FEITICEIROS

68 Troubleshooting (Mate o Medo)


FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 68

Troubleshooting

(Mate o Medo)

Shaolin abriu os olhos, mas os fechou em seguida, sentindo-se incomodado pela luz forte direto neles. Tentou mexer o corpo, mas sentia-se dolorido. Respirou fundo e tentou, novamente, abrir os olhos, piscando-os várias vezes tentando se acostumar com a luminosidade. Levantou a mão direita e sentiu a agulha do soro espetá-lo.

‘Dio mio, il ragazzo si svegliò!’ (Meu Deus, o menino acordou!)

Shaolin ouviu dizerem, sem entender.

‘Shaolin!’

Ouviu também a voz do irmão, mas não conseguia exatamente saber de onde estava vindo. Levantou o outro braço, colocando a mão na frente dos olhos.

‘Tem como tirar esta luz da minha cara?’ Ele resmungou.

Ouviu a voz da prima falando com alguém e logo a luz foi desviada, fazendo-o finalmente conseguir abrir os olhos, depois de piscar algumas vezes. Tentou se levantar, mas sentiu quando o seguraram pelo ombro, tentando impedi-lo.

‘Eu estou bem. Eu estou bem.’ Ele falou, tentando afastar o braço que o segurava. Ainda não tinha conseguido focalizar sua visão direito.

Sentia a presença da prima e do irmão próximas. Tocou na mão que tentava impedi-lo e sentiu o corpo enrijecer ao ser acometido por várias imagens, como de um filme, que passavam de forma rápida à sua frente. Arregalou os olhos, assustado. Não sabia quem eram aquelas pessoas que falavam aquela língua desconhecida, embora, conseguisse entender. Eram todas estranhas para ele, mas lhe passavam uma sensação de familiaridade.

Viu-se brincando com outras crianças, depois conversando e rindo com outros jovens. Viu-se na escola. Chorando dentro de um banheiro. Estudando na universidade e recebendo o diploma junto com os amigos. Viu um rapaz se declarar e, depois, propor-lhe casamento. Viu-se lutando para salvar várias e várias vidas. Viu-se falhando em salvar outras. Viu-se casando numa igreja e pegando um bebê, o seu bebê, nos braços pela primeira vez em um hospital. Viu-se brincando com uma criança e acompanhando-a no primeiro dia de aula…

As imagens eram rápidas e intensas. Conseguia não apenas ver a cena, mas “senti-las”.

Alegria. Felicidade. Cansaço. Tristeza. Alívio.

‘Shaolin! Você está bem?!’

Ouviu a voz do irmão novamente, distante, apesar de saber que ele estava ao seu lado. Sentiu quando Kazuo o segurou pelo braço.

‘O que está acontecendo com você?’

Shaolin não respondeu. Sentiu a respiração acelerar e os olhos arregalaram-se mais ainda, vendo-se no Mundo das Trevas. O Céu vermelho em chamas e abaixo dos pés dele apenas areia. Viu uma mulher com longos cabelos vermelhos e uma cicatriz de queimadura no rosto olhá-lo enfurecida.

‘Você é um inútil! Deste tamanho não me serve para nada!’ Ela gritou, empurrando-o e fazendo-o cair no chão. ‘Seu verme!’

Viu-se de novo e de novo sendo ofendido por ela. Inúmeras vezes. Os insultos, frequentemente, eram acompanhados por agressões e tapas na cara.

‘Não me olhe dessa maneira!’ Ela ordenou, esbofeteando-o novamente. ‘Faça o que eu estou mandando agora!’

Viu-se lutando contra vários e vários demônios. Luta após luta. Cansaço. Dor. Muita dor. Sangue para todos os lados. Ergueu as mãos, reparando que estavam cobertas por aquele líquido viscoso. Sangue do adversário. Sangue dele. Viu quando um grande demônio horroroso aproximou-se e o pegou do chão, onde estava caído e ferido. O ser monstruoso o carregou quase com delicadeza. Sentia o corpo queimar de dentro para fora.

Mais lutas e mais sangue.

‘Você só está vivo ainda porque eu o protegi!’

Mais gritos e mais agressões.

‘Deixa de ser mole!’

Mais dor e mais violência.

‘Se fosse o seu pai, eu já seria rainha do Mundo das Trevas.’

Tapas e mais tapas na cara. Insultos.

‘Você é um inútil!’

Shaolin levou as mãos até a cabeça. Não aguentava mais ver aquelas imagens. Sentia tanta tristeza, tanto desespero, tanta dor que seu peito parecia estar sendo comprimido por um peso gigantesco.

‘Shaolin!!! Acorda!!!’

Ouviu novamente a voz do irmão e sentiu ser sacudido.

‘Eu quero sair daqui!’ Shaolin respondeu, lágrimas escorrendo de seus olhos. ‘Quero sair deste inferno!’

‘Você está a salvo!’ Ouviu Kazuo dizer. ‘Está comigo!’

Ele abriu os olhos e viu o rosto de Kazuo a poucos centímetros do seu. O irmão o olhava assustado, segurando-o pelos braços. Shaolin piscou algumas vezes e virou o rosto. A respiração ainda estava ofegante e os lábios entreabertos. Olhou para os lados, vendo-se num quarto de hospital.

Observou Marie, que estava em pé, olhando para ele preocupada e com os olhos rasos de lágrimas. Atrás dela tinha uma enfermeira que encarava o garoto de maneira transtornada. Voltou a fitar o irmão a sua frente, trincando os dentes e tentando se controlar para não cair em desespero por tudo o que tinha visto e sentido.

Kazuo segurava ainda seus braços de maneira firme. Encararam-se em silêncio, até o rapaz franzir a testa. ‘Está tudo bem agora, Shaolin…’ Ele falou, tentando controlar a voz.

O menino assentiu com a cabeça, sem conseguir emitir uma só palavra. Shaolin sentiu as mãos do irmão afrouxarem, mas sem o soltar ainda.

‘Você está bem?’ Kazuo perguntou devagar e o menino respondeu com a cabeça que não. ‘O que aconteceu?’

‘Eu… Eu… Estava no inferno.’ Shaolin respondeu e Kazuo estreitou os olhos nele.

O menino levantou a mão, tocando o próprio rosto, sentindo-o dolorido por todos os tapas que havia recebido daquele pesadelo.

Quem era aquela mulher? Por que ela o agredia tanto? Por que ela lhe cobrava tanto lutar e matar e lutar e matar e conquistar… O quê? Por quê?!

‘Shaolin… De que inferno está falando?’ Kazuo perguntou. ‘Você já destruiu a chave.’

‘Tinha uma mulher…’ Shaolin balbuciou.

‘Uma mulher?’ Kazuo perguntou sem entender. ‘Mas não era a chave do tal Pedro?! De que mulher você está falando?’

‘Uma mulher estranha… Ela me batia... O tempo todo.’ Ele respondeu atordoado, fazendo o irmão arregalar os olhos de leve. ‘Ela queria que eu derrotasse… Que eu… Ela queria ser a Rainha não sei de onde. Eu matei… Eu matei… Eu matei… E ela me mandava matar mais…’ O menino falava atordoado.

Kazuo soltou o irmão e abaixou os braços, olhando para o garoto que se mostrava perdido. Franziu a testa novamente e engoliu em seco.

‘Ela me batia o tempo todo.’ Shaolin repetiu, fechando os olhos, ao mesmo tempo que cobria o rosto com a mão e balançava de leve. ‘O tempo todo…’

Kazuo respirou fundo e estreitou os olhos no irmão. ‘Ela tinha os cabelos vermelhos e uma cicatriz no rosto, Shaolin?’ Perguntou e viu o menino levantar os olhos trêmulos para ele.

Shaolin acenou que sim com a cabeça e levou novamente a mão ao rosto. Balançou novamente a cabeça de leve, sentindo os olhos arderem.

‘Ela me batia o tempo todo.’ Ele falou. ‘Eu… Eu matei tanto… Tanto…’ Falou, sentindo o peito ainda pesado. ‘Eu só queria sair daquele lugar…’ Completou com o fio de voz. ‘Só queria sair de lá…’ Repetiu, sussurrando.

Shaolin sentiu quando o irmão o abraçou com cuidado e apoiou a testa no peito dele, sentindo as lágrimas escorrerem de seus olhos sem controle.

