FEITICEIROS

Por Kath Klein

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 12

A pessoa mais importante

‘Droga! Estão aqui. Vamos!’ Ele falou, já começando a correr em direção a escola. Sakura foi atrás dele.

O casal chegou ao local olhando com temor o que acontecia. Crianças corriam por todos os lados, enquanto duas figuras se encontravam nos telhados emitindo raios destrutivos pelo prédio. E o que mais assustou a jovem: lá em cima estava o menino Syaoran tentando impedir Takeda.

‘Realmente… eu sou muito teimoso!’ Syaoran soltou, observando o menino enfrentar Takeda sozinho. ‘Onde está a garota?’ Perguntou assustado reparando que não via Sakura menina. Já tinha sua espada na mão.

‘Eu não a estou vendo.’ Sakura falou varrendo os olhos pelas inúmeras crianças que corriam pelo pátio da escola.

‘Procure a menina.’ Ele gritou já correndo em direção aos dois. ‘Proteja-a. Não estou vendo Mirena também.’ Alertou a falta da Feiticeira do futuro.

Sakura franziu a testa observando o namorado se afastando. Como sempre, Li estava sendo precipitado. Ele dizia para ela ter a cabeça fria, mas quem parecia que estava com a cabeça bem quente era ele. Relaxou os músculos do ombro, arrancou sua chave mágica já invocando seus poderes. A mandala brilhante apareceu aos pés da feiticeira. ‘Chave que guarda o poder da minha estrela, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós e os ofereça a valente Sakura que aceitou esta missão. Liberte-se!’ Pegou o cetro mágico já jogando uma carta para cima. ‘Alada!’ O par de asas apareceu em suas costas levantando-a do chão.

Rápida como uma flecha, ultrapassou o namorado, que não acreditou na velocidade da jovem. Rodopiou subindo até o telhado e pousou de forma suave logo atrás do menino Syaoran. Percebeu que ele tinha um ferimento na perna, provavelmente resultado de algum golpe baixo daquele idiota do futuro. Encarou Takeda.

‘Flecha!’ O arco se formou nas suas mãos, puxou sem culpa e atirou, impedindo que o feiticeiro do futuro atingisse novamente o garoto. Poderia usar escudo e apenas protegê-lo, era verdade, mas já estava de saco cheio daquilo. O Mago voou batendo numa parte da construção. Ela caminhou até o menino, pousando uma mão no ombro dele. ‘Cai fora.’ Não queria ser grossa com a criança, mas sabia que Syaoran era bem atrevido, principalmente em tão tenra idade. Tinha que ser assertiva ou o garoto não a obedeceria. O menino não se mexeu, ela só não sabia se era por desobediência ou pelo susto de ouvi-la falar com ele daquela maneira.

Antes que pudesse mandá-lo sair dali outra vez, Takeda já estava recuperado do golpe. Parou a frente do menino, protegendo-o e jogou outra carta para cima. ‘Disparo!’

A carta fez o seu trabalho, acertando o mago com seus feixes de energia mágica. Takeda mal conseguia respirar, tentando desviar ou se proteger. Sakura caminhou na direção dele pensando em como dar o golpe fatal e acabar com aquilo. Tinha que tirar aquele cara da vista das crianças. Isso teria que ser algo entre eles. Sentiu Li parar ao seu lado e percebeu que a aura dele estava inquieta também. Nem se deu ao trabalho de perguntar por quê. Desviou os olhos do inimigo e observou que várias pessoas ainda corriam pelo pátio da escola. ‘Tem muita gente...’ Sussurrou incomodada.

‘Vamos tentar levá-lo ao bosque.’ Li ponderou e ela pensou que seria mesmo a melhor solução.

‘Mas como?’

‘Movimento.’ O namorado lhe deu a dica. Ela sorriu de lado. Era exatamente por isso que considerava as cartas deles. ‘Tem uma clareira ali.’ O rapaz apontou. Seria o melhor lugar. ‘Só temos que achar a outra louca.’

Sakura se perguntou por que ele estava tão preocupado com Mirena. Ela devia ter voltado ao tempo dela, agora só precisavam se livrar deste aqui na frente deles e pronto. Takeda conseguiu, finalmente, concentrar energia e soltou em cima dos feiticeiros. Sakura arregalou de leve os olhos. ‘Escudo.’ Ela foi rápida protegendo os três.

O menino estava atrás dos dois, em pânico, vendo a enorme energia que envolvia o escudo de Sakura. Parecia que estavam engolidos por chamas. Nunca havia visto tamanho poder de destruição de uma só vez.

As chamas mágicas diminuíram e o escudo intacto de Sakura apareceu. Os três olharam desesperados agora para Takeda e para Mirena que tinha Sakura menina, sem os sentidos, envolta pela energia dos magos.

‘Droga...’ Syaoran trincou os dentes. Sakura entendeu o porquê do namorado ter insistido tanto em procurar a garota. O escudo se desfez. O sorriso dos adversários era debochado enquanto os encarava.

‘Agora temos algo que interessa a vocês, não é?’ A voz de Mirena era irritante por demais. Sakura se recriminou pela segunda vez de não ter apertado o pescoço dela. Eles deram um passo a frente quando viram Takeda fazer um sinal de negativa. ‘Nada disso. Se derem mais um passo, acabamos com esta linda garotinha.’

Syaoran teve que segurar o braço do menino, mandou-o ficar calmo e não fazer besteira.

Sakura franziu a testa. ‘E o que vocês querem? Se vieram para nos matar, e já têm a garota nas mãos, por que esta ceninha barata?’

Takeda abriu o sorriso e levantou a espada em direção a Syaoran. ‘Porque eu quero matar este daqui. O que acha senhor Li, a vida da garotinha pela sua? Proposta tentadora, não?’

‘Claro que não!’ Sakura gritou, dando um passo a frente e olhando-os com raiva. ‘Vocês me têm, então acabem logo com esta palhaçada.’

Mirena riu e a energia que envolvia a menina aumentou, tornando-se mais densa. Sakura começou a sentir falta de ar, caiu de joelho não conseguindo respirar.

Syaoran deu um passo a frente. ‘Hei! Hei!!! Não sou eu que vocês querem? Então? O que estão esperando?’

A energia em volta da menina diminuiu e Sakura conseguiu voltar a respirar, mas com dificuldade. Estava de joelhos com uma das mãos no chão e outra na garganta. Li estava a sua frente. Não permitiria que eles o matassem. Ninguém tiraria o seu Syaoran. Inferno.

