro!’ Nem pensou em contrariar a esposa. Olhou para filha e sorriu de leve. ‘Apenas estou estranhando, porque você nunca foi distraída nos treinos…’
Tomoyo franziu a testa preocupada, observando a filha. ‘Você não precisa fazer tudo, Kasumi-chan. Se está cansada ou indisposta, deve ficar em casa e descansar. E, se for o caso, pode parar de fazer alguma das atividades. Pensando bem, conciliar a escola, Kung Fu, teatro e canto… Talvez sejam muitas atividades, agora que a escola está exigindo mais de você.’ A mãe falou com a voz doce, passando a mão na cabeça da filha com carinho.
A menina olhou para o pai e para a mãe novamente. Soltou um suspiro e abaixou os olhos. ‘Eu estou bem. Não se preocupem, gosto de fazer tudo isso. Estou… estou apenas preocupada com Shaolin. Ele parece que está com problemas.’ Ela finalmente falou o motivo.
‘Shaolin-kun está com problemas na escola?’ Kurogane perguntou, com o rosto sério.
Ela balançou a cabeça negando. ‘Não está com problemas na escola, não.’
‘Vocês dois brigaram novamente?’ Ele perguntou.
Ela negou novamente. ‘Não. A gente não brigou.’
Ele sorriu de leve, levantando-se da mesa. ‘É normal amigos brigarem de vez em quando. Eu e Li-kun discutimos no trabalho o tempo todo.’
Tomoyo olhou incrédula para o marido. Se bem conhecia o esposo da amiga, Yuo era quem devia falar sem parar, tentando convencer Syaoran de alguma coisa e o chinês apenas continuava com a resposta firme inicial. Syaoran não discutia e dificilmente se deixava levar pelos argumentos persuasivos de Yuo.
Kurogane deu um beijo estalado na cabeça da filha.
‘Mas Li-kun desmarcou novamente o treino de hoje.’ Ele falou, olhando para a filha que levantou os olhos para ele. ‘Acho que você está certa. Eles devem estar com problemas porque o Li-kun anda bem nervoso no trabalho, também.’ Comentou.
Tomoyo meneou a cabeça e soltou um suspiro. ‘Vou tentar falar com Sakura-chan, embora ela, às vezes, fique cheia de segredos comigo também.’ A morena olhou para filha que agora os observava com atenção. Ergueu uma sobrancelha. ‘Você sabe de alguma coisa, Kasumi-chan?’
Kasumi negou rapidamente. ‘Shaolin não quis me contar.’
Tomoyo arregalou os olhos de leve. ‘Você deve ter ficado chateada com ele, não?’
A menina encolheu os ombros de leve. ‘Se ele não quer contar agora, tudo bem. Ele conta quando quiser. Se quiser.’ Ela respondeu, levantando-se da mesa.
Kurogane soltou um suspiro. ‘Espero que esteja tudo bem.’ Falou antes de beijar a esposa rapidamente e sair para o trabalho.
‘Acho que já vou indo também.’ Kasumi falou, caminhando atrás do pai.
‘Ainda está cedo para ir a escola.’ Tomoyo observou.
Kasumi voltou-se para mãe. ‘Acho que vou passar na casa do Shaolin antes.’
Tomoyo franziu a testa. ‘Ficou preocupada com o que seu pai falou?’
‘Talvez.’ Ela respondeu. ‘Vou perguntar para ele se está tudo bem.’ Respondeu por fim, já começando a se arrumar para sair.
Tomoyo observou a filha e se levantou, caminhando até ela. Segurou os ombros da menina para que ela a fitasse. ‘Como você está, meu amor?’
Kasumi arregalou os olhos de leve e se forçou abrir um sorriso. ‘Estou bem, kaasan.’ Respondeu rápido demais.
‘Depois que Shaolin-kun e os pais vieram jantar aqui em casa, parecia que você e ele se entenderam, mas agora, você anda mais triste ainda.’ Tomoyo falou. ‘O que mais está acontecendo com você?’
Ela desviou os olhos da mãe e balançou o corpo de leve. ‘Não é nada. Realmente só estou preocupada de alguma coisa ter acontecido com o Shaolin. Queria poder ajudá-lo, mas acho que não tem como.’
‘Está triste porque Shaolin-kun não lhe contou o que está acontecendo com ele?’
‘Ele não precisa me contar tudo também da vida dele, né?’ Ela respondeu, arrumando o material escolar. ‘Acho que, se eu tivesse condições de ajudá-lo, ele já teria me contado… como não é o caso…’ Ela levantou o rosto e forçou um sorriso para que a mãe não se preocupasse. ‘Não tem muito o que eu possa fazer por ele.’
Tomoyo estreitou os olhos na filha, ficando em silêncio alguns segundos. Kasumi estava sendo prática como sempre, mas ela sabia que, nem tudo a racionalidade e o óbvio ajudavam a superar.
Kasumi voltou sua atenção ao material escolar. Estava levando o caderno das matérias que o amigo tinha perdido no sábado ao fugir da escola. Talvez fosse uma boa ele dar uma olhada. Já que no domingo, ele ficou de fazer isso, mas ligou cancelando com a voz bem contrariada.
‘E você? Conseguiu entender o que está acontecendo no seu coraçãozinho depois que nós conversamos?’ Tomoyo perguntou com a voz doce.
Kasumi fechou a pasta e respondeu que sim com a cabeça, sem coragem de responder verbalmente. ‘Mas isso não importa, né? Eu me preocupo com ele de qualquer forma. Somos amigos.’
‘Certo…’ Tomoyo murmurou, olhando para a filha com atenção. ‘Shaolin-kun parece que é muito parecido com a mãe dele. Ele é muito distraído, às vezes.’ Falou com a voz suave e sorriu de leve, observando as reações da sua pequena. ‘Há alguns sentimentos que as pessoas conseguem guardar no coração, mas outros, não. Tem certeza que vai conseguir guardar o que sente só para você? Não seria melhor revelá-los logo, antes que acabe se machucando?’
Kasumi arregalou os olhos surpresa, levantou o rosto, observando a mãe que sorria de leve para ela. Desviou os olhos. ‘São sentimentos diferentes, kaasan.’
‘Será?’
A menina balançou a cabeça confirmando novamente. ‘Foi o que eu falei, kaasan, eu não sei o que mudou em mim.’
‘Bem… Você cresceu, não?’ Ela falou com o tom sereno.
Ela deu um longo suspiro. ‘Shaolin sempre me verá como uma irmã, isso não tem como mudar. Acho que é melhor… Melhor as coisas continuarem como estão.’
‘Tem certeza que vai conseguir guardar o que sente para você?’ Ela voltou a perguntar para a filha.
Kasumi comprimiu os lábios sem conseguir responder a pergunta da mãe.
Tomoyo suspirou. ‘Sabe… Algumas pessoas acham que conseguem viver com seus sentimentos guardados porque sabem... Porque têm certeza que eles nunca serão correspondidos e viver de maneira platônica pode parecer o suficiente. Mas não o é.’ Ela desviou os olhos da filha e fitou um porta-retrato da sala com uma foto do seu casamento e, ao lado, outro porta-retrato com uma foto dela e da prima quando crianças. ‘A gente acredita que consegue viver bem, até que descobre que aquela idealização de sentimento, aquela sensação de felicidade ao sabermos que quem amamos é feliz, na verdade não é suficiente. Não é o bastante.’ Voltou a fitar a filha e passou a mão de leve no rosto dela. ‘Você é tão corajosa e tão persistente quanto seu pai. Não desista do que quer achando que apenas o que tem nas suas mãos será o suficiente para ser feliz.’
Kasumi ficou em silêncio observando a mãe, mordeu os lábios com força e, assim que Tomoyo abriu os braços, ela se jogou neles, abraçando a mãe que a envolveu com carinho.
‘Eu falei para ele, kaasan.’ Ela confessou baixinho. ‘Mas ele não entendeu.’
Tomoyo sorriu de leve, passando a mão nas costas da sua princesa. ‘Ele é distraído.’ Ela suspirou. ‘Talvez… Você precise ser mais clara.’
‘Acho que não, kaasan.’ Ela se afastou da mãe que secou seu rosto com as mãos. ‘Não é porque os meus sentimentos mudaram que os dele também mudariam.’ Ela sorriu de forma triste. ‘Para ele somos irmãos e é assim que ele gosta de mim.’
