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FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 79

A Mulher Original

Kasumi estava assistindo a aula de biologia, na verdade, estava com os olhos voltados para a vista além dos vidros da janela da sala de aula. Observando de forma distraída as nuvens no céu.

Shaolin ligou para ela pela manhã, bem cedo, informando que destruiria hoje a última chave e então tudo terminaria. De um jeito ou de outro. Pediu para ela não ir ao encontro dele em Funbarigaoka. Estava com a voz triste e culposa. No fundo, ele já tinha decidido o destino dele. Foram poucos anos juntos para tantos e tantos anos separados. Pensou de forma triste. Soltou um suspiro, não poderia convencê-lo do contrário. Deveria ser uma decisão dele, não? Ela não deveria se meter, né? Ele é quem deveria escolher o destino que gostaria de seguir? Ela não deveria intervir, certo?

Sparkly angel I believed

(Anjo cintilante, eu acreditei)

You were my savior in my time of need

(Que você era meu salvador quando eu mais precisava)

Blinded by faith I couldn't hear

(Cegada pela fé, eu não pude ouvir)

All the whispers, the warnings so clear

(Todos os sussurros, os avisos tão claros)

Franziu a testa, pensando que isso a irritava demais. Por que deveria ser uma merda de decisão apenas dele? Bateu os dedos de leve na carteira, controlando a irritação. Por que ele tinha que decidir tudo e ela deveria ficar afastada? Quem Shaolin pensava que era? Tatsumi era teimoso demais! Inconsequente! Ingênuo! Não deveria ter permitido que ele entrasse no grupo Nigth Raid. Ela sabia que ele não era um assassino realmente. Deveria ter sido contra desde o início. Deveria ter sido menos reticente quando Najenda perguntou o que ela achava dele. Se ela tivesse sido firme com relação a desaprovação dele no grupo, dariam um jeito para ele cair fora e refazer a vida de outra forma. Mas não? Achou que deveria seguir a intuição de Leone!

O problema era que ele a lembrava, quer dizer, lembrava Akame no começo da sua vida como assassina, quando chorou agarrada a cabeça de Martha se perguntando se matá-la era o certo porque sentia-se tão triste. Era ingênua e gentil. Até que aprendeu com o “pai” a simplesmente eliminar seus alvos. Não eram pessoas, não eram seres, eram apenas alvos. Aprendeu a desconectar vida a alvo. Um alvo não tinha vida, apenas resistência para lutar ao ser eliminado. Era fácil “ver” as coisas desta forma. Sua única preocupação passou a ser escolher o alvo correto. Aceitar ou não a missão que lhe enviavam.

Soltou um segundo suspiro agora sem conseguir controlar a irritabilidade. Não deveria ter se apaixonado por um baka daqueles.

Estreitou os olhos em algumas nuvens que passavam devagar pelo céu.

Akame não era humana. Nem física e nem emocionalmente. Tinha matado a própria irmã. Superou a perda daqueles que lhe eram importantes um a um. Superou a perda de Tatsumi, certo? Não! Ele aparecia algumas vezes quando ela estava em dificuldade, lutando contra demônios ou muito ferida, doente, no limite. Depois desaparecia. E ela se apegava de forma desesperada a estes encontros, no fundo querendo sempre estar em combate e colocar a vida em risco para que assim pudesse, quem sabe, vê-lo apenas.

Sua vida sempre esteve por um triz, pensou que morreria inúmeras vezes durante batalhas, ou pelo inimigo que combatia ou pelos machucados, consequências de suas lutas. Não morreu. Agonizava, mas não morria…

Viu Najenda envelhecer, adoecer e morrer. Viu Wave envelhecer, constituir família, conheceu seus filhos, levou flores para o tumulto de Wave assim como tantas vezes levou para o de Kurome ao lado dele. Já sabia que viveria eternamente naquele inferno dolorido, desejando muitas vezes inclusive morrer…

I see the angels, I'll lead them to your door

(Eu vejo os anjos , eu os conduzirei até sua porta)

There's no escape now, no mercy no more

(Agora não há como fugir, piedade nunca mais)

No remorse cause I still remember

(Sem remorso porque eu ainda me lembro)

The smile when you tore me apart

(Do sorriso quando você me rasgou em pedaços)

Até que Tatsumi apareceu informando que reencarnaria para resolver uma questão importante. Pediu para ela ir com ele, que já tinha combinado tudo com o que ele chamou de “pai maior”. Humph… não precisou de muito para ela aceitar. Akame estava cansada de viver.

Era como se já estivesse tudo, por algum motivo, definido na sua alma. Evitou se apaixonar por Tatsumi… Depois que ele morreu se agarrou aos poucos encontros que podiam apenas se ver. No fundo, esperando por ele. Teve suas memórias apagadas e voltou a se apaixonar por ele. Quer dizer, por Shaolin. Sofreu sentindo-se culpada por sentir pelo garoto que considerava um irmão mais que amor fraternal.

Quando ele declarou para ela que sentia o mesmo, mal acreditou. Explodiu de felicidade de ter seus sentimentos correspondidos. Finalmente poderiam viver o que deixaram de viver como Tatsumi e Akame…

Agora Shaolin apenas havia decidido que não havia como mudar o destino. O mesmo destino de Tatsumi. E depois? Ele voltaria a aparecer para ela como um fantasma quando ela estivesse lutando contra quem? Não era mais Akame. Era Kasumi Kurogane. Estudante do sétimo ano. Será que tudo não passou apenas de uma manipulação para que ela abrisse mão do poder que tinha antes? Por isso Miguel havia lacrado sua magia como parte do acordo? Será que no final, ela tinha sido novamente manipulada?

You took my heart

(Você levou meu coração)

Deceived me right from the start

(Me enganou desde o começo)

You showed me dreams

(Você me mostrou os sonhos)

I wished they would turn into real

(E eu desejei que eles se tornassem realidade)

You broke the promise and made me realize

(Você quebrou a promessa e me fez perceber)

It was all just a lie

(Que tudo não passava de mentira)

Fechou os olhos e cerrou os punhos com raiva. Parecia um eterno ciclo de sofrimento. Por quê? Por que tudo parecia se repetir? Como se eles estivessem dentro de um loop e não conseguiam sair dele. Tinha que ter uma razão! Tinha que existir uma merda de explicação para a mesma sequência de acontecimentos… o mesmo sofrimento…

‘Como se fosse uma punição…’ Ela sussurrou.

Abriu os olhos decidida. Para o inferno que era escolha de Shaolin! Miguel que fosse para o raio que o parta em ficar controlando-a. A mãe que a perdoasse, mas não dava para aceitar continuar a ser Kasumi com as malditas lembranças de Akame. Bateu na carteira com força, chamando a atenção da professora como de toda a turma com o barulho seco e alto, chegando a trincar a madeira da carteira.

‘Kurogane-chan? Sente-se bem?’ Ouviu a voz preocupada da professora.

‘Preciso ir.’ Ela respondeu levantando-se e caminhando para a saída da sala de aula sendo observada de maneira assustada pela turma.

‘Kurogane-chan! Não pode sair assim? Se sente-se mal deve ir a enfermaria.’ A Professora foi atrás da menina depois de se recuperar do susto com a atitude dela.

A menina não respondeu, quando a professora tentou pegá-la pelo braço, ela desviou, evitando ser agarrada e voltou-se para a senhora olhando-a duro. ‘Não fique no meu caminho.’ Disse de maneira fria, assustando ainda mais a professora, que piscou algumas vezes realmente temendo a menina a sua frente. Não parecia Kasumi Kurogane que conhecia.

Kasumi virou-se novamente voltando a caminhar decidida pelo corredor da escola e descendo as escadas rapidamente. Ainda foi chamada pelo inspetor, mas ignorou. Chegou perto da cerca lateral esquerda e com agilidade conseguiu pulá-la sem a menor dificuldade.

Caminhou, pensando em como poderia chegar a Funbarigaoka de maneira mais rápida. Talvez de trem ou ônibus. Estava resoluta a pegar o trem quando reconheceu a presença de Aeon a poucos metros. Caminhou sendo guiada apenas pelo instinto e o encontrou perto do templo Tsukimine. Estava parado com os braços cruzados e debruçado no portão principal.

Aeon quando a viu, abriu um sorriso satisfeito. Sabia que ela o encontraria. Kasumi parou a sua frente e olhou para os lados. Não havia pessoas em volta.

Inclinou a cabeça de leve. ‘Como faço para impedir o baka do Shaolin de fazer o que está querendo?’

Aeon aumentou o sorriso. ‘Sabia que não aceitaria o destino dele.’

‘Não aceito o meu destino de voltar a ficar esperando por ele. Se ele quer voltar para o inferno, o céu, sei lá para onde ele quiser ir, eu não aceito. Decidi reencarnar porque ele também reencarnaria. Não vou deixar um bando de anjos idiotas me manipularem. Já deveriam saber que eu não permito ser novamente manipulada desta forma.’ Esclareceu de uma vez para Aeon que apenas franziu a testa observando a garota. Tinha alguma coisa dentro dela que o fez engolir em seco. Esperava estar fazendo a coisa certa ajudando-a a impedir que Shaolin voltasse para o plano superior e se afastasse de tudo que ele sabia que o garoto amava.

Kagami parou ao lado de Aeon, observando a menina. Tinha um sorriso satisfeito nos lábios que logo desapareceu reparando tanto no semblante sério de Kasumi como na energia que circulava o corpo da menina. ‘Venha… vamos ajudá-la.’ Falou estendendo a mão para a menina que a segurou e deixou ser guiada pela figura feminina vestida com quimono tradicional e longos cabelos esverdeados.

‘Quem vai me ajudar?’ Kasumi perguntou erguendo uma sobrancelha.

‘Todas nós.’ Kagami respondeu, virando-se para ela e observando-a pelo ombro direito. ‘Nenhuma de nós aceitamos ficar passivas depois que Retorno nos contou de forma aberta e sincera qual seria o destino de Shaolin.’

‘Vocês estão aqui… sem que Sakura-ba-san saiba?’ Ela perguntou espantada.

‘Claro. Somos independentes.’ Foi a resposta de Kagami.

Kasumi desviou os olhos dela e virou-se fitando Aeon que caminhava ao lado dela também com o passo apressado. ‘Como? Como posso chegar em Funbarigaoka de forma rápida?’

Aeon virou-se para ela, encarando-a. ‘Tem receio de voltar a se tornar um demônio, Kasumi?’ Perguntou, sem responder a menina.

Kasumi rodou os olhos. ‘Isso é besteira. Anjos, demônios, humanos… são tudo o mesmo lixo no final.’

Aeon arregalou os olhos de leve e depois a fitou. ‘Palavras duras.’

‘Verdadeiras. Não importa a natureza, o que importa é o caráter.’

Ele assentiu com a cabeça concordando. ‘Precisará decidir.’

‘Já decidi.’ Ela o cortou. ‘Apenas me oriente como?’

‘Assim eu farei.’

‘Ótimo.’ Ela falou satisfeita.

Logo pararam em frente a árvore sagrada do templo Tsukimine. Kasumi observou os vários seres mágicos parados esperando-a. Sorriram de leve observando-a se aproximar, mas diferente da outra vez, não fizeram nenhuma algazarra. Estavam todas tensas, nervosas. Até as mais alegres estavam com os rostos sérios e fechados.

Kagami parou ainda segurando a mão de Kasumi, apertou-a de leve e virou-se dando um beijo no rosto da menina, antes de se afastar e se aproximar das outras.

Aeon se aproximou dela junto com Luz e Trevas. As três cartas trocaram rápidos olhares antes de fitarem a menina que apenas as observava.

‘E então?’

‘Você deve lembrar como é o processo, ou não?’ Luz perguntou com a voz carregada.

Kasumi franziu a testa de leve. ‘Processo?’

‘Sua alma é capaz de mudar de natureza. Isso é raríssimo. Além disso, você precisa estar ciente do risco, pois agora não é mais Akame, guardiã das trevas.’ Luz explicou.

