FEITICEIROS
13 O Senhor do Caos
FEITICEIROS
Por Kath Klein
Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 13
O Senhor do Caos
Sakura abriu os olhos. Estava nervosa, pois sabia que tinha exigido demais de Retorno. Suspirou, pensando que tinha conseguido com que retornassem ao tempo certo, no entanto, ainda sentia o coração pesado com o que havia acontecido antes de deixarem o tempo passado.
‘Você conseguiu.’ Ouviu o namorado falando. ‘Está muito mais forte.’ Elogiou, sinceramente orgulhoso dela.
Ela levantou o rosto e encarou o namorado a sua frente. Ele também tinha o semblante fechado.
‘Agora entendi o porquê naquele dia estávamos no templo do nada.’ Ela falou desviando os olhos dele.
‘É… agora dá para entender.’ O rapaz falou e depois suspirou. Levou uma mão ao machucado do ombro, estava doendo um pouco. Pensou que agora também entendia o porquê de ter aceitado com tanta determinação tudo pelo que passou. No final, foi ele mesmo quem lhe dera a certeza que ela valia a pena.
Ela sorriu de forma triste. 'E lembrei o que eu tinha esquecido de importante.’ Virou o rosto voltando-se para o namorado. ‘Além de entender o motivo de ter recuperado o ânimo.’
'E porque estava chorando.’ Ele observou incomodado. 'Não deve ter sido muito legal para ela… para você.’
Ela percebeu que ele estava desviando os olhos dela. Caminhou até ele, soltou o báculo e o abraçou pela cintura, encostando a cabeça no peito do rapaz.
'Eu estava confusa.’ Falou aconchegando-se ao corpo dele. Syaoran sorriu de leve e a abraçou, encostando o queixo no topo da cabeça da namorada. ‘Eu te amo, Syaoran.’ Ela falou apertando a cintura do rapaz com tanta força que ele pensou por alguns segundos que ela tinha invocado Força. ‘Não me deixe nunca, por favor.’
Ele a apertou mais contra o corpo. ‘Nunca mais a deixarei, Sakura.’ Falou e sentiu a jovem tremer e chorar baixinho. Afastou-a de si e limpou as lágrimas teimosas com os polegares. ‘Acabei de vê-la chorando quando menina, Sakura. Por favor, não chore.’ Ele pediu gentilmente.
A ruiva balançou a cabeça tentando controlar aquela agonia imensa que sentia desde que a maga do futuro tinha lhe falado que ele morreria. Seu cérebro gritava que ela era louca em dar credibilidade a Mirena, mas algo a incomodava.
‘Shiiii.... Está tudo bem...’ O amado lhe falou ainda secando as lágrimas da jovem. ‘Prefiro vê-la sorrindo.’ Falou carinhosamente e conseguiu fazer com que a jovem fizesse uma tentativa, ainda que parcialmente frustrada, de esboçar um sorriso.
‘Se algo acontecer contigo, eu não sei o que será de mim.’
‘Eu também. Não consigo mais ver minha vida sem você, Sakura.’
‘Então estaremos sempre juntos?’ Perguntou abraçando a cintura do rapaz e escondendo seu rosto contra o peito dele. Syaoran a envolveu novamente nos seus braços.
‘Sempre. Sempre estaremos juntos.’
‘Promete?’
‘Claro.’
Era aquilo que ela queria ouvir, mas ainda não conseguia controlar as lágrimas teimosas que saíam de seus olhos. Agarrou as roupas do rapaz, impedindo-o de se afastar dela e permaneceram parados daquela forma por vários minutos.
Subitamente, ouviram um barulho ensurdecedor e se afastaram olhando para cima, por onde um enorme ser alado sobrevoava o céu!
Syaoran franziu a testa. ‘Um dragão?’ Falou afastando-se da jovem e logo materializou sua espada. ‘Mas que droga está acontecendo aqui?’
Sakura secou os olhos com as costas das mãos e estendeu o braço. O báculo mágico voou em direção a sua mestra. Respirou e fitou o namorado. ‘Vamos.’ Falou já saindo correndo para fora do templo seguindo a criatura alada que deu um rasante nos prédios da cidade de Tomoeda cuspindo fogo. As pessoas estavam em pânico. Os dois pararam perto da praça principal e viram vários policiais tentando atirar na fera sem sucesso. O senhor Amizuki estava a ponto de ter um infarto.
O animal voltou-se para eles e encarou o casal. Parecia ser loucura, mas Syaoran estaqueou. Abriu os lábios sentindo o ar lhe faltar nos pulmões. O Animal pousou a frente de todos, amassando viaturas e atingindo pessoas. Sakura gritou em pânico, mas por alguma razão o rapaz não temeu. Estava louco? Engoliu em seco e por alguns instantes conseguiu ver o próprio reflexo pelos olhos negros do gigante. O animal urrou, soltando fogo pela boca em direção ao céu e depois voltou-se para o feiticeiro.
‘Vamos?’ Ele ouviu a namorada chamando e segurando seu braço, mas não conseguiu se mexer. Levantou o braço e o animal se aproximou devagar ainda rosnando e soltando fumaça pelas narinas. Sakura pingava de suor. ‘Por Deus, Syaoran, vamos....’ Falou tentando puxar o braço do namorado em desespero, mas ele simplesmente não se mexia.
‘Você....’ O animal sussurrou antes de levantar a cabeça e acumular energia explosiva na boca, abaixou e disparou tudo contra o casal.
‘Escudo!’ Sakura gritou em desespero protegendo tanto ela quanto Syaoran. Voltaram a ser envolvidos em chamas mágicas. O báculo mágico escorregava das mãos da feiticeira com o calor infernal. ‘Acorda, Syaoran!!!’ Gritou para o namorado que finalmente saiu do transe. Ele sacudiu a cabeça e fitou a namorada. O ataque da fera acabou e as chamas finalizaram. O escudo de Sakura tinha resistido.