‘Você tem certeza disso?’
‘Tenho sim, kaasan.’ Ela respondeu com o tom triste. ‘Mas tudo bem… O importante é que eu compreendi o que eu sentia no meu coração e agora não me sinto tão perdida. Triste… talvez, mas…’ Ela forçou novamente um sorriso para Tomoyo. ‘Na hora que a gente compreende melhor o que sente, aquela agonia de não saber o que se passa aqui dentro desaparece…’ Disse, apontando para o próprio coração. ‘Aí fica mais fácil de… Sei lá… Tentar se adaptar ou superar, né?’
‘Talvez, meu amor. Talvez...’ Tomoyo beijou a testa da filha e deu um passo para trás. ‘Se quiser mesmo passar na casa dele para perguntar ou falar alguma coisa antes de ir para a escola… é melhor você se apressar.’
Kasumi assentiu com a cabeça e secou o rosto, pegando a pasta com o material escolar. Virou-se para a mãe que a observava com atenção.
‘Obrigada, kaasan.’ Ela agradeceu.
Tomoyo passou a mão na cabeça da filha. ‘Por nada, meu amor.’
Kasumi sorriu para a mãe e começou a se afastar. Ela acenou de leve antes de sair pela porta.
Tomoyo desviou os olhos da direção em que a filha saíra e voltou a fitar o porta-retrato onde estava a imagem dela e de Sakura. Suspirou de forma pesada, pensando em como a vida era irônica. Ou talvez os ciclos apenas se repetissem de forma insistente.
Pegou o porta-retrato e sorriu de leve. Esperava, realmente, que a filha pudesse ter mais coragem que ela ou, quem sabe, ter seus sentimentos correspondidos.
Desviou os olhos para o porta-retrato com a foto de seu casamento e alargou o sorriso. Realmente, a filha precisava entender que nunca seria verdadeiramente feliz caso se conformasse. Franziu a testa de leve, estreitando os olhos no rosto sorridente do esposo no dia do casamento deles.
Não… Kasumi era muito mais corajosa e persistente. Ela saberia o momento certo de ir atrás do que queria. Por sorte, ela era parecida demais com o pai.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Kasumi parou em frente ao sobrado branco e olhou para o relógio de pulso. Estava cedo ainda, apesar de ter seguido para a casa do amigo a passos lentos, enquanto pensava no que a mãe tinha lhe falado. Balançou a cabeça de leve, ficar remoendo aqueles pensamentos não resolveria nada.
Tocou a campainha e esperou. A vizinha dos tios, saiu pelo portão e a cumprimentou com um sorriso antes de se afastar. Ouviu o barulho da porta sendo aberta e virou-se para ela. O rosto da tia apareceu, sorrindo para ela.
‘Olá, Kasumi-chan! Bom dia!’ Cumprimentou de forma animada.
‘Bom dia, obasan.’ Ela cumprimentou. ‘Vim falar com Shaolin. Ele ficou de ir lá em casa ontem, mas depois ligou cancelando. Fiquei preocupada.’
Sakura sorriu para ela e fez um gesto para que ela entrasse. ‘Está cedo ainda. Entre.’ Convidou a menina. ‘Venha. Shaolin ficará feliz em vê-la.’
Kasumi empurrou o portão de ferro e cruzou o jardim. Subiu os degraus e parou em frente a tia que a abraçou apertado como fazia desde que se conhecia por gente. Sabia que a tia a considerava muito. Sentiu Sakura beijando sua testa antes de se afastar.
‘Como estão seus pais?’
‘Estão bem.’ Respondeu. ‘Tousan disse que ojisan anda muito nervoso no trabalho.’ Ela comentou.
Sakura concordou com a cabeça. ‘Estamos passando por mudanças.’ Respondeu. ‘Fiz aquele bolo que você gosta, quer um pedaço?’ Perguntou, entrando com a menina na casa.
‘Quero sim, obasan. Obrigada.’ Agradeceu.
Shaolin desceu as escadas da casa e olhou para a amiga. ‘Bom dia, Kasumi! Está tudo bem?’ Perguntou preocupado em vê-la ali àquela hora da manhã.
‘Eu quem pergunto se está tudo bem. Você falou que estudaria ontem lá em casa e depois cancelou. Aconteceu alguma coisa?’
Shaolin olhou para a mãe e depois para Kasumi. ‘É que… hum…’ Ele fez uma pausa, pensando no que falar. Sakura observou o filho. ‘Meu pai insistiu que eu treinasse ontem. É o único dia que ele pode fazer isso comigo.’
Ela concordou com a cabeça. ‘Isso é verdade. Tousan também falou que ele desmarcou o treino hoje. Acho que não vai poder treinar comigo esta semana, não é?’
Shaolin olhou para a menina e desviou os olhos dela. ‘Acho que… não sei… está tudo tão difícil.’
Ela deu um longo suspiro. Já estava esperando por isso. ‘Entendo.’ Olhou para tia e sorriu de leve. ‘Obasan! Quero o pedaço de bolo.’
Sakura, que estava acompanhando o diálogo das duas crianças com atenção, arregalou de leve os olhos para a menina que tinha mudado de assunto. Sorriu de leve, balançando a cabeça. Kasumi às vezes a surpreendia de tal maneira que a deixava desconcertada.
‘Claro… venha, Kasumi-chan.’ Falou, caminhando até a cozinha para servir a menina.
‘Kasumi.’ Shaolin a chamou, fazendo a menina parar e virar-se para ele. ‘Obrigado pela dica. Realmente foi mais fácil pular a cerca.’
Sakura franziu a testa. ‘A ideia foi sua?’
A menina olhou para a tia e deu de ombros. ‘Ele já tinha decidido fugir, eu só expliquei qual seria a maneira mais fácil. Se ele pulasse o muro da escola cairia em cima das latas de lixo e poderia se machucar.’ Ela explicou.
Sakura olhou para a menina e depois para o filho, com os olhos semicerrados. ‘Não faça mais isso, entendeu?’
O menino encolheu os ombros e caminhou em direção a cozinha. ‘Vou apresentá-la ao Kero-chan. Ele deve estar comendo… como sempre. Tomara que tenha se salvado algum pedaço do bolo para você.’ Comentou, sem responder para a mãe. ‘Pode deixar que eu a sirvo, kaasan.’
‘Ah! O Kero-chan?! O bichinho de pelúcia que come?!’ Kasumi perguntou entusiasmada.
Shaolin assentiu com a cabeça enquanto passava pela mãe que ainda o olhava seriamente. Ela tinha percebido a mudança de assunto e a fuga estratégica da resposta sobre a saída não autorizada da escola.
Kasumi seguiu o amigo até a cozinha e encontrou o tio finalizando o café da manhã enquanto falava com o bichano que estava sentado na mesa, comendo sem parar e falando de boca cheia.
Syaoran olhou para a menina e sorriu. ‘Bom dia, Kasumi.’
‘Bom dia, ojisan.’ Kasumi cumprimentou sorrindo e logo os olhos castanho-avermelhados estavam observando o bichano amarelo que tratou de finalizar o café e se levantar.
‘Este é o Kero-chan.’ Shaolin falou, apontando para o guardião do sol. ‘Kero-chan… esta é a Kasumi.’
Kero limpou os farelos da boca e ficou em postura ereta. ‘Eu já a conheço… Sempre me fingia de boneco quando ela chegava para brincar com você.’ Ele retrucou.
‘Mas agora você pode falar com ela. Ela já sabe de tudo.’ Shaolin rebateu. ‘Não vai mais precisar fingir que é um boneco.’
Kasumi parou em frente a mesa e se inclinou a frente, olhando fixamente para Kero. Piscou algumas vezes ainda sem conseguir acreditar que aquele bichinho era realmente um ser mágico. Já o vira antes, mas ele sempre estava estático.
‘Você fala mesmo?’ Ela comentou, tocando a barriga dele de leve com o indicador.
O bichano bateu suas asinhas voando e parando a frente do rosto da menina com um sorriso. ‘Você é muito parecida com Tomoyo-chan. Sinto muita falta dela. Ela, sim, sabia me dar valor. Era uma menina meiga e excelente estilista. Tinha um ótimo gosto e era muito bonita, como você.’ Falou, fazendo a menina corar com o elogio.