‘Sakura...’ ouviu a voz do namorado baixa. ‘Movimento, agora. Todos nós, menos o garoto.’

Ela puxou a carta ainda ajoelhada e não pôde deixar de se perguntar se conseguiria. O ar ainda era escasso em seus pulmões. Levantou cambaleando e jogou-a para cima. ‘Movimento.’

Os quatro, mais a menina, desapareceram do telhado da escola deixando apenas o menino assustado para trás.

‘Não!’ Ainda gritou irritado com o sumiço de todos. ‘Droga.’ Virou o rosto observando para onde sua versão mais velha e mais irritante tinha apontado. Pulou como um gato do telhado e saiu correndo em direção ao bosque onde conseguia perceber as presenças. Não ficaria de fora daquela confusão toda, não ficaria longe de Sakura sabendo que ela corria perigo de vida.

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Takeda e Mirena olharam atordoados para onde estavam. ‘Mas o quê?’ O homem soltou antes de ser atingido com força pelas costas.

Li não gostava de fazer isso, mas a namorada tinha lhe dado uma enorme vantagem movendo-o para aquela posição, não a desperdiçaria por besteira. Era a vida de Sakura que estava em jogo. Não era idiota e sabia que, assim que o matassem, seria uma questão de tempo até matarem-na também. Já não acreditava em palavras há muitos anos.

Takeda urrou de dor caindo no chão. O rapaz ainda acertou dois chutes em Mirena fazendo a feiticeira afastar-se da esfera mágica da maga que ainda envolvia a menina. Ele tentou se aproximar dela, mas a energia o repeliu, fazendo-o dar alguns passos para trás sem conseguir alcançá-la. Foi jogado longe também e não teve como não gemer sentindo o ferimento do ombro doer.

Sakura usou o que podia de forças para movimentá-los. Sentia como se respirasse através de um estreito canudo. Tentou se levantar, mas cambaleou e caiu sentada no chão sem energia.

‘Ora, ora...’ A voz de Mirena chamou sua atenção. ‘Sente-se fraquinha?’ Perguntou com ironia.

‘Não a mate ainda!’ Ouviu a ordem de Takeda para a companheira. ‘Só depois que eu matar esse desgraçado.’ Falou caminhando até o rapaz e voltando a desferir inúmeros golpes em Li que mal teve tempo para se proteger. As espadas se encontravam com a fúria dos dois lutadores, cada um com sua vantagem, cada um com sua desvantagem.

Mirena voltou-se para Sakura e sorriu de forma maldosa. ‘Acho que vou ajudar Takeda a acabar com o seu namoradinho.’

Syaoran arregalou os olhos vendo que a feiticeira do futuro novamente aumentou a aura asfixiante em torno da jovem. Desesperou-se. ‘Deus do trovão, eu o invoco ao meu auxilio!’ Ordenou fazendo a descarga elétrica atingir os dois magos ao mesmo tempo. Sabia que, se usasse magia, ficaria mais fraco, mas não tinha como golpeá-la a distância. Levou a mão até o ombro que agora sangrava. Tinha que terminar com aquilo logo. Voou para cima de Takeda, atingindo-o tanto com a espada como com chutes. O coitado não sabia nem de onde estavam vindo os golpes. Li foi atingido novamente por uma forte energia quando Mirena interveio para ajudar o amigo. Colidiu em uma árvore e sentiu os ossos reclamarem.

A maga tinha as mãos envoltas de energia e estava pronta para desferir contra ele novamente, mas foi surpreendida, sendo atingida com tudo por uma violenta magia que a fez voar a pelo menos uns cinco metros de distância. Syaoran virou o rosto e viu Sakura com a segunda flecha armada. Estava fraca, com a respiração ofegante, reflexo do que sua versão mais nova estava sofrendo, mas não se dava por vencida. Sentiu orgulho dela. A jovem tentou desferir o segundo golpe, mas caiu novamente de joelhos. Ele tinha que fazer alguma coisa ou ela logo morreria. Não teve muito tempo para pensar, pois Takeda, já recuperado, voltou a golpeá-lo, forçando-o a se desviar.

O mago estava com vários ferimentos no corpo, o sangue pingava pelo seu braço, mas não tinha se dado por vencido. Tinha que acabar com a raça de Syaoran Li ou nunca poderia voltar para seu tempo e encarar seu pai. Empunhou a espada novamente em direção a Li.

‘Sem truques. Só eu e você.’ Takeda falou.

‘Não confio em você.’ Foi a resposta de Li empunhando sua espada.

‘Confie no meu ódio por você.’

Bom argumento, pensou Li. O mago voltou a atacar o chinês, novamente as lâminas se atingiram com força. Takeda deixou a direita aberta, Li não hesitou em atingi-lo com uma joelhada, virar o corpo e bater com força no rosto do inimigo com o punho da espada, provavelmente quebrando alguns dentes. Takeda acumulou energia nas mãos, desferindo-a na altura do abdômen de Li empurrando-o para trás. O rapaz teve que cravar a espada na terra para poder parar. Arrancou a arma do chão e puxou um dos seus talismãs.

‘Eu invoco o Deus Trovão, com a máxima urgência, de acordo com o pacto estabelecido. Ataque relâmpago!’

O inimigo do futuro foi atingido com tudo pela poderosa magia do feiticeiro. Gritou de dor e caiu ainda se contorcendo no chão.

Syaoran não teve tempo para relaxar, pois, novamente, Mirena o atingiu pelas costas. Caiu no chão sentindo-se fraco. Droga! Tinha se esquecido da outra louca. Isso é que dava ficar com a cabeça quente. Cuspiu sangue e limpou a boca com as costas da mão. Tinha que dar um jeito. Levantou-se.

Mirena o encarava e não podia negar que tremia por dentro ao perceber que a aura do rapaz aumentava proporcionalmente ao nervosismo dele.

Entre magia e luta, Li sempre preferiu a luta, mas contra a mulher sabia que teria que sair da sua zona de conforto. Ergueu o corpo sentindo todos os músculos reclamarem de dor. Desviou os olhos rapidamente para Sakura que observava a tudo com o rosto assustado. Sentiu a presença da sua versão mais jovem se aproximando. Não tinha outro jeito; se o moleque era teimoso como ele, não dava mais para hesitar como na primeira vez. Levantou o talismã na altura do rosto e fechou os olhos. Embaixo de seus pés a mandala mágica em forma de octógono baguá com o simbolo do Yin-Yang ao centro brilhou.

