FEITICEIROS
73 Anjos Caídos
FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 73
Anjos Caídos
Sakura entrou na pousada e olhou para Marie que estava sentada tomando um chá que Anna tinha oferecido para ela. Eriol estava ao lado da filha com o olhar preocupado. Ela soltou um suspiro e abaixou os olhos. Caminhou até a jovem e pegou um banco para poder sentar em frente a ela. Sabia que a conversa seria complicada. Já tinha ideia do que a jovem estava querendo falar com ela.
Marie levantou os olhos para a tia e mordeu de leve os lábios nervosa. Olhou de esguelha para o pai que estava apreensivo ao lado dela. Soltou um suspiro.
Sakura olhou para a jovem de forma doce. Passou a mão na cabeça dela e tirou uma mecha do cabelo dela que estava sobre o rosto, colocando-a atrás da orelha. ‘O que está acontecendo com você, querida?’
Marie levantou os olhos para ela e tentou engolir o bolo que se formava na garganta. Apertou mais forte a xícara que tinha nas mãos apenas por nervosismo. ‘Oba-san… Eu sei que foi errado o que eu obriguei a senhora me entregar…’ Ela começou a falar desviando os olhos dela. ‘Quando eu era Khala’a.’
‘Você não é mais…’ Eriol começou a falar mais Sakura levantou a mão e olhou duro para o homem.
‘Eriol-san… Se não souber ouvir e ter a mente mais aberta, é melhor se retirar.’ Sakura falou para ele com o rosto sério.
Eriol endireitou-se no sofá ao lado da filha e fechou o rosto, mas assentiu com a cabeça informando que se manteria calado e não interromperia mais a conversa das duas.
Sakura tirou a xícara das mãos de Marie e a deixou numa mesinha no canto. Pegou as mãos dela entre as dela e sorriu de leve.
‘O que foi, Marie-chan?’ Perguntou com a voz doce.
‘Eu queria pedir, obasan… Se a senhora e ojisan… Se me deixariam ficar com… com a carta para mim? Eu preciso dela, obasan!’ A menina falou, sentindo as lágrimas nos olhos. ‘Eu realmente preciso dela agora. Só agora que eu estou conseguindo… Só agora que eu estou finalmente…’ Ela balançou a cabeça de leve abaixando o rosto envergonhada. ‘Só agora que eu estou finalmente gostando de verdade… Que eu estou finalmente…’
‘Amando alguém?’ Sakura perguntou.
Eriol desviou os olhos da filha e respirou fundo. Trincou os dentes e cerrou os punhos. Odiava ver Marie sofrendo daquela forma, principalmente odiava saber por quem ela estava sofrendo.
Marie confirmou com a cabeça em silêncio. ‘Eu guardei ela com tanto carinho, obasan. Com tanto cuidado.’ A jovem falava com a voz falhada. ‘Era tão bom tê-la comigo que eu pensei que nunca fosse um dia usá-la.’
Hiiragizawa olhou para a filha e depois para Sakura. ‘Do que vocês duas estão falando? De que carta você está falando, Marie?’ Ele falou passando a mão na cabeça da filha com carinho e fazendo-a se virar para ele.
Marie não respondeu, apenas engoliu em seco. Sabia que Sakura sempre hesitou em falar a respeito daquela carta por considerar algo pessoal demais. Respirou fundo, sem saber o que responder para o pai.
‘Está tudo bem, querida.’ Sakura falou chamando a atenção da jovem que se voltou para ela.
Sakura olhou para Eriol que ainda tinha os olhos interrogativos. ‘Eu criei uma carta que foi capaz de transformar Vácuo em Esperança, Eriol-san.’
A reencarnação de Clow ajeitou os óculos no rosto e respirou fundo. Realmente nunca tinha entendido direito como Esperança havia surgido. Fora realmente uma grande surpresa quando descobriu que Vácuo havia sido convertida em outra carta e não apenas em uma carta Sakura. Na época, não deu importância e, realmente, não se importaria se hoje Esperança não fosse justamente a pessoa mais importante da vida dele.
Marie sorriu de leve e fitou Sakura nos olhos. ‘Eu sou capaz de amar agora, obasan. Justamente por causa dela.’
Sakura franziu a testa de leve. ‘Marie-chan…’ Ela soltou um suspiro e olhou para Eriol com o olhar duro. ‘Está vendo o que a sua mente é capaz de fazer, Eriol-san?’
O homem franziu a testa. ‘O que eu tenho a ver com isso?’
‘Você acredita tão piamente, tão fortemente que os sentimentos são obrigatoriamente ligados à natureza que passou estes conceitos e pânico para sua filha. E agora ela sofre achando que não é capaz de sentir por ela mesma.’
Eriol engoliu em seco. ‘Mas é verdade… Demônios não são capazes de amar.’
‘Há humanos que não são capazes de amar, Eriol-san.’
‘Concordo.’ Ele falou. ‘Eu sou prova viva da incapacidade de um ser humano de amar.’ Disse de forma penosa a verdade.
‘Exatamente. E por que acha que todos são iguais a você?’
‘Não são.’ Ele rebateu.
Marie apertou as mãos de Sakura, chamando a atenção da tia. ‘Obasan… Por favor… Eu nunca me senti tão feliz como agora. Nunca me senti tão realizada, nunca me senti tão completa como quando descobri que posso usar este sentimento… Eu lhe peço… Por favor… Deixe eu ficar com ele.’
‘Marie-chan…’ Ela soltou, olhando para a jovem que chorava a sua frente. ‘Mesmo que eu quisesse, não posso simplesmente pegar a Carta de volta, não enquanto você não aceitar devolvê-la.’
Marie sorriu de leve. ‘Então a senhora a deixa comigo?’
Eriol segurou os ombros da filha. ‘Você precisa devolver, isso está lhe fazendo mal, Marie.’
‘Não, tousan… Isso nunca me fez mal.’
Ele olhou para a filha sentiu o peito fisgar ao vê-la tão desorientada. Sempre pensou ter todas as respostas, mas agora daria toda a sua sabedoria para que a filha não sofresse daquela forma. ‘Você gosta tanto dele assim?’ Perguntou incrédulo e arregalou os olhos ao vê-la confirmar com a cabeça, abrindo um sorriso radiante. O homem soltou um suspiro e fechou os olhos. ‘Você sabe que é o que eu mais amo neste mundo, não sabe?’
Marie olhou para o pai com carinho. ‘Tousan… Eu só… Eu só sei que… Eu não quero me afastar dele.’ Ela respondeu baixinho. ‘Não me peça isso, por favor.’
Sakura observou o rosto de Eriol e franziu a testa de leve. Eriol ainda tinha muita coisa para superar dentro de seus próprios medos e preconceitos quanto aos seres das trevas.
‘Eu… Amo você, Marie. Você é minha filha. Eu lhe garanto… Que, como humana, você pode devolver esta carta para sua tia que continuará gostando daquele…’ Ele deu um longo suspiro. ‘Daquele rapaz.’
‘Não…’ Ela balançou a cabeça de leve e soltou as mãos da tia apertando-as contra o peito. ‘O senhor está falando isso para que eu abra mão e deixe de gostar de Kazuo-kun. É mais conveniente para você.’
‘Não.’ Eriol respondeu com a voz firme segurando-a pelos ombros e obrigando a filha a fitá-lo de frente. ‘Não estou falando isso para que deixe de gostar dele. Estou sendo sincero. Você é melhor que eu, Marie. Você é um ser humano muito melhor que eu. Você conseguiu amar, saber o que é amar, você não é como eu. Não tenha medo, minha filha. Esta carta não é o que controla seus sentimentos. O que controla seus sentimentos é sua alma.’ Ele fez uma pausa. ‘Independente dela ter sido de um demônio ou ser agora de um humano.’
‘Tousan?’ Ela falou, erguendo uma sobrancelha. Olhava desconfiada para o homem.
‘Li-san tem razão. Eu sou um ser humano, mas fui incapaz de saber exatamente o que é o amor até ter você nos meus braços, filha. Você…’ Ele falou, pegando o rosto dela com carinho e secando as lágrimas com os polegares. ‘Você com tão pouca idade já está sofrendo por amor. Você já descobriu o que é isso. E eu… Eu estou muito feliz por isso.’
Marie se aproximou do pai, abraçando-o e afundando o rosto no peito dele. Eriol sorriu de leve e a apertou com carinho entre seus braços. Soltou um suspiro longo. Se Kazuo fizesse sua filha sofrer, acabaria com aquele demônio em dois tempos. Passou a mão pelos cabelos ruivos e beijou a cabeça da adorada filha.
‘Amo você, Marie. E o que eu mais quero na vida é vê-la feliz. Independente do que eu acho certo ou errado.’ Ele olhou para Sakura que observava os dois com atenção. ‘Não tenha medo de entregar a carta para sua tia. Eu lhe garanto… Você continuará com os mesmos sentimentos por aquele…’ Eriol pigarreou. ‘Por aquele rapaz.’ Completou por fim, fazendo Sakura sorrir de leve.
Marie se afastou do pai e levantou o rosto fitando-o profundamente. ‘O senhor tem certeza?’
‘Absoluta.’ Ele respondeu de forma convicta.
‘Não está me falando isso só para…’
‘Antes fosse.’ Ele a cortou. ‘Mas não é o caso. Confie em mim, minha filha. Entregue sem medo.’
Ela confirmou com a cabeça e olhou para a tia que sorriu para ela. Respirou fundo e soltou as mãos das do pai. Levantou-se e Sakura fez o mesmo parando em frente a jovem. Marie respirou fundo, ainda receosa. Olhou para o pai que confirmou com a cabeça, encorajando-a a fazer o que tinha que ser feito. Fechou os olhos e levou as mãos ao peito, sentindo a energia calorosa da carta. Respirou fundo mais uma vez e a mandala se formou embaixo de seus pés.
Eriol sorriu de leve ao perceber que não era mais a mandala de Clow que estava brilhando de forma belíssima sobre os pés das filha. Deu alguns passos para trás, sentindo-se orgulhoso em constatar a evolução da filha. A mandala de Sakura se formou aos pés da feiticeira também, brilhando de forma magnífica.
Marie sentiu quando a energia que estava dentro de seu peito começou a se afastar dele, sentiu novamente medo de abrir mão dela, mas confiava no pai. Se ele tinha lhe garantido isso, ela confiaria nele. Sentiu o peito ser comprimido e novamente o pânico tomou conta da sua mente, ainda tinha receio.
‘Não tenha medo, Marie.’ Ouviu a voz suave do pai lhe encorajando. Sorriu de leve e, finalmente, ao mesmo tempo que expirava de forma mais forte, sentiu a energia saindo de seu corpo e a carta se formando em suas mãos. Abriu os olhos devagar e olhou para a imagem do coração alado. Levantou os olhos fitando Sakura que sorria para ela de forma doce.