Kazuo passou a mão na cabeça do menino. ‘Está tudo bem, Shaolin. Já… já saímos de lá.’ Ele falou, abraçando o irmão mais forte. ‘Já saímos de lá.’ Repetiu, fechando os olhos e soltando um suspiro com o queixo apoiado na cabeça dele.

Marie se aproximou devagar, olhando assustada para os dois. A aura do primo estava explodindo, não estava mais azul pálida, estava branca. Clara, como a luz de uma estrela forte, tão forte que se sobressaía à do irmão, parecendo que os dois estavam envolvidos pela mesma magia.

A enfermeira também se aproximou e perguntou alguma coisa para Marie que precisou de um tempo até conseguir lembrar de suas aulas de italiano básico antes de responder. Pedindo para a mulher se acalmar, informando que estava tudo bem agora com o menino.

A senhora ainda ficou um tempo olhando para o menino e depois para Marie. Disse alguma coisa, que a jovem entendeu como pegar um calmante ou algum outro remédio, e que voltaria em seguida.

Marie parou ao lado do leito do hospital e tocou no ombro de Kazuo que abriu os olhos e virou-se para ela.

‘Shaolin-kun?’ Ela perguntou de maneira incerta e viu quando o menino afastou-se do irmão e passou as mãos no rosto molhado. ‘O que aconteceu?’

Ele balançou a cabeça de leve, informando a ela que não sabia o que tinha acontecido. Ainda sentia as reminiscências do pesadelo tão intenso que tivera. Sentia o corpo dolorido. A alma cansada. O coração apertado.

Kazuo passou a mão pela cabeça do irmão. ‘Vai ficar tudo bem, Shaolin.’

‘Eu… Eu espero que sim.’ Ele respondeu incerto.

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Kazuo desligou o telefone tendo acabado de relatar para o pai que o irmão tinha acordado, mas que voltara a dormir. Contou sobre como ele voltou agitado, mas não entrou em muitos detalhes.

Sakura tinha pedido para falar com ele e isso o deixou nervoso, imaginando que ela brigaria com ele por permitir que Shaolin se machucasse, mas não. Ela apenas o agradeceu por estar ao lado do menino e por ser um bom irmão.

Sorriu de leve, lembrando-se do tom de voz dela ao pedir que ele se cuidasse também. A esposa do pai ainda recomendou que não fosse imprudente apenas por possuir poder de cicatrização. E finalizou a ligação falando que estava esperando-os. Ela foi bastante enfática ao dizer que estava esperando Shaolin e ele para voltarem para casa. Para a casa deles.

Soltou um longo suspiro, encostando-se na parede fria do hospital. Estava começando a detestar aquele lugar, aquele cheiro. Mas se recusava a sair de lá e só ia para o hotel para tomar banho e se trocar. Agora entendia porque Kasumi havia lhe dito que não gostava de hospitais. Ela tinha razão...

Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, batendo-a de leve na parede e lembrando das palavras do irmão quando acordou. Levou uma mão até o rosto onde tantas e tantas vezes havia sido agredido por Midoriko.

Não soube direito o que aconteceu, mas por alguns instantes parecia que o irmão estava vivenciando todas aquelas lembranças. Todo aquele inferno que ele viveu antes de atravessar aquela brecha multicolorida.

Qual o poder que o irmão tinha agora? Esperava estar errado, pois não queria por nada que ele soubesse pelo que ele passou no inferno. Shaolin era o seu irmão mais novo. Seu dever era protegê-lo e não dividir com ele todas as suas dores e dolorosas recordações.

Se não fosse pelo irmão, aquele maluco teria lhe cortado a cabeça sem que pudesse se proteger. Respirou fundo novamente. Não era cansaço. Estava apenas tentando entender o que se passava com ele. Desde que chegou naquele universo tão estranho foram tantas coisas que havia aprendido. Tantas coisas que havia descoberto. Tantas coisas que sentia. Não queria mais voltar para o Mundo das Trevas, não queria por nada voltar para aquele inferno, mas preferia voltar para lá do que fazer qualquer um deles sofrer.

A tal da avó tinha dito que ele seria o culpado pelo descontrole de Sakura. Não queria fazer a esposa do pai sofrer. Ela sempre foi tão gentil. Olhava-o e o tratava com tanto carinho. No começo, sentiu inveja do irmão por isso, mas depois percebeu que não era necessário aquele sentimento porque ela e o pai e as Cartas o tratavam bem, também.

Depois que se acertou com Shaolin tudo ficou mais fácil. Não se sentia mais um intruso na casa do pai, na verdade, sentia-se tão bem acolhido. Era bom acordar pela manhã, espreguiçar-se na cama macia depois de dormir de forma tranquila e sem medo de lhe cortarem a cabeça. Encontrar o pai ou Sakura preparando o café da manhã, cercados daquele monte de criaturas barulhentas pela casa.

Às vezes, acordava antes do irmão, outras depois dele, mas quando tinham tempo sempre era muito divertido conversar com ele ou tirar sarro dele por causa de alguma coisa. Verdade que se implicavam apenas por diversão mesmo. Sabia que depois Shaolin sairia para o colégio, o pai e Sakura para o trabalho e ele ficaria com Espelho e aquele monte de seres mágicos.

Muitas vezes, Kagami saía com ele pela cidade. Era divertido ver a dinâmica de Tomoeda, das pessoas. Os carros. Os pássaros voando pelo céu azul e o sol brilhante. Adorava depois no final do dia, reencontrar com o irmão e encontrar com Marie e Kasumi.

A pirralha gulosa o estava ensinando a cozinhar e, muitas vezes, era divertido fazer isso com ela e com o irmão. Na verdade, ela mandava e os dois obedeciam. Parecia um general dando ordens de como descascar e picar os legumes, ou temperar as carnes que ela tanto gostava.

Ria da cara do irmão contrariado quando ela ralhava com ele por estar sendo mole. E eles conseguiam fazer pratos com carnes que eram simplesmente deliciosos. Bem que o pai tinha lhe falado que comer poderia ser mesmo muito prazeroso.

No entanto, o que era mais prazeroso do que a refeição em si, era a preparação desta, conversando com os dois pirralhos, principalmente quando Kero resolvia deixar o videogame de lado para ficar com eles. Era extremamente engraçado escutar as conversas de Kasumi e daquela bola de pelo. A garota também gostava de tentar explicar as coisas para ele e até explicava alguns golpes de Kung Fu. Ela era bem dedicada à luta.

Também era muito legal quando ia para a casa de Marie treinar com ela e o irmão. Era divertido. Lutava por diversão. Trocavam farpas e provocações e depois riam. Não havia agressão mais. Era diversão.

Além disso, a ruiva metida era bonita. Gostava de encontrá-la e gostava apenas de olhar para ela. Achava incrível a maneira que ela lutava e usava a magia com tanta segurança. Entretanto o mais incrível era o sorriso dela. Bem raro, inclusive.

O irmão teve que ajudá-lo a entender que gostava dela. Gostaria que ela fosse a fêmea dele… não! Namorada! Namorada dele. Já tinham avisado que esse negócio de fêmea e macho não era um termo muito legal de se usar neste universo. Ele gostou de beijá-la. Aquilo era bom mesmo. Quase viciante.

Soltou outro suspiro. Se tivesse que voltar para o mundo das trevas, não poderia mais ver ou beijar Marie. Não poderia mais conversar com Shaolin. Não dividiria mais pacotes de biscoitos nem se divertiria com a pirralha gulosa. Não poderia conviver com o pai e aprender com ele e o irmão sobre técnicas de luta. Não sentiria mais aquela aura acolhedora e carinhosa da esposa do pai quando se aproximava dele. Não queria por nada abrir mão daquilo e voltar a conviver com Midoriko e Arthas naquele lugar de merda.

Desencostou a cabeça da parede e abriu os olhos quando sentiu a presença de Marie se aproximando. Sorriu para ela. Era fácil sorrir para ela. Reparou que ela deu um tímido sorriso e ficou com as faces rubras. Ficava mais bonita ainda assim.

‘Ele ainda está dormindo.’ Ela falou, parando a frente dele. ‘Você poderia ir para o hotel e descansar um pouco.’

Ele suspirou. ‘Preciso falar com ele quando acordar.’ Kazuo respondeu.

Marie inclinou a cabeça, sem desviar os olhos dele. ‘O que aconteceu, Kazuo?’