‘As quatro direções dos poderes sagrados. Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas que dominam os cinco elementos. Exijo que venham ao meu auxílio agora.’ A aura do rapaz explodiu fazendo Sakura cobrir o rosto com as mãos. Ele empunhou a espada e correu na direção do animal, abaixou apenas para buscar impulso e pulou na direção dele. ‘Ataque Relâmpago!’ A carga elétrica desceu do céu atingindo a espada do rapaz e refletindo direto na enorme fera que estava combatendo.
Sakura franziu a testa observando o animal urrar de dor pelo ataque, mas só isso não seria suficiente. ‘Grande! Espada!’ A feiticeira jogou as duas cartas e seu corpo pequeno foi aumentando, aumentando, até ficar do tamanho do grande animal. Syaoran olhou admirado para a figura da namorada multiplicada por quase 10 vezes.
‘Agora é comigo, bicho feio.’ Falou desviando do ataque do dragão que tentou literalmente abocanhá-la. Atingiu a cabeça da fera com a espada também gigantesca.
O animal recuou observando a oponente. Syaoran estava na cobertura de um prédio observando os dois. Ele pulou no ombro da namorada sabendo que ali ela poderia ouvi-lo. ‘Tem que atingi-lo primeiro no olho direito e depois no coração.’
‘Certo.’ Ela respondeu apontando a espada na direção do monstro e pronta para o ataque, depois perguntaria para o namorado de onde ele sabia isso tudo.
O animal levantou voo e tentou mais um ataque contra a feiticeira que arregalou os olhos e abaixou o corpo, desviando da rajada de fogo.
‘Salto!’ Pulou desviando do segundo ataque e pousando nas costas do animal que voava enquanto se contorcia para tirar a feiticeira de suas costas. Ela abraçou o pescoço do animal que girava de forma louca pelos céus de Tomoeda. Não tinha nem mais ideia de onde estava Li.
O animal bateu em alguns prédios, tentando fazer com que que a jovem se soltasse dele. Ela sentiu o forte impacto, mas não soltou. Daquele jeito não conseguiria atingir o animal e acabariam destruindo toda a cidade.Numa pirueta louca, finalmente o animal conseguiu fazer com que Sakura o soltasse.
‘Vento!’ O corpo da feiticeira foi envolvido pelas rajadas fazendo-a pairar no ar. Ela encarou o animal que agora vinha com tudo para cima dela. ‘Flecha!’ Ela atirou acertando o olho direito do animal. Estava para acertar a segunda, mas não tinha a menor ideia de onde era o coração da fera. Não tinha aulas de anatomia de dragões ou seres das trevas.
Hesitou e foi atingida com força pela calda do animal. Voltou ao seu tamanho original caindo entre as árvores do bosque de Tomoeda. Levantou o mais rápido que o seu corpo dolorido permitiu. Não conseguia identificar a presença de Li, mas assim que viu o animal ser atingido por um relâmpago deduziu que o rapaz também estava tentando atingi-lo.
‘Grande!’ Novamente solicitou ajuda da sua carta. ‘Alada.’ Levantou voo indo direto ao inimigo. ‘Espada.’ Assim que ficou próxima ao animal, seguiu seu instinto, abaixou evitando ser atingida novamente pelas garras dele e pelas rajadas de fogo, rodopiando pelos ares.
Fez um rasante e subiu indo em direção ao dragão, sentiu que uma de suas asas fora atingida e pegava fogo, mas tinha que finalizar aquela luta, atingiu o animal no que calculou seria o centro do peito. A fina lâmina entrou como manteiga deslizando na carne do animal que urrou pela última vez, antes de explodir em uma nuvem de pó negra. Sakura caía exausta, Grande e Alada haviam se desativado. Sentiu quando a seguraram em meio à queda e abriu os olhos. Como imaginou estava nos braços de Syaoran.
O rapaz pousou como um gato. Sentiu que o corpo estava fraco. Ela tinha usado muita magia de uma só vez. Primeiro usou Apagar numa cidade inteira, depois exigiu Retorno e agora aquela luta contra aquela fera. Observou o senhor Amizuki olhar sem acreditar para os dois e o viu pedir para que os policiais baixassem as armas que estavam apontadas para o casal.
‘Quem são vocês?’ Sussurrou abismado com o que tinha acabado de presenciar. O que diabos estava acontecendo com a sua cidade?
Os coitados mal tiveram tempo de decidir se obedeciam ou não o delegado. Um demônio enorme com pele parecendo queimada e asas de dragão pulou sobre o carro de uma das patrulhas destruindo o automóvel apenas com seu peso. O animal rugia enquanto sua cauda ricocheteava de um lado para o outro. Ele olhou para o casal mágico a sua frente e soltou uma rajada de fogo em todas as direções, os policiais começaram a atirar como loucos no animal.
‘É isso que está acontecendo na nossa cidade.’ O delegado gritou para Li, sabia que o garoto tinha as respostas.
Syaoran nem teve como responder, pulou com Sakura em seus braços desviando dos ataques. Viu que mais de um policial tinha sido atingido pelas labaredas de fogo. A jovem se mexeu, e abriu os olhos, estava se recuperando do desgaste.
‘Você está bem?’ Ele perguntou ainda a mantendo nos braços. Ela respondeu que sim, pedindo que ele a soltasse. As pernas ainda estavam bambas, mas conseguiu ficar em pé.
‘Parece que a cidade foi invadida por seres maiores.’ Ela falou com a voz entrecortada, indicando que ainda não estava totalmente recuperada.
‘Acho que sim. Eles precisam de ajuda.’ Li falou olhando de esguelha para a namorada que confirmou com a cabeça.
‘Eu estou bem.’ Repetiu e observou o rapaz correndo na direção da fera que atacava os policiais. Ela sabia que era esta certeza que o faria se afastar para ajudar os outros.
Syaoran levantou a arma tentando desferir um golpe na fera, mas teve que recuar desviando do ataque certeiro das garras do monstro. Fez um rolamento, levantando-se e chutando a fera com força. Conseguiu atingi-la duas vezes fazendo o sangue jorrar. Os poucos policiais que ainda tinham o monstro na mira de suas armas pararam observando o rapaz duelar com a fera, Amizuki não sabia nem o que fazer. Li saltou por cima da fera e pegou um dos seus ofudas. ‘Eu invoco o Deus Trovão, com a máxima urgência, de acordo com o pacto estabelecido. Ataque relâmpago!’