Kasumi ergueu uma sobrancelha. ‘Você conhece a kaasan?’
Syaoran olhou para o bichano. Kero realmente sentia falta demais de Tomoyo. Até hoje não se conformava dela não se lembrar dele.
Kero pigarreou. ‘Vamos fazer as apresentações corretamente. Meu nome é Kerberus, sou o guardião do sol, a fera mágica de olhos dourados, o guardião do lacre das Cartas Sakura.’ Falou de forma pomposa, estufando o peito.
‘Kerberus é um nome muito imponente.’ Ela comentou, fazendo-o sorrir.
‘Mas pode chamá-lo de Kero-chan que ele responde.’ Shaolin retrucou, rolando os olhos ao mesmo tempo que colocava um pedaço de bolo num prato. ‘Aqui está o bolo, Kasumi. O que sobrou, já que este aí...’ Falou fazendo um gesto em direção a Kero. ‘É tão ou mais olho-grande que você.’ Completou, seguindo agora para se servir do café da manhã.
Kasumi ainda olhava para Kero admirada. ‘Obrigada!’ Ela agradeceu, pegando o prato. ‘Shaolin falou que sua forma verdadeira é de um felino enorme, verdade?’
Kero alargou o sorriso e cruzou os bracinhos. ‘Isso mesmo. Minha forma original é tão imponente quanto meu verdadeiro nome. Vou lhe mostrar...’
Syaoran rolou os olhos. ‘Agora não, bola de pelo. Outra hora você se exibe.’
Kero olhou para ele. ‘Você sempre foi um desmancha prazeres, kozou. Desde criança me desrespeitando...’ Resmungou, sentando-se sobre a mesa novamente, com os braços cruzados. ‘Pior é que ensinou Shaolin-kun a ser desrespeitoso comigo da mesma forma.’
Shaolin se sentou, olhando para a amiga e para Kero. Sorriu ao vê-la tocando a barriga de Kero com o dedinho, como que para se assegurar que ele era de verdade. Quando o guloso guardião pediu um pedaço do bolo dela, ela protegeu o prato com os braços, olhando para ele de forma mortal, fazendo o garoto soltar uma gargalhada.
Syaoran sorriu de leve, observando o filho. Era bom ouvi-lo rindo daquela forma novamente. Desde que Kazuo chegou, ele estava sempre carrancudo. Observou a filha dos amigos que olhava ainda admirada para Kero, fazendo algumas perguntas enquanto comia o bolo.
Estreitou os olhos no filho e reparou em como ele a admirava. Ergueu uma sobrancelha, entendendo de forma clara o porquê daquele receio todo de Shaolin sobre a reação da menina quando soubesse que tinha um irmão com natureza das trevas.
‘E você faz mais o quê, além de se transformar num felino gigante?’ A menina perguntou intrigada, antes de colocar um pedaço de bolo na boca.
‘Joga videogame… o tempo todo.’ Syaoran respondeu, levantando-se pois havia finalizado o café da manhã. Sorriu para Kasumi que retribuiu de forma tímida. Passou a mão na cabeça da menina. ‘Bom ver você, Kasumi.’ Falou e se inclinou de leve, beijando o alto da cabeça dela. ‘Não era só Shaolin que estava sentindo sua falta.’ Completou, fazendo-a levantar o rosto e fitar o tio, abrindo mais o sorriso.
‘Não temos mais treinado, ojisan. O Shifu não ensina uns golpes tão interessantes como o senhor.’ Ela comentou.
Syaoran sorriu de leve, também andava sentindo falta de treinar com a menina, ela era bem atenta ao que ele falava. Era verdade que, às vezes, ensinava alguns golpes mais avançados para a idade deles. Fazia isso para forçar Shaolin a não ficar apenas no básico, mas sempre se surpreendia em como Kasumi acompanhava suas explicações, fazendo Kurogane ter crises de ciúmes agudas.
Olhou de esguelha para o filho e soltou um suspiro. O amigo realmente enlouqueceria quando a princesinha Kurogane tivesse um namorado. Era melhor Shaolin estar preparado para o que teria que enfrentar.
‘Espero que logo tudo se resolva para voltarmos a ir ao dojo.’ Ele finalmente respondeu, sorrindo para ela. Passou a mão na cabeça do filho, que tentou se esquivar, antes de se afastar. ‘Cuidado para que esta bola de pelo não exploda de tanto comer…’
Kero olhava para Syaoran com os olhinhos em fúria. Bufou e depois voltou-se para a menina. ‘Meus poderes são ilimitados.’ Comentou.
‘Ele come… muito mesmo. Eu nunca sei quem é mais olho-grande, se você ou ele.’ Shaolin comentou antes de morder o sanduíche.
‘Não sou olho-grande.’ Kero falou e ergueu uma sobrancelha para a menina. ‘Apenas preciso manter minha energia alta. Sou um ser muito poderoso.’
Kasumi terminou de comer o último pedaço de bolo. ‘Eu como porque gosto mesmo.’ Respondeu, fazendo o bichano cair sobre a mesa com a sinceridade da garota.
Shaolin riu novamente. ‘Kasumi não dá desculpa esfarrapada como você.’
Kero voltou-se para o menino. ‘Não gosto quando você fica parecido com seu pai.’ Ele falou contrariado. ‘E ainda tem agora o outro moleque mais velho. Três! Assim vou enlouquecer.’
‘Três?’ Kasumi estranhou e ficou mais intrigada quando reparou na reação de Shaolin. O menino franziu a testa e soltou um suspiro irritado.
Logo o motivo para a irritação dele apareceu à porta da cozinha. Kazuo parou, hesitando brevemente antes de abrir um sorriso de lado.
‘Bom dia, pirralho.’ Entrou na cozinha, olhando para Kasumi que se virou para ele. ‘Tem visita hoje, é? Por isso estava ouvindo sua risada.’
A menina olhou para Shaolin e depois para Kazuo novamente.
‘Já falei para não me chamar de pirralho.’ Shaolin falou entre os dentes.
‘Quem é?’ A menina perguntou, voltando-se para o amigo. ‘Primo seu?’
Shaolin suspirou fundo, adoraria não responder, mas… ‘Meu irmão mais velho.’ Falou por fim, mesmo que a contragosto, não mentiria para Kasumi. ‘Meio-irmão, na verdade.’
‘Meio-irmão?’ Ela ainda se mostrava surpresa.
‘É! Meio-irmão!’ Shaolin respondeu novamente, largando o sanduíche do café da manhã no prato. ‘Por parte de pai.’
‘Filho do ojisan?’ Ela perguntou, ainda olhando de um para o outro.
‘Isso, Kasumi!’ Shaolin falou mais alto do que gostaria, com irritação.
Não é que se importava de ter um meio-irmão… Mentira… Importava-se, sim. Mas realmente não gostava “daquele ali” e pronto. Já tinha entendido a situação toda e tinha se acertado com o pai, mas aceitar Kazuo como meio-irmão estava sendo difícil demais. Ele se levantou e encarou o rapaz que o olhava, reparando que o meio-irmão estava se divertindo ao irritá-lo daquela forma.
‘Vamos logo para a escola.’ Shaolin empurrou a cadeira para trás quando a mãe chegou na cozinha, observando os três.
‘Shaolin, termina o seu café da manhã.’ Ela falou, olhando para o menino. ‘E, Kazuo-san… Seu pai pediu para vocês se tratarem pelos nomes, não provoque.’ Advertiu o rapaz, com a voz séria.
Kazuo franziu a testa, não soube se o incomodava mais o fato de ela lhe chamar a atenção ou de saber que estava provocando o irmão mais novo.
‘Estou sem fome.’ Shaolin ainda falou, mas a mãe tocou no ombro do menino.
‘Você não pode fugir o tempo todo desta maneira.’ Ela falou com a voz doce. ‘Parece seu pai quando garoto.’ Falou, sorrindo de lado.
‘Não estou fugindo…’ Shaolin retrucou.
‘Esquivando-se.’ Ela consertou. ‘Fica melhor para você? Não vai mudar em nada você sair correndo de casa sem ter terminado de tomar o café.’