Estendeu a carta para Sakura que a pegou com as duas mãos e a contemplou por um tempo sorrindo de forma aberta. Lembrava-se claramente do dia que ela tinha surgido na sua vida. Abraçou a carta com carinho e fechou os olhos fazendo com que a energia em torno dela brilhasse de forma magnífica e circulasse rapidamente em torno do corpo da feiticeira formando um redemoinho de vento.
Marie deu uns passos para trás, observando a tia que ainda sorria. Sakura abriu os olhos e observou a carta entre seus dedos. A magia diminuiu e as mandalas desapareceram.
‘Obrigada, Marie-chan.’ Sakura falou. ‘No fundo, sentia a falta dela.’
Marie desviou os olhos dela. ‘Perdoe-me, obasan. Eu nunca deveria ter exigido ela da senhora.’
Sakura deu um passo à frente e tocou no rosto da jovem. ‘Você aprendeu por si o que é este sentimento, Marie-chan. Se esta carta, de alguma forma, ajudou você a entender e enxergar o que se passava no seu coraçãozinho… Eu já me sinto infinitamente feliz. Mas agora… Este sentimento que você tem aí dentro…’ Falou tocando de leve o indicador no meio do peito da jovem. ‘É seu… Não é de mais ninguém.’
Ela concordou com a cabeça e abriu um sorriso enorme. Olhou para o pai ainda sorrindo e apertando as mãos a frente do peito. ‘Ainda sinto.’
‘Eu não mentiria para você, querida.’ Ele falou com suavidade.
Marie secou as lágrimas do rosto. ‘Eu… Eu quero tanto vê-lo agora.’
Eriol soltou um suspiro. ‘É bom esse moleque aparecer logo, mesmo. Não se deve deixar uma dama esperando.’ Falou aproximando-se dela e beijando a cabeça da filha. ‘Se ele não aparecer, eu vou atrás dele e o trago para você, está bem?’
Ela sorriu e abraçou o pai com carinho.
‘Além disso…’ Eriol falou contrariado. ‘Ele nem me pediu autorização para namorar com você ainda. Precisa falar com sua mãe também. Apresentar para a família como se deve.’
‘Tousan, Kazuo não entende esses protocolos. Estou explicando as coisas para ele devagar.’
‘Humph.’ Ele murmurou. ‘Mas a namorar você, ele aprendeu rapidinho.’
‘Tousan…’
‘Está bem… Está bem…’ Eriol falou, beijando novamente a cabeça da filha. ‘Vou conversar com Li-san. Ele tem que explicar as coisas direito para os filhos.’
‘Ele fará isso, Eriol-san.’ Sakura falou sorrindo para o amigo de infância. ‘Pode ter certeza que ele o fará.’
Eriol levantou os olhos, fitando Sakura e sorriu de leve. ‘Tenho certeza que sim.’
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Syaoran olhou para o grupo de caçadores que havia se encontrado com Logan. Eram numerosos, mas muitos estavam realmente feridos. Muitos possuíam magia e se recusavam a usá-la. Isso era irritante. Estavam naquela situação justamente por temerem tanto algo que eles pensaram que estivesse fora do controle deles em vez de aprenderem a controlá-la.
Olhou para os dois filhos que estavam mais afastados. Reparou que a maioria olhava para os dois com desconfiança. Inicialmente pensou que o problema fosse apenas Kazuo, mas reparou que eles também tinham receio de Shaolin. Provavelmente pela energia forte demais em volta do garoto.
‘Eles estão morrendo de medo.’ Shaolin comentou com Kazuo.
‘Como é que você sabe?’ Kazuo perguntou em voz baixa para o irmão.
‘Dá para ver a energia deles. Estão realmente morrendo de medo da gente.’
‘Da gente? Devem estar com medo de mim que sou um demônio.’ Kazuo replicou.
‘Nada. Eles têm medo de tudo que envolve magia.’ Shaolin comentou. ‘Não é à toa que foram vencidos tão fácil. Aquele velho mijão soube bem a quem atacar.’
‘Acha que tem a ver com ele?’ Kazuo perguntou.
Shaolin deu de ombros. ‘Sei lá… Parece que tudo tem o cheiro de mijo dele.’
‘Você anda bem desbocado.’
‘Ah! Qual é a sua também?’ O garoto retrucou. ‘Vai pegar no meu pé agora como kaasan.’
‘Ela não está aqui para lhe corrigir.’ Kazuo replicou. ‘Seguinte… Quando estivermos lutando, você fica perto de mim, entendeu?’
‘Não preciso de babá.’
‘Marie não está aqui. Então você é responsabilidade minha.’
Shaolin bufou e virou o rosto contrariado. ‘Hum… até parece… não tenho idade mais para babá.’
Kazuo sorriu de lado e passou a mão na cabeça do irmão que ainda tentou se esquivar como sempre fazia. ‘Idade nunca será a razão.’ Falou em tom jocoso.
Shaolin olhou torto para ele e soltou um suspiro. Como bem imaginava, poderia ter 20 anos e Marie agiria com ele da mesma forma, e pelo jeito, Kazuo também.
Syaoran se aproximou dos filhos. ‘Eles falaram que são cerca de 50 feiticeiros e pelo que me falaram a magia é realmente muito parecida com a do treinamento do Clã Li então é mesmo coisa daquele velho idiota.’
‘Eu não disse.’ Shaolin comentou para o irmão sorrindo de lado.
‘Você anda metido pra caramba, pirralho.’
‘Hei! Depois vocês dois trocam farpas… Agora prestem atenção.’ Syaoran chamou a atenção deles. ‘Os caçadores estão muito feridos. O Logan vai nos ajudar, mas o negocio vai ficar mesmo para nós três. Então nada de brincadeira, entendeu?’
‘Vai ser moleza, oyaji.’ Kazuo replicou.
‘Não se canta vitória antes do inimigo cair no chão.’ Syaoran replicou. ‘É para ficarem espertos. Usem a cabeça, entendeu? As magias são parecidas com as minhas, então vocês conhecem bem os ciclos de inibição, não?’
Shaolin endireitou o corpo. ‘Está tudo bem, tousan. A gente sabe se cuidar.’
‘Não quero que se arrisquem. Um cobre o outro, entenderam?’
Os dois se entreolharam e franziram a testa. O pai realmente achava que eles dois não tinham enfrentado nada como aquilo? Concordaram com a cabeça por respeito a ele, sem retrucar.
‘Ótimo.’ Syaoran falou. ‘A dupla de anjos patetas falou que acha que algum demônio pode ter passado para cá. Este fica comigo, entenderam?’
‘Nii-san derrotou um demônio superior.’ Shaolin falou sorrindo de forma orgulhosa.
Syaoran ergueu uma sobrancelha. ‘Mesmo?’
Kazuo coçou a cabeça sem graça. ‘Mas foi com a ajuda do Shaolin.’
‘Já falei que da onde eu estava não deu para ajudar muito.’
‘Hei!’ Syaoran chamou a atenção dos dois. ‘Que história é essa?’
Shaolin alargou o sorriso e contou para o pai que ouviu a narrativa do caçula falando entusiasmado do irmão.
Syaoran levantou a mão pedindo para Shaolin interromper. ‘Você morreu? Que merda foi essa?’
‘Não foi bem morrer…’ O menino falou coçando a bochecha. ‘Eu só não conseguia voltar.’
O homem olhou preocupado para o filho caçula e depois para o mais velho que também se mostrava preocupado. Syaoran franziu a testa, só tinha visto alguém voltar a vida daquela forma, Sakura. Mas ela era tinha aquele poder que Clow no final tinha lhe entregado. Shaolin não poderia herdar aquilo. Estreito os olhos no garoto, reparando na aura dele, não havia manchas então não era relacionado a da mãe. Que droga estava acontecendo com o filho caçula?
Não teve como não sorrir de leve observando o garoto continuando a narrar o luta do irmão, que mostravasse encabulado e retrucava dizendo que ele estava exagerando. Era bom constatar que estava se dando bem. Percebeu que Shaolin agora se referia a Kazuo como “nii-san”. Não tinha inicialmente gostado da ideia dos dois viajarem sozinhos, mas não pode negar que foi fundamental para os dois se darem tão bem agora.
Olhou para Kazuo, assim como o garoto também estava orgulhoso do filho. Não só pela evolução dele, mas por perceber que o rapaz realmente se preocupava com o irmão mais novo. Queria logo que aquela confusão acabasse. Queria logo voltar para a casa com a esposa e os dois filhos. Queria voltar a ter sua família sem nenhuma ameaça sob ela.
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Syaoran estreitou os olhos nos feiticeiros do grupo de Charles que estavam já preparados para recebê-los. As presenças dele e dos filhos não passariam despercebidas por eles, por isso queria agir rápido também. Observou que realmente a magia deles eram mais elevadas que os dois outros que eles tinham enfrentado antes. Não era à toa que tinham dado trabalho para o grupo de caçadores.
Logan estava com ele e mais cinco outros que pareciam os mais fortes. Mesmo machucado, o cara era persistente. No fundo, igual a ele. Sabia que ele viria mesmo arriscando a vida.
‘Não são apenas eles, tousan.’ Shaolin comentou, observando-os se prepararem com as armas para impedi-los de entrarem na caverna onde abrigava a Grande Mãe. ‘Tem outras duas presenças mais fortes dentro da caverna.’ Shaolin alertou.
Syaoran franziu a testa, não conseguia perceber o que o filho estava falando, mas considerando o nível de magia elevada do menino, achou melhor considerar a informação.
‘Fica com seu irmão, certo?’
Shaolin rodou os olhos. ‘Eu tenho escolha?’ Falou incomodado e desviou os olhos do pai.
Syaoran pegou a esfera negra e jogou para o alto transformando-a na espada.
‘Use a cabeça como sempre fez.’ Aconselhou, passando a mão na cabeça de Shaolin e depois desviando os olhos para Kazuo. ‘Cuidem-se.’
Kazuo assentiu com a cabeça e pegou a esfera negra também materializando sua espada.
Shaolin foi o último a materializar a dele e estreitou os olhos nos feiticeiros. Desviou novamente os olhos deles para a entrada da caverna. O que preocupava o garoto não eram eles, apesar de numerosos. Eram as duas presenças que conseguia sentir dentro da caverna. Aquelas duas é que estavam verdadeiramente incomodando o garoto. Apertou mais forte a empunhadura da espada e desviou os olhos percebendo que o pai deu alguns passos em direção ao grupo que não tardou em atacá-lo. Atacar a todos.
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Syaoran bloqueou o ataque do primeiro inimigo que tentava acertá-lo com a espada, o rapaz era rápido. Sentiu a aproximação de um segundo que tentava desferir-lhe um golpe pelo lado esquerdo. Empurrou o primeiro adversário para trás apenas para dar espaço para ele conseguir dobrar o braço e acertar uma cotovelada nele e, logo depois, acertá-lo com a empunhadura da espada no rosto, antes de se defender do segundo que se aproximava, tentando atacá-lo com um par de katanas.