Trevas colocou a mão no ombro da menina chamando sua atenção. ‘Como Kasumi não há total garantia que conseguirá realizar o processo sem sequelas. Precisa estar ciente dos riscos. Não queremos enganá-la.’

Kasumi desviou os olhos de Trevas e observou as outras cartas. ‘Está falando com relação a maldição de Murasame?’

‘Não foi maldição.’ Aeon respondeu, fazendo-a voltar a fitá-lo. ‘Você superou a corrupção de Murasame, tornando-se então um demônio. Precisará superar novamente a corrupção de um demônio para que mude seu invólucro humano e seja capaz de expandir seu poder a ponto de ir até onde Shaolin está. Mas precisa ser rápida. Ele ainda está num lugar que é a interseção entre os universos e planos, assim que passar no teste será encaminhado ao plano superior ao qual você não poderá ter acesso.’

‘Certo. Então vamos rápido com isso.’ Kasumi falou decidida.

As três cartas novamente se entreolharam.

‘Terá que superar agora de dois demônios para que o processo seja rápido o suficiente.’ Aeon falou. ‘Corrupção de dois demônios opostos.’

‘Está bem.’ Kasumi respondeu novamente de forma calma.

Aeon franziu a testa. ‘Não está com medo?’

Ela sorriu de leve. ‘Já passei por tantos horrores que acho que deixei de ter medo por mim. Apenas pelos outros. Não quero perder minha família, assim como não quero perder Shaolin. Se tiver que pagar um preço, não me importo.’

Luz sorriu de leve. ‘Seu espírito é forte demais.’

‘Ele não é forte.’ Ela replicou. ‘Ele apenas não tem medo, principalmente de morrer.’

Trevas deu um passo para trás. ‘Acho que já sabe como é o processo?’

‘Precisei me cortar com Murasame, para que o veneno penetrasse no meu corpo.’

‘É parecido.’ Aeon começou a esclarecer. ‘Os demônios passam seus poderes uns para os outros através do princípio do vampirismo. Os humanos não aguentam e enlouquecem.’

‘Preciso beber o sangue de um… ou melhor, dois de vocês?’

‘Exatamente.’ Aeon assentiu com a cabeça. ‘E não apenas dois de nós, mas de dois extremos opostos.’

‘Luz e Trevas…’ Ela sussurrou observando as duas cartas a sua frente que assentiram com a cabeça. Ela respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Vamos então logo com isso. Se o pior acontecer comigo, apenas…’ Ela reteve-se fechando os olhos brevemente. ‘Digam aos meus pais que eles foram os melhores pais que uma pessoa como eu poderia e muito mais do que merecia ter.’

Trevas e Luz se entreolharam sem esconder a preocupação com a vida da menina.

Kasumi deu um passo a frente. ‘Estou pronta…’

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Eriol parou o carro em frente a pousada Funbari. Marie virou-se para a pacata construção tradicional japonesa e soltou um suspiro tomando coragem. Tinha que conversar com Sakura. Precisava tirar aquele peso no peito ou pelo menos tentar e a única maneira de fazer para ela era pedindo perdão para sua antiga mestra.

Sentia o corpo tremendo, não era bem medo que sentia, era um receio tão grande de encarar os olhos de Sakura e saber exatamente o que eles transmitiam em relação a ela: raiva, ódio, rancor?

‘Uma vez Sakura-san me falou que o amor não era um recurso para um fim. Era um sentimento pleno.’ Ouviu a voz suave de Eriol e não teve coragem de virar-se para o pai.

‘O ódio também pode ser interpretado desta forma.’

‘Na verdade, o ódio é justamente o oposto… é o recurso que usam para se chegar a um fim que é destruir algo.’ Ele replicou.

‘Dizem que amor e ódio andam juntos, tousan…’

‘Pode até ser… em pessoas comuns… não em pessoas extraordinárias.’

Marie virou-se para o pai e o viu sorrindo de leve para ela.

‘Acredite, Marie… Eles não são pessoas comuns.’

Ela forçou um sorriso e concordou com a cabeça. Realmente Sakura-ba-san e Syaoran-ji-san eram pessoas extraordinárias… assim como Shaolin e… Kazuo.

‘Quer que eu vá contigo?’ Eriol perguntou.

Marie negou com a cabeça. ‘Obrigada, Tousan… mas esta deve ser uma conversa entre eu e Sakura-ba-san.’

‘Exatamente.’ Ele concordou. ‘Uma conversa entre você, Marie, e sua tia Sakura e não entre Khala’a e sua mestra.’ Falou com a voz firme e viu os olhos da filha tremerem. ‘Entenda isso. Se você não conseguir ver as coisas assim, não adiantará Sakura-san lhe dar qualquer resposta, você já estará se condenando.’

Ela desviou os olhos do pai e puxou a maçaneta do carro. ‘O senhor tem razão, tousan…’ Falou saindo do carro.

Marie caminhou devagar em direção a pousada. Era fácil perceber as presenças dentro dela. Apertou as mãos nervosa. Sentia um peso enorme no peito como se ele estivesse sendo comprimido de forma violenta. Parou e olhou para lado, percebendo que a presença da tia estava na lateral da pousada. Respirou fundo e soltou o ar devagar, caminhando em direção a onde a percebia. Olhou rapidamente para o carro e viu o pai parado encostado a ele. Dava para perceber que a aura dele também estava agitada. Preocupado com ela. Acenou de leve com a mão e o viu acenar de volta com a cabeça tentando lhe passar apoio. Ela sabia que ele estaria torcendo pela felicidade dela.

Na lateral da pousada era formado por várias árvores altas que davam uma ótima sombra para as janelas laterais da construção. Caminhou devagar ouvindo o barulho das folhas secas caídas pelo chão que pisava, caminhando em direção para onde sabia que encontraria a tia. Não demorou muito para encontrá-la. Estava parada, encostada em uma das árvores com os braços cruzados. Parecia estar esperando-a. Assim como Marie, Sakura sabia que teriam que tirar aquilo a limpo. Apenas as duas, já que Midoriko não existia mais.

Marie sentiu o bolo na garganta e os olhos arderem, mas tentou se controlar da melhor forma possível. Sabia que a conversa seria dura. Tinha que estar preparada.

Parou a poucos passos de Sakura que a fitou nos olhos sem falar nada. Marie sentiu o bolo na garganta parecer agora que a sufocava ao perceber os olhos de sua antiga mestra olhando-a de forma decidida. Era estranho ter suas lembranças de Khala’a quando a viu pela primeira vez ainda menina a olhando daquela mesma forma decidida. Uma das coisas que mais a tornava apreensiva com Shaolin era justamente quando ele a olhava de forma muito parecida como Sakura. Era como se os dois de alguma forma, conseguisse ler a alma dela pelos olhos verdes intensos e brilhantes.

‘E-eu…’ Marie começou a tentar falar, mas sentia que a voz falhava. Inferno. No fundo, tinha vontade apenas de chorar e implorar que Sakura a perdoasse.

Sakura respirou fundo e soltou o ar devagar, desencostando-se finalmente da árvore e dando um passo a frente parando mais perto de Marie, porém não desviou os olhos dos dela um segundo.

‘Sei que não estou a frente de Khala’a…’ Sakura começou a falar.

Marie desviou os olhos dela, fitando uma folha qualquer do chão. Sentiu finalmente as lágrimas saírem de seus olhos.

Sakura estreitou os olhos na jovem. ‘Assim como não posso aceitar que Shaolin continue sendo o que foi no passado… não posso enxergá-la como quem você foi.’

Marie mordeu o lábios. ‘E-eu… sinto muito…’ Finalmente conseguiu falar de forma falhada.

Sakura balançou a cabeça de leve. ‘Sabe Marie-chan… Não vou negar que realmente aceite e concorde com o que Khala’a fez, mesmo sabendo que ela teve razões que considerava nobre. Ela me tirou a chance de saber de algo importante que havia me acontecido. Independente de ter sido algo triste ou não. Eu tinha o direito de saber, sofrer, lamentar, me culpar e…’ soltou um suspiro. ‘Tentar superar sozinha ou com ajuda o que Midoriko havia feito.’

Marie encolheu os ombros. ‘Eu real-realmente sinto muito, mes-...’

‘Não!’ Sakura a interrompeu com o tom de voz alto, fazendo a jovem levantar o rosto e fitá-la em desespero. Sakura deu um passo novamente a frente e a fitou com o rosto duro. ‘Não sou sua mestra.’ Falou de maneira firme. ‘Você ainda se considera Khala’a, Marie-chan?’ Perguntou de forma enfática.

Marie engoliu em seco. Não sabia o que responder.

Sakura franziu a testa. ‘Se você não conseguir superar Khala’a, você me obriga a enxergá-la como Khala’a e realmente não há como eu perdoá-la pelo que fez, mesmo pela melhor das intenções.’ Falou de maneira firme. ‘Agora… Se você conseguiu entender e aceitar que não é mais ela, que hoje você é Marie-chan… Aí sim… não há nada para eu perdoá-la, apenas desejar que você seja feliz e faça o meu filho feliz.’

Marie cerrou os punhos com força e tinha os olhos baixos. ‘Como… como posso simplesmente ignorar ou esquecer de tudo o que vivi como Khala’a?’ Perguntou entre os dentes e logo fungando.

Sakura sorriu de forma doce e deu mais um passo, aproximando-se da jovem. Levantou os braços e tocou de leve nos ombros de Marie fazendo-a erguer o rosto e voltar a fitá-la nos olhos.

‘Seu pai viveu à sombra do que foi no passado. Você realmente quer cometer o mesmo erro que ele?’

Ela balançou a cabeça negando. ‘Mas… mas não consigo fazer como Kasumi-chan…’ Começou a falar com a voz embargada. ‘Não consigo simplesmente achar que o que eu me lembro, o que sei que foi meu passado não é real apenas porque é passado.’

Sakura sorriu de leve, tinha certeza que fora Tomoyo que havia ensinado a filha a encarar qualquer lembrança da vida passada da filha daquela forma.

‘Você realmente acredita que é real?’ Sakura perguntou de forma suave. ‘Você acha que é real você ainda ser um demônio incapaz de amar? Você acha que é real você ser uma carta aprisionada por um mago que agora a ama como filha? Você acha que é real o ódio que sentia por Clow-sama? O que realmente você acha que é real agora, Marie-chan? O que você tem certeza que é real agora?’

Marie ficou alguns segundo olhando para o rosto sereno da tia e sentiu que ela apertou de leve seus ombros.

‘Meu amor por Kazuo é real.’ Ela começou a responder finalmente. ‘Meu amor por tousan… é real. Ele não é Clow-sama… Assim como…’ Fez uma pausa fitando Sakura nos olhos. ‘Eu não sou Khala’a.’ Completou sentindo como se o peso que sentia dentro do peito aos poucos fosse sendo retirado fazendo-a voltar a sentir o coração bater inicialmente de forma acelerada, mas que aos poucos se acalmava fitando o rosto belo e sereno de Sakura a sua frente.

Sakura sorriu de leve, puxou a jovem para que pudesse a abraçar com carinho. Marie abraçou Sakura, apoiando a cabeça no ombro dela e fechando os olhos. Sentia a aura calorosa e acolhedora dela envolvendo o seu corpo. Sorriu de leve. Sakura-ba-san estava certa. Tousan estava certo. Kasumi-chan estava certa. O que era real agora era que ela era Marie Hiiraguizawa. Khala’a era passado. E passado não era real, além de não ser possível de ser mudado.

‘Obrigada, obasan…’ Sussurrou apertando-a com os braços. Sentiu quando Sakura passou a mão pela sua cabeça e pelas suas costas, num carinho.

‘Estou feliz por ter entendido, Marie-chan…’ Falou e afastou-se da jovem, ainda segurando-a pelos ombros e a fitando-a com intensidade. Sorriu de lado. ‘Tem um rapaz bem nervoso querendo falar com você lá dentro.’

Marie sorriu abertamente. ‘E-ele também… será que ele…’

‘Ele não conheceu Khala’a. Não tem a menor ideia de como ela é. Sabe das histórias, do que lhe contaram…’

Marie assentiu com a cabeça, lembrando-se do que Kazuo lhe falou no hospital.