Ela reparou que ele ainda estava contrariado, e muito, mas sentou-se novamente. Passou a mão na cabeça do filho e o beijou rapidamente, mesmo ele tentando se esquivar. Olhou para Kazuo que observava os dois com atenção.
‘E você? Vai tomar o café, ou também vai querer sair correndo?’ Ela perguntou para ele, sorrindo de leve. ‘Acho que você fica com o café, né? É mais petulante.’
Kazuo endireitou o corpo e caminhou até a ilha da cozinha onde se serviu do café da manhã. Sentou-se na frente de Shaolin com cara de poucos amigos também.
Kasumi olhou de um para o outro, mantendo-se calada, mas já tinha entendido o porquê do amigo andar tão irritado nos últimos dias e estar agindo de maneira tão estranha.
Virou-se para tia. ‘Hei, obasan, tem mais um pedaço de bolo escondido do Kero-chan?’
Sakura olhou para a menina. ‘Como sabe que eu escondi?’
‘Oras… com um olho-grande destes em casa, eu esconderia. Tousan faz isso de vez em quando lá em casa.’
Kazuo riu ao ouvir a garota, mas fechou o sorriso assim que olhou para o irmão que o fuzilava com os olhos.
Sakura pegou o pedaço de bolo escondido e colocou na mesa à frente da menina que sorriu.
‘Seu bolo é uma delícia, obasan.’
‘Tudo que se come é uma delícia para você.’ Shaolin murmurou.
‘Não gosto tanto de vegetais. Mas sei que é importante comer.’ Ela respondeu. ‘Ah! Mas este bolo é muito bom mesmo!’ Falou alegre, antes de colocar um pedaço na boca com gosto.
Kazuo a olhava intrigado. Era uma fêmea pequena e bem alegre, pelo jeito. A primeira que tinha conhecido realmente alegre sem ser as Cartas. A ruiva metida e a esposa do pai estavam sempre sérias.
Kasumi virou-se para ele e estreitou os olhos. ‘Não adianta pedir um pedaço que eu não dou. E nem fazer cara de pidão como o Kero-chan.’ Já avisou.
Kazuo olhou para o guardião solar e riu novamente, vendo-o realmente fazer uma cara de pidão. Ela era muito divertida, e era bonitinha. Tinha a pele alva que contrastava com os longos e lisos cabelos negros. Reparou nos olhos castanho-avermelhados, que tinham um brilho intenso. Os demônios que tinham os olhos vermelhos eram os mais sanguinários e resistentes, mas pensou que isso deveria ser diferente para os humanos, já que era impossível um ser com aqueles traços tão delicados ser assim.
Não havia magia em torno dela, mas ela tinha algo de intrigante. Por algum motivo, sentia que a humana pequena não se importaria ao saber que ele era um demônio. Na verdade, tinha a impressão que ela não tinha medo de nada. Tinha gostado dela.
Shaolin pigarreou incomodado, reparando no olhar demorado do irmão na amiga. Sakura olhou para as três crianças, observando o diálogo delas enquanto arrumava a cozinha.
‘Então, você é amiga do pi…’ Kazuo reteve-se e olhou de esguelha para Sakura. ‘...do Shaolin?’
‘Isso não é da sua conta.’ O menino respondeu, atravessado.
‘Estou curioso apenas.’ Ele comentou. ‘Aquela ruiva bem metida falou que você tinha uma “namoradinha”. Não sei o que isso quer dizer, mas era engraçado ela falando isso o tempo todo.’
Kasumi abaixou o rosto, sentindo-o explodir de vermelho.
Shaolin encarou o rapaz com os olhos em fúria. ‘Você realmente é insuportável.’ Falou por fim.
Sakura franziu a testa, reparando na reação da menina e sorriu de leve, balançando a cabeça. Olhou para o filho e pensou que ele era realmente a combinação dela com o marido. Bem distraído nestes assuntos, como ela própria, mas estava na cara que estava tendo uma crise de ciúmes diante da interação do irmão com Kasumi.
‘Hei! Vamos parar com a provocação e terminar o café da manhã em paz, certo?’ Sakura falou, aproximando-se do trio e passou a mão pela cabeça da menina.
Shaolin chegou a abrir a boca para falar que quem tinha começado foi Kazuo, mas desistiu ao ver o olhar da mãe. Voltou a comer o sanduíche em silêncio.
‘Esta é a Kasumi-chan.’ Sakura resolveu fazer as devidas apresentações, já que o filho não parecia nem um pouco disposto a fazê-lo. ‘Kasumi-chan, este é Kazuo-san.’
Os dois trocaram um sorriso tímido que foi percebido tanto por Shaolin como por Sakura.
Kero olhou de um para o outro e pensou que, realmente, eram dois moleques iguais ao pai quando mais novo. Olhou para Kasumi que finalizava o segundo pedaço do precioso bolo. Ah! Que saudades ele tinha de Tomoyo. Já que agora não precisava mais se fingir de boneco, achou que poderia aproveitar. Voou até a menina e parou na frente do rosto dela, sorrindo ainda.
‘Você não quer jogar videogame comigo depois da escola?’ Perguntou com os olhos brilhando.
A menina sorriu sem graça. ‘Eu não sei…’ Ela respondeu. ‘Talvez…’ Falou incerta.
‘Vou apresentá-la a Doces!’ O bichano falou para a menina. ‘Ela pode criar qualquer tipo de doces que a gente pedir.’
Kasumi tinha estrelinhas nos olhos. ‘Shaolin me falou dela. Gostaria muito de conhecê-la.’ Falou, abrindo um sorriso. Kero acenou que sim com a cabeça. ‘E comida?’
‘Comida?’ Kero perguntou, olhando sem entender para ela.
‘Sim… deve ser legal ter alguém que, com um estalar de dedos, cria uma refeição toda, não?’
‘Sim, com certeza.’ Kero respondeu e colocou a mão no queixo. ‘Não sei o porquê, mas ela realmente só faz doces.’
‘Pergunta para ela.’ Kasumi sugeriu. ‘Eu gosto muito de pratos com carne.’
Shaolin olhou para a amiga e balançou a cabeça, sorrindo de leve.
‘Não dá mesmo para acreditar que dois seres tão pequenos quanto este bicho e você comam tanto assim.’ Kazuo falou, olhando para a menina que finalizava o segundo pedaço de bolo.
‘Meu metabolismo é acelerado.’ Ela esclareceu. ‘Além disso, comer é bom. Gosto de cozinhar também.’
‘Estou aprendendo a comer agora.’ Kazuo falou.
Shaolin franziu a testa. O meio-irmão estava mesmo de sacanagem em falar com a sua amiga na frente dele como se fosse a coisa mais natural do mundo.
‘Mesmo? Que chato. Você não comia antes, não? Veio da onde? Ou a comida na sua casa era muito ruim?’
‘De onde eu venho a gente não precisa comer.’ Ele esclareceu.
‘Ah…’ Ela olhou para ele com pena. ‘Que tristeza.’
Ele endireitou o corpo ao reparar no olhar dela. ‘Não é tão ruim assim… Acho que pior é sentir aquela dor aqui.’ Falou, apontando para barriga.
‘Ah! Fome…’ Ela entendeu de imediato. ‘Também odeio sentir fome. Fico de muito mau-humor.’
‘Mau-humor?’
Ela assentiu com a cabeça. ‘Fico uma fera. Shaolin sabe disso.’
‘Então, tem que sempre levar comida para você?’ Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Ela sorriu para ele, fazendo-o ficar corado. ‘Gosto de carne!’ Esclareceu. ‘E korokkes! São difíceis de fazer. Shaolin não gosta. Mas são uma delícia. Posso ensinar você a fazê-los. Você quer?’
‘São tão bons assim?’
‘Muito.’
‘Então quero aprender! Você me ensina mesmo?’
‘Claro! Gosto de explicar. E é divertido cozinhar. Você vai ver…’
Kazuo sorriu novamente. ‘Deve ser mesmo. Aprendo fácil e faço para você.’ Ele respondeu, fazendo-a abrir mais o sorriso. Não se importaria de fazer o que ela pediu se fosse para passar mais tempo com ela.