A descarga elétrica desceu do céu atingindo o talismã, Li estendeu os braços segurando sua espada na perpendicular enquanto o raio eletrocutava a fera que urrava de dor. Parou o ataque e abaixou apenas para buscar impulso, pulou sobre o adversário e pousou bem próximo a ele, o animal virou para tentar atingi-lo, mas foi golpeado de forma violenta pelo rapaz, virando finalmente pó.
O rapaz fechou os olhos tentando relaxar enquanto era admirado por todos. Cravou os olhos em Sakura que caminhava devagar em direção a ele. Ela mostrava um sorriso aliviado por terem finalizado os dois monstros. Syaoran arregalou os olhos vendo a jovem ser atingida pelas costas por uma força estúpida.
A Feiticeira foi lançada no chão a uns 10 metros, batendo em alguns carros e outros objetos que estavam na rua e sentindo como se todos os ossos do corpo tivessem se quebrado.
‘SAKURA!’ Li gritou correndo na direção da namorada em desespero. Ajoelhou-se na frente dela segurando o corpo da jovem e a chamando novamente, ela estava semiconsciente. Tinha um enorme ferimento na testa que sangrava.
‘Ela não irá morrer... ainda...’ Ouviu. Li levantou o rosto e pôde ver o vulto de um homem vestido com um traje negro chinês. Ainda tinha a namorada nos braços. Cerrou os olhos e conseguiu perceber a presença fortíssima do homem que se aproximava devagar do casal. Viu-o levantar uma mão para o lado e tudo explodir com sua magia.
‘Quem é você?’
‘O criador do caos.’
Syaoran trincou os dentes. Sentiu uma sensação estranha percorrer o seu corpo, não sabia se era pânico ou raiva que fazia cada fibra do seu corpo estremecer. Ele beijou a testa da amada. ‘Já volto, minha flor.’ Falou, deixando-a no chão e encarando o homem. Estendeu uma de suas mãos e sentiu que sua magia havia aumentado de forma extrema. Concentrou-se e em uma fração de segundos a espada que estava no chão, onde a criatura morrera, voou até as mãos do seu dono.
‘Então você é o maluco que anda criando estas brechas?’
‘Maluco? Você realmente é muito petulante rapaz.’
‘E você é covarde por atingir uma garota pelas costas.’
O homem sorriu observando o rapaz. ‘Não poderá me vencer, Guardião. Seus poderes ainda são extremamente infantis.’
Li trincou os dentes ao ouvir aquilo, quem era aquele cara para machucar sua namorada, intitular-se o senhor do caos e chamá-lo de fracote? ‘Vamos ver se meus poderes são infantis.’
O rapaz correu até o homem e tentou golpeá-lo com toda a sua força, mas apenas cortou o ar. Olhou para os lados a procura do seu alvo e sentiu ser atingido pelas costas, teve que cravar a espada no chão para não voar longe como Sakura. Encarou os olhos gélidos daquele homem e se levantou, mesmo que seu corpo inteiro reclamasse de tal atitude. Empunhou novamente sua espada, olhando fixamente para o inimigo.
‘Não contava com a sua persistência. Se prefere morrer agonizando em minhas mãos, o problema é seu.’
Li avançou novamente até o inimigo tentando golpeá-lo desesperadamente, porém ele agia como uma sombra e se desviava de cada golpe como uma nuvem de fumaça. O rapaz já se sentia extremamente cansado. Pior, sabia que o homem estava apenas se divertindo e brincando com ele.
‘Acha mesmo que conseguirá proteger esta realidade?’ Syaoran ouviu a voz lhe zombando.
‘Cala a boca.’ Syaoran gritou com raiva, sem parar de tentar golpeá-lo.
‘Acha-se mesmo capaz de salvar a vida destas pessoas fracas como você?’ Li tentou inutilmente atingi-lo com sua magia do fogo. Sentiu quando sua espada foi presa por uma das mãos do inimigo. Arregalou os olhos encarando-o a poucos centímetros de si. ‘Acha que poderá salvar sua namoradinha do destino dela?’ Syaoran estremeceu ao escutá-lo mencionar Sakura. O homem riu vendo os olhos do guerreiro transmitirem medo pela vida de Sakura.
‘Destino?’
O homem concentrou sua energia nas mãos e atingiu o estômago do rapaz, fazendo-o largar a espada e dar uns passos para trás se contorcendo de dor.
‘De morrer agonizando com a espécie humana.’
Li que antes fitava o chão enquanto via o seu próprio sangue pingar nele, levantou o rosto, encarando o homem que observava Sakura caída no chão desmaiada. ‘Não toque nela.’ Falou entre os dentes.
‘É uma pena que uma menina tão bonita tenha um destino tão triste e terrível, não acha?’ Falou sem desviar os olhos da jovem. ‘Você tem muito bom gosto, Guardião. É lindíssima.’
Li sentiu todas as suas células do corpo explodirem de ódio. ‘Se tocar num fio de cabelo dela, eu juro que irá se arrepender.’
‘E o que pensa que pode fazer contra mim? Olhe o seu estado deplorável.’ O homem começou a dar alguns passos em direção a Sakura, desesperando o rapaz.
Ele, sem pensar na dor ou em qualquer outra coisa, correu até a sua espada que estava no chão e puxou um de seus talismãs, a mandala octogonal surgiu abaixo dos pés do rapaz. ‘Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas que dominam os cinco elementos, eu invoco com a máxima urgência o supremo Imperador dos Trovões. Ataque relâmpago!’
O homem bem que tentou se defender, mas o ataque foi tão poderoso que o fez cair de joelhos pela dor. Li também não conseguia se manter em pé, suas pernas não aguentavam mais o peso do próprio corpo.