O rapaz desviou os olhos dela por um instante e voltou a fitá-la. ‘Não sei ao certo. Isso que eu gostaria de falar com ele.’

‘Mas você tem ideia do que aconteceu, não?’

Ele desviou os olhos dela. ‘Acho que sim.’

‘E é claro que vai me falar.’ Ela disse, franzindo a testa de leve.

Kazuo a fitou rapidamente e depois desviou os olhos de novo. ‘Acho que ele viu minhas lembranças do mundo das trevas.’

Marie arregalou de leve os olhos. ‘Ele leu a sua mente?’

Kazuo deu de ombros. ‘Talvez… Não sei direito, como eu falei. Mas… O que ele falou e o que eu consegui perceber pelos olhos dele… Acho que ele viu tudo.’

Marie cruzou os braços, preocupada. ‘Shaolin-kun não deve ter feito isso de propósito.’

Kazuo olhou para ela. ‘Eu tenho certeza disso. Quem gostaria de vivenciar ou ver minhas lembranças daquele lugar de merda?’ Desviou os olhos dela. ‘Só não acho justo isso com ele. Depois de conversarmos tanto e dele me explicar como ele pensa até eu entender mais ou menos deve ter sido bem duro ter visto tudo que eu fiz no mundo das trevas.’

Marie balançou a cabeça de leve. ‘Isso está ficando perigoso demais. A cada chave, ele retorna com uma novidade.’

‘Acho que sim… mas o importante é que ele retorne.’ O rapaz comentou.

Marie olhou para o rosto cansado do rapaz. ‘Você precisa descansar também. Você está bem?’

Ele voltou-se para ela e sorriu de leve. ‘Estou. Não se preocupe.’

‘No que estava pensando antes que eu me aproximasse? Sua aura estava bem agitada.’

Kazuo desviou os olhos dela. ‘Estava pensando que seria uma merda muito grande voltar para o Mundo das Trevas…’

Ela arregalou os olhos e sentiu o peito fisgar. Pegou o rosto do rapaz entre as mãos, forçando-o a olhar para ela. ‘Baka! Você não volta para lá, entendeu?’

Ele ficou em silêncio, observando-a. ‘Talvez… Eu precise voltar.’ Respondeu.

Marie sentiu os olhos arderem e um bolo se formar na garganta. ‘Vo-Você não pode fazer isso.’ Ela desviou os olhos dele e depois o fitou determinada. ‘Você assumiu um compromisso comigo. Você é o meu namorado, não pode se afastar de mim assim.’

Ele franziu a testa. Shaolin não tinha falado nada de compromisso. Ele pegou as mãos dela que estavam em seu rosto e as abaixou sem desviar os olhos dela. ‘Isso é um compromisso?’

‘Claro que sim!’

Ele pensou por algum tempo e arregalou os olhos de leve dando-se conta de algo. Shaolin tinha dito que primeiro se namorava, para depois ter o tal do contato especial para reprodução. Droga! Realmente era um compromisso. O irmão tinha dito que era prazeroso, mas ele, sinceramente, achava que era mesmo perigoso, isso sim, aquele negócio de se unir.

‘Hum…’ Ele murmurou, sem saber o que falar direito.

Marie estreitou os olhos nele, aproximando-se do rapaz. ‘Hum?’ Ela repetiu.

Ele desviou os olhos dela e depois voltou a fitá-la, comprimiu os lábios, mostrando que estava nervoso. Gostava de Marie, mas realmente tinha receio de que a permanência dele naquele universo de alguma maneira pudesse prejudicar a todos, inclusive a ela.

‘Gosto de você, seu cabeça dura.’ Ela falou de repente. ‘E não vou deixar você voltar para lá, entendeu?’ Kazuo a fitou. ‘E pode apostar que eu sou capaz de prendê-lo aqui para impedir isso…’

Kazuo sorriu de lado. Realmente, ele tinha razão: Pobre diabo o macho que a ruiva metida escolhesse.

Marie deu um passo a frente, levantou o rosto, ficando na ponta dos pés e alcançando os lábios do rapaz para beijá-lo.

Kazuo a abraçou, beijando-a e pensando que ele, com certeza, gostou muito de ser o escolhido dela.

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‘Não encosta em mim!’ Shaolin falou para o doutor assim que ele tentou se aproximar para examiná-lo quando ele acordou pela segunda vez. Ele tentou se esquivar e já estava para levantar da cama quando a prima interveio e segurou o braço do médico.

O médico olhou para ela, sem entender e Marie tentou explicar, no italiano básico que tinha, que o garoto ainda estava muito dolorido e que não queria que se aproximassem dele. O médico ficou contrariado, precisava examiná-lo para saber se estava bem. A enfermeira o alertara que o menino recobrou a consciência e tinha se agitado demais, obrigando-a a dar um calmante para ele.

O médico tentou novamente se aproximar, mas o garoto agora se levantou da cama e olhou para a prima. ‘Diz para ele não encostar em mim, Nee-san.’

‘Fica frio, Shaolin-kun.’ Ela falou para ele.

‘Eu estou frio! Só não quero que ele encoste em mim.’ Repetiu.

Marie soltou um suspiro e tentou explicar mais uma vez para o médico que, apesar de ficar contrariado, aceitou. Olhou para enfermeira que encolheu os ombros. Ele perguntou para Marie se a enfermeira poderia examinar o garoto, então.

Ela olhou para o primo. ‘A enfermeira pode?’

Shaolin tirou os olhos do médico e depois olhou para a senhora. Balançou a cabeça de leve, negando também.

‘Ninguém encosta em mim.’ Ele foi taxativo.

‘Você é um pirralho muito teimoso. Não tem como.’ Marie falou séria. ‘Você está num hospital.’

Shaolin olhou novamente para enfermeira e encolheu os ombros.

‘Se eles não o examinarem, você não vai sair daqui.’ Marie completou com a voz dura.

O garoto passou a mão no rosto e depois nos cabelos, tentando pensar no que fazer.

‘Está bem… Só a enfermeira.’ Ele respondeu. ‘Mas tem que ser rápido.’

O garoto pensou que já tinha visto as “memórias” da enfermeira. Não veria nada novo. Era melhor do que invadir a cabeça de outra pessoa.

Marie falou para o médico e a enfermeira se aproximou do menino. Tentou segurá-lo pelo braço, mas ele ainda tentou se esquivar. Então ela fez um gesto para ele voltar a se sentar no leito.

Marie olhava com a testa franzida para o primo. Ele tinha os olhos baixos e os ombros encolhidos enquanto a mulher realizava de forma rápida os exames.

Shaolin voltou a ver as mesmas imagens que tinha visto quando acordou e que, depois que despertou pela segunda vez, tinha deduzido serem da mulher. Não era idiota. Sabia que tinha alguma coisa errada com ele e fora fácil, depois que trocou algumas palavras com o irmão, perceber que tinha de alguma forma invadido a cabeça dele, também. Inferno! Sentia-se mal por perceber a energia das pessoas, agora ainda fora pego de surpresa por conseguir literalmente invadir a privacidade dos outros.

Kazuo observava o irmão com o rosto preocupado, perguntava-se como falaria daquilo para o pai. Com certeza ele deveria estar relatando tudo para a esposa e ele tinha certeza que Sakura já devia estar preocupada demais com o menino.

‘Já chega, não é?’ Shaolin perguntou, incomodado.

A enfermeira finalizou os exames e falou com o médico que olhava preocupado ainda para o garoto.

Marie conseguiu entender que parecia tudo bem com ele, mas também tinha recomendado uma avaliação psiquiátrica. A jovem novamente interveio e avisou que ele poderia fazer isso em outro momento e que, sendo assim, não havia necessidade de mantê-lo no hospital se estivesse com os exames físicos certos.

A enfermeira ainda tentou argumentar com a jovem, informando que como ele era menor, estava todo machucado por agressões e havia acordado em estado de choque, o certo seria chamar a polícia. Saiu do quarto, pisando duro, seguida pelo médico.

Marie olhou para Kazuo. ‘Vou ter que ligar para o Tai Dai.’ Ela disse discando o número no celular. Sabia que o rapazinho daria um jeito naquela situação.

Shaolin ouviu a prima, falando ao telefone e soltou um suspiro. Ele só queria sair dali. Na verdade, só queria era se trancar no quarto e impedir que qualquer um se aproximasse dele.