‘Metal, Madeira, Água, Fogo, Terra... Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas... Eu vos invoco para meu auxílio.’ Raios mágicos vindo do céus, terra, das árvores, do lago, do sol concentraram-se circulando o corpo do rapaz como redemoinho. Li abriu os olhos. ‘Agora!’ Gritou fazendo a energia explodir.

Mirena foi atingida de forma certeira pela magia de Li e a menina Sakura foi finalmente libertada, caindo no chão desacordada.

O menino correu até ela e a abraçou com força enquanto sentia pedras e galhos de árvores voando para todos os lados, alguns batendo neles. Percebeu quando um escudo mágico circulou os dois, protegendo-os. Ele mal conseguia abrir os olhos pela forte luz, apenas ouvia todos os objetos batendo com força no escudo. O clarão finalizou, dando lugar a um silêncio fora do normal.

Li caiu de joelhos no chão. Fora loucura o que fez. Mais um pouco e não conseguiria controlar sua própria magia. Abriu os olhos e viu duas gotas de sangue pingarem na terra. Não sabia de que ferimento do rosto elas tinham vindo. Tentou controlar a respiração. Levantou o rosto observando o escudo mágico em torno das duas crianças, franziu a testa e se virou, reconhecendo os três vultos que estavam mais adiante, escondidos, mas prontos para intervirem caso fosse necessário. Reparou pelo rosto de menino de Hiiraguizawa que ele estava desconcertado com o que tinha acontecido. Seus dois guardiões estavam em suas formas originais atrás de seu mestre. Li levantou e cumprimentou-os rapidamente.

Eriol engoliu em seco, desfez o escudo mágico que havia levantado para proteger as duas crianças e desapareceu. Sabia que não era hora de surgir ainda na vida deles.

O rapaz respirou fundo e voltou-se para onde estava a namorada. Ela estava ainda no chão sentada. Estava fraca, mas não desacordada como sua versão mais nova. A jovem feiticeira se levantou com dificuldade, o cetro agora ajudava-a ficar em pé. As duas esmeraldas estavam cravadas nos olhos dele, sabendo toda a tormenta que estava passando pela cabeça do rapaz.

Li largou a espada suja de sangue no chão, assim como ela largou o cetro. Correram um para o outro de forma cambaleante para finalmente se abraçarem. Syaoran segurava o corpo fraco na namorada para ela não cair. Queria beijá-la, mas sabia que a respiração da jovem ainda não estava estabelecida. Deus! Como ele tivera medo de perdê-la.

‘Eu te amo.’ Ele sussurrou ao ouvido da amada, finalmente deixando a adrenalina da luta abaixar. Sentiu Sakura abraçá-lo com mais força, sabia que era o que a jovem também gostaria de dizer se conseguisse.

O menino observou os dois abraçados. A energia do rapaz era fenomenal, pensou para si. Olhou em volta e nem sinal de Takeda e de Mirena. Teriam morrido? Teriam voltado para o tempo deles? Um vento mais forte fez as copas das árvores do bosque de Tomoeda balançarem e folhas voarem pelos ares. Pensou nos inimigos que teria que enfrentar no futuro; naquela hora, com sua Sakura em seus braços, frágil, delicada, jurou que nunca permitiria que fizessem mal a ela. Se tinha alguma dúvida de que enfrentaria o treinamento do Clã, agora só existia certeza. Certeza de que faria tudo para se tornar o mais forte e defender quem mais amava. Naquele momento decidiu fazer o treinamento, mesmo sabendo que estaria entrando num inferno.

Li abriu os olhos e encarou o menino, que observava os dois, segurando a menina nos braços. Viu-o fazendo um gesto com a cabeça e soube exatamente o que ele estava decidindo. Apertou mais forte sua Sakura contra seu peito.

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Sakura estava ao lado de Li enquanto a senhora Mizuki, novamente, cuidava dos ferimentos do rapaz. Ele estava deitado em uma cama, dormindo ou desmaiado, a jovem não sabia dizer ao certo. Li estava com tantos ferimentos que a jovem sentia-se revoltada com sua incapacidade de protegê-lo. ‘Inferno.’ Ela soltou revoltada.

A Senhora Mizuki desviou os olhos do que estava fazendo e olhou de esguelha para a jovem que estava pronta para explodir.

Tinha exigido que as crianças ficassem em suas casas e não a atrapalhassem agora. Fora até mais dura com elas do que era necessário. Mas não teve como se controlar. Ali estava ela, limpando as bandagens e tentando ajudar no que podia junto da velha senhora, porque não podiam ir para um hospital. ‘Ele tem sempre que resolver tudo, sozinho.’ Não falou para a senhora ouvir, falou como desabafo por não aguentar mais aquele posto de donzela em perigo em que o namorado a tinha colocado. Preferia mil vezes ser ela a estar no lugar dele.

‘Ele também pensa a mesma coisa.’ A voz da senhora a assustou. ‘Se fosse você aqui, tenho certeza que ele estaria pensando a mesma coisa.’

‘Consegue ler pensamentos?’ Era palpável sua irritação.

‘Às vezes, mas no seu caso, não foi necessário.’ Ela falou sorrindo e voltando a prestar atenção na limpeza e sutura dos ferimentos de Li . ‘Você é transparente demais. Como um lindo diamante.’

‘O diamante é um dos materiais mais resistente do mundo, senhora. Syaoran tem que perceber que eu não vou quebrar à toa.’

A senhora sorriu com a colocação da jovem. ‘Não se preocupe, senhorita Kinomoto. Você terá uma excelente oportunidade de provar isso para ele assim que voltarem.’

‘A tal história do caos?!’ Ela falou para senhora. Aquela velha bruxa sabia de tudo, não importava em qual época estivessem. ‘Aquela vaca do futuro me falou que ele morre!’ Disse esperando desesperadamente que a senhora desmentisse, mas o que recebeu como resposta foi o incômodo silêncio. ‘Ele morre?’ Perguntou, segurando o pulso da senhora.

‘A profecia...’ Ela começou a tentar responder.

‘Que se dane a profecia!’ Explodiu.

A senhora encarou a jovem e tentou passar para ela toda a tranquilidade que poderia. ‘Kinomoto, é melhor a senhorita esperar lá fora até eu finalizar isso aqui. É o melhor.’

‘Não.’ Ela respondeu soltando o pulso dela. ‘Desculpe-me. Por favor... continue... vou ajudar.’ Disse voltando a pegar mais gazes.

‘Também deveria se cuidar. Sua aura ainda está muito fraca. Você quase morreu asfixiada.’

‘Eu estou bem.’