‘Ele se apaixonou por uma bela moça de cabelos ruivos e olhos azuis.’ Sakura disse com a voz suave. ‘Assim como eu sei que essa mesma moça correspondeu aos sentimentos dele, independente de saber a natureza dele.’

‘Sim… Eu o amo tanto, obasan…’ Marie falou sem conseguir parar de chorar.

Sakura deu um passo para trás afastando-se de Marie e fazendo um gesto com a cabeça em direção a entrada lateral da pousada. ‘Ele está esperando por você.’

Marie não conseguia fechar o sorriso enquanto secava o rosto com a manga do casaco. Desviou os olhos de Sakura e caminhou decidida em direção a porta indicada pela tia. Queria o quanto antes encontrar-se com Kazuo, abraçá-lo e dizer o quanto o amava.

Sakura observou a jovem se afastando, sorrindo de leve. Sentiu quando Eriol parou a alguns passos dela e virou-se para o amigo.

‘Obrigado.’ Ele falou, inclinando de leve o corpo. ‘Muito obrigado, Sakura-san.’

Sakura balançou a cabeça de leve. ‘Acho que conseguiu ensinar sua filha a não cometer os mesmos erros que você, Eriol-san.’

Ele meneou a cabeça. ‘Na verdade, quem me ajudou a enxergar a verdade… para variar foi Tomoyo-chan.’

Sakura não conseguiu evitar uma risadinha. ‘Tomoyo-chan no fundo sempre soube dar o apoio que precisávamos… independente do que se lembre ou não, não é?’

Eriol assentiu com a cabeça. ‘Ela sempre foi uma pessoa especial e muito mais sábia que eu… e principalmente Clow-sama.’

‘Nisso… eu concordo totalmente com você, Eriol-san…’ Ela falou com a voz divertida. Fechou os olhos brevemente e voltou a ficar séria fitando o amigo. ‘Preciso de sua ajuda agora… Não posso perder Shaolin.’

Eriol tirou os óculos e um lenço de dentro do bolso da calça para limpar a lente. ‘Se lhe faz sentir-se melhor. Nas anotações de Clow-sama afirmava que o coração partido seria o início de uma nova era. Acredito que o coração partido era o seu por ter descoberto a verdade sobre Kazuo-san.’

Sakura franziu a testa. ‘Então acredita que isso tudo tenha terminado?’

Eriol recolocou os óculos no rosto e desviou os olhos da amiga fitando a pousada. Franziu a testa de leve percebendo a aura fortíssima de Shaolin. Era tão forte quanto a de Sakura… Se ele voltasse da última chave com um poder maior ainda… Em teoria o ser mais poderoso de cada universo era o Pilar que o sustentava. Shaolin estava num nível paralelo ao de Sakura, não poderia passar dele.

‘Eu espero que sim, Sakura-san… Eu mais que ninguém gostaria que este ciclo de trapalhada de Clow-sama terminasse de uma vez e bem para todos nós.’ Respondeu com sinceridade.

Sakura soltou um suspiro e começou a caminhar em direção a pousada, sabia que seria acompanhada por Eriol. ‘Eu espero que sim, Eriol-san… Não sei se aguentaria perder mais um filho… já está sendo difícil demais aceitar que eu perdi um, mesmo que agora tenha recuperado. Perder Shaolin… é algo que não consigo aceitar.’

Eriol seguia atrás da amiga. ‘Entendo perfeitamente você… Não há dor maior do que o receio de perder um filho.’

‘Exatamente.’ Sakura concordou. Caminharam em silêncio até a entrada lateral da pousada por onde Marie havia entrado.

Hiiraguizawa franziu a testa. ‘Não sinto a presença das cartas.’ Comentou.

Sakura deu um suspiro longo. ‘Elas me pediram para resolver uma questão.’

‘Questão?’ Eriol perguntou com os olhos arregalados. ‘Que tipo de questão elas têm? Já falei…’ Reteve-se e balançou a cabeça com força.

Sakura observou o amigo em silêncio. Ele voltou a fitá-la e engoliu em seco o incômodo por achar que Sakura dava liberdade demais para demônios. Comprimiu os lábios, tentando se controlar.

‘Espero que estejam bem.’ Falou por fim.

‘Ficarão.’ Sakura replicou.

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Kazuo estava ao lado de Shaolin. Os dois debruçados no batente da janela que dava para o quintal do lado de trás da pousada.

‘Ouvi sua conversa com Kasumi pela manhã.’ Kazuo falou incomodado.

‘Eu sei.’ Shaolin respondeu fitando um ponto qualquer da vista. ‘Não dá para ter privacidade dividindo o quarto com o irmão.’

‘Seu tom… não era bom. Você já está considerando que não vai voltar desta última maldita chave, não é?’

‘Já sim.’ Não mentiu. ‘Ainda não estou conseguindo ver uma outra saída.’

‘E acha que apenas se desculpando com ela, Kasumi aceitará?’ Kazuo replicou com o tom bravo.

Shaolin balançou a cabeça de leve. ‘Não. Ela está bem brava comigo.’ Olhou de soslaio para o irmão. ‘Assim como você.’

‘Ainda bem que sabe disso. Você é teimoso demais. Não tem nada que ir tentar destruir aquela merda de chave.’

Ele encolheu os ombros de leve. ‘Vou fazer o meu melhor, mas realmente… verdadeiramente, não tenho certeza se conseguirei voltar.’

Kazuo virou o rosto, encarando o irmão. ‘Quer voltar a ser um guardião celestial como antes, é isso?’

Shaolin devolveu a encarada do irmão. ‘Não é o que eu quero. Mas… se esta for a única forma de… sei lá… pelo menos ver Kasumi, eu vou aceitar sim voltar a ser.’

‘De que universo, Shaolin?’ Kazuo rebateu. ‘Ela não é mais guardiã das trevas. Ela pertence a este universo onde oyaji é o guardião.’

Shaolin respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Troco de lugar com Gabriel. Ele está me devendo mesmo. Este universo é muito mais tranquilo do que o outro… está na hora de Gabriel aceitar novos desafios e parar de ficar com receio de colocar a existência dele em risco o tempo todo, deixando tudo para tousan.’

Foi terminar de falar e sentiu um cascudo na cabeça. ‘Hei!’ Reclamou olhando feio para o irmão.

‘Você é um idiota, Shaolin.’ Kazuo falou irritado. ‘Se você não voltar, vamos eu e os pais atrás de você.’

‘Não tem como...’

‘Sempre tem!’ Kazuo o cortou. ‘A gente acha. Não coloque Okaasan em perigo, entendeu? Volte desta merda de chave.’

Shaolin respirou fundo e soltou novamente o ar devagar. Balançou a cabeça de leve e nem replicou. Tinha certeza que eles dariam realmente um jeito de quebrar todas as regras. Franziu a testa de leve, desviando os olhos para um ponto qualquer. Akame também nunca foi boa de seguir regras. Na verdade, ela sempre ignorou as desde que se alcançasse a conclusão da missão. Não importava o quanto perigosa era a missão ou ao que deveria ser submetida. E principalmente, sem se importar quem deveria eliminar para concluí-la. Kasumi tinha aceitado de forma tranquila sua resolução pela manhã. Bem… Kasumi não era Akame. Pelo menos esperava isso.

Shaolin olhou para trás sentindo a presença da prima se aproximando. Desencostou-se do batente da janela e deu um passo para trás. ‘Vou dar uma volta.’ Ele falou.

‘Vai onde, pirralho?’ Kazuo perguntou contrariado.

Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Diferente de você, eu sou mais discreto e não gosto de ouvir conversa de namorados.’ Disse com o tom debochado, que sabia que irritava o irmão.

Kazuo ergueu o queixo. ‘Do que diabos você está falando?’

Shaolin sorriu de lado e caminhou para a saída do quarto. Puxou a porta de correr e logo avistou a prima caminhando em direção a ele. Passou por ela e apontou com o polegar para trás. ‘Ele está muito mal humorado hoje.’ Avisou ela que estreitou os olhos nele.

‘Você é um pirralho muito…’

‘Metido.’ Ele completou. ‘Eu sei disso.’ Falou sorrindo de forma zombeteira e se afastando da prima.

Marie observou o primo por alguns segundos, a aura dele realmente estava muito estável e forte. Virou-se para o quarto e deu um passo parando em frente a porta e logo avistando Kazuo estava debruçado perto da janela.

Ele assim que a viu engoliu em seco e cruzou os braços sobre o peito, fitando-a. Percebeu que ela estava com os olhos vermelhos, denunciando que havia chorado e muito. Tinha vontade de abraçá-la forte e dizer que tudo ficaria bem, mas verdade era que não sabia se realmente ficaria bem.

Marie aproximou-se dele devagar brincando com as mãos, tentando se acalmar e achar as palavras certas para falar a ele. Parou a frente dele, fitando-o nos olhos e mordeu mais forte o lábio inferior tentando controlar o nervosismo e acalmar o coração que batia de maneira completamente descontrolada.

Kazuo endireitou o corpo incomodado. Ergueu as sobrancelhas e como sempre o irmão lhe alertava, não era bom em se manter calado.

‘Co-como você está?’ Perguntou.

Marie sorriu de leve. ‘Hum… agora estou bem.’ Desviou os olhos dele brevemente para fitá-lo de forma profunda ao mesmo tempo que deu mais um passo a frente aproximando-se do rapaz, que sentiu-se não incomodado pela proximidade dela, mas era dolorido demais para ele estar tão perto dela e não podê-la abraçá-la ou beijá-la. Era torturante.

‘Sou Marie Hiiraguizawa.’ Ela falou com a voz firme. ‘Meu pai é Eriol Hiiraguizawa e minha mãe, Kaho Hiiraguizawa. Tenho 16 anos e estudo na escola ginasial de Tomoeda, mas confesso que prefiro as aulas de magia com o meu pai e o meu primo do que ir às aulas convencionais da escola.’

Kazuo franziu a testa olhando-a sem entender.

‘Quero que você seja meu namorado.’ Ela falou abertamente, fazendo-o arregalar os olhos. ‘E como eu sou humana gostaria de pedir que aceite jantar com a minha família para que eles possam te conhecer… Eu juro que Tousan será amigável e se controlará para não tentar quebrar a sua cara.’

Kazuo ainda a olhava desconfiado, sem entender direito. Inclinou a cabeça de lado ainda fitando-a. Não sabia nem o que falar. Abriu a boca tentando formular uma pergunta do tipo: o que ela estava querendo dizer com aquilo? Mas Marie o interrompeu.

‘Pois os pais costumam ser muito ciumentos com suas filhas. E tousan…’ Ela falou sorrindo de forma doce. ‘Tousan é o melhor pai do mundo e sou muito feliz dele ser meu pai. Assim como ele é muito feliz em saber que sou filha dele. Uma filha muito especial… e então… ele tem receio e insegurança por saber que agora terá que dividir o meu amor que antes era apenas por ele com a pessoa mais importante para mim.’

Kazuo abaixou o rosto e sorriu de leve. ‘Dividir o seu amor?’

Marie deu mais um passo a frente parando bem próximo a ele que descruzou os braços e levantou o rosto para fitá-la.

‘Exatamente. Porque não há como mudar o que eu sinto por você. Não existe a menor possibilidade de aceitar uma vida sem você.’

Kazuo estreitou os olhos nela. ‘Sua vida como Marie?’

‘Eu sou Marie…’ Ela repetiu o que falou para ele inicialmente. ‘O que eu fui… não é o que eu sou agora. Como Kasumi-chan falou: Não é real. Real é o que eu sou agora e o que eu sinto agora… por você.’

Kazuo abriu um sorriso enorme e logo sentiu ela finalmente desaparecer com a distância entre os dois e o abraçando pela cintura forte enquanto repousava o rosto no peito dele. Kazuo fechou os olhos ainda sorrindo e a envolveu entre seus braços. Respirou fundo, voltando a sentir o perfume gostoso dos cabelos ruivos dela, como era maravilhoso voltar a senti-la entre seus braços e agora sem medo dela se afastar deles.

