FEITICEIROS
80 A Chave da Verdade
FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 80
A Chave da Verdade
Shaolin abriu os olhos e franziu a testa. Diferente das outras vezes, estava em um lugar que parecia uma caverna, embora não conseguisse ver o teto dela. Sentia o cheiro da terra, da mata, da água, do fogo e, até mesmo, do ar.
Olhou para os lados e realmente constatou que estava no que parecia ser uma caverna e não no meio do nada como nas outras vezes.
À frente dele havia uma enorme coluna de luz contínua, intensa, belissíma. Não era exatamente como a luz que encontrou na caverna do universo do senhor Väktare. A que estava a sua frente era mais resplandecente, forte, maior, além de transmitir para ele algo diferente. Era como se estivesse dentro de um templo, em um lugar sagrado, um lugar que sabia que deveria respeitar.
Deu alguns passos a frente ainda sem entender o porquê o cenário havia mudado e, principalmente, procurando o “dono” da chave.
‘Olá?’ Chamou, caminhando devagar pelo lugar, olhando para os lados. Estranhou sua voz, franziu a testa e olhou para suas mãos. Novamente se viu parecendo mais velho. Passou a mão no rosto, constatando que realmente estava como se reconhecia nos escapes e sonhos com Kasumi… ou Akame… enfim… Com ela.
‘Sabia que conseguiria chegar até aqui, criança.’ Ele ouviu uma voz e olhou em volta, era difícil saber de onde estava vindo. Parecia que vinha de todos os lugares e reverberava dentro dele.
‘Quem está falando? Onde você está?’ Shaolin perguntou, franzindo a testa e ainda procurando por alguém.
‘Eu estou em todos os lugares. Em todos os seres. Em todas as energias.’
Ele franziu a testa e olhou para a grande fonte de luz a sua frente. ‘Você é esta luz na minha frente?’
‘Esta foi a forma que eu escolhi para me apresentar a você. Poderia aparecer na forma de um senhor de idade com longa barba branca, como os católicos gostam de me representar. Alguns preferem me representar através de uma pessoa que consideram meu representante para eles. Outros acreditam que estou nas estrelas, no Sol e até mesmo na Lua. E nenhum deles está errado, já que estou em todos os lugares, em todas as formas.’
Ele deu um passo a frente, olhando desconfiado para a fonte de luz. ‘Você é Deus?’
‘Alguns me chamam assim. Outros de Grande Espírito, ou ainda Pai Maior, Allah, Jeová, Elohim, Krishna, Abbá, Há'Shem, Enma Daiyoh, Rá, Brâman, Oxalá, Guaraci… São tantos nomes e tantas derivações…’
Shaolin endireitou o corpo e franziu a testa de leve, sentindo-se incomodado por estar à frente ou perto ou seja lá onde, exatamente, do ser ao qual todos, no final, um dia tentavam se aproximar.
‘Não se acha digno de estar na minha presença?’ Ouviu a pergunta como se seus pensamentos tivessem sido lidos.
‘É estranho… Há pessoas que almejam, intensamente, estar na Sua presença.’
‘Mas elas estão. Como eu lhe falei, estou em todos os lugares, em todas as criaturas. Estou perto de todos.’
‘É diferente…’ Ele falou, olhando para os lados. ‘Não sei, acho que existem pessoas que realmente gostariam de conversar com você… Com o Senhor… Diretamente. Fariam perguntas mais interessantes e inteligentes que eu.’
‘E você gostaria de me perguntar alguma coisa?’
‘Chocolove-sama me falou que, se eu chegasse até o final, eu estaria preparado para ouvir todas as respostas às minhas dúvidas.’
‘E você acha que está preparado? Ou apenas está considerando isso porque alguém lhe falou isso?’
‘Preciso de respostas.’ Ele respondeu decidido e encolheu os ombros de leve. ‘Sou curioso também.’
Ouviu uma risada leve. ‘Sim… Todos vocês são. É normal. A curiosidade faz com que procurem evoluir. É saudável quando usada com responsabilidade e para o bem.’
‘Acho que sim.’ Ele concordou e respirou fundo. ‘Eu gostaria de saber o que está acontecendo comigo...’
‘Como assim? Defina melhor o que você quer dizer com “o que está acontecendo comigo”.’
‘Hum… Eu consigo ler a mente das pessoas e ver a energia em torno delas…’
‘Heimdall já lhe explicou… Você sempre teve o dom de perceber os sentimentos dos outros. Sempre teve sensibilidade para entender o que se passava com o próximo.’
‘Peraí!!! O “de barba” me disse que eu conseguia perceber os sentimentos das pessoas. Eu nunca li a mente delas! Nunca revivi as lembranças delas! Isso é uma droga. Eu não quero saber o que os outros pensam.’
‘Isso é apenas um passo a mais da evolução do seu poder. Seres celestiais possuem o dom de “ouvir a mente” por isso são considerados operadores de milagres. Conforme você foi passando por cada teste de virtude, esses poderes que já existiam dentro de você foram liberados, potencializados em seu corpo humano. Nada você adquiriu de forma aleatória.’
‘Mas isso é invasão de privacidade, é desrespeito. Não é certo!’
‘Mas você usou este poder para descobrir a verdade sobre o seu irmão, não foi?’
Ele sentiu-se envergonhado, mas assentiu com a cabeça. ‘Foi.’ Respondeu por fim. ‘Eu sei que não deveria, mas foi isso mesmo.’ Franziu a testa, balançando a cabeça vigorosamente. ‘Na verdade, eu deveria ter feito, sim. O que aquela mulher, ou demônio, fez não foi certo. Nii-san não merecia isso, nem kaasan. Isso foi injusto com eles.’
‘Então você acha que consegue definir o que é justo ou não para as pessoas?’
‘Não é justo um filho ser criado longe de uma mãe carinhosa e amorosa.’ Ele falou sério. ‘Isso eu tenho certeza. E não é justo um filho ser retirado da mãe como nii-san foi tirado de kaasan.’
‘Interessante você falar isso. Porque eu sei que você chegou a pensar que poderia deixar de existir e sua mãe não se importaria.’
‘É diferente…’ Ele abaixou os olhos. ‘Não é que ela não se importaria… Só acho que…’
‘Sua vida vale menos do que a do seu irmão ou das outras pessoas, não é? Morrer para salvar os outros é completamente compreensível e justo, segundo o seu código de honra.’
‘Se alguma coisa acontecer comigo, eu sei que kaasan vai sofrer, mas agora ela tem Kazuo e tousan ao lado dela.’
‘E por que uma coisa se aplica a seu irmão e não se aplica a você? Vocês dois são filhos dela.’
‘Não é isso. Só acho que ele merece mais do que eu a atenção deles. É justo.’
‘Então você acha justo seu irmão ter a atenção exclusiva dos seus pais para ele…’
‘Sim… Já que eu tive antes. É justo.’
‘Para quem?’
‘Para Kazuo.’
‘E para seus pais?’
‘O que tem eles?’
‘É justo eles perderem um filho?’
‘Não foi isso que eu disse… O que eu estou dizendo é que agora eles têm o Kazuo.’
‘E não precisam mais de você, não é?’
‘Não é isso…’ Ele falou confuso. ‘Não é isso que eu estou falando.’
‘E o quê, exatamente, você quer dizer então?’
‘Você está me confundindo.’ Falou, incomodado. ‘Minha pergunta foi: por que isso tudo aconteceu? Tem que haver uma explicação para toda esta loucura!’ Abriu os braços ao lado do corpo olhando de forma desafiadora para a intensa fonte de luz.
‘Isso é uma longa história.’
‘Eu preciso entender.’
‘E acha que está preparado?’
‘Se eu perguntei, eu já pensei em todas as possíveis respostas.’