Deu alguns passos para trás, defendendo-se dos ataques rápidos das duas armas manipuladas com agilidade pelo adversário. Desviou o corpo, girando-o para o lado e desviando de um ataque, segurou o punho do rapaz com força, impedindo-o de atacá-lo com a espada que tinha na mão direita. E teve que bloquear a tentativa dele de acertá-lo com a espada da mão esquerda.
Girou a espada em torno da arma dele, fazendo-o finalmente soltá-la e levantou a perna apenas para acertá-lo com uma joelhada, antes de soltá-lo. O rapaz tentou se levantar, mas ele já o acertou na nuca para para deixá-lo inconsciente e fora de combate.
Arregalou os olhos de leve, sentindo uma energia estúpida vindo na sua direção e virou o rosto, olhando o golpe mágico sobre o ombro direito. Trincou os dentes, percebendo que não dava para contra-atacar, pulou para o lado, fazendo um rolamento e evitando ser atingido de forma certeira. Pegou um dos talismãs e a mandala octogonal baguá com o símbolo do Yin-Yang surgiu aos seus pés.
‘Deus do Trovão, vinde a mim!’ Solicitou a magia, fazendo o raio mágico atingir dois dos inimigos que se aproximavam.
Novamente teve que se defender de outro ataque de duas jovens que tentavam feri-lo com as Tessens. Desviou de forma rápida das investidas delas em acertá-lo. Pulou para trás, apoiando uma mão no chão e afastando-se dos leques mortais. Franziu a testa de leve, pousando no chão. Pegou outro talismã para invocar sua magia, mas sentiu quando seu braço foi preso por uma corrente e foi puxado levando um solavanco, caindo no chão e arregalou os olhos de leve vendo a outra extremidade mortal da kusarigama de um dos adversário tentar acertá-lo no rosto.
Colocou a espada a frente protegendo-se e girou o braço segurando a corrente que estava envolvendo seu braço com força, puxando-a e pegando o inimigo de surpresa que se desequilibrou quase caindo ao chão, mas lhe dando tempo de se levantar. Sorriu de lado, segurando mais forte a corrente e olhou de esguelha para as garotas que se aproximavam com os tessens. Voltou a estreitar os olhos no rapaz que agora tentava puxar a kusarigama sem sucesso.
Syaoran girou o corpo, puxando a corrente e arremessou o rapaz na direção das garotas que mal tiveram tempo de se proteger do impacto do corpo do colega. Ele cortou a corrente finalmente soltando seu braço e respirou fundo, relaxando de leve os ombros antes de novamente bloquear o ataque de mais um feiticeiro que tinha um enorme machado de pura energia nas mãos. Era uma arma fenomenal realmente.
Estreitou os olhos no inimigo. Era uma arma grande demais para ser manipulada. O oponente tentou acertá-lo, mas Syaoran deu um pulo para trás achando que estava seguro do ataque. Surpreendeu-se ao ver que o rapaz não estava tentando acertá-lo, sua intenção era golpear o chão fazendo com que uma onda de choque saísse da poderosa arma, acertando-o e fazendo-o ser arremessado a alguns metros arrastando-se pelo chão até bater numa das gigantescas árvores daquele lugar. Trincou os dentes. Machado irritante, pensou para si.
Pegou o talismã novamente e elevou o nível de magia fazendo-a circular pelo seu corpo de forma rápida. ‘Eu invoco o Deus Trovão, com a máxima urgência, de acordo com o pacto estabelecido.’ Falou jogando para cima o papel sagrado e batendo com sua espada. ‘Ataque relâmpago!’
O raio desceu do céu atingindo a espada dele que foi refletida em direção ao rapaz com o machado mágico que tentou se proteger girando a grande arma em torno do corpo e tentando rebater o golpe e conseguiu fazer isso a princípio, acertando algumas árvores em volta e fazendo-as pegar fogo, mas não conseguiu rebater todo o ataque de Syaoran sendo atingido e soltando a arma que caiu no chão fazendo novamente uma onda de choque eclodir inclusive acertando o próprio rapaz que foi arremessado longe.
‘Flores do vento!’ Li invocou sua magia circulando-a em volta do corpo de forma rápida e evitando ser atingido pelo segundo golpe do machado descontrolado.
Olhou em volta e viu os dois filhos lutando contra outros feiticeiros. Estavam um de costas para o outro e pelo jeito estavam se entendendo muito bem na luta. Franziu a testa de leve, reparando nas mandalas dos dois que estavam quase sobrepostas, confirmando que estavam lutando de forma bem sincronizada, como se um soubesse o movimento do outro e, ao mesmo tempo, que um se desviava de um ataque o outro se aproximava para contra-atacar o adversário. Não imaginou que os dois tivessem tanta afinidade daquela forma. Além de trocarem farpas o tempo todo. Soltou um suspiro, já estavam parecendo irmãos demais até nisto. Para deixá-lo constrangido e agora para lutarem juntos.
Pela distração em observar os dois, quase fora atingido por uma jovem que se aproximava com um par de sais. Deu alguns passos para trás até bater numa árvore e se abaixar fazendo a jovem fincar uma delas no tronco, aproveitou que estava numa posição mais baixa e acertou-a nas pernas fazendo-a perder o equilíbrio e cair no chão. Levantou o rosto, observando o ataque mágico vindo em sua direção e fez um rolamento desviando dele.
Não gostou de reparar que a garota tinha sido atingida pela magia do colega. Ou eles estavam desesperados ou realmente não tinham o menor senso de companheirismo. Estreitou os olhos no feiticeiro e rodou a espada na mão direita apenas para relaxar enquanto se aproximava do adversário que também possuía uma espada mágica.
As duas armas se chocaram de forma violenta, fazendo faíscas mágicas explodirem por todos os lados. Trocaram socos e pontapés, entre os golpes rápidos e sequenciados. Reparou no estilo de luta muito parecido com o dele.
‘Surpreso, guardião.’ O rapaz falou, encarando Li. ‘Tenho o mesmo nível de luta que você. Meu mestre me ensinou.’
‘Sabe garoto…’ Syaoran falou, desviando de uma tentativa de socá-lo e segurando o punho dele, girou o corpo, trazendo consigo o punho do rapaz e levantando o joelho para finalmente acertá-lo com um golpe no abdomen fazendo-o se dobrar ao meio. ‘Seu mestre… Era um idiota.’ Falou, soltando o rapaz que caiu de joelhos no chão e acertou-o na nuca fazendo-o ficar inconsciente também.
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Shaolin desviou do ataque de um dos nunchakus que tentava acertá-lo.
‘Que saco!’ Ele soltou entre os dentes. ‘Esses caras estão me irritando.’ Falou se afastando do irmão e franzindo a testa de leve. Novamente olhou em direção a entrada da caverna. Tinha que chegar até lá logo.
Kazuo olhou sobre o ombro direito o irmão se afastando dele e já o repreendia por isso quando ergueu as sobrancelhas de leve, percebendo a aura do irmão aumentar. ‘Droga.’ ele soltou.
Shaolin franziu a testa, observando pelo menos cinco adversários se aproximarem dele ao mesmo tempo, apertou mais forte a empunhadura da espada e expandiu sua magia fazendo a arma se iluminar de forma intensa. Levantou a arma na mão direita acima o ombro esquerdo e flexionou os joelhos de leve, abaixou a arma de forma rápida sabendo que o alcance da lâmina se expandiria além dela, girou o corpo ao mesmo tempo que descia a arma celeste fazendo com que o golpe de energia perpetuasse além do alcance físico e atingisse os cinco ao mesmo tempo com o golpe mágico, fazendo-os serem arremessados para longe.
Levantou o rosto e finalmente viu o caminho livre para a entrada da caverna. Apertou a arma e correu na direção dela, ouviu o irmão o chamando e repreendendo-o por se afastar, mas não ligou. Tinha algo errado que ele não sabia o que era ainda.
Kazuo observou o irmão correndo em direção a entrada da caverna e franziu a testa. ‘Pirralho metido.’ Soltou, enquanto atingia de forma certeira um dos adversários que tentava atacá-lo. Desviou dos golpes rápidos de dois inimigos que usavam chigirikis para acertá-lo ora com as correntes, ora com o potente bastão.
Sua espada foi presa por uma das correntes e sentiu o puxão para que soltasse a arma. ‘Nem pensa nisso.’ Falou entre os dentes, pulando a frente e seguindo junto com a arma. Segurou a corrente que prendia sua arma e estreitou os olhos no adversário. Olhou para baixo quando outra corrente enrolou em sua perna esquerda, puxando-a e fazendo-o se desequilibrar.
‘Inferno.’ Soltou irritado e arregalou os olhos vendo a extremidade sólida da arma vindo em sua direção para acertá-lo no rosto, expandiu sua magia e levantou o braço segurando o bastão com a mão e fazendo o adversário se assustar com o bloqueio inusitado. Levantou a perna livre e golpeou-o com um potente chute fazendo-o soltar a arma e cair alguns passos para trás com as mãos no abdomen.
Kazuo finalmente conseguiu soltar sua arma e sentiu quando puxaram novamente sua perna presa fazendo-o se arrastar pelo chão e logo depois ser arremessado contra uma árvore. Caiu no chão e levantou o rosto. O cara puxaria novamente o chigiriki que o prendia, mas já estava demais para ele. Girou a arma da mão e cravou a espada num dos elos da corrente impossibilitando que a puxasse antes de finalmente soltar sua perna e deu alguns passos em direção ao adversário que agora tinha sua arma presa sem conseguir soltá-la.
Kazuo se aproximou, girando o corpo e atingindo-o com um chute alto e logo depois com com um gancho, fazendo-o cair no chão desacordado. Estendeu a mão a frente e sua espada voou até ela. Apertou mais forte a empunhadura e olhou para entrada da caverna por onde o irmão tinha desaparecido.
Estava correndo atrás do irmão quando sentiu uma fincada no ombro direito por trás. Virou-se e viu três garotas com flechas prontas para arremessar na direção dele. Virou-se apenas tendo tempo de atingir as flechas que vinham em sua direção com a espada e se esquivar de outras que apenas o atingiram de raspão.
Arregalou os olhos, vendo um novo ataque das garotas.
‘Metal, Madeira, Água, Fogo, Terra... Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas... Eu vos invoco para meu auxílio.’ Ouviu a voz do pai e as garotas serem atacadas pela poderoso relâmpago caindo inconsciente no chão.
O rapaz levou a mão esquerda até a flecha que estava cravada no seu ombro e a puxou, jogando-a no chão. ‘Merda.’ Soltou, sentindo o ferimento.
‘Como é que você está?’ Syaoran perguntou, parando perto do filho.
‘Tudo bem.’ Ele respondeu contrariado, fazendo Syaoran estreitar os olhos nele. ‘Eu daria um jeito.’
‘Eu sei… Só que não temos tempo.’ Ele retrucou. ‘Onde está seu irmão?’ Perguntou, mas não conseguiu ouvir a resposta, sendo obrigado a desviar novamente de um ataque múltiplo de cinco feiticeiros. ‘Inferno… Eles não terminam nunca.’
