FEITICEIROS
67 A Chave da Brandura (Mate a Ira)
FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 67
A Chave da Brandura
(Mate a Ira)
Shaolin abriu os olhos e fitou Rosas com ódio. Um ódio que há muito tempo não sentia em sua alma. Sentia o sangue e a adrenalina circulando por suas veias, assim como sentia seu poder mágico explodir de forma que sabia ser absurda. Sua mente nunca havia ficado tão clara daquela forma, sabia exatamente onde acertar aquele velho babaca para matá-lo com apenas um golpe certeiro. Sabia que tinha conhecimento, técnica e principalmente força e poder para isso.
‘Você se tornou aquilo que tentou combater. Tornou-se pior do que eles… Pessoas como você devem ser erradicadas deste mundo!’ Shaolin falou, dando um passo a frente sem desviar os olhos de Rosas. Sorriu de lado, sabendo que mandaria aquele ali para o lugar ao qual já deveria ter ido há muito tempo. ‘Eu vou mandá-lo ao inferno.’ Levantou a espada para acertá-lo de forma que sabia ser fatal. ‘E você pode implorar misericórdia ao diabo!’
Estava pronto para abaixar a espada quando freou o ataque, arregalando os olhos ao ver o irmão entre ele e Rosas, olhando-o sério. ‘Sai da minha frente, Kazuo!’ Ele falou entre os dentes, mas o rapaz não saiu.
My mother said “I gained a friend
(Minha mãe disse: "eu ganhei um amigo)
At the end of the heart to heart.”
(No final de uma conversa íntima.")
O garoto deu um passo para trás, sentindo a respiração ofegante por todo esforço físico e por toda aquela raiva que sentia dentro dele. Abaixou os olhos para Rosas e depois encarou novamente o irmão que se mantinha à frente, protegendo aquele desgraçado.
O que Kazuo estava pensando? Ele estava maluco? O cara esteve prestes a cortar a cabeça dele poucos minutos atrás e agora ele estava ali parado, protegendo-o.
‘Não se meta nisso!’ Shaolin gritou para o irmão, apertando mais forte a empunhadura da espada que brilhava de forma intensa nas mãos.
‘Você não quer realmente fazer isso, Shaolin.’ Kazuo falou sério para o irmão.
My mother asked, “will you be fine
(Minha mãe perguntou: "você ficará bem)
With the choices you make in your life?”
(Com as escolhas que faz em sua vida?")
Shaolin levantou o rosto e fitou o irmão a sua frente. Sentia todas as células do seu corpo explodindo de ira por Rosas. Tudo era vermelho a sua frente. Não permitiria que ele continuasse com aquele “circo de horrores”. Não permitiria que ele continuasse a fazer a mãe sofrer, que ameaçasse sua família, ameaçasse Kasumi. Queria mandar aquele desgraçado para o inferno de uma vez. Matá-lo seria o justo! Tinha como missão erradicar aquele tipo de gente do mundo.
‘Sai da minha frente agora, Kazuo!!!’ Shaolin gritou, dando um passo à frente e abaixando a espada.
And you pick me up
(E vocês me pegam)
And you hold me close
(E me abraçam forte)
And you show the way
(E me mostram o caminho)
And you let me go
(E me deixam partir)
Kazuo arregalou os olhos e levantou sua espada, bloqueando o golpe de Shaolin. As armas se chocaram com fúria. O rapaz sentiu a força do irmão. Não era possível aquela força toda.
Shaolin franziu a testa e deu um passo para trás, afastando a arma para atacá-lo pelo outro lado, Kazuo engoliu em seco, reparando que ele estava mais rápido. Tentou se proteger novamente com a espada e, no final, foi obrigado a atacar o irmão que parecia outra pessoa.
As espadas se chocaram algumas vezes faiscando com energia intensa.
My father said, “use your head
(Meu pai disse: "use a cabeça)
The guys upstairs, they just don’t care.”
(Os caras lá em cima, eles não se importam.")
‘Saia. Da. Minha. Frente!’ Shaolin ordenou mais uma vez sem parar de atacar o irmão.
As armas colidiram algumas vezes, até os dois voltarem a se encarar. As duas espadas em contato direto com os dois medindo forças. Kazuo apertou a empunhadura da espada com as duas mãos, Shaolin tinha os golpes mais rápidos e mais potentes do que quando brigaram.
Kazuo encarou Shaolin. Aquele não era irmão, definitivamente era outra pessoa. Shaolin não tinha aquela frieza para não hesitar em matar uma pessoa. Ele não era um assassino! Aquele não era ele, tinha certeza disso!
‘Que merda, Shaolin!’ Kazuo o chamou novamente, reparando que os olhos verdes do garoto tremiam. ‘Esse não é você! Você não quer fazer isso… Você não é um assassino!’
My father asked, “will you be safe
(Meu pai perguntou: "você ficará seguro)
When you are always so far away?”
(Quando estiver sempre distante?")
Shaolin arregalou os olhos e deu um passo para trás, abaixando a arma devagar como se, finalmente, percebesse o que estivera prestes a fazer. Sentiu como se tivesse levado um golpe forte do irmão na boca do estômago. Balançou a cabeça de leve, soltando a arma que, ao cair no chão, fez um som penetrante que lhe causou uma dor lancinante. Como se uma lâmina tivesse atravessado seu peito. A dor era física, apesar de não sangrar seu corpo. Fechou os olhos e levou uma das mãos ao rosto, sem saber direito o que tinha acontecido com ele.
Por alguns instantes, sua mente estivera tão lúcida… Ele estivera tão certo de que deveria matar aquele homem que realmente não havia hesitado. Tinha certeza que isso seria o justo. Estava fazendo justiça. Matar por justiça seria o certo. Não seria? Não!
Shaolin sentiu um bolo enorme na garganta e um desespero profundo dentro do peito. Encolheu os ombros e abaixou mais a cabeça, sem conseguir acreditar no que teria sido capaz de fazer, no que estivera disposto a fazer. Não era isso que tinha aprendido a vida inteira. Não foi isso que seus pais haviam lhe ensinado a vida inteira.
No que diabos ele estava pensando? Por que, por alguns instantes, simplesmente sentiu aquela frieza diante da ideia de matar um ser humano? O que tinha acontecido com ele?
Sentiu os olhos arderem, decepcionado consigo mesmo e mordeu com força o lábio inferior que tremia. Cerrou os punhos, sentindo agora toda a fúria, que antes era direcionada para Rosas, voltar-se contra ele próprio e a decisão que tinha tomado de matá-lo.
And you pick me up
(E vocês me pegam)
And you hold me close
(E me abraçam forte)
And you show the way
(E me mostram o caminho)
And you let me go
(E me deixam partir)
Kazuo observou o irmão a sua frente e franziu a testa. Abaixou a arma e sorriu, aliviado, mas também triste ao perceber que o irmão, finalmente, tinha voltado a si.
Ouviu quando o primeiro soluço saiu dos lábios do menino, soltou sua espada e se aproximou, parando a frente dele que, sem falar nada, apenas o abraçou pela cintura. Kazuo passou a mão na cabeça do irmão e o envolveu em seus braços, dando a ele o tempo que precisasse. Sentia o menino tremendo e não era apenas pelos inúmeros machucados que tinha pelo corpo.
‘Vai ficar tudo bem.’ Kazuo falou de forma suave e sentiu o garoto apertar mais forte os braços em volta da sua cintura. Queria apenas que Shaolin soubesse que ele estava ali para ele, que não estava sozinho.
I let the light into my life
(Eu deixo a luz entrar em minha vida)
Close my eyes before I die
(Fecho meus olhos antes de morrer)
And you let me go
(E vocês me deixam partir)
And you sent me off
(E me deixam voar)
Marie olhou para os dois abraçados e abaixou os olhos. O primo tinha chegado ao seu limite. Não era justo ele passar por tudo aquilo com apenas 13 anos, assim como não fora justo Kazuo ter vivido até pouco tempo no inferno, sendo usado por Midoriko como uma arma.
Voltou a fitá-los e sorriu de leve, percebendo o carinho com que Kazuo abraçava o irmão que chorava no peito dele. Desviou os olhos deles e viu que os poucos homens que ainda estavam de pé, apesar de feridos, começavam a recuar. Muitos completamente desnorteados com o que tinham presenciado.
Into the sky
(Para o céu)
Rosas olhou para os dois irmãos e depois abaixou os olhos para a espada do garoto que estava jogada no chão. Era uma arma fenomenal agora. Dava para ver o poder que a circulava. Sorriu de lado e arrastou-se em direção a arma, tentando não chamar atenção dos dois. Abriu um sorriso enorme ao ver a arma a poucos centímetros da sua mão direita.
Gargalhou de forma enlouquecida quando a tocou, tentando segurá-la pela empunhadura, mas foi repelido de tal forma que seu corpo foi jogado a uns dez metros de distância, batendo com força contra a base da estátua de Paulo.