‘Inclusive a inesperada?’
‘Ela faz parte das opções.’
‘Bem… Tudo começou quando um meio-demônio com poderes de persuasão encontrou-se com um humano dotado de magia, muito erudito e muito curioso. Além de ser bastante arrogante. Eles acharam uma forma de chegar a um lugar onde sabiam que não deveriam ir, mas a curiosidade foi maior. E eles conseguiram abrir uma fenda por onde este meio-demônio passou. O humano entendeu, naquele momento, sobre a suas limitações e recuou. No entanto, ficou com tanto medo e tão culpado pelo que fez que tentou, desesperadamente, tomar atitudes para minimizar seu passo errado.’
‘Está falando o tal Shyrai-san e do Clow-sama, não é? Foi quando as Cartas… Isto é, os seres que depois Clow-sama transformou em cartas invadiram o nosso universo, não foi?’
‘Exatamente.’ Ele clarificou. ‘Shyrai, infelizmente, era um ser com muita dor e muito rancor. Poderia ter feito escolhas diferentes, mas a dor e a vontade de se vingar, fez com que simplesmente expandisse sua raiva para todos. Uma vez no Plano Inferior, ele persuadiu o Guardião daquele ciclo, o responsável por destruir as brechas, a não cumprir a sua missão. Era algo crucial para evitar que os espíritos inferiores, aqueles que ainda estavam aprendendo sobre os sentimentos, mas ainda não os possuíam, tivessem contato com os seres que já os possuíam. Tudo é uma questão de evolução, criança. Os espíritos precisam e procuram sempre evoluir, não para chegarem a mim, mas para conseguirem entender exatamente o que é a verdadeira felicidade. E sobre os seres… Realmente, sinto muito pelo que aconteceu com eles, mas fico feliz que, de um jeito ou outro, elas tenham conseguido aprender sobre sentimentos e conseguiram evoluir, apesar das limitações impostas a elas. Isso também foi considerado quando escolhemos o Pilar do Ciclo seguinte neste universo em particular.’
‘E por que essas brechas existem? Por que o Guardião das trevas precisava destruí-las?’
‘As brechas se abrem de tempos em tempos.’
‘Por quê?’
‘Ora, de que outra maneira, os seres menos evoluídos teriam oportunidade de fazer as escolhas que os ajudarão a evoluir?’
‘Mas, então, por que o guardião tem que destruí-las?’
‘Para que haja equilíbrio.’ Ele respondeu. ‘Por isso que acontece de tempos em tempos. Ciclos. Como tudo deve ser… A história do seu universo é feita de ciclos. Ciclos evolutivos, ciclos sociais, ciclos biológicos, ciclos econômicos, tudo são ciclos. Existe até mesmo uma teoria em que uma única vida é dividida em ciclos de sete anos. Percepção do eu, autoridade amada, crise de identidade, experimentar limites, fase organizacional, crise de autenticidade, altruísmo, abnegação e sabedoria. Um único ser é capaz de passar por vários ciclos em apenas uma vida, o que você acha que acontece com o todo, com a humanidade, com os universos?’
‘Então Shyrai-san interrompeu o ciclo quando simplesmente obrigou o responsável por destruir as brechas a não fazer isso? Por que não mandaram outro? Eu sei que há mais de um Guardião em cada ciclo. Existe um guardião das trevas para cada universo, não?’
‘Porque tudo que sai do equilíbrio, precisa de um tempo para se reequilibrar.’
‘E como conseguiu reequilibrar?’
‘Tivemos que esperar o próximo ciclo. Até lá, tomamos uma medida paliativa para evitar que as brechas transformassem tudo num caos. Entramos em acordo com alguns dos seres mais poderosos do mundo inferior para que protegessem estas brechas dos outros. Foi arriscado, claro… Por isso todos os Guardiões estavam alertas. Protegendo cada universo.’
‘Tousan foi um dos Guardiões, né?’
‘Sim, ele é. Ele sempre será. Faz parte de quem Syaoran Li é.’ Ele corrigiu. ‘Clow estava tão culpado e desesperado que procurou os detentores de magia na época e levou a questão para eles. Então foi decidido que mudariamos o próximo ciclo. O Pilar seria escolhido de forma diferente, ou melhor, a pessoa detentora deste poder extraordinário, que é parte do meu próprio poder, receberia este poder de forma diferente. Era um risco enorme. Então, para minimizar o perigo de entregar tal poder para alguém despreparado, a manobra que eu usei foi criar um par de almas gêmeas. Almas ligadas de maneira indiscutível, ligadas por um amor tão grande que se balanceariam. Um deles seria o Pilar e o outro o seu Guardião, que também seria, o Guardião escolhido para resolver a questão das brechas que ficou pendente do ciclo passado. Teria que ser uma pessoa de caráter inquestionável, com uma força de vontade sobre-humana, mas passível de falhas, como todos.’
Shaolin sorriu de leve. ‘Está falando de tousan e kaasan, né? Eles são almas gêmeas… Eles se amam tanto… Tanto… Que as auras mágicas se misturam o tempo todo. É muito bonito de se ver…’
‘Almas Gêmeas são raras. Normalmente evito que elas surjam, pois, assim como um dos seres pode ajudar o outro a evoluir, pode também causar a estagnação, ou mesmo, a regressão.’ Ele falou com calma. ‘Mas o caso de seus pais foi algo especial. Eles se equilibram de maneira perfeita. Não são perfeitos, como nenhum ser o é, mas procuram sempre evoluírem juntos.’
Shaolin respirou fundo ainda sorrindo de leve lembrando-se dos pais, mas fechou depois o sorriso e olhou sério para a fonte. ‘E por que foram obrigados a se separar tantas vezes? Tousan morreu, teve que ir para o mundo das trevas, voltou e depois foi obrigado a voltar para lá, separando-se de kaasan.’
‘Era esta a missão dele. Assim como seu pai equilibra sua mãe, sua mãe equilibra seu pai. Eu precisava que o guardião das trevas do próximo ciclo fosse incorruptível e, principalmente, persistente, pois eu sabia que ele teria uma missão muito, muito difícil. Ele precisava ser movido por uma grande força de vontade. Algo mais forte do que unicamente sobreviver ou finalizar uma missão. Ele sempre quis voltar, voltar para sua alma gêmea.’
Shaolin balançou o corpo de leve. ‘Isso foi golpe baixo.’
Ele ouviu uma risada leve. ‘Sei que pode parecer injusto, mas foi a alternativa mais conservadora. É verdade que o guardião correto deste ciclo seria de um outro universo, um guardião fenomenal, de um universo com grande proximidade ao mundo das trevas e que passou por vários obstáculos mas conseguiu manter sua mente sã o suficiente para distinguir sua missão maior que era defender os mais fracos. No entanto… também não contava no poder extraordinário que ele alcançaria, e era verdade que tanto Miguel quanto eu estávamos nos questionando se este mesmo guardião no final não seria um grande perigo no mundo das trevas quando destruiria todos os outros demônios mais fortes e provavelmente obteria o controle total.’
Shaolin estreitou os olhos na luz. ‘Está falando de Akame agora…’ Ele balançou a cabeça de leve. ‘É um absurdo pensar em mandá-la para o inferno.’
‘Por que?’
‘Porque ela já sofreu… tinha sofrido demais!!! Eu não poderia vê-la mais!’ Ele gritou irritado batendo no peito.
Shaolin desviou os olhos e tentou recuperar-se do descontrole. Nunca permitiria que Akame fosse para o Mundo das Trevas. Ficaram alguns segundo em silêncio. Ele trincou os dentes, concluindo o óbvio, como Akame não foi… Seu pai acabou indo.
‘Tousan foi a segunda opção.’