‘Precisa se recuperar para conseguir usar magia e voltarem ao tempo certo de vocês.’ Insistiu, fazendo a jovem trincar os dentes.

‘Eu já disse que estou bem.’

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Syaoran abriu os olhos devagar. Sentia todos os músculos do corpo doloridos. Suspirou, sentindo dificuldade para fazer até isso. Os dois malucos do futuro tinham lhe dado uma surra feia. Aqueles lobisomens, vampiros e coisa e tal não eram lá grande coisa comparada com o que tinha vindo do futuro. Pensou que daqui para frente a coisa poderia se complicar, sentia isso. Sabia que aquilo era apenas o começo. Como seria o fim? Ele não tinha uma boa sensação e sabia disso.

Tentou se levantar, mas sentiu ainda o abdômen doer, segurou-se ao colchão e puxou o corpo para finalmente conseguir ficar sentado na cama. Franziu a testa olhando para os lados, estavam ainda na casa da senhora Mizuki. Tinha caminhado com Sakura até lá, depois de exigir que sua versão mais nova levasse a menina ainda desacorda para a casa dela. A última coisa de que se lembrava era entrar na casa, ir até a cama e... Mais nada. Não sabia se realmente perdeu os sentidos ou se a velha o fez tomar alguma coisa para isso. Estava exausto. Usar magia para ele não era como para Sakura, exigia bastante da sua energia vital, principalmente magias mais devastadoras.

Sakura entrou no quarto quase o invadindo, provavelmente percebera, pela presença dele, que finalmente havia acordado. Sorriu de leve tentando passar confiança de que estava bem. Ela correu até a cama, ajoelhou-se e abraçou a cintura do rapaz repousando sua cabeça no colo dele. Ele levantou a mão passando nos cabelos compridos e sedosos de sua namorada. Ele percebeu que a aura dela estava forte. Já tinha se restabelecido da tentativa de asfixia. Ficaram assim por alguns minutos até a ruiva se afastar dele e sentar na cama a sua frente.

‘Como você está?’

‘Bem... na medida do possível.’

‘Você dormiu por três dias seguidos.’ Ela informou, assustando-o.

‘Três?’ Perguntou não por dúvida, mas por susto ao constatar que estava mais ferido do que realmente pensara. ‘Droga.’

Sakura repousou a mão no ombro são do namorado chamando a atenção dele. ‘Você me assustou. Pensei que eu o perderia e eu morreria se isso acontecesse, Syaoran.’ Ela falou com sinceridade.

‘Eu também morreria se algo acontecesse contigo, Sakura.’ Ele respirou fundo e tentou se levantar, mas foi impedido pela jovem.

‘Calma... vai com calma agora.’

‘Estamos aqui há muito tempo.’ Ele explicou sua pressa. ‘Retorno é uma carta perigosa depois que se passam 72 horas. Precisamos voltar logo.’

‘Não.’ Ela falou ainda segurando-o pelo ombro. ‘Isso era quando ela era uma carta Clow. Agora ela não é mais.’

Li franziu a testa. ‘Do que está falando?’

‘Eu consigo controlá-la por mais tempo. Não se preocupe. Você precisa se recuperar primeiro. Vamos amanhã.’

‘Não. É perigoso.’

Sakura soltou um longo suspiro. Teria que ser assertiva como foi com as crianças. Levantou da cama caminhando em direção a jarra de água e enchendo um copo para oferecer a Syaoran que aceitou sem desviar os olhos da namorada. Ele bebeu tudo devagar e repousou o copo na mesa de cabeceira.

‘Se eu quiser, prendo-o aqui para sempre. Agora você fica frio e vamos embora apenas quando eu achar que devemos.’

Li franziu a testa. ‘Isso não está em discussão, nós...’

‘Vamos ficar aqui até amanhã.’ Ela o interrompeu olhando seriamente para ele. ‘Não tem como me obrigar a usar a carta. Então relaxa e fica frio.’ Falou inclinando o corpo e parando seu rosto a centímetros do namorado. ‘Entendeu?’

Syaoran franziu a testa, Sakura realmente estava bem mudada. Agia por conta própria e mostrava uma autoconfiança que em pouco se parecia com a menina que eles tinham salvado de ser asfixiada. Ele sempre soube do potencial da jovem como Feiticeira, mas o mais importante, além de ter o dom, era ter a autoconfiança. A magia e o feiticeiro tinham que ser como um só elemento para poderem expandir. Ela tinha colocado a questão por uma percepção diferente e correta: Ele conhecia Retorno pelas suas aulas de magia como uma carta Clow, não como uma carta Sakura.

‘Ficar frio...’ Ele repetiu sem desviar os olhos dela, levantou o braço e pegou a nuca da jovem, segurando-a e puxando-a sobre si. Sakura rolou sobre o corpo dele e caiu de costas na cama. Li debruçou-se sobre ela. ‘Fica meio difícil ficar frio com você tão perto de mim.’ Falou ao ouvido dela e a sentiu estremecer.

‘Você acabou de acordar, Syaoran Li. Não está em condições físicas para isso.’ Falou sorrindo.

‘Não tenho tanta certeza disto.’ Falou beijando o pescoço da jovem.

‘O senhor Taniguchi sempre nos falou para sermos comedidos.’ Ela sussurrou

‘Aquele velho não sabe de nada.’ Falou começando a levantar a blusa da namorada.

Ouviram alguém pigarrear à porta e pararam o que estavam prestes a fazer. Sakura abriu os olhos, não precisava nem se ver no espelho para saber que deveria estar mais vermelha que um tomate maduro. Olharam para a porta por onde a boa senhora Mizuki entrava com uma bandeja de comida, provavelmente para ele. Li suspirou desanimado, sentando-se com dificuldade e afastando-se da jovem.

‘Desculpe interromper os dois pombinhos, mas o senhor está há três dias sem nada sólido no estômago. Antes de dar uma de garanhão, é melhor se recuperar.’ Ela falou cruzando o quarto e colocando na mesa a bandeja com o prato esfumaçante. ‘Se já estava bom para fazer isso com a senhorita Kinomoto, acho que já consegue se levantar até aqui para comer, não?’ Voltou-se para ele sorrindo.

Syaoran concordou e levantou-se devagar. Sakura estava sentada na cama observando-o. Ele caminhou até a senhora que puxou a cadeira para que se sentasse. ‘Obrigado.’ Ele agradeceu sinceramente.

‘É o mínimo que eu posso fazer pelo senhor’. Ela respondeu. ‘Espero que a sopa esteja de seu agrado.’