‘Vou acabar com você de uma vez!’ Gritou o inimigo, levantando-se com dificuldade e explodindo de ódio por ter sido atingido
Syaoran não conseguia se levantar, sentiu a morte vindo em sua direção com toda força, apenas pôde virar o rosto querendo ver, pela última vez, sua flor e uma enorme culpa o invadiu porque não poderia cumprir a promessa que há pouco tempo tinha feito à amada.
‘Adeus, Guardião!’ O inimigo falou materializando uma enorme lança de luz. A poderosa arma cortou o ar com uma velocidade estúpida, Li apenas fechou os olhos quando sentiu-se ser levantado no ar por uma aura mágica, desviando-o do ataque mortal. Abriu os olhos lentamente e viu o chão a alguns metros dos seus pés. "Será que eu morri?" Pensou.
‘Onde está, Clow? Sei que isso é coisa sua.’ O Homem falou olhando para os lados.
Ele concentrou sua energia em uma das mãos e a jogou na escuridão. Explodindo alguns carros parados nas ruas. Li caiu com tudo no chão, porque a magia havia cessado. O rapaz tentava se levantar, mas apenas conseguiu se sentar tentando ver o que acontecia. Ele viu um rapaz de cabelos compridos parcialmente presos num rabo de cavalo segurando um cetro com a figura do sol.
Li o reconheceu de imediato, apesar de não estar usando o tradicional traje chinês. Quem surgia na fumaça feita pelo golpe do inimigo era o mago Reed Clow, ou melhor, sua reencarnação: Eriol Hiiragizawa.
‘Ora, se não é meu bom amigo Clow. Há quanto tempo não nos víamos.’
‘Há séculos, Shyrai.’ Eriol respondeu arrumando os óculos no rosto, por puro nervosismo. Finalmente dando a Li o nome do poderoso inimigo.
‘Desde que me abandonou no mundo das Trevas.’ Shyrai falou com sarcasmo, desviando sua total atenção de Li e caminhando em direção a Eriol.
‘Foi escolha sua ficar lá.’ O mago rebateu. Percebeu que o antigo amigo bufou de ódio com a colocação dele.
‘Você é que desistiu por covardia.’
‘Você nunca irá entender.’
Shyrai deu uma grande gargalhada, observando o antigo companheiro. Aumentou seu nível de magia fazendo com que ela girasse em torno de seu corpo destruindo tudo que tocava. Eriol franziu a testa, o poder era devastador. ‘Olhe o que me tornei, Clow, olhe para o meu poder e se arrependa da sua covardia.’
Eriol não se mexia, queria manter a atenção de Shyrai para si. Li levantou-se cambaleando, tentando chegar próximo à namorada para protegê-la. Caiu de joelhos, sem conseguir mais forças. Ele sentiu Ruby Moon e Spinel Sun pousarem ao seu lado, sentiu-a pegá-lo pelo braço e levantá-lo com força.
‘Você está bem?’ Ela perguntou com o tom de voz mais sério do que o rapaz lembrava-se. Li não respondeu, olhou para a direção de Sakura e viu Yue e Kerberus a acudindo, tranquilizou-se com a presença deles ali.
‘Vamos levá-los daqui.’ Spinel Sun falou já pronto para levantar voo.
Syaoran ainda tinha os olhos em Sakura, que estava nos braços de Yue, e viu o guardião lunar acenar para ele informando-o que ela estava bem. Suspirou aliviado, desviando os olhos da namorada e tentando firmar as pernas no chão. Sentiu que o braço de Ruby Moon tremia de leve, talvez estivesse pensando o mesmo que ele. Eriol estava em apuros.
'Não se preocupem comigo, ajudem Hiragizawa, eu já estou bem’ Falou tentando tirar o braço do laço apertado da mão da guardiã que o encarou com o rosto sério.
‘Não está em condições de ficar sozinho, senhor Li’. Ruby Moon retrucou.
‘Nosso mestre nos mandou protegê-lo.’ A pantera alada esclareceu.
‘Eu já estou bem.’ O rapaz teimou puxando o braço e finalmente fazendo com que ela o soltasse, cambaleou um pouco, mas manteve-se em pé.
‘Continua com a mesma teimosia de quando garoto. Olhe seus ferimentos, não conseguirá nem dar dois passos’. Spinel Sun falou olhando com curiosidade para o rapaz.
Li ergueu uma sobrancelha. ‘Já disse que estou bem, faça o seu trabalho que é proteger o seu mestre.’
‘Nosso dever é fazer o que ele ordena, se ele...’
‘Se não ajudá-lo não terão mais um mestre a obedecer’. Li o interrompeu.
A pantera já retrucaria, quando ouviu a companheira falar que Syaoran tinha razão. Olhou para ela e só pela troca de olhares já tomaram uma decisão. Precisavam ajudar Eriol. Deram uma última olhada para o rapaz que se esforçava para manter-se em pé.
Syaoran gritou para eles irem logo! Sentia a magia do inimigo crescendo de forma absurda.
Os dois voaram em direção ao seu mestre. Li viu que Eriol não gostou de ser desobedecido, mas não teve tempo de repreender seus guardiões, Shyrai já os atacava com tudo. Li se encostou a um hidrante próximo, buscando equilíbrio. Podia sentir as rajadas de energia se chocando entre Clow e Shyrai. Yue pousou ao seu lado com Sakura nos braços desmaiada. Kerberus estava à frente do rapaz, Li não pôde deixar de sorrir de leve, pensando que o tigre alado tinha se colocado em posição para protegê-lo de algum possível golpe.
Levantou os olhos observando a luta entre os dois magos. Os olhos estavam semiabertos devido ao brilho intenso das energias.
‘Vamos embora daqui.’ Ouviu Kerberus falando com o tom de voz preocupado. Pela primeira vez temia pela vida do rapaz e pela própria.
‘Ele irá matar Hiiragizawa...’ Li sussurrou, mas sabia que os dois guardiões ouviriam. ‘Precisamos fazer alguma coisa.’
Yue apertou Sakura em seus braços, sabia que Li estava certo. Sentia que a magia do inimigo de Clow estava em vantagem. ‘Não podemos fazer nada. Precisamos cuidar de nossa mestra.’ Falou trincando os dentes.