Kazuo franziu a testa pensando que era verdade. Como da outra vez, eles estavam se multiplicando. Olhou para os lados, agora não tinha o irmão para tentar identificar a fonte de magia que estava multiplicando os oponentes como da outra vez. O negócio teria que ser com ele mesmo. Precisava fazer eles se afastarem o suficiente para ele ter tempo de perceber a fonte. Nunca tinha usado magia antes daquela forma, mas não custava tentar agora. Tinha treinado com o pai e o irmão poucas vezes.
Pegou finalmente um talismã e o levou a altura do rosto, elevando o nível de magia. Syaoran estreitou os olhos na mandala do filho abaixo dos pés, estava diferente. Kazuo estaria se apoiando agora talvez na magia do irmão? Tinha percebido que os dois estavam muito próximos agora.
Kazuo fechou os olhos e franziu a testa de leve, sabendo que poderia ter o controle do que estava querendo. ‘Flores do vento.’ Sussurrou, fazendo a magia que girava em torno do corpo dele expandir de forma rápida atingindo os adversários e fazendo-os serem arremessados longe.
Syaoran sorriu de leve, orgulhoso por perceber que ele estava usando uma das magias que ele tinha ensinado no pouco tempo que eles tiveram para treinarem juntos. Ergueu uma sobrancelha percebendo que Kazuo estava ainda com o nível de concentração alto. Viu o rapaz abrir os olhos e virar-se para trás, atacando de forma rápida uma das jovens que se mantivera afastada, fazendo-a cair desacordada.
Syaoran olhou intrigado para metade dos adversários sumirem como mágica. Olhou para o filho e acenou com a cabeça, cumprimentando-o por ter descoberto sozinho a fonte de magia que estava tornando-os mais numerosos.
Kazuo coçou a cabeça envergonhado pelo cumprimento do pai e já falaria alguma coisa quando fora obrigado a voltar a se proteger dos ataques dos poucos que ainda restaram contra eles.
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Shaolin corria rápido pela caverna. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha e franziu a testa de leve. ‘Parece… parece uma energia xamã.’ Sussurrou, reconhecendo a energia mais forte entre todas as outras.
Estava intrigado demais desde que tinha voltado da última chave. Conseguia distinguir melhor entre a energia que envolvia, por exemplo, Marie e Kazuo e o Senhor Chocolove. Franziu a testa de leve, percebendo outras duas presenças. Uma lhe era familiar, estranhamente familiar e a outra não tinha mesmo a menor ideia de quem era. Talvez de algum feiticeiro como os outros que estavam combatendo fora da caverna, porém mais forte.
Estaqueou ao chegar na entrada da grande câmara e arregalou os olhos vendo a energia imensa multicolorida a sua frente iluminando o ambiente de forma esplendorosa. A energia não tinha uma forma certa, mas ia do chão até o teto da câmara como um grande pilar de energia. Era a mesma energia da mãe, tinha certeza disso, mas estava diferente. Havia inúmeras manchas negras. As mesmas manchas que tinha visto tantas vezes em seus pesadelos em torno da aura da mãe.
Deu alguns passos e viu os dois seres que estavam atacando a fonte de forma incessante com energias negativas que consequentemente resultavam nas manchas escuras. Os dois pararam o ataque e voltaram-se para o garoto, surpresos pela presença dele ali. Shaolin apertou mais forte a espada em sua mão, e desviou os olhos da energia multicolorida, cravando-os nos dois que se aproximavam-se dele.
‘Quem é você, garoto?’ O Feiticeiro perguntou incomodado pela presença dele ali.
‘Não é a energia do guardião.’ A mulher observou, olhando o garoto de cima a baixo. ‘Mas esta energia… Não há dúvidas... Quem é você, fedelho?’
Shaolin olhou de um para o outro. O homem tinha uma aura mágica muito forte, não tinha dúvidas, mas era humano. A mulher é que tinha energia vinda das trevas, era um demônio, apesar de ter aparência frágil. Balançou a cabeça de leve, apesar de tudo, não lhe era estranha. Inferno. De onde conhecia aquela mulher?
‘Afastem-se.’ Ele ordenou, não sabia exatamente o que era o pilar à sua frente, mas sabia que ela estava ligada a mãe. Era o que estava fazendo mal a ela. Aqueles dois estavam fazendo mal a ela.
O homem deu um passo à frente quando foi retido pela mulher que estendeu o braço a frente impedindo o caminho. ‘Eu cuido dele, Charles.’ Falou, caminhando em direção ao garoto sem tirar os olhos dele. ‘Você realmente não me é estranho.’ Falou, fazendo surgir na sua mão direita uma espada de luz púrpura.
‘Não sei do que está falando.’ Shaolin respondeu. Sinceramente, nunca tinha visto a mulher na vida, nem em seus sonhos. Apesar de ter a mesma impressão que ela.
Ela estreitou os olhos no garoto e aumentou sua aura mágica, fazendo o garoto se assustar assim como arregalar os olhos ao vê-la se aproximar de forma rápida para atacá-lo. Levantou a espada, bloqueando o ataque e sentiu as mãos tremerem. Ela era forte demais. Saltou para trás, evitando medir forças com ela. Não era idiota, sabia que estava em desvantagem por algum motivo.
Desviou dos ataques dela, tentando se esquivar dos golpes e reparou que eles impactavam além da lâmina da espada que tinha surgido nas mãos dela. Destruindo parte da câmara formada pelas rochas da montanha.
Respirou fundo, não dava para ficar só se esquivando daquela forma. Franziu a testa e segurou o cabo da arma com as duas mãos tinha que arranjar uma maneira neutralizá-la. A mulher tentou atacá-lo novamente e ele bloqueou o golpe com a espada, fazendo a duas armas se chocarem de forma violenta. Ela queria novamente medir forças, o garoto constatou, abaixou-se acertando as pernas dela de forma potente, fazendo-a cair no chão e trincar os dentes.
‘Você é bem petulante, moleque.’ Ela falou, levantando-se rapidamente e voltando atacá-lo rápido, mas agora de forma sequenciada. ‘Pelo jeito Miguel também não lhe explicou tudo, não é?’
Shaolin arregalou os olhos ouvindo o nome do anjo que havia lhe dado a arma. As duas armas se chocaram novamente de forma violenta, fazendo a energia dos golpes eclodir e resvalar nos dois ao mesmo tempo mesmo não golpeando-se diretamente.
Afastaram-se e encararam-se novamente de forma arisca. A mulher franziu a testa, observando o garoto. ‘Quem é você?’
‘Você quem está atacando o que não deve e ainda está curiosa para saber quem eu sou? Não deveria estar neste plano e, sim, no de baixo.’
‘Aí que se engana, garoto.’ Ela retrucou com o rosto duro encarando o garoto. ‘Eu deveria estar no plano de cima. Nunca deveria ter saído dele.’
‘Humph… com esta energia ruim em torno de você. Impossível.’
‘E o que você acha que vai acontecer com você depois que isso tudo terminar?’ Ela perguntou em tom zombeteiro. ‘O que acha que acontece com seres como você, que são escolhidos para missões que eles informam ser extraordinárias, mas que no final… Só servem para testá-lo e prejudicá-lo.’
Shaolin franziu a testa de leve e estreitou os olhos nela. ‘Isso é blefe. Você está morrendo de medo de mim.’
Ela riu de maneira nervosa. ‘Quem está blefando agora?’
O garoto deu de ombros. ‘Não sou eu.’ Respondeu, voltando a atacá-la de forma mais rápida, fazendo-a agora dar alguns passos para trás e impedindo os ataques do garoto com a espada, mas acabou sendo atingida no braço e deu um salto para trás, afastando-se dele.
Ela sorriu de leve. ‘Oras… Então não consegue dar um golpe fatal, não é? Mesmo num ser que como você mesmo constatou agora é das trevas.’ Falou, olhando o machucado no braço logo cicatrizar e desaparecer. Depois voltou a fitar o garoto. ‘Miguel realmente escolheu muito mal desta vez. Arrogante como sempre foi, não é de se espantar isso.’
‘Do que diabos você está falando?’ Shaolin perguntou, irritado.
A mulher sorriu de leve. ‘Acha que acontece o quê com anjos caídos, como nós?’
‘Não entendo.’ Ele respondeu ainda confuso, mas ela voltou a atacá-lo, fazendo-o voltar a prestar atenção no ataque rápido da mulher e tentar se defender de forma da melhor maneira que conseguia. Sentiu quando foi atingido no ombro e deu um passo para trás.
‘Você hesita muito.’ Ela falou para ele. ‘Não adianta ter uma arma destas, se hesita assim. Deveriam ter explicado isso para você.’
‘É, já me falaram isso.’ Ele falou entre os dentes. ‘Um monte de vezes.’ Observou, voltando a atacá-la. Tinha que dar um jeito de fazê-la ficar fora de combate sem acertá-la de maneira mortal. Tinha prometido manter o controle e assim o faria. Da última vez que perdeu o controle, quase machucara o irmão e cometeria algo que sabia que se arrependeria para sempre. Não era direito dele julgar os outros. Ele só tinha que impedir que continuassem a fazer mal para o que quer que fosse aquela energia multicolorida que afetava diretamente sua mãe.
Bloqueou o ataque dela pela direita com a arma. Tinha que sair daquele impasse. As duas armas eram parecidas, expandiu sua aura e levantou a perna, acertando-a com um chute e fazendo-a afastar-se dele surpresa. Shaolin voltou a atacá-la novamente, mas usava a espada apenas para se defender dos golpes dela com a arma que tinha nas mãos e atacava-a conforme ela abria guarda dos ataques com golpes e chutes, sabia que isso não seria eficaz, mas estava tentando achar alguma maneira de deixá-la fora de combate.
Afastaram-se e encararam-se novamente irritados pelo impasse. A mulher olhou para o garoto e sorriu de lado. ‘Você até que não é tão idiota assim como parece. Você só não percebeu que eu não sou humana assim como você.’
Ele franziu a testa. ‘Você é um demônio.’ Falou. ‘Você foi humana?’
‘Assim como você é agora.’ Ela respondeu. ‘Só que eles não explicam as coisas direito para nós, não é? Não informam todas as regras. Apenas dizem que devemos usar com sabedoria.’
Shaolin assentiu com a cabeça lembrando-se das palavras que o anjo havia lhe dito logo depois de lhe entregar a arma.
A mulher abriu um sorriso irônico reparando a reação do garoto. ‘Foi exatamente isso que ele lhe falou, não? Miguel também me falou isso quando me entregou esta daqui.’ Esclareceu, fazendo um gesto em direção a própria arma e voltando a fitar o garoto. ‘Só que ele não informa o que estas palavras representam, não é verdade?’
‘Humph.’ Shaolin murmurou, empunhando a espada a frente do corpo. ‘Você no final vai ficar falando em círculos. Então…’ Ele voltou a atacá-la. ‘É igual a eles.’
