FEITICEIROS

66 Arena Mortal (Mate o Exorcista)


FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 66

Arena Mortal

(Mate o Exorcista)

Kasumi chegou em casa, tirou os sapatos e colocou a pasta perto da entrada. Estava contrariada. Tinha recebido a nota da prova de matemática e não foi muito bem. Sabia que receberia uma chamada do pai sobre isso e ele, provavelmente, iria obrigá-la a estudar mais. Colocou a mão no rosto, balançando a cabeça leve. Aquela maldita dor de cabeça e a apreensão estavam enlouquecendo-a. Não dormia direito, não conseguia prestar atenção nas aulas, andava distraída demais. Quase tinha sido atropelada na semana anterior por estar distraída, envolta em seus pensamentos.

‘Bem-vinda, Kasumi-chan!’ Uma das empregadas da casa a cumprimentou alegremente.

Kasumi levantou o rosto e forçou um sorriso. ‘Obrigada, Sayo-san…’ Respondeu baixinho, caminhando pela sala com passos arrastados.

A senhora franziu a testa, estranhando o semblante da menina. ‘A senhorita está bem? Gostaria que eu lhe servisse alguma coisa para comer? Fiz uma torta de frutas vermelhas que eu sei que adora!’ Ofereceu animada.

Kasumi a fitou por alguns instantes, mas logo continuando seu caminho até a escada que levava ao segundo andar da casa. ‘Obrigada, Sayo-san. Estou sem fome.’

A senhora arregalou os olhos, preocupada. Kasumi nunca recusava qualquer coisa que ela oferecia. O semblante da menina estava cansado e apático. Ligaria para sua senhora, informando que a filha chegou e parecia doente.

Kasumi subiu os degraus devagar e pensou em se deitar e dormir um pouco antes de se arrumar para ir ao dojo. Estava para mudar de categoria e o professor estava pegando no pé dela para que participasse de alguns campeonatos. Ela não estava afim. Tinha ido a alguns no passado por causa do pai, que adorava vê-la competir, mas não gostava muito daquela pompa toda.

A única coisa que gostava era poder lutar contra algumas adversárias mais experientes e mais fortes. Já tinha se acostumado com os erros das colegas de turma e as lutas do treinamento não duravam muito. O professor já estava até fazendo-a treinar com os meninos e alguns alunos de categorias mais altas, mas as lutas também não eram assim tão interessantes.

Entrou no quarto e fechou a porta, apoiando as costas na porta e jogando a cabeça para trás. Fechou os olhos e soltou um suspiro. Estava com sono, com o corpo dolorido, cansada demais. Aquele processo de relembrar sua vida passada tinha que parar ou enlouqueceria.

Respirou fundo e soltou o ar devagar algumas vezes. Tentou se afastar da porta, mas sentiu o corpo pesado, então apenas se deixou escorregar até estar sentada no chão. Fechou os olhos, massageando a cabeça por alguns minutos e, quando os abriu novamente não estava mais no seu quarto.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Kasumi sentia o corpo dolorido e machucado. Tinha sido arremessada com violência e bateu com tudo em uma das árvores da floresta onde se encontrava.

Estreitou os olhos no adversário, um grande demônio a sua frente. Era forte demais. Tinha quase três metros de altura, o corpo humanóide e musculoso com garras afiadas nas mãos e presas na boca. Tinha uma arma que mais parecia um machado afiado o qual usava para retalhar rapidamente suas vítimas.

Desviou, brevemente, os olhos dele e viu a enorme quantidade de cadáveres espalhados pela floresta esquartejados pelo demônio. Homens, mulheres e crianças.

Ainda apoiada no tronco da árvore, levantou-se sentindo ferimentos profundos em várias partes do corpo, consequência, principalmente, das garras da besta. Ele era muito rápido para um demônio corpulento. Conseguia se desviar bem do machado, mas acabava sendo atingida pelas garras dele. Além disso, Murasame era como uma espada comum quando enfrentava seres das trevas. Tinha-o acertado em várias partes do corpo que se regeneravam com uma velocidade espantosa.

Apertou mais forte a empunhadura da sua katana, sentindo o seu sangue escorrer pelo braço. Franziu a testa, reavaliando o inimigo. Aquela criatura tinha que ter um ponto fraco, todos eles tinham. Era apenas questão de achá-lo. Posicionou-se para reiniciar o combate, quando viu o conhecido vulto se colocar a sua frente, como já tinha feito outras vezes, avançando sobre o inimigo.

Trincou os dentes. Tatsumi estava interferindo. Novamente. Não dava para ele entender que, quando fazia isso, colocava-se em risco? Poderia morrer novamente! E, se fosse morto, para onde iria? Deixaria de existir? Não conseguiria nem mesmo vê-lo novamente.

Deu um passo a frente sem tirar os olhos dos dois seres que lutavam de forma violenta. Tatsumi estava muito mais rápido e forte, mas ainda não estava conseguindo desferir um golpe fatal na besta e já apresentava vários ferimentos pelo corpo. Ele tinha que voltar logo para o plano superior para se recuperar.

Fechou os olhos e respirou profundamente. Endireitou o corpo e pensou que não teria outra saída. Se não fizesse aquilo, poderia perdê-lo novamente. E, dessa vez, para sempre.

Levou a lâmina de Murasame até a palma da mão esquerda e fez o corte.

Sentiu, novamente, o veneno da espada invadir seu corpo e caiu de joelhos, sentindo a mesma dor da primeira vez que usara aquele recurso para derrotar Esdeath. Sentia como se todas as células do seu corpo vibrassem e explodissem, como se o próprio corpo estivesse queimando. Cravou a espada no chão à sua frente e não conseguiu evitar que um grito de dor saísse de seus lábios.

Abaixou o rosto e, mesmo com os olhos fechados, conseguiu perceber a aproximação do inimigo. Sorriu de lado.

Ergueu o corpo e puxou a katana, estreitando os olhos na grande criatura que se aproximava com velocidade para tentar acertá-la com sua poderosa arma. Agora ela conseguia ver melhor os movimentos. Desviou do machado, abaixando o corpo e sentindo a arma passar por cima da sua cabeça, cortando a grande árvore atrás dela ao meio.

Com os joelhos flexionados, pegou impulso e pulou sobre o inimigo que acompanhou os movimentos dela e, como das outras vezes, ele moveu-se para acertá-la com suas garras. Surpreendeu-se quando a jovem girou a espada, ao mesmo tempo em que girava o próprio corpo, para pegar velocidade e força. Golpeou-o, arrancando-lhe o membro superior que caiu ao chão ainda se mexendo.

Kasumi sabia que tinha que ser rápida, aquele recurso agia por tempo limitado e o feioso a sua frente também tinha o poder de se regenerar rapidamente. Assim que pousou no chão, girou o corpo segurando a empunhadura de Murasame com as duas mãos e atingindo-o nas costas fazendo um enorme talho na pele do inimigo.

Ouviu o demônio uivar de dor e virar-se para ela tentando acertá-la com o machado novamente. Kasumi colocou a espada a sua frente, bloqueando a arma e, com o impacto delas, sentiu o corpo ser empurrado para trás por alguns metros. Flexionou os joelhos novamente, pegando impulso e correu em direção ao adversário com velocidade sobre-humana tentando golpeá-lo. Irritou-se quando ele conseguiu se proteger com a arma ou com o membro que estava começando a se regenerar.

Ela saltou por cima dele e, de forma atrevida, pisou no cabo do machado, usando-o para pegar um novo impulso. Girou o corpo lateralmente e, aumentando a força do golpe pela energia cinética, acertou o rosto do monstro que cambaleou para trás gritando de dor. Trincou os dentes, sabendo que ele ainda não tinha sido derrotado. Sem esperar, avançou novamente, abaixou-se apenas um pouco o corpo para golpeá-lo de baixo para cima com força. Com isso, conseguiu cortar o membro que segurava a mortal arma.

Ela tinha que aproveitar o momento que ele ainda estava desorientado para finalizar de uma vez aquela luta. Reparou que, apesar do grande talho no rosto, o demônio ainda a olhava com fúria através do único olho não-dilacerado.

Kasumi sentiu a aproximação de Tatsumi às suas costas. Ela tinha lhe dado tempo suficiente para se recuperar. Os dois precisavam atacar juntos e de forma sequenciada para não dar chance ao monstro de se regenerar.

Deu um passo para o lado, vendo o rapaz passar por ela para atingir o inimigo antes de voltar a se distanciar. Ela aproveitou a brecha e avançou sobre o monstro, acertando-o com toda a força. Os dois se alternaram golpeando o demônio, sem dar-lhe chance nem de tentar se defender, muito menos de voltar a atacar. Era como se fosse um pedaço de carne a frente deles, sendo retalhada aos poucos e jorrando sangue para todos os lados, mas nenhum golpe parecia ser suficiente para fazê-lo cair morto.

Kasumi olhou para o que restava do inimigo a sua frente com a respiração acelerada. Suas mãos tremeram. Logo sentiria-se fraca e a força extra que recebeu desapareceria. Olhou para Tatsumi do outro lado da criatura. Ele também tinha a respiração acelerada e a espada a frente do corpo estava completamente suja de sangue. Fitaram-se diretamente, tomando uma decisão.

Os dois correram ao mesmo tempo na direção do inimigo, que tentava em vão se proteger, e o golpearam de baixo para cima. As lâminas das espadas, passando rente uma à outra, por pouco não se chocaram e eles, enfim, conseguiram cortar o demônio ao meio.

Kasumi deu um passo para trás, olhando para os vários pedaços de carne que finalmente tinham parado de se mexer e estranhou quando tudo se tornou um pó negro a sua frente, formando uma nuvem negra no chão. Novamente alguns seres das trevas andavam simplesmente virando pó negro depois de aparentemente mortos. Este não era o padrão.

Ela caiu de joelhos ao chão, soltando Murasame e espalmou as mãos no chão para manter-se, pelo menos, erguida. Os lábios estavam entreabertos devido ao esforço físico e mental. Percebeu que as marcas em seus braços novamente clarearam, no entanto, não haviam voltado à tonalidade anterior, estavam mais nítidas. Sabia muito bem que, cada vez que usasse aquele recurso, afastaria mais a humanidade que ainda existia dentro de si, até tornar-se o que agora combatia.

Ouviu os passos arrastados e levantou o rosto, observando Tatsumi se aproximar dela, deixando-se cair sentado no chão ao seu lado. Com a mão, ele tentava fazer parar um sangramento no abdômen. Fitaram-se novamente.

‘Precisa voltar logo.’ Ela falou. ‘Não deveria ter vindo me ajudar.’ A voz dela era dura, assim como o olhar que lançava para ele.

Ele franziu a testa. ‘Se você morrer, vai para o plano inferior e eu deixo de vê-la, Akame. Não posso ir para lá.’

‘E se você morrer?’ Ela perguntou erguendo o queixo. ‘Morrer de novo! Ou sei lá!’ Soltou irritada e trincou os dentes enquanto tentava se recuperar. Estava muito machucada.

‘Eu sei lá o que acontece comigo!’ Ele respondeu irritado. ‘E que merda de diferença faz? Eu não aguento mais isso!’ Gritou olhando para ela. ‘Não aguento mais ser uma merda de um fantasma!’