‘Isso, leve-a daqui, eu vou tentar pensar em algo.’ Li falou, precisava ter certeza que Sakura estava bem.
‘Está louco, moleque? Olhe o seu ferimento, não sei nem como está vivo ainda.’ Kerberus assustou-se virando-se para ele e tirando os olhos do mortal combate.
Li falaria alguma coisa, mas foi interrompido quando um dos raios de Shyrai atingiu um carro parado a poucos centímetros deles. Yue protegeu a si e sua mestra com suas asas. Syaoran caiu no chão, novamente, e sentiu Kerberos o envolvendo também com suas asas.
‘Leve-a daqui agora!’ Syaoran falou levantando-se com extrema dificuldade.
Yue levantou voo com sua mestra nos braços, mas parou no ar observando Kerberus e Li ainda em terra.
Syaoran observou Shyrai de costas falando um monte de desaforos para Eriol que estava apoiado no seu báculo, Ruby Moon e Spinel já estavam no chão, feridos. O rapaz deu alguns passos a frente e sorriu de lado. ‘Não gosto de golpear alguém pelas costas, mas...’ O rapaz pegou um dos seus talismãs. ‘O idiota atingiu Sakura pelas costas... só vou dar o troco.’
‘Situações desesperadas pedem medidas desesperadas.’ Kerberus falou ao lado do rapaz que levantou o braço, chamando sua espada para sua mão.
‘Está preparado, Kerberus?’
‘Quando quiser.’
‘Metal, Madeira, Água, Fogo, Terra...’ Ele começou a sussurrar enquanto a energia dos elementos eram concentradas em torno do seu corpo. Embaixo de seus pés surgiu a mandala mágica, brilhante, em forma de octógono baguá com o simbolo do Yin-Yang. ‘... Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas...’ Trincou os dentes sentindo a espada mais pesada do que normalmente era, estava com o corpo fraco. Pensou em Sakura, em como aquele desgraçado a atingira pelas costas, e segurou com mais força o punho da arma. ‘... eu conjuro o seu máximo poder. Invoco com a máxima urgência o poder supremo. Ataque relâmpago!’
‘Bola de fogo!’
A magia dos dois se uniu em uma só, atingindo em cheio Shyrai que estava pronto para dar o golpe final em Eriol. O poderoso mago caiu a metros de distância gemendo de dor antes de sumir do nada. Syaoran caiu no chão exausto, usou mais magia do que pensou que tivesse. A última coisa que pôde ouvir foram os chamados de Kerberus e teve que achar graça de sentir que a voz do guardião demonstrava preocupação com a sua pessoa.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Sakura abriu os olhos devagar, ouvia algumas pessoas conversando, fitou o teto branco e a imagem de Li surgiu nele.
‘Syaoran...’ Sussurrou chamando a atenção de Tomoyo e Touya que estavam no quarto do hospital de Tomoeda. O hospital estava superlotado nos últimos tempos. Ela mesma, junto com o namorado, já tinham virado figurinha carimbada ali.
Tomoyo correu até a cama seguida por Touya, depois que ouviu a voz da amiga.
‘Como está, Sakura?’ Perguntou, pegando a mão da amiga com carinho e pressionando-a contra o rosto molhado de lágrimas.
‘Sente alguma coisa?’ Sakura reconheceu a voz do irmão.
‘Onde está Syaoran?’ Ela perguntou ignorando as perguntas dos dois.
Não obteve resposta e sentiu a amiga soluçar enquanto apertava mais sua mão entre as dela. Levantou-se devagar, apesar dos protestos dos dois e sentou na cama empurrando o irmão. Tirou sua mão com delicadeza das de Tomoyo e sorriu para ela de leve. Olhou em volta e viu que estava num quarto do hospital, fechou os olhos tentando encontrar a presença do amado e reparou que ela estava fraca. Fraca demais. Abriu os olhos e arrancou o soro que estava preso ao seu braço.
‘Está louca? O médico disse que você precisa descansar.’ Touya gritou, segurando-a pelos ombros.
Não respondeu ao irmão, sabia que ele estava preocupado com ela, mas tinha que ver onde estava o namorado. O irmão não conseguiria entendê-la. Lançou um olhar duro a ele. ‘Não me segure aqui.’
O homem franziu a testa assustado com o olhar decidido da irmãzinha. Desviou os olhos e deu um passo ao lado dando passagem para ela. Sabia que não conseguiria impedi-la. Era melhor que ela soubesse o que estava acontecendo de uma vez. Tomoyo assustou-se com a atitude de Touya e parou a frente da amiga. ‘Ele não pode falar com você agora. Ele está descansando.’
‘Não importa, preciso vê-lo.’ Falou finalmente levantando-se da cama, cambaleou um pouco e sentiu Tomoyo a segurar pelos ombros.
‘Você precisa descansar.’
‘Ajude-me, Touya.’ Sakura pediu e levantou a mão, o rapaz a pegou com carinho. Enlaçou seus dedos aos da irmã que tanto amava. Ela o fitou com intensidade, o homem engoliu em seco, não tinha mais poderes mágicos, mas sabia que Sakura estava com a alma e a magia mais fortes do que nunca. O corpo poderia estar fraco, mas ele sentia, ele via pelos olhos glaucos uma força nunca antes vista nela.
‘Venha comigo.’ Falou passando o braço da irmã pelos ombros e segurando sua cintura. Tomoyo ainda tentou fazê-los desistir da ideia, mas foi em vão. ‘Tomoyo.... cubra Sakura com o meu casaco.’ Pediu e, no final, foi atendido pela jovem que colocou o casaco do rapaz nas costas da moça para que fossem até a ala masculina do hospital de Tomoeda. Não seria muito bom uma jovem andar de camisola por lá.
Os três cruzaram o hospital lotado de feridos. Médicos e enfermeiros corriam de um lado para o outro tentando socorrê-los. Sakura imaginou que aquilo já era o caos. Encontraram com Yukito que estava parado na sala de espera. Ele arregalou os olhos vendo os irmãos.
‘Sakura, não devia ter se levantado.’