Shaolin olhou de um para o outro e franziu a testa, irritado. Levantou-se, empurrando a cadeira para fazer barulho e chamar atenção dos dois. ‘Depois da aula não dá para você vir aqui, Kasumi.’ comentou. ‘Teremos que treinar… De novo… Na casa da nee-san.’
‘Hum… entendo.’ Ela falou, olhando para o amigo.
‘E por que você não leva a sua namoradinha?’ Kazuo perguntou. Pelo que entendeu pela reação do irmão, ele a tinha escolhido para ser a fêmea dele.
Sakura pigarreou e estreitou os olhos no rapaz que levantou os braços, olhando para ela sem entender. Ele estava tentando ser simpático, não? Tinha gostado da fêmea pequenina, ela parecia mais legal do que o irmão e a ruiva metida. E fez o certo, perguntou para o garoto e não diretamente para ela.
‘Quem sabe um dia.’ Sakura respondeu pelo filho. ‘Vamos logo. Se não… vocês se atrasarão.’ Ela olhou para o bichano. ‘Kero-chan, você já comeu o suficiente, não?’
Kero voou em direção a saída da cozinha. ‘Você está pão-dura igual aquele seu irmão, Sakura-chan…’ Ele ainda resmungou. Olhou para Kasumi mais uma vez e sorriu. ‘Que bom que não preciso mais me fingir de boneco para você.’
Ela sorriu para ele. ‘Legal saber que você não é apenas um bichinho de pelúcia horroroso que o Shaolin tinha no quarto.’
Kazuo soltou uma gargalhada, acompanhado por Sakura, enquanto Kero olhava para a garota com o queixo caído. Shaolin colocou a mão no rosto e balançou a cabeça de leve. Kasumi não precisava ser assim tão honesta.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Marie chegou da escola e deixou a pasta no móvel mais próximo da porta de casa. Estava se sentindo irritadiça hoje, mais que o normal. Mal se aguentou dentro da sala de aula, assistindo aquelas aulas intermináveis. Teve que realmente se controlar para não invocar uma magia e sumir da sala de aula.
Além disso, por mais irritante que fosse constatar aquilo, havia se flagrado várias vezes durante o dia procurando a presença daquele moleque insuportável. No começo usava como justificativa procurar a presença dele para saber se ele não estaria se metendo em confusão, pois andava solto a vontade neste universo, mas depois parou de se enganar e admitiu que estava mesmo procurando a presença dele para saber onde estava e se estava por perto. E o pior era que ficava mais irritada ao perceber que ele não estava.
Nakuru logo se aproximou da jovem e reparou que a aura dela estava agitada. Olhou-a de cima a baixo, mas não comentou nada. Isso incomodou Marie.
‘O que foi?’ Ela perguntou, erguendo o queixo em tom desafiante.
A guardiã estreitou os olhos nela. ‘Sua aura está agitada, apenas isso.’
Marie abriu os braços e sorriu de forma irônica. ‘Ah! Claro. E você está com medinho que eu, sei lá, enlouqueça e comece a explodir tudo, não?’
Nakuru franziu a testa e devolveu a encarada da jovem. ‘Desde que aquele ser das trevas apareceu… ou melhor…’ Ela reteve-se por alguns segundos, aproximando-se de Marie. ‘Desde que o trouxe do mundo das trevas, você anda irritada e instável. Você nunca foi assim.’
‘E o que isso quer dizer?’ Marie perguntou não gostando do tom de voz dela. ‘Eu não tenho nada a ver com aquele… aquele moleque irritante!’
Nakuru cruzou os braços, ainda encarando a jovem filha de seu mestre. ‘Está querendo enganar a quem aqui, Marie-chan?’ Falou. ‘Pois a mim, você não engana. Conheço você desde antes de ter nascido, entendeu?’
Agora foi a vez de Marie estreitar os olhos em Nakuru. ‘Está falando de quê, exatamente?’ Ela pediu para ser mais clara. ‘Você sequer conviveu com as outras Cartas por tempo suficiente para alegar conhecê-las. Não finja que me conhece!’
A guardiã comprimiu os lábios. ‘Não acha que está na hora de tirar logo essa história a limpo com o seu pai ao invés de ficar fugindo?’
‘Eu não estou fugindo!’ Gritou, irritada. ‘Só não tenho razão para tirar nada a limpo com o arrogante do Clow-sama! Para quê? Para ele novamente falar aquele monte de merda sobre como os demônios são perigosos e só querem destruir a humanidade e blá-blá-blá…’
‘Não!’ Nakuru elevou o tom de voz. ‘Deveria conversar com o seu pai.’
As duas se encararam em silêncio. Marie sentiu a aura de Ruby Moon aumentar, assim como a sua própria. A guardiã do pai estava nervosa também, provavelmente achando que ela a atacaria. Atacaria seu mestre. Atacaria a todos porque, afinal, ela tinha sido um demônio! Sua magia vinha diretamente das trevas e ainda estava entrelaçada ao plano inferior de forma estreita. A aparição de Kazuo apenas fez com que isso ficasse mais claro para todos, porque a energia do insuportável filho do tio com aquele… Aquele demônio feminino traiçoeiro vibrava com a dela. Inferno!
‘Acho que você tem razão, Ruby Moon!’ Ela falou, mal controlando a irritabilidade. ‘Vou tirar isso a limpo agora com ele.’ Disse decidida, subindo as escadas com passos duros em direção ao escritório onde sentia a presença do pai. Praticamente invadiu o cômodo.
Eriol levantou o rosto, observando a filha entrar como um furacão. O rosto estava vermelho, a aura expandida e agitada. Ruby Moon estava na sua forma original e logo Spinel Sun apareceu também atrás de Marie. Os dois guardiões estavam nervosos com a presença da garota.
A reencarnação de Clow se levantou e observou os três.
‘Precisamos conversar.’ Marie falou com o tom autoritário, caminhando em direção a ele e parando em frente a mesa. Colocou as mãos sobre o móvel e inclinou o corpo encarando o pai que tinha o semblante sereno.
Eriol desviou os olhos do rosto da filha e fitou os dois guardiões que o olhavam apreensivos.
‘Deixem-nos a sós.’ Ele pediu para os dois.
‘Mestre…’ Spinel Sun o chamou. ‘Acha que…’
‘Por favor.’ Eriol insistiu. Sabia que os dois estavam nervosos, mas aquela conversa deveria ser entre ele e a filha apenas. ‘Vão ajudar Kaho no templo.’ Ele pediu com a voz suave. ‘Eu ficarei bem. Vou apenas conversar com a minha filha.’
‘Rá!’ Marie soltou de forma irônica. ‘Sou sua filha agora?’
‘Exatamente.’ Eriol confirmou, voltando a fitar a filha. ‘Pelo que eu saiba, nas suas veias, corre o meu sangue.’
Marie franziu a testa, observando o rosto do pai em silêncio. Eriol novamente insistiu para que os seus guardiões deixassem-nos a sós e foi, obviamente, obedecido apesar da contrariedade deles.
Assim que sentiu o afastamento dos dois guardiões do pai, Marie soltou o que estava entalado na garganta há muito tempo. Desde muito antes de seu nascimento.
‘Por que não me ouviu?! Por que simplesmente nos lacrou daquela forma sem nem nos deixar explicar o que estava acontecendo? Por que nos perseguiu de forma implacável?’ Ela começou a perguntar enquanto caminhava de um lado para o outro, abrindo e fechando os braços. Ora olhando para o pai, ora desviando os olhos dele. ‘Por que nos lacrou e nos usou como se fôssemos objetos mágicos sem vontade própria? Por que nos lacrou dentro de um livro até que seu sucessor aparecesse?’ Ela parou a frente da mesa, batendo com as mãos no móvel com raiva e encarando-o. ‘Por que me selou daquela forma por tantos e tantos anos? Séculos?! Por quê?!’ Gritou e, por mais raiva que tivesse disto, sentiu os olhos arderem, indicando que sua parte humana, novamente, entregava seus sentimentos. O que sentia era uma mistura de raiva de Clow e amor pelo pai. Aquilo a estava enlouquecendo. ‘Por quê?!’ Gritou novamente e sentiu sua aura mágica expandir de forma violenta.