Passou a mão pelo rosto e conseguiu perceber que tinha um curativo na testa. Na verdade, estava com curativos pelo corpo todo. Sabia que tinha sido atingido pela armas dos exorcistas em algumas partes do corpo, mas não pensou que tivesse tantas sequelas.

Kazuo parou em frente ao irmão. ‘Você está se sentindo bem?’

‘Eu estou legal.’ Ele respondeu, mentindo.

‘Você não precisa estar legal…’ Ele retrucou, preocupado.

‘Precisamos ir para… Para o México. Gabriel falou que a próxima chave está lá.’ O garoto falou ao invés de responder ao comentário do irmão. Queria terminar logo com aquela loucura e ver se, no final de tudo, saía daquela situação.

‘Ele apareceu agora para você?’

‘Não... Antes.’ Shaolin respondeu. ‘Se aparecesse agora, eu teria arrancado dele o que está acontecendo comigo.’

‘Humph.’ Kazuo murmurou. ‘Vamos sair logo daqui.’

‘Desculpa… Eu não queria…’ O garoto falou. ‘Não foi certo… fazer o que fiz.’

Kazuo respirou fundo. ‘Se está falando do que aconteceu antes… Você estava descontrolado e não tem que se desculpar. Se você está falando do que aconteceu quando acordou, eu sei que não fez de propósito.’ Respondeu. ‘Não há nada para se desculpar, Shaolin.’

Shaolin fechou os olhos e passou novamente a mão no rosto. Já estava virando rotina ter que se desculpar com o irmão.

‘Na verdade…’ O rapaz começou a falar. ‘Quem deve se desculpar sou eu por você ter visto tudo aquilo.’

Shaolin abriu os olhos e fitou o rosto sério do irmão. Não sabia nem o que falar direito. Balançou a cabeça de leve e soltou um suspiro.

‘Você tem que falar com tousan.’ Ele disse por fim para o irmão.

‘Não sei direito como falar isso para ele.’ Kazuo falou. ‘Talvez fosse melhor você falar com ele para explicar o que está acontecendo.’

‘Não… Não estou falando disso.’ O menino olhou para o irmão. ‘Você tem que falar para ele o que aconteceu com você lá. Ele precisa saber.’

Kazuo ficou alguns segundos, olhando para o irmão. ‘Acho que ele já tem ideia. Não preciso ser tão específico. Ele conheceu Midoriko.’

‘Ela é maluca.’ Shaolin soltou e logo se arrependeu, lembrando-se que era a mãe do rapaz. ‘Desculpe… Não quis dizer…’ Soltou um suspiro novamente. Pensou que era melhor ficar calado.

Kazuo sorriu de lado e estendeu a mão para bagunçar o cabelo do irmão, mas parou no meio do movimento. Sentiu-se mal em saber que agora era melhor não tocar nele, não queria que ele vivenciasse aquilo novamente. Pigarreou endireitando o corpo.

‘Vamos parar com esse negócio de você me pedir desculpas.’ Falou, tentando sorrir para ele.

‘Eu só tenho feito merda.’ O garoto falou, soltando outro suspiro.

‘Humph.’ Kazuo murmurou. ‘Você se cobra demais, Shaolin.’

Shaolin arregalou de leve os olhos, lembrando-se da conversa que teve com Pedro. Soltou outro suspiro. Filho da mãe, já devia estar preparando-o para quando ele voltasse com o seu “novo poder”. Tentou relaxar. Como tinha deduzido na hora, não adiantava nada ficar se condenando daquela forma. Não resolveria os problemas que estava enfrentando agora.

Marie voltou a se aproximar dos dois. ‘Não me pergunte como, mas Dai-san já vai cuidar da situação no hospital. Daqui a pouco você estará liberado.’ Ela falou e olhou para o primo.

Sorriu para ele, estava feliz por ele ter recobrado à consciência depois de destruir a chave de Pedro. Deu um passo à frente para abraçá-lo, mas o menino recuou.

‘Não encosta em mim também, nee-san.’ Ele já foi alertando. ‘Não quero entrar na sua cabeça.’

Ela reteve-se e olhou para ele. Pensou que não se importaria com isso, mas pelo jeito o primo é quem estava incomodado demais. Para quem detestava ter magia e fora, praticamente, obrigado pelo pai a se desenvolver, era bem irônico ele estar com aquele nível de poder. Pelo que conhecia do primo, Shaolin devia estar se sentindo mais “anormal” ainda.

‘Não pode criar uma redoma em volta de si.’ Ela retrucou.

Ele arregalou os olhos de leve. A prima tinha razão, como ele conseguiria agora viver sem esbarrar ou tocar em ninguém? Tinha que dar um jeito de saber como controlar isso. Talvez quando tudo terminasse e ele destruísse todas as malditas chaves, tudo voltaria ao normal. Ele tinha que acreditar nisto.

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Kasumi estava caminhando devagar pelos corredores da Escola de Tomoeda. Sentia aquela agonia e sabia exatamente o motivo dela.

Soltou um suspiro e fechou os olhos rapidamente. Não adiantava absolutamente nada aquele tipo de atitude. Tinha que confiar em Shaolin. Confiar que o garoto voltaria conforme tinha prometido para ela. O problema é que sentia que ele estava em uma situação difícil.

Miguel tinha lhe dito que Shaolin precisava evoluir em sua magia, que isso seria importante, mas irritava-a demais estar proibida de ajudá-lo. No fundo, sabia que Miguel estava testando tanto Shaolin quanto ela. Testando ou realmente, apenas torturando-a com aquela proibição.

‘Kurogane-chan!’ Ouviu lhe chamarem, parou e virou-se para trás devagar. Duas de suas colegas de sala se aproximavam dela. ‘Está tudo bem com você?’ Uma perguntou, olhando para ela com o rosto preocupado.

Kasumi se forçou sorrir. ‘Está tudo bem, sim.’

‘Está com saudades de Li-kun, não é? Vocês sempre foram inseparáveis, né? São como irmãos.’

Ela apertou a alça da pasta com o material escolar nas mãos, incomodada com a colocação da colega. Desviou os olhos dela e apenas assentiu com a cabeça.

‘Espero que ele e Li-sensei estejam bem.’ A outra falou igualmente com o rosto preocupado. ‘Você não sabe mesmo o que aconteceu com eles?’

Kasumi mordeu de leve o lábio inferior e não encarou as colegas. Desde que eles se ausentaram, viviam perguntando para ela a mesma coisa. ‘Só sei que eles estão resolvendo alguns problemas, mas que logo estarão de volta.’ Falou de maneira evasiva, mesmo sabendo que detestavam quando fazia aquilo.

As duas colegas se entreolharam e depois voltaram a fitá-la.

‘Deveria ter aceitado ser dupla do Shimizu-kun na aula de culinária hoje.’ Uma delas disse, como quem não quer nada.

‘Sim, ele ficou triste por você não ter aceitado.’ A outra completou.

Kasumi olhou para as duas e soltou um suspiro exasperado. Esperava que aquilo não fosse as duas tentando ser discretas. ‘Preferi fazer com Onora-chan. Ela é aluna nova e estava atrapalhada.’ Respondeu, dando de ombros. ‘E-eu tenho que ir. Até amanhã.’ Despediu-se, voltando a caminhar pelo corredor.

Comprimiu os lábios de leve, detestando saber que as duas a estavam observando se afastar. Desviou de alguns estudantes que, animados pelo final das aulas naquele dia, corriam e se divertiam uns com os outros pelos corredores.

Ela nunca fora sociável, mas agora se sentia ainda mais introspectiva, não só pelas coisas que estava lembrando, mas pela enorme apreensão dentro do peito. Passou pelo portão principal e ouviu uma das meninas, com quem costumava voltar para casa, chamando-a. Acenou para ela, já caminhando em direção ao grupo quando reconheceu a voz da mãe.

Virou o rosto e não teve como não sorrir ao vê-la. Caminhou devagar até Tomoyo e a abraçou apertado. Estava feliz por ela estar ali.

Tomoyo envolveu sua princesa em seu braços, beijando de forma demorada a cabeça de Kasumi.

A menina se afastou da mãe depois de um tempo e levantou o rosto, fitando-a. ‘Não estou reclamando, mas por que está aqui, kaasan?’