‘Eu tentei dizer isso para ela, mas sabe como essa monstrenga é teimosa.’ Touya explicou.
‘Ela insistiu para ver Li.’ Tomoyo esclareceu.
Sakura reparou que Yukito olhou rápido para Touya e fez um gesto negativo com a cabeça, recriminando o companheiro por ter aceitado ajudá-la a ir ao encontro do rapaz. ‘Sakura, por que você não o vê assim que...’ Ele voltou-se para Sakura tentando ser gentil.
‘Não, eu quero vê-lo agora.’ A jovem interrompeu-o. ‘Não me obrigue a fazer disso uma ordem, Yukito.’
Os três ficaram sem saber o que falar ou fazer. Tomoyo apertava cada vez mais as mãos no peito, em sinal de nervosismo, enquanto Yukito consertava os óculos no rosto o tempo inteiro.
‘Deixe-a vê-lo, será pior para ela esta incerteza. Ela já percebeu que a aura dele está muito fraca.’ Ouviram uma voz vinda da porta da pequena sala. Sakura virou o rosto e viu a bela figura da sua ex-professora tentando sorrir para ela, dando-lhe força. Naruku, assim que a viu, saiu correndo até a figura da mulher.
‘Como está o mestre Eriol, senhora?’ Perguntou aflita.
‘Ele está bem agora, acabei de vê-lo.’
Sakura franziu a testa, finalmente reparando na jovem que estava ao lado de Yukito. Ela estava bem machucada. ‘Eriol está aqui?’ Perguntou firmando as pernas e afastando-se do irmão. Ele ainda tentou segurá-la, mas ela falou que já estava melhor.
‘Sim, ele chegou há uns dois dias, mas, infelizmente, também foi internado ontem no hospital.’ Tomoyo respondeu à pergunta da amiga e Sakura não pôde deixar de se sentir surpresa. Sentiu que Kaho parou a sua frente e levantou o rosto para a alta mulher. Viu que ela tentou sorrir novamente, mas tinha o rosto tenso.
‘Precisa ser forte, Sakura. Isso é apenas o começo.’
Touya a encarou por alguns segundos em reprovação pelo que disse a sua irmã, não achava justo o que acontecia com ela. Ela abraçou a ex-aluna com carinho e sussurrou ao ouvido dela. ‘Eu daria a minha vida para evitar isso tudo.’ Sakura fechou os olhos retribuindo o abraço, sabia que a mulher estava falando a verdade. Ela se afastou da jovem.
A ruiva viu os olhos sempre tão seguros tremerem e brilharem pelas lágrimas que estavam para se formar. Observou a mulher se afastar, com o olhar voltado para o chão, não conseguia encarar novamente a jovem. Sakura desviou os olhos dela e fitou o irmão que ainda estava ao seu lado também observando Kaho.
‘Vamos, Touya. Leve-me até Syaoran.’ Sentiu o irmão segurar sua mão e fitaram-se com ternura. Ele concordou com a cabeça.
‘Posso ir com você?’ Ouviu Tomoyo perguntar ao seu lado e acenou que sim com a cabeça. Caminharam devagar até a saída da sala. O rapaz abriu a porta para as duas passarem e, antes de fechá-la, encarou Yukito e depois Kaho que ainda estava com o olhar baixo. Fechou a porta.
Nakuru observou ainda a porta fechada por onde os três haviam desaparecido. ‘Tadinha do Sakurinha...’ lamentou sentindo pela jovem que sempre achou uma gracinha.
‘Ela vai ter que ser forte.’ Yukito finalmente encarou Kaho, sério. A mulher soube que era Yue. ‘Clow está bem mesmo?’
Ela confirmou com a cabeça encarando-o. ‘Eriol está bem. Só está cuidando de alguns machucados mais profundos.’
‘Se não fosse o descendente dele, eu não sei o que seria da gente.’ Nakuru falou colocando a mão no braço machucado, resultado do seu confronto com o inimigo.
Kaho concordou. ‘Sim, o guardião fez o melhor que pôde.’
‘Mas não é o suficiente para derrotar Shyrai e o caos que ele trará para este universo.’ Yukito trincou os dentes.
‘Ai, eu não quero nem pensar nisso.’ Nakuru se arrepiou.
‘Não se preocupem, tenho certeza que tudo vai terminar bem.’
‘Só não sei a que custo.’ O rapaz falou sério encarando Kaho. Ela sabia que ele estava certo, provavelmente teriam que pagar um preço bem alto para proteger o seu universo.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Touya parou em frente à porta nº 133 e virou-se para olhar sua irmã. ‘Ele está aí?’ Sakura perguntou e viu que ele hesitou.
‘Tem certeza de que...’ O homem começara a se arrepender de ter levado a irmã até lá. Ela franziu a testa, soltou a mão do irmão e abriu a porta antes que ele ou Tomoyo ou qualquer coisa a impedissem de ver o namorado. A aura de Syaoran estava fraca, mas conseguia senti-la e, por isso, a jovem pensou que ele estivesse mais distante. Invadiu o quarto e a primeira coisa que viu foi o rosto do enfermeiro Taniguchi sério. Nunca o tinha visto sério daquela maneiro.
‘Hei, mocinha.... o médico não deu permissão...’ Sakura não ouviu o que ele dizia, desviou os olhos dele e finalmente viu Li deitado no leito hospitalar. Sentiu o ar faltar em seus pulmões ao ver a quantidade de ferimentos graves no corpo do rapaz. Ele estava com uma máscara de oxigênio e extremamente pálido. Não conseguiu evitar que duas lágrimas teimosas saíssem de seus olhos e as secou com a manga do casaco. Não adiantaria chorar.
Tomoyo, Touya e Taniguchi estavam discutindo por causa da invasão ao quarto do rapaz em coma. A jovem estava alheia a tudo. Deu um passo a frente e se sentiu cambalear, mas manteve o corpo reto. Não podia fraquejar agora. Tinha que tirar o amado daquela cama, tinha que ver os belos olhos âmbares fitá-la novamente de forma intensa; não poderia viver mais sem eles. Caminhou e abaixou-se pegando a mão do amado entre as suas e entrelaçando os dedos.