Kasumi tentou se levantar, mas sentiu o corpo fraco e caiu de joelhos no chão novamente. Cravou os dedos na terra, tentando controlar a raiva e a ardência nos olhos. Não aguentava mais chorar. ‘Eu também…’ Ela falou entre os dentes, fitando a terra e o sangue que pingava de algum ferimento do seu rosto. ‘Eu não aguento mais isso. Não aguento mais esse inferno.’

Ouviu que Tatsumi se aproximou dela, mas, como sempre, não conseguia sentir quando ele tentava tocá-la. Levantou o rosto e fitou o rosto dele próximo ao dela. Reparou que ele levantou o braço e tentou tocar no seu rosto, mas não conseguiu. A mão dele passou por ela como um fantasma. Um maldito fantasma da vida dela.

Fechou os olhos, finalmente, deixando as lágrimas saírem de seus olhos como sempre acontecia quando os dois se encontravam.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Kasumi abriu os olhos, ouvindo o barulho irritante do celular que estava no bolso de seu uniforme escolar. Estava de volta ao seu quarto. Teve mais um escape, ou sonho, ou pesadelo, ou sabe-se lá o que tinha sido aquela merda. Aquela tortura.

Sentia-se tão triste, tão desesperadamente triste que não tinha nem vontade de fazer nada. Apenas queria permanecer sentada no chão com as costas apoiadas na porta do quarto.

O celular tocou novamente. Ela respirou fundo e pegou o aparelho do bolso. Abaixou os olhos e franziu a testa, olhando para o número imenso que aparecia no display. Atendeu o telefone.

‘Moshi-moshi?’ Falou incerta.

‘Kasumi. Sou eu.’ Ela abriu um sorriso fraco ao reconhecer a voz de Shaolin. ‘Como você está?’

Ela fechou os olhos sem saber direito o que responder. ‘Estou bem. Está tudo bem.’ Mentiu. Odiou-se por isso, mas não dava para falar para ele o que estava acontecendo. Não por telefone e muito menos agora. ‘E você? Como você está?’

‘Estou bem… Já destruímos três chaves.’

‘Que bom... Você… Você está onde?’

‘Estou na Noruega. Vamos agora à tarde para a Itália.’ Ele respondeu, fazendo-a abrir os olhos e franzir a testa.

‘Itália?’ Ela perguntou. ‘Para onde exatamente?’

‘Roma.’ Ele respondeu. ‘As chaves estão espalhadas pelo mundo. Viemos para cá para pegar a terceira chave, estamos agora indo para o Vaticano pegar a quarta.’ Ele fez uma pausa. ‘Aí, depois dessa, fica faltando só mais uma chave que não sei ainda onde está. E então… eu volto para o Japão.’

Ela fechou os olhos e trincou os dentes. Agora fazia sentido. Era melhor não falar nada para Shaolin. Isso o deixaria apenas preocupado. Ele estava longe, não poderia fazer nada. Tinha que focar na missão, no entanto como falar para ele que provavelmente já estavam o esperando? Ele poderia ir para uma armadilha. Inferno!

‘Hei! Kasumi? Está aí?’ Ouviu a voz do menino a chamando por ter permanecido em silêncio. Abriu os olhos.

‘Sim! Sim! Estou!’ Respondeu rapidamente.

‘Você está bem? Passou mal alguma outra vez?’ Ela percebeu o tom preocupado dele. Sorriu de leve constatando isso.

‘Não se preocupe. Não passei mais mal, mas kaasan me forçou a ir ao médico com ela. Então não se preocupe. Tem muita gente de olho em mim aqui.’ Disse em tom jocoso para não preocupá-lo.

‘Isso é ótimo! Tomoyo-ba-san faz bem em forçar você a ir ao médico.’

Kasumi soltou um suspiro. ‘E como vocês estão indo atrás dessas chaves?’ Perguntou mudando de assunto.

‘Um amigo de kaasan está nos ajudando. Ele tem um avião particular que tem nos levado até o destino das chaves.’

‘Ele é confiável?’ Não teve como segurar a pergunta.

‘Kaasan e Tousan confiam nele. Apesar de parecer que Tousan não gosta muito dele…’

‘Quem está com você?’

‘Estou com Kazuo e nee-san.’ Ele respondeu.

Ela franziu a testa. ‘E seus pais? Eles não estão com vocês? Está tudo bem com Sakura-ba-san?’

‘Eles tiveram que ficar no Japão, mas eles estão fora de Tomoeda. Uma conhecida de kaasan a está ajudando a controlar aquela dor estranha. Tousan ficou com ela.’

‘Que bom que obasan encontrou um outro apoio para ajudá-la.’ Kasumi falou e estreitou os olhos, fitando um ponto na parede do quarto. ‘Estranho aparecerem estes amigos justamente agora…’

‘Também achei, mas parece que, de alguma forma… Acho que eles já estavam prevendo esta confusão e agora estão tentando nos ajudar.’

‘Tomara.’ Kasumi falou por fim. Eles ficaram em silêncio por alguns segundos.

‘Às vezes… Às vezes tenho encontrado com kaasan em sonhos e ela me falou que está bem. Que está esperando por mim, Kazuo e nee-san para voltarmos para casa.’

‘Isso é bom. Assim você fica com menos saudades dela.’ A menina falou com o tom de voz suave. Apertou o aparelho de telefone na mão e comprimiu novamente os lábios. Ainda conseguia ver a imagem dele, no escape que teve poucos segundos antes de receber a ligação, com o grande talho no abdômen. ‘Vo-você não está se machucando, não é?’

Ouviu um suspiro do outro lado da linha e sentiu o coração fisgar.

‘Shaolin?’ Ela o chamou devido ao incômodo silêncio do outro lado da linha.

‘Estou tentando me cuidar. Não se preocupe.’ Ele finalmente respondeu.

‘Shaolin… Por favor… Cuide-se.’ Ela suplicou.

‘Estou fazendo isso, Kasumi. Prometo. Nee-san e Kazuo estão aqui me ajudando.’ Ela percebeu que ele se sentiu incomodado ao falar, engoliu em seco, ele estava minimizando a situação. Ela sabia disto. ‘Tenho só alguns arranhões.’

‘Certo’ Ela falou por fim, mas sabia que ele estava mentindo.

A linha ficou alguns segundos em silêncio. ‘Estou com saudades de você.’ Ele falou e ela abriu um sorriso. ‘Queria ouvir a sua voz, pelo menos.’

Ela fechou os olhos, sentindo o coração apertado. ‘Também estou com saudades.’

‘Queria encontrá-la nos meus sonhos, como encontro com kaasan.’

Kasumi sentiu um bolo na garganta, não queria encontrá-lo em sonhos ou como um fantasma. ‘Volte logo para casa.’

‘Logo estarei de volta.’

‘Estou esperando por você.’

‘Eu sei.’ Ele respondeu.

Kasumi ouviu alguém falar com ele no outro lado da linha.

‘Eu tenho que desligar agora. Cuide-se.’ Ele recomendou mais uma vez.

‘Shaolin!’ Ela o chamou. ‘Fique atento. Eles já devem saber que está indo para Roma. Devem estar lhe esperando. Cuidado para não cair numa armadilha.’ Falou tudo de uma vez. Ele precisava saber que de alguma forma o Vaticano pelo jeito já sabia sobre ele.

A linha ficou muda alguns segundos. Ela soltou um suspiro já imaginava o rosto surpreso do menino.

‘Co-como você sabe disso?’ Ouviu ele perguntar com a voz séria. ‘O que está acontecendo com você?’

‘Está tudo bem… Hum… Eu… Eu…’ Trincou os dentes, não sabia o que falar. ‘Eu apenas sei, Shaolin.’ Falou por fim. ‘Tome cuidado. Peça para Nee-san e Nii-san ficarem atentos. A energia deles deve chamar a atenção. Lembre-se o Vaticano combate demônios a séculos. Os dois podem estar em perigo, assim como você.’

‘Kasumi… Você está me assustando. O que está acontecendo?’ O tom agora chegava a ser irritado.

‘Eu preciso ir agora. Está tudo bem. Não se preocupe comigo. Apenas mantenha-se vivo e volte para casa.’

‘Kasumi… me fala logo que merda está acontecendo?’

‘Nada!’ Forçou a voz em tom alegre. ‘Está tudo bem! Apenas… hum… acho que é… um pressentimento ruim…’

‘Pressentimento? Como assim? Você nunca foi disso!’

‘Hum… Acho que…’ Ela olhou pelo quarto como se procurasse uma resposta. ‘Talvez Retorno tenha despertado isso em mim!’ Falou sentindo-se satisfeita por ter encontrado uma boa resposta.

‘Certo…’ A voz dele ainda não parecia convencido. Ele a conhecia bem. ‘Eu preciso ir agora também. Logo estarei de volta ao Japão.’

‘Um beijo.’ Ela disse tentando finalizar a ligação.

‘Beijo.’ Ele falou e logo ela ouviu o aparelho desligando.

Soltou um suspiro e abaixou o braço deixando o celular no chão. Seria impossível fazer o que ele tinha pedido. Estava morrendo de preocupação e estava com saudades demais dele. Não aguentava mais aquela apreensão e aquela dor constante no peito. Fechou os olhos e odiou-se por sentir que estava com vontade de chorar, mas sabia que chorar nunca resolvia merda nenhuma da sua vida… ou das suas vidas…

Sentiu quando a energia mudou em seu quarto e abriu os olhos. Viu Miguel aparecer a poucos metros de onde ela estava e o fitou em silêncio com o semblante sério. Por fim, ela soltou um suspiro e tentou se levantar.

‘Kasumi…’ Ela o ouviu chamá-la e franziu a testa, estranhando o tom suave na voz dele. Levantou os olhos e deparou-se com o rosto preocupado do arcanjo no lugar da expressão contrariada com que ele a vinha encarando desde o incidente com Retorno.

Kasumi ergueu o corpo. Ainda tinha uma das mãos apoiada na porta. ‘Ele está machucado.’ Ela começou a falar com a voz dura. ‘E tenho certeza que ficará mais ainda. Se ele morrer…’ Ela engoliu em seco. ‘Se nos separarem novamente, eu realmente não sei o que sou capaz de fazer.’

O anjo deu um longo suspiro. ‘Ele está indo para o lugar certo. Logo o encontrarei para ajudá-lo a resolver uma questão.’

‘Eu espero que sim. Eu não sei…’ Kasumi balançou a cabeça de leve. ‘Eu não vou me perdoar, e não o perdoarei, se ele morrer enquanto eu estou aqui, proibida de ajudá-lo.’

‘É importante que ele se desenvolva.’

‘Que tipo de desenvolvimento você quer dele? Vivo ou morto?’ Ela rebateu sem esconder a irritação.

‘Você tem que aceitar a decisão dele. Ele é quem vai decidir tudo no final.’

Kasumi cerrou os punhos. ‘Eu juro que não o perdoarei se ele morrer.’ Falou, encarando-o, séria.

‘Assim você nunca conseguirá evoluir.’

‘Se eu nunca conseguirei ficar ao lado dele, isso não importa.’

‘E fará o quê?’ Ele a interrogou com o semblante sério. ‘Acha que conseguirá eliminar todos?’

Ela se afastou da porta e deu um passo à frente, ainda o encarando com severidade. Deu as costas a ele e repousou a mão sobre a maçaneta para sair do cômodo. Estava realmente tentada a avançar sobre ele para socá-lo. Abriu a porta e estava pronta para sair quando voltou a encará-lo.