‘Para Miguel sim, para mim… sempre foi a primeira. Não podia correr o risco deste problema não ser resolvido neste ciclo... seus pais fizeram um trabalho excelente. Porém, eu não contava com o rapto do seu irmão no mundo das trevas e sabia das consequências que isso teriam no futuro.’
‘E por que não impediu?’ Ele falou, trincando os dentes. ‘Deveria ter impedido que aquela mulher fizesse aquele horror com kaasan e nii-san!’
‘Eu não tenho controle total. O livre-arbítrio é uma dádiva de todos os seres. Eu tento guiá-los, procuro minimizar as consequências de suas escolhas, mas não posso impedi-los. Cada ser é parte de mim e eu sou parte de todos, mas não posso impor minha vontade a eles.’
‘Então… sabia que kaasan não aceitaria quando descobrisse a verdade, né?’
‘Sim. Assim como também sabia que a possibilidade de Akame ser corrompida no Plano Inferior era muito grande.’ Ele respondeu de forma firme. ‘E foi aí que eu decidi finalmente entrar em acordo com você, Azrael.’
Shaolin estreitou os olhos na luz. ‘Azrael?’ Perguntou apenas para confirmar suas suspeitas.
‘Shaolin, Azrael, Tatsumi… Você já teve várias existências… Vários nomes… Mas é a mesma alma. O mesmo espírito forte.’
‘Que tipo de acordo?’ Tentou ser objetivo.
‘Sua mãe teve sequelas graves em sua alma por conta do ataque que sofreu, ela não teria condições de ter mais nenhum filho. A criança teria que ser especial. Teria que pertencer ao plano superior e foi então que você decidiu descer… E eu sou muito grato por sua atitude. Sabia que quando o tinha criado e, depois de todo o seu ciclo evolutivo, você não temeria cair como alguns de seus irmãos temem… Mas você nunca teve medo de cair, não é? Enquanto outros são tão reticentes em serem colocados a prova, você nunca duvidou do que realmente queria… do que realmente achava certo…’ Ouviu um suspiro. ‘Mas nunca imaginei que um sentimento entre “um homem e uma mulher” pudesse ser tão forte. Tão avassalador como o seu e dela.’
Shaolin sorriu de leve. ‘Akame… Ela… Ela é incrível…’
‘Desde o primeiro momento que você a encontrou ficou fascinado por ela. Realmente foi uma grande surpresa para mim… Estava obcecado por ela e, ela por você.’
Shaolin balançou a cabeça de leve. ‘Tatsumi… Eu morri faltando a palavra com ela e, principalmente, não tive coragem de falar o que sentia.’
‘Sim. Com o final de sua existência como Tatsumi, você foi digno de voltar a ser um guardião celestial e conviveu novamente com seus irmão. Gabriel, Raziel, Lyra, Miguel… e tantos outros.
‘Então por isso a impressão de os conhecer antes…’ Ele falou, pensativo. ‘Você falou em voltar a ser? Como assim?’ Ergueu uma sobrancelha.
‘O posto de guardião celestial é complicado, é um posto celeste bem próximo aos homens, principalmente no seu universo primordial que é um universo novo e muito próximo ao plano inferior. Onde demônios e humanos ainda disputam espaço nele. Miguel subestimou seu sentimento por Akame, a guardiã das trevas. Na verdade nós acreditávamos que um Guardião Celestial e uma Guardiã das Trevas mantivessem os sentimentos um pelo outro mesmo possuindo naturezas opostas.’
Ele fechou os olhos. ‘Era dolorido demais estar ao lado dela sem poder tocá-la. Vê-la passando por tantos desafios…’ Abaixou o rosto, tampando os olhos com o polegar e o indicador. ‘Só conseguia ajuda-la quando a luta eram contra seres das trevas… contra humanos…’ trincou os dentes com raiva. ‘Contra humanos tão ou piores que demônios... eu só podia assistir e me desesperar mais por ser inútil em não poder defendê-la.’ Ele levantou o rosto. ‘Não imagina o quanto foi dolorido…’ Deu um passo a frente com o rosto sério observando a fonte de luz. ‘Não tem ideia do quando foi agoniante e desesperador não poder fazer nada, além de assistir o que faziam com ela!’ Gritou sem conseguir controlar a raiva pelas poucas lembranças que havia tido.
‘Eu sei qual foi sua dor. Como lhe falei, estou em todos os lugares, inclusive dentro de você e dela. Sei exatamente qual era a sua dor, assim como qual era a dor dela e isso é o que mais me impressionava nela… Seres humanos quando percebem sua fragilidade se desesperam. Ela nunca se desesperava numa situação de dor ou perigo. Sua mente estava lúcida a fim de continuar com a missão. E justamente esta frieza analítica que ela adquiriu em sua existência como Akame a torna agora tão perigosa.’
Shaolin olhou para baixo e sorriu de maneira triste. Akame era tão fascinante… Era incrível vê-la combatendo e era simplesmente maravilhoso sentir o corpo pequeno dela entre seus braços. Mostrando a fragilidade dela apenas para ele.
‘Sua alma é nobre, criança.’ Ouviu, chamando sua atenção. Voltou a erguer o rosto. ‘Mas seus desejos acabaram por dominá-lo. Você tinha que resolver isso para continuar com sua evolução. Foi aí que aceitei seu acordo. Você cairia para resolver a questão do universo de seus pais. Ela desencarnou, finalmente, como Akame e reencarnaria próxima a você, como Kasumi Kurogane.’
‘Vocês fizeram isso para nos confundir. Para acharmos que éramos irmãos.’
‘Se sua mãe pudesse gerar outro filho, não hesitaria em colocá-los como verdadeiros irmãos. Não para confundi-los, mas para superarem este sentimento.’
‘Se o amor é o sentimento que sustenta a vida…’ O menino falou, inclinando a cabeça de leve. ‘Por que devemos superá-lo? Acho que o correto seria podermos vivê-lo.’
‘O amor que sente por ela sempre foi envolvido em desejo…’
‘E qual o problema disto? É o amor entre um homem e uma mulher que é possível gerar filhos, não?’
‘Exatamente… É um sentimento belo e importante… Para humanos.’
‘Então Demônios e Anjos não podem sentir amor? Demônios porque são seres incapazes de terem sentimentos e, por isso, estão no plano inferior e os Anjos devem ser capazes de não amar, incapazes de terem sentimentos e por isso estão no plano superior. Apenas os humanos é que possuem este direito divino de amar?’
‘De maneira simplificada, sim. Pois está confundindo amor com desejo carnal.’
‘Não importa! Talvez esteja certo, mas eu quero… Quero ser humano.’ Falou de forma franca. ‘Não quero perder a capacidade de amar. Sou feliz amando Kasumi, quero continuar amando-a.’
‘Abriu mão do amor que sentia por Akame na hora que tomou a decisão de morrer.’
Ele fechou os olhos e cerrou os punhos. ‘Eu tive que fazer uma escolha. Pensei que deixaria de existir quando morresse.’ Balançou a cabeça de leve. ‘Eu nem tive tempo direito para pensar e tomar uma decisão. Eu fiz o que Pedro definiu como mini-julgamento e executei a sentença dada para um assassino.’
‘E foi justamente por esta índole que você alcançou novamente o plano mais alto. Você não tem todas suas lembranças, mas posso garantir que sua ascensão foi difícil. Muito dolorosa, baseada em perdas terríveis, choque de realidade e auto-sacrifício… O mesmo auto-sacrifício que você decidiu fazer enquanto estava lutando contra o poder de sua mãe, não foi? Você sabia exatamente que estava na mesma situação de antes...’
‘As pessoas estavam desesperadas… Eu tinha que manter Tempo ativada. Sozinha ela não conseguiria estender daquela forma o poder dela, precisava estar apoiada na minha magia.’