Caiu sentado no chão, com as costas apoiadas na pedra fria, sentindo o sangue escorrer pelas costas do enorme ferimento que havia agora na sua cabeça. Estreitou os olhos novamente nos dois irmãos que estavam abraçados e pôde ver a energia enorme do garoto. Franziu a testa, observando uma figura alada a poucos metros dos dois. Percebeu que o ser celestial tinha os olhos fixos em sua direção.
‘Um… Um anjo do senhor…’ O homem balbuciou, fechando os olhos e perdendo os sentidos.
Always believe in me, always beside me
(Sempre acreditam em mim, sempre ao meu lado)
Marie caminhou até Kazuo que levantou o rosto para ela e tentou sorrir, mas teve sua tentativa frustrada. Ela olhou para o primo que ainda tentava se controlar.
Aos poucos, os soluços de Shaolin começaram a ficar mais espaçados até ele conseguir se afastar do irmão, secando o rosto com as mangas do casaco ainda olhando para baixo, envergonhado demais para encarar o irmão e a prima.
I’ve come this far and I'll be going
(Eu vim até aqui e eu irei)
Marie se aproximou dele e pegou o rosto do primo entre as mãos, levantando-o, antes de beijar a bochecha dele de forma demorada. Secou o rosto dele com as mãos e sorriu de leve. Ele tentou sorrir, mas também não teve muito sucesso.
Farther than the stars
(Mais longe do que as estrelas)
Shaolin caminhou devagar até a espada e estendeu a mão, fazendo a empunhadura da arma luminosa ir de encontro a sua mão. Olhou para o lado, vendo o anjo que o esperava. Não era Gabriel, nem o outro que tinha aparecido para falar com eles sobre o início da missão.
Tinha o rosto mais duro e o semblante sério. Além de parecer mais velho que os outros dois, mas tinha a impressão… Na verdade, sabia que o conhecia.
‘Eu sinto muito.’ O Anjo falou com sinceridade. ‘Mas você precisava fazer isso. Fazia parte da sua missão.’
‘O que mais eu preciso fazer para terminar com isso?’ Ele falou com a voz baixa.
Kazuo e Marie se entreolharam, observando o menino falando com o nada.
A jovem deu alguns passos em direção a ele. ‘Shaolin-kun? Está falando com quem?’
O menino virou-se para ela. ‘Está tudo bem, nee-san.’ Tentou não preocupá-la, mas não dava para explicar agora o que estava acontecendo.
Marie franziu a testa ainda olhando para os lados para tentar entender o que acontecia com o primo. Tinha percebido uma mudança sutil de energia, sentiu um calafrio percorrer suas costas. Conhecia aquela presença que agora não conseguia “ver” mas que sabia que estava ali.
Olhou novamente para o primo que se afastava com os passos arrastados dela e de Kazuo. A energia dele tinha mudado. Sentiu o coração acelerar e engoliu em seco.
‘O que foi?’ Ouviu a voz de Kazuo ao seu lado e levantou os olhos para o rapaz.
‘Eu-eu não sei… esta energia… Estas presenças…’
Kazuo inclinou a cabeça de leve olhando-a desconfiado. ‘Do que está falando?’
Marie voltou a observar o primo que estava parado mais distante a eles. Estreitou os olhos nele avaliando a energia em volta do menino. A presença de Shaolin tinha mudado e por algum motivo já tinha sentido antes aquela presença, mas não como Marie; como Khala’a. Balançou a cabeça com força tentando dissipar aqueles pensamentos. Ela só podia estar enganada. Era um engano.
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Shaolin parou de caminhar e soltou um suspiro enquanto voltava a fitar o anjo, esperando pela resposta.
‘Sua espada deve ser capaz de romper o feitiço que envolve o obelisco. Não irá destruí-lo, apenas quebrará a magia que existe em torno dele.’ Ele o instruiu.
O menino assentiu a cabeça, caminhando com passos arrastados até o monumento e levantou o rosto para ele.
‘Você conseguiu, de forma rápida e fácil, elevar sua magia para unir sua espada, isto é, a sua magia com a espada que eu entreguei a Paulo e que foi tão mal usada nos últimos séculos.’ Ele falou, voltando a fitar o obelisco. ‘Concentre sua magia e corte de cima a baixo. Não destruirá o material, mas o espiritual, entendeu?’
O garoto assentiu com a cabeça novamente.
‘Será um gasto a mais de energia, mas…’ O Anjo reteve-se e olhou para trás, vendo os jovens que ainda esperavam o garoto. ‘Você consegue. Depois deverá ir ao encontro de Pedro para destruir a chave. Você não tem muito tempo.’
Shaolin deu dois passos para trás e levantou o rosto, observando o enorme obelisco.
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Marie e Kazuo se entreolharam preocupados.
‘O que diabos ele está fazendo agora?’ O rapaz se perguntou, aproximando-se quando sentiu a magia em volta do irmão voltar a explodir de tal maneira que o obrigou a dar um passo para trás e levantar a mão na altura do rosto. Estranhou que, desta vez, a aura em torno dele não estava mais azulada, mas com um brilho branco intenso.
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Shaolin segurou a espada com as duas mãos e flexionou os joelhos, pegando impulso e pulando, levantou a espada acima da sua cabeça e a abaixou, fazendo a energia da lâmina mágica se estender até a estrutura sagrada, atingindo-a de cima a baixo. O campo criado a partir dela foi destruído, porém como o anjo havia lhe informado, a estrutura material continuou intacta.
Shaolin pousou no chão com um dos joelhos o tocando. Ergueu o corpo e a espada mágica voltou a forma de esfera, porém não era mais negra, como a havia recebido do pai, e sim, branca.
‘Excelente.’ O Anjo falou, fazendo um gesto de leve com a cabeça. Tentou sorrir de leve, mas não conseguiu. Sabia que ele estava sofrendo e muito. Reconhecia todo aquele desespero pelos olhos verdes do garoto. Soltou um suspiro e desviou os olhos dele. ‘Não se preocupe com Kasumi. Ela está bem.’
O garoto arregalou os olhos ao ouvir o nome da namorada. Deu um passo a frente sem tirar os olhos do ser alado. ‘Eles não se aproximaram dela? Ela está segura?!’
Ele assentiu com a cabeça. ‘Não se preocupe, estou sempre de olho nela…’ Sorriu de leve, nitidamente sem graça. ‘Por você.’
O garoto abriu um sorriso aliviado finalmente.
‘Bem… tenho que ir agora. Você tem ainda muito o que fazer…’
Shaolin assentiu com a cabeça.
‘Use-a com sabedoria, Azrael.’ Recomendou antes de ser envolvido por suas asas e desaparecer.
Shaolin franziu a testa olhando para onde o anjo havia desaparecido, soltou um suspiro cansado. Nunca havia se sentido tão cansado como agora. E ainda tinha que destruir a chave de Pedro. Passou a mão no rosto. Não estava com paciência de ter qualquer tipo de conversa desta vez. Queria voltar para casa, abraçar sua mãe e seu pai e dormir no seu quarto. Reencontrar-se com Kasumi, verificar com seus olhos que ela estava bem. Queria apenas ver o rosto dela para se sentir melhor. Queria estar ao lado dela e protegê-la de qualquer um que a ameaçasse.
And you pick me up
(E você me pegam)
And you hold me close
(E me abraçam forte)
And you take my hand
(E pegam-me pela mão)
And you watch me grow
(E me vêem crescer)
And you show the way
(E mostram o caminho)
And you let me go
(E me deixam partir)
Sentiu a presença do irmão ao seu lado e não teve nem coragem de olhar para ele depois do que tinha feito. Kazuo colocou a mão no ombro do garoto.
‘Foi como o oyaji falou, Shaolin.’ O rapaz falou, sabendo que o irmão ouvia. ‘Todos têm um demônio dentro de si. Como se controla ele é que importa.’
‘Eu não soube controlar o meu.’ O garoto sussurrou.
‘Sorte sua então que tem um irmão demônio que pôde ajudá-lo a fazer isso, não?’
Shaolin levantou o rosto para o irmão e sorriu de leve, balançando a cabeça. É… Ele tinha sorte mesmo. ‘Vamos logo terminar com isso. Tem ainda a chave para destruir.’
Kazuo franziu a testa. ‘Isso fica para um outro dia.’ Ele falou, segurando o ombro dele. ‘Você está muito machucado.’ Observou. ‘E cansado.’
Shaolin deu um suspiro, realmente não estava com saco para fazer mais isso, mas era melhor fazer logo tudo de uma vez. Como tinham dito, ele não tinha muito tempo. Empurrou de leve a mão do irmão. ‘Melhor resolver isso de uma vez.’ Falou, caminhando em direção a estátua de Pedro. ‘Não temos muito tempo.’
Kazuo franziu a testa. ‘Pirralho teimoso.’ Falou incomodado e caminhou em direção a ele para intervir novamente quando sentiu a magia do irmão novamente se expandir, impedindo-o de se aproximar. Ele olhou para Marie e fez um gesto em direção ao irmão. ‘Está esperando o que para impedi-lo?’