Marie se afastou apenas o suficiente para levantar o rosto e Kazuo logo tocou seus lábios nos dela, voltando a sentir a maciez dos lábios e o gosto maravilhoso deles. Não sabia como eles ficariam a partir de agora sendo ele um demônio... meio-demônio, ajustou o pensamento rapidamente, mas tinha certeza que o que mais queria era estar ao lado dela. Ao lado de Marie e principalmente apenas de Marie, sem mais a sombra de Khala’a nos belos olhos azuis os quais ele era fascinado.

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Kasumi sentiu o corpo dolorido. Estava caída no chão e sentia alguns ferimentos espalhados pelo corpo. Ergueu os braços a frente levantando o rosto e o afastando do chão. Estava numa floresta, estava apenas tentando sobreviver quando foi atacada daquela forma, sem nem saber exatamente o porquê pelo anjo idiota.

Sentiu que o ferimento em sua testa sangrava. Olhou para frente e viu os três seres alados. Droga. Será que simplesmente não poderiam deixá-la em paz? Não queria voltar. Por que simplesmente não aceitavam a sua decisão?!

Reparou que o que a atacou se aproximou novamente já com a espada em punho.

‘Está avisada Lilith! Ou vem conosco ou temos ordem para matá-la.’ Ele falou de forma objetiva.

‘Vai a merda! Já falei que não volto para aquele idiota.’ Ela respondeu.

Percebeu que o anjo trincou os dentes e se aproximou já erguendo a espada para acertá-la mais uma vez. Fechou os olhos já esperando o golpe fatal que não veio.

‘O que pensa que está fazendo, Azrael?’ Ela ouviu a voz contrariada do arcanjo que estava para golpeá-la. Abriu os olhos devagar e observou os dois se encarando.

‘Agora chega. Ela tem o direito de decidir, foi criada a imagem e semelhança de nós.’

‘Ela é humana! Temos ordens para levá-la. Não está vendo que ela está indo em direção ao plano inferior desta forma?’

‘Isso você quem está concluindo, Sanvi.’ Azrael rebateu.

O terceiro ser alado se aproximou e parou perto dos dois.

‘Parem com isso. Realmente não temos provas que ela está tentando achar uma brecha para o plano inferior.’ O anjo feminino falou olhando para os outros dois.

‘Khrisna!’ Sanvi exclamou olhando para sua companheira. ‘Está disposta a desobedecer o Pai Maior?’

Ela deu de ombros de leve. ‘A encontramos apenas vagando.’

‘Ela estava tentando construir alguma coisa.’

‘Estava construindo um lugar para me proteger do tempo, idiota.’ Kasumi falou entre os dentes e recebeu um olhar enfurecido de Sanvi.

‘Cale-se! Você é a vergonha para o nosso Pai.’

‘Agora chega! Vamos embora.’ Azrael falou de maneira assertiva. ‘Nossa missão era apenas convencê-la a voltar para Adão e não para obrigá-la.’ Ele falou em tom irritado e estreitando os olhos em Sanvi. ‘Não deveria ter machucado-a desta forma.’

‘Ela é um demônio!’ Sanvi falou entre os dentes. ‘Ou logo se transformará em um!’

‘Se assim ela quiser…’ Khrisna rebateu. ‘Ela tem o livre arbítrio, não?’

Sanvi afastou-se dos dois olhando-os com fúria. ‘Reportarei a atitude de vocês para Miguel. Ele não ficará nem um pouco satisfeito em saber que deixamos essa humana ingrata viva.’ Ele falou sem esconder a raiva. Deu alguns passos para trás, recolocando a espada na cintura e logo batendo suas asas voando em direção aos céus.

Kasumi se sentou no chão observando agora o casal de anjos a sua frente. Olhou em volta tentando achar novamente a espada que tinha usado para se defender dos primeiros ataques de Sanvi que pelo menos evitaram que ela fosse cortada ao meio pelo arcanjo. Não confiava neles. Era melhor se manter alerta. Viu o brilho da arma a poucos metros dela e pensou em ir rastejando até ela para pegá-la, mas sentia ainda várias partes do corpo doloridas demais impedindo-a de se movimentar.

O anjo feminino olhou para ela com desprezo e superioridade. ‘Não sei porque Ele resolver criar estes humanos. São frágeis demais. Os demônios pelos menos são mais fortes.’

Kasumi arregalou os olhos. Então os demônios eram fortes! Talvez se tornar um deles realmente a ajudasse a sobreviver já que se recusava a voltar a conviver com aquele idiota que se achava superior a ela. Não queria dividir as tarefas, não queria dividir nada, apenas que ela aceitasse a decisão dele e pronto. Se o tal plano inferior lhe desse liberdade, então era para lá que ela iria mesmo.

Khrisna soltou um suspiro contrariada e começou a se afastar. ‘Vamos embora Azrael. Não há nada a se fazer. Vamos reportar a Miguel que ela se recusou a aceitar as ordens do Pai Maior e agora está por conta dela. Sanvi é capaz de distorcer as informações...’

Kasumi chegou a se tremer quando o anjo a olhou e engoliu em seco, desviou os olhos novamente para o brilho da espada que estava a poucos metros dela.

‘Vá na frente. Tente fazer Sanvi pelo menos esfriar um pouco a cabeça. Ele está por demais irritante.’

Khrisna concordou com um gesto. ‘Realmente Sanvi andava insuportável demais quando é contrariado. Além de ser extremamente puxa-saco de Miguel.’ Soltou sem esconder o desapontamento com o companheiro. Logo ela flexionou os joelhos e levantou voou seguindo em direção por onde Sanvi havia desaparecido.

Kasumi observou-a se afastando, mas logo suas atenções voltaram ao único arcanjo que permanecia a sua frente. Assustou-se quando o viu se aproximar mais e se abaixar, tocando um joelho no chão e observando-a de perto.

Sparkly angel, I couldn't see

(Anjo cintilante, eu não pude ver)

Your dark intentions, your feelings for me

(Suas intenções sombrias, seus sentimentos por mim)

Fallen angel, tell me why?

Anjo caído, me conte o porque?

What is the reason, the thorn in your eye?

(Qual a razão da aflição em seus olhos?)

‘Qual o ferimento mais dolorido?’ Ele perguntou.

Ela desviou os olhos. ‘Eu já falei que não volto.’ Repetiu entre os dentes.

Azrael rodou os olhos. ‘Eu já entendi que não quer voltar. Estou perguntando onde está mais ferida. Se a deixar assim, acabará morrendo. Pelo que me explicaram vocês são mais frágeis que nós.’

‘Então deve ser mais vantagem ser um demônio mesmo, não?’ Ela falou com ironia. ‘Assim pelo menos conseguiria me defender melhor do idiota do seu amigo.’

‘Ele agiu errado e peço desculpas em nome dele. Sanvi apenas leva ao extremo as ordens que são dadas a ele. É um bom soldado.’

‘É um idiota igual a Adão.’ Falou ainda contrariada e ouviu ele rindo do desaforo que falou. Voltou a fitá-lo e reparou nos olhos verdes brilhantes. Era muito bonito. Mais bonito que Adão e pelo visto, mais gentil e menos ignorante.

‘Venha… vou ajudá-la a se recuperar, Lilith.’ Ele falou estendendo as mãos em direção a ela que se encolheu. ‘Não tenha medo, não lhe farei mal. Dou-lhe a minha palavra.’ Falou sorrindo de leve para ela.

Ela ainda sentia receio, mas não podia negar que as duas belas íris verdes eram fascinantes. Sentiu pela primeira vez o rosto quente como se todo o seu sangue tivesse migrado para suas faces. Ficou ainda alguns segundo encarando-o como se tivesse sendo hipnotizada pelos olhos brilhantes dele. Desviou o olhar, encabulada e assentiu com a cabeça, simplesmente permitindo que ele se aproximasse e por algum motivo apenas confiou e deixou que ele tratasse dos seus ferimentos.

I see the angels, I'll lead them to your door

(Eu vejo os anjos , eu os conduzirei até sua porta)

There's no escape now, no mercy no more

(Agora não há como fugir , piedade nunca mais)

No remorse 'cause I still remember

(Sem remorso porque eu ainda me lembro)

The smile when you tore me apart

(Do sorriso quando você me rasgou em pedaços)

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Kagami abraçava com carinho Kasumi que tremia enquanto tentava controlar a dor. Secou o rosto dela que estava molhado pelas lágrimas de dor e suor.

Aeon abaixou-se, tocando um joelho no chão e observando a menina também com o rosto preocupado.

‘Ela tem que aguentar….’ Kagami sussurrou agoniada. ‘Shaolin vai enlouquecer se alguma coisa acontecer a ela, Retorno.’

Aeon levantou o rosto fitando Kagami com o rosto mais sério ainda. ‘Ela é a única que pode trazê-lo. Ele passando pelo último teste não volta.’

Tempo se aproximou devagar. ‘Mas e se ele não passar? Ele pode falhar, não?’

Aeon assentiu com a cabeça. ‘Sim. Pode falhar assim como eu.’

Tempo franziu a testa. ‘Mas isso quer dizer que ele se tornaria um demônio como nós se falhar?’

‘Não.’ Aeon respondeu rapidamente virando-se para Tempo, mas percebeu que algumas outras companheiras se aproximavam. Algumas assim como Kagami estavam abraçadas a Kasumi que ainda gemia de dor. ‘Ele falhando no teste, volta com os poderes que já foram liberados e…’ Soltou um suspiro dolorido. ‘Terá que aprender a conviver com eles.’

Terra levantou uma sobrancelha, olhando-o desconfiada. ‘Você não conseguiu por isso acabou como um demônio?’

‘Exatamente.’ Respondeu sem rodeios. ‘Não é fácil, eu não consegui me controlar e nem mesmo cheguei até o sexto teste.’ Desviou os olhos dela. ‘Era tentador demais usar os poderes… acabamos tendo o nosso carácter testado a todo momento. Eu não consegui… mas sei que Shaolin conseguirá. Tenho certeza disso.’

‘Como pode ter certeza? Shaolin tem um espírito forte, mas tem os seus limites. Não podemos exigir dele desta forma. E se ele quiser realmente voltar para o plano superior?’

‘Ele não quer!’ Kagami respondeu de forma convicta por Aeon, encarando Terra. ‘Eu tenho certeza que ele não quer.’

‘Então é simplesmente ele não realizar o teste e pronto!’ Terra falou abrindo os braços ao lado do corpo.

Aeon balançou a cabeça de leve. ‘Não é tão simples assim. Não tenho dúvidas que Shaolin passará no teste se não existir uma intervenção.’

‘Por que diz isso?’ Terra argumentou.

Aeon olhou para as cartas que estavam próximas a eles, desviou os olhos para Luz e Trevas que apesar de fracas, por oferecerem tanto sangue a Kasumi para que a transformação fosse mais eficiente e rápida, estavam perto das outras também receosas pela vida tanto da menina quanto de Shaolin.

Ele voltou a fitar Kasumi. ‘Shaolin foi Azrael. Ele já desceu… vocês devem ter o conhecido por Samael que foi o nome que ele adotou no mundo das trevas.’

As cartas se entreolharam. Algumas sabiam de quem se tratava, outras não. Eram apenas histórias… lendas como tantas do Mundo das Trevas.

‘Isso foi a muito tempo atrás.’ Aeon continuou. ‘Eu mesmo apenas ouvi histórias sobre Azrael, não o conheci quando eu era um arcanjo. Mas sei que ele resolveu ir para o plano inferior assim como o Mestre para obter um corpo físico, já que não permitiram que ele encarnasse num corpo humano.’

As cartas se entreolharam, algumas cochichavam umas com as outras.

‘O que eu soube é que ele caiu por amor a uma humana que havia se transformado num demônio. A Primeira humana criada pelo Pai Maior junto com Adão. Existem inúmeras histórias sobre eles… a maioria não se sabe se são verdadeiras ou não. Para mim, eles apenas queriam ser deixados em paz. Soube que quando eles finalmente tiveram um filho, foram obrigados a reencarnar.’