Na verdade não estava com fome, mas não tinha como recusar o que a senhora estava oferecendo. E ela tinha razão, tinha ficado muito tempo sem comer. Sakura assistia ao namorado comer, um pouco a contragosto, a sopa de legumes.

‘Acho que a senhorita também deveria começar a se alimentar melhor.’ A senhora falou olhando para Sakura. ‘Não adianta nada ficar apenas olhando-o comer se também mal colocou alguma coisa no estômago este tempo todo.’

A jovem rolou os olhos. A senhora tinha insistido para que ela comesse direito durante os últimos três dias, mas o que a jovem tinha feito era só ficar dentro da casa como um animal enjaulado. Foi à rua apenas para comprar os curativos e remédios que a senhora havia pedido. As crianças tinham aparecido ontem para ver como Li estava. A versão mirim do namorado estava bem nervosa para saber se Syaoran estava bem ou não. O mais intrigante foi perceber a preocupação da sua própria versão infantil também. Até mesmo Touya, Yue e Kerberus apareceram. Os guardiões estavam preocupados com o tempo que eles estavam ali, pois, como Syaoran mesmo tinha colocado, já haviam se passado 72 horas.

No entanto, ela sabia que Li precisava de mais tempo para se recuperar, então agora era a vez dela sair da sua zona de conforto e explorar os limites de sua magia. Sabia que conseguiria. Confiava em si.

‘O que vocês vão fazer a respeito das crianças?’ A senhora Mizuki perguntou chamando a atenção dos dois jovens.

‘Como assim?’ Sakura falou franzindo a testa.

‘A vinda de vocês aqui afetará o futuro delas… isto é, de vocês.’ A senhora tentou explicar.

Sakura e Syaoran se entreolharam.

‘Tentamos não interferir na vida deles.’ Sakura falou. ‘Não falamos nada comprometedor.’

A senhora sorriu para ela docemente. ‘Vocês não conseguem disfarçar que estão em um relacionamento.’

‘Eles não desconfiaram de nada.’ Sakura disse nervosa. O que aquela senhora estava sugerindo? Que ela usasse magia nela mesma? Isso era absurdo.

‘Hum…’ Syaoran murmurou e respirou fundo. ‘Acho que ela tem razão. Eu fui um garoto muito atrevido. Sem contar que perdemos a cautela e usamos magia na frente de todo mundo. Talvez Apagar funcionasse para suprimir as memórias deles e dos demais que nos viram.’

Sakura semicerrou os olhos no namorado que se ajeitou na cadeira incomodado. ‘Depois de encher o meu saco para não falar nada, quem acabou dando com a língua nos dentes foi você?’

‘Hei! Eu não falei nada, mas o garoto não é tão tonto como a garota.’

‘Você está me chamando de tonta?’ Sakura perguntou com a voz perigosamente baixa.

Ele engoliu em seco. ‘Um pouco.’ Ele vi o rosto da namorada se contorcer. ‘Mas você não pode negar que era bem tonta mesmo. Eu tive que me declarar primeiro e você ainda demorou um bom tempo para me responder.’

‘Hã…’ A senhora Mizuki chamou a atenção dos dois. ‘Isso é uma decisão de vocês, mas saibam que, com certeza, a vinda de vocês terá desdobramentos no futuro.’

‘Eu me recuso a usar magia em mim mesma. Isso é um absurdo.’ Sakura falou cruzando os braços. ‘Eles não viram nada de comprometedor entre nós. Não têm porque desconfiarem de nada.’ Ela sentenciou e olhou para o namorado. ‘A não ser que o senhor tenha falado alguma coisa para o garoto.’

‘Eu não fiz isso.’ Ele repetiu olhando-a seriamente. Era bem teimosa sua namorada.

‘Ótimo.’ Sakura falou. ‘Então o assunto terminou aqui.’ Falou com tom de quem não admitiria mais ser questionada sobre isso. A senhora Mizuki deu de ombros. A decisão era deles.

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‘Você está bem mesmo?’ Li ouviu a voz da menina perguntando pela segunda vez a mesma coisa. Reafirmou com um gesto da cabeça que sim para Sakura, aos seus onze anos de idade, que estava parada a sua frente. O combinado era eles não se verem mais depois que a ameaça Takeda e Mirena deixasse de existir, no entanto as duas crianças, com Tomoyo, eram muito insistentes.

A menina olhava para ele com os olhos fixos, deixando-o, até certo ponto, encabulado. Estava sentado numa das poltronas da sala da senhora Mizuki. Sua namorada estava na cozinha com a dona da casa preparando alguma coisa para comerem enquanto as três crianças com Kero estavam ali rodeando-o. Não tinha muito jeito com crianças, na verdade mal tinha contato com elas. Tinha uns seis sobrinhos, mas, verdade seja dita, mal os via.

‘Você podia ter morrido.’ O menino falou sério. Ah, que maravilha, recebeu um sermão de Sakura quando acordara e agora completava o ciclo bizarro com um sermão de sua versão fedelha.

‘Tinha que arriscar.’ Respondeu simplesmente, vendo a namorada entrar na sala. A senhora Mizuki recomendara que Sakura fosse até a sala, sabendo que as crianças deveriam estar enchendo Syaoran de perguntas.

Sakura menina olhou para seu amigo de caçadas, tinha o rosto sério. ‘Você não se arrisque desta maneira, está me ouvindo?’

O menino arregalou os olhos. ‘Bem...’ não sabia muito o que falar.

Syaoran não teve com não rir. “Sai desta agora, garotão.” Pensou para si.

‘Nada disso, Syaoran! Você não pode se arriscar assim.’ A menina insistiu, deixando o garoto desconcertado. Era a primeira vez que a menina era assertiva com ele.

“Vai se acostumando.” Li pensou novamente, olhando de esguelha para a ruiva ao seu lado. “Depois, piora.” Estava se divertindo vendo-se mais novo em uma situação tão familiar. Nunca tinha reparado neste lado mais, como dizer de forma correta? Impositivo da namorada. “Se fraquejar agora, já era.”

‘Para com isso, Sakura. Quem não deve se arriscar é você. Eu sei o que faço.’ O menino falou já incomodado.

‘Humph…’ Sakura cruzou os braços, franzindo a testa ao observar a interação das crianças.

“Boa, garoto”. O rapaz pensou sorrindo de leve e encarando a namorada. ‘Então você sempre foi mandona…’ comentou, fazendo-a esboçar um sorriso debochado.

'E você, petulante.’ Ela respondeu, fazendo-o gargalhar. A familiaridade entre eles, deixando as crianças levemente espantadas.