Eriol deu um longo suspiro, sem tirar os olhos do rosto vermelho da filha. Os olhos azuis, tão parecidos com os dele, estavam brilhando com a iminência de lágrimas, que ela teimosamente tentava impedir que saíssem de seus olhos. Ele abaixou o rosto e olhou para o livro que estava estudando. Empurrou-o em direção a ela e fez um gesto com a cabeça para que a jovem prestasse atenção.
Marie franziu a testa. Olhou para o livro e depois para o rosto do pai, sem entender. ‘O que é isso?’ Ela perguntou com um sorriso irônico nos lábios. ‘O que esta imagem do inferno tem a ver com a pergunta que eu lhe fiz?’
‘Este livro…’ Ele começou a responder e fez um gesto com a cabeça em direção às estantes da grande biblioteca. ‘Assim como muitos outros livros que estão aqui, descrevem o inferno e os seres das trevas de forma terrível.’
‘Os homens sempre temeram o que não conseguem entender.’ Ela rebateu.
‘Exatamente.’ Ele concordou. ‘Assim como eu não conseguia entender o que realmente estava acontecendo quando o portal foi aberto. Eu tive medo. Muito medo.’ Assumiu, de forma sincera.
Ela riu de forma irônica novamente. ‘Então o poderoso Clow estava se borrando, é?’
Eriol respirou fundo. ‘Apesar de suas palavras chulas… Foi exatamente isso. Eu estava com medo, em pânico e muito arrependido do que tinha feito para ajudar Shyrai naquela loucura.’ Ele respondeu. ‘Não era medo pela minha vida. Se apenas a minha vida fosse o preço por aquele passo mal dado, seria algo que pagaria sem problemas. Era medo do que poderia acontecer com tantas outras vidas que não tinham nem ciência do que estava acontecendo.’
‘Aí o que você fez?’ Ela continuou seu acesso de fúria. ‘Perseguiu-nos como se fôssemos animais em caça para nos aprisionar nas Cartas! Como se fôssemos nós os culpados por aparecermos neste universo.’ Ela apontou para ele. ‘Você diz que tinha medo, mas isso não o impediu de nos usar! Não se importou se éramos seres independentes! Não se importou se tínhamos algo para falar ou se queríamos voltar para o nosso universo! Você!’ Ela falou, trincando os dentes. ‘Só ficou preso ao seu pânico.’
‘Sim.’ Ele respondeu com sinceridade. ‘Depois de ter estudado tanto sobre os seres das trevas e depois de relatos como os de Muy Shyrai sobre o que os demônios eram capazes de fazer… Eu não tinha, na época, dúvidas sobre o interesse de vocês em conquistar e destruir o nosso universo. Fiquei com medo por mim e pelas pessoas não dotadas de magia.’
‘Muy Shyrai era filho de um demônio com uma humana!’ Marie gritou. ‘Como você pôde ser tão cego em não ter percebido isto? Como você se deixou enganar de forma tão estúpida?! E ainda se considerava capaz de ter todas as respostas!’
Eriol franziu a testa e depois meneou a cabeça de leve. ‘É… Agora faz certo sentido toda a raiva que ele tinha dos demônios e depois ter se tornado exatamente igual a eles.’ Fez uma pequena pausa. ‘E também ele ter se adaptado tão bem ao mundo das trevas.’
‘Oh!’ Marie soltou de forma debochada. ‘Conseguiu compreender agora, poderoso Mago Clow?’
‘Sim… Consegui compreender só agora.’ Os dois se encararam por alguns segundo em silêncio. ‘E eu não sou Clow, assim como você não é Vácuo.’
‘Khala’a! Meu nome era Khala’a, não Vácuo!’ Marie gritou. ‘E eu nunca deixei de ser ela!’
‘Tem certeza?’ Eriol perguntou em tom de desafio. ‘Tem certeza de que ainda é ela?’
‘Minha magia… minhas lembranças… toda dor que você me causou… tudo!’ Ela falou apontando para o próprio peito. ‘Tudo ainda está aqui!’
‘Você… não era mais simplesmente Khala’a nem mesmo antes de reencarnar, Marie. Você, de alguma forma, tinha se tornado “Esperança”. Lembra-se?’
Ela trincou os dentes. Ele tinha razão. Balançou a cabeça de leve com fúria. ‘Não graças a você!’ Continuou a despachar toda a raiva que ainda sentia. Pelo menos sentia que, conforme as palavras saíam de sua boca, a vontade de invocar uma magia e atingir Clow começava a diminuir. ‘Foi graças a eles! À sua sucessora e seu descendente que eu me transformei em Esperança e evoluí. Você?’ Voltou a apontar para ele de forma acusatória. ‘Você me lacrou, deixou-me em total isolamento por séculos!!! Você não imagina o desespero que foi aquele tempo sentindo-me como “morta”, mas estando viva e consciente de cada segundo que se passava!’
‘Clow-sama errou.’ Eriol falou, ainda mantendo a voz num tom moderado. ‘Não vou tirar a culpa dele, não vou minimizá-la e muito menos justificá-la.’
‘E o que você quer ganhar com isso?!’ Ela gritou, sentindo-se irritada com a calma demonstrada por ele. Por que ele não esbravejava? Por que ele não a ameaçava? Não lhe dava motivos para… para fazer alguma coisa? ‘Quer que eu o perdoe? Que eu tente matá-lo? Que eu… sei lá… me vingue desta merda de universo no qual fui aprisionada de forma indevida por você?!’
‘Olha esse linguajar…’ Eriol a repreendeu, recebendo um olhar torto. Suspirou, meneando a cabeça. ‘O que você quer, Marie?’ Perguntou. ‘O que você realmente quer? Não pode negar que um dia foi Vácuo ou Esperança… mas também não pode negar que agora você é humana… E que você, querendo ou não… é minha filha.’
Ela cerrou os punhos e fechou os olhos com raiva. ‘Eu não quero ser sua filha!’
‘Mas é…’ Ele rebateu. ‘Você é minha filha. Você agora, Marie, querendo ou não, é uma garota humana de dezesseis anos que, infelizmente, recuperou as memórias das injustiças que sofreu em nossas vidas passadas. Você, minha filha, está vivendo nas sombras de sua vida passada, assim como eu. E isso…’ Ele fez uma pausa novamente. ‘Apenas nos torna mais parecidos.’
Marie arregalou os olhos ao ouvir o que o pai acabou de falar. Nunca seria parecida com Clow. Nunca!!!
Eriol franziu a testa, reparando a aura mágica da jovem explodir de tal forma que ele pensou, por um momento, que ela fosse realmente atacá-lo. Reparou que ela ainda deu um passo a frente e cerrou os punhos mais forte enquanto trincava os dentes. Os olhos tremiam enquanto o encaravam de forma profunda.
Marie sentiu o peito arder de tal forma que pensou que o coração tinha parado de bater. Engoliu em seco, sentindo descer o bolo enorme que se formava na sua garganta. Deu as costas a ele e levantou a mão, fazendo com que sua magia formasse uma rajada forte de vento e, literalmente, derrubando a porta do escritório, antes de sair por ela com passos duros.
Eriol ouviu o barulho de alguns objetos sendo quebrados. Provavelmente, a magia em torno da jovem estava fazendo tudo ser jogado longe. Deixou-se cair na poltrona, tirou os óculos e passou a mão no rosto. Não podia negar… Estava com medo. Não da natureza da filha ou da origem dos poderes dela, mas de perdê-la.
Sorriu de leve e balançou a cabeça, controlando-se para não rir de forma quase histérica. No fundo, Marie estava se comportando como uma adolescente.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
‘Espero que aquele cara tenha saído hoje, senão vamos estudar na sua casa.’ Shaolin falou contrariado, caminhando pela calçada em direção ao sobrado branco.
Kasumi vinha ao lado do amigo e olhou-o de esguelha. ‘Está falando do seu irmão?’
‘Meio-irmão.’ O garoto falou entre os dentes.
‘Ele parece legal.’ Ela falou com um dedinho no queixo. ‘Não dá para acreditar que ele é tipo um ser das trevas e essas coisas.’ Falou, encolhendo um pouco os ombros.
Shaolin franziu a testa e olhou de soslaio para a amiga. ‘Eu só contei isso, porque prometi não lhe esconder mais nada. Mas não é para você ficar amiga dele e toda simpática também! Eu não o suporto.’