Tomoyo passou a mão no rosto da filha com carinho. ‘Estou preocupada demais com você.’ Respondeu sem conseguir esconder a aflição. ‘Não é apenas indisposição ou algo com sua saúde.’ Ela soltou um suspiro e olhou para a filha que não conseguia encará-la. Não queria chegar aquele ponto, mas andava tão preocupada com aquela tristeza de Kasumi que sinceramente preferia saber que a filha estivesse… sei lá… grávida do que aquela agonia ao vê-la passando mal sem saber o motivo. ‘Anda muito triste, triste demais, meu amor. E eu sei que não pode ser apenas saudades de Shaolin-kun.’

Kasumi mordeu de leve o lábio inferior. Aquele assunto a deixava entre a cruz e a espada… de forma mais literal do que gostaria de admitir. Não poderia contar para a mãe o segredo de Shaolin, e não queria falar sobre o que estava acontecendo com ela.

Olhou ao redor, observando com cuidado as pessoas ao redor da escola. Desde ontem os “idiotas de preto” do vaticano tinham desaparecido. Por um lado isso lhe dava a tranquilidade por saber que os pais estavam fora de perigo, por outro ainda não tinha notícias de Shaolin desde o último telefonema em que ele informava que estava seguindo para a Itália.

Tomoyo olhou em volta percebendo que a filha procurava algo. Franziu a testa.

‘O que está procurando?’ Ela perguntou. ‘Sei que não é por nenhum rapazinho para me apresentar.’ Tentou brincar e percebeu que a filha corou.

Kasumi a fitou e desviou os olhos encabulada. ‘Hum… tousan não deixaria nenhum rapazinho chegar perto de mim.’ Rebateu.

Tomoyo sorriu de lado. ‘Ele não precisa fazer isso. Tenho certeza que você faz isso muito bem. Shaolin-kun não está aqui, né? Espero que Shimizu-san esteja lhe deixando em paz. Já o vi levando-a até o portão de casa na volta da escola nas duas últimas semanas.’

Kasumi ficou vermelha como um tomate maduro. Simplesmente assentiu para a mãe, respondendo silenciosamente o comentário dela. ‘Shimizu-kun é muito… insistente.’

‘Os meninos apaixonados sempre são.’

Tomoyo franziu a testa de leve e desviou os olhos da filha. ‘Alguns perdem inclusive o controle…’

Kasumi observou a mãe com cuidado. O tom dela tinha mudado. Era como se soubesse de algum caso parecido. Inclinou a cabeça de leve.

‘Não se preocupe, kasan. Shimizu-kun tenta se aproximar de mim justamente por causa de tousan. O pai dele trabalha num dos departamentos da empresa.’

Tomoyo voltou a observar a filha. Estreitou os olhos nela e sentiu-se satisfeita por saber que a menina tinha percebido o mesmo que ela. Kasumi podia até estar perdida em entender o que sentia por Shaolin, mas conseguia perceber muito bem a intenção das pessoas a sua volta.

A menina encolheu os ombros. ‘Ele está perdendo o tempo dele.’

Tomoyo abriu um sorriso, passando o braço pelos ombros da filha e começando a puxá-la para caminharem. Eles passaram pelo grupo de estudantes e Kasumi avisou que voltaria com a mãe naquele dia.

As duas andavam devagar pelas calçadas de Tomoeda, lado a lado. Em silêncio.

‘Vamos tomar um sorvete?’ Tomoyo sugeriu, olhando para a filha.

Kasumi se forçou a abrir um sorriso e acenar que sim com a cabeça, tentando fingir que tudo estava normal.

Caminharam ainda em um silêncio incômodo por algum tempo. Tomoyo olhava de esguelha a filha e sorriu de leve, vendo-a olhar fixamente para frente com o rosto sério. Queria que a filha confiasse nela para contar os seus receios e medos.

Yuo era um pai maravilhoso, mas tinha um temperamento expansivo e era bem ciumento. Aquilo fazia com que Kasumi tivesse dificuldades de falar sobre assuntos delicados. A princesinha deles estava crescendo e se tornando uma jovem linda, mas Tomoyo sabia que aquela idade era delicada e confusa.

‘Você sabe que pode sempre conversar comigo, Kasumi-chan.’ Ela falou, de repente.

A menina olhou para a mãe com os olhos trêmulos e voltou a fitar a calçada por onde caminhavam sem pressa. Ela sabia que a mãe a amava, mas tinha receio de se abrir inteiramente com ela. Não podia contar a ela o que havia sido em sua vida passada. Mas talvez pudesse contar sobre parte do que havia se lembrado.

‘Kaasan…’ Kasumi começou com o tom incerto, fazendo a mulher sorrir de leve. ‘Alguma vez já se sentiu tão ligada a uma pessoa que… que sabe quando há alguma coisa errada mesmo a distância?’ Ela perguntou, tocando de leve a mão direita no peito e balançou a cabeça de leve, mostrando a mãe que estava confusa.

‘Você se sente ligada a Shaolin-kun desta maneira?’ Tomoyo indagou, vendo a filha encolher levemente os ombros.

Kasumi a observou de esguelha e assentiu levemente. ‘Eu sinto que… Na verdade… Tenho medo, kaasan. É isso... Tenho muito medo de não poder revê-lo.’

‘Shaolin-kun está numa confusão muito grande, não é?’

Kasumi não conseguiu encarar a mãe. Não queria mentir, mas não podia revelar também. O menino tinha lhe pedido isso. Os tios tinham conversado com ela e explicado a razão para manterem aquilo em segredo dos pais. Sentia-se mal por isso, mas não tinha o que fazer. Mesmo que revelasse sobre magia para os pais, eles provavelmente não acreditariam. Além disso, seria complicado demais explicar tudo para eles, principalmente quando ela também não conseguia entender tudo o que estava acontecendo. Não era nenhuma especialista em magia.

Tomoyo soltou um pesado suspiro e passou a mão na cabeça da filha. ‘Não precisa me contar o que está acontecendo com ele. Sei que Sakura-chan e Syaoran-kun estão numa confusão muito grande. Eu também sinto algumas coisas que não consigo explicar, como você, mas é inútil tentar entender. Só podemos ficar torcendo para que tudo termine bem para eles.’

Kasumi concordou com a cabeça. Voltaram a caminhar em silêncio, Tomoyo sabia que tinha algo a mais, mas não queria forçar a filha. Ela deveria se sentir segura para contar o que lhe afligia e, consequentemente, acabava afligindo o seu coração de mãe. Mas Tomoyo sempre soube esperar, pacientemente, a hora certa para que as pessoas que amava pudessem falar seus sentimentos. E ela sempre estaria ali, pronta para ouvir.

Kasumi era o que Tomoyo mais amava no mundo. Desde que pegou a sua pequena no colo e olhou para aqueles grandes olhos castanho-avermelhados soube que estava sendo apresentada a um novo tipo de amor, tão grande ou talvez até maior do que qualquer um que já havia sentido. E ela já havia passado por vários tipos de amores diferentes. Possíveis e impossíveis.

Sempre soube que a filha carregava uma carga grande dentro de si, e sempre procurou dar todo o amor que podia e, principalmente, que sabia que Kasumi precisava.

Adorava quando a filha era mais nova e ficava no seu colo, apenas quietinha, enquanto assistiam televisão. Kasumi simplesmente se aninhava no seu colo até adormecer. Quantas e quantas vezes a menina não adormeceu com ela passando a mão pela sua cabeça afagando seus longos cabelos negros. Tinha impressão de que se ficasse assim o dia inteiro, Kasumi ficaria ali o dia inteiro no seu colo. Às vezes, sentia saudade daquele tempo.

Sentia-se feliz também pela filha, apesar da resistência inicial, aceitar usar os modelitos que ela confeccionava com todo o coração. Até mesmo os uniformes de kung fu da menina, ela fazia questão de fazer com todo carinho.

‘Kaasan…’ Chamou novamente, quebrando o silêncio. Tomoyo virou-se para a menina que a fitava com intensidade, mordendo o lábio inferior. ‘E-Eu ando vendo um anjo. O nome dele é Miguel.’

Kasumi precisava contar para alguém e não havia quem ela soubesse que a amava mais que seus pais. Tinha certeza que a mãe saberia ouvi-la sem enchê-la de perguntas as quais ela não saberia responder.

‘Um anjo?’ Perguntou devagar.

‘Isso…’ Kasumi respondeu com os olhos inquietos, tinha medo que a mãe não acreditasse. ‘Ele tem me mandado notícias sobre Shaolin. Miguel-san tem uma relação com… com a minha vida passada. Quando… quando eu conheci o Shaolin.’