A senhora Mizuki apareceu com a bandeja de chá e alguns bolinhos para todos. Kero avançou nas gulodices, mal controlando a ansiedade. Tomoyo estava um pouco desanimada, tinha trazido sua hiper, mega, power câmera para filmar Li e Sakura mais velhos, o que foi terminantemente proibido. Argumentou que isso seria censura à liberdade de imprensa, mas não teve um resultado favorável à sua cobertura futurista.

Sakura serviu uma xícara para Syaoran e entregou a ele, que agradeceu. Não tinham como disfarçarem os sorrisos aliviados por tudo ter terminado, de certa forma, bem. Tomoyo observava a tudo enquanto os quatro, mais a senhora, conversavam sobre como um pandemônio havia se instalado na cidade com as notícias de um maluco terrorista na escola Tomoeda e sobre um tufão que atingiu o bosque derrubando várias árvores de uma só vez e depois desaparecendo do nada.

A morena percebeu que a jovem ruiva, depois que se serviu de chá, sentou-se no braço da poltrona onde o rapaz estava sentado. Era mais que cumplicidade de amigos ou companheiros de magia.

‘Sabe, vocês fazem um casal lindo. Não acha, senhora Mizuki?’ A esperta menina falou do nada, fitando intensamente o casal de namorados que, quase deixou cair as xícaras de chá que tinham nas mãos. Talvez, mais desconcertados que os dois jovens, estavam as duas crianças que estavam sentadas no sofá ao lado de Tomoyo.

A senhora Mizuki só ria sem responder nada, mas realmente os dois jovens pombinhos não estavam conseguindo ser muito discretos, já os tinha alertado sobre isso. A juventude é muito imprudente, pensava ela de forma divertida.

‘Tomoyo...’ A prima sussurrou ao seu lado, mais vermelha que tomate maduro olhando para os joelhos e sem conseguir encarar o amigo ao seu lado.

Sakura e Syaoran entreolharam-se e depois fitaram suas versões mirins completamente envergonhados. Tomoyo ainda sorria para eles como se soubesse de tudo. Li ponderou que realmente a amiga de infância era por demais observadora.

Kero olhou para os dois e depois engoliu um biscoito inteiro. ‘Você tem muita imaginação, Tomoyo!’

‘Eu acho que não.’ Tomoyo falou ainda sorrindo.

Syaoran pigarreou. ‘Acho que já está tarde.’

‘Exatamente.’ A jovem Feiticeira concordou. ‘Bem, vocês têm que voltar para casa.’ Falou levantando-se e praticamente expulsando as crianças e Kero.

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O menino Syaoran caminhava devagar em direção à escola Tomoeda. Hoje ele e Sakura eram responsáveis pela limpeza da sala de aula. Sabia que estava chegando mais cedo, mas simplesmente não havia conseguido dormir direito. Ainda não conseguia acreditar no que tinha visto. Será que ele tinha matado duas pessoas? Balançou a cabeça tentando dissipar aqueles pensamentos. Sua versão mais velha quase morreu na frente dele. Será que teria mais inimigos como aqueles? Franziu a testa pensando que o futuro não se mostrava muito bom para ele nem para Sakura. Sentiu um calafrio percorrer a espinha.

Estava enrolando muito os anciões do seu clã para voltar para China. Depois que perdeu as cartas para Sakura no Juízo Final, esperavam que ele ou voltasse ou tentasse recuperá-las, isto é, que literalmente tirasse as cartas de Sakura. O mero pensamento era inadmissível para ele.

Ele queria permanecer no Japão para ajudá-la. Ele sabia que tinha alguma coisa ou alguém por trás dos acontecimentos estranhos que obrigavam a menina a transformar as Cartas. Ele tinha que saber quem era.

O garoto parou em frente ao portão da escola. Ainda estava fechado. Respirou fundo. ‘Ele não tem o direito de não me contar.’ resmungou, referindo-se a sua versão mais velha. ‘Eu vou arrancar isso dele.’ Decidiu e virou-se, pronto já para correr em direção a casa da senhora Mizuki e encontrar sua versão mais velha, quando esbarrou forte em Sakura. Foi obrigado a segurar o pulso da menina, senão ela cairia no chão.

‘Oh! Desculpa.’ Ela falou, levantando os olhos e fitando o rosto do garoto. Ele ainda a segurava pela mão quando se olharam profundamente. Ficaram vermelhos e afastaram-se, desviando os olhos um do outro.

‘Você chegou cedo...’ O menina começou a falar tímida.

‘Eu fiquei sem sono.’ Ele respondeu. Olhou para ela. ‘Você também chegou muito cedo.’

Ela suspirou. ‘Não tive uma boa noite.’ Ela respondeu. ‘Tive muitos sonhos.’ Falou balançando a cabeça de leve. ‘Mas não consigo entendê-los.’

Voltaram a ficar em silêncio, sem se encararem.

A menina olhou de esguelha para o garoto e lembrou do comentário de Tomoyo. Corou mais ainda. Apertou as mãos de leve, mostrando-se nervosa agora na presença dele, principalmente estando sozinhos.

‘Eu…’ O menino começou a falar, quebrando o incômodo silêncio entre os dois. ‘Eu vou fazer uma coisa agora… vou chegar um pouco atrasado, você pode começar a limpeza sem mim? Depois eu compenso no final do dia.’ Ele falou sem encará-la.

‘Mas você já está aqui.’ Ela disse sem entender. ‘Você está bem? Aconteceu alguma coisa?’

‘Eu vou falar com eles. De novo.’ Syaoran levantou o rosto encarando-a. ‘Eles precisam nos dizer o que está por trás destes acontecimentos estranhos. Esta presença do mago Clow. Nós precisamos saber e, se eles têm a resposta, precisam nos dizer.’ O menino falou sério.

Sakura arregalou os olhos. Mostrava-se indecisa. ‘Mas… Syaoran… Eles já disseram que não vão nos contar nada.’

‘Eu vou arrancar a resposta dele então.’ Falou decidido voltando a caminhar em direção a casa da senhora. ‘Até.’ Despediu-se e saiu correndo.

‘Hei, Syaoran! Espera!’ Ela ainda tentou deter o garoto que se afastava rapidamente. Franziu a testa, pensando que isso não terminaria bem. Começou a correr atrás do menino.

Syaoran correu o mais rápido que pôde. Tinha ouvido ontem que eles voltariam para o futuro pela manhã bem cedo. Estava com receio de não dar tempo. As ruas estavam vazias, então não precisava se desviar de muitas pessoas. Virou à direita, entrando na rua do templo Tsukimine e estaqueou vendo o casal entrar no templo. Sua respiração era ofegante pela corrida. Balançou a cabeça, pensando que devia ter visto errado, porque teve impressão de que os dois estavam de mãos dadas.