‘O desespero dos outros sempre lhe foi angustiante… Já parou para pensar por que?’
Shaolin desviou os olhos. ‘Sei que passei por muitas experiências dolorosas e abomináveis pelo meu caminho. E que a maioria delas foram tragédias, mas este foi o caminho que escolhi. Escolhi fazer o trabalho sujo e mudar o mundo…’ Ele voltou a fitar a luz. ‘Eu não tenho problema nenhum em fazer o trabalho sujo, em fazer o que é o correto… Para as pessoas que não podem se defender!’
‘Seu amigo lhe ensinou isso não foi? Você sempre aprendeu rápido. Sempre teve humildade para ouvir o que seu pai lhe ensinava de maneira exaustiva em seu treinamento como Shaolin… Amadureceu rápido. Sempre manteve seu espírito aberto para aprender. Não foi à toa que passou por todos os testes.’
‘Por isso que eu tive que destruir as chaves, sendo testado daquela forma pelos donos delas?’
‘Sabia que as consequências em sua mãe pelo rapto do seu irmão seriam perigosas. Precisava de outro ser que pudesse equilibrar este poder. As chaves já existiam antes e elas eram perigosas com a instabilidade dos universos. Você decidiu cair e, como um ser celestial, conseguiu sobreviver, apesar das condições peculiares da sua mãe humana. Mas eu precisava que estivesse preparado no momento exato. Dei a você um poder extraordinário, uma missão extraordinária, precisava ter certeza de seu caráter, por isso ele foi testado. E você conseguiu passar por eles de forma esplêndida.’
Ele coçou a cabeça. ‘Não foi bem assim… As coisas não foram tão claras.’
‘Nunca são. Alguns anjos anteriormente falharam. Já tive situações parecidas, em outros universos, em que anjos caíram para executar uma missão, mas foram corrompidos. Existe a evolução e a regressão. Ciclos. Sempre ciclos. Um lado sobe, o outro lado desce.’
‘Mas Gabriel poderia ter sido mais claro em alguns aspectos com relação aos teste, não é?’
‘Você foi treinado de maneira correta. Não através de treinamento de defesa ou de magia, mas de caráter. Seus pais lhe passaram bons princípios e você soube assimilá-los de forma correta. Principalmente combatendo resquícios de suas vidas passadas. De todos os anjos candidatos para esta missão, você era o mais perigoso, pois estava vinculado ainda ao amor carnal por Akame. Arriscamos. O amor que sentia por ela poderia ser um perigo como também um estímulo. E, assim como o guardião sempre estaria procurando voltar para o lado do Pilar, você de algum modo sempre estaria procurando estar ao lado de Akame. Você e ela não são almas gêmeas, são almas que se escolheram e, talvez, por toda tragédia e dor que se abateu ficaram com este sentimento preso a suas almas.’
Ele sorriu de leve. ‘É estranho constatar de forma clara como eu a amo. Em como eu queria apenas estar ao lado dela. Meu único desejo sempre foi ser “normal” para estar ao lado dela… Queria apenas ser como os outros.’
‘Muitos não querem ser como os outros, querem ser especiais.’
‘Eu sou especial, para as pessoas que realmente são especiais para mim também. Não preciso ser especial para todos, não preciso ter aprovação de todos.’
‘Isso constata que você manteve seu caráter íntegro. E mostra a sua humildade. Agora está pronto para voltar ao seu plano de origem.’
‘Então é isso?’
‘É isso o quê?’
‘Eu vou destruir esta chave e vou embora… Para cima.’ Ele falou, apontando com o dedo para cima.
‘Não é isso que quer?’
Ele sorriu de forma irônica. ‘Você sabe que não. Pode ficar realmente me testando o quanto quiser, minha resposta sempre será esta.’
‘Você realmente já pensou no que está abrindo mão, criança?’
‘Quero voltar para casa!’
‘Gostaria de viver experiências humanas novamente?’
‘Acho que no meu caso, gostaria de viver o que não pude antes.’
‘Está abrindo mão de algo muito grandioso.’
‘Se eu não voltar para casa, aí sim, estaria abrindo mão de algo grandioso que está acontecendo entre mim e Kasumi.’ Ele falou e soltou um suspiro. ‘Além disso, gosto de ser Shaolin. Gosto de conviver com meus pais, com nee-san, quero conviver mais com nii-san, começamos a nos dar bem pouco tempo atrás… Gosto da minha vida como Shaolin.’
‘Entendo.’ Respondeu. ‘No entanto, se você falhar neste teste, não destruir esta chave, poderá até voltar mas sabendo o quanto o seu poder está elevado. Você será um humano com um poder de um ser celestial. Será testado o tempo todo por possuir um poder tão extraordinário, capaz de, por exemplo, manipular os outros. Saber todos os segredos dos outros. Você seria capaz de se controlar tanto assim? Os que não foram capaz de passar pelos testes e retornaram nem mesmo com o nível de poder que está agora, acabaram regredindo pois não controlaram de forma correta o poder que tinham, corromperam-se… caíram para o plano inferior.’
‘Então, o que você está dizendo é que eu não tenho escolha.’ Shaolin retrucou. ‘Ou eu destruo esta chave e vou para cima, ou não a destruo retorno com estes poderes?’ Perguntou de forma objetiva.
‘Exatamente. Mas como você mesmo constatou antes, seu irmão voltou para seus pais, eles tiveram a oportunidade de criar você como filho e, agora que ele voltou, não seria necessária sua permanência em um dos planos inferiores. E o ciclo finalmente se encerraria.’
Shaolin balançou o corpo de leve. Franziu a testa encarando novamente a luz. ‘Você sabia muito bem o porquê eu queria cair. Sabia dos riscos de eu não querer voltar.’
Ouviu uma gargalhada. ‘Realmente sabia dos riscos, subestimei o sentimento de vocês.’
‘Então quero voltar como humano. Ela é humana, eu sou humano. Podemos ficar juntos. Quero voltar para casa por Kasumi, pelos meus pais, nii-san. Sei que tem muitas pessoas me esperando.’
‘Mas ainda há algo que o incomoda, não é, minha criança? Algo que ainda lhe deixa na dúvida se realmente quer passar neste teste onde sabe que talvez teria uma chance de mudar algo ou falhar e retornar para seu universo e tentar evitar que sua alma se corrompa a ponto de regredir mais ainda.’
‘Fico me perguntando se... Com o poder que eu possuiria, se não teria como impedir que tudo isso acontecesse.’ Shaolin falou de forma sincera. ‘Que nii-san não tivesse sido tirado de kaasan.’
‘Este é seu teste, minha criança.’
Shaolin arregalou os olhos e deu um passo a frente. ‘Como assim?’
‘Você tem como voltar no tempo e principalmente ir até o mundo das trevas e impedir aquele acontecimento. Assim passará neste último teste e voltará para o plano superior.’
Shaolin sentiu como um soco no estômago. ‘Então… eu preciso decidir entre eu… e meu irmão?’
‘Não! Você precisa decidir se seu irmão terá uma vida diferente da que teve agora com os pais verdadeiros dele.’
Shaolin sentiu o corpo tremendo. ‘Decidir entre a minha felicidade e a de nii-san e dos meus pais?’
‘É uma maneira de encarar o teste…’
Ele sentiu a cabeça latejar. Levou as duas mãos a cabeça pensando. Não poderia ser egoísta e negar ao irmão e aos pais uma vida diferente sem aquele sofrimento enorme. Ele tinha revivido aquele inferno que foi a vida do irmão. Ele tinha sentido todos os tapas na cara, ouvido todos os gritos, a ardência de todos os ferimentos na carne. Kazuo teve uma existência de merda. Ele não merecia aquilo. Ele merecia ser criado pelo pais. Ele merecia uma mãe como Sakura e um pai como Syaoran.