‘Eles tiveram um filho? Um demônio?’ Bosque perguntou perplexa. ‘Como pode existir um demônio filho de uma ex-humana e um ex-anjo? Isso… Isso é lenda!’

Kagami mordeu de leve os lábios, tensa e apertou mais forte Kasumi entre seus braços.

‘Khala’a…’ Finalmente ela respondeu e soltou um suspiro sabendo que todas a observavam. ‘Encontrei Khala'a vagando pelo mundo das trevas quando ainda era um bebê e engatinhava apenas, tinha uma energia enorme em torno dela que fazia com que os predadores se afastassem. Nunca perceberam como apesar de ser um demônio, Khala’a nunca matou nenhum inimigo sempre tentando argumentar ou negociar em vez de simplesmente eliminar? Estão todos vocês vivos justamente por conta disso. Diferente de Ilska e outros que mataram seus inimigos logo depois de beberem seu sangue.’

As cartas se entreolharam, nervosas. Flecha se aproximou passando por entre elas e encarou Kagami. ‘Você tem razão. Não existiu nunca um grupo de demônios como o nosso no mundo das trevas. Khala’a era nossa líder, mas sempre se colocou a frente para nos proteger, inclusive, foi ela quem se ofereceu para voltar ao Mundo das Trevas com a Mestra. Ela não era um demônio comum. Era esperta demais. Tinha o dom do convencimento. Não foi a toa que se tornou uma das mais fortes, mesmo não sendo a mais violenta.’

Brilho voou planando a frente do rosto suado de Kasumi e depois voltou-se para as companheiras. ‘Então… Khala’a é filha de Shaolin com esta humana que virou demônio?’

‘Não… Filha de Samael com Lilith. A única filha que eles tiveram e que lhes foi arrancada. Por isso decidiram aceitar a reencarnação. O Plano superior estava com receio de que… enfim… que isso pudesse ocasionar um desequilíbrio enorme entre os dois planos.’ Aeon explicou. ‘Isso foi o que eu soube quando ainda era um arcanjo. São história que não posso confirmar.’

Kagami encarou Aeon. ‘Mas eu posso. A história é verdadeira. Cuidei de Khala’a até ela crescer o suficiente para se tornar independente.’

‘Então conheceu Shaolin antes, Espelho?’ Terra perguntou com o tom sério.

Ela balançou a cabeça negando. ‘Não. Mas…’ Abriu um sorriso de leve e passou a mão no rosto de Kasumi, fitando-a com carinho. ‘Eu me lembro quando Khala’a era apenas uma menina… suas atitudes, seu temperamento… era muito parecido com o de Shaolin… e o olhar desconfiado dela…’ Abriu o sorriso mais ainda balançando a cabeça de leve. ‘Era igual ao de Kasumi. Não é a toa que a jovem Marie tinha tanto receio de Kasumi, principalmente quando esta lhe dava uma ordem ou olhava para ela sério.’ Kagami levantou o rosto e fitou as companheiras. ‘Ela sabia no fundo que estava falando com a mãe dela e a respeitava como tal.’

Bosque abaixou-se, ajoelhando-se a frente de Kagami. ‘Kasumi… foi Lilith?’

Kagami confirmou. ‘Tudo leva a crer que sim. Nenhum ser humano é capaz de mudar sua natureza sem morrer. Lilith sobreviveu porque foi a primeira alma feminina criada pelo Grande Espírito. O poder de adaptação dela e a força de vontade para sobreviver dela é acima de qualquer outra alma criada.’

Bosque fitou a menina que estava entre os braços de Kagami, gemendo de dor encolhida. ‘Acha que ela sobreviverá?’

Kagami fitou a companheira nos olhos. ‘Ela é a única capaz disto.’

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Syaoran olhava para a esposa que estava conversando com Shaolin e Anna. Dava para perceber que a aura dela estava agitada e realmente estava preocupado pela possibilidade de reaparecerem quaisquer manchas na aura da esposa. Estava prestando atenção justamente nisto e constatava aliviado ao perceber que apesar da agitação, Sakura estava com sua presença forte e brilhante.

Kazuo parou ao lado do pai. ‘Ele vai ter mesmo que fazer isso, não é?’

‘Vai.’ Syaoran respondeu tão incomodado quanto o filho mais velho.

‘Não seria melhor dar mais tempo para ele? Shaolin tenta disfarçar porque é um pirralho metido pra caramba, mas ainda está com dor.’

Syaoran soltou um suspiro. ‘Eu sei… Ele mente muito mal. Mas ele está certo em querer terminar com isso de uma vez. No fundo, é uma droga constatar que ele decidiu o mesmo que eu faria.’

Kazuo balançou a cabeça de leve. ‘Ainda não entendo porque ele precisa fazer isso. Shaolin é teimoso demais.’

Syaoran bateu de leve no ombro do filho mais velho. ‘Existem coisas que simplesmente devemos enfrentar.’

‘Se ele não voltar, Oyaji?’ Kazuo perguntou com a voz falhada.

‘Vou atrás dele.’ Syaoran respondeu. ‘Assim como iria se você mantivesse aquela ideia estúpida de voltar para o Mundo das trevas.’

Kazuo assentiu com a cabeça pensando que provavelmente se juntaria aos pais atrás do irmão.

‘Vou tentar controlar sua mãe. Ela vai enlouquecer os Assakuras…’ Syaoran falou afastando-se do filho para falar com a esposa.

Kazuo observou o pai se afastando e sorriu de leve. Inclinou a cabeça, observando Sakura. Ainda era difícil realmente acreditar que ela era sua mãe.

Sentiu quando Marie parou ao seu lado e sorriu de leve. Olhou de esguelha para ela. Sentiu quando ela segurou a mão dele e entrelaçou os dedos.

‘Ele vai voltar.’ Ela falou reparando na aura agitada do rapaz.

‘Ele não está bem. Está se fazendo de forte, mas está com dor e bem triste.’

Marie observou o primo que sorria para eles. Provavelmente constatando que eles tinham se acertado. ‘Ele está tentando disfarçar.’

Kazuo apertou os dedos entrelaçados aos de Marie. ‘Não vou me perdoar se ele não voltar.’

‘Ele prometeu isso para você.’ Ela o lembrou.

‘Mas pelo jeito… ele não é muito bom em cumprir promessas.’ Replicou sem tirar os olhos do irmão. ‘Se ele não voltar, vamos atrás dele.’ Disse decidido.

Marie sorriu de lado. ‘E você realmente acha que a pirralha gulosa vai deixar?’

Kazuo franziu a testa e virou o rosto, finalmente encarando-a.

Marie ainda tinha o sorriso presunçoso nos lábios. ‘As humanas são como os demônios femininos… Quando elas escolhem, são mais terríveis do que se imagina.’ Marie voltou a fitar o primo. ‘Ele é mesmo muito ingênuo achando que Kasumi-chan vai simplesmente aceitar que ele não volte. Não depois de tudo que ela passou para estar com ele.’ Ela soltou um suspiro. ‘Além disso…’ Balançou a cabeça de leve. ‘Sakura-ba-san não vai deixar simplesmente tirarem Shaolin-kun dela. Ela enlouqueceu quando soube sobre você…’ Fitou o rapaz com o rosto sério. ‘Acha que ela vai agir diferente agora?’

Kazuo ajeitou o corpo. Pensando assim, realmente era ingenuidade que tanto a mãe quanto Kasumi simplesmente aceitariam as coisas numa boa. A mãe foi atrás do pai no inferno, pelo que soube a tal Guardiã tinha se tornado imortal e só aceitou reencarnar para estar ao lado do irmão, abrindo mão de muita coisa.

‘Kasumi não pode fazer muito agora e okaasan… ela também não tem como interferir…’

‘Isso é o que vocês e os idiotas de asas que estão chegando acham…’ Marie falou fazendo um gesto com a cabeça apontando para os seres alados que se aproximavam. ‘Eles não perdem por esperar… Eles não tem ideia do que somos capazes de fazer…’

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Kasumi observava Khrisna a sua frente olhando-a com o rosto sério. A arcanjo não fazia questão de demonstrar que não gostava dela, mas isso não a intimidava. Já sabia muito bem como se defender deles, não foi a toa que sobreviveu a tantas investidas deles contra ela, tentando forçá-la a voltar para Adão.

‘Você o seduziu…’ Khrisna a acusou dando um passo a frente e a encarando. ‘Você é o próprio demônio que foi criado para tentar nós, seres celestiais.’

Kasumi franziu a testa e devolveu a encarada. Sabia que Azrael não conseguiria esconder por muito tempo o relacionamento deles. O Arcanjo estava cada vez mais inconformado em não poder tocá-la como queria. Ele tinha lhe falado no último encontro deles quando ele tentou beijá-la e não conseguiu que daria um jeito naquilo, mas não falou como. Apenas pediu que esperasse um pouco mais que ele voltaria. Daria um jeito para ficar ao lado dela.

Desviou os olhos de Krishna que a olhava com fúria.

‘Ele apenas me veio fazer algumas visitas e conversar comigo. Apenas isso. Não sei do que está falando. Sabe muito bem que entre humanos e Anjos não pode haver nada.’

Khrisna trincou os dentes de raiva. ‘Exatamente… e foi justamente por isso que ele decidiu cair. Você o enfeitiçou de tal maneira que o fez perder a razão e se juntar aos outros traidores do Pai Maior apenas para conseguir um corpo físico.’

Kasumi franziu a testa. ‘Do… do que está falando? Como assim Azrael caiu?’

A arcanjo a olhou incrédula. ‘Vai dizer que não sabia? Que não sabe onde ele está agora?’

Ela desviou os olhos do rosto bonito de Khrisna. ‘Ele disse que… que daria um jeito para ficarmos juntos…’ Voltou a encará-la. ‘Mas não me disse como. Pediu apenas para eu esperá-lo. E é isso que eu estou fazendo.’

‘Ele NÃO tem como voltar!’ Ela gritou. ‘Ele foi para o inferno!’

‘Inferno?!’

‘Isso! Se tornou um demônio para obter um corpo físico já que não aceitaram que ele reencarnasse. E tudo isso… é culpa sua!’ Acusou-a novamente. ‘Ele deve estar sofrendo horrores vivendo naquele lugar terrível por culpa sua! Porque você o seduziu como uma víbora.’

Kasumi deu alguns passos para trás atordoada. Colocou uma mão na cabeça sem saber direito o que pensar. Não poderia ficar sem ver Azrael. Mesmo que eles não pudessem se tocar, mesmo que não pudessem se amar, estar ao lado dele era a única alegria que existia em sua existência. Levantou o rosto e encarou Khrisna. ‘Vou atrás dele.’

You took my heart

(Você levou meu coração)

Deceived me right from the start

(Me enganou desde o começo)

You showed me dreams

(Você me mostrou os sonhos)

I wished they would turn into real

(E eu desejei que eles se tornassem realidade)

You broke the promise and made me realize

(Você quebrou a promessa e me fez perceber)

It was all just a lie

(Que tudo não passava de mentira)

‘Não tem como fazer isso.’

‘Aquele anjo idiota que me atacou de forma traiçoeira falou que eu estava indo para o Mundo das trevas, que estava abrindo uma brecha para lá. Então eu sei que eu posso e era isso que vocês tinham medo que eu fizesse. Diga-me como posso fazer isso.’

Khrisna piscou algumas vezes olhando abismada para Lilith. ‘Vo-você tem certeza?’

‘Claro! Vou buscar Azrael.’ Ela respondeu de forma convicta. ‘Apenas me diga como, por favor.’

A arcanjo solto um suspiro desolado. Sabia que estava traindo seus semelhantes ao contar para a humana aquilo, mas não conseguia aceitar que Azrael simplesmente tinha caído por ambição e luxúria como todos falavam. Ele amava aquela humana. E sinceramente, ela não conseguia entender porque o amor deveria ser considerado um pecado daquela forma. Voltou a fitar Lilith. ‘Eu vou lhe contar, mas saiba que não há garantias nenhuma que irá conseguir sobreviver.’