Tomoyo observou a filha em silêncio por alguns segundos e suspirou balançando afirmativamente a cabeça. Sorriu de leve, passando a mão na cabeça da filha. ‘Agora dá para entender o porquê você e Shaolin-kun são tão próximos um do outro. Porque sempre o foram, desde bem pequenos.’

‘Ainda não entendo tudo direito, kaasan.’ Levantou o rosto, fitando-a. ‘Tenho apenas algumas lembranças… Tenho visto algumas imagens em sonhos, mas…’ Tocou o indicador na lateral da cabeça. ‘Às vezes, acho que estou ficando maluca.’

Tomoyo passou a mão no rosto da filha com carinho. ‘Independente do que você e Shaolin-kun tenham vivido antes, o importante é que vocês se gostam agora, não é?’ Ela estreitou os olhos na filha. ‘O importante é o que você sente por ele. Agora… nesta vida.’

Kasumi confirmou com um gesto, mas não tinha dissipado a preocupação em sua mãe. Tomoyo sabia o quanto era difícil quando se sentia perdida e confusa em seus sentimentos. Era angustiante saber que a filha estivesse passando por aquilo e, por ironia do destino, pelo filho de sua querida prima Sakura.

Kasumi desviou os olhos de Tomoyo, sentindo o coração palpitar com mais força. Agora que começou a falar, era difícil parar. Se a mãe tivesse mostrado um mínimo de desconforto ou dúvida ou descrença quanto ao que ela estava falando, certamente que se calaria e não tocaria mais no assunto. Mas Tomoyo era tão receptiva e calorosa, e aceitava de mente aberta o que ela dizia, por mais louco que pudesse parecer.

A menina soltou um suspiro e chutou uma pedrinha na calçada. ‘Ainda tem uma coisa, kaasan… Tem uma coisa que me persegue da minha outra vida…’

Tomoyo inclinou a cabeça, voltando a observar a filha. ‘Por isso este anjo aparece para você, não é? O que ele lhe cobra tanto?’

Kasumi arregalou os olhos surpresa. 'Como sabe que…’

'Que ele lhe cobra alguma coisa?’ Tomoyo perguntou, olhando para a filha que confirmou com a cabeça. Ela suspirou e passou a mão pela cabeça de sua pequena. 'Você anda tensa, como se estivesse sendo pressionada, e eu nunca a vi assim antes.’ Meneou a cabeça, exasperada. ‘Quando falou que tem recebido visitas de um anjo, deduzi que era ele quem a tem pressionado. Acho que só um ser desta natureza para tirá-la do seu estado natural de calma.’

Kasumi sorriu para Tomoyo. Ela era incrível. Era muito afortunada por ser filha de alguém que a conhecia tão bem. Que tinha tanto carinho e compreensão com ela. Tanto amor.

‘Ele me proibe de manusear armas… Espadas.’ Ela respondeu. ‘Foi o acordo para eu estar aqui.’

‘Agora faz sentido você se recusar a avançar para as aulas de kung fu nesta modalidade.’ Tomoyo observou. ‘Seu pai nunca entendeu a sua resistência a isso, mas eu já desconfiava que tinha algo errado.’

Kasumi olhou para a mãe com os olhos arregalados. ‘Desconfiava?’

Tomoyo sorriu de forma meiga, voltando a caminhar em direção a sorveteria. ‘Às vezes, tenho algumas sensações de que há algo errado nas minhas memórias. Como se uma parte dela tivesse sido mudada. Não sei exatamente o que é, mas eu sei… Eu sinto que algo me foi tirado. Não sei exatamente o porquê e, honestamente, já desisti de achar explicações.’ Tomoyo enlaçou a filha pelo ombro e beijou a cabeça dela com carinho, sem parar de caminhar. ‘Estou feliz em estar aqui com seu pai e ter você como minha filha. Amo você demais, minha querida, e só quero que seja feliz. Sempre percebi algo diferente entre você e Shaolin-kun. Vocês sempre foram cúmplices demais… Desde pequeninos.’

Kasumi desviou os olhos da mãe, sentindo as bochechas esquentarem.

Tomoyo apenas observou as reações da filha e sorriu. Franziu a testa, levemente pensativa. 'Você sabe o porquê esse tal de Miguel-san não quer que se aproxime de espadas?’

Kasumi engoliu em seco e não conseguiu encarar a mãe. 'Porque… eu acho que…’ Balançou a cabeça, cerrando os punhos ao lado do corpo. Não iria mentir. ‘Eu fiz muita coisa errada antes. Empunhando uma.’

'Você não sabe disso… Talvez esteja tirando conclusões precipitadas.’ Ponderou com a voz suave.

'Não...’ Falou, sentindo a voz falhar. Quem dera fosse aquele o caso.

Ainda não se lembrava de absolutamente tudo, mas o que se lembrou foi suficiente para saber que não fora uma boa pessoa na sua outra vida. E mesmo que não tivesse se lembrado, o próprio Miguel já tinha lhe dito que o maior receio dele era ela perder o controle.

‘Não?’ Tomoyo perguntou, observando a filha.

‘E-eu me lembro de algumas coisas. Eu não era uma pessoa boa.’ Falou devagar e parou de caminhar, levantando o rosto para fitar a mãe. ‘Eu fiz muito mal a outras pessoas…’ Olhou para o chão, encarando os próprios pés. ‘Lembro e sei que fiz coisas horríveis…’

Kasumi assustou-se quando sentiu a mãe segurando seu rosto entre suas mãos para que ela voltasse a encará-la.

‘Você tem lembranças? Lembra-se exatamente do quê, Kasumi?’ Perguntou com a voz suave, mas com o rosto sério.

‘E-eu era… era uma assassina.’ Sussurrou, temia pela reação da mãe, mas não aguentava mais carregar aquele peso no peito. ‘Matei muitas pessoas, kaasan… muitas.’

Tomoyo estreitou os olhos na filha, vendo-os brilhantes pela iminência de lágrimas. ‘Você se lembra de ter matado elas?’

Kasumi mordeu o lábio inferior com força e assentiu com a cabeça.

Tomoyo engoliu em seco e abraçou a filha bem apertado. ‘Não é certo uma criança como você se lembrar disso…’ Disse suavemente, beijando de forma demorada a testa da sua princesa.

Kasumi deixou-se ser abraçada e fechou os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem livremente pelo seu rosto.

Tomoyo afagou os cabelos negros de sua princesa com suavidade e deu um beijo demorado na cabeça dela. ‘Você pode achar que era uma pessoa horrível. E talvez tenha feito más escolhas e coisas ruins. Mas se agora acredita que o que fez foi errado, já é uma prova de que você não é mais aquela pessoa. Que não pensa mais igual a ela.’

Tomoyo sentiu, com o coração apertado, quando o corpo da filha foi sacudido levemente pelos soluços. ‘Não podemos mudar nosso passado, meu bem, mas podemos agir de forma a não permitir que os mesmos erros sejam cometidos. Sem que o passado seja um obstáculo no nosso presente.’ Tomoyo falava de forma pausada para que a filha ouvisse e entendesse o que estava tentando fazê-la perceber. ‘O que você fez ou deixou de fazer na sua vida anterior não define quem você é agora. Quem quer que você tenha sido, pertence ao passado. Deixe que fique lá.’

Kasumi ficou alguns minutos em silêncio, apenas sentindo-se acalentada nos braços maternos. Pensou em como era estranho sentir-se protegida daquela forma entre os braços de alguém tão frágil quanto a mãe. Soltou um suspiro dolorido e sentiu como se parte daquela dor, que comprimia violentamente seu peito, tivesse saído junto com o suspiro. Ainda com os olhos fechados, aconchegou-se nos braços da mãe e sorriu, sentindo Tomoyo afagar com carinho seus cabelos.

Tomoyo sorriu, sentindo sua pequena entre os braços. Ficava muito feliz que Kasumi tivesse confiado nela para lhe contar de forma franca o que a estava incomodando. Por mais surreal e impossível que parecesse o motivo.

Quando Kasumi se acalmou, Tomoyo se afastou levemente secando gentilmente o rosto de sua princesa. ‘Se estamos aqui, é porque temos a chance de melhorar. Então, não se martirize pelo que já foi, meu amor.’

Kasumi sorriu fracamente para ela. ‘Obrigada, kaasan… Talvez eu tenha que passar por esta situação para aprender alguma coisa, né?’