Ela defendeu o ataque do garoto e sorriu de lado, reparando que a aura dele se tornava mais agitada. Sabia que ele estava curioso, mas não era tão bobo, estava tentando ganhar tempo enquanto procurava alguma forma de deixá-la fora de combate sem matá-la. Talvez tivessem dito para ele todas as regras quando resolveu descer para um plano inferior. Franziu a testa de leve, girando o corpo e conseguindo finalmente acertá-lo de forma mais efetiva, fazendo o garoto dar alguns passos para trás ferido.
Shaolin levou a mão no abdômen e trincou os dentes. Aquilo estava tornando-se perigoso. Se continuasse assim acabaria morto, a mulher estava mais confiante.
‘Quem afinal é você?’ Ele perguntou para ela, irritado.
‘Meu nome é Lyra.’ Ela respondeu, girando a espada na mão e observando-o. ‘E, assim como você, também me passaram para o plano inferior. Eles testaram suas virtudes também? É bem chato, não?’
O garoto balançou a cabeça de leve. ‘Como você sabe o que está acontecendo?’
Lyra sorriu de leve. ‘Como eu falei, fui igual a você. Só que eles não nos contam todas as regras. Só quando a merda já está feita.’
Shaolin arregalou os olhos ao vê-la aproximar-se dele para atacá-lo novamente, trincou os dentes, reparando que ela estava mais rápida. Na verdade, ele é que estava mais lento por causa do ferimento. Franziu a testa de leve perguntando-se como ela havia cicatrizado do ferimento que ele tinha feito com a espada dele. Poder igual ao de Kazuo? Mas tão rápido, sem analgésicos? Não… Não era apenas isso. Tinha alguma coisa a mais que ele não estava conseguindo entender… Ainda.
Sentiu novamente ser atingido no outro braço e deu um passo para trás engolindo em seco. Se continuasse assim acabaria morto e tinha ainda duas malditas chaves para destruir, não podia morrer. Tinha que voltar para casa. Tinha que dar um jeito naquela situação. Olhou atrás de Lyra e viu que o feiticeiro voltou a atacar a energia multicolorida. Tinha que fazer alguma coisa para parar os dois ou a mãe voltaria a sentir dor. Apertou mais forte a empunhadura da espada e deu um passo à frente quando reteve-se, olhando para Lyra e inclinando a cabeça de leve.
‘Então foi Miguel quem lhe entregou sua espada também, não é?’
Lyra sorriu e confirmou. ‘Decepcionado por não ser o único?’ Ela soltou um suspiro de forma dramática. ‘Nunca somos os únicos apesar de pensarmos assim.’
‘Não.’ Ele respondeu, estreitando os olhos dela. ‘Pelo contrário. É bem tranquilizante saber que não somos os únicos em alguma coisa.’
Ela franziu a testa de leve, não entendendo as palavras do garoto. Shaolin desviou os olhos dela e observou o ferimento que tinha no ombro que sangrava. Elevou sua magia e sorriu de leve, percebendo que ele cicatrizava de forma tão rápida quanto o ferimento que ele fez nela.
‘Você deu a dica. Acho devo agradecê-la.’ Ele falou, fazendo-a trincar os dentes. ‘Sua espada não pode me ferir, como a minha também não consegue feri-la. Estamos num impasse.’
‘Bem observado.’ Ela falou, meneando a cabeça de leve. ‘Você é bem esperto. Levei tempo para saber disso. Na verdade, tiveram que me contar.’
O garoto abaixou a arma e olhou para ela. ‘Não adianta você querer achar todas as respostas se não consegue nem entender o que se passa com você. Você tem ideia do porquê está ajudando aquele idiota ali atrás?’
Ela virou-se para o feiticeiro atrás e voltou-se para ele. ‘Para sair daquele inferno em que me colocaram justamente porque não me falaram todas as respostas.’
‘Você acabou de dizer que não falaram todas as regras. Então, provavelmente, não fez todas as perguntas.’
Ela estreitou os olhos nele. ‘E você perguntou?’
‘Eu não.’ Ele respondeu e encolheu os ombros de leve. ‘Eu só quero terminar com isso aqui de uma vez e ir embora.’ Ele falou. ‘Você diz que quer sair, mas será que tem ideia da razão pela qual entrou no inferno?’
Lyra deu um passo à frente com o rosto irritado. ‘Porque simplesmente me deram uma missão sem me explicar todas as regras. Fizeram-me passar por um monte de testes idiotas para depois eu ser jogada no inferno com os mesmos seres que eu antes combatia. Humilharam-me, pisaram em cima de mim acreditando que eram melhores. Todos vocês vão me pagar pelo que fizeram. E você, garoto… se for esperto, deveria ficar do meu lado. Antes que seja obrigado a conviver com os mesmos demônios nojentos aos quais está combatendo com esta arma.’
‘Demônios?’ Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha de leve e abaixando a arma. ‘Olha… Meu irmão é um e eu posso garantir que ele é gente boa.’ Ele falou. ‘Deveria rever esse seu conceito.’ Disse de forma sincera para ela.
‘Seu irmão?’ Lyra perguntou irritada. ‘Desde quando um anjo tem um demônio como irmão, acha que sou idiota?’
Shaolin franziu a testa e em seguida balançando a cabeça de leve. ‘Vocês adoram realmente rotular demais as coisas. Acho que é por isso que estamos todos nessa confusão.’ Ele falou, girando a espada na mão tentando relaxar até ela entender que não adiantava brigar daquela forma. ‘Anjos são bons, demônios são maus, humanos são inconsistentes.’ Ele encolheu os ombros de leve, levantando uma mão ao lado do corpo. ‘No final… Todos eles falham em alguns aspecto, né? Se um anjo é mau, está fora do padrão. Se um demônio é bom, está fora do padrão. Se um humano é perfeito… Também está fora do padrão. Acho que você não entendeu que não existe verdade absoluta, não é?’ Concluiu olhando para ela de forma suave. ‘Se quiser pode vir comigo e a gente conversa com os caras lá de cima. Eles são meio chatos e enrolados, mas acho que dá para esclarecer com eles o que aconteceu com você.’
‘Está querendo me ajudar, por quê?’ Ela deu um passo a frente encarando-o.
‘Você acabou de dizer que era como eu… E mesmo que não fosse… Tenho certeza que você está mais perdida que barata tonta.’
‘Você é realmente muito petulante, garoto…’ Ela falou, estreitando os olhos nele. ‘Passou então em todos os testes, não é?’
‘Não… Faltam dois ainda. E eu nem sei se vou voltar do último…’ Ele respondeu. ‘Você passou?’
‘Está blefando comigo agora.’
‘Estou perguntando apenas.’ Ele falou e depois soltou um suspiro. ‘Preciso impedir o cara ali.’ Disse apontando com um gesto Charles. ‘Você vai mesmo ficar no meu caminho?’
Ela desviou os olhos dele e deu um passo para o lado. ‘Não.’ Respondeu. ‘Quero ver até onde você vai chegar. Estou curiosa agora.’
Shaolin caminhou devagar e passou por ela, desviou os olhos e seguiu em direção a Charles, dando as costas para Lyra.
Lyra franziu a testa, observando-o. ‘Realmente você ou é arrogante demais ou é burro, garoto.’
O garoto franziu a testa e continuou a caminhar em direção a Charles, sem se virar para ela. Lyra levantou a espada e estava pronta para desferir um golpe nas costas do garoto quando teve sua arma bloqueada por outra. Arregalou os olhos de leve.
‘Esse é meu irmão.’ Shaolin comentou, sorrindo de leve. Olhou para Lyra por sobre o ombro. ‘A arma dele não é igual a minha e ele não hesita como eu. Já estou avisando que a regra mudou agora.’
‘Pirralho metido.’ Kazuo falou, olhando rapidamente para o irmão. ‘Eu não falei para não se afastar?’ Ele falou, empurrando a mulher para trás e a encarando.
‘Isso é impossível… Não poderia ter ajuda de um ser das trevas.’ Ela falou, olhando de um para outro.
‘E você não deveria estar aqui também.’ Kazuo falou, encarando-a.
‘Vou acabar com vocês dois, independente do que sejam.’ Disse, atacando o rapaz que bloqueou com a espada.
Kazuo franziu a testa, sentindo a força do golpe, estreitou os olhos nela e reparou que arma era parecida com a do irmão que agora atacava Charles, fazendo-o parar de desferir energia na fonte multicolorida.
Lyra voltou a atacá-lo e Kazuo desviou dos golpes em vez de bloqueá-los como fizera antes. Não era prudente medir forças com ela com uma arma daquelas. Girou o corpo, evitando ser atingido pelo ataque furioso do demônio feminino e atingiu o rosto dela com um soco alto. Ela cambaleou, mas voltou a empunhar a espada em direção ao rapaz.
Ela trincou os dentes, passando a mão pelo rosto atingido pelo golpe do rapaz. ‘Vai se arrepender disso, demônio.’ Ameaçou, tentando acertá-lo furiosamente com a espada e irritando-se ao extremo, observando-o se esquivar dos golpes e atacá-la em todas as brechas que ela deixava na sua defesa, quando finalmente foi atingida pela espada dele de forma certeira.
Cambaleou para trás ainda sem conseguir acreditar que tinha sido atingida e levou uma das mãos o ferimento que sangrava e que agora não era possível de ser cicatrizado.
Ela desviou os olhos de Kazuo e fitou Shaolin que lutava contra Charles. Conhecia ele, mas de onde? Ele era um anjo que tinha caído, a memória dos seus ex colegas vinham aos poucos. Mas tinha algo estranho naquele menino, ele parecia ingênuo demais e… Voltou a encarar Kazuo. Como um anjo tinha a ajuda de um ser das trevas sentir sentir ojeriza por ele, pelo contrário, fez questão de falar que era seu irmão. Um anjo com afinidade e laços estreito com as trevas. Só conhecia um...
Ela arregalou os olhos de leve. ‘Ah! O preferido de Miguel! O arcanjo da morte...’ Exclamou e caiu na risada.
Kazuo olhou para a garota intrigado, ela realmente deveria ser louca.
‘Não reconheci porque está ainda como um fedelho. Mas deveria ter reconhecido logo pelos belos olhos verdes.’ Ela falou rindo-se.
‘Do que você está falando, maluca?’
Ela encarou o rapaz com um sorriso irônico. ‘Do seu irmãozinho ali.’ Disse apontando para Shaolin que finalmente dava um golpe deixando Charles inconsciente.
‘Da onde conhece, Shaolin?’ Kazuo perguntou intrigado, apertando mais forte a empunhadura da espada.
‘Shaolin? Ah este é o nome dele agora… Também fui uma guardiã celestial como ele.’ Respondeu fazendo o rapaz arregalar os olhos de leve. ‘Se eu fosse você ficava com medo dele. A função dele é eliminar seres como você.’ Ela abriu um sorriso maldoso. ‘E ele era o melhor de todos nesta função. Não hesitava um segundo em eliminar qualquer ser das trevas como você.’