‘Eu vou arriscar.’ Ela falou decidida, encarando Khrisna. ‘Se eu não puder trazer Azrael, eu prefiro ficar com ele no inferno do que sozinha aqui.’

Khrisna assentiu com a cabeça. ‘Então… preste atenção às minhas palavras…’

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Shaolin observou o pai e a mãe que ainda conversavam com os Asakuras.

Balançou a cabeça de leve agradecendo internamente pelo senhor Asakura ter voltado, pois a mãe estava enlouquecendo-os com perguntas que ele simplesmente não teria como responder.

Ela simplesmente não conseguia aceitar o fato que era só ele tocar na chave e pronto. Simples assim. Tinha tentado convencer a mãe a não estar presente, mas quem disse que ela tinha aceitado.

Olhou para o lado, vendo Gabriel aparecer com Miguel ao seu lado. Era impressionante a mudança de comportamento do anjo quando estava acompanhado do seu supervisor.

Sakura virou-se para os seres celestes com o rosto sério. Syaoran fez o mesmo e ainda colocou uma mão no ombro do filho.

Kazuo respirou fundo, observando os seres celestes. ‘Acho que preciso falar com aquele anjo idiota sobre Arthas.’ Ele comentou para Marie.

A jovem franziu a testa de leve. ‘O que tem o grandão feioso?’

‘Vou ficar por aqui, Marie. Não tenho mais motivos para voltar àquele inferno. E não tem como o Arthas ficar aqui comigo.’

Ela meneou a cabeça. ‘Não seria uma vida fácil para ele. Aqui seria um lugar em que ele poderia até ficar. Os xamãs não parecem se importar muito com a natureza dele, mas é uma pousada. Ter um demônio feio como ele por aqui não vai atrair muitos hóspedes para a senhora Asakura.’

Kazuo sorriu de leve. ‘É, não tem muitas opções. Não é certo também ele ficar preso a algum lugar.’

‘O ego dele não permitiria que ele ficasse “preso” em algum lugar.’ Marie comentou. ‘Talvez uma solução seria pedir para Sakura-ba-san fazer o que Clow-sama fez com as cartas.’ Ela falou e soltou um suspiro. Não era uma solução na verdade.

Kazuo olhou para a namorada que tinha os olhos tristes. Passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto dele e beijando a testa dela com carinho.

‘Okaasan nunca faria isso. Ela já se sente incomodada demais por não ser capaz de dar mais liberdade ainda para as Cartas. Não conseguiria aprisionar o Arthas e nenhum outro ser.’ Ele falou. ‘E, sinceramente, Marie. Acredito que nem seu pai pensa mais nesta possibilidade.’

Ela sorriu para ele e o abraçou pela cintura. ‘Eu tenho absoluta certeza que não. Ele não é Clow-sama.’

‘Então…’ Ele falou, voltando a olhar para os anjos. ‘Talvez a melhor solução para o Arthas seja, exatamente, o que ele tinha recusado antes: reencarnar.’

Marie concordou com a cabeça. ‘É uma solução. Mas se ele não aceitou antes, por que acha que ele aceitaria agora?’

‘Ele disse que agora não tem mais nada que o prenda ao mundo das trevas.’

Ela se afastou dele e o encarou. ‘Antes ele tinha você, né?’

Kazuo sorriu de leve. ‘Sim. Exatamente isso.’

Ela soltou um suspiro e voltou-se para os anjos. ‘Acho que é uma boa você conversar com Gabriel agora. Logo, tudo será resolvido.’

Kazuo concordou com a cabeça. Afastou-se da namorada e pegou a mão dela. ‘Vamos?’

Ela sorriu, assentindo com a cabeça. ‘Vou com você para ter certeza que não vai dar um soco em Gabriel-baka.’

‘Ele bem que merecia um soco. Ele e o outro.’ Kazuo retrucou. ‘Mas eu até deixo passar.’ Soltou um suspiro. ‘Eu só quero que isso termine, Marie. E quero voltar para casa com a minha família completa. Só quero que Shaolin volte desta maldita última chave.’

‘Eu também. Vamos lá, então, falar com Gabriel-baka.’ Ela falou, seguindo com o namorado para falar com o anjo sobre Arthas.

~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~

Shaolin observava o irmão se despedindo de Arthas. Sorriu de leve e baixou os olhos, fitando o chão. Quando tinha entrado na cabeça do irmão sem querer e revivido todo aquele inferno pelo qual o rapaz passou, lembrava-se muito bem que a única criatura que realmente deu apoio para irmão, mesmo que de forma desengonçada e bronca, tinha sido o grandão.

Dava para perceber que Kazuo estava triste por saber que não o veria novamente, mas sabia que seria o melhor para Arthas. Principalmente, uma vez que o grandão já tinha decidido não voltar mais para o mundo das trevas. Também percebeu que o mundo com os humanos seria complicado. Seria melhor finalmente tomar coragem e encarar uma reencarnação.

Olhou o pai, agradecendo de forma sincera ao grandão por ter cuidado do filho como pôde e, até mesmo a mãe o tinha abraçado, fazendo o demônio desengonçado disfarçar as lágrimas que se formavam em seus olhos e que ele bravamente reprimia.

Sentiu quando Kero pousou no seu ombro direito, observando-os. ‘Não vai se despedir dele, Kero-chan?’ O menino falou sem desviar os olhos de Arthas.

Kero cruzou os braços incomodado. ‘Eu não. É uma boa esse olho grande cair fora. Não aguentava mais ficar disputando comida e doces com ele.’

Shaolin sorriu de leve, percebendo a mentira do guardião. ‘Para de ser bobo. Nos últimos dias você e ele estavam bem camaradas.’

‘Eu sou uma criatura mágica belíssima e imponente. Nunca seria camarada de um bicho feio como este.’ O bichano rebateu.

‘Você está mentindo.’ Shaolin falou de forma firme. ‘Eu consigo perceber que você está triste. Vai lá se despedir ou pode ser que você se arrependa depois.’

Kero levantou voo e plainou em frente ao rosto do garoto, franzindo a testa de leve. ‘Você tem que tomar cuidado com isso, Shaolin-kun.’

‘Eu sei, mas é inevitável. Ele já está indo.’ Disse, fazendo um gesto em direção ao grandão.

Sorriu ao ver Kero transformar-se em sua forma original e estufar o peito, aproximando-se de Arthas e tentando mostrar indiferença, mas logo estava abraçando o grandão de forma exagerada como tudo que fazia sempre.

Reparou que Arthas virou-se para ele e acenou de leve com a cabeça. Shaolin retribuiu o cumprimento. Em seguida, Gabriel e ele desapareceram da vista de todos.

Olhou novamente para os pais e sorriu de leve, tentando passar confiança para eles. Mais atrás estava Miguel parado, com o rosto sério, olhando para ele. Parecia que estava esperando algo. O quê, exatamente, o menino não sabia. Franziu a testa encarando-o, alguma coisa fazia com que ele simplesmente não gostasse de vê-lo. Verdade que estava agradecido por ele “cuidar” de certa forma de Kasumi. Estreitou os olhos nele, o problema que ele tinha a impressão, depois que Kasumi lhe contou o que estava acontecendo quando se encontraram, que aquele “cuidar” não era algo bom. Ele sabia que era ciumento e tentava controlar-se com relação a isso, mas alguma coisa dentro de si lhe avisava que era muito melhor aquele Arcanjo longe da namorada… Longe dele.

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Miguel fitou o garoto que o encarava de maneira demorada. Percebia no fundo, mesmo que ele não tivesse suas memórias ainda, o olhar muito parecido com que ele lhe olhou quando se encontraram no inferno. Lembrava-se de forma clara as ameaças dele em cortar-lhe a língua e fazê-lo arrepender-se do que havia obrigado ele e a ex-humana a reencarnarem separados. Queria os dois longe um do outro ao máximo. Azrael tinha certa razão, não deveria ter agido daquela forma, não deveria ter insultado a mulher com que ele havia escolhido para ser sua companheira. Mas os rumores eram os piores! Esperava sinceramente que um dia, tanto ele quanto Kasumi, o perdoassem.

Shaolin sentiu a mão do pai sobre seu ombro direito e quebrou o contato visual com Miguel para voltar-se para Syaoran.

‘Está tudo bem?’ Syaoran perguntou, percebendo a aura agitada do filho encarando o arcanjo.

Shaolin deu um longo suspiro, pensando que era melhor terminar logo com tudo e voltar para casa. ‘Não é nada. Melhor terminar logo com isso.’

Pai e filho caminharam em direção ao casal Asakura que apenas esperava o garoto tomar a iniciativa.

Syaoran parou ao lado de Sakura e segurou a mão dela, entrelaçando dos dedos ao da esposa. Tentava passar segurança para ela. Segurança esta que pela primeira vez ele infelizmente não tinha totalmente. Preferia mil vezes que tivesse que ser obrigado a voltar para o inferno a observar o filho decidir algo que poderia colocar a vida dele em risco.

Yoh Asakura estava sorrindo para ele, de forma encorajadora. Já a senhora Asakura estava séria, mais séria que o normal, inclusive. Na verdade, todos os xamãs andavam bem ressabiados com ele desde que voltaram. O amigo da mãe, o senhor Tao, trocou algumas palavras com ele apenas para verificar se ele realmente estava vendo Bason, o seu espírito guardião.

Ele falou sobre o senhor Chocolove e o chinês quase morreu de rir quando o garoto falou que o xamã o havia ensinado a perceber melhor seus poderes. Ren Tao, para espanto de Shaolin, respeitava muito o senhor Chocolove, mas dava para ver que se sentia um pouco incomodado pelo jeito dele. Kazuo também o achou excêntrico demais.

Na verdade, os xamãs não se espantaram muito do que contou sobre o senhor Chocolove, mas custaram um pouco a acreditar quando o menino falou que ele tinha lhe dado um curso rápido de xamanismo. Falaram que ele teve foi sorte de principiante e que o próprio nível de magia e energia foi o que proporcionou seu retorno ao corpo.

Shaolin, entretanto, sabia que devia muito ao senhor Chocolove. Foi o protetor da chave mais legal que tinha encontrado. No final, não é que o xamã tinha realmente feito com que entendesse o poder dos ventos do riso. Apesar dele ser um péssimo comediante.

Franziu a testa de leve, vendo que os xamãs mantinham-se um pouco mais afastados, observando-o também. Não sabia se estavam esperando alguma coisa ou se estavam apenas curiosos. A energia que envolvia-os era diferente. Precisaria de um pouco mais de tempo para conviver com eles e entendê-la.

Encolheu os ombros, não gostava muito de ser o centro das atenções e parecia que agora todo mundo estava olhando para ele. Bem, com mais gente por perto, quem sabe a mãe não se sentiria mais tranquila?

‘Estou pronto.’ Ele falou de forma decidida, fitando a senhora Asakura que estreitou os olhos nele antes de tirar o colar de contas do pescoço.

Shaolin reparou que ela apertou de leve o colar nas mãos e olhou para o menino de forma mais demorada. Ela assentiu de leve, parecendo ter encontrado o que quer que estivesse procurando em seus olhos, e estendeu-lhe o colar. Shaolin respirou fundo. Era a última e, então, tudo terminaria.

“De um jeito ou de outro,” pensou antes de levantar as mãos, pegando com cuidado o colar das mãos da senhora Asakura.

Arregalou os olhos de leve, percebendo que o colar de contas havia aumentado de tamanho e soltou-o, por reflexo, observando-o circular o seu corpo de forma rápida enquanto as contas brilhavam de forma cada vez mais intensa, obrigando-o a fechar os olhos devido a forte luminosidade.

A última coisa que viu, antes de ser obrigado a fechar os olhos, foi a mãe dar alguns passos em sua direção com o rosto preocupado.

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Kasumi observou o cálice com o líquido viscoso a sua frente. Desviou os olhos e viu a esfera multicolorida atrás da figura exótica que lhe estendia o cálice com um sorriso irônico nos lábios.

‘E então, Lilith?’ Ele perguntou chamando sua atenção. ‘Se juntará a nós?’