Foi dar um passo a frente e ouviu lhe chamarem. Virou-se para trás e viu Sakura correndo em direção a ele. Ela parou na frente dele com a respiração ofegante.

‘Você corre rápido demais.’ Ela disse com a voz entrecortada pelo esforço físico.

‘Eles entraram no templo.’ O menino falou apontando para a entrada.

Sakura levantou o rosto e o encarou. ‘Acho que não é uma boa ideia, Syaoran. Ela…’ Falou referindo-se a ela mesma mais velha. ‘... me falou que não podemos saber do nosso futuro, pois isso causaria problemas.’

‘Ele me disse a mesma coisa.’ O menino falou irritado. ‘Mas não vamos perguntar nada do futuro, apenas pelos acontecimentos estranhos de agora.’

‘Mas e se eles não quiserem nos dizer?’

‘Eu arranco dele a resposta.’ O menino repetiu decidido. ‘Ele não tem o direito de me esconder nada.’

‘Ele é forte demais, Syaoran.’ A garota falou. ‘Ele pode te machucar.’

‘Ele sou eu, não pode fazer nada contra mim.’ O menino falou e viu a menina ficar corada.

Sakura desviou os olhos dele novamente. ‘Acho que eles vão brigar com a gente.’

‘Não importa.’ Syaoran falou decidido e pôs-se a caminho do templo. Já tinha perdido muito tempo naquela conversa com Sakura. Os dois poderiam já ter invocado magia para voltar ao tempo deles.

Sakura foi atrás do amigo. Realmente estava com receio que acontecesse alguma coisa com ele. Suas versões adultas eram muito sérias e tinham muito mais poder do que quaisquer adversários que ela e Syaoran já enfrentaram. E eles também eram bem mais severos do que conseguia compreender.

O templo tinha muita magia, o que dificultava que as duas crianças encontrassem as presenças deles mais velhos. Começaram a caminhar devagar olhando para os lados.

‘Acho que eles já foram.’ Sakura falou aliviada.

‘Talvez estejam perto da árvore sagrada.’ Ele comentou já se direcionando para lá.

Os dois olhavam para os lados tentando achar o casal de Feiticeiros do futuro. Até que Syaoran parou de repente. Sakura observou o amigo e voltou-se para onde ele olhava com tanta intensidade. Arregalou os olhos sentindo o coração bater tão rápido que parecia querer sair do peito. Suas bochechas ficaram quentes, indicando que estavam, com certeza, vermelhas.

A poucos metros dos dois estava o casal de Feiticeiros... E eles estavam se beijando.

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Sakura e Li caminhavam devagar pelo templo Tsukimine. Estavam de mãos dadas porque imaginavam que não seriam surpreendidos por ninguém. Tinham dormido na casa da senhora Mizuki e, quando acordaram, Li convenceu a namorada que já estava 100% recuperado. Eles agradeceram exaustivamente a boa senhora que tinha sido o refúgio dos dois naquele tempo ao qual não pertenciam. Aquela pequena casa branca transmitia muita paz para ele, gostou de estar lá e, verdade seja dita, sentiu que sua recuperação tinha sido facilitada por, além de várias poções misturadas à comida, muita energia boa circulando o lugar.

Ele estava preocupado não só com o tempo que estavam usando Retorno, como também em como estariam todos no tempo certo deles. Da última vez que desaparecera, Meilyn e Hyo Ling apareceram, só faltava agora chegar e dar de cara com os anciãos todos esperando por ele. Tinha planos para sair do Clã, mas precisava primeiro resolver as coisas em Tomoeda. Uma guerra de cada vez. Pelo menos a próxima seria contra inimigos humanos e não sobrenaturais.

Pararam em frente à árvore sagrada, era realmente maravilhosa. Emitia uma pálida aura dourada que transmitia muita paz e tranquilidade.

‘Sabe... foi aqui por perto que você se declarou para mim.’ A jovem falou, sorrindo e beijando a face do namorado.

Ele olhou e pensou um pouco. ‘Ah, sim... foi por aqui que você transformou as duas últimas Cartas Clow.’

‘Eu não teria conseguido se não fosse sua ajuda.’

‘Teria sim. Você daria um jeito.’ Ele retrucou, sabia que ela era mais forte do que até ele mesmo acreditava. Ela balançou a cabeça negando.

‘Não. Você é o que me apoia na magia, Syaoran.’

Ele sorriu voltando a caminhar e puxando a namorada mais para perto de si. Repousou a mão na cintura fina da bela jovem que Sakura havia se transformado. ‘E quem me mostrou que existiam coisas mais importantes, muito além da força e da magia, foi você.’

Sorriram um para o outro.

‘Wǒ ài nǐ’ (Eu amo você). Ela falou de repente ficando vermelha. Tinha treinado já há algum tempo e achou que não havia lugar melhor para falar aquilo para ele. No mesmo lugar que ele tinha lhe dito pela primeira vez que a amava.

‘Hã?’ O rapaz a fitou interrogativo.

Ela repetiu cerrando os punhos. ‘Wǒ... ài... nǐ’ (Eu amo você). Esperando que agora ele conseguisse entender.

Li riu deixando-a mais envergonhada. ‘Não... a pronúncia está errada...’ Ele a enlaçou pela cintura e pronunciou devagar. Ela repetiu e depois de umas três tentativas o rapaz sentiu-se satisfeito. ‘Está melhor.’

Ela ficou com a cara brava. ‘Assim não valeu.’

‘Ficou linda falando mandarim. Posso lhe dar umas aulas.’

Sakura abriu um sorriso. ‘Mesmo?’ Ele confirmou com a cabeça. Adorou saber que ela gostaria de falar sua língua mãe.

‘Nǐ shì měilì de’ (Você é linda) Syaoran falou ao ouvido dela com a voz rouca. Ela não sabia o que significava, mas sentiu um formigamento gostoso na altura do ventre. ‘Wǒ xiǎng yǒngyuǎn hé nǐ zài yīqǐ’(Quero estar com você para sempre).

‘As aulas vão ser assim?’ Ela perguntou sentindo-o beijar seu pescoço.

‘Podem ser na cama, se você quiser.’ Falou de forma maliciosa, fazendo a jovem voltar a ficar vermelha.

‘Então vou querer aulas todas as noites...’ Respondeu beijando o rosto do chinês.