‘Eu… eu não posso…’ Falou sentindo os olhos ardendo. ‘Não posso escolher entre a minha felicidade e a de nii-san. Não posso.’
‘Precisa. Este é seu teste. Se falhar, voltará para o seu universo sem sucesso com os poderes enormes que possui e tentará vencer todas as tentações destes poderes para voltar a subir no seu ciclo evolutivo ou enlouquecer por conta deles e regredir, caindo ao ponto de ir para o plano inferior. É sua decisão, criança? O que você decidirá?’
Shaolin trincou os dentes. Não podia negar que o que realmente queria era voltar e ficar com seus pais, Kazuo e Kasumi. Viver com ela tudo que não pode viver quando eram Tatsumi e Akame. Viver tudo que sempre desejou durante aquelas malditas décadas apenas acompanhando-a como um fantasma. Era isso que queria… era isso que no fundo desejava… mas… não era o certo… Balançou a cabeça de leve. Seria certo negar a Kazuo uma vida feliz ao lado dos seus pais verdadeiros? Não! Kazuo não merecia ter passado por aquele sofrimento enorme com aquele monstro como mãe.
Apertou os olhos sentindo as lágrimas saindo deles. Ao mesmo tempo que sentia feliz por poder dar uma chance ao irmão, também não podia negar que sentia o desespero de se afastar de Kasumi. De voltar para aquele inferno em estar ao lado dela sem poder tocá-la. Passou a mão no rosto. Respirou fundo e abriu os olhos encarando a fonte luminosa.
‘Eu decidi.’ Falou de maneira firme.
Deu um passo a frente já pronto para dizer que decidiria pela felicidade do irmão. Isso era o certo. Porém sentou a explosão de energia as suas costas.
Franziu a testa percebendo que ela era forte demais, vinha das trevas, mas não era nenhuma conhecida… quer dizer… parecia a de… Arregalou os olhos e logo conseguiu distinguir a silhueta curvilínea da bela jovem de cabelos longos negros e olhos vermelhos.
‘Kasumi…’ Sussurrou atordoado, sem entender o que ela estava fazendo ali.
Kasumi tinha o rosto sério, na sua mão direita estava uma katana, Shaolin percebeu que não era Murasame apesar de parecida, nos braços dela estavam os protetores que a assassina sempre usava. Ela parou a frente dele com o olhar fatal.
‘Como sempre… apenas você acha que tem o direito de decidir.’ Ela falou com o tom sério.
Shaolin engoliu em seco, tinha a impressão de que ela passaria a katana por cima dos seus ombros, cortando-lhe a cabeça.
Kasumi desviou os olhos dele e fitou a fonte de luz. ‘Acha que pode me manipular novamente? Você e aqueles anjos babacas acham que podem fazer um acordo comigo, e agora simplesmente acharam que vocês podem decidir algo diferente?’
‘Surpreendeu-me novamente, Lilith. Não imaginei que conseguiria uma forma de aumentar seu poder desta forma e principalmente que conseguisse um artefato capaz de criar uma brecha para esta interseção.’
‘Vocês sempre subestimam demais a capacidade dos seres humanos em se recusarem a aceitar suas manobras.’ A voz dela era fria. Ela virou-se para Shaolin com o mesmo olhar duro. ‘Acha realmente que vai conseguir me enganar e me manipular?’
Shaolin arregalou os olhos. Kasumi estava achando que ele… Não! Ela achava que ele realmente tinha sido parte daquela armadilha para que ela abrisse mão do poder e reencarnar? Deu um passo a frente, sem desviar os olhos dela. ‘Você acha que eu…’ Falou tocando no peito. ‘Que eu apenas fiz isso para que você…’
‘Não interessa!’ Ela o cortou, ainda fitando-o com o rosto duro. ‘Você sempre decidirá pelo outros! Você sempre fará a mesma merda de escolha.’ Ela soltou um suspiro e balançou a cabeça de leve. ‘Você nunca vai deixar de ser o que é. Sempre no final vai procurar voltar para o plano superior onde pertence.’
‘Não é o que eu quero!’ Ele gritou dando um passo a frente e a encarnando.
Ela devolveu a encarada. ‘Mas é isso que fará, não?’
Shaolin sentiu o coração fisgar. Ela não estava errada. O amor dos dois sempre foi e seria apenas um eterno ciclo de sofrimento. Nunca poderiam estar juntos...
Kasumi voltou a fitar a fonte encarnado-a. ‘Não sou mais humana novamente como já percebeu. O seu plano e o de Miguel não deu certo. Eu agora tenho uma proposta para vocês.’
‘E qual seria?’
‘Se o que foi combinado não for cumprido, me tornarei o pior pesadelo de todos os anjos do plano superior. Eliminarei um a um. Começando por Miguel por sempre se meter na minha vida.’
‘Ka-kasumi…’ Shaolin chamou ela. ‘Do que está falando?’ Perguntou franzindo a testa.
Ela olhou para ele e depois para a luz. ‘Acha que quando ele voltar ao plano superior não terá todas as memórias de volta?’ Kasumi inclinou a cabeça de leve. ‘Cadê o discurso do livre-arbítrio? Apagar as memórias não é simplesmente manipular a decisão de um ser?’ Perguntou com ironia.
‘Perder as memórias é uma forma de não deixá-los presos a dores passadas. Uma forma de recomeçarem sem o ranço de uma existência anterior. Uma nova chance.’
Ela franziu a testa. ‘Nova chance? É assim que encara isso? Para mim isso é manipulação. E o pior… se fosse realmente uma forma de recomeçar não fazia com que eu sentisse por ele sempre a mesma coisa.’ Disse apontando para Shaolin. ‘Por que não me fez esquecer finalmente que ele exista!’
Shaolin desviou os olhos dela. Kasumi estava certa. Seria muito melhor que eles esquecessem um do outro de uma vez, mas parecia que sempre estavam eternamente ligados um ao outro.
‘Por quê?!’ Ela gritou encarando a luz. ‘Por que não arranca esta droga de sentimento do meu peito? Do dele?! Você não tem o poder de tudo?!’
‘Não.’ A Resposta veio de forma simples e direta fazendo-a arregalar os olhos, surpresa. ‘Eu os criei, Lilith. Acredite... você foi minha mais perfeita criação. Eu dei a você assim como a Azrael o direito de escolherem. O meu maior presente a vocês foi o livre arbítrio. Vocês escolheram se amarem. Não fui eu que coloquei este amor na alma de vocês.’
Kasumi fechou os olhos, controlando-se para não começar a chorar. Não sabia se de desapontamento, raiva ou desespero. ‘Você fala que nos deu o livre arbítrio… a liberdade… mas mandou todos seus anjos me perseguirem quando fui contrária às suas ordens.’
‘Sei que não foram justos com você…’ A voz era terna. Como de um pai falando com uma filha.
Ela deu mais um passo a frente, apertando a empunhadura da katana e olhando com raiva. ‘Eu só queria viver sob as minhas convicções e não que elas fossem impostas a mim! Você mandou vários anjos me perseguirem, mas quem foi expulso do Paraíso não fui eu! Eu não fui choramingar que queria alguém obediente a mim! Eu nunca quis alguém obediente, o que eu sempre quis foi um companheiro! Que me respeitasse, me escutasse, e não que me visse como uma boneca! Sem poder de decisão! Quando eu o encontrei, decidi ir atrás de quem eu amava. Ir até quem eu escolhi para ser meu companheiro!’ Falou batendo a mão no peito.
Shaolin parou ao lado de Kasumi olhando-a com desconfiança. ‘De quem está falando, Kasumi? De que merda você está falando?’