Kazuo olhou sério para a mulher, balançou a cabeça e sorriu de lado para ela. ‘Garota… Ele é meu irmão. Arrancariam minha cabeça se não fosse ele. Acho que você é bem limitada.’
Ela voltou a atacá-lo com fúria apesar de sentir o grande ferimento sangrar, tentou golpeá-lo em sequência, mas Kazuo desviava dos golpes sem problemas, ela estava fraca e naturalmente o poder da espada dela também havia baixado de nível.
Kazuo num contra ataque acertou-a novamente fazendo-a dar alguns passos para trás e trincar de raiva. Gritou avançando sobre ele quando sentiu a espada do rapaz finalmente lhe dar o golpe fatal.
Lyra soltou a espada da mão e levou as mãos até o ferimento que sangrava sem parar.
Shaolin se aproximou e parou ao lado de Kazuo, olhando para ela com pena. Sentia muito por ela, realmente tinha impressão de que a conhecia e se pudesse falaria com Gabriel e os outros para tentar acertar a situação de Lyra.
Lyra levantou o rosto e encarou Shaolin, deu alguns passos em direção a ele. Ela deu um sorriso fraco para ele. ‘Você está no universo errado, Azrael. Aquela guardiã por quem você é apaixonado não é deste.’
Shaolin estreitou os olhos nela. ‘Azrael...’ Repetiu.
Lembrava-se de Miguel ter o chamado daquela forma, mas achou que estava tão cansado e tão confuso naquela hora que deixou para lá.
Ela aumentou o sorriso de forma zombeteira. ‘Não lembra do seu nome entre nós, Azrael? Que ingratidão. Éramos tão próximos, apesar de ser o anjo da morte, você sempre foi o mais otimista… o que acredita que tudo melhoraria…’
O garoto franziu a testa de leve. ‘Então era assim que me chamava antes?’
Kazuo olhou para o irmão de relance. Shaolin não estava realmente caindo naquela conversa idiota, estava? A mulher era doida! Simples assim!
Lyra abriu um sorriso. ‘Exatamente. Pelo jeito depois que eu falhei Miguel finalmente aceitou que você caísse, não?’ Ela falou de maneira presunçosa. ‘E apagou todas as suas memórias para finalmente você esquecer daquela guardiã que perseguia. Realmente aquele Arcanjo é um excelente general. Frio e calculista.’
‘Acha realmente que sabe tanto ao meu respeito?’ O menino falou sem desviar os olhos dela.
Lyra ainda tinha o rosto zombeteiro. ‘Você sempre foi realmente admirador das trevas mesmo alcançando um cargo celestial. Por isso foi logo recolocado no posto de anjo da morte. Adorava matar, não? Nunca hesitou em fazer isso quando era humano e também nunca recusou nenhuma tarefa. Não era a toa que Miguel o adorava… O que aconteceu com você agora para ter hesitado tanto em me atingir? Ficou mole agora que voltou novamente a ser humano? Ah já sei! Remorso? Você está afundado em remorso por ter matado tanto, não é?’
Shaolin deu de ombros. ‘Hum… Talvez tenha razão.’
Kazuo olhou para o irmão com o rosto assustado, Shaolin estava com uma postura diferente. Ele sabia muito bem o que o irmão pensava sobre matar. Lembrava de todas as infinitas explicações que o garoto lhe deu para não matar o adversário. Era estranho perceber aquela atitude dele, até certo ponto… frieza. Aquilo não combinava com ele.
Ela deu um passo para trás cambaleando e caiu de joelhos no chão.
‘Mas você era apaixonado por aquela guardiã das trevas… Akame…’ Shaolin estreitou novamente os olhos nela. Akame. O nome que tinha lido abaixo do retrato de sua Kasumi. ‘Sempre estava atrás dela, sempre acompanhando-a, obsecado por ela… Onde ela está agora, Azrael? Esqueceu-se dela finalmente?’ Ela perguntava com o tom irônico.
Shaolin deu um passo a frente mais Kazuo o tentou impedir. O menino olhou para o irmão. ‘Não se preocupe… ela não pode mais fazer mal.’
‘Ainda é arriscado.’ O rapaz ponderou.
‘Não é mais… a presença dela está diminuindo rápido demais.’ Rebateu e se aproximou de Lyra que levantou o rosto e encarou Shaolin.
‘Anjo idiota. Vai acabar como eu.’ Ela falou entre os dentes.
Shaolin a encarou com o semblante suave. ‘Não precisava ter acabado assim, Lyra. Eu sinto muito por você.’ Falou sinceramente.
Ela franziu a testa observando-o, sentiu um bolo na garganta.
‘A queda nem sempre representa humilhação, mas renascimento. Possibilidades de mudanças e sair da estagnação. Sinto muito por você não ter entendido isso.’
Ela tentou engolir em seco fitando-o nos olhos. Os mesmos olhos verdes que tantas vezes havia visto esperança de que tudo seria melhor. Sentiu quando seus olhos arderam e a visão ficou embaçada como a séculos não acontecia.
Shaolin abaixou-se apoiando um dos joelhos no chão sem desviar os olhos dela e realmente sentiu-se triste ao vê-la chorando enquanto percebia a presença dela diminuindo, mas principalmente percebeu que a energia de ódio e rancor que a circulava antes de forma explosiva tornava-se algo diferente. Era a primeira vez que ele identificava aquela energia. Era a primeira vez que claramente identificou o que era arrependimento e como era tão dolorida…
‘Por quê?’ Ela balbuciou. ‘Por que eu falhei?’
Shaolin sorriu de forma suave. ‘O que muitos consideram falhas, para outros é superação.’ Falou com o tom gentil. ‘Como você mesma falou… eu cheguei até onde muitos queriam… onde você gostaria de voltar e a única coisa que eu almejava… a única coisa que eu desejava desesperadamente era estar ao lado dela… de Akame.’
Lyra tombou para frente e Shaolin a segurou pelos ombros. Kazuo deu um passo a frente preocupado pelo irmão se colocar naquela posição vulnerável, mas franziu a testa ao reparar a inimiga se aproximar mais dele e abraçá-lo. Shaolin a abraçou e Kazuo arregalou os olhos ao ver o semblante de Lyra suave. Ela apoiou a cabeça no ombro do menino, estava com os olhos fechados e um sorriso fraco nos lábios. Parecia estranhamente em… paz.
‘Obrigada, Azrael…’ Ouviu-a sussurrar antes de finalmente virar uma nuvem de pó negro que circulou o menino.
Shaolin soltou um suspiro pesado antes de se levantar.
‘Quem era a fêmea?’ Kazuo perguntou aproximando-se do menino que tinha os olhos tristes. ‘Ela era um demônio. O que ela quis dizer com você ser um guardião celestial? Por que ela lhe chamou de Azrael?’
Shaolin novamente respirou fundo e soltou o ar devagar para ganhar tempo e pensar nas respostas que ele mesmo não conseguia encontrar para dar ao irmão. Olhou para Kazuo e sorriu de leve. ‘Acho que era assim que me chamava antes de… enfim… vir para este mundo.’
‘Como assim?’
‘Como nee-san era Khala’a antes e agora é humana. Eu era Azrael antes de ser Shaolin.’
Kazuo endireitou o corpo incomodado. ‘Ela falou que você era…’ o rapaz comprimiu os lábios, tenso. ‘Era quem combatia os seres das trevas. Era o melhor inclusive.’
Shaolin fitou o irmão por algum tempo. ‘Talvez…’ Respondeu por fim e encolheu os ombros. ‘Mas com certeza seres das trevas que por algum motivo estivessem fazendo mal aos outros. Você melhor do que ninguém sabe que não pode generalizar as coisas. Não importa a natureza. Não é, nii-san?’
Kazuo sorriu para ele, gostava de ouvir o irmão chamando-o daquela forma. Sentiu-se aliviado com a resposta dele. Não podia negar que era desconfortável saber que Shaolin fora o extremo oposto dele. Mas agora isso não importava, ele era seu irmão menor e ponto.
Os dois olharam para a fonte de luz a frente e sorriram de forma aberta.
‘Bonito, não?’ Kazuo comentou. ‘É parecida com a luz da brecha que eu atravessei e encontrei você.’
Shaolin sorriu para ele. ‘É bem parecida mesmo. Mas ainda tem manchas escuras.’
‘Acho que oyaji precisa dar uma olhada nisso.’
‘Ele já deve estar vindo.’ Shaolin comentou e virou-se para trás.
Syaoran não demorou muito a aparecer na câmara e observou os dois filhos. Caminhou devagar, passando por Charles que estava caído no chão e depois franziu a testa, observando os filhos. Arregalou os olhos de leve, observando Shaolin com a roupa toda suja de sangue.
‘Onde está ferido?’ Ele perguntou, aproximando-se e soltando a espada. ‘O que aconteceu?’ Perguntou aflito, observando se o garoto tinha algum ferimento.
‘Já está bom.’ O garoto respondeu, tentando tranquilizar o pai.
‘Como assim já está bom? Que sangue todo é este?’ Estranhou não encontrar ferimento no garoto, apesar da roupa rasgada. Sabia que o caçula não tinha o mesmo poder de cicatrização de Kazuo. ‘Mas que merda você fez? Vocês dois fizeram?’ Perguntou, olhando para Kazuo que levantou os braços e fez sinal negativo com a cabeça.
‘Eu não tenho nada a ver com isso.’ Respondeu. ‘O Shaolin é que se meteu em confusão com uma fêmea doida.’
‘Vocês dois querem me enlouquecer, é?’ Syaoran falou irritado. ‘Sua mãe vai me matar se você chegar em casa nesse estado, Shaolin!’
‘É difícil explicar agora.’ O garoto respondeu. ‘Eu entro pelos fundos e troco de roupa.’ Deu como solução, sorrindo de leve.
‘Rá!’ Syaoran soltou de forma irônica e balançou a cabeça de leve. ‘Como se ela não fosse perceber.’ Ele passou a mão pelos cabelos, já imaginando a reação da esposa quando visse o garoto. Pelo menos, realmente não parecia ferido. Desviou os olhos do filho e olhou para a fonte multicolorida. Sorriu de leve, reconhecendo a aura parecida com a da esposa.
‘Está com manchas ainda.’ Shaolin observou.
‘Tem como desaparecer com elas?’ Kazuo perguntou, preocupado.
‘Sakura vai dar conta agora.’ Syaoran respondeu. ‘Melhor voltarmos logo para casa.’ Ele concluiu e soltou um suspiro. Olhou para Charles caído no chão. ‘E levar esse pessoal todo para o lugar de onde não deveriam ter saído.’
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Shaolin abriu novamente a fenda entre os universos e olhou para o pai e o irmão.
‘Acha que consegue estender mais a fenda?’ Logan perguntou para o garoto.
‘Vamos tentar.’ Ele respondeu, aumentando o nível de magia e deixando-a maior. ‘Está bom assim?’