‘É bom os idiotas do Vaticano que estão há dias observando a minha casa e me seguindo do colégio até aqui não tentaram nada. Principalmente, contra os meus pais.’ Começou a falar com a voz fria. ‘Você sabe melhor do que eu que nunca tive problema em eliminar os alvos. Especialmente quando ameaçam aqueles que eu amo.’

Miguel franziu a testa. ‘O que realmente se lembra de sua outra existência, Kasumi?’

‘Seu bloqueio não existe mais. Estou tendo as merdas das minhas lembranças… Todas as minhas lembranças como Akame.’

O arcanjo estreitou os olhos nela. ‘Você não é mais Akame. Ainda não sujou suas mãos de sangue nesta existência, Kasumi...’

‘Se for para defender a minha família, não tenho problema nenhum em voltar a sujá-las.’ Ela falou com a voz entrecortada. ‘Se alguns daqueles idiotas chegarem perto da minha mãe…’ Ela trincou os dentes, não completando a frase, mas sabendo que ele tinha entendido.

Miguel se aproximou, parando bem próximo a ela. ‘Seu potencial é infinito, direcione-o para o que é certo.’

Kasumi ergueu o rosto, encarando-o de forma desafiadora. ‘Não sou eu que carrego uma espada presa à cintura.’

Ele tocou de leve na arma que tinha na cintura. ‘Nosso acordo foi claro.’

‘Eu sei…’ Ela respondeu. ‘Você me lembra dele desde que me entendo por gente. É sempre o mesmo discurso. Só que você não está fazendo a sua parte! Estou tendo essas malditas lembranças de volta.’

Ele trincou os dentes. ‘Eu realmente sinto muito. Tentei…’

‘Chega!’ Kasumi o cortou. ‘Para de mentir!’ Completou, já pronta para sair do quarto e bater a porta na cara dele.

Estava de saco cheio. Cansada. Com medo. Queria que aquilo terminasse. Arregalou os olhos, surpresa quando o sentiu segurando seu pulso com força, impedindo-a de se afastar. Levantou o rosto.

‘Não estou mentindo.’ Ele falou entre os dentes.

Ela puxou o braço com força e olhou ele com raiva. ‘Vai para o inferno… Ou céu… Vai para o raio que o parta e me deixe em paz!’ Ela gritou. ‘Se não cumprir sua parte, não tenho porque cumprir a minha.’

Miguel a viu sair do quarto, batendo a porta com força e deixando-o sozinho. Fechou os olhos e soltou um suspiro, antes de ser envolvido por suas asas e desaparecer.

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Shaolin desligou o aparelho e suspirou. Olhou para trás e viu o rosto debochado de Marie. Ela o tinha chamado de sacanagem no meio da ligação com Kasumi. Agora, depois do que aconteceu entre ela e Kazuo, com certeza a prima pegaria mais ainda no pé dele.

Não dava para entender as garotas. Ele a tinha ajudado, ela deveria estar agradecida e não enchendo o saco dele daquela maneira.

‘Ligando para a namoradinha?’ Marie perguntou, rindo.

Shaolin abriu um sorriso irônico para ela. Se Marie queria provocá-lo, ele saberia dar o troco. Encolheu os ombros e fez uma cara desoladora. ‘Não tenho a mesma sorte que você de estar viajando com o namoradinho.’

Como bem imaginou, viu-a cruzar os braços e lhe lançar um olhar em chamas. Por alguns segundos, realmente pensou que ela invocaria alguma magia para fazê-lo sair voando ou com que desaparecesse da face da Terra.

‘Você é um pirralho muito...’ Ela começou.

‘Metido.’ Ele completou. ‘Você já me falou isso duas vezes esta manhã.’ Completou, afastando-se dela. ‘Para de me encher, nee-san.’ Falou incomodado. Marie foi atrás dele, não se dando por satisfeita. ‘Já ligou para Tai Dai-san?’ Shaolin perguntou.

Ela ainda ficou alguns segundos olhando para ele brava, depois rodou os olhos e soltou um suspiro. ‘Já sim. Ele está providenciando tudo.’

‘Isso é bom.’ Shaolin comentou. Olhou por uma das janelas e confirmou suas suspeita de que estava chovendo lá fora. Não parava de chover. ‘Kasumi pediu para a gente tomar cuidado. Que devem estar esperando por nós no Vaticano. A sua energia e a de Kazuo podem chamar a atenção deles.’

Marie ergueu uma sobrancelha. ‘Como assim? Como ela sabe disso?’

‘Ela falou sobre pressentimento, mas…’ Ele reteve-se ainda olhando para a chuva que caía sem trégua. Balançou a cabeça de leve. ‘Ela está escondendo alguma coisa de mim. Eu sei disso.’

Marie olhou para o rosto preocupado e triste do primo. Passou o braço pelos ombros dele e deu um beijo na bochecha. ‘Vai dar tudo certo, pirralho. Eu e Kazuo-kun estamos com você. Você só tem que voltar logo daqueles transes doidos. Aquilo dá muita agonia na gente.’

Ele sorriu sem graça. Soltou um outro suspiro. ‘Eu vou dar uma volta até Tai Dai-san providenciar tudo.’ Ele falou.

Marie o segurou ainda. ‘Aonde você vai?’

‘Vou dar só uma volta.’

‘Você sempre detestou chuva. Por que esse interesse todo em sair agora?’

Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Kazuo deve estar acordado e daqui a pouco vem tomar o café. Você pode fazer companhia para ele.’ Foi só terminar de falar e já recebeu um cascudo da prima. ‘Hei!’ Soltou irritado. ‘Por que fez isso?’

‘Para você deixar de ser malicioso desta maneira, pirralho.’

‘Eu não fiz nada!’ Falou ainda, tentando se defender. ‘Eu só vou dar uma volta. Ver as pessoas… só isso. Aqui…’ Ele comentou, olhando em volta para o hall do hotel. ‘Tem muita gente nervosa e irritada. Vou para a praça.’

Marie desviou os olhos dele e olhou em volta. Tinha apenas alguns executivos, deveria ter alguma conferência ou algo semelhante acontecendo na cidade. Voltou a olhar o primo, agora com o rosto preocupado. ‘O que está acontecendo com você, Shaolin-kun? De verdade.’

Ele desviou os olhos dela, não queria contar para ninguém. Achava que aquele tipo de “poder” fosse, de certo modo, invasivo demais. Conseguiu perceber que a prima realmente estava preocupada com ele, mas sinceramente não achava legal saber disso.

‘Eu estou bem.’ Ele respondeu. Desviou os olhos dela e viu o irmão aparecendo no hall do hotel. Reparou que ele sorriu quando o viu... Correção, quando viu Marie. Olhou para a garota e a viu corar violentamente. ‘Hum… Eu já vou indo.’ Falou, afastando-se dela. Cumprimentou o irmão com um aceno e já estava para sair quando sentiu a prima segurá-lo pelo braço. Virou-se para ela.

‘Não vá para muito longe.’ Ela recomendou.

‘Pode deixar.’ Falou e sorriu de leve.

Marie soltou o braço dele e, finalmente, Shaolin vestiu o casaco, atravessando a porta giratória. Marie ainda ficou um tempo observando o primo se afastar. Franziu a testa de leve, ele estava escondendo alguma coisa, conhecia-o bem demais. Estava acontecendo alguma coisa com ele que o estava perturbando, mas tinha que ser cabeça dura igual aos pais e não falar.

Kazuo parou ao seu lado observando o irmão. ‘Por que ele resolveu sair debaixo dessa chuva?’

Marie olhou para ele de esguelha, sentiu o rosto esquentar novamente. ‘Está acontecendo alguma coisa com ele, só que ele não se abre.’

‘Hum… Ontem ele me pediu desculpas novamente.’ Kazuo falou. ‘Por causa das nossas brigas iniciais.’

Marie soltou um suspiro, preocupada. ‘Shaolin-kun mudou demais e em pouco tempo.’

‘Isso é bom, não?’ Kazuo comentou.

Marie deu de ombros. ‘Otousan sempre fala que tudo deve acontecer de forma gradual, no tempo certo e que toda transformação violenta é, de certa forma, explosiva. Principalmente no mundo da magia.’

Kazuo franziu a testa, incomodado. ‘Acho que ele tem razão.’

‘Gabriel-baka apareceu. A próxima chave está no Vaticano.’

‘Onde é isso?’

‘Não fica longe daqui, mas… Tenho impressão de que esta chave vai ser complicada.’ Marie falou.

‘Por que diz isso?’

‘O Vaticano é o centro do catolicismo, uma religião bem forte no mundo. Milenar. E pelo que eu lembro que vocês me falaram… Esta é a única chave que não está protegida por alguém conhecido de Tao-san.’

‘Isso é verdade.’

‘O Vaticano é uma fortaleza e tem uma segurança acima da média…’

‘Mesmo?’ Kazuo perguntou, franzindo a testa e vendo-a assentir.

‘Além disso, o catolicismo é um dos principais difusores do temor que os humanos têm do mundo das trevas…’

‘Em outras palavras, eles odeiam seres como eu.’

‘Como nós.’ Ela consertou. ‘Eles também não gostam de feiticeiros.’

Kazuo respirou fundo e soltou o ar devagar. Já começava a entender a apreensão da jovem. ‘Este anjo desgraçado também não colabora com nada mesmo.’

‘Se a chave está lá, não há muito o que ele possa fazer, não é?’

‘Humph.’ Ele resmungou. ‘Quando ele fizer alguma coisa… Aí, sim é que eu vou me preocupar.’ Falou e voltou-se para trás. Estava de bom humor até saber para onde Gabriel os mandou agora.

Marie voltou-se para ele. ‘Hei! Onde você vai?’

‘Tomar café da manhã.’ Ele respondeu sem parar de caminhar.

Tinha vontade de socar alguma coisa para extravasar a raiva, então era melhor se afastar de Marie, ou acabaria falando algo que poderia magoá-la. Naquele universo, não dava para ele falar tudo que pensava. Já estava aprendendo bem esta lição.

Kazuo entrou no restaurante, pensou em comer alguma coisa, mas tinha também perdido a fome. Que raiva tinha daquele anjo. Passou a mão no rosto e depois nos cabelos. Respirou fundo e soltou o ar devagar, olhando para o imenso ambiente, pensando no que faria.

Estava pronto para dar meia volta e ir atrás do irmão arrancar do garoto o que estava acontecendo com ele, quando sentiu segurarem forte no seu braço. Olhou para o lado e viu Marie, olhando-o seriamente.

‘Acho que Shaolin-kun não explicou as coisas direito.’ Ela falou, começando a puxá-lo.

Kazuo arregalou os olhos, percebeu que ela estava usando magia pois a aura estava expandida e estava com uma força fora do normal, puxando-o.

‘Senta.’ Ela ordenou, quase o empurrando numa das cadeiras. Soltou-o e deu a volta na mesa, sentando na cadeira do lado oposto a mesa e o encarando.

O rapaz olhou para ela de maneira desconfiada. ‘O que foi?’ Ele perguntou sem entender.

‘Precisamos definir algumas regras.’ Ela falou, estreitando os olhos nele.