Marie franziu a testa. ‘Não consigo me aproximar também.’ Ela respondeu, tão irritada quanto o rapaz. Ela cruzou os braços e estreitou os olhos em Kazuo. ‘Ele é tão teimoso quanto você. Já deveria ter desistido de tentar convencer o cabeça dura junior a fazer alguma coisa.’
Kazuo endireitou o corpo, incomodado. ‘Não sou cabeça dura.’ Retrucou e ouviu uma risadinha irônica de Marie. Ele olhou para ela, que estreitou os olhos nele. ‘Talvez um pouco…’ Admitiu por fim.
Soltou um suspiro, observando o irmão parar em frente a estátua de pedra e estender a mão à frente do corpo e fechar os olhos. Sabia que Shaolin voltaria a entrar naquele maldito transe. O garoto não tinha ideia de como ele odiava vê-lo daquela forma.
I let the light into my life
(Eu deixo a luz entrar em minha vida)
Close my eyes before I die
(Fecho meus olhos antes de morrer)
And you let me go
(E vocês me deixam partir)
As chaves que estavam na mão direita de São Pedro desapareceram e surgiram na mão que ele estendia a frente. A magia em torno do menino diminuiu, permitindo que Kazuo e Marie se aproximassem dele.
You let me go
(Vocês me deixam partir)
Kazuo parou a frente do irmão observando-o de olhos fechados enquanto segurava com força a tal chave. A energia dele havia diminuído como sempre, tanto a energia mágica como a vital.
‘Ele logo vai voltar.’ Marie falou parando ao lado dele também observando o menino.
Kazuo olhou o irmão de cima a baixo reparando nos inúmeros machucados que sangravam do garoto. Na testa tinha um mais profundo que sangrava sujando parte do rosto dele. Franziu a testa, mas incomodado do que nunca. Era dever dele proteger o irmão mais novo e não o contrário. Teria perdido a cabeça se Shaolin não interviesse no último segundo. O garoto tinha lutado de forma que ele nunca havia pensado que lutariam por ele. Para protegê-lo. Shaolin era parecido demais com Sakura. Não era a toa que eram mãe e filho. Tinha impressão de que tanto a esposa do pai quanto o próprio fariam o mesmo. Eles eram uma família, não?
Sentiu um bolo na garganta ao constatar que ao contrário do que sempre lhe falaram, fazer parte de uma família tornava-os mais fortes para se protegerem. Passou a mão na cabeça do irmão e pensou que só queria voltar para casa agora com ele.
Marie arregalou os olhos de leve ao observar Kazuo dando um passo a frente e pensando que o rapaz arrancaria a chave da mão de Shaolin como já tinham sido advertidos tantas vezes que não podiam fazer, mas abriu um sorriso fraco dando-se conta que Kazuo apenas se aproximou do irmão para abraçá-lo enquanto ainda não voltasse do transe.
‘Volta logo, Shaolin…’ Ela pode ainda ouvir ele ordenando ao irmão. ‘Temos que voltar logo para casa.’
My mother said, “I gained a friend.”
(Minha mãe disse: "eu ganhei um amigo.")
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Shaolin soltou um suspiro, olhando novamente para o nada. Estava cansado desta vez. Sentou-se no chão, ou melhor, no nada que tinha sob seus pés e esperou por Pedro. Tinha visto a imagem dele talhada na pedra, então não imaginava algo muito diferente do que tinha visto.
Apoiou o braço no joelho flexionado e a cabeça na mão, ainda estava custando a acreditar no que teria feito não fosse a intervenção do irmão.
Levantou o rosto, observando a figura de um homem jovem se aproximando dele devagar, estava vestido com roupas atuais: calça jeans e camiseta. Franziu a testa, estranhando o ser que se aproximou, parando a sua frente. Shaolin levantou a cabeça e sorriu de leve, voltando a abaixá-la enquanto a balançava de leve.
Pedro sentou a sua frente e esperou o garoto voltar a fitá-lo.
‘Não era bem assim que eu esperava que fosse.’
Ele riu e deu de ombro. ‘Somos atemporais. Podemos ter a forma que quisermos para nos apresentar a você.’
Shaolin sorriu de lado. ‘Se o velho babaca o visse assim, aposto que o acusaria de blasfêmia só porque não está vestido com aquelas túnicas cafonas.’
Pedro sorriu de leve. ‘Os ensinamentos foram deixados por Cristo há mais de dois mil anos…’ Ele desviou os olhos do garoto brevemente e voltou a fitá-lo. ‘Mas pelo jeito nem todos conseguiram entendê-lo até hoje.’
‘É, acho que não.’ Shaolin concordou. ‘O outro lá… o “de barba”... Heimdall me falou que vocês resolveram testar o meu caráter.’ Ele falou incomodado. ‘Vai me fazer perguntas ou sou eu quem deve fazê-las agora?’ Estava impaciente, de saco cheio, na verdade.
Pedro cruzou os braços sobre o peito e observou o menino. ‘Sei que está irritado por tudo que está acontecendo.’
‘Humph.’ Shaolin murmurou. ‘Eu só quero voltar para casa.’
‘Você já parou para se perguntar por que escolheram você para fazer isso?’
Ele deu de ombros. ‘Sei lá. Isso não faz diferença. Se não fosse eu, seria outra pessoa. Talvez Kazuo…’ Ele parou por um instante. ‘Ele se ofereceu para ir no meu lugar, mas Gabriel resolveu implicar com ele.’ Shaolin soltou um outro suspiro. ‘Acho que Gabriel estava de sacanagem, Kazuo seria muito melhor que eu para cumprir estas tarefas… e, talvez, fosse até bom para ele conversar com vocês. Ele gosta de conversar. Tem um monte de dúvidas. Seria um ganho para os dois lados.’
Pedro balançou a cabeça de leve. ‘Realmente, está com muita raiva de si mesmo, não é?’
Shaolin franziu a testa de leve. ‘Raiva?’ Fez uma pausa. ‘Acho que sim. Não sei ao certo.’ Falou com sinceridade.
‘Bem, você conhece o esquema, não?’
O garoto levantou de leve as sobrancelhas. ‘É… depois de três vezes, a gente consegue entender mais ou menos como funciona.’
‘Então… você sabe que não pode sair daqui com esse tipo de dúvida.’ Ele falou. ‘Está com raiva do que poderia ter feito, mas não o fez.’
‘Porque meu irmão demônio, que teoricamente é desprovido de sentimentos e todo o blá-blá-blá daquele velho, protegeu justamente o velho que queria cortar a cabeça dele. Irônico, não?’ Falou, forçando um sorriso para disfarçar a exasperação que sentia.
Pedro concordou com um gesto. ‘Realmente, é uma situação muito peculiar. Você só não entendeu é que seu irmão não estava tentando proteger o exorcista que antes queria matá-lo… Ele estava protegendo você de si mesmo. Ele sabe exatamente quem é você e sabe que você não se perdoaria se fizesse o que estava pretendendo.’
Shaolin arregalou os olhos de leve e compreendeu. Sorriu de leve e balançou a cabeça. ‘É… acho que foi isso mesmo… Ele é meu irmão mais velho, não é?’
Pedro assentiu, lentamente. ‘Acho que vou lhe contar a minha história…’
‘Eu já conheço a sua história…’ Shaolin o interrompeu, tentando controlar a zanga. ‘Todo mundo conhece a sua história. Construíram um templo enorme em cima da sua história.’
Por que todos estavam querendo lhe contar histórias? Ele estava cansado e só queria terminar de uma vez aquele teste para poder seguir adiante com sua missão.
‘Não.’ Pedro respondeu sério. ‘Construíram aquilo tudo em cima da interpretação que fizeram dos ensinamentos de Cristo e não da minha história.’
Shaolin o fitou incrédulo. ‘Você…’ Ele franziu a testa. ‘A sua versão mais velho e de túnica foi o primeiro papa. O mundo praticamente para durante a escolha dos seus sucessores. Quer dizer, uma boa parte do mundo, porque tem o pessoal que acredita em Alah; outros em outros Deuses… Enfim, cada um acredita no que quer.’ Falou irritado.
Pedro soltou um suspiro tão cansado quanto os que o garoto havia soltado antes. ‘Você está com essa cólera toda porque reagiu de forma exagerada a um medo seu.’
‘Talvez…’ Ele falou.
‘Bem… Eu jurei ser fiel a um amigo e, no entanto, eu o neguei três vezes por medo. Medo de morrer mesmo.’ Ele falou, encolhendo os ombros de leve. ‘E ele ainda me sacaneou fazendo aquele galo cantar. Só para eu me sentir pior.’
Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Sacaneou?’
Pedro deu de ombros novamente. ‘Ele sabia que eu faria isso e tinha me avisado antes e até me falou do galo que cantaria depois que eu o negasse pela terceira vez. Não acreditei nele. Era muito impulsivo e explosivo. Tinha um pessoal lá que era mais letrado e estudado que eu. Às vezes, eu acabava dormindo no meio de uma lição. Levei várias broncas por isso, Mateus fez questão de registrar isso para a posteridade. Acho que ele não ia muito com a minha cara, só falou mal de mim.’ Deu de ombros. ‘Enfim... quando, por medo, eu neguei que conhecia este meu amigo para não ir preso junto com ele, justamente na terceira vez, aquele maldito galo cantou.’