Ela solto um suspiro irritado. ‘Não caminhei por tanto tempo as margens daquele maldito mar de águas salgadas para nada. Não vou desistir.’

‘Mas não confia em mim, não é minha cara?’

Ela o olhou desconfiada. ‘Você resolveu cair por que?’

Ele aumentou o sorriso irônico. ‘Simplesmente porque não aceitei as ordens do que se diz Pai Maior, mas que não nos dá liberdade para vivermos como queremos.’ Ele encolheu os ombros de leve. ‘Sou criação dele, mas não quer dizer que sou obrigado a pensar como ele. O livre arbítrio também deve ser considerado para os seres celestes, como para todos, não?’

‘Acho que sim… Cada um sabe de si.’

‘Exatamente.’ Ele falou assentindo com a cabeça. Olhou para o horizonte e fez um gesto para que ela se virasse e assim ela fez. ‘Está vendo este universo que ele criou e o qual você pertence… existem vários outros. Alguns melhores, outros piores. Então ele resolveu criar vocês para populá-los. Deu a vocês o livre arbítrio que não permitiu a nós. Os humanos podem ser tentados, podem fazer várias escolhas, algumas boas, outras ruins… eles decidem… depois…’ Encolheu os ombros de leve. ‘Quando a casca humana já não existe mais e a alma volta a ficar livre, se decide se ela tem uma nova chance para reencarnar, ou se deve ser entregue a mim.’ Kasumi virou-se para ele com o olhar interrogativo. ‘Você e Adão foram apenas os primeiros. Ele criou muitos e muitos outros.’

‘Humph.’ Ela murmurou. ‘Adão era um idiota.’

Ele sorriu novamente. ‘Exatamente. Não foi a toa que foi expulso de onde estavam.’

Ela soltou um suspiro. ‘O que aconteceu com ele não me interessa. Quem eu quero encontrar soube que foi obrigado a cair pois recusaram que ele encarnasse num corpo humano como eu.’

Ele assentiu com a cabeça. ‘Sim… Meu antigo companheiro Azrael. O anjo da morte.’

‘Então sabe onde ele está.’

‘Sim…’ Ele concordou. ‘Mas você possui um corpo humano, não há como sobreviver no Mundo das Trevas. Os humanos podem viver entre os planos. Nos múltiplos universos possíveis. A única forma de você conseguir sobreviver ao atravessar aquela brecha…’ Ele apontou para a luz multicolorida. ‘É através da transformação do seu corpo, porém confesso que eu mesmo não posso lhe dar garantias que ao beber o meu sangue sobreviverá. Entre os demônios isso é comum, é assim que os poderes são passados de um para os outros. Mas realmente não sei se o princípio se aplica aos humanos.’

‘Por que está me ajudando? Quem é realmente você?’ Ela perguntou encarando-o.

Ele desviou os olhos dela por alguns segundos e depois voltou a fitá-la. ‘Meu nome é Lúcifer. Fui o primeiro a me rebelar… mas diferentes do que muitos podem pensar…’ Ele inclinou a cabeça de leve observando-a. ‘Para existir o plano superior é necessário que exista uma base. Apenas sou o representante de uma opção, assim como o Pai Maior é outra. Cada alma é que decidirá para onde quer ir, ou onde possui mais afinidade. O positivo e o negativo. Eu!’ Ele abriu um sorriso genuíno. ‘No fundo, me considero o equilíbrio daquele que é o Pai Maior.’

Kasumi o observou em silêncio. Desviou os olhos e observou sobre o ombro esquerdo a bela paisagem do lugar que estava pronta para dar as costas talvez de forma definitiva.

‘E então, Lilith… Qual é a sua escolha?’

Could have been forever

(Now we have reached the end)

Poderia ter sido para sempre

(Agora nós chegamos ao fim)

Ela voltou-se para ele, aproximou-se sem receio e o encarou nos olhos. Khrisna havia lhe falado que os demônios eram seres horríveis e tal, ela estava a frente de um ser a sua semelhança, ou melhor, a semelhança de Adão.

Tinha olhos azuis claros e cabelos loiros como o sol. Sentia que a energia em torno dele era diferente das dos anjos. Ela temia os anjos, então algo oposto aos seres celestes não era exatamente o que lhe dava medo.

Levantou a mão, pedindo de forma silenciosa o cálice com o sangue dele que havia oferecido a ela. Tinha tomado sua decisão. A questão nunca foi o certo ou o errado. O bem ou o mal. Seu caminho seria sempre seguir as escolhas do seu coração.

Levou o cálice à boca e tomou o líquido viscoso de uma só vez, logo sentiu aquela dor dilacerando pelo corpo. Deixou cair o cálice no chão e se ajoelhou encolhendo-se e tentando desesperadamente controlar aquela maldita dor que parecia que explodia todo o seu corpo. Não conseguiu evitar que um grito de dor saísse de seus lábios. Tinha que ser forte. Tinha que ir ao encontro de Azrael.

This world may have failed you

(Esse mundo pode ter abandonado você)

It doesn't give you reason why

(Isso não justifica o porque)

You could have chosen a different path in life

(Você poderia ter escolhido um outro caminho em sua vida)

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Kasumi abriu os olhos, sentia ao corpo todo dolorido, a cabeça latejava e sentia como todas as células do seu corpo estivessem explodindo.

‘Kasumi?’ Ouviu a voz preocupada de Kagami e sentiu ela segurando seus ombros para não cair novamente no chão.

Kagami levantou o rosto e fitou Aeon que observava com o rosto tenso para a menina. ‘Kasumi… você me ouve?’ Perguntou com o rosto preocupado. Desviou os olhos de Aeon que observou Trevas e Luz que ainda estavam amparadas por algumas companheiras. Elas tinham cedido sangue demais para a menina. Precisariam de um tempo para se recuperarem.

‘Eu estou pronta.’ Kagami ouviu a voz sussurrada de Kasumi que afastou delicadamente as mãos dela de seus ombros e levantou o rosto. Kagami engoliu em seco, observando os olhos que antes eram tão inocentes, tornarem-se exatamente como os olhos dos mais temidos demônios do mundo das trevas.

Kasumi respirou fundo e levantou-se devagar. Ainda sentia o corpo tremendo levemente, mas sorriu de leve sentindo a magia circulando de forma violenta em torno de seu corpo agora não mais restrito ao invólucro frágil humano. A mesma sensação da primeira vez que havia feito aquela escolha. Com Murasame, foi transformando-se aos poucos… Não foi um processo tão dolorido e violento como da primeira vez e agora.

Kagami deu alguns passos para trás olhando abismada a menina ou melhor para a imagem da jovem a sua frente. Luz e Trevas sorriram satisfeitas observando-a, assim como as outras. Sabiam que ela conseguiria.

Aeon franziu a testa e pela primeira vez conseguiu deslumbrar verdadeiramente o poder da garota. Era mais forte do que o Mestre quando ele tinha a natureza das trevas. Kasumi, Akame, ou melhor, Lilith não era um demônio por acidente. Tinha aquela habilidade desde o início dos tempos, não era a toa que Miguel morria de medo dela. Pensou que tinha que ser rápido. Logo a presença dela chamaria a atenção. Era forte demais.

‘Você conseguiu subjugar Murasame. Acha que consegue subjugar dois artefatos das trevas aprisionados?’ Ele perguntou.

‘Onde estão?’ Ela perguntou e ele apontou para Escudo e Espada que estavam circulado pelas correntes mágicas impostas por Clow. Ela voltou-se para ele. ‘Por que preciso deles?’

‘A espada é um artefato das trevas, combinada a sua magia é capaz de você conseguir criar um rasgo entre os universos com a lâmina, separando as cordas. E então…’ Ele soltou suspiro. ‘Espero que chegue até Shaolin a tempo.’

Kasumi assentiu com a cabeça e caminhou até os dois objetos. Observando todas as outras criaturas mágicas afastarem-se. Sabiam que precisaria de uma força muito poderosa para quebrar as correntes que aprisionavam os dois objetos. Nenhuma delas era capaz de fazer isso, uma vez que estavam limitadas como cartas, mas Kasumi agora era um demônio livre.

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Miguel observava Shaolin envolvido pelas contas da xamã Assakura. Estava mais afastado do casal Li. Reparou que Sakura mostrava-se com a aura agitada agora e logo a viu questionando o marido.

‘Está demorando muito, não?’ Ouviu ela perguntar incomodada.

Reparou que Syaoran virou-se encarando-o pelo ombro direito. Sentiu-se incomodado e apertou de leve as mãos nos braços que estavam cruzados. Reparou que a aura dele também começava a se ficar agitada. Isso poderia ser perigoso, estava ali justamente para impedirem que fizessem uma intervenção e colocassem a existência de Azrael em perigo.

Observou o meio-demônio se aproximando do casal. Também agitado.

‘Oyaji, tem alguma coisa errada.’

‘Do que você está falando?’ Syaoran perguntou, olhando para o filho.

‘Sempre que ele ficava em transe, a presença dele não aumentava. Pelo contrário, ela diminuía. Tem alguma coisa errada.’ Kazuo repetiu, incomodado.

Miguel franziu a testa. O meio-demônio já tinha percebido. Droga!

‘Tem certeza?’ Syaoran perguntou nervoso.

‘Absoluta. Melhor tirar ele dali.’

A aura de Sakura agora explodiu, Miguel descruzou os braços e começou a se aproximar.

‘Ele falou que se tirássemos a chave da mão…’ Sakura falou nervosa. Fez uma breve pausa. ‘Ele não está com nenhuma chave na mão. Que droga que está acontecendo?’ Perguntou, aproximando-se do filho e desviou os olhos para Anna. ‘O que está acontecendo?’

Os Asakura se entreolharam e depois Anna fitou Sakura. ‘Não sabemos, apenas temos uma ideia.’

‘Mas já é alguma coisa. O que está acontecendo com o meu filho?’

‘A magia dele está crescendo de forma exponencial. As contas que estão ao redor dele estão retendo este poder. Se ele sair daí, o corpo dele não aguentará.’

‘Como é que é? Tira o meu filho daí, então!’

‘Ele só pode sair quando a magia dele diminuir.’ Anna respondeu. ‘E não é isso que está acontecendo, eu sinto muito.’

Sakura virou-se para Syaoran que também não sabia o que fazer. ‘Temos que dar um jeito de tirá-lo daí.’

‘Eu não sei o que fazer.’ Syaoran falou com sinceridade.

‘Syaoran… eu não quero perder um filho de novo.’ Ela falou entre os dentes. ‘Temos que tirá-lo daí.’

Miguel observou Syaoran materializando sua espada. Droga de humanos limitados! Por que não aceitavam a verdade e pronto?!

‘Afastem-se, eu vou cortar as contas.’ Syoran falou.

Miguel parou a frente de Syaoran e o encarou com o rosto sério. ‘Cortando a barreira você coloca a existência dele, tanto neste plano quanto no meu, em xeque. Fique calmo.’

‘Não dá para ficar calmo com um filho nesta situação.’

‘Tente!’ Ordenou. ‘Se estou me esforçando para isso, faça o mesmo.’

Syaoran franziu a testa e encarou Miguel. ‘Eu já falei… Ele é meu filho. Entendeu?’

‘Você é pai apenas do invólucro humano em que ele se encontra agora. Não vou permitir que coloque a existência dele em risco por medo.’

‘Eu já estou de saco cheio de você.’

Kazuo segurou o braço de Syaoran. ‘Fica frio, oyaji. Isso não vai resolver a situação do Shaolin agora.’

‘Se ele sabe tanto do plano superior, então por que não nos dá uma solução em vez de ficar só olhando para a minha cara?’

‘Porque não tem solução. Ele voltará para onde pertence. Apenas isso.’ Miguel respondeu a verdade e engoliu em seco quando sentiu a aproximação de Sakura e olhar dela fatal para ele.

‘Eu já tive um filho tirado de mim por um demônio, não vou permitir que um anjo agora me tire o outro.’ Ela falou entre os dentes. ‘Diga logo como eu faço para tirá-lo desta situação!’