Kazuo se ajeitou na cadeira, incomodado. ‘Regras?’

‘Isso.’ Ela falou. ‘Estamos namorando, não?’

Ele franziu a testa e olhou para os lados. Pigarreou, ajeitando-se novamente na cadeira. ‘Não estamos sozinhos, não dá para namorar.’ Esclareceu, fazendo-a arregalar os olhos de leve e sentir o rosto esquentar.

Marie comprimiu os lábios e desviou os olhos dele. Depois voltou a encará-lo. Respirou fundo e tentou relaxar. Era melhor esclarecer as coisas com ele de uma vez. ‘Mas não precisa namorar apenas quando estamos sozinho.’

Kazuo franziu a testa de leve e desviou os olhos dela. Lembrava-se bem do irmão recomendando beijá-la apenas quando estivesse sozinho com ela. Quem sabe esta regra não era tão fixa assim. Voltou a fitar Marie e abriu um sorriso, fazendo-a sentir novamente o rosto esquentar.

‘Isso é bom.’ Falou pronto para se levantar e louco para beijá-la novamente, mas a jovem arregalou os olhos.

‘Não! Senta.’ Ela pediu, fazendo-o se sentir confuso.

Ele cruzou os braços sobre o peito e fechou o rosto. ‘O que é que está pegando?’ Perguntou, tentando controlar a irritação. ‘Primeiro me falam que só pode namorar sozinho, agora você fala que não precisa ser apenas quando se está sozinho… Assim é confuso demais de entender.’

‘Hum…’ Ela começou, tentando achar as melhores palavras. ‘Namorar não é só beijar.’

‘Eu sei… É beijar e abraçar.’ Ele rebateu. ‘E depois tem o tal contato especial.’

‘Não!’ Marie soltou, sentindo o rosto queimar.

‘Não?’

‘Quer dizer… Hum…’ Ela desviou os olhos dele. Maldita libido. ‘Não agora.’

‘Além disso, eu sei que com humanos é diferente.’

‘Diferente?’ Ela perguntou, erguendo uma sobrancelha.

‘Sim. Shaolin explicou que eles se unem e tal. Isso é complicado. Vai que depois não consegue se desunir. Melhor não correr este risco.’

Marie arregalou os olhos, fitando o rapaz e nem sabia direito onde colocar a cara, tampou o rosto com as duas mãos e balançou a cabeça sem conseguir acreditar no que estava vivendo. Malditos hormônios que a deixaram se envolver com Kazuo.

‘Hei.’ Kazuo a chamou, inclinando o corpo em direção a ela. ‘O que foi? Eu falei algo que não deveria, não é?’

Marie abaixou as mãos e o fitou, sorrindo de leve. Ele não tinha ideia do que era namorar mesmo. Considerando a experiência de Shaolin em relacionamentos e sabendo como o primo era envergonhado para falar destas coisas, provavelmente explicou um monte de coisas para o rapaz de maneira indireta.

Bem, ela não podia negar que realmente se sentia atraída por ele. Não depois dos beijos que trocaram, que além de serem os seus primeiros, fizeram-na se sentir desnorteada de felicidade. Kazuo era como uma folha em branco, com alguns rabiscos, mas que ela sabia que poderia se transformar numa obra de arte maravilhosa.

‘Hum… Namorar não é apenas beijar e abraçar a sós.’ Ela começou a falar sabendo que estava vermelha, mas era melhor ter logo essa conversa com o… O namorado. ‘Pode se beijar rapidamente em público, abraçar, andar de mãos dadas, trocar carinhos… Estas coisas.’ Ela falou. ‘Ser romântico.’

Kazuo olhou para ela desconfiado. Inclinou a cabeça, tentando entender exatamente o que ela estava querendo dizer com isso. ‘Certo.’ Ele falou devagar. ‘Pode fazer isso então sem precisar estar a sós?’ Ela confirmou com a cabeça. Ele abriu um sorriso enorme. ‘Bom saber.’

Ela sorriu de volta e encolheu os ombros. Desviou os olhos dele. ‘Hã… Não precisa ser assim tudo de forma rígida.’ Falou de maneira tímida. ‘Não é bem uma regra… Hum… Quando se namora, a gente faz o que tem vontade de fazer com a pessoa com quem está namorando. Não precisa… Ser assim… Apenas…’

‘Eu entendi agora.’ Kazuo a cortou, ela voltou a fitá-lo e o viu sorrindo. Sorriu de volta.

Kazuo se levantou e parou a frente dela, pegando na mão da jovem e fazendo-a se levantar. Marie sorriu, imaginando que ele pediria para passear com ela de mãos dadas. Arregalou os olhos quando ele levantou o seu queixo e se inclinou, beijando-a nos lábios. Soltou a mão dela e envolveu a cintura da jovem, fazendo-a se aproximar dele.

Ah, que se dane! Ela entreabriu os lábios e retribuiu o beijo.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

O avião aterrissou no aeroporto Ciampino em Roma, na Itália, depois de quase três horas de voo. Shaolin caminhava devagar pelo aeroporto observando o corre-corre das pessoas. Olhou para trás rapidamente sobre o ombro direito e viu Marie e Kazuo, caminhando um ao lado do outro, de mãos dadas. Pelo jeito, a prima andou instruindo como o rapaz deveria se comportar agora com o status de namorado.

Sorriu sem querer, lembrando de um comentário do irmão, quando ele falou em alto e bom tom: “pobre diabo o macho que aquela ruiva metida escolhesse”.

Balançou a cabeça de leve, estava feliz por os dois terem se acertado. Estava lhe dando agonia ver a energia que os envolvia tão brilhante e bonita e continuavam só com aquela troca de olhares. Soltou um suspiro e arrumou a mochila nas costas. Estava apreensivo desta vez. Não era bem medo, era algum outro sentimento que não sabia ainda identificar.

Lembrou-se da mãe o abraçando com carinho no sonho que teve com ela, antes de Gabriel aparecer para lhe informar sobre a próxima chave. Gostava quando sonhava com ela. Conversaram um pouco desta vez e ele lhe contou sobre o que estava acontecendo com ele. Ela ficou preocupada, mas precisava falar com alguém sobre isso.

A mãe o aconselhou a tentar não se assustar, e deixar que aquilo entrasse em sua vida. Não podia ir contra o que estava acontecendo com ele, mas era decisão dele a maneira como aceitar o novo dom. Ou melhor, como Heimdall mesmo o alertara, ele sempre o teve, agora só estava mais forte. Ela se despediu dele com um beijo na sua testa e um pedido para se cuidar. Além de um aviso para sempre acreditar nele mesmo, pois ela sabia, ela tinha certeza, que ele era um bom menino. Novamente, pediu para mandar um abraço para Kazuo e Marie.

Kazuo observava o irmão caminhando na frente, ele tinha vindo a viagem inteira calado. Estava calado demais. Sentia-se incomodado com isso. Sentia-se preocupado com o tal Vaticano e sobre o que Marie havia lhe falado do local. Apertou sem querer a mão de Marie que estava com os dedos entrelaçados ao seu. Estava gostando de caminhar com ela daquela forma, este negócio de ser namorado era bem interessante.

Tai Dai havia lhes dito que um carro os estaria esperando para levá-los até o hotel reservado. A viagem foi de quase uma hora até a cidade do Vaticano, na verdade, até as imediações da cidade, onde a reserva do hotel havia sido feita. Havia sido novamente silenciosa.

Desta vez, diferente das outras, Tai Dai fora com eles até o hotel, resolvendo o check-in para eles. Marie estreitou os olhos no rapazinho, ele estava sendo bem mais cuidadoso com relação a estadia deles ali. Como imaginou, a chave que estivesse no vaticano daria mais trabalho para eles, e Tao-san também sabia disto. Estava sendo cauteloso.

Tai Dai se aproximou com um sorriso nervoso, informando que estava tudo certo com o check-in deles e entregou as chave e também entregou de forma discreta para Kazuo um envelope pardo. Disse que fora o senhor Tao quem havia enviado, e recomendou que o rapaz abrisse-o apenas quando estivesse já no quarto do hotel. Kazuo olhou desconfiado para ele.

Assim que entrou no quarto e deixou a mochila numa das poltronas, abriu o envelope e olhou desconfiado para os papéis. Chamou Shaolin que se aproximou e observou com interesse. O menino sorriu de lado e arqueou rapidamente as sobrancelhas.

‘Este tal amigo da kassan realmente é um homem influente.’ Shaolin comentou.

‘O que é isso?’ O rapaz perguntou para o irmão.

Shaolin suspirou. ‘São mapas da cidade do Vaticano. Mapas confidenciais.’ Ele completou.

Kazuo franziu a testa. ‘Ele então deve imaginar que vamos ter que invadir para achar a chave.’

‘Com certeza.’ O menino confirmou. ‘Entregou isso para nos ajudar a nos localizarmos lá. Principalmente com este daqui.’ Falou apontando para um dos mapas.

‘Que mapa é esse?’

‘É a galeria subterrânea do Vaticano. Acho que nos será muito útil.’

O rapaz respirou fundo e passou a mão pelos cabelos. ‘Esta chave vai ser complicada. Marie me falou que o pessoal daqui não gosta de seres como eu e ou de feiticeiros.’

Shaolin concordou com a cabeça, desviou os olhos do irmão e sorriu de leve. ‘Eles só tem medo. Os homens sempre temem aquilo que não conhecem completamente. Além disso, é fácil generalizar as coisas.’

Kazuo olhou para o irmão e franziu a testa. ‘O que está acontecendo com você, Shaolin?’ Perguntou de forma preocupada. ‘Esse lance de destruir as chaves… Isso não está fazendo bem para você.’

O menino levantou o rosto e fitou o irmão, sorriu de leve novamente. ‘Na verdade… É o contrário.’ O rapaz olhou confuso. ‘Está me ajudando a entender um monte de coisas.’

‘Você está com medo?’

Ele balançou a cabeça negando. ‘Não é medo…’ Respondeu, soltando um suspiro e desviando os olhos do irmão momentaneamente, antes de voltar a fitá-lo. ‘Minha magia está aumentando, espero saber controlá-la de forma correta.’ Ele respondeu.

Kazuo ficou calado, olhando para o irmão. Realmente a magia dele estava num nível alto e eles ainda tinham quatro chaves para destruir. Temia demais o que poderia acontecer com ele quando chegasse à última. Forçou um sorriso. ‘Tenho certeza que é capaz de controlar.’

‘Quando lutamos…’ Shaolin começou a falar. ‘E usamos magia um contra o outro, se nee-san não estivesse ao lado de Kasumi, eu a teria machucado.’

O rapaz arregalou os olhos de leve, entendendo agora o que o irmão estava querendo dizer. Shaolin não estava com medo de controlar a magia por ele, mas estava com receio de não conseguir controlar e machucar alguém. Era estranho constatar isso.

No mundo das trevas, e pelo visto naquele universo também, sempre se procurava, ansiava-se por mais e mais magia, poder, força. Agora ele estava a frente de um ser que apresentava cada vez mais este “poder” e se ressentia, por medo de acabar machucando os outros.

Pensou novamente em Midoriko. Se ela estivesse aqui, com certeza estaria tentando persuadir o garoto a se tornar aliado dela para dominar sabe-se lá mais o quê. Se ele tivesse aquele nível de magia, ela estaria infinitamente orgulhosa dele.