‘Deve ter sido uma merda.’
‘Foi mesmo.’ Ele falou com sinceridade. ‘Se a intenção era me fazer sentir o último dos homens, ele conseguiu. Mas isso também me mostrou que nosso caráter está sendo colocado à prova a toda hora. Podemos acreditar que somos firmes e retos, mas aí… Acontece uma circunstância que está além de nosso controle e já era tudo que pensávamos de nós mesmos.’
‘É acho que você tem razão.’ Shaolin comentou e apoiou novamente a cabeça na mão. ‘No final, você não é nada daquilo que pensava que era.’
‘Você se enganou com relação ao seu irmão. Por que achou que não seria capaz de se enganar sobre si mesmo?’
Shaolin estreitou os olhos nele. ‘Não é óbvio? Porque eu não conhecia o meu irmão… E… Bem… Considerando que “eu sou eu”, eu devia me conhecer, certo?’
‘Isso funciona muito bem na teoria.’ Pedro concordou. ‘Mas como eu falei para você, eu não era muito bom nesse negócio de teoria. Preferia aprender na prática.’
Shaolin sorriu de leve. ‘Como Kazuo.’ Comentou. ‘Ele disse que aprendeu a lutar na prática.’ Desviou os olhos novamente de Pedro. ‘A vantagem é que ele tem aquele poder lá de cicatrização. Ele pode ser curioso e… Sei lá… Colocar o dedo na tomada, tomar choque e ainda achar engraçado. Se eu fizer isso, pode ter certeza que nunca mais faria isso.’
‘Aprendeu com sua dor, não?’ Pedro concluiu. ‘Aprendeu com seus erros. Erros desta vida… Erros de existências anteriores.’
‘Não é uma lição muito legal, mas, na prática, é o que acontece.’ Shaolin estreitou os olhos nele. ‘Mas você não tem direito de colocar outras pessoas em perigo ou provocar dor em outras pessoas para simplesmente aprender com os seus erros. Isso é errado.’
Pedro concordou de leve com a cabeça. ‘Também achei isso. É o óbvio, não?’
‘Claro!’ Shaolin exclamou.
‘Realmente eu não conseguia entender porque esse meu amigo resolveu simplesmente se deixar ser crucificado e sofrer para tentar passar uma lição de amor e humildade para a humanidade. Não faz sentido, não é? Ele morreu agonizando. Alguns resolveram romantizar falando que era para salvar todos os pecados do mundo…’ Ele balançou a cabeça de leve. ‘Isso é uma forma muito simplista de ver as coisas. Ele morreu porque não teve medo de passar lições verdadeiras de amor, fraternidade… Ele morreu porque não foi compreendido… Não se curvou ao que o mundo inteiro queria que ele simplesmente aceitasse e ele tanto combatia.’ Pedro soltou um outro suspiro, incomodado. ‘E parece que, até hoje, muitas pessoas que conhecem tão bem a história dele, não o compreenderam ainda.’
‘Isso também é bem chato.’
‘Muito mesmo.’ Ele concordou. ‘É decepcionante.’
Shaolin suspirou. ‘Cada um acredita no que quer. Não tem como forçar ninguém a acreditar em alguma coisa.’
‘Exatamente.’ Pedro concordou novamente. ‘Então… Podemos ficar aqui discutindo pela eternidade que você vai continuar pensando, ou melhor, martirizando-se porque quase matou uma pessoa, não é?’
Shaolin franziu a testa. ‘Eu mataria, se Kazuo não tivesse intervindo. Eu o mataria. E, sinceramente, eu até acredito que ele merecia.’ Soltou um suspiro. ‘Mas não caberia a mim julgá-lo. No momento que eu decidi matá-lo, eu fui o advogado de defesa, promotor, juiz… E tem os jurados também em alguns casos, né?’ Ele falou e comprimiu os lábios. ‘E o executor do meu veredito.’
‘É… Você foi fez uma versão bem compacta de um julgamento.’
Shaolin riu de leve. ‘É uma maneira de ver as coisas.’
‘E você acha que isso é muito errado, não?’
‘Claro.’ O garoto falou, olhando para ele desconfiado.
Pedro encolheu os ombros. ‘Então por que está fazendo isso novamente?’
Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Do que você está falando?’
‘Você está sendo o réu, promotor, defensor, juiz, jurados… e até o executor da sua própria sentença.’
O garoto estreitou os olhos nele. ‘Não é bem assim.’
‘Não? Tem certeza?’ Pedro retrucou. ‘Para mim… A situação é muito parecida. A única diferença mesmo é que você está como réu agora.’
‘Claro que não!’ Shaolin gritou agora, encarando-o sério. ‘É completamente diferente. Eu não posso me matar.’
Pedro inclinou o corpo a frente, fitando-o. ‘Você tem certeza disso?’
Shaolin franziu a testa, olhando para Pedro e sentindo-se incomodado. ‘Eu não vou cometer suicídio por causa de um idiota daqueles.’
‘Existem várias formas de morte. Você pode estar vivo, andando, comendo, dormindo e, mesmo assim, não estar vivendo. Isso não deixa de ser uma morte.’
‘O que você falou não faz o menor sentido.’
‘Não? Pergunta para sua mãe…’
‘Não coloca a minha mãe no meio!’ Ele falou, irritado.
Pedro riu e balançou a cabeça de leve. ‘Auto-sacrifício também é uma forma de fazer este seu julgamento. Você já deveria ter aprendido isso.’
Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Do que está falando?’
Pedro deu de ombros. ‘Algumas pessoas, em uma fração de segundos, tomam decisões e fazem auto-sacrifícios por outras que nem conhece, como maneira de remediar o que fizeram de errado. Estas pessoas acham que a vida de outras é mais importante do que a dela carregada de culpa e crime. Matar por dinheiro é um crime, não? Mesmo que também exista intenções nobres por trás.’
Shaolin passou a mão pelo rosto. ‘Dinheiro é dinheiro.’
‘Exatamente…’ Pedro falou devagar, observando o garoto.
‘Não!’ Shaolin falou de repente, olhando para a figura do homem à sua frente. ‘Isso não é certo!’
Pedro estreitou os olhos no garoto. ‘Tem certeza?’
O menino levantou o rosto, encarando-o e sentindo-se incomodado.
Por fim, Pedro soltou outro suspiro e desviou brevemente os olhos do garoto. ‘Você já fez esse seu mini julgamento e já executou sua própria sentença. Não faça isso novamente.’
Shaolin arregalou os olhos de leve.
Pedro sorriu. ‘Bem… Você já está há tempo demais aqui comigo. O papo até está legal, mas acho que tem um monte de gente esperando por você.’
‘É… Eu sei…’ Ele murmurou. ‘Fiz um monte de promessas que nem sei se vou conseguir cumprir.’
‘Está com raiva de si por isso também?’
Shaolin encolheu os ombros. ‘Eu realmente quero cumprir. Preciso cumprir. Tem muita coisa que eu quero viver ainda.’
‘E você acha que nunca vai errar enquanto viver?’
‘Provavelmente eu vou errar e muito ainda.’ Respondeu, rindo de leve.
‘E vai continuar a realizar esta sua versão compacta de julgamento todas as vezes?’
Shaolin franziu a testa de leve. ‘Se eu fizer isso… A minha vida vai ser uma merda.’
‘Pode ter certeza que vai ser, sim.’ Pedro concordou, rindo. Bateu de leve as mãos nos joelhos e se levantou. Olhou para o garoto que ainda estava sentado. ‘E aí? O que vai ser? Quer ficar ainda aqui, fazendo este seu julgamento fictício?’
Shaolin endireitou o corpo e se levantou. ‘Não vale a pena. É contraditório considerar que não devo julgar os outros, mas tenho que me julgar.’ Olhou para Pedro. ‘Embora só concluir isso, não faz com que me sinta melhor. Não vou mentir ou fingir que aceito ainda este aprendizado.’
Pedro colocou uma mão no ombro dele. ‘Isso se chama consciência. Todos devem ter consciência do que é certo e errado ou o mundo seria um caos.’ Ele fez uma pausa, franzindo a testa de leve. ‘O mundo já está caótico porque muitas pessoas, infelizmente, parecem não ter consciência de mais nada, apenas pensam na própria existência. Egocentrismo.’
‘É... Minha consciência está bem pesada.’
‘Muito bem… Isso mostra que você tem caráter. Que sabe ter feito algo errado e tirou uma lição de vida do seu erro.’
Shaolin sorriu de leve. ‘Eu entendi.’
‘Acho que sim. Você é inteligente.’
Shaolin encolheu os ombros. ‘Mais ou menos.’
‘E humilde. Muito bom.’ Pedro bateu no ombro dele de forma camarada. ‘Está na hora de voltar. Você ainda vai ficar meio mal por alguns dias, mas é normal. Depois passa. O tempo… Sempre ajuda a cicatrizar feridas. E os erros cometidos, não deixam de ser feridas na alma.’