Ela voltou-se para ele. ‘Não nos conhecemos como Akame e Tatsumi.’
Shaolin ainda a olhava sério esperando a resposta completa.
‘Nos conhecemos antes… fomos obrigados a reencarnar porque… porque…’ Ela abaixou o rosto. Sentia o corpo todo tremer de raiva.
‘Kasumi…’ Shaolin a chamou temendo a poderosa energia que circulava em torno dela. Era muito mais forte do que havia visto antes. Nem mesmo Marie, Kazuo ou o tal Demônio superior tinham algo similar a aquela energia. ‘Quando nos conhecemos?’ Perguntou devagar. ‘E por que fomos obrigados a reencarnar e ter aquela merda de existência como Akame e Tatsumi?’
‘Porque…’ Ela sussurrou e levantou o rosto fitando a luz multicolorida. Sorriu de forma sarcástica. ‘Queriam nos punir… o tal discurso do livre-arbítrio não é tão belo e justo como Ele fala.’ Respondeu fazendo um gesto em direção a luz. ‘Não se deve ir atrás da felicidade se for contra as leis do Universo, não?’
‘Vejo que tem muita mágoa…’
‘Claro!’ Ela gritou. ‘Você apenas escutou a versão de Adão e não a minha. Mas eu não queria me justificar, queria ser livre para escolher por mim! Ter o meu livre-arbítrio. Mas você não aceitou! Você mandou Miguel tirar a minha filha dos meus braços!!!’
‘De que merda você está falando, Kasumi?! Fala de uma vez!’ Shaolin explodiu.
Ela se voltou para ele com o rosto sério. ‘Nossa filha. Quando éramos Lilith e Azrael…’ Ela fechou os olhos. ‘Você já caiu antes, Shaolin… direto para o Plano inferior.’
Shaolin sentiu novamente o mal-estar. Balançou a cabeça de leve. ‘Por que… Por que não me lembro?’
Ela riu de maneira sarcástica. ‘Porque pelo visto no final… eu e você fomos apenas manipulados por eles.’
‘Miguel agiu de forma equivocada. Ele estava com receio que a permanência de vocês no plano inferior fosse perigosa demais. Acreditava que vocês dois tinham uma linhagem enorme e poderosa que poderia colocar a existência de tudo em risco.’
‘E então Você… Ele achou justo simplesmente tirar minha filha de mim?! Ele me julgou… ele nos julgou achando que tínhamos... sei lá... o que a imaginação louca e perturbada dele fazia ele acreditar.’
‘Miguel não mataria um inocente!’
‘Porque obrigou eu e Azrael reencarnarmos para não matá-la!’ Ela berrou. ‘Ele nos obrigou a nos separar por diversas encarnações!’
‘Eu já fui Azrael antes…’ Shaolin balbuciou, chamando a atenção de Kasumi que voltou-se para ele. ‘Eu já cai antes.’ Ele falou com a mão direita na cabeça. ‘Por que não me lembro? Tenho algumas lembranças apenas de Tatsumi… Não… não me lembro de antes…’ Levantou o rosto e encarou Kasumi que o fitava. ‘Nós dois… nós…’
‘Sim… Vocês se conhecem desde o início dos tempos. São praticamente as almas mais antigas. Apenas eu e talvez poucos Anjos ou demônios possuem uma existência tão longa ou maior que vocês… Passaram por várias outras existências separados. Estavam evoluindo quando encarnaram como Akame e Tatsumi e voltaram a se encontrar. Confesso que tanto eu quanto Miguel não imaginávamos que se reconheceriam… e na verdade, vocês não se reconheceram, não foi?’
Shaolin virou o rosto e fitou a luz. ‘Não… não nos reconhecemos como o que estão me contando agora, mas nos amávamos… Demoramos para entender. Foi uma existência de merda! Talvez tão ruim ou pior do que as outras. O que queriam testar?’ Perguntou, erguendo o queixo e sem conseguir esconder a irritação. ‘Queriam ter certeza que tínhamos esquecido um do outro? Eu morri!’ Berrou batendo no peito. ‘Nos braços dela! Com raiva de mim mesmo por não ter sido capaz de falar o que sentia.’ Balançou a cabeça tentando se controlar. ‘Depois voltei a ser… enfim… o que vocês consideram guardião celestial, mas eu só queria voltar para ela!’ Colocou as mãos na cabeça lembrando de todas as vezes que ficava vagando ao lado de Akame, ao lado dela, como um maldito fantasma. ‘Uma merda de existência como um fantasma ao lado da mulher que eu amava sem que ela pudesse me ver, ou me ouvir… como um fantasma…’ Fechou os olhos com força tentando controlar as lágrimas e a raiva. ‘Merda!’ Gritou tentando controlar a frustração. ‘Exigo todas as minhas memórias de volta.’ Declarou, voltando a encarar a luz.
‘Para quê?’ Kasumi perguntou baixo fazendo-o virar-se para ela. ‘Você já decidiu, não?’
Shaolin engoliu em seco e sentiu os olhos arderem ao fitar as esferas castanhas avermelhadas que tanto amava. Como poderia abrir mão dela novamente? Inferno! Arregalou os olhos e voltou-se para luz. ‘Você sabe que eu vou tentar cair novamente! Na primeira oportunidade! Você fará com que entremos neste ciclo eternamente!’
‘Talvez isso o divirta, não?’ Kasumi falou balançando a cabeça de leve. ‘Ter tanto poder, deve ser realmente tentador manipular as almas como se fossem peões de um jogo…’
‘Não é assim que eu os vejo, Lilith.’ A voz agora estava num outro tom, mostrando desapontamento. ‘Eu criei vocês com todo o meu amor.’
Ela sorriu de forma irônica e triste. ‘Amor?’ Franziu a testa e encarou a luz. ‘Você sabe realmente o que é isso?’
‘Apenas alcançaram a felicidade quando conseguirem superar todas as coisas carnais… aí sim alcançaram a verdadeira felicidade. Eu lhes garanto isso.’
‘Mas isso não deveria ser decisão nossa? E se a felicidade for apenas… estar aqui… no caminho… e não na chegada?’
Houve um silêncio por alguns segundos. Shaolin fitava Kasumi com o peito ainda sentindo como se estivesse sendo esmagado.
‘Não posso… Kasumi… Agora não posso.’ Ele falou chamando a atenção dela que voltou-se para ele. Shaolin desviou os olhos de Kasumi e cerrou os punhos. ‘Eu preciso fazer isso. Preciso fazer este teste.’
‘Não. Não precisa.’ Ela respondeu de maneira firme.
Shaolin a fitou em desespero. ‘Preciso dar uma nova chance para Kazuo! Não posso voltar e viver com você, ser feliz com você sabendo que isso teve como preço a felicidade dele! Dos meus pais! Não posso fazer isso!’
Kasumi inclinou a cabeça de leve sem perder a calma. ‘Do que está falando?’
‘O teste… o teste é voltar no tempo, ser capaz de ir para o inferno e impedir que Kazuo seja retirado de kaasan.’ Ele respondeu.
Kasumi fechou os olhos por alguns segundos, apertou o cabo da katana que havia em suas mãos. Assim que conseguiu quebrar as correntes de Espada e Escudo, os dois artefatos se adequaram a sua vontade.
Shaolin parou a frente dela, segurando os ombros dela com as duas mãos. Kasumi levantou o rosto. Fitaram-se com carinho.
‘O que mais quero é viver com você. Se possível viver tudo que não podemos viver antes… mas não posso a custo da infelicidade de Kazuo. Ele sofreu demais crescendo no mundo das trevas com aquele demônio feminino como mãe. Entenda, Kasumi… eu não posso… não vou conseguir ser verdadeiramente feliz a este custo.’ Shaolin segurou com mais força os braços dela. ‘Eu juro a você que eu vou cair… eu vou na primeira oportunidade, eu vou voltar para você.’