‘Lembro-me que quando comecei a treinar magia…’ Shaolin continuou. ‘A primeira lição que tousan me deu foi que todos nós temos nossos demônios.’ Kazuo sorriu de leve com a colocação. ‘Que, como nós os controlamos, depende de nossos princípios e caráter. Que era importante que eu soubesse que, uma vez que estivesse forte isso não poderia subir à minha cabeça.’

‘Ele falou isso?’ Kazuo perguntou, erguendo uma sobrancelha.

Shaolin acenou que sim e soltou um suspiro. ‘Que eu nunca poderia me achar melhor que ninguém por conseguir fazer algo que outras pessoas não podem. Pelo contrário, justamente por possuir essas habilidades, eu seria responsável por proteger aqueles que não as têm.’

Kazuo soltou um suspiro e abaixou o rosto incomodado. ‘Diferente do que sempre me falaram. Agora dá para entender por que você é assim e porque, no final, estão testando o seu caráter…’ Levantou o rosto, fitando o menino. ‘Eu não conseguiria passar nem no primeiro teste.’

Shaolin encolheu os ombros. ‘Não sou melhor que você, Kazuo. Apenas tive uma orientação correta.’ Ele fez uma pausa e olhou o irmão. ‘Na verdade, se pararmos para analisar, você tem tanto ou mais caráter que eu.’ Kazuo franziu a testa. ‘Você é uma boa pessoa, apesar de ter vivido sempre sendo ensinado… Ou melhor, sempre o obrigaram a não ser.’

O rapaz endireitou o corpo. ‘Não sou uma pessoa legal. Sou um demônio.’

Shaolin sorriu para ele e balançou a cabeça. ‘Está bem… Não vou desfazer sua fama de mau.’ Disse, afastando-se dele. ‘As garotas adoram isso, não é?’

‘Você anda um pirralho muito malicioso.’ Comentou rindo.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

‘Ele entregou isso mesmo para você?’ Marie perguntou, erguendo uma sobrancelha e olhando para Kazuo. Nas mãos dela tinha os mapas do Vaticano que lhe foram entregue por Tai Dai.

Kazuo acenou que sim com a cabeça. ‘Shaolin falou que o tal amigo da Sakura deve ser influente.’

‘Realmente… a familia Tao é bem influente. Mas confesso que não imaginava tanto.’ Ela comentou, caminhando até a mesa do quarto e os abrindo. ‘Ele teve cuidado de mandar em papel.’ Ela falou sorrindo de lado, sabia que uma vez que ela tivesse acesso aos dados poderia memorizá-lo e depois usar o poder de Retorno para manter a lembrança dos detalhes. Assim, não teria nem perigo de cair em alguma rede Wi-fi e serem descobertos. Estava sendo muito cauteloso.

‘Pelo jeito, ele também não tem ideia de onde está esta chave, para nos dar esta quantidade de mapas.’

‘Como eu falei, o Vaticano tem uma segurança acima do normal. Eles têm um acervo repleto de dados e relíquias que simplesmente não interessa a ninguém que sejam descobertas.’

‘Por que isso?’

Marie deu de ombros. ‘Eles combatem o que eles consideram o “mal” na terra durante milênios como eu lhe falei. Teve um tempo em que eles claramente caçavam feiticeiros ou qualquer outro detentor de magia, foi chamado de tempo da Inquisição. Agora as coisas são mais debaixo do pano. Eles fazem parte do Círculo. Estão sempre a par do que acontece no mundo da magia. Simplesmente viram que não podem contra todos e resolveram se juntar a eles de forma controlada.’

Kazuo franziu a testa. Caminhou devagar até a janela do quarto de Marie onde estavam e olhou por ela. Realmente sentia uma energia estranha naquele lugar.

‘Então eles pararam de caçar feiticeiros?’ O rapaz perguntou sem desviar os olhos da vista que dava para cidade do Vaticano.

‘De forma oficial, sim.’ Marie perguntou. ‘Mas até hoje existe a prática de exorcismo.’

‘Exorcismo?’ Kazuo perguntou, virando-se para ela. ‘O que é isso?’

‘Combate a demônios.’ Ela respondeu.

‘Hum…’ Ele murmurou. ‘Se combatem seres das trevas, devem ter feiticeiros trabalhando junto com eles. Não tem como seres humanos comuns combater demônios.’

‘Sim… Mas não chamam de Feiticeiros ou xamãs… Este tipo de pessoa é chamado de exorcista.’ Ela clarificou. ‘Não deixam de ser pessoas com magias que foram canalizadas apenas para o combate a seres das trevas.’ Ela franziu a testa por alguns segundos pensando. ‘É estranho isso, eles no final limitam tanto o poder da pessoa dotada de magia para que seja apenas direcionada para o que eles chamam de exorcismo. Ficam todos padronizados.’

‘Se eles são tão importantes assim, por que não escolheram um deles para destruir as chaves em vez do Shaolin?’

Marie soltou um suspiro. ‘Porque a igreja radicaliza e generaliza tudo. Não existem demônios bons. Todos são ruins. Não existe a teoria do Yin-Yang para eles. Bem é bem, mal é mal.’ Ela deu outro suspiro. ‘E bem é o que está a favor deles e mal o que está contra. Simples assim.’

Kazuo cruzou os braços e encarou novamente Marie. ‘Não sabemos onde está esta chave e nem como ela é. O Rashinban pode identificar onde ela está e depois podemos pensar em como ir até ela usando estes mapas.’ Ele falou, fazendo um gesto com a cabeça em direção a mesa.

Marie respirou fundo e sorriu de leve. ‘A presença do Shaolin está muito forte. Estou com dificuldade de manter o poder de Apagar para camuflá-la.’ Ela se sentou, apoiando o cotovelo na mesa e depois o rosto na mão. ‘Além disso…’

Kazuo franziu a testa e caminhou até ela. ‘O que está acontecendo?’

‘Não sei direito.’ Ela respondeu. ‘Ando sentindo uma dor de cabeça e um incômodo constante.’

‘Está doente?’ Ele perguntou, abaixando-se e pegando o rosto dela. ‘Realmente parece cansada. Melhor fazer como Shaolin e dormir um pouco.’

Ela forçou um sorriso. ‘Deve ser apenas estresse. Nervosismo.’ Ela falou. ‘Estou preocupada demais com Shaolin-kun e, principalmente, com o paradeiro desta chave agora.’

Kazuo se inclinou e beijou a testa dela, depois a abraçou. ‘A gente vai dar um jeito em tudo.’

Ela confirmou com a cabeça. ‘Eu espero que sim.’

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Shaolin caminhava devagar pelas ruas aos arredores da Cidade do Vaticano. Marie e Kazuo estavam ao seu lado. Colocou as mãos no bolso do casaco e apertou a esfera negra entre os dedos. Durante o dia, eles tinham acompanhado um grupo de turistas japoneses que estavam alojados no mesmo hotel que eles. Entraram no Vaticano como turistas e fora mais fácil do que o menino imaginou encontrar a chave. Este era o problema. Fora fácil demais.

Não era possível que uma relíquia capaz de abrir brechas entre os universos, e até para o mundo das trevas, estivesse no local indicado pelo Rashinban. Apertou mais forte a esfera negra. Tinha a sensação de estar indo para uma armadilha. Havia sentido magia demais no lugar. Magia demais para um lugar que considera feiticeiros profanadores da fé.

A chave estava na mão direita da estátua de São Pedro em frente à basílica e na praça que leva o nome do santo. Acessível a qualquer pessoa praticamente. Visível a todos os visitantes. Não fazia sentido aquilo. O senhor Tao tinha enviado vários mapas do Vaticano, pensando, possivelmente, o mesmo que eles: que a chave estaria num lugar fortemente guardado.

‘Tem que fazer sentido… Mas qual?’ Ele sussurrou incomodado ainda. Olhou de esguelha para o irmão que estava ao seu lado tão ou mais apreensivo que ele.

Pararam perto de um restaurante e olharam para a entrada da Praça de São Pedro, a guarda suíça fazendo a ronda como sempre, principalmente à noite.

Kazuo olhou para Marie e franziu a testa. A jovem estava com o rosto pálido. Não estava bem. Ele havia insistido para que ela descansasse mais, porém era teimosa. No fundo estava com pressa para destruírem aquela chave e caírem o fora dali o quanto antes. Ela tinha sido clara quando disse que temia realmente por ele. Seres como Kazuo não seriam nem ao menos questionados ou aprisionados se fossem pegos pela Igreja, simplesmente seriam combatidos.

‘Marie…’ Kazuo a chamou, fazendo a jovem tirar os olhos do obelisco ao centro da praça e olhar para o rapaz. ‘Você tem certeza que…’

‘Eu estou bem.’ Ela o cortou e o viu franzir a testa. ‘Vamos terminar logo com isso.’ Falou decidida. Marie desviou os olhos dele e observou o primo que olhava fixamente para a praça entre as colunas ao estilo romano. Estavam próximos à praça de São Pedro, na via Paolo VI.

A cerca era baixa, não havia muros protegendo-a. A Guarda Suíça protegia de forma assídua a entrada da basílica de São Pedro. O Plano era Marie usar o poder de Ilusão e camuflar a entrada deles na praça. Se fosse o caso, usaria o poder de Sono. Shaolin chegaria perto da chave e, depois de entrar naquele transe doido, destruiria e eles caíram fora. Fácil demais.

Kazuo olhou para os lados e viu algumas pessoas caminhando àquela hora pela via onde estavam. Realmente parecia não haver cuidado algum para proteger a chave. Passou a mão no rosto e depois pelos cabelos, compartilhava a mesma apreensão do irmão, parecia fácil demais.

Marie havia comentado que muitas relíquias, tão ou mais importantes, estavam simplesmente encaixotadas nos acervos secretos, sem acesso a ninguém e esquecidas ou completamente ignoradas pelas pessoas. A Igreja gostava de pregar que sabia muito, mas a feiticeira acreditava que eles eram tão fechados que nem tinham ideia do que tinham nas mãos.

‘Vamos?’ Ela sugeriu assim que o guarda passou pelas colunas romanas na lateral direita da praça.

Os dois acenaram que sim e ela invocou o poder de Ilusão, fazendo-os invisíveis para todos.

Caminharam devagar, pularam a baixa cerca, que mal protegia alguma coisa, e atravessaram o conjunto de colunas. Havia algumas pessoas na praça, sempre havia fiéis fazendo vigília, independente do horário. Atravessaram devagar a praça, evitando esbarrar em qualquer um dos fiéis.

Kazuo trincou os dentes, tinha alguma coisa errada. Olhou para o lado esquerdo e franziu a testa conseguia identificar magia em várias partes, não era apenas a guarda suíça que parecia estar fazendo ronda. Levantou o rosto, vendo uma quantidade enorme de estátuas que pareciam estar olhando para eles, aquele lugar era definitivamente muito estranho. Esbarrou no irmão, que tinha parado de repente, poucos metros depois de passarem pelo obelisco que se situava no centro da praça.

‘Vamos embora.’ Shaolin falou de repente. ‘Vamos embora, agora.’ Ele falou já pronto para dar meia volta.

Marie segurou o garoto pelo braço. ‘O que aconteceu?’