Kasumi rodou os olhos. ‘Você nem está dando chance de conhecê-lo.’
‘Nem quero! Ele vive falando que quer voltar lá para o inferno! Então deveria ir de uma vez.’
‘Eu acho que ele gosta de você.’
Shaolin respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Ele é um demônio…’ Murmurou.
Kasumi encolheu mais os ombros. ‘Mas pelo que você me contou… as Cartas também são, não? E você as adora.’
‘Eu sei disso…’
‘Então por que está na defensiva com ele?’
‘Porque…’ O garoto começou a falar e se reteve por alguns segundos com o olhar vago. ‘Porque tê-lo como irmão… é ter a certeza que nunca terei uma vida normal.’
Kasumi olhou para ele e sorriu de forma suave. ‘E o que significa “ser normal”, Shaolin? Se você fosse normal, não teria as Cartas… ou Kero-chan…’
‘Eu sei… Mas…’ Ele reteve-se novamente e baixou os olhos. ‘Você é normal…’
Ela ergueu uma sobrancelha. ‘E o que tem isso?’
Shaolin virou-se para ela e a fitou alguns segundos em silêncio. ‘Você… você realmente… não se importa?’
Ela inclinou a cabeça de leve, sem entender. ‘Com o quê?’
Shaolin balançou a cabeça e desviou os olhos dela. ‘Nada… deixa pra lá…’
Kasumi abaixou os olhos para a calçada e sorriu de forma triste. ‘Sabe… você deveria repensar melhor isso. Um irmão é alguém que sempre será ligado a você, mesmo que estejam separados…’
‘Talvez… Eu só queria ser normal e agora me aparece um irmão do nada!’ Soltou um suspiro e balançou a cabeça de leve. ‘Daqui a pouco… Sei lá o que mais vai aparecer…’ Desviou os olhos para um ponto qualquer. ‘Sei lá… E se os perigos pelos quais meus pais passaram voltarem a acontecer?’
‘Você não tem controle sobre isso…’
Ele concordou com a cabeça. Não tinha controle sobre o que podia acontecer, mas tinha controle sobre quem envolver nestes perigos. Andava tendo muitos pesadelos desde que Kazuo surgira e sabia que eles estavam lhe avisando de algo.
Agora entendia o porquê os pais insistiam em não contar para Tomoyo-ba-san e Kurogane-ji-san sobre magia, embora eles soubessem de tudo na outra existência deles. Às vezes, sentia-se um pouco arrependido de ter contado a verdade para Kasumi.
Kasumi parou à frente do sobrado branco da rua do templo Tsukimine. Levantou o rosto e olhou para a construção, achava ela tão bonitinha. ‘E aí? Ele está ou não?’
Shaolin franziu a testa de leve e se concentrou. Na verdade, não soube se estava satisfeito ou não por não perceber a presença do irmão. Ele devia ter saído com Kagami. Esperava que ele não se metesse em confusão.
‘Vamos! Ele não está! Preciso entender a droga daquela matéria de geografia para fazer a prova. Não estava com cabeça para prestar atenção no que Hinata-sensei falou nas duas últimas semanas.’ Falou, já empurrando o portão e o segurando para a amiga passar. Atravessaram o jardim da casa e logo estavam entrando no sobrado.
‘Cheguei com a Kasumi!’ Shaolin gritou assim que abriu a porta de casa, pois já ouvia a algazarra das Cartas.
Ele já tinha falado para elas que não precisavam mais se esconder da menina. Ergueu uma sobrancelha, percebendo que o barulho cessou de repente. Olhou para dentro da casa e viu quase todas elas paradinhas, em suas formas originais e olhando para a entrada. Ele franziu a testa e deixou a porta aberta para Kasumi passar.
A menina entrou e olhou em volta, observando timidamente as criaturas mágicas que a encaravam fixamente em silêncio. ‘Oi.’
Logo a algazarra voltou, Shaolin riu ao ver a amiga ser cercada pelas Cartas, todas falando ao mesmo tempo, contando sobre todas as vezes em que se manifestaram para ajudá-la, sem poderem se revelar.
Bosque era a carta que mais a adorava. Várias vezes havia criado “moitas” de anteparo para salvá-la de quedas. Brilho voava ao redor da cabeça da menina, falando que adorava quando se manifestava e a menina a comparava a estrelinhas caindo do céu e não a vagalumes. Corrida pulou nos braços dela, pedindo carinho, enquanto Troca estava aos pés da garota.
‘Hei, vocês vão assustá-la.’ Terra falou com a voz séria para as outras. ‘Não é porque ela agora sabe a nosso respeito, que todas devem falar com ela ao mesmo tempo!’
‘Para de ser chata! Sempre queríamos falar com ela quando vinha brincar com Shaolin. Só Espelho é que se divertia!’ Força resmungou.
Shaolin observava Kasumi cercada pelas criaturas mágicas. Não era só ele que não gostava de manter o segredo. As Cartas também reclamavam de não poder brincar com a menina. Sorriu de leve, percebendo que a menina tentava dar atenção a todas elas. Trevas estava atrás dela, passando as mãos nos cabelos longos da menina e falando que eram parecidos com os dela e como os achava bonitos.
Chuva perguntou, com biquinho, por que a menina não gostava dela e Kasumi tentou se justificar dizendo que não gostava de dias chuvosos, mas que gostava dela, sim, e que ela era muito fofinha.
Shaolin pensou que deveria pedir para a deixarem em paz porque eles precisavam estudar. Teriam prova dali a dois dias e ele estava mais perdido do que qualquer coisa na matéria, mas observá-la junto com as Cartas, no fundo, trazia-lhe tanto alento. Como havia sonhado em contar para a amiga sobre as Cartas. Como tinha desejado pelo dia em que ela estivesse completamente dentro da sua vida, sem que precisasse esconder algo dela. Encostou-se em um móvel da casa e cruzou os braços, apenas observando-a.
Levou ainda alguns minutos para as Cartas se sentirem satisfeitas, voltando cada uma a seus afazeres e outras atividades, deixando a menina estudar com Shaolin. Flor tinha prendido uma rosa vermelha nos cabelos longos de Kasumi, pois sabia que ela gostava daquela flor. E algumas ainda ficaram sentadinhas perto das crianças que estavam estudando na mesa da sala, apenas sentindo-se bem em não precisarem se esconder dela.
‘Vou pegar um copo de água, está bem?’ Ela falou se levantando.
‘Eu pego!!! Ou Movimento pode pegar agora!’ Sono falou, sentada diante deles.
Kasumi sorriu para a fadinha. ‘Não se preocupe. É para esticar as pernas também.’ Respondeu, caminhando e sendo seguida pelo ser alado que voava perto do seu rosto.
‘Pede para Doces fazer muitos doces para você!!!’ Ela ainda sugeriu.
‘Sim. Assim que Shaolin entender a matéria.’ A menina comentou, sorrindo.
‘Doces sabe que você adora o bolo da mestra! Ela pode fazer um igual para você!’
A menina sorriu, agradecendo com um gesto. Pegou o copo e o encheu, bebendo com calma antes de voltar para a sala onde o amigo tentava, de forma desesperada, reler as anotações que ela tinha feito ao longo das aulas em que ele esteve desatento.
‘Hei! Podemos brincar depois que vocês terminarem de estudar, né?’ Tempestade sugeriu, saltitando ao lado da menina que se virou para ela e sorriu.
‘Acho que sim.’ Respondeu, sem parar de caminhar quando esbarrou em alguém. Sentiu que pegaram seu pulso para não cair para trás e virou-se, arregalando os olhos para a figura austera de Retorno à sua frente. Os dois se fitaram em silêncio com os rostos sérios.
Shaolin levantou o rosto das anotações que lia e franziu a testa observando Kasumi e Retorno. As outras Cartas tinham se afastado, ao vê-los envolvidos em magia.
‘O quê?’ O menino perguntou, erguendo-se e caminhando em direção às duas. Tinha reparado que os ponteiros do relógio que a Carta carregava estavam se movendo rapidamente em sentido anti-horário.
Kasumi tinha os olhos fixos em Retorno que também não desviava os olhos da menina.
‘Hei!’ Shaolin chamou, aproximando-se dos dois, preocupado. Tentou puxar a amiga, mas não conseguiu devido a energia que os envolvia. ‘Retorno!’ O garoto chamou a carta, com a voz assertiva.