Ela fechou os olhos. ‘Sempre este eterno sofrimento….’
‘Eu sinto muito…’ Shaolin falou com a voz falhada.
Kasumi respirou fundo e soltou o ar devagar. Sorriu de forma triste para ele. Entendia perfeitamente Shaolin e a escolha dele. Assentiu com a cabeça. ‘Acho que este será sempre o final da nossa história, né? Sempre vamos sacrificar nossa existência onde podemos ficar juntos por quem amamos.’
‘Você entende, não?’
Ela assentiu com a cabeça. ‘Se for para dar uma nova chance para Kazuo de crescer fora daquele inferno… Claro que sim.’
Shaolin sorriu fracamente, aliviado por ela entender. Estava infinitamente triste por ter novamente que abrir mão dela, mas aliviado por ela ter entendido e aceitado a decisão dele. Ele pegou o rosto dela com as mãos e a olhou com tanta ternura que pensou que preferia não existir a sentir novamente aquela dor em ter que se separar dela. ‘Eu prometo que vamos ter mais uma chance. Não vou desistir nunca de estar com você.’
Ela fechou os olhos sentindo as lágrimas descerem por seus olhos. ‘Eu não posso voltar mais a ser Kasumi… Não há mais lugar para mim naquele universo.’
Shaolin franziu a testa, sem entender mas logo se deu conta da situação dela. ‘Por favor, Kasumi… me espere.’
Ela deu um fraco sorriso. ‘Eu vou sempre lhe esperar. Onde quer que eu esteja…’ Disse repousando suas mãos sobre as dele que ainda segurava seu rosto com delicadeza.
‘Existe uma opção.’ Ouviram a voz atrás de si e afastaram-se, encarando a luz com toda a atenção. ‘Claro que será uma grande prova para vocês… mas acho que estão dispostos a enfrentar e correr os riscos, não?’
‘Claro!’ Shaolin respondeu dando um passo a frente com sua total atenção para a fonte. ‘Diga-nos. Aceitamos qualquer escolha.’
‘Prestem atenção então no que eu vou lhe falar e pondere suas alternativas. Vocês dois precisam decidir juntos.’
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Sakura estava caída no chão. Sentia o corpo fraco, mas não dolorido. Era como se suas forças tivessem sido drenadas. Esticou os braços tentando se levantar e sentiu-os tremer.
‘O que você está fazendo aqui, Midoriko?’ Ouviu a voz familiar de Arthas, seu tom era de surpresa e medo. ‘Por que não está lutando contra Pazuzu com o Garoto e Tadmoth?’ Ele perguntou apreensivo.
Ela virou o rosto e viu o grande demônio com um só braço falando com a mulher de longos cabelos vermelhos. Trincou os dentes, ao ver Midoriko. Tentou novamente se levantar, mas seu corpo estava fraco demais.
‘Estou caindo fora!’ Midoriko falou de forma sarcástica.
‘Cobra.’ Se ouviu, soltando entre os dentes, mas sabendo que quem estava no comando naquele momento era Khala’a. Compartilhava da mesma opinião, talvez usasse adjetivos muito mais baixos. Conseguiu, pelo menos, levantar o corpo e se sentar, com as costas apoiadas no pedregulho que os protegia da tempestade de areia.
‘Você realmente é um demônio traiçoeiro.’ Arthas retrucou. ‘Se não ajudar, estará quebrando seu acordo com Enma Daiyoh. Não vai receber sua recompensa!’
Midoriko riu de forma irônica. ‘O que Enma Daiyoh me prometeu não será nada comparado ao que conquistarei quando eu tiver o filho do Garotão.’ Ela falou, atacando Arthas que foi lançado longe caindo inconsciente no chão.
Sakura respirou fundo e, apoiando-se na pedra atrás do seu corpo, conseguiu ficar de pé. Levantou o rosto e encarou Midoriko que se aproximava dela com o rosto zombeteiro.
‘Você se acha realmente poderosa, não é, feiticeira?’ Midoriko falou, aproximando-se dela.
‘O que você quer?’ Perguntou, olhando para ela com raiva, sabia que estava em perigo. Fraca daquela forma não teria como Khala’a usar magia de forma eficiente para protegê-las.
‘Conquistar tudo isso aqui.’ Midoriko respondeu. ‘E você está no meu caminho.’ Falou, avançando até ela para atacá-la.
Arregalou os olhos e percebeu que Khala’a tentou levantar escudo à sua frente para protegê-la, mas ele conseguiu apenas reter o demônio feminino por alguns instantes. Com a magia debilitada, Midoriko logo conseguiu acertá-la, fazendo-a cair ao chão novamente.
Virou-se para a inimiga e tentou invocar Disparo para acertá-la, mas os poucos projéteis de magia apenas a atingiram de raspão, fazendo Midoriko trincar os dentes, irritada por ter sido machucada. O demônio feminino pegou-a pelo pescoço, levantando-a do chão e a encarando com o rosto a centímetros do seu.
‘Odeio você. Frustrou todos os meus planos iniciais.’ Midoriko falou, apertando o pescoço de sua vítima.
Sakura levantou as mãos, segurando os pulsos dela e tentando concentrar sua magia para protegê-la do ataque, mas sabia que Khala’a estava relutante em elevar demais a magia e romper a conexão das duas.
‘Você nunca deveria ter vindo atrás dele.’ Midoriko falou e afastou uma das mãos, encompridando suas unhas como garras afiadas e prontas para dilacerá-la enquanto a outra ainda a prendia pelo pescoço.
Arregalou os olhos, vendo as garras na direção do seu abdômen. ‘Através.’ Sussurrou, escorregando da mão que a segurava e evitando o golpe certeiro. Caiu no chão fraca, respirando com dificuldade, e levantou o rosto, vendo Midoriko pronta para dar um novo bote. ‘Fogo.’ Usou suas últimas forças para desferir um golpe mais potente no demônio e se proteger.
Uma bola de fogo atingiu Midoriko que deu alguns passos para trás, soltando um grito irado de dor.
‘Não vai ficar no meu caminho!’ O demônio falou, olhando-a com furiosa.
Sakura sentiu, novamente, o desespero. Midoriko não era adversária para Khala’a e ela, mas seu corpo e magia estavam completamente debilitados pela terrível luta que Khala’a travou com Illska. Sentiu uma dor no peito, sem saber o que fazer enquanto observava Midoriko se aproximar dela para matá-la. Olhou em volta, pedindo aos céus que Syaoran estivesse de volta, mas ele ainda lutava contra Pazuzu. Engoliu em seco.
‘Logo terei a melhor arma para conquistar a tudo e você…’ Midoriko sussurrou próxima a ela. ‘Deixará de existir.’ Falou, novamente, pronta para atacá-la.
Notou que Khala’a fez uma última tentativa de levantar o escudo para se proteger e fechou os olhos, concentrando suas últimas forças, sentiu os olhos arderem por medo e desespero. Sua vida não podia terminar assim.
Percebeu quando Midoriko conseguiu desfazer o escudo mágico e se encolheu, reflexivamente, esperando pelo golpe que não veio. Sentiu uma presença diferente e estupidamente forte se aproximando de forma rápida. Franziu a testa.
‘Quem é você?’ Ouviu Midoriko perguntar com tom de pânico na voz.
‘Eliminar.’ Sakura ouviu uma voz sussurrada.