‘As pessoas… Elas sumiram.’ Ele falou, fazendo finalmente a jovem se dar conta que eles agora estavam sozinhos na praça. Franziu a testa, sem entender ao certo o que aconteceu.

‘Está tarde…’ Ela começou a falar.

‘Não.’ O garoto a interrompeu. ‘Tem magia demais.’ Ele a alertou. ‘Isso é uma armadilha. Kasumi estava certa. Vamos embora agora.’

‘Ele está certo… Tem alguma coisa errada.’ Kazuo finalmente falou, mas sem tirar os olhos de alguns vultos que conseguia ver passando por entre as colunas gregas. ‘Vamos embora…’ Ordenou, pegando o braço de Marie e já começando a puxá-la para saírem da praça quando finalmente os vultos se revelaram, todos vestidos de negro.

Não era a guarda suíça com seus uniformes peculiares, a guarda também tinha desaparecido.

Kazuo virou o rosto, observando que eles saíram de todos os lados, eram pelo menos uns trinta. Caminhavam devagar em direção a eles. ‘Cancele a magia, Marie. Eles já sabem que estamos aqui. Poupe-se.’

Marie franziu a testa, observando os homens se aproximando. Todos eram circulados por magia. Uma magia uniforme e peculiar. Engoliu em seco, eram exorcistas. Instintivamente levantou o escudo em torno dos três.

‘Precisa sair daqui, Kazuo.’ Ela falou. ‘Vou usar Movimento e você sai daqui. Eu e Shaolin daremos um jeito de sair em seguida.’

‘Está maluca?’ Ele falou, pegando a esfera negra. ‘Nem pensar em me tirar daqui.’

‘Tira ele daqui agora, Nee-san!’ Shaolin falou, pegando a esfera negra e materializando a espada.

Shaolin tirou os olhos dos homens que pararam ainda encarando-os e virou-se para o obelisco no centro da praça, arregalou os olhos observando uma energia pálida envolver o gigantesco monumento e aumentando aos poucos. Merda! Tinha sido avisado por Kasumi porque não a ouviu? Lembrou-se do que ela lhe falou por telefone sobre a energia de Marie e Kazuo. Virou-se para eles.

‘Vocês dois saiam daqui agora!’ Ele gritou, nervoso.

Kazuo apertou mais forte a empunhadura da espada, não entendendo aquela apreensão do irmão, eram apenas alguns feiticeiros idiotas. Eles dariam conta daqueles idiotas em dois tempos.

Marie olhou para o primo e franziu a testa. ‘Movim…’ Não conseguiu nem finalizar a invocação de sua magia para tirar Kazuo dali e assustou-se com a energia em torno do obelisco que explodiu, expandindo-se de forma circular em todas as direções da praça e atravessando-os.

‘Merda.’ Shaolin falou entre os dentes. Sentindo a energia passar por ele e atingir Kazuo e Marie que caíram em seguida de joelhos mal conseguindo manter os braços à frente do corpo para evitarem bater com o rosto no chão.

‘Que merda é esta?’ Kazuo falou, sentindo o corpo fraco e pesado. Levantou o rosto e viu a magia, circulando toda a praça como se fosse um fraco nevoeiro. Virou o rosto e viu Marie tão ou mais fraca que ele ao seu lado. Engoliu em seco. Novamente olhou para frente e viu o irmão em pé, empunhando a espada a sua frente. Inferno. O que estava acontecendo?

Shaolin sentiu uma gota de suor descer pela lateral de seu rosto. Olhou em volta, observando os vultos vestidos de negro se aproximarem e apertou mais forte a empunhadura da espada entre os dedos.

‘Então você deve ser o garoto que anda destruindo as chaves?’ Ele ouviu e estreitou os olhos em um senhor que deu alguns passos à frente. ‘Confesso que imaginei que tivesse magia ligada às trevas também, garoto. Considerando que é filho de um demônio com uma meretriz.’

‘Dobre a língua para falar dos meus pais, velho.’ Shaolin falou entre os dentes.

Rosas sorriu de leve, observando-o com a espada a sua frente. ‘Acha mesmo que um garoto como você vai conseguir lutar contra todos nós?’

Shaolin tirou os olhos dele e observou o grupo que se aproximava agora com armas nas mãos. Eram muitos. Olhou sobre o ombro direito e viu Kazuo e Marie no chão com suas presenças fracas.

Rosas levantou a mão, pedindo de forma silenciosa para que ninguém atacasse ainda o grupo. ‘Vou lhe contar uma história interessante, criança. E espero que depois de ouvi-la resolva baixar esta arma. Minha intenção não é machucá-lo. Na verdade, quero que se junte a mim. Ainda mais tendo verificado que sua magia não provém das trevas. Você se torna muito mais interessante.’ Rosas continuou a falar e sorrindo de leve para o menino. ‘Seu nome é Shaolin Li, não?’

Shaolin arregalou os olhos de leve e trincou os dentes de leve, ainda mantinha posição de defesa, aguardando o primeiro ataque, tentava entender o que tinha acontecido realmente para deixar o irmão e a prima fracos daquela forma.

Marie tentou invocar qualquer magia mas era em vão. ‘Minha magia está bloqueada.’ Ela falou entre os dentes.

‘Que merda está acontecendo?’ Kazuo perguntou novamente. Sua espada havia voltado a ser a esfera negra.

‘Eu… Eu não sei.’ Ela respondeu com sinceridade, mas começava a temer realmente agora, não só pela vida do rapaz, mas pela dela e do primo. Shaolin não teria condições de lutar contra todos eles sozinho.

‘Pelo seu olhar vejo que estou certo, não?’ Rosas deu mais um passo e parou, encarando Shaolin. ‘Eu sou o Monsenhor Alcadio Rosas, líder dos Exorcistas da Santa Fé.’ Apresentou-se, sorrindo ainda de leve. ‘Pensei que soubesse bastante a seu respeito, mas realmente me surpreendeu sua magia ser completamente branca. E muito, muito forte.’ Falou com sinceridade. Shaolin ainda mantinha o olhar duro. Rosas soltou um suspiro. ‘Este lugar…’ Ele começou a falar levantando um braço e apontando em volta. ‘Foi edificado sobre as ruínas de um circo muito interessante construído por Calígula e destruído por Nero nos anos 30 e 40 d.C.’ Ele deu alguns passos em direção ao obelisco e apontou para ele. ‘Este obelisco foi trazido do Egito por Calígula. Conta-se que foi construído em homenagem ao Deus do Sol, Rá, pelo faraó Amenemés II. Seria realmente apenas uma bela história de culto a um Deus Pagão, se não considerarmos que Rá também pode ser conhecido como Deus da Luz.’ Rosas estreitou os olhos em Shaolin. ‘E é claro que você deve saber muito bem que o lugar de onde vêm seus amigos se chama trevas, não?’

Shaolin ainda encarava Rosas mantendo-se em silêncio.

‘Por que Calígula traria um objeto tão peculiar e grande como este do Egito até Roma?’ Ele perguntou e sorriu de lado. ‘Eu respondo… Porque este grande objeto, usado de maneira correta, criaria exatamente o que você está vendo ao seu redor, Shaolin. Uma barreira mágica contra qualquer ser advindo das trevas.’ Rosas observou o obelisco sorrindo abertamente. ‘Um poder fenomenal, não?’

Shaolin desviou os olhos de Rosas e fitou o obelisco, franziu a testa de leve e tirou uma das mãos da empunhadura da espada para pegar um de seus talismãs.

Rosas voltou-se para ele. ‘Você pode até tentar destruí-lo… Acho que outros já tentaram… Será que consegue?’ Falou em tom zombeteiro ao perceber a intenção do garoto. ‘Mas antes vou terminar de lhe contar esta triste história para que entenda o porquê você está do lado errado, minha criança.’

Shaolin voltou a fitá-lo e depois ao grupo que estava logo atrás dele com as armas prontas para atacá-lo.

‘Você deve ter aprendido na escola sobre a era de perseguição dos cristãos, não? Ela não é apenas história de uma religião e sim uma história macabra de genocídio de milhares e milhares de seres humanos. Neste mesmo lugar em que hoje estamos em pé, morreram de forma torturante milhares de cristãos…’ Rosas estreitou os olhos nele. ‘Por diversão. Num circo criado pelos romanos. A história oficial consta que eles eram jogados às feras, aos leões… Puro romantismo.’ Rosas falou trincando os dentes. Desviou os olhos pela primeira vez de Shaolin e fitou Kazuo e Marie com raiva. ‘Eles foram jogados para seres como eles… Milhares de cristãos morreram dilacerados por seres repugnantes como eles.’

Shaolin franziu a testa e olhou incrédulo para Rosas que voltou a fitá-lo. ‘Você duvida?’ Deu uma risada irônica. ‘Por que acha que os católicos têm como missão perseguir e destruir demônios, Shaolin? Porque foram torturados e dilacerados por eles. Este obelisco…’ Falou voltando a apontar para o monumento. ‘Cria uma barreira para que estes seres fiquem presos em suas imediações e não apresentem perigo algum para quem estiver fora de sua área de atuação. Os seres das trevas que eram invocados ficavam restritos a limitação de sua atuação, deixando os romanos seguros enquanto assistiam ao macabro espetáculo.’

Rosas soltou um suspiro, voltando a fitar o menino.

‘A história é muito mais negra do que os livros contam, não?’ Disse em tom suave. ‘O que se conta é que Nero colocou fogo em Roma, mas sabemos que isso também é uma história bem romantizada de um louco, não?’ Falou dando alguns passos em direção a Shaolin e parando a pouco mais de dois metros dele. ‘Alguma coisa deu errada e a consequência atingiu a todos, fazendo finalmente os romanos começarem a temer a perigosa brincadeira e diversão deles. E então construíram o Coliseu onde a violência ficou restrita aos seres humanos e abandonaram este circo de horrores.’

Shaolin engoliu em seco, o homem falava e falava. Tinha que dar um jeito de tirar a prima e o irmão daquele lugar ou de anular a magia que restringia o poder deles. Tinha que pensar em alguma coisa, tinha que usar a cabeça, como o pai sempre o aconselhou a fazer. Desviou os olhos de Rosas e olhou de esguelha para o obelisco, depois para a estátua de Pedro com a chave.

‘Você deve estar se perguntando por que eu lhe contei esta história, não?’ Rosas voltou a tentar chamar atenção do menino. ‘Porque sei que há um grande potencial de se juntar a nós. Sua magia é forte e você ainda é muito novo. Ainda pode ser salvo. Aí você se pergunta: por que a Santa Igreja resolveu montar sua sede justamente no lugar onde tantos cristãos foram brutalmente assassinados?’ Rosas fez uma pausa. ‘Porque nossa missão é limpar a terra do mal que fomos obrigados a enfrentar. Nossa missão é tirar todos os seres humanos da influência de seres das trevas, combatê-los, eliminá-los. Este obelisco que antes serviu para limitar nossos carrascos, agora serve para que possamos aprisioná-los e torná-los fracos.’ Rosas sorriu de leve e olhou para trás observando a estátua de Pedro. ‘Com Pedro temos a abertura dos portais para o mundo do terror e, nesta arena, temos o controle deles, seguindo a orientação dele.’ Rosas apontou para a outra estátua de mesmo tamanho da de Pedro, situada à direita da entrada da basílica.

Shaolin olhou para ele estreitando os olhos na estátua do outro santo com uma espada na mão direita e pergaminhos na esquerda.