‘Não cabe a mim decidir isso. Sei o meu lugar.’ Respondeu devolvendo a encarada dela. ‘A decisão é dele e do Pai Maior.’

Estava para impedi-la quando sentiu uma energia enorme explodir ao longe. Inferno! Conhecia aquela energia, não era possível que ela tenha conseguido elevar a magia daquela forma? Não como humana!

Syaoran e Kazuo, assim como os outros, perceberam a explosão da magia.

‘Que merda é esta?’ Kazuo perguntou e encarou o anjo que mostrava-se desorientado.

‘Vocês não fecharam a droga de todas as brechas?’ Syaoran perguntou em tom recriminatório.

‘Não é possível… todas as brechas… Elas foram fechadas.’ Ele tentou responder.

‘E como explica esta energia das trevas?’ Syaoran gritou com Miguel.

Sakura olhou para o marido. ‘O que é isso?’

‘É a energia de um demônio superior.’ Anna Assakura respondeu de forma calma.

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Tomoyo olhava enfurecida para o rosto da diretora da escola de Tomoeda que estava do outro lado da mesa. A senhora acabara de relatar a ela a atitude da filha.

Tomoyo tinha sentido um aperto no peito a quase uma hora atrás enquanto estava dando aula de canto. Como sempre seguiu sua intuição em tudo na vida, simplesmente parou a aula, finalizando-a antes do tempo e seguindo em direção a escola de Tomoeda para ver a filha. Precisava desesperadamente saber se a Kasumi estava bem.

Quando chegou na escola e pediu para chamarem a menina, foi solicitado que se encontrasse com a diretora e agora lá estava ela a frente da senhora que lhe relatava o acontecido.

‘Como assim ela saiu no meio da aula?!’ Tomoyo não conseguiu controlar a voz alterada e batendo as mãos da mesa. Inclinou-se em direção da senhora com o olhar perigoso. ‘Onde está a minha filha?!’

A diretora pigarreou. ‘Entenda Kurogane-san… Ela se levantou durante uma das aula e saiu desobedecendo inclusive ordens da professora.’

‘Kasumi-chan nunca faria isso sem motivo!’

A diretora ajeitou-se na poltrona sentindo-se desconfortável. ‘Bem… esta não é a primeira vez. Ela já fez isso junto com Li-kun e depois durante os terremotos a poucos dias atrás.’

‘Mas nunca sem um motivo!’ Tomoyo rebateu. ‘O que fizeram com a minha filha?! Na primeira vez foi quando o amigo percebeu que a mãe passava mal e soube que ela pediu licença no trabalho e na segunda vez…’ Ela abriu os braços ao lado do corpo. ‘Estava um caos a cidade!’ Abaixou os braços e fechou brevemente os olhos, tentando controlar a respiração e o nervosismo. ‘Kasumi-chan é uma menina responsável. Alguma coisa aconteceu. Não viram por onde ela foi? Para onde ela foi? Ninguém foi capaz de segui-la?! E os seguranças da escola?’ Fez uma pergunta em cima da outra atordoando a senhora.

‘Hum… soubemos que ela pulou a cerca do lado esquerdo da escola. O inspetor tentou chamá-la, mas ela não o ouviu e pulou afastando-se da escola.’

‘E ninguém foi atrás dela?’ Tomoyo perguntava aflita enquanto pegava o celular na bolsa e tentava ligar para o da filha. Como antes, dava desligado, não chegando nem mesmo a tocar. ‘Alguma coisa aconteceu! Eu tenho certeza.’ Falou e bateu no peito encarando a diretora. ‘Eu sinto que alguma coisa aconteceu com a minha filha!’

A diretora se levantou e fitou Tomoyo com os olhos também preocupados. ‘Todos nós estamos preocupados com ela. Ela é uma de nossas melhores alunas e nunca tivemos problema de indisciplina grave por parte dela.’

Tomoyo balançou a cabeça enquanto novamente ligava para o número da filha com a esperança do aparelho funcionar. ‘Tem algo errado… tem alguma coisa errada.’ Sussurrou.

Olhou para a senhora e fez um gesto com a cabeça. ‘Vou procurar minha filha. Ela não deve estar longe.’ Falou dando as costas para a senhora e caminhando decidida em direção a saída da sala. Logo caminhou pelos corredores, descendo as escadas com pressa e atravessando o portão principal da escola. Ligou para o marido.

‘Yuo!’ Ela chamou assim que o celular dele atendeu. ‘Aconteceu alguma coisa com Kasumi-chan. Ela não está na escola.’

‘Como assim ela não está na escola?’

‘Eu não sei… A diretora falou que ela saiu durante uma aula, pulou a grade e saiu caminhando pela calçada. Liga para o delegado… aquele que é seu conhecido…’

‘Calma, Tomoyo…’ Ele tentou falar, mas também se mostrava nervoso. ‘Vou fazer isso. Você está na perto da escola? A diretora falou quanto tempo ela saiu?’

‘A um pouco mais de uma hora atrás.’

‘Ela não deve estar longe. Acha que ela foi se encontrar com Shaolin-kun em Funbarigaoka?’

‘Talvez… mas…’ Ela reteve-se olhando de um lado para o outro da calçada em frente a escola. ‘Não sei, Yuo… estou com um pressentimento muito ruim… muito ruim mesmo…’

‘Vou mandar entrar em contato com a tal pousada em Funbarigaoka e ligar para o Delegado Koyabara. Nós vamos achar nossa princesa… Ela não deve estar longe.’

Tomoyo ouviu pelo telefone o marido já dando ordens para a secretária entrar em contato tanto com a pousada, com o delegado e já até falou para mandarem alguém para o terminal de ônibus e trem. Kurogane era um homem prático e inteligente, já estava pensando em todos os lugares por qual a filha poderia ter passado. Ela fechou os olhos e apertou mais forte o celular na mão.

‘Yuo…’ Chamou baixinho quase num sussurro, mas nada passava despercebido por Kurogane, principalmente alguma coisa relacionado a sua rainha e sua princesa.

‘Tomoyo… vamos encontrá-la.’ Ele falou tentando tranquilizá-la.

‘Estou com medo…’

‘Não tenha… Vamos encontrá-la.’

Ela acenou com a cabeça. Ficou um tempo em silêncio ouvindo ainda o marido dando ordens e soltou um suspiro. Sentiu o peito apertado e os olhos ardendo. Sabia que tinha algo errado com sua menina. Fechou os olhos e respirou fundo.

‘O templo…’ Sussurrou abrindo os olhos e virando-se para trás. ‘Eu vou ao templo Tsukimine.’

‘Onde?’ Ouviu o marido perguntar no outro lado da linha.

‘Ao templo. Vou desligar. Qualquer informação me ligue, por favor.’

‘Você vai ficar bem? Quer que eu vá encontrar com você.’

‘Não! Faça de tudo para encontrar Kasumi-chan…’ Orientou já caminhando de forma apressada para o templo. ‘Vamos encontrá-la… Vou desligar agora.’ Falou despedindo-se do marido e apressando mais ainda o passo em direção ao templo.

Praticamente correu em direção ao local religioso, quase empurrando as pessoas para que pudesse chegar o quanto antes. Assim que atravessou o portão principal olhou em volta e viu que ele estava deserto. Havia algo errado ali. Ela tinha certeza. Já havia sentido aquela sensação antes…

Caminhou de forma apressada olhando para os lados em busca de alguém quando estaqueou ao observar a sua frente um grupo de seres exóticos. Não lhe eram estranhos, apesar de nunca ter visto aquela criaturas tão diferentes. Porém arregalou os olhos e sentiu o ar lhe escapar pelos pulmões quando no meio deles, caminhando em direção a luz, reparou na jovem de longos que estava de costas.

‘Kasumi-chan!’ Chamou a filha e colocou-se em movimento em direção a ela, porém não conseguiu impedi-la de atravessar a luz e desaparecer através dela.

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Marie arregalou os olhos e virou-se, conhecia aquela energia. Colocou a mão na cabeça e fechou os olhos para que pudesse percebê-la melhor. Sim! Conhecia aquela energia… Pensou que nunca mais a sentiria novamente, na verdade, tinha já considerado certeza que nunca mais a sentiria, mas nunca havia esquecido dela. Nunca! Abriu os olhos sentindo-os arder e reparou quando sua própria magia circulava em torno dela mais forte.

Kazuo virou-se para a namorada, não entendendo o que estava acontecendo. Não sabia se preocupava-se mais com o irmão ou com Marie agora.

Ela virou o rosto e fitou Kazuo, abriu um sorriso enorme, tão grande e tão belo que ele pensou que nunca fosse capaz de ver. Era raro demais vê-la sorrindo, como via agora, pensou que seria impossível. Arregalou os olhos sem conseguir disfarçar a surpresa. Foi até Marie e tentou se aproximar, mas a energia que circulava em torno dela estava forte demais.

‘Marie?’ Ele a chamou. ‘O que está acontecendo? Que energia é esta?’

‘É dela…’ Ela balbuciou. ‘Eu tenho certeza.’

‘Dela?’

Ela assentiu com a cabeça ainda com o sorriso enorme. ‘É da minha mãe.’

The smile when you tore me apart

(O sorriso quando você me rasgou em pedaços)

Kazuo desviou os olhos da namorada e olhou para o horizonte reparando na energia do demônio superior.

Voltou-se para os pais que não sabiam o que fazer. Arregalou os olhos quando, assim como todos e principalmente Miguel, percebeu que em uma fração de segundos de forma completamente inexplicável a perigosa presença que estava ao longe, agora circulava dentro da barreira de contas que envolvia Shaolin.

‘Droga!’ Miguel esbravejou. Aproximando-se de Shaolin, mas Sakura segurou o braço dele com força olhando-o com fúria.

‘Fica longe do meu filho. Eu resolvo isso!’ Sakura falou de forma enérgica. ‘A decisão é minha. Ele é meu filho e eu decido o melhor para ele.’ Ela falou decidida, empurrando-o para se afastar. Aumentou a magia de forma estúpida e a mandala surgir aos seus pés. ‘Melhor se afastarem.’ Ela falou, contornando-o e se aproximando do filho.

‘Não faça isso!’ Miguel ainda tentou impedi-la, tentou se aproximar, mas Syaoran se colocou à frente dele, impedindo-o.

‘Deixe que nós resolveremos isso. É nosso filho.’

‘Não… vocês não entendem…’ O Arcanjo sentiu-se desorientado. Perderia novamente Azrael para o mundo das trevas. Droga! Pela segunda vez perderia um dos seus melhores soldados.

Syaoran encarou com o rosto sério Miguel. ‘Parece que quem não entende nada aqui é você! Afaste-se do nosso filho!’

Miguel tentou desviar de Syaoran, mas percebeu que não adiantava. A Magia que circulava em torno de Sakura era estrondosa. Como ela poderia ter uma força daquelas?

Sakura parou a frente do filho e estendeu a mão para tocar as contas que o circulavam. Reparou que a mandala do garoto apareceu aos pés dele de forma tão intensa quanto a dela.

‘Shaolin!’ Ela o chamou e o viu abrir os olhos, fitando-a. Sorriu de leve ao ver que ele estava voltando, mas franziu a testa quando a magia dele explodiu de tal forma a obrigá-la a dar um passo para trás. Arregalou os olhos, vendo as contas espalhando-se em todas as direções e não conseguindo mais ver o filho.

You took my heart

(Você levou meu coração)

Deceived me right from the start

(Me enganou desde o começo)

You showed me dreams

(Você me mostrou os sonhos)

I wished they would turn into real

(E eu desejei que eles se tornassem realidade)

You broke the promise and made me realize

(Você quebrou a promessa e me fez perceber)

It was all just a lie

(Que tudo não passava de mentira)

‘SHAOLIN!’ Sakura gritou.

‘AZRAEL!’ Miguel gritou ao mesmo tempo, olhando assustado para o que tinha acontecido.

Could have been forever

(Poderia ter sido para sempre)

Now we have reached the end

(Agora nós chegamos ao fim)

Continua.

Notas finais
Musica do Capítulo: Angels (Anjos) por Within Temptation