‘Talvez…’ Tomoyo voltou a abraçá-la bem apertado entre seus braços. ‘Independentemente da razão, eu estou aqui com você. Não precisa passar por nada sozinha.’

Kasumi sorriu de leve com o rosto contra o corpo da mãe.

‘Eu estou aqui com você, meu amor. Você não é sozinha, você é o mais importante para mim e para o seu pai. Eu a conheço como a palma de minha mão. Você é uma menina maravilhosa… Amável, acolhedora, amorosa. Você, Kasumi Kurogane, é muito especial…’

Kasumi sentiu os olhos arderem e mordeu de leve o lábio inferior, novamente, controlando-se para não voltar a chorar.

‘Eu sei… Eu tenho certeza que você é uma menina gentil e com um coração bom. É corajosa e determinada. E está sempre pronta para proteger quem ama.’

‘Eu sou muito feliz por estar aqui com a senhora.’ Ela ouviu a voz abafada da filha que ainda tinha o rosto contra o corpo dela. ‘É muito bom ter uma família.’

Tomoyo sorriu de leve e abraçou mais forte sua querida princesa. ‘Amo você, minha princesa.’ Falou ainda com ela nos braços.

‘Eu também, kaasan.’ Ela respondeu, antes da mulher se afastar encarando-a com ternura.

Tomoyo passou a mão pelo rosto da filha, ajudando a secá-lo e abriu um sorriso aliviado ao perceber que a menina estava visivelmente melhor. ‘E então, sorvete de morango ou chocolate…? Ou os dois?’ Perguntou animada.

Kasumi sorriu. ‘Os dois.’

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Shaolin soltou um suspiro quando conseguiu sair finalmente do aeroporto internacional de Xoxocotlán. Tinha esbarrado em umas cinco pessoas e estava quase surtando.

A prima tinha razão, não tinha como criar uma redoma em volta de si, embora se sentisse tentado a pedir para ela invocar o escudo e ficar quietinho dentro dele.

Estava cansado depois de uma hora de viagem de carro até o aeroporto de Ciampino, em Roma, e de doze horas de viagem de avião até o aeroporto internacional de Xoxocotlán, em Oaxaca de Juárez, capital do estado de Oaxaca, no México.

‘Tem como a gente pegar um táxi?’ O garoto pediu, não queria pegar um ônibus ou algo assim onde poderia esbarrar em mais pessoas.

Marie olhou séria para ele. ‘Você está uma pilha de nervos. Fica calmo.’ Ela o alertou. ‘O Dai-san falou que tem um carro nos esperando para nos levar até a chave.’

‘Certo.’ Shaolin falou. ‘E cadê o carro? Quero sair logo daqui.’ Falou, desviando de uma criança que estava correndo e quase esbarrou nele. Olhava para os lados, tenso, tentando evitar o contato com as pessoas, mas aquele maldito aeroporto parecia estar lotado. ‘Aqui tem muita gente.’ Comentou.

‘Aqui é um aeroporto, Shaolin-kun. Os aeroportos costumam ter muita gente.’ Marie retrucou.

‘Cadê logo a merda do carro?’ O menino perguntou.

‘Fica frio, Shaolin.’ Kazuo falou com a voz dura. ‘Não adianta de nada você ficar assim.’

O garoto respirou fundo e tentou relaxar. O irmão tinha razão, não adiantava ficar daquela maneira, só pioraria a situação.

‘O carro está ali.’ Marie apontou, checando a placa do veículo no papel que Dai-san havia dado para ela. ‘Vamos.’ Ela os chamou, já caminhando em direção ao carro, sendo seguida por Kazuo e Shaolin.

O pirralho realmente estava uma pilha de nervos. Kazuo olhou para ele de esguelha e soltou um suspiro. Queria tentar acalmá-lo, mas nem sabia como.

‘Sabia que há demônios no mundo das trevas que leem mente?’ Falou a primeira coisa que veio a sua cabeça.

Shaolin olhou para ele. ‘Posso garantir que isso é bem chato.’

Kazuo sorriu de leve. ‘São alguns dos mais perigosos, pois é difícil lutar contra eles. Estão sempre um passo à nossa frente e também conseguem ver as nossas fraquezas.’

Shaolin olhava para os lados tenso para não esbarrar em ninguém. ‘Isso é injusto e covarde. Não é certo lutar contra alguém usando suas fraquezas emocionais.’ Falou sem se dar conta.

Kazuo franziu a testa e olhou para o irmão. ‘É, acho que você tem razão. Mas eles não ligam muito para isso.’

‘Não é certo entrar na privacidade dos outros!’ Shaolin continuou, sentido-se cada vez mais irritado. ‘Cada um tem sua vida e desde que não faça mal aos outros, ninguém tem nada a ver com isso.’

‘Humph.’ Kazuo murmurou, ainda caminhando atrás de Marie. ‘Você não escolheu isso, Shaolin. Não foi decisão sua entrar na cabeça dos outros. Não se sinta tão culpado.’

Shaolin olhou para o irmão e soltou um suspiro. ‘É que não acho certo.’

‘Sim… E talvez seja por isso você tenha ganhado este poder, não? Porque saberá usá-lo de maneira correta.’ Meneou a cabeça, soltando o ar lentamente. ‘Agora, se ficar apavorado desta maneira, não só não conseguirá evitar o inevitável contato com os outros, mas também ficará eternamente nesta apreensão. Por outro lado, se você relaxar um pouco e tentar entender o que mudou em você, talvez consiga controlar. Pânico não ajuda a usar a cabeça. Por acaso vai evitar agora contato com todos? Não vai mais abraçar seus pais ou Kasumi?’

Shaolin estaqueou. Fechou os olhos e cerrou os punhos sentindo uma leve falta de ar. Tudo começou a girar ao seu redor e ele levou uma mão até o rosto tentando controlar aquela súbita vertigem.

Quando abriu os olhos, estava numa floresta.

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Ele conhecia aquele lugar, era-lhe familiar demais, embora tivesse certeza que nunca estivera ali antes. A resposta saltou à sua mente, como se sempre estivesse ali. Aquela… era a floresta Kadai. Como sabia isso? O que estava fazendo ali?

Abaixou os olhos, vendo as próprias mãos. Trazia algo nas costas, mas não era a mochila. Levou a mão para trás, sentindo a empunhadura de uma espada. Desembainhou-a e franziu a testa. Não era a sua espada. Rodou-a na mão, ainda a analisando. Apesar de ser realmente muito parecida com a sua depois que aquela loucura toda ter acontecido e ter a fundido com a outra espada do Vaticano. Também não era Incursio. Aquele pensamento veio-lhe à sua cabeça, embora ele não soubesse exatamente o que significava.

Voltou a colocar a lâmina na proteção que estava presa à suas costas. Passou a mão no rosto, novamente, e depois pelos cabelos. Tinha alguma coisa estranha com ele. Era como se estivesse… maior?

Deu uns passos a frente, olhando ao seu redor, tentando entender ainda o que estava acontecendo. Por que e como tinha ido parar ali?

Parou de caminhar e arregalou os olhos, observando uma bela jovem de longos cabelos negros. Era Kasumi! A mesma Kasumi de seu pesadelo antes de tudo começar. Ela estava dormindo encostada a uma grande árvore. No colo dela repousava uma katana, a mesma katana que ela empunhava naquele pesadelo. Ele tinha certeza disso, mesmo que ela agora estivesse coberta pela proteção.

Não conseguiu evitar que um sorriso brotasse nos seus lábios ao vê-la, mesmo que naquela forma estranha. Estava com saudades demais de Kasumi e vê-la tão linda... Ela já era uma menina linda e se transformaria numa jovem belíssima. Abaixou-se a frente dela, tocando um joelho no chão ainda com o sorriso bobo nos lábios. Apenas o fechou quando reparou nas marcas espalhadas pelo rosto dela. Desceu os olhos, vendo as marcas nos braços e nas pernas. Estavam claras, mas ele sabia que não eram normais. O que era realmente aquilo?

Voltou a fitar o rosto sereno da jovem. Ela tinha os traços tão delicados, era tão linda que não conseguiu evitar de recriminar-se por ter demorado tanto para admitir que a amava, não como irmão. Havia sido um idiota. Amava-a demais, desejava-a demais.