‘Volte para mim, Syaoran... não me deixe...’ Sussurrou. Simplesmente sabia que ele estava ouvindo e sentiu a mão do amado apertar de leve a sua. Sorriu. ‘Eu estou esperando...’
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Eriol parou em frente ao quarto onde Syaoran estava internado. Conseguia perceber que a aura do rapaz ficava mais forte a cada momento. Ele estava se recuperando. Fora fácil perceber que a aura de sua sucessora também estava mais forte e muito próxima à dele. Na verdade, quando eles se encontravam num mesmo ambiente, quem tivesse mais sensibilidade perceberia que elas se entrelaçavam. Por isso era fácil deduzir que a presença física de Sakura no quarto de Li tornava a recuperação do rapaz muito mais rápida. Era como se um apoiasse o outro.
Fechou os olhos e respirou de forma pesada. Nunca havia imaginado que a ligação do Pilar da Vida com o Guardião das trevas poderia ser tão intensa.
‘Hiiragizawa.’ Ouviu lhe chamarem e virou o rosto abrindo os olhos. Sorriu vendo Tomoyo se aproximar devagar. ‘Como você está?’ A morena perguntou parando em frente a ele.
Eriol levou uma mão ao abdômen onde havia sido atingido de forma mais certeira por Shyrai. Ergueu o corpo que antes estava levemente inclinado no batente da porta. ‘Estou bem.’
A morena ergueu um sobrancelha. ‘Deveria descansar mais. Você e Sakura são muito teimosos.’ Ela falou com um leve tom de irritação.
‘Acho que sim.’ Ele concordou.
Tomoyo desviou os olhos do rapaz e fitou a porta do quarto. ‘Ela não saiu daqui desde que entrou. Acho que nem está se alimentando direito.’
Realmente, Sakura havia se recusado a sair do lado de Li. Acabou tendo a ajuda inesperada do enfermeiro Taniguchi, que, de alguma forma, convencera o médico a permitir sua permanência no leito do namorado. O velho enfermeiro visitava o rapaz sempre que podia e fazia questão de trocar ele mesmo os curativos. Acabou ele também cuidando dos ferimentos dela.
‘Ela sabe que, estando ao lado de Li, a recuperação dele será mais rápida.’ Eriol tentou explicar para a morena.
‘Não sei se ela realmente sabe disso, Hiragizawa. Eu só sei que, se ele morrer, a vida dela acaba.’ A jovem falou com o rosto sério e a voz falhada. ‘E a minha também.’ Voltou-se para o rapaz encarando-o. ‘Você tem que arrumar isso.’
Eriol arregalou os olhos fitando a amiga de infância. ‘Deus sabe o quanto eu gostaria de arrumar isso.’
‘Ele saber não adianta nada. Você tem que fazer alguma coisa.’ Ela insistiu deixando o rapaz sem saber o que falar.
Não tinha o que falar na verdade. Não tinha o que ele fazer para evitar o destino trágico do descendente e da sucessora de Clow. O rapaz tirou os óculos com uma mão e a outra apertou forte os olhos, pensando no que poderia fazer. Nada. Constatou mais desesperado ainda.
Tomoyo, vendo que não vinha resposta, bateu de leve na porta do quarto. A figura de Sakura apareceu por detrás da porta. Ela estava pálida, com o rosto cansado provavelmente dormira pouco. Fitou a amiga por alguns instantes, mas logo seus olhos estavam em Eriol.
‘Reconheci sua presença, Eriol.’ Ela falou para ele e o viu esboçar um sorriso. ‘Estava esperando que me procurasse. Sabe que não posso sair do lado de Syaoran agora.’ Viu-o concordar com a cabeça. A jovem pediu um minuto. Entrou rapidamente e se inclinou até alcançar o ouvido do namorado. ‘Já volto. Vou arrancar alguma coisa de Eriol... Nem que seja os dentes.’ Parecia loucura, mas podia perceber um sorriso no canto dos lábios do namorado.
Afastou o cabelo da testa de Li e a beijou de forma demorada antes de se afastar e pedir para o senhor Taniguchi chamá-la se precisasse. Ela estaria na sala ao lado falando com um amigo e esperava não demorar.
O velho enfermeiro concordou prontamente. Não falava abertamente, mas estava preocupado demais com Syaoran; Sakura sabia disso, pois não o ouviu contar nenhuma piadinha indecente durante o tempo todo que esteve com o senhor.
Sakura saiu do quarto de Li e fechou a porta, encarando os amigos. ‘Está na hora de você me contar o que está acontecendo aqui, Eriol.’ Ela falou com o rosto sério.
‘Eu sinto muito, Sakura.’ Ele falou, observando-a caminhar devagar em direção à sala ao lado e gesticulando para que os dois a seguissem.
‘Não sinta. Explique.’ Sakura retrucou.
Eriol franziu a testa. Fazia anos que não encontrava com a sucessora de Clow. Algumas vezes trocaram e-mails, mas a jovem havia se mantido fora do mundo da magia desde que Li havia iniciado o treinamento pelo Clã. Quem lhe dava mais notícias eram Yue e Kerberus. Algumas vezes falava com Tomoyo por telefone. Sakura, quando falava com ele, abordava vários assuntos, menos magia. Chegou a imaginar que a magia da jovem havia diminuído, mas não. Yue já o tinha informado que estava assustado com a evolução rápida da mestra das cartas em tão pouco tempo.
Desde que Syaoran e Sakura se reencontraram a aura de um puxava a do outro, como um vórtice poderosíssimo, mas também muito perigoso. No mundo da magia nada que fosse adquirido de forma rápida, era seguro. Tudo precisava de uma evolução, por isso Clow havia preparado a armadilha fazendo com que o próximo Mestre das cartas ativasse Vento e espalhasse as cartas para serem capturadas. O feiticeiro precisaria se desenvolver aos poucos para tentar passar pelo julgamento de Yue e, então, transformar as cartas. Era assim a lei da magia. Evolução.