‘Mas elas cicatrizam, não?’
‘Exatamente.’ Ele respondeu sorrindo. ‘Às vezes, fica uma cicatriz ou outra lá para fazer com que nos lembremos e para evitar que cometamos os erros novamente. Mas todas elas cicatrizam.’
Shaolin deu um longo suspiro. ‘Estou cansado.’
‘Eu sei.’ Pedro falou. ‘Está na hora de ir.’
~*~*~*~KK~*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Sakura abriu os olhos e fitou o teto do quarto onde estava hospedada na pousada Funbari. Levou uma das mãos ao peito e o sentiu mais dolorido do que nos últimos dias.
A pousada estava silenciosa. O grupo de xamãs, incluindo Ren Tao e a esposa, haviam se despedido dela e Syaoran, partindo juntos para resolverem alguma questão. Não entraram muito em detalhes e, verdade seja dita, ela e o marido já tinham problemas demais para ficarem ainda curiosos pelo problema deles. Eles tinham sido muito amáveis e, de certa maneira, muito divertidos, apesar do clima sempre tenso que, não apenas ela, mas todos estavam vivendo.
Anna Asakura havia ficado na pousada e estava ajudando-a demais nas crises de dor e desespero.
Levantou-se devagar, sentando-se no futon e fitando a porta de shoji. Levou a mão direita até a têmpora e a apertou de leve. Não era apenas aquela dor constante, havia algo mais que fazia seu coração doer daquela forma.
‘Shaolin...’ O nome do filho saiu de seus lábios. Tinha certeza que tinha alguma coisa errada com o filho.
Havia se encontrado com ele há pouco tempo, ele conversou com ela sobre a angústia que sentia por perceber as energias das pessoas de forma mais nítida, quase invasiva. Ele estava amadurecendo rápido demais. Era responsabilidade demais para uma criança.
Levou a mão direita até o peito e sentiu que tinha alguma outra coisa acontecendo com o filho. Gabriel tinha falado que a próxima chave estava no Vaticano. Franziu a testa, levantando-se e caminhando devagar pelo quarto, abriu a porta e se concentrou para achar a presença do marido. Cruzou o corredor e desceu os degraus para o jardim dos fundos, encontrando-o conversando com Anna Asakura.
Syaoran estava se dando melhor com ela. Às vezes, ainda discordavam e trocavam algumas farpas, mas o marido era um homem inteligente e sabia ouvir. Assim que ele a viu, franziu a testa e foi até ela.
‘Eu estou bem.’ Ela já foi falando, incomodada com aquele excesso de zelo.
Sabia que a situação não era fácil, mas também era muito difícil voltar a se sentir uma donzela indefesa.
Syaoran a encarou sério. ‘O que foi?’
‘Liga para o Shaolin.’ Ela pediu.
‘Acho que seria mais prudente esperar eles ligarem para nós.’
‘Liga para ele, Syaoran. Por favor.’ Ela pediu. ‘Não!’ Sakura falou, de repente. ‘Ligue para Kazuo-kun. Ele não vai esconder nada, nem minimizar a situação.’
Syaoran olhou para a esposa, ainda hesitante, e a viu franzir a testa, começando a se irritar com a demora dele. O homem rodou os olhos e pegou o celular para ligar para o filho. ‘Vou deixar tocar três vezes, se não atender, ele vai ver que ligamos e vai ligar de volta, certo?’
Sakura cruzou os braços, encarando o marido que discava o número. Anna observou que a aura dela estava agitada, mas não era nada relacionado ao poder do pilar. Soltou um suspiro e se levantou, deixando o casal sozinho. Tinha impressão que a conversa seria mais dura do que imaginavam.
‘Kazuo?’ Syaoran falou assim que o filho atendeu.
‘Viva-voz agora, Syaoran.’ Sakura ordenou.
O marido franziu a testa. ‘Nem pensar.’
‘Viva-voz, agora!’ Ela repetiu, séria.
Syaoran bufou e afastou o celular para apertar a tecla e colocar no viva-voz.
‘E, ai de você, se falar que eu estou escutando.’ Ela ainda recomendou, estreitando os olhos nele.
‘Oi, Kazuo.’ Syaoran falou, depois de soltar um suspiro e colocar o rapaz no viva-voz.
‘Oh, oyaji.’ A voz dele não era muito boa.
‘Está tudo bem com vocês?’ Syaoran perguntou, olhando para a esposa e franziu a testa de leve, desviando os olhos para o aparelho que se mantinha em silêncio. ‘Kazuo?’
Ele ouviram o rapaz suspirar no outro lado da linha. ‘Shaolin…’ Ele começou a falar, fazendo Sakura arregalar os olhos e se controlar para não começar a fazer um monte de perguntas.
‘O que tem o Shaolin?’ Syaoran perguntou, agora compartilhando a mesma preocupação que a esposa. ‘Ele está bem?’
‘Ele conseguiu destruir a chave de Pedro… Mas as coisas foram bem mais difíceis desta vez.’
‘Como está seu irmão?’ Syaoran perguntou, mal conseguindo controlar a apreensão.
‘Ele está bem machucado. Tivemos que levá-lo para o hospital. Tai Dai já tinha, mais ou menos, tudo no esquema quando ligamos para ele e nos ajudou bastante.’
‘Onde vocês estão?’
‘No hospital ainda. Os médicos não vão liberar o Shaolin até ele acordar. Marie está com ele e eu saí agora do quarto para falar com o senhor.’
‘Os machucados… eles são profundos?’
‘Ele lutou contra quase trinta caras sozinho. Aconteceu muita coisa… Eu nem sei por onde começar a contar.’
‘Pelo começo, Kazuo. Pelo começo.’ Syaoran recomendou, tentando manter a calma.
O rapaz respirou fundo antes de começar a contar sobre a localização da chave, a armadilha que deixara tanto ele quanto Marie fora de combate, mas não afetou Shaolin, e sobre o aparecimento dos tais exorcistas e seu líder. 'O cara teria arrancado a minha cabeça se o Shaolin não tivesse impedido.'
‘E você está bem?’ Syaoran perguntou, cerrando os punhos e tentando controlar a irritação.
‘Estou bem, oyaji… O Shaolin é que… A coisa ficou esquisita, porque o Shaolin começou a ficar bravo… Realmente bravo.’
‘Normal, não?’ Syaoran falou, tentando controlar a apreensão.
‘Não foi normal.’ Kazuo respondeu. ‘Ele não ficou bravo assim nem quando a gente brigou feio daquela vez.’
‘Que merda que aconteceu, Kazuo?’ Syaoran perguntou irritado, pegando o celular e já estava pronto para desligar o viva-voz quando Sakura segurou o braço dele, olhando-o torto. Ele que se atrevesse a deixá-la de fora agora.
‘A aura dele explodiu. Como eu falei… Ele tentou lutar contra os caras todos sozinho, até que teve a ideia de destruir o que quer que fosse que estava afetando a mim e a Marie e a gente conseguiu se levantar para ajudar.’
‘Ótimo… Ele usou a cabeça…’ Syaoran comentou. ‘Então tudo se resolveu, não é?’
A linha ficou um tempo em silêncio, fazendo os dois quase enlouquecerem. O rapaz só podia estar de sacanagem agora. ‘Kazuo?’ Ele chamou o filho.
‘Não… As coisas não se resolveram direito. Eu e a Marie conseguimos nos defender e lutar contra a maioria dos exorcistas, então o Shaolin começou atacar apenas o líder deles. Antes o cara queria convencer o Shaolin a se juntar a eles, convencê-lo que estava do lado errado por estar andando comigo e com a Marie, seres com magia das trevas.’ Kazuo falou devagar e com a voz arrastada. ‘Eles ficaram discutindo até começar a confusão toda.’
‘Então o Shaolin lutou apenas com este exorcista praticamente? Ele era tão forte assim?’
‘Não. O Shaolin o venceu fácil. Ele está forte demais.’ Kazuo respondeu e soltou um suspiro. ‘O problema é que o cara deve ter falado alguma merda bem grande para ele, porque o Shaolin… não sei o que aconteceu, oyaji, mas o ele ficou muito, muito bravo.’
‘Mais do que antes?’ Syaoran perguntou, franzindo a testa e olhou de esguelha para a esposa que olhava fixamente para o aparelho.
‘Muito mesmo. Tanto ou mais que o senhor.’ Kazuo respondeu, fazendo Syaoran sentir-se incomodado com a colocação.
Ele, melhor que ninguém, sabia muito bem onde a raiva e a irritabilidade dele o levavam. Sempre imaginou que Shaolin fosse o extremo oposto dele. ‘Que merda aconteceu com seu irmão?’ Perguntou, já sentindo que não conseguia controlar nem a própria aura de agonia.
Kazuo então começou a narrar as alterações ocorridas na aura de Shaolin durante a luta contra o velho, como ela começou a ficar agitada e violenta. Explicou, da melhor forma possível, sobre a espada que o velho usava especialmente para matar demônios e sobre como o irmão, de repente, havia usado a própria mão para parar o ataque, segurando a lâmina, antes de unir a própria espada com a do adversário.