‘Paulo de Tarso foi um dos primeiro exorcistas. Era um homem culto, letrado, estudioso. Bem diferente de Pedro, que era um pescador ignorante. Paulo instruiu os primeiros exorcistas, aqueles que possuem como missão eliminar os demônios da terra. Ao final de sua vida, sabendo que sua morte estava próxima, Paulo escreveu a seu discípulo Timóteo: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé". É por isso que ele tem a espada, minha criança.’ Rosa falou e desviou os olhos para a espada que Shaolin tinha nas mãos. ‘Talvez tão parecida com a que você tem em suas mãos, Shaolin. Armas de fé. Armaduras de Deus para combater demônios e eliminá-los da Terra para evitar que o mal atinja os homens e mulheres de bem.’

Rosas estendeu o braço ao lado do corpo e Shaolin conseguiu ver a energia em torno dele se elevar. A espada que estava na mão da estátua de Paulo desapareceu e ressurgiu na mão direita de Rosas que a apontou para o garoto e depois para Kazuo que estava um pouco atrás dele ao seu lado direito.

‘Esta é a espada do Espírito Santo usada por Paulo de Tarso na sua terceira viagem missionária passando por toda a região da Galácia e da Frígia para eliminar o mal. Conta a lenda que quem a entregou foi o próprio Arcanjo Miguel, aquele que expulsou Lúcifer do plano superior, dando origem ao plano inferior.’ Rosas inclinou a cabeça de leve. ‘Ela é própria para eliminar seres como aquele ali.’ Apontou para Kazuo que estava caído no chão e ainda tentava se levantar.

Shaolin deu um passo para o lado, colocando-se à frente de Kazuo. ‘Ele é meu irmão.’

Rosas riu de forma irônica. ‘Já ouviu a história de Caim e Abel? Talvez seja muito bem aplicada a você e ele, não?’

‘Você… Você realmente é muito limitado.’ Shaolin finalmente falou, olhando para os outros exorcistas que se aproximavam. ‘A história realmente é bem triste. Sinto muito pelo que os primeiros cristãos passaram, mas você se limitou a colocar a culpa do que aconteceu a eles nos seres que os mataram.’

Rosas franziu a testa, incomodado com a colocação do garoto.

‘Os seres que foram trazidos para este “circo de horrores” poderiam estar aqui contra a vontade deles e, assim como os cristãos foram vítimas, eles também poderiam ser, não? No final, a violência foi apenas entretenimento para pessoas loucas que se divertiam em ver outras sendo mortas. As feras eram as culpadas? Ou seria quem não as alimentavam, fazendo seu instinto de sobrevivência servir como diversão?’

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Rosas deu alguns passos parando bem próximo a Shaolin. ‘Você… Já foi corrompido pelas trevas.’

‘Você fala que isso foi criado para combater o mal, mas pelo que eu vejo aqui…’ Shaolin olhou em volta. ‘É a reprodução da mesma arena onde os primeiros cristãos foram massacrados.’ Shaolin fez um gesto em direção aos que estavam atrás dele. ‘Você os coloca no lugar das feras, privando-os do livre-arbítrio e da chance de pensarem por eles próprios, transformando-os em feras. E acaba igualando os seres humanos ao que você acabou de me contar que eram seus assassinos.’

Shaolin reparou que os homens se entreolharam. Sentia a energia de cada um, tinham tanto medo, tanto receio que não conseguiam nem pensar por si só.

‘Isso é justiça!’ Rosas gritou para o garoto com o rosto em fúria.

‘Justiça?’ Shaolin falou com calma. ‘Caçar demônios porque os cristãos foram massacrados e dilacerados por eles?’ O garoto fez uma pausa. ‘Isso não é justiça… Isso é vingança.’

Rosas mal conseguia controlar a fúria, apertou mais forte a arma na mão direita, com os olhos cravados no rosto do menino. Sentia um poder imenso vindo dele, não seria interessante eliminá-lo. Ele seria uma peça importantíssima para o processo de renovação do mundo. Tentou se controlar.

‘Você realmente se acha capaz de me julgar, Shaolin?’ Rosas perguntou, tentando manter a voz calma e serena. Falhou miseravelmente.

Shaolin desviou os olhos dele e fitou novamente o grupo que estava atrás dele, alguns já começavam a apresentar dúvidas. Conseguia perceber isso. ‘Aprendi há pouco…’ Ele começou a falar devagar. ‘Que um dos grandes erros dos homens é achar que têm autoridade para julgar os atos de quem quer que seja.’

‘Não julgamos de forma aleatória!’ Rosas rebateu.

‘Mas Cristo, mesmo na cruz, perdoou aqueles que o pregaram nela, não?’

Rosas trincou novamente os dentes. ‘Está blasfemando!’

‘Acho que quem está fazendo isso é você!’ O garoto rebateu, pois percebeu a energia agitada do grupo atrás dele. ‘Você está se colocando no lugar de Deus, achando-se capaz de julgar qualquer um, qualquer ser, e de forma muito, muito parcial! Está jogando a primeira pedra, achando que é isento de pecado.’

O garoto abaixou a arma e endireitou o corpo.

‘Quando você se julga apto a fazer isso está se equiparando a Deus e isso é sacrilégio.’ Ele falou de forma calma e, como imaginou, percebeu que o simples ato dele abaixar a arma fez os outros também saírem da posição de ataque.

‘Se você pensar bem…’ Shaolin continuou. ‘Jesus Cristo, enquanto preso em seu corpo humano, evitava passar julgamentos. Por que será?’ Perguntou, estreitando os olhos no homem.

‘Você está distorcendo tudo!’ Rosas rebateu. ‘Está interpretando de forma errada as passagens da Bíblia. Eu posso ajudá-lo a entender e chegar à verdade.’

Shaolin sorriu de leve e inclinou a cabeça. ‘Não seria porque, uma vez que era humano, mesmo sendo "filho de Deus", ele era falível?’

‘Isso!’ Rosas gritou, apontando a arma para ele. ‘Isso que você acabou de falar é blasfêmia!’

‘Será que sou eu mesmo que estou distorcendo as coisas, ou será que você é quem está fazendo isso para manipulá-los?’ Falou, desviando os olhos de Rosas para o grupo que estava atrás dele. ‘Através do medo de algo que eles não entendem? Você fala que a missão dos cristãos é tirar os seres humanos da influência dos seres das trevas? Mas e quanto à influência benéfica que os seres humanos podem ter sobre eles?’

‘Humph’ Rosas murmurou. ‘Pensei que você entenderia nossa missão, mas, realmente, seria esperar demais de um ser criado por um demônio e uma meretriz.’

‘Acho que eles é quem não entendem o porquê estão aqui.’ O menino rebateu.

Rosas soltou uma gargalhada. ‘Você…’ Voltou a apontar a arma para o garoto. ‘É o próprio demônio, agindo para confundir. Como o demônio tentou Jesus no deserto.’

Shaolin deu de ombros. ‘Não o estou tentando com nada. Não estou lhe oferecendo ouro ou sei lá mais o quê… Estou apenas falando o que eu sinceramente acredito.’

‘Está nos tentando a abandonar nossa fé, a duvidar dos dogmas da Igreja.’ Rosas falou de forma dura. ‘Não pode abalar uma fé de milênios, Shaolin. Nossa igreja está consolidada, ela possui a verdade absoluta e irrevogável.’

‘Não há verdade absoluta.’ Shaolin falou com calma. Fitou Rosas com a testa levemente franzida. ‘A Justiça não pertence aos homens.’ Desviou os olhos para o grupo que estava atrás do homem. ‘Conhece-te a ti mesmo e no que acreditas, não no que os outros querem que acredites.’ Ele falou e sorriu de leve, voltando a fitar Rosas. ‘Não se transforme naquilo que quer tanto combater. Não carregue outros com você.’

‘Você!!!!’ Rosas gritou, avançando sobre o garoto. ‘É pior que o próprio demônio!’ Falou, tentando golpeá-lo com a espada.

Shaolin arregalou os olhos de leve, levantando sua espada e bloqueando a de Rosas que tentava atingi-lo. Deu alguns passos para trás ainda desviando dos ataques furiosos do homem contra ele. Franziu a testa de leve e, assim que o homem recuou de cansaço, abaixou-se e chutou com força as pernas dele, fazendo-o cair no chão. Deu um passo para trás, observando-o se levantar devagar.

Rosas sorriu de lado. ‘Você luta bem para o seu tamanho.’ Olhou para trás e viu que os homens se mantinham parados. Hesitantes. O garoto tinha realmente conseguido colocar dúvidas neles. ‘Ataquem-no! Agora!’ Ordenou e ainda os viu se entreolharem indecisos. ‘Aquele ali que está atrás dele, ao se levantar, matará todos vocês!’ Falou apontando para Kazuo. ‘Vocês perceberam a presença terrível dele e daquela feiticeira! Eles vão matá-los.’

Shaolin reparou que eles levantaram as armas, realmente Rosas os controlava pelo medo. Balançou a cabeça de leve. Tinha que fazer alguma coisa para proteger o irmão e a prima. Virou-se para trás rapidamente e os viu ainda caídos no chão. Tinha que usar a cabeça. Tinha que pensar em uma saída. Conhecer o inimigo. Conhecer a arma do inimigo era metade da vitória.

“Não importa o quão robusto é o adversário, tudo tem uma fraqueza. Se puder descobri-lo em luta, terá sucesso.”

Olhou para o obelisco rapidamente e franziu a testa. O cara tinha lhe dado a resposta. Estreitou os olhos na ponta do monumento onde existia uma cruz, aquilo lá com certeza não tinha vindo do Egito.

Observou o grupo avançando sobre ele e flexionou os joelhos de leve, pronto para se defender. Vários logo se aproximaram dele, tentando acertá-lo, mas ele se esquivou dos ataques, contra-atacando para acertar alguns.

Kazuo trincou os dentes e cerrou os punhos, observando o irmão. Ele não tinha como lutar contra todos daquela forma, por mais forte e rápido que fosse, era apenas um, era um garoto. Inferno. Matariam o irmão na frente dele e ele não poderia fazer nada. Observou que Rosas se aproximou de onde ele e Marie estavam, empunhando a arma a sua frente e com um sorriso sádico nos lábios. Tentou novamente se levantar, mas sentia o corpo pesado e sem forças. Lutava para manter os braços à frente do corpo e não ir completamente ao chão.

‘Você será o primeiro.’ Rosas falou, levantando a espada.

Marie olhou apavorada para o homem que levantava a espada para golpear o rapaz e sentiu os olhos arderem. Aquilo não poderia estar acontecendo.

‘Kazuo!’ Ela gritou, quando viu a arma de Rosas abaixar para cortar a cabeça do rapaz e fechou os olhos. Assustou-se ao ouvir o barulho de metal contra metal e abriu os olhos devagar com medo do que poderia ver.

Shaolin estava na frente do irmão, olhando furiosamente para Rosas. ‘Eu já falei que ele é meu irmão.’ Falou entre os dentes, empurrando-o e fazendo o homem dar alguns passos para trás. ‘Você já encheu o meu saco!’ Falou agora, caminhando em direção a Rosas e tentando golpeá-lo, forçando-o a se afastar do irmão.