O que estava acontecendo com Sakura e Li era algo que já tinha sido previsto, embora o longo período de afastamento tivesse, por algum motivo, prejudicado o desenvolvimento deles, e apenas quando se reencontraram voltaram a evoluir no que parecia uma verdadeira explosão em cadeia. E ele sabia que tudo que era explosivo era incontrolável e deixaria vítimas.
‘Estou aguardando, Eriol.’ Sakura insistiu, esperando que o rapaz começasse a falar. ‘Comece me explicando como eu parei neste hospital inconsciente.’
‘Shyrai...’ O nome saiu dos lábios de Eriol que fitava os olhos glaucos, observando-o intensamente. Baixou os olhos fitando o pescoço da jovem. Arregalou os olhos. ‘Onde está sua chave?’ Perguntou nervoso.
Sakura balançou a cabeça. ‘Chave?’ Ela já ia perguntar que chave quando levantou a mão até o pescoço e se deu conta que estava sem o poderoso pingente no pescoço. Assustou-se em constatar isso. ‘Eu não sei...’
Eriol deu um passo à frente e segurou a jovem pelos braços. ‘Você estava com o báculo quando foi golpeada?’
‘Claro, Eriol.’ Ela respondeu irritada. ‘Estávamos combatendo um monte de monstros.’
O rapaz soltou a jovem e levantou os óculos que escorregavam pelo nariz. Estava suando. Nervoso.
Sakura percebeu isso. ‘O que está acontecendo?’
‘Precisamos achar sua chave agora.’
‘Não saio daqui.’ Ela falou decidida, entre a magia e Syaoran, não havia dúvidas da sua escolha.
‘Eu vou procurar.’ Eriol falou afastando-se das jovens. Logo desapareceu pelos corredores do hospital.
Sakura voltou-se para a amiga que tinha se mantido calada apenas observando o diálogo dos dois.
Tomoyo sorriu e levantou uma sacola que trazia nas mãos. ‘Trouxe roupas e comida para você. Não pode ficar aqui de camisola e com o casaco de Touya o tempo todo.’ Ela explicou.
A ruiva suspirou e voltou a ficar com os olhos tristes, com a prima não havia necessidade de ser firme.
‘Estou com medo, Tomoyo.’ Sakura falou sinceramente. A morena caminhou até ela, deixou a sacola num dos bancos e a abraçou. ‘Estou com muito medo de perdê-lo de novo e, dessa vez, para sempre.’ Ela sussurrou abraçada à prima e sentiu lágrimas se formarem em seus olhos. Sentiu a amiga apertando-a mais forte em seus braços.
‘Eu vou estar sempre ao seu lado, Sakura.’
‘Eu sei, Tomoyo... mas sou muito egoísta... também o quero sempre ao meu lado.’ Falou com sinceridade.
Tomoyo sentiu um bolo enorme se formar na garganta, fez a única coisa que estava ao seu alcance, rezou pela felicidade de seu grande amor.
~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~
Li corria pelo deserto, mas não era um deserto qualquer. Ele olhava às vezes para o céu e via-o em chamas. O calor era quase que insuportável, fazendo com que o rapaz suasse como nunca. A sua frente, a figura do seu ser amado surgia. Linda. Sakura estava com um vestido branco leve, os cabelos presos com flores rosas. Um vento batia sobre ela, fazendo com que seus cabelos ficassem levemente despenteados enquanto seu vestido balançava revelando suas belas pernas.
Li parou de correr e ficou apreciando aquela bela imagem. Sakura abriu os braços enquanto sorria daquele jeito que ele adorava e ele caminhou devagar ao encontro do corpo que tanto amava, que tanto desejava.
Porém, de repente, algo acertou a jovem, fazendo com que o vestido antes branco se tornasse vermelho, o seu sorriso deu lugar a um grito de dor e seus braços, antes abertos para recebê-lo, agora apertavam o próprio corpo em agonia.
Li levantou-se da cama quase que se debatendo, tentou gritar pelo nome de Sakura, mas algo o impedia. Tirou a máscara de oxigênio, voltando a respirar normalmente, embora com um pouco de dificuldade. Olhou ao seu redor e achou o que queria: as belas esmeraldas o fitavam de forma intensa.
‘Você voltou.’ Ela sussurrou, abraçando-o.
O rapaz sentiu todo o seu corpo doer, mas não reclamou, pelo contrário, apertou-a mais forte entre os seus braços, tentando senti-la ainda mais perto de si. Ficaram abraçados com os olhos fechados e ouvindo a respiração um do outro. Li podia sentir a aura forte e morna da namorada circulando seu corpo, dando forças a ele. Sakura era sua vida.
‘Ran-Ran.’ Era o enfermeiro Taniguchi que se aproximava do casal ainda abraçado. ‘Acabou de sair de um coma de uma semana e já está de agarramento desta maneira? Acho que me preocupei à toa.’
Fora a primeira vez que o senhor brincava depois de uma semana, Sakura constatou sorrindo.
‘Vamos parar com esse agarramento aí. Depois vocês tiram o atraso. Agora eu preciso saber se o senhor Li está realmente inteiro.’ Falou, fazendo Sakura tentar se afastar do rapaz para ser examinado. Porém Li a prendeu novamente entre os braços.
‘Só mais um pouco.’ Ele pediu abrindo os olhos e fitando o enfermeiro que sorria. Ainda não estava preparado para afastar Sakura do corpo dele.
‘Você é um tarado, senhor Li.’ Falou caminhando em direção à mesa e discando um ramal. ‘Vou avisar para o doutor que você acordou e já está querendo me tirar daqui para transar com a senhorita Kinomoto. O irmão dela vai querer matá-lo e eu não quero ter que ressuscitá-lo novamente.’ Falou ainda brincando enquanto checava os aparelhos e falava com a pessoa no outro lado da linha.
‘Ele vai falar para sermos comedidos.’ Sakura falou brincando.
‘Pode ter certeza que, quando eu sair daqui, não seremos, minha flor.’ Falou fechando os olhos e inalando o perfume da namorada.
Continua.
Fale com o autor