‘Ele fez o quê?’ Syaoran perguntou, sem conseguir entender.
'Eu pensei que ele tivesse enlouquecido naquela hora, mas a tal espada não o cortou, nem nada. Aí, ele transformou as duas espadas, a dele e a do cara, numa só. Muito maior e com muito mais magia.’
Sakura olhou para o marido e franziu a testa, ela tinha feito algo parecido quando juntou a carta Espada com a espada do marido quando lutaram contra Shyrai. Será que foi algo parecido?
‘Só que…’ Kazuo começou a falar e deteve-se.
Syaoran percebeu a hesitação do filho. ‘Só que o quê?’
Eles ouviram o rapaz soltando um suspiro mais demorado. Kazuo nunca foi de medir as palavras e começava a se preocupar demais por perceber que o filho estava fazendo isso.
‘O Shaolin surtou.’ Falou de uma vez.
‘Surtou como?!’ Syaoran perguntou, mal conseguindo controlar a ansiedade.
‘Ele… Ele ia matar o cara.’ Kazuo finalmente falou e soltou outro suspiro.
Sakura engoliu em seco e levou uma das mãos ao rosto. Syaoran passou a mão no cabelo nervoso. ‘Mas ele não matou, não é?’ Perguntou incerto.
‘Não.’ Kazuo respondeu, finalmente fazendo os dois soltarem um suspiro de alívio. ‘Mas, quando eu entrei na frente dele para impedir, ele me atacou antes de voltar a si.’ O rapaz fez uma pausa. ‘Não era ele, oyaji. Ele estava transfigurado.’
‘Como assim não era ele?’ Syaoran perguntou sem agora conseguir esconder o nervosismo. ‘Incorporaram nele? Tinha alguma influência agindo sobre ele?’
‘Não… Ou talvez tivesse e eu não consegui ver ou sentir. Mas, não era ele, oyaji. Eu tenho certeza disso.’
Syaoran olhou para a esposa e a viu com os olhos brilhantes pelas lágrimas não derramadas. Inferno! Os dois filhos, no final, tiveram a mesma merda de sina que a dele.
‘Mas ele voltou a si, não foi?’
‘Voltou.’ Kazuo respondeu. ‘Ele percebeu o que estava para fazer e… Foi difícil demais para ele.’ O rapaz respirou fundo novamente. ‘Depois, como é cabeça dura pra caramba, decidiu destruir a tal chave, mesmo eu falando para irmos descansar e fazer isso outro dia.’
‘Humph.’ Syaoran murmurou. ‘Bem cabeça dura mesmo.’ Falou, olhando para Sakura de esguelha.
‘A magia dele estava tão forte que não dava nem para eu chegar perto dele e impedir à força.’ Kazuo continuou, contrariado. ‘Aí, entrou naquele maldito transe de novo.’
‘E ele voltou, não é?’ Syaoran perguntou, engolindo em seco.
‘A chave virou pó, então quer dizer que ele conseguiu destruí-la, mas… Ele gastou energia demais.’ Kazuo falou. ‘Além do mais, está todo machucado. Foi cansativo demais para ele, toda a luta. Ele ainda não acordou.’ Respondeu com sinceridade à pergunta do pai.
Sakura cobriu o rosto com as mãos.
‘Mas os sinais vitais dele estão bons!’ O rapaz alertou o pai. ‘A magia dele está mais forte como esperávamos depois que destruísse a quarta chave. Parece que realmente está tudo bem com ele, só está muito cansado. Assim que ele acordar, eu prometo que ligo para o senhor, avisando-o.’
‘Faça isso, Filho.’ Syaoran pediu.
‘Hum… oyaji…’ O rapaz falou, incerto. ‘Eu sinto muito por não ter conseguido protegê-lo.’
Syaoran sorriu de leve. ‘Você o impediu de fazer algo que ele se arrependeria para sempre, Kazuo.’ Falou com sinceridade. ‘Você conseguiu protegê-lo… Dele mesmo.’
‘Ele está forte demais e mais rápido. Não é só magia, é físico. Tive dificuldade para me defender dos ataques dele. Isso não é normal. Ele não era tão forte assim quando treinávamos.’
Syaoran soltou um suspiro. ‘Hiiraguizawa está tentando achar alguma coisa que possa nos esclarecer o que está acontecendo com o seu irmão.’
‘Então fala para ele andar mais rápido.’ Kazuo falou. ‘Oyaji… ele não pode morrer…’
Syaoran e Sakura se entreolharam em silêncio. Sakura balançou a cabeça e secou o rosto pelas lágrimas que não conseguia mais segurar. Tentava se manter em silêncio e evitar que qualquer soluço saísse de seus lábios.
‘Ele não vai morrer.’ Syaoran falou. ‘Não vamos deixar isso acontecer.’
‘Não vamos…’ Kazuo concordou com o tom de voz mais forte. Ficaram em silêncio alguns segundos. ‘Hum…’ O rapaz retornou a conversa. ‘Como está a Sakura? Ela está melhor?’
Sakura sorriu de leve ainda secando o rosto, ouvindo-o perguntar por ela. Syaoran sorriu para a esposa. ‘Ela está… Ela está muito feliz por saber que você está com Shaolin, Kazuo.’
Sakura concordou com a cabeça.
‘Hum… Diga a ela que… Bem… Que espero que ela esteja melhor.’ Ele falou nitidamente sem graça. ‘E que agora só falta mais uma chave, então vamos voltar logo para casa.’ Ele fez uma pausa. ‘Que Shaolin vai logo voltar para casa.’
Syaoran franziu a testa com a colocação do filho, olhou para a esposa que também se sentiu incomodada com isso. ‘Estaremos esperando vocês dois para voltarmos para nossa casa.’ Ele falou com a voz firme.
‘Eu… Eu vou desligar agora. Tem uma velha me olhando feio aqui, mas não entendo o que ela está falando.’ Ele falou. ‘Até mais, oyaji.’
‘Até.’ Syaoran falou e ouviu o telefone desligando.
Sakura fitou o esposo e soltou um suspiro dolorido. ‘Ele é um bom menino.’ Ela começou com a voz suave. ‘E um bom irmão para Shaolin.’ Completou.
Syaoran concordou com a cabeça. ‘É… É um bom menino.’
‘Depois que esta confusão toda acabar, Syaoran, precisamos arrumar a situação dele.’ Ela falou já conseguindo controlar as lágrimas e sentando no degrau da escada, soltando um longo suspiro dolorido.
‘Eu sei… Temos que arrumar a documentação dele. Não sei nem como ele está conseguindo viajar sem ela.’ Ele falou incomodado, sentando ao lado dela. ‘Realmente o Tao é bem eficiente quando quer.’ Passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais próxima dele e beijando de forma demorada a cabeça dela.
Sakura fechou os olhos se aconchegando no esposo ‘Acho… Acho que, talvez, uma das soluções seria fazer o registro dele… Como seu filho.’
Syaoran deu um longo suspiro. ‘Pensei nisso…’ Falou e engoliu em seco. ‘O problema é…’ Balançou a cabeça de leve. ‘Não dá para colocar o nome da mãe dele no registro, não é? E ninguém nasce de incubadora.’
Sakura comprimiu os lábios por alguns instantes tomando coragem. ‘Mas… Talvez ele pudesse… Ter, no registro, meu nome como mãe, não?’
Syaoran franziu a testa, afastou-se dela apenas para observar o rosto da esposa que desviou os olhos dele.
‘Hã… Sei que vai ser meio difícil ele me ver como mãe. Mas…’ Ela fez uma pausa. ‘Talvez, ele possa aceitar se a gente falar que é só por uma questão de papel e registro. Acho que ele aceitaria, não?’
Syaoran sorriu de leve. ‘Você acha que ele não a aceitaria como mãe, Sakura?’
Ela encolheu os ombros. ‘Ele tem a mãe dele, né? Que, apesar de ser uma…’ Ela reteve-se e respirou fundo. ‘Enfim… É a mãe dele.’
‘Ele nem a chama de mãe.’ Syaoran observou. ‘E, quando pronuncia o nome dela, chega a se tremer todo.’
Sakura levantou o rosto e fitou o marido. Sorriu de leve. ‘Eu ficaria muito feliz se ele me aceitasse como mãe dele… Neste universo.’
Syaoran a abraçou novamente com carinho.
‘Eu tenho certeza que ele ficaria muito feliz também em saber que você gostaria de registrá-lo como filho, Sakura.’
Ela encolheu os ombros de leve. ‘Eu, realmente, espero que sim. Gosto muito dele, Syaoran. É um bom menino.’ Falou mais uma vez.
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Sakura caminhava devagar entre as cerejeiras. Olhava em volta, procurando o filho e sorriu de leve, observando o garoto sentado em um dos galhos da grande cerejeira. Engoliu em seco. Sabia que ele estava sofrendo. Deu alguns passos na direção dele e viu o momento exato em que o menino percebeu a presença dela, voltando-se para ela, mas sem conseguir abrir o sorriso que sempre abria quando a encontrava.