Marie observou que a aura do garoto estava expandida e agitada. Em volta dos dois, Shaolin criou um redemoinho de vento, fazendo que, quem tentasse se aproximar dos dois, fosse empurrado. A magia dele estava explodindo. Estreitou novamente os olhos no primo e o viu lutando contra Rosas de forma furiosa. Outros tentaram atacá-lo, simultaneamente, e alguns até conseguiram acertá-lo de raspão antes de serem afastados, pois o garoto não tinha como se defender de todos ao mesmo tempo.

Estava muito mais forte e rápido, mas, por mais magia que ele tivesse, não tinha como se defender de todos os ataques. Conforme o nervosismo dele aumentava, se tornava mais certeiro nos ataques e agora se defendia apenas o necessário. Ironicamente, o que fez o garoto parar de hesitar tanto em atacar tinha sido justamente o irmão, ou melhor, o receio de matarem o irmão.

Shaolin olhou em volta, observando os que ainda estavam em pé prontos para atacá-los. Ainda eram muitos. Desviou os olhos de Rosas e fitou novamente o obelisco. Sorriu de lado. Estava na hora de ter ajuda. Pegou um dos talismãs e o levou a altura do rosto, fechando brevemente os olhos, sua mandala apareceu aos seus pés e sua magia se expandiu em segundos, flexionou novamente os joelhos apenas para pegar impulso e pular ao mesmo tempo que jogava o papel sagrado para cima, batendo nele com a espada. ‘Eu invoco o Deus Trovão, com a máxima urgência, de acordo com o pacto estabelecido. Ataque relâmpago!’

Rosas arregalou os olhos quando a descarga elétrica desceu do céu e atingiu a espada do garoto. Estava com a arma a frente, achando que o ataque seria direcionado a ele, mas não. Olhou assustado para o relâmpago que, após bater na espada do garoto, foi direto para o crucifixo acima do obelisco, fazendo-o se desprender da ponta do monumento e cair no chão com um barulho estrondoso.

Shaolin pousou no chão e sorriu de lado ao perceber que agora a energia formada pela estrutura mágica mudou, transformando-se no que era originalmente, no tempo dos romanos.

‘O que você fez?’ Rosas gritou, olhando para o garoto que erguia o corpo sem tirar o sorriso dos lábios.

‘Apenas transformei esta sua arena em algo mais justo.’ Ele respondeu, desviando os olhos do homem e observando o irmão e a prima se levantando, finalmente. ‘Você mesmo falou que o modificou para os seus propósitos, eu apenas retirei isso.’ Ele estreitou os olhos em Rosas. ‘Eu adoraria deixar o meu irmão acertar as contas com você, mas estou com vontade de fazê-lo engolir o que disse da minha mãe.’ Falou entre os dentes, empunhando a espada e caminhando em direção a Rosas e tentando golpeá-lo.

Kazuo e Marie se levantaram, voltando a sentir parte da força e magia retornarem a eles. A barreira de vento levantada por Shaolin para protegê-los desapareceu e eles olharam para o grupo de exorcistas que os observavam com os olhos em pânico.

Kazuo levantou a mão, fazendo a esfera negra que estava no chão voar até ela e a jogou para cima materializando sua espada. Olhou para Marie e sorriu de lado, vendo-a acenar com a cabeça, com a espada em sua mão direita. Foram atacados pelos homens de Rosas, mas agora tinham condições de se defenderem sozinhos.

Kazuo olhou rapidamente para onde o irmão estava e o viu lutando contra Rosas. Franziu a testa de leve, preocupado com o garoto que, além de estar bem machucado, tinha elevado demais a magia. A presença dele estava agitada demais.

Pela distração em observá-lo, acabou sendo atingido no ombro por um oponente, voltou a ficar atento aos inimigos que tentavam golpeá-lo e Marie.

Shaolin defendeu do golpe de Rosas, girou a espada em torno da do inimigo, fazendo-o se assustar e abrir a guarda. Levantou a perna esquerda e chutou-o no abdomen, fazendo o homem recuar alguns passos. O garoto não deu chance para ele e voltou a tentar acertá-lo. Agora que não se preocupava mais com o irmão e a prima poderia lutar de forma direta com aquele idiota.

‘Você não entende que está no lado errado?!’ Rosas falou, bloqueando os ataques do garoto, começava a temer. Sentia magia e força demais vindo dele.

‘Você atacou meu irmão e minha prima, insultou meus pais e tem a audácia de querer ter a razão… Idiota.’ Shaolin respondeu, sem dar trégua para ele.

Rosas tentou se defender dos ataques. ‘Você não entende que assim está indo contra a humanidade?!’ O homem falou e logo sentiu ser atingido por uma cotovelada do garoto, fazendo-o se afastar com a boca sangrando. Levantou o rosto e fitou o garoto com raiva.

‘Tentei fazer você voltar a razão, mas percebo que está completamente corrompido por aqueles que o criaram. Seu pai demônio lhe deu um irmão bastardo da mesma natureza que a dele; e a vadia da sua mãe o aceitou de qualquer forma, entregando-se para um ser das trevas.’

Shaolin sentiu as células do corpo explodirem, caminhou de forma firme em direção a Rosas que tentou golpeá-lo, mas ele se defendeu com a espada e empurrou-a, fazendo o homem se afastar. Ele girou o corpo e, ganhando momentum e aumentando a potência do golpe, desferiu um chute alto no rosto de Rosas, que voltou a cair no chão. ‘Olha como você fala da minha mãe, idiota.’ O garoto falou entre os dentes.

Rosas levantou o rosto para ele, sem se preocupar mais em limpar o sangue que escorria. Pegou a espada e levantou-se devagar. Sorriu de leve. ‘Você sabe que ela vai morrer, não é?’ Disse, fazendo o garoto arregalar os olhos de leve. ‘Ela será corrompida, está sofrendo infinitamente, tentando lutar contra isso, mas não conseguirá por muito tempo.’

‘So-sofrendo?’ Shaolin perguntou incerto.

‘Sim… Deve estar sofrendo muito, como toda prostituta deve sofrer ao ser apedrejada.’ Ele respondeu.

O garoto franziu a testa e voltou a se aproximar do homem, tentou golpeá-lo, mas este se defendeu com a espada. Rosas tentou acertá-lo, mas Shaolin se esquivou do punho dele. Virou o corpo novamente e o acertou com a empunhadura da sua espada no peito do homem que novamente deu alguns passos para trás, sentindo os golpes cada vez mais fortes do garoto.

Rosas riu de forma lunática, reparando o rosto do menino em desespero. ‘Sabemos de tudo, Shaolin.’ Ele esclareceu. ‘Nada passa despercebido pelos olhos de Deus.’

‘Você… Você é maluco.’ O garoto falou, realmente concluindo a insanidade do homem.

‘Shaolin… Minha criança.’ Ele falou em tom paternal novamente, e limpando o sangue que escorria pelo canto da boca. ‘Você tinha um potencial tão grande… tsc tsc tsc... É uma pena que teremos que matar você, assim como sua mãe, seu pai… aquele ali que você diz que é seu irmão…’

Shaolin empunhou a espada em direção a ele. ‘Você não vai se aproximar da minha família.’

‘Realmente é bem difícil nos aproximarmos agora de seus pais… Eles estão com aqueles xamãs…’ Rosas falou, empunhando a espada na direção do garoto e concentrando toda a energia que tinha na arma para desferir um golpe definitivo no garoto. ‘Mas aquela sua amiga, Kurogane, não está protegida por ninguém.’

Shaolin arregalou os olhos e a garganta ficar seca. ‘O-o que você está falando?’ Sentiu a voz falhar. Então era isso que estava acontecendo com Kasumi e ela não lhe falou! Merda! Será que já a tinham ameaçado? Será que já tinham lhe feito algum mal? Merda! Merda! E ele estava longe para protegê-la! Não podia perdê-la! Não admitiria mais uma merda de existência sem ela.

Rosas sorriu de lado. ‘Você acha mesmo que alguma coisa passa despercebido por nós? Despercebida por Deus?’ Ele balançou a cabeça. ‘Seria uma pena aquela menina tão bonita ter o mesmo fim que todos vocês apenas porque é sua amiga, não?’

Shaolin sentiu o corpo tremer. Apertou mais forte a empunhadura da espada e sentiu quando a energia em volta de seu corpo começou a circular de forma rápida e violenta, aumentando conforme sua ira por aquele homem. ‘Seu merda! Se tocaram… se tocar... num fio de cabelo dela…’ Ele falou entre os dentes.

Rosas estreitou os olhos no garoto. ‘Este será o destino de todos que estão ao lado das trevas, Shaolin. Todos deverão pagar pelos seus pecados. Todos!’ Deu um passo a frente, levantando a espada para golpeá-lo.

Shaolin não soube explicar o porquê, mas simplesmente levantou a mão e segurou a arma pela lâmina, reparando os olhos de Rosas em pânico. ‘Esta espada não pertence mais a você.’

‘Co-como parou o ataque?’ O exorcista perguntou sem conseguir acreditar, tentou puxar a arma, mas o garoto ainda a segurava, não permitindo que ela se mexesse por um milímetro sequer. ‘Não… Não é possível.’ Balbuciou.

Shaolin puxou a espada, fazendo com que o homem soltasse a empunhadura da arma e desse alguns passos para trás, assustado. O menino jogou a arma para cima, fazendo-a girar e rodopiar e a segurou pela empunhadura. A mandala dele surgiu novamente aos seus pés e ele aproximou as duas mãos, fazendo as duas espadas, que brilhavam intensamente, fundirem-se em uma apenas, nas mãos do garoto.

‘O que você fez?!’ Rosas o olhou em pânico, sem saber o que fazer ao perceber o poder fenomenal do garoto a sua frente.

Shaolin olhou para a arma na suas mãos e conseguiu sentir a magia em torno dela. Não só a magia, mas a energia que a envolvia depois de matar tantos de forma tão violenta por sede de vingança. Sentiu a energia dela, aos poucos, circulando suas mãos que seguravam a empunhadura e depois o corpo dele, sentiu toda a raiva e todo ódio pelo qual ela foi usada, misturarem-se com sua própria ira por aquele que ameaçava a sua família e à garota que ele amava. Fechou os olhos, conseguindo sentir de forma quase física os sentimentos negativos. Abriu os olhos e fitou Rosas com ódio…

Um ódio que há muito tempo não sentia em sua alma.

‘Você se tornou aquilo que tentou combater. Tornou-se pior do que eles… Pessoas como você devem ser erradicadas deste mundo!’ Shaolin falava friamente, dando um passo a frente sem desviar os olhos de Rosas.

Rosas arregalou os olhos, fitando com desespero o garoto a sua frente. Sabia que estava finalmente em frente de seu algoz. Sempre imaginou que sucumbiria em sua longa jornada nas mãos de um dos seres das trevas que sempre combateu durante quase sua vida inteira. Nunca imaginou que aquela criança seria quem finalmente colocaria fim à sua vida. Engoliu em seco, encarando os olhos verdes do garoto e sentiu um arrepio percorrer sua coluna. Os olhos dele eram de um assassino… e muito experiente.

‘Eu vou mandá-lo ao inferno.’ Ele ouviu o garoto falar e saiu de seus pensamentos. Viu a espada sendo erguida sem hesitação. ‘E você pode implorar misericórdia ao diabo!’

Continua.