‘Esta energia…’ Sakura ouviu Khala’a. ‘Não pode ser… não pode ser ela…’
Sakura abriu os olhos, arregalando-os em seguida ao ver o corpo do demônio cair no chão enquanto se transformava em pó a sua frente. Levantou o rosto, vendo a figura de uma mulher envolta a poderosa aura púrpura. Seria um inimigo? A energia dela era forte demais, não havia dúvidas que era um demônio superior. Encolheu-se instintivamente, tinha certeza que seria a próxima vítima.
‘Missão completa. Alvo eliminado.’ Ouviu novamente a voz dela e levantou o rosto fitando a jovem de olhos vermelhos brilhantes. Tinha o rosto bonito, não parecia um demônio apesar do olhar duro que a fez sentir um arrepio pela espinha. Reparou que ela soltou um suspiro e se aproximou, abaixando-se e tocando um joelho no chão encarando Sakura que piscou os olhos algumas vezes sem entender. Não a conhecia, nunca a tinha visto antes, porém…
‘Okaasama…’ Era Khala’a que falou, assumindo agora. Sentiu os olhos marejados e engoliu em seco.
A jovem sorriu de leve para ela e levantou o braço esquerdo, secando de leve as lágrimas que rolavam no rosto belo de Sakura, no entanto sabia que não era realmente a mestra das cartas que estava a sua frente apenas.
‘Eu sinto muito, Khala’a. Não pude ficar com você. Nem eu e nem seu pai.’
Khala’a arrastou-se chegando até perto dela e fez o que no fundo sempre desejou fazer durante toda a sua existência. Abraçou a jovem a sua frente que a envolveu com carinho entre os braços. Sentiu que ela beijou de forma demorada sua cabeça.
‘Agora tudo ficará bem..’
Khala’a não respondeu, apenas agarrou-se mais a jovem. Nunca tinha a visto antes, mas nunca, nunca havia esquecido daquela energia poderosa que sabia que era de sua mãe. Não tinha lembranças do rosto dela, mas nunca esqueceria aquela presença que havia lhe dado a vida e que logo foi separada. Reparou que ela tentou se afastar mas a segurou mais forte, não queria se separar mais dela. Tinha tanto a perguntar. Tanto a falar para ela.
‘Eu preciso ir.’
‘Não…’ Khala’a protestou segurando-a mas sabia que estava fraca.
‘Preciso… Sinto muito. E você precisa continuar sua jornada.’ Falou beijando novamente a cabeça dela e afastando os braços dela.
Khala’a levantou o rosto observando-a erguendo o corpo e sorrir de leve para ela. Pensou que ela era muito mais do que tantas vezes havia imaginado.
‘Você não pertence a este lugar. Nunca pertenceu… Não volte mais para cá.’ Ela falou com a voz suave. ‘Existem lugares longe deste inferno que encontrará a felicidade, não tenha receio de mudar. Tenha coragem.’
Khala'a acenou com a cabeça concordando e reparou que sua mãe sorriu satisfeita. Ela tocou no peito dela com o indicador.
‘Isso aqui não pertence a você.’ Falou com a voz calma e viu os olhos verdes de Sakura se arregalaram. ‘Devolva a quem pertence. Você nasceu de um grande amor. Você é fruto de um amor enorme, Khala’a. Não deixe-se enganar por ter vivido neste lugar e acreditar que não possui este mesmo amor dentro de você.’
‘Okaasama…’ Ela falou com o voz falhada de emoção. Sentiu com a mão passou de forma carinho a mão no rosto dela tentando inutilmente secar as lágrimas.
‘Eu sempre vou te amar.’ Disse beijando a testa dela com carinho e depois se levantando com a katana na mão direita. ‘Está na hora de você virar esta página, Khala’a. Não há necessidade de me procurar mais. Está na hora de deixar o passado no passado. Entendeu?’
Khala’a assentiu com a cabeça sem conseguir dizer a resposta para a mãe verbalmente.
Ela sorriu satisfeita. ‘Adeus…’ Falou por fim, virando-se de costas enquanto colocava a katana que havia cortado Midoriko ao meio na proteção presa a sua cintura e caminhar afastando-se dela.
Khala’a tentou se levantar apoiada na parede de rocha atrás de si ainda com os olhos fixos nela. Queria gritar e pedir para que ela voltasse que não se afastasse dela.
‘Sinto muito, Khala’a’ Sakura falou sentindo toda aquela mistura de dor e felicidade que sua companheira sentia.
‘Por que? Por que ela nos salvou e se foi? Por que eu nunca consegui encontrá-la neste inferno antes?’
‘Talvez… Ela não seja mais parte daqui e tenha vindo apenas para nos ajudar.’
Khala’a sorriu de leve ainda apoiada com as costas na parede de pedra atrás de si. ‘Eu sempre sonhei em encontrá-la…’ Falou e balançou a cabeça de leve. ‘Se a minha recompensa por acompanhá-la mestra neste inferno foi ser possível pelo menos abraçá-la… Eu já sinto que tudo valeu a pena…’
Sakura ainda tinha os olhos fixos no ponto em que a figura misteriosa feminina havia desaparecido, quando ouviram a aproximação de Syaoran.
‘Sakura!’
O som feito pela tempestade de areia silenciara sem que ela percebesse. Desviou os olhos do ser a poucos metros dela, voltando-se para onde ouvia a voz do namorado. Ele apareceu, em seguida, com o rosto preocupado e olhando para os lados como se procurasse alguma coisa. Aproximou-se dela, segurando-a pelos ombros.
‘Você está bem?’ Ele perguntou.
Sakura desviou os olhos do rosto de Syaoran, procurando novamente o demônio que a tinha a salvado. Balançou a cabeça de leve, ainda confusa.
‘E-eu acho que está tudo bem.’ Ela finalmente respondeu para o namorado que a olhava preocupado.
‘O que aconteceu?’ Ele perguntou. ‘Senti uma energia fortíssima aqui! Pensei que estava sendo atacada.’ Franziu a testa reparando que ela tinha rastros de lágrimas no rosto. ‘Você está bem?’ Perguntou novamente passando a mão de forma carinhosa no rosto dela.
‘Eu não sei direito.’ Sakura respondeu, sentindo Syaoran abraçá-la com carinho.
‘A tempestade já acabou. Podemos prosseguir. Você se sente melhor?’
‘Eu logo ficarei bem. Logo eu e Khala’a ficaremos bem.’ Ela respondeu, aconchegando-se no peito do rapaz. ‘Recuperaremos nossas forças e poderemos enfrentar juntos o guardião da maldita última brecha.’
‘Sim… E vamos para casa.’ Ele falou, sorrindo.
‘Vamos todos para casa.’ Sakura repetiu, sorrindo de leve.
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Kagami parou ao lado de Aeon que ainda olhava para o lugar por onde Kasumi havia desaparecido depois de abrir um rasgo entre os universos.
‘Estou sentindo as energias mudando.’ Ela falou para o companheiro.
Aeon sorriu de leve e de forma até certo ponto triste. ‘Sim… o universo está se remodelando novamente.’ Falou olhando para trás e vendo Tomoyo ser envolvida pela grandiosa energia.
‘Será… será que Kasumi e Shaolin… Será que eles vão fazer parte?’ Kagami perguntou observando que agora eles mesmos estavam começando a serem envolvidos por ela.
Aeon balançou a cabeça de leve. ‘Não sei… Infelizmente eu não sei, minha querida companheira.’ Respondeu com sinceridade, fitando-a.
Kagami fechou os olhos e sentiu o peito arder. Pelo menos guardaria com carinho as lembranças gostosas do anjo que ela considerava seu filho. Um humano a fez saber o que era o amor, o Pilar a fez entender o que era amizade e companheirismo e um anjo havia lhe dado a oportunidade de sentir o amor pleno que era o amor de uma mãe por um filho.
Logo um clarão se formou envolvendo a todos eles, assim como a todo o planeta onde uma nova realidade estava sendo construída.
Continua.
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