Ele desceu da árvore e correu em direção a ela, abraçando-a forte.
Sakura passou a mão na cabeça do filho e o abraçou. ‘Shhh… vai ficar tudo bem, meu amor.’ Falou com carinho para o menino que ainda estava abraçado a ela.
Beijou a cabeça do filho e sentiu o coração fisgar, sabendo o quanto ele estava sofrendo. Ficaram assim por muito tempo, até Shaolin se afastar da mãe e passar a mão no rosto, secando-o.
Sakura passou a mão no rosto dele com carinho. ‘Está tudo bem, Shaolin. Está tudo bem.’ Ela falou com suavidade.
Ele balançou a cabeça, negando. ‘Não está, kaasan.’ Falou com a voz embargada. Abaixou o rosto sem conseguir encarar a mãe e encolheu os ombros. ‘Eu quase… Eu quase…’
‘Você não o fez.’ Ela falou.
Shaolin levantou os olhos para ela.
Sakura franziu a testa de leve, reparando no olhar duro do filho.
‘Eu fiz, kaasan.’ Respondeu. ‘Eu tomei a decisão e abaixei a arma. Eu o mataria se Kazuo não estivesse na minha frente.’
Sakura passou as mãos nos cabelos do filho, fitando-o com carinho. ‘Todos nós temos nossos momentos de ira. Isso é humano.’ Ela falou. ‘Eu tive momentos, seu pai… Todos passamos por momentos que nos fazem chegar ao limite.’
Ele desviou os olhos da mãe. ‘A senhora não teria coragem de fazer o que fiz.’
Sakura fitou o filho por alguns segundos. ‘Fiz pior que você.’ Respondeu e o menino voltou-se para ela com o testa franzida. ‘Quando seu pai morreu…’ Ela começou a falar devagar. ‘Eu estava com tanta raiva de tudo, do mundo, do destino, de não tê-lo ao meu lado…’ Sakura deu um suspiro. ‘Tive idéias completamente loucas, mas o pior foi eu ter brigado com uma pessoa que não tinha nada a ver com aquela dor que eu sentia.’
Shaolin desviou os olhos dela. ‘Brigar com alguém é normal…’
Sakura sorriu de leve. ‘Sim… Mas quando se tem magia e ela explode… Quando tudo que se enxerga é vermelho a sua frente, as coisas ficam muito mais perigosas.’ Ela falou. ‘Envergonho-me muito por ter lutado de forma violenta com uma pessoa apenas para descontar aquele meu sentimento.’
‘Mas você não tentou matá-la…’ O garoto retrucou.
Ela fitou o filho em silêncio até que ele se virou, fitando-a nos olhos. Shaolin engoliu em seco pelo silêncio da mãe.
‘Eu não o matei porque ele era uma pessoa tão forte quanto eu e conseguiu se proteger, mas tanto eu quanto ele saímos muito machucados.’
Shaolin desviou os olhos dela e franziu a testa. Depois voltou a fitá-la. ‘Essa pessoa é o senhor Tao?’
Sakura assentiu com a cabeça e o menino desviou os olhos dela novamente. ‘Por isso que tousan não gosta dele?’
Ela sorriu e balançou a cabeça de leve. ‘Seu pai gosta dele sim, mas nunca vai admitir.’
‘Mas vocês são amigos agora! Ele que está ajudando a gente… E muito.’
‘Exatamente.’ Sakura concordou. ‘Eu poderia tê-lo matado, talvez era isso que eu chegaria a fazer para conseguir o que eu queria, mas principalmente… Não conseguia de forma alguma controlar a raiva que eu tinha dentro de mim. Ele entendeu isso…’ Ela sorriu de leve. ‘Ele aceitou me ajudar e como você falou agora… Tem ajudado a mim e aos que amo até hoje.’
Shaolin arrastou o pé de leve. ‘Aquele velho falou que a senhora estava sofrendo… Muito.’
Sakura passou a mão na cabeça do filho com carinho e beijou novamente a cabeça dele. ‘Estou sofrendo mais por estar longe de você.’ Ela respondeu. ‘Gostaria tanto de estar com você, Kazuo-kun e Marie-chan.’
Ele voltou a fitá-la. ‘Mas está sofrendo, não é?’
‘Estou conseguindo segurar a situação.’ Ela respondeu confiante. ‘Seu pai está me ajudando e uma amiga também.’
‘O velho idiota também falou que…’ Ele desviou os olhos dela por um momento e voltou a fitá-la. ‘Que todos nós vamos morrer. A senhora, tousan, eu… Kazuo, nee-san…’ Ele encolheu os ombros e voltou a desviar os olhos dela, cerrou os punhos e trincou os dentes. ‘Ele falou até que matariam a Kasumi só porque ela… Porque ela convive comigo.’
Sakura sorriu de leve, observando o menino. Começava a entender o que tinha acontecido. O homem simplesmente ameaçou realizar todos os maiores medos do filho.
Shaolin ainda fitava o chão. ‘Eu não sei o que aconteceu direito, kaasan. Eu simplesmente achei que a espada com a qual ele estava tentando me atacar não deveria ser mais dele.’ Deu de ombros e franziu a testa de leve, tentando se lembrar de tudo que tinha passado. Arregalou os olhos de leve e voltou a fitar a mãe. ‘Eu achei que ela era minha e fiquei com raiva por saber que ele a estava usando de forma errada.’
‘Sua?’ Sakura perguntou, não entendendo.
Ele confirmou com a cabeça. ‘Sim. Por isso… Quando ele me atacou eu tinha certeza que ela não me feriria. E… E foi isso que aconteceu.’ Ele falou e franziu a testa de leve novamente, balançou a cabeça. ‘Parecia loucura, mas eu realmente tinha certeza que a espada era minha e quando a peguei… Não sei o que eu fiz… Eu de alguma forma a juntei com a que o tousan me deu.’
Sakura assentiu com a cabeça, apenas observando Shaolin que se mostrava confuso.
‘E quando elevei a minha magia, sentia… Na verdade, consegui ver todas as vezes que ela tinha sido usada de forma errada.’ Ele falou, levantando os olhos para mãe e mordendo os lábios de leve. ‘Ela… Usaram-na para matar muitos demônios, mas também muitas pessoas… Muitas, kaasan.’
‘Você viu isso?’
‘Como um filme rápido… Mas nítido...’ Ele falou com pesar. ‘Usaram-na para torturar… Para…’ Deixou morrer a frase, sem conseguir relatar para mãe tamanho horror que tinha presenciado.
‘Você viu tudo isso, Shaolin?’ Perguntou preocupada e arregalou os olhos quando o filho a fitou novamente e confirmou com a cabeça. Ele era só uma criança, não era certo ver tanto horror daquela forma.
O menino abaixou o rosto. ‘E foi aí que eu… Eu só queria acabar com aquele desgraçado por ter causado tanta dor e sofrimento. Por ter tentado matar o Kazuo, que não tinha como se defender, assim como eu o vi matar os outros. Por ameaçar minha família e Kasumi.’ Shaolin soltou um suspiro. ‘Eu não sei, kaasan… Não consegui distinguir o que era certo ou errado.’
Sakura o abraçou novamente e afagou os cabelos dele. ‘Certo e errado são conceitos muito relativos.’ Ela falou. ‘O importante é que você não o fez.’
‘Kazuo me impediu e eu o ataquei também.’
Ela sorriu para ele e pegou o rosto do filho novamente entre as mãos. ‘Está vendo como você estava fora de si, meu querido? Não se culpe pelo que poderia ter acontecido. Naquela hora, realmente não era você.’
Shaolin tentou desviar os olhos da mãe, mas ela segurou o rosto dele mais firme para que não fizesse isso, que continuasse a fitando nos olhos.
‘Eu poderia tê-lo machucado.’ Shaolin falou.
‘Você estava com raiva daquele homem, entre outras coisas, por ele ter tentado matar seu irmão…’ Shaolin assentiu com a cabeça. ‘Você estava fora de si, querido. Não se martirize mais com isso.’
‘Eu poderia…’
‘Você voltou a si e se controlou justamente para não machucar o seu irmão.’ Ela falou com a voz firme. ‘Não foi?’
Ele concordou com a cabeça e ela sorriu. ‘Então… O importante é que você conseguiu se controlar, independente de ter ou não ajuda dele.’
Shaolin sorriu de leve. ‘Acho que eu devo desculpas para ele de novo, né?’
Sakura sorriu. ‘Ele já o desculpou.’
Shaolin sorriu para ela e depois desviou os olhos da mãe, observando Gabriel se aproximando. Sakura beijou a testa do filho e logo passou o braço nos ombros do filho para encarar o anjo que se aproximava. Estava cada vez mais complicado ela se controlar e não dar um murro no anjo pelo que ele estava fazendo o filho passar.
Gabriel parou a frente deles e sorriu de forma triste para Shaolin. ‘Eu sei que não vai adiantar muito, mas eu sinto muito, Shaolin.’
O menino desviou os olhos dele. ‘O seu amigo me falou que fazia parte também… Foi um pacote completo, não?’