‘Acho que sim.’ O homem respondeu e fez um gesto com a mão, pedindo para o grupo empurrar a carroça com os feiticeiros inconscientes que haviam capturado. ‘Não sei porque não matam todos de uma vez.’ Logan resmungou, irritado.
‘Foram manipulados por um maluco.’ Syaoran respondeu ao homem. ‘Daremos, pelo menos, uma chance para eles se redimirem.’
‘Eles não deram para nós.’ Logan ainda observou. ‘Muitos morreram.’
‘Muitos deles também morreram.’ Replicou.
Assim que atravessaram, Syaoran soltou um suspiro e olhou para o homem que como ele também sentia-se incomodado com o zumbido. ‘Acho melhor a gente ir agora.’ Falou. ‘Espero que tenha aprendido a não temer o próprio dom, Väktare.’
O homem soltou um murmurou, incomodado. ‘Acho que sim. Vai saber quando vão aparecer outros malucos como eles.’
Syaoran concordou fazendo um gesto de leve com a cabeça. ‘Se não conseguir proteger o pilar do seu universo, isso acaba resvalando no meu.’
‘Está falando que eu não sei fazer direito o meu trabalho?’ Logan perguntou, incomodado.
Syaoran respirou fundo. ‘Tanto eu como você não queremos nos encontrar novamente. Já que os nossos universos possuem afinidades, melhor vocês se desenvolverem logo na magia para não acontecer novamente esta confusão. Não dá para negar o que vocês possuem. Ficar temendo-a não vai solucionar o problema de vocês.’
Logan concordou com a cabeça incomodado ainda. ‘Bem… Acho que devo agradecer novamente.’
‘Não tem de quê.’ Syaoran falou, sorrindo de leve e acenando com a cabeça antes de chamar os filhos para atravessarem logo a brecha.
Assim que Shaolin atravessou, fechou-a e recolheu a espada, virando-se para o pai. ‘O que vamos fazer com eles? O garoto perguntou, mas logo desviou os olhos do pai, observando um vulto se aproximando ao longe. Franziu a testa de leve.
‘São de responsabilidade do Círculo.’ Syaoran respondeu. ‘Hiraguizawa saberá o que fazer com eles.’ Comentou e observou o semblante sério do caçula. ‘O que foi?’
O garoto indicou com a cabeça. ‘É um outro demônio.’ Respondeu, fazendo o pai virar-se para onde apontava.
Syaoran franziu a testa, estreitando os olhos na silhueta desengonçada que se aproximava no escuro.
Kazuo sorriu de leve já reconhecendo o grandalhão. Balançou a cabeça de leve, não acreditando que ele estava realmente ali.
‘Como é que ele chegou aqui?’ O rapaz soltou. ‘Fica frio, Shaolin. Ele só tem tamanho.’ Falou passando a mão na cabeça do irmão que não replicou, ainda com os olhos cravados no vulto que se aproximava.
‘É… Era ele que sempre o ajudava, não?’ O garoto falou e soltou um suspiro incomodado.
‘Ele cuidou de mim da melhor forma que pôde.’ Kazuo respondeu, caminhando em direção ao grandalhão. Estava mesmo sentindo a falta dele.
Syaoran sorriu de leve, observando o filho se afastando para encontrar-se com Arthas. Olhou para o caçula que ainda estava sério. ‘O que está acontecendo, Shaolin?’
Shaolin encolheu os ombros. ‘Nada, tousan…’ Ele respondeu. ‘Está tudo bem… Por enquanto.’ Completou e levantou o rosto encarando o pai que estreitou os olhos no garoto.
‘Não me contou direito o que está acontecendo com você.’ Syaoran comentou preocupado.
O menino encolheu os ombros de leve. ‘Não é hora, tousan. Melhor cumprimentar o grandão…’ Falou desviando os olhos dele. ‘Ele ajudou muito o Kazuo. Deveria agradecê-lo.’
‘Como é que você sabe?’ Syaoran perguntou, ainda fitando o filho.
Shaolin balançou a cabeça de leve. ‘O Kazuo é que tem que falar sobre isso com o senhor. Não tenho direito de falar o que eu vi.’ Respondeu, virando-se para ir até o irmão e se afastar do pai, mas Syaoran segurou seu ombro, impedindo-o de continuar.
‘Do que está falando?’ Perguntou sério.
Shaolin levantou os olhos para ele. ‘Aquela tal de Midoriko…’ Ele começou a falar, fazendo o pai estreitar os olhos no garoto que soltou um suspiro, não poderia falar o que tinha vivenciado quando entrou na cabeça do irmão, não era seu direito. Kazuo é quem deveria falar com o pai. ‘Espero que ela não dê as caras atrás do Kazuo, também.’ Falou, afastando a mão do pai do ombro e voltando a caminhar, com punhos cerrados. ‘Eu não vou permitir que ela se aproxime dele, novamente.’
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Syaoran observou o caçula se afastando devagar e franziu a testa. Não se lembrava de ter visto o menino com a aura tão agitada daquela forma antes e nem tão bravo. Soltou um suspiro e balançou a cabeça de leve, passando a mão no rosto. Estava preocupado com o possível descontrole do caçula desde que Kazuo havia lhe contado sobre a luta que travaram no Vaticano. Shaolin nunca fora violento, pelo contrário. Tinha chegado no seu limite naquele momento e desconfiava que talvez Midoriko pudesse fazer o garoto voltar a ficar nele. Kazuo devia ter falado alguma coisa para o irmão sobre o tempo em que estava no mundo das trevas durante a viagem. Eles estavam bem mais próximos um do outro.
Inclinou a cabeça observando o garoto parado um pouco mais distante, não se aproximou de Kazuo que cumprimentava Arthas com entusiasmo. A aura dele estava expandida demais e por algum motivo sabia que apesar de agitada estava controlada. Pensou incomodado que tinha treinado e cobrado tanto do filho nos últimos cinco anos, mas sempre desejando que nunca fosse necessário o filho utilizar o aprendizado. Desviou os olhos da silhueta do garoto e fitou Kazuo. Franziu a testa preocupado, Shaolin tinha uma certa razão de ficar apreensivo, mas não precisava se preocupar com a segurança do irmão. Podia ter certeza que ele não seria o único a impedir que Midoriko se aproximasse de Kazuo.
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Kazuo se aproximou de Arthas, sorrindo de lado. ‘Como é que um bicho feio como você conseguiu chegar até aqui?!’ Perguntou em tom irônico.
‘O grande Arthas sempre chega onde quer!’ O grandão respondeu de forma triunfante. ‘Você foi um ingrato, Garoto!’ Falou ressentido. ‘Onde já se viu desaparecer do nada daquela forma.’ Reclamou, abraçando Kazuo com o único braço.
Kazuo se afastou dele, sorrindo de leve. ‘Oras… Atravessei a tal brecha! E você? Como conseguiu chegar até aqui?’
‘Eu vim atrás de você!’ Arthas respondeu.
‘E como é que me achou?’
‘Já falei… que eu sempre chego onde eu quero.’
Gabriel surgiu ao lado do grandão e olhou para ele com o rosto sério.
‘Às vezes preciso de uma ajudinha. Mas eu sempre dou um jeito.’ Corrigiu-se rapidamente, mostrando que estava sem graça.
Syaoran se aproximou dos três e sorriu de forma até triste observando Arthas. O grandão tinha sido legal com ele, o problema é que simplesmente odiava lembrar do tempo que esteve no mundo das trevas.
Arthas virou-se para ele e arregalou os olhos de leve. Sorriu de forma aberta e deu um passo até o homem abraçando-o quase com lágrimas nos olhos. ‘Eu sabia que você estava vivo, Garoto!!!’
‘Para com isso, Arthas.’ Syaoran falou incomodado. ‘E para de me chamar assim!’
Kazuo deu uma risada ao perceber a reação do pai parecida com a que ele teve tantas vezes. Era estranho constatar que, agora, ser comparado com o pai não o irritava como antes, pelo contrário.
Arthas ainda olhava para Syaoran sem acreditar que estava a frente dele. ‘Está mais velho.’ Comentou, franzindo a testa de leve.
‘Nem quando me conheceu eu era um garoto. Este apelido que me deu é ridículo.’ Comentou incomodado. ‘Como é que chegou aqui?’ Syaoran perguntou olhando de Arthas para Gabriel. ‘Acho que tem dedo seu nisso, também, não é?’
Gabriel deu um longo suspiro incomodado. ‘É… Foi uma missão que me deram… Mas eu só o guiei até aqui, não tive nada a ver com a vinda dele do mundo das trevas.’
Shaolin ergueu uma sobrancelha olhando para o rosto incomodado do anjo e balançou a cabeça de leve. Então deveria ser esta a missão idiota com a qual o anjo havia ficado furioso.
Arthas olhou para o menino que havia se aproximado mais depois do surgimento de Gabriel. Franziu a testa de leve e abaixou-se quase ficando na metade de sua altura para fitar o rosto do garoto. ‘Não sabia que anjos também podiam ter filhos, Gabriel.’
Shaolin rodou os olhos, lembrando-se do senhor Chocolove que já tinha lhe dado, pelo menos, dois pais diferentes. Pensou que seria mais fácil ser parecido com o pai, apesar de nunca ter se importado com isso antes. ‘Você também é bem limitado.’
‘Você…’ Falou, tocando a mão no peito do garoto. ‘Tem a energia igual ao cara de asas aqui atrás. Na verdade, é mais forte que a dele, chega a me dar calafrios...’
Shaolin sorriu de lado. ‘Não é muito feio um bicho grande como você ficar com medo de um pirralho como eu?’
Kazuo soltou uma gargalhada que tentou abafar desesperadamente para não irritar ou magoar Arthas.
Arthas estreitou os olhos nele. ‘No inferno se aprende que tamanho não é nada.’ Ele falou e logo depois se levantou olhando o garoto de forma séria. ‘Mas você tem razão. Sou o grande Arthas… não tem como ter medo de um pivete como você.’
Agora Kazuo mal conseguiu se controlar. Shaolin balançou a cabeça de leve e sentiu quando o pai colocou a mão na sua cabeça. ‘Também é meu filho.’ Falou para Arthas. ‘Este é meu filho com Sakura.’
‘Com a Feiticeira?!’ Arthas exclamou quase emocionado. ‘Que saudades eu tenho dela. Era tão gentil e boa comigo. A única que prestava atenção em minhas histórias gloriosas.’ Ele falou e deu uma passo a frente abraçando Shaolin e levantando-o do chão. O garoto arregalou os olhos assustado com a atitude do grandão.
‘Hei! Você não estava com medo de mim?’
Arthas balançava o menino de um lado para outro. ‘Tão bonitinho como a Feiticeira. Os olhinhos verdes tão brilhantes...’
‘Hei! Dá para me soltar?! Nii-san! Manda ele me soltar!’ Shaolin pediu tentando ainda de maneira educada se livrar do abraço do grandão.