Demorou alguns segundos até a Carta soltar o pulso da menina. Kasumi deu um passo para trás, sentindo-se atordoada e Shaolin teve que segurá-la para que não caísse. ‘Hei! Está tudo bem, Kasumi?’ Perguntou preocupado.
Kasumi balançou a cabeça de leve, ainda atordoada. Tinha ainda a respiração acelerada e tentava se acalmar. Tinha visto tantas imagens em sua mente que não sabia se eram fantasia ou realidade. Nem sabia direito onde estava. Ela levantou o rosto e observou Retorno que tinha um sorriso suave e satisfeito nos lábios.
Shaolin franziu a testa, nunca tinha visto Retorno sorrindo. Ele e Tempo, assim como Silêncio, eram as cartas mais “mal-humoradas”.
‘Então você conseguiu controlar aquele idiota do Murasame.’ Retorno falou satisfeito, gerando um burburinho entre as Cartas.
‘Mu-Murasame…’ Kasumi murmurou e balançou a cabeça de leve, sem entender.
‘Do que está falando, Retorno?’ Shaolin perguntou, fitando a carta com o rosto sério.
Retorno voltou a adotar sua postura austera, levando as duas mãos ao relógio. ‘Murasame adorava corromper almas humanas… Ironia ter sido subjugado por uma humana.’ Falou sem responder à pergunta de Shaolin e virou-se, afastando-se. ‘Bom trabalho, Cadeado.’ A Carta ainda falou.
Só então o menino percebeu a presença do pequeno cadeado com asas, flutuando ao lado de Retorno.
Shaolin franziu a testa, estreitando os olhos nas Cartas. Queria tirar a limpo o que fizeram com Kasumi e pensou em ir atrás delas, mas sentia ainda que a amiga o estava usando como apoio para se manter em pé. Voltou-se para ela mais preocupado ainda. ‘Kasumi! Você está bem?’
Kasumi fechou os olhos por alguns segundos e depois os abriu. Tentou firmar as pernas, mas ainda as sentia tremerem. ‘Estou bem.’ Era mentira, mas ainda não sabia o que tinha acontecido, o que tinha visto…
‘Você está pálida.’ Ele comentou, segurando-a mais firme ao perceber que a amiga tentava se afastar dele.
Kasumi levantou os olhos e os arregalou de leve, vendo, num dos cantos da sala, a figura de um ser alado que a encarava com severidade. Já o tinha visto em seus sonhos algumas vezes, sempre a advertindo para que não usasse armas, não lutasse com espadas. Que aquele era o trato. Shaolin virou-se para onde a menina olhava de forma assustada.
‘O que foi?’ Perguntou, não vendo nada de anormal que justificasse o rosto da menina.
Ela virou-se para o amigo e depois, novamente, para onde tinha visto o anjo que já havia desaparecido.
‘E-estou bem… eu acho…’ Ela respondeu. ‘A-acho… eu preciso ir ao banheiro.’ Falou, colocando a mão à frente da boca.
Shaolin arregalou os olhos, sentia o corpo da garota tremendo. ‘Mas que droga! O que você está sentindo?’ Perguntou com o tom de voz mais alto, nervoso. Jurava que, por uma fração de segundos, pôde ver uma aura púrpura em torno da menina após ela ser liberada da magia de Retorno.
Kasumi deu um passo a frente, com os olhos baixos. Tinha visto tanto sangue e horror à sua frente que sentia, pela primeira vez na vida, o estômago revirado. ‘Banheiro…’ Repetiu sussurrando, quase em súplica para o menino que a ajudou a chegar até o lavabo.
Shaolin olhou mais assustado ainda ao ver a amiga quase não conseguir chegar ao local adequado para vomitar. Teve que segurá-la com receio dela cair e se machucar. Nunca a tinha visto tão frágil daquela forma antes e aquilo chegava a lhe causar agonia dentro do peito.
Depois que ela se aliviou, ele levantou o rosto dela e a ajudou a chegar à pia para se lavar.
‘Ka-Kasumi…’ Ele a chamou.
Ela ainda estava com os olhos fechados enquanto jogava água no rosto na tentativa de se sentir melhor. Precisou de alguns minutos para conseguir erguer o corpo mais firme e forçar um sorriso fraco para o amigo que a olhava quase apavorado.
‘Melhor ligar para Tomoyo-ba-san. Vou levá-la ao hospital.’
‘Já estou me sentindo melhor…’ Respondeu sem passar credibilidade alguma.
Ouviram o barulho da porta da frente e logo Shaolin percebeu a presença do irmão e de Kagami. As Cartas todas estavam quietas depois do que aconteceu com Kasumi.
Kagami, assim que entrou em casa franziu a testa vendo suas companheiras com os rostos tensos. Kazuo estranhou o silêncio delas, sempre era uma anarquia naquela sala.
‘O que aconteceu?’ Kagami com o rosto duro, perguntou às Cartas, que ainda se entreolhavam.
Luz soltou um suspiro. ‘Retorno resolveu tirar aquilo a limpo…’
Kagami estalou a língua e fechou os olhos irritada. Quando os abriu, procurou pelo companheiro que tinha desaparecido.
‘O que está acontecendo?’ Kazuo perguntou aflito. Franziu a testa e percebeu a presença agitada do irmão em casa. ‘Cadê o Shaolin?’ Já perguntou, caminhando pela residência a procura do irmão, preocupado.
Encontrou-o no lavabo, segurando uma Kasumi pálida como um fantasma.
Shaolin virou o rosto e encarou o irmão. Parecia loucura, mas, pela primeira vez, desde que tinha descoberto quem era o rapaz, ficou feliz em vê-lo. ‘Kasumi está passando mal.’
‘Eu vou ficar bem…’ Ela respondeu, mas ainda sentia o estômago revirado, só não tinha mais o que jogar para fora.
‘Você não está bem. Está suando frio.’ Shaolin a cortou.
Kazuo se aproximou. ‘Deixa que eu ajudo.’ Ofereceu-se, fazendo o irmão dar passagem para ele segurar a menina, pegando-a no colo. ‘Melhor deitá-la no sofá.’
‘Vou ligar para Tomoyo-ba-san.’ Shaolin falou, afastando-se para pegar o telefone enquanto observava o irmão carregar a menina e depositá-la no sofá.
Ele franziu a testa, observando o corpo encolhido de Kasumi. Desviou os olhos e viu Kagami discutindo baixo com Retorno na antesala. Tempo e Trevas estavam com elas. As três cartas pareciam bem zangadas.
Tomoyo teve que chamar duas vezes até o menino voltar a prestar atenção na tia no outro lado da linha. Informou a ela sobre Kasumi e, como bem imaginou, a tia falou que já estava a caminho.
Desligou o telefone e parou ao lado do irmão que olhava para a menina, sério. Abaixou-se e afastou a franja negra, molhada de suor, da testa gelada. Ela estava toda gelada.
‘Kasumi… o que você tem? O que está sentindo?’
Ela se encolheu no sofá. ‘E-eu vou ficar bem… Foi só um pesadelo.’ Ela respondeu. ‘Só mais um pesadelo.’
Shaolin trincou os dentes, nunca imaginou que doesse tanto vê-la daquela forma. Kasumi, mesmo quando machucada devido a alguma travessura dos dois, sempre se manteve alerta e forte. Na maioria das vezes, ela parecia inclusive indiferente à dor ou ao machucado que sangrava. Nunca a viu frágil daquela forma.
Kasumi sorriu de leve quando sentiu Shaolin sentando no sofá e a abraçando apertado. Acomodou a cabeça no peito dele e soltou um suspiro dolorido.
Era só mais um pesadelo como tantos que já teve. A única diferença era que, desta vez, as imagens eram nítidas. Pareciam-se menos com um sonho e mais com lembranças de um passado que deveria ter sido esquecido.
Shaolin levantou o rosto e encarou o irmão que se mostrava preocupado, observando-os sem saber o que fazer. Forçou um sorriso de leve e inclinou a cabeça, agradecendo de forma contida a ajuda. Kazuo fez o mesmo, informando, de forma silenciosa, que não precisava agradecer.
Continua.
Fale com o autor