‘Kasumi…’ Murmurou o nome dela e estendeu o braço para tirar uma parte da franja do rosto da jovem. Arregalou os olhos, assustado, ao perceber que sua mão atravessou-a como se ela fosse um fantasma… Ou era ele o fantasma?! Tentou tocá-la novamente, segurando o ombro dela agora e o mesmo aconteceu. Não conseguia sentí-la… não conseguia tocá-la.

‘Kasumi!’ Gritou agora quase em desespero. ‘Kasumi!’

Ela não acordou, ela não o escutava. Que inferno estava acontecendo? Franziu a testa e estendeu a mão, tentando encostar no tronco da árvore em que ela repousava e percebeu que o fantasma era ele! Trincou os dentes, sem saber o que fazer. Levou as mãos até o rosto. Ele tinha morrido? Era isso? Ele estava morto? Era um maldito fantasma?!

Ouviu um barulho ao seu lado e viu um grupo de homens se aproximando. Olhou para Kasumi que ainda estava dormindo.

‘Ora… ora… o que encontramos aqui!’ Ouviu a voz de um dos homens.

Shaolin virou-se para eles, irritado pelo tom lascivo e franziu a testa, observando-os se aproximar de Kasumi sem tirar os olhos dela.

‘Que bonequinha linda!’

‘Vamos brincar muito com ela. Há dias que não estou com uma mulher.’

Eles que se atrevessem a encostar nela.

‘É melhor caírem fora!’ Ameaçou, erguendo-se e levantou o braço, segurando a empunhadura da espada para puxá-la.

Ouviu um barulho atrás de si e virou-se, olhando sobre o ombro esquerdo. Kasumi se levantou devagar, mantendo o rosto baixo. Reparou na fortíssima aura púrpura em torno da jovem. Virou-se sem tirar os olhos dela e a viu levantar o rosto. Finalmente viu as duas belíssimas esferas castanho-avermelhadas que o fitavam com tanta intensidade que sentiu o coração saltar pela boca. Ela o tinha visto!

‘Kasumi…’ Murmurou, sorrindo de leve, mas constatou de forma dolorosa que ela não o ouviu e nem o viu.

O olhar dela se tornou fatal, ao mesmo tempo que ouviu o barulho discreto dela empurrando a empunhadura da katana com o polegar.

‘A bonequinha tem uma espada!’ Um dos homens falou de forma debochada. ‘Gosto de mulheres que tentam resistir… me dão muito mais prazer quando gritam…’

Shaolin sentiu o estômago embrulhar com o que aquele nojento falou para sua namorada, virou-se para ele já puxando a arma para tentar acertá-lo, mas sua arma passou pelo corpo daquele homem repugnante sem atingi-lo. Inferno!!!

‘Pouparam-me o trabalho de procurar por vocês.’

Ouviu a voz de Kasumi, num tom baixo e olhou trás reparando que ela os observava com o rosto apático. Não demonstrava medo, não demonstrava... Nada.

Os homens continuaram a falar diversas perversões enquanto se aproximavam dela e Shaolin trincou os dentes com nojo e raiva por falarem aquelas coisas para uma jovem, principalmente sendo ela sua namorada.

Olhou para Kasumi que, ao invés de tentar fugir, deu um passo à frente e flexionou os joelhos. Antes que qualquer um tivesse tempo de puxar as armas que carregavam, ela já tinha puxado a katana e retalhado-os em várias partes.

Shaolin entreabriu os lábios, sentindo dificuldade de respirar ao observar o corpo delicado da jovem mover-se de forma mais precisa e mais rápida que qualquer ser que ele conhecia ao, literalmente, transformar os cinco homens corpulentos em frangalhos e uma imensa poça de sangue na grama.

Observou-a cortar o ar com a perigosa espada para limpar o sangue que a sujava, antes de voltar a guardá-la na bainha que agora estava presa a sua cintura fina.

Kasumi respirou fundo, olhando com desprezo para suas vítimas. Desprezo e total indiferença. Aquela não era Kasumi… Kasumi nunca seria capaz de matar daquela forma tão fria… Ou seria? O olhar dela antes de puxar a katana era o mesmo que tinha antes de iniciar uma luta. Era Kasumi… Era sua Kasumi...

Shaolin deu alguns passos na direção dela, ainda atordoado com o que tinha visto. Parou a frente dela, chamando-a novamente em vão. Ela deu um passo a frente na direção dele e Shaolin sentiu-a passar por ele. Chegou a sentir como se uma carga de eletricidade baixa percorresse sua coluna e fechou os olhos.

Era doloroso demais senti-la daquela forma, sem poder tocá-la de verdade. Doloroso demais… Aquele era o seu inferno. Estava finalmente no Inferno.

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‘SHAOLIN!’ Ouviu a voz do irmão chamando-o e sentiu quando seguraram seu braço com força, sacudindo-o e soltando-o em seguida.

Abriu os olhos assustado e olhou para o rosto tenso de Kazuo, Marie estava ao lado dele igualmente nervosa.

‘O que você está fazendo, Shaolin?’ Marie perguntou.

Ele olhou em volta e, novamente, viu-se no estacionamento do aeroporto, abaixou o rosto e olhou para suas mãos. Levantou o braço em busca da empunhadura da espada nas costas, mas não a encontrou. Tinha voltado.

‘Que merda, Shaolin! Quer matar a gente de susto!’ Kazuo falou irritado, queria puxar o irmão pelo braço, mas estava tentando evitar tocá-lo, apenas o sacudiu quando já o tinha chamado diversas vezes e o irmão mantinha-se com os olhos fechados e a aura expandida daquela forma assustadora.

O menino levou a mão até o rosto, passando-a por ele ainda sem entender o que aconteceu.

‘Você está bem, Shaolin?’ Marie perguntou preocupada.

Ele respondeu que sim, balançando a cabeça de leve ainda sem conseguir encontrar a própria voz.

‘O que aconteceu?’ A prima perguntou com a voz mais controlada, mas com a testa ainda franzida de preocupação.

‘E-eu… Eu acho que tive uma visão com a Kasumi.’

Kazuo e Marie se entreolharam, voltando a fitá-lo.

‘Como é que é?’ Marie perguntou. ‘Tá ficando maluco, pirralho, em me dar um susto desses para ficar fantasiando com a sua namoradinha! Ah!!! Faça-me o favor!’ Falou contrariada, afastando-se e pisando duro em direção ao carro.

Kazuo observou a namorada e balançou a cabeça, depois voltou a fitar o irmão. ‘Está com tantas saudades dela que está até sonhando acordado?’ Perguntou sorrindo de leve.

‘Estou.’ Ele respondeu. ‘Mas foi diferente… Acho que… Não sei ao certo.’ Ele soltou um suspiro e olhou decidido para Kazuo. ‘Acho que você tem razão. Estou sendo covarde.’

Kazuo franziu a testa de leve, levando um segundo para perceber que o irmão havia retomado a conversa anterior à tal visão. ‘Não foi isso que eu falei.’

‘Mas estou tentando fugir das dores dos outros por covardia. Se eu tenho caráter, posso ver a mente dos outros e guardar o que eu vir apenas para mim. Será minha decisão a maneira como vou aceitar esta situação.’

Kazuo soltou um suspiro. ‘Você também não teve muita sorte. Entrou logo na minha cabeça. Ela não é muito bonita.’ Falou, voltando a caminhar.

Marie já estava falando com o motorista e acenava para eles para que se apressassem.

O menino voltou a caminhar ao lado dele. ‘Se, pelo menos, ao ver suas lembranças eu fosse capaz de diminuir um pouco daquelas dores… Pelo menos este “poder doído” serviria para alguma coisa boa.’

‘E quem disse que isso não aconteceu?’ O rapaz falou, encolhendo os ombros. ‘Agora você sabe tudo sobre mim. No fundo, é bom saber que alguém entende você porque sabe pelo que passou.’

‘Você não vai voltar para lá, Kazuo.’ Shaolin declarou com firmeza e agora foi a vez do rapaz parar de caminhar e virar-se para ele. ‘Eu não vou deixar.’

Kazuo sorriu de leve. Agora todo mundo deu para dizer isso para ele.

‘Vamos fazer o seguinte: se você voltar daqueles transes doidos para destruir as chaves, aí a gente conversa a respeito disso.’ Kazuo respondeu, voltando a caminhar, pois já reparava no olhar ainda furioso da namorada para o irmão.

Continua.