Kazuo ainda mal se controlava de tanto rir e agora estava sendo acompanhado pelo pai e Gabriel que observavam a cena. O rapaz estava feliz em rever o grandão, mas franziu a testa de leve pensando em como ele tinha parado ali.
‘E então?’ O rapaz perguntou olhando para o grandão. ‘Como é que veio parar aqui?’
Arthas parou de balançar Shaolin e finalmente soltou o garoto que deu alguns passos para trás. Era melhor ficar afastado dele.
O grandalhão encolheu de leve os ombros. ‘Depois que você atravessou a brecha, não demorou muito para Midoriko começar a perder prestígio, influência e território. A tal da Esdeath com alguns outros demônios estavam literalmente dominando tudo. Eu não tinha mais porque segui-la e não tava afim mais de ficar recebendo ordens de fêmeas, então me afastei e voltei a vagar de um canto para o outro, até que cruzei com uma brecha e decidi atravessar para procurar por você, garoto. Eu estava preocupado.’
Kazuo chegou a sentir um arrepio. ‘Ela perdeu territórios, é?’ Comentou incomodado. ‘Deve estar bem irritada.’
‘Uma fera!’ Arthas confirmou, fazendo o garoto engolir em seco. ‘E estava atrás de você.’
Kazuo chegou a se encolher sem querer, imaginando-a berrando a sua frente. Syaoran se incomodou ao reparar nas reações do filho. Colocou a mão no ombro dele, chamando a atenção do rapaz.
‘Já falei que você não volta para lá.’ Ele falou. ‘Espero mesmo que ela apareça aqui… Tenho contas a ajustar com ela.’
Kazuo abaixou os olhos. ‘Seria melhor… Seria melhor ela não aparecer.’ Comentou sem conseguir esconder o incômodo e o receio de reencontrá-la.
Shaolin olhou para o irmão e abaixou os olhos, soltou um suspiro. Estava incomodado demais com o que sabia da vida do irmão. Não achava justo, não achava certo, não conseguia aceitar ainda. Não era só Lyra que achava que as coisas não eram tão claras e certas. Arregalou os olhos de leve e virou-se para Gabriel que estava apenas observando a conversa, franziu a testa.
‘Quem era realmente Lyra?’ Perguntou, chamando a atenção do anjo que voltou-se para o garoto com o semblante sério.
‘Não tem como você se lembrar dela.’ Ele rebateu.
‘Eu não lembrei. Eu a encontrei… Eu e Kazuo a encontramos. No universo de Väktare-san. Ela estava ajudando um outro feiticeiro a corromper aquela energia que afetava kaasan.’
Gabriel endireitou o corpo, incomodado. ‘Ela estava metida nisto?’
‘Você não sabia?’ Shaolin perguntou sério para o anjo. ‘Exatamente o que você sabe, Gabriel?’ Perguntou realmente incomodado com as informações vagas do anjo.
O anjo olhou para o garoto desconcertado. ‘Não tenho todas as respostas. Já lhe falei isso. Sou apenas um mensageiro.’
‘Mas sabe quem ela era.’
Syaoran desviou os olhos de Arthas e fitou Gabriel e depois Shaolin. ‘Quem é esta?’
‘Ela se tornou um demônio depois que caiu.’ O anjo respondeu.
‘Caiu?’
‘É assim que nos referimos a anjos que descem de plano.’ Ele explicou, nitidamente constrangido em falar do assunto. ‘Tem o sentido da evolução e tem o sentido contrário. Tudo é uma via de mão dupla. Nada apenas sobe ou apenas desce. Assim como existe a evolução pode ocorrer a regressão quando o espírito é corrompido de forma incorrigível.’ Ele explicou. ‘Em alguns casos esta regressão é forçada por alguma magia, limitação ou escolha.’ Gabriel olhou para Syaoran que mantinha a atenção a explicação. ‘Lembra-se quando eu e Raziel fomos até você pedir que resolvesse a questão das brechas no plano inferior e eu lhe falei que tínhamos tentado resolver a questão entre os guardiões celestiais?’
Syaoran franziu a testa, tentando se lembrar daquela conversa. ‘Vocês dizeram que alguns poucos anjos poderiam ir para o mundo das trevas. Só aqueles que tivessem alguma ligação com alguma coisa de natureza…’ Ele balançou a cabeça de leve. ‘Eu estava tão contrariado naquele momento que não lembro direito.’ Disse com sinceridade.
Gabriel soltou um suspiro. ‘Exatamente.’ Olhou rapidamente para Shaolin, voltando a fitar Syaoran. ‘Os guardiões celestiais na hierarquia dos anjos são mais próximos aos humanos. Alguns possuem ainda uma ligação maior com o mundo humano e o das trevas. Isso é perigoso, mas essencial quando se trata de situações limites. Como naquela vez e como estamos passando agora.’
Syaoran arregalou os olhos entendendo a situação. Deu um passo à frente e segurou o ombro direito de Shaolin com força. ‘Esta… Esta Lyra era quem deveria ter ido no meu lugar, é isso?’
‘Exatamente. Ela tinha caído e passaria pelos testes das virtudes, recebendo assim um poder capaz de ir para o plano inferior.’ Ele soltou um suspiro e olhou novamente para Shaolin. ‘Mas ela não conseguiu passar…’ Ele endireitou o corpo novamente. ‘Se revoltou contra nós e infelizmente… Acabou caindo para o plano inferior.’
‘Tornando-se um demônio.’ Shaolin falou em voz baixa. ‘Agora entendo quando ela disse que colocaram-na junto com quem ela era destinada a lutar.’
‘Lyra era a mais forte de nós, colocamos todas as nossas esperanças nela.’ Falou voltando a olhar para Syaoran. ‘Quando ela falhou, não sabíamos o que fazer. Não daria tempo de outro de nós cair e passar por todos os testes necessários.’ Ele desviou os olhos do garoto, não dava para encará-lo. ‘Havia um guardião das trevas com capacidade e poder para enfrentar o problema, mas…’ Soltou um suspiro.
Shaolin estreitou os olhos em Gabriel que realmente se mantinha incomodado em falar sobre o assunto. ‘Outro guardião das trevas? De outro universo…’ Falou com o tom assertivo, fazendo o anjo voltar a fitar o garoto. ‘Não seria uma guardiã das trevas?’
Gabriel arregalou os olhos e fitou o garoto seriamente. ‘Do que se lembra, Shaolin?’ Perguntou de forma direta.
‘Do que realmente eu deveria me lembrar?’ Rebateu a pergunta.
Kazuo e Syaoran se entreolharam apreensivos. O homem deu um passo para frente parando ao lado do filho e colocando a mão no ombro dele. ‘Do que está falando Shaolin?’
Kazuo olhou o rosto do irmão e franziu a testa. Tinha algo estranho no irmão. Não sabia se era a postura ou o tom de voz petulante.
‘Por que não conta tudo que pelo menos sabe, Gabriel?’ Shaolin sugeriu.
Gabriel desviou os olhos do menino. ‘A situação era de extrema urgência por isso a nossa única solução na época foi recorrer a você.’
Syaoran respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Hum… Pelo menos agora dá para dar algum crédito a vocês. Pensei que tinha tudo sempre sobrado nas minhas mãos. Não que isso faça alguma diferença, pois no final, sobra mesmo.’
‘Tentamos resolver por nós, Miguel estava tentando contornar a situação de outra forma que não fosse recorrer aos guardiões das trevas, mas realmente não foi possível. Inclusive ele era contrário a deixar que um ser das trevas resolvesse a situação que caberia a nós.’
Kazuo abriu um sorriso debochado. ‘E novamente os seres das trevas fazem o que os seres celestes deixam de fazer. Vocês realmente sempre foram escorados, hem?’
Gabriel trincou os dentes. ‘Não seja presunçoso, demônio. Você só está vivo por causa de um.’
Kazuo não gostou, deu um passo a frente encarando o anjo. ‘Só estou vivo por causa do meu irmão. E ele não é um de vocês.’
‘Você não sabe de nada, moleque!’
‘E pelo jeito, você também não!’
Shaolin se colocou entre os dois. ‘Isso não é hora! Aquele problema já foi contornado. Agora precisamos pensar no que está acontecendo!’
Kazuo e Gabriel ainda se olhavam de forma arrisca.
Syaoran rodou os olhos. ‘O que aconteceu com esta tal de Lyra no final?’
‘Eu tive que matá-la.’ Kazuo respondeu, virando-se para o pai. ‘Era ela ou a gente.’
Shaolin encarou Gabriel. ‘Ela ainda estava revoltada com vocês. Acho… Que no fundo, comigo também. Estava ajudando o pessoal do velho mijão para se vingar do que ela acreditava que fizeram contra ela.’ O garoto soltou um suspiro. ‘Pelo menos no final… espero ter conseguido ajudá-la.’
Gabriel já estava pronto para perguntar o que ele queria dizer com aquilo mas era melhor deixar sua curiosidade de lado. Já estava numa situação desconfortável demais. ‘Ela estava muito confiante que passaria. Foi realmente uma decepção muito grande para nós, mas principalmente para ela.’ Soltou um suspiro. ‘Aprendemos uma lição com isso, nem sempre quem parece ser o mais forte em poder e força é o mais forte em caráter e virtudes.’
‘Pensei que talvez… Talvez ela pudesse resolver as coisas falando com vocês.’
‘Ela não passou, infelizmente não cumpriu sua missão.’ Gabriel comentou, voltando a fitá-lo. ‘É preciso sempre cumpri-la…’ Olhou de esguelha para Arthas. ‘Mesmo uma missão idiota.’ Voltou a fitar o garoto. ‘Depois de concluída, sempre voltamos para nosso plano de origem. Mas no caso dela, foi mais complicado. Ela não aceitou a perda e não aceitou recomeçar o ciclo novamente, acabou regredindo ao ponto de voltar para o mundo das trevas, como já aconteceu com outros. Uma vez caído o anjo tem que iniciar novamente sua escalada. Uns demoram mais e outros… Assim que finalizam a missão bem sucedidos, retornam imediatamente.’
Syaoran mostrou-se nervoso, segurou o ombro do filho. ‘Vamos, Shaolin. Sua mãe deve estar nos esperando.’ Ele falou e virou-se para Arthas. ‘Acho melhor você também vir com a gente. Antes que se meta em confusão.’
‘Eu nunca me meto em confusão.’ Arthas retrucou, mas sorriu de leve. ‘Mas eu quero rever a Feiticeira.’
‘O nome dela é Sakura, Arthas.’ Kazuo chamou a atenção do grandão, balançando a cabeça.
‘Para mim, ela vai ser sempre Feiticeira… Como o seu pai vai ser Garoto, entendeu, Garoto?’
Kazuo desistiu de falar qualquer coisa e começou a caminhar ao lado do pai e do irmão, logo depois que Gabriel desapareceu.
‘Estou pensando em como vou chamar o seu irmão.’
‘Pode chamar de pirralho que ele atende.’ Kazuo comentou, sorrindo de lado, ao ouvir o irmão reclamando para ele não começar.
Continua.
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