Gabriel fez uma careta de forma instintiva. ‘Ele não é meu amigo.’ Resmungou incomodado. ‘E ele não tinha nada que falar diretamente com você.’
Sakura franziu a testa. ‘De quem estão falando?’
‘Do outro anjo que eu vi. Foi ele quem me instruiu sobre como quebrar o feitiço para soltar o Kazuo e nee-san.’
Sakura encarou Gabriel com o semblante mais duro. ‘Dá para você explicar?’
Gabriel soltou um suspiro e ajeitou o corpo novamente. ‘O nome dele é Miguel e ele é metido demais. Bem arrogante. Ele se acha acima do que foi estabelecido. O correto seria ele vir falar comigo para eu entrar em contato com Shaolin já que eu sou o guardião deste universo.’ Ele falou com a voz rancorosa. ‘Mas é claro que ele não faria isso… Ele é o todo-poderoso, então ele simplesmente foi falar com você diretamente. Eu já percebi que ele anda me burlando há muito tempo.’
Shaolin e Sakura se entreolharam e depois fitaram o anjo que pigarreou.
‘Miguel é um Arcanjo.’ Tentou responder finalmente a pergunta do garoto. ‘É o meu superior.’
Sakura levantou de leve as sobrancelhas e Shaolin estalou a língua entendendo a situação.
‘Humph.’ Gabriel murmurou. ‘Ele realmente deixou uma espada para combater o mal. Teoricamente, acho que ela deveria passar de Guardião para Guardião, mas acabou ficando na Igreja de forma equivocada.’ Ele soltou um suspiro. ‘Miguel já estava incomodado com isso há muito tempo e andava me cobrando uma solução. Eu resolveria a questão no próximo ciclo, mas ele aproveitou que estava lá e… E decidiu entregá-la a você, já que é um… Hum… Enfim… já que você estava lá perto da espada.’
‘Ele decidiu? Do nada?’ Shaolin perguntou, erguendo uma sobrancelha. Pelo jeito os guardiões celestes tinham muito mais problemas do que figuras angelicais transmitiam ou aparentavam.
Gabriel deu de ombros. ‘Provavelmente, isso já estava decidido antes, mas ele não me contou. Para ele ter ido pessoalmente é porque realmente era uma missão extraordinária.’ Falou em tom chateado. ‘Mas ele podia, pelo menos, ter me falado para eu ir junto.’ Depois olhou para o garoto. ‘E você também não precisava dar ouvidos para ele.’
Shaolin arregalou os olhos de leve. ‘Você está de sacanagem comigo, né?’
Sakura franziu a testa. ‘Você deveria estar ao lado dele, Gabriel. Mesmo que não possa interceder, deveria estar acompanhando os três.’ Falou com a voz dura.
Gabriel mostrou-se constrangido. ‘Estava em outra missão.’ Tentou se justificar, ficando em silêncio por alguns segundos com a testa franzida. ‘Filho da mãe… Ele me mandou para aquela missão idiota para eu não estar presente.’ Soltou trincando os dentes, balançou a cabeça de leve.
Pior que sabia que nem daria para tirar satisfações porque era capaz de ainda levar uma bronca.
Sakura estreitou os olhos no anjo e sorriu de leve. Pensou por alguns segundos que seria até interessante conhecer o supervisor dele. Não sabia direito como era esta questão de hierarquia dos anjos, mas conhecendo Gabriel e Raziel dava para perceber que eles eram bem “humanos” para seres celestiais. Talvez considerando o ciclo de evolução das almas, se tornar um guardião celestial fosse o primeiro passo para a evolução para se manter de forma definitiva no plano superior, por isso estes guardiões fossem tão próximos aos humanos e tão diferentes de como os textos bíblicos os descrevem.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Gabriel respirou fundo, fechou os olhos brevemente para se controlar. Voltou a fitar o garoto. ‘Bem, agora na prática a espada dele é sua, então é bom você ter cuidado ao manejá-la, ela potencializa a sua magia. Como existem relíquias ligadas às trevas, existem algumas ligadas ao plano celestial e agora a sua espada é uma delas. Só você ou quem você permitir é que poderá manipulá-la. É uma arma fenomenal no combate de seres das trevas e, bem… Por isso que acho que deveria estar com o Guardião.’ Ele falou por fim. ‘Eu resolveria isso.’ Repetiu mais uma vez.
Sakura e Shaolin entreolharam-se novamente. O menino respirou fundo e olhou para o guardião ‘Aquele velho babaca ameaçou Kasumi…’ O garoto falou cerrando os punhos.
Sakura sorriu, observando o filho. Ele realmente gostava demais da menina.
Gabriel engoliu em seco, respirou fundo. ‘Não se preocupe com Kasumi, ela saberá se proteger caso seja necessário.’
Shaolin franziu a testa. ‘Este seu chefe me falou que estava cuidando dela…’. Desviou os olhos do arcanjo e soltou um suspiro, sem conseguir esconder o incômodo. ‘Cuidando dela por mim.’
Tanto Sakura quanto Gabriel arregalaram os olhos assustados.
O anjo deu passo à frente. ‘Que história é essa?’
Shaolin balançou a cabeça de leve. Fitou Gabriel por alguns segundo e logo depois desviou os olhos do anjo novamente. ‘Eu sei lá o que vocês… enfim… o que vocês resolvem entre si. Apenas agradeço a ele por estar cuidando dela.’ Ele abaixou os olhos. ‘Não vai valer de nada esta minha existência se algo acontecer a ela.’
Sakura se aproximou mais do menino, colocando a mão sobre o ombro do filho e chamando a atenção dele. ‘Eu e seu pai estamos lhe esperando. Assim como Kasumi-chan. Estamos esperando você e Kazuo-kun para voltarmos para casa.’
Ele assentiu com a cabeça. ‘Quero voltar o quanto antes, kassan. Não aguento mais esta…’ Ele respirou fundo e soltou devagar. ‘Esta agonia no peito.’ Esclareceu apertando a mão na altura do coração.
Ela sorriu docemente para ele. ‘Logo estaremos todos juntos novamente.’
Gabriel observou mãe e filho com um sorriso, respirou fundo e lembrou-se do motivo do encontro. ‘Estou aqui para falar que a próxima chave que você deve destruir é a de Ometecuhtli e Omecihuatl. Vocês precisam ir para o México, uma cidade chamada Oaxaca.’ Ele falou. ‘O protetor desta chave estará esperando por vocês.’ Ele soltou um longo suspiro e voltou a fitar o garoto de forma séria. ‘Eu não quero assustá-lo, mas talvez…’ Reteve-se brevemente. ‘Talvez, para Miguel ter intervindo desta maneira, seja porque você precisará desta espada. Estamos detectando algumas alterações na interface entre o mundo das trevas e o nosso universo, na verdade em vários universos. Então pode ser…’
‘Gabriel-san!’ Sakura o chamou, olhando-o séria. ‘Fala logo e não enrola!’
Ele ajeitou o corpo, incomodado com a intimação dela. ‘Acreditamos que alguns demônios de alto nível atravessaram para alguns universos inclusive o nosso aproveitando o enfraquecimento dos pilares.’
Sakura arregalou os olhos. ‘Mas… Mas eu estou… Eu estou conseguindo controlar…’
Ele assentiu com a cabeça. ‘Sim… Está se saindo muito bem, senhora Li. No entanto, por mais que a senhora esteja fazendo e controlando, alguns demônios de grau superior são capazes de aproveitar esta situação de enfraquecimento e atravessar a barreira. Os guardiões, tanto das trevas quanto os celestes, estão atentos.’
Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Você está atento? Sabe se passou ou não um demônio para o nosso universo?’
Gabriel pigarreou. ‘Acreditamos que pelo menos três tenham passado.’
‘Como é que é?!’ Sakura gritou revoltada. ‘Não dava para você aliviar um pouco a situação e ter impedido isso?’
‘Estamos trabalhando nisto senhora Li. Como viu, até os meus superiores estão trabalhando nisto.’
‘Humph.’ Sakura resmungou. ‘Deixa Syaoran saber disso…’ Ela estreitou os olhos no anjo. ‘Ele está louco para dar um murro em você.’
Gabriel ergueu o queixo. ‘Nossa luta duraria pela eternidade.’
‘Será mesmo?’ Ela retrucou.
O anjo soltou um suspiro cansado. ‘Senhora Li… Acredite em mim… Estou realmente tentando fazer o meu melhor, estou sendo cobrado de forma exaustiva pelos superiores do plano superior.’ Falou, desviando o olhar dela.
Shaolin sorriu de leve. ‘Não se preocupe, Gabriel. Tudo vai dar certo. A gente vai conseguir resolver tudo, não é, kaasan?’ Falou, voltando-se para Sakura.
Ela sorriu para ele e afagou os cabelos do menino, estava feliz por ver que ele parecia melhor agora, ficaria sempre com aquela incômoda lembrança em sua mente, mas saberia superar e aprender com ela. ‘É claro. Tudo vai dar certo.’
Continua.
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