‘Wǒ wánquán fúhé nǐ de ài’ (Eu estou completamente apaixonado por você) Declarou-se antes de beijar a jovem nos lábios que retribuiu prontamente.

Afastaram-se sorrindo um para o outro. Li ainda tinha a cintura da jovem presa por suas mãos e ela tinha o pescoço dele entrelaçado. Sakura viu o rapaz desviar os olhos dela e fechar o sorriso.

‘Droga.’ Ele murmurou, soltando a jovem e dando um passo para trás. Mostrava-se irritado.

‘O que foi?’ Sakura perguntou não entendendo a atitude do namorado. Ele fez um gesto com a cabeça. A jovem voltou-se para trás e viu as duas crianças olhando assustadas para eles.

‘Ah, Deus.’ Soltou levando as mãos aos lábios que ainda estavam inchados pelo beijo ardente que trocou com Li, na frente deles.

‘Eles nos viram.’ Syaoran informou o óbvio, vendo as duas crianças completamente envergonhadas.

Sakura cravou seus olhos na menina que se mostrava em choque. Reparou que desceram duas lágrimas dos olhos dela e sentiu o peito fisgar. Ela estava sofrendo, muito. Reparou que ela olhou para o garoto ao seu lado rapidamente e se encolheu. Droga. Olhou para o namorado que estava segurando a vontade de ir até os dois e dar uma bronca por terem-nos seguido. Eram duas crianças idiotas.

‘Tem que usar magia.’ Ele sentenciou.

‘Não.’ Sakura ainda se mostrava resistente a usar magia contra si mesma e o garoto.

‘Não tem outro jeito.’

‘Tem que ter.’

‘Olhe para ela.’ Syaoran falou, referindo-se a garota que se mostrava completamente desorientada. ‘Ela não tem nem mais coragem de encarar o garoto.’

Sakura mordeu o lábio inferior nervosa. Não sabia o que fazer. Caminhou devagar até a menina e se abaixou tocando um joelho no chão e ficando com o rosto a altura do dela.

‘Hei’ Ela a chamou e a menina levantou o rosto. Fitaram-se profundamente e Sakura pôde ver nos olhos verdes de sua versão infantil toda a confusão e desespero que se passava na cabeça dela. Engoliu em seco ao ver-se daquela forma. Levantou a mão tocando a face dela e tentando secar as lágrimas. ‘Não precisa chorar.’ O menina mordeu o lábio inferior assim como ela fazia até hoje. ‘Eu lhe disse que eu sou muito feliz, não?’ A menina confirmou com a cabeça.

Sakura se viu ainda criança olhando de esguelha para o menino ao seu lado. A menina encolheu mais os ombros ainda mais vermelha se fosse possível. ‘É ele então. A minha pessoa mais importante.’ A jovem confirmou com a cabeça e a viu abrir um pequeno sorriso tentando secar as lágrimas.

‘Mas você vai ter que descobrir sozinha.’ Falou levantando-se e sentiu o namorado parar ao seu lado.

Li viu Sakura criança chorando e sorriu de forma triste. Ela estava completamente perdida, pensou para si. Depois os olhos do rapaz desviaram para o menino que ainda os olhava surpreso.

‘Eu disse que minha namorada era escolha minha, não foi?’ Viu o garoto confirmar com um gesto incapaz de dizer alguma coisa. ‘Não ceda aos velhos. Ela vale a pena.’ Falou para ele.

Sakura e Syaoran entreolharam-se. A jovem tirou a chave do pescoço e deu um passo para trás.

‘Chave que guarda o poder da minha estrela, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós e ofereça-os a valente Sakura que aceitou esta missão. Liberte-se!’

Ela pegou a carta e ainda olhou para as duas crianças. Abaixou o rosto e jogou a lâmina mágica para cima. ‘Apagar!’ Gritou. ‘Apague a memória de todos sobre os eventos causados por aqueles que vieram de outros tempos!’ Ela ordenou com pesar.

O menino ainda resistiu em ser envolvido pela magia de Sakura, a jovem não pôde deixar de perceber o quanto ele era persistente. A carta se manifestou em todos da cidade, fazendo com que as memórias relacionadas a eles e aos inimigos do futuro fossem apagadas.

Ela olhou para o namorado e sorriu de forma triste. Sabia que era a única saída para o impasse, mas mesmo assim, fora dolorido se ver tão desesperada quando criança e tão confusa quanto aos próprios sentimentos. Ela estendeu a mão para ele e Syaoran a segurou, entrelaçando os dedos.

‘Retorno!’

A magia envolveu o casal de feiticeiros que desapareceu do templo deixando as duas crianças nele.

O menino Syaoran balançou a cabeça, observando onde estava. Tudo era silencioso. ‘O-o que estou fazendo aqui?’ Perguntou-se assustado.

‘S-Syaoran.’ Ele ouviu a voz de Sakura ao seu lado.

‘Sakura!’ Ele exclamou. ‘O que você está fazendo aqui também?’

A menina olhava para os lados mostrando-se desconcertada. ‘E-eu não sei.’ Respondeu incerta.

‘Você está chorando?’ Ele perguntou reparando os rastros de lágrimas no rosto dela. ‘Está tudo bem?’ Perguntou preocupado parando em frente a ela.

A menina secou o rosto com as mãos. ‘Acho que sim. Eu não sei… não sei o que aconteceu. Eu estava na frente do colégio…’

‘Sim… eu também.’ O menino respondeu. Ele voltou-se para verificar ao redor. ‘Estamos no templo Tsukimine. Como foi que viemos parar aqui?’

‘Eu não sei.’ Ela respondeu com sinceridade. 'Não sinto a presença do Mago Clow.’

'Também não.’ O menino falou preocupado. Ele franziu a testa. Olhou para Sakura que tinha as mãos no peito. 'Hei, você está bem mesmo?’

Ela balançou a cabeça de leve tentando sorrir. 'Estou com a impressão de que esqueci algo importante.’

'Importante? Como assim? Sobre as cartas?’

Ela balançou novamente a cabeça, fitando-o profundamente. 'Sobre os meus sentimentos.’

Syaoran arregalou os olhos e desviou o olhar dela. Sabia que estava vermelho. 'S-sabe, Sakura… eu queria… eu…’

'Ah, não!’ Ela gritou, de repente, olhando o relógio de pulso. 'Estamos atrasados.’

Ele olhou a hora e trincou os dentes. ‘Droga! Vamos!’ Começou a correr em direção a escola acompanhado por sua amiga Sakura.

Continua.