FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 65

A Didática do Amor

Kazuo caminhava ao lado do irmão pelas ruas de Bergen. Andavam lado a lado, ambos com as mãos protegidas nos bolsos dos casacos. Kazuo não se importava com a chuva, pelo contrário; e Shaolin, desta vez, gostaria de aproveitar a cidade onde se encontravam e não permitiria que a chuva o atrapalhasse.

Conversavam em tom baixo. Kazuo apontava algumas coisas que lhe prendiam a atenção e Shaolin explicava o que sabia. No final, gostavam de estar um ao lado do outro. Shaolin sempre teve a companhia de Kasumi na sua vida, mas a companhia de Kazuo o lembrava um pouco a do pai o que minimizava bastante as saudades que sentia dele.

Além disso, gostava de Kazuo e de explicar as coisas para ele. Como tinha pensado antes, sempre quis ter um irmão mais novo e Kazuo se comportava bastante como um.

Já Kazuo nunca teve a companhia de ninguém daquela forma. Nunca esteve ao lado de alguém apenas caminhando na companhia dele e conversando sobre coisas bobas e perguntando sobre outras. Não estavam planejando nenhuma luta ou invasão, nem como matar algum demônio. Estavam apenas conversando e, às vezes, observavam algo, comentavam e riam.

‘Sabe…’ Shaolin chamou a atenção de Kazuo enquanto caminhavam. ‘Este negócio de magia complica um monte a vida da gente…’

‘Você gostaria de não ter magia, não é?’

Ele balançou a cabeça. ‘Eu gostaria de ser normal, como Kasumi.’

‘Entendo…’

‘Mas também…’ Shaolin continuou a falar. ‘Se nossa família fosse normal, talvez as coisas não seriam como são agora.’

‘Como assim?’

Shaolin encolheu os ombros. ‘Há famílias muito complicadas. As pessoas complicam muito a vida.’ Ele falou, observando um casal brigando.

Já conseguia perceber os sentimentos de raiva e ódio nas pessoas. Na verdade, era o que mais conseguia perceber de forma clara e com maior facilidade durante o tempo que ficou apenas tentando entender o que cada energia representava. ‘As pessoas não entendem, às vezes, que apenas estarem vivas e juntas já é o suficiente para serem felizes.’

‘Por que está falando isso?’

O menino deu um sorriso triste pela conclusão à que chegava. ‘Existem muitos sentimentos ruins nas pessoas.’ Ele falou, olhando para uma jovem que estava sentada encolhida.

Dava para ele perceber a tristeza que a envolvia. Na verdade, tristeza era também outro dos sentimentos que ele estava percebendo que as pessoas mais carregavam consigo. Pegou-se alguns momentos pensando em se aproximar delas e tentar ajudar, mas eram tantas que não sabia bem o que fazer.

Olhou para o irmão que o fitava e forçou um sorriso. ‘Nossa família é diferente, mas não gostaria de pertencer a nenhuma outra.’

Kazuo sorriu para ele de volta e assentiu com a cabeça. ‘O tempo que fiquei com vocês também gostei muito.’

‘A gente não se entendeu logo no começo por culpa minha. Devo-lhe desculpas.’ Falou finalmente. Estava com aquilo entalado desde sua conversa com Heimdall.

‘Você já se desculpou.’ Kazuo o lembrou. ‘Quando brigamos feio e sua mãe e oyaji nos fizeram ouvir sermão por horas.’

Shaolin riu, sem graça. ‘Realmente… foi bem chato.’

‘E eu também já me desculpei. Como tinha falado, eu invadi o seu espaço. Teria o mesmo tipo de reação que você.’ Kazuo falou.

‘Não teria.’ Shaolin falou de forma firme, fazendo o rapaz olhar para ele desconfiado. O menino encolheu os ombros envergonhado. ‘Você apenas reagiu à maneira como eu agi com você. E, no fundo, eu sabia que você não tinha culpa nenhuma do que eu estava sentindo.’

Kazuo observou o irmão que, apesar de não parar de caminhar, ainda fitava a calçada.

‘Eu estava com dúvidas com relação a tousan, não sobre você. Eu sempre soube que você nunca teve nenhuma intenção de… Sei lá… Como você falou agora, invadir meu território ou algo assim. Não foi justo culpá-lo e transferir a minha raiva para você. Apenas foi mais conveniente.’

‘Humph.’ Kazuo murmurou, meneando a cabeça. ‘Também não foi justo eu sentir inveja de você por ter tudo que eu achei que gostaria de ter.’

Shaolin sorriu de leve. ‘Você não sentiu inveja.’ Ele falou. ‘Você apenas se ressentiu porque também queria ter pais que o amassem e cuidassem de você, como eu tive. Isso não é inveja… Isso é o normal, não? Você viveu num inferno a vida inteira… Eu só tenho ideia de como é lá por causa dos meus pesadelos e do que nee-san me contou. Eu só tenho ideia do que você passou, mas tenho certeza que você sofreu um monte. Fui egoísta e mesquinho. Achei que minha dúvida com relação ao caráter de tousan fosse mais importante do que tudo pelo que você sofreu a vida inteira.’

‘Como você falou… Você só tem ideia de como é lá. Você nunca tinha me visto antes…’

‘Isso não importa.’ Ele o cortou. ‘Eu sabia. Eu tinha ideia… Na verdade, eu tinha certeza do que foi sua vida e suas intenções desde o início.’

‘Bem… O importante é que agora a gente se dá bem, né?’ Kazuo falou, sorrindo de leve e dando de ombros.

Shaolin concordou com a cabeça. ‘Você está aqui tentando me ajudar nessa loucura toda.’

Ele respirou fundo. ‘Não consigo ajudar muito na hora de destruir as chaves.’

‘Você estando aqui já me ajuda.’ Shaolin falou, sorrindo de leve. ‘E muito.’

Kazuo sorriu de volta. ‘Bom saber disso.’

‘Então… Aceita minhas desculpas?’ Shaolin perguntou, voltando ao ponto inicial da conversa.

Kazuo balançou a cabeça de leve. ‘Acho que não há o quê…’ Ele começou a falar e encarou o rosto do irmão que parou de caminhar e o fitava sério.

Parou também um pouco a frente dele e voltou-se para o menino. Percebeu que isso era importante para Shaolin, apesar de achar sinceramente que o irmão não tinha feito nada de realmente errado. As circunstâncias é que não foram favoráveis para eles.

Suspirou e o fitou com a mesma seriedade que o menino o olhava. ‘Desculpas aceitas.’ Falou por fim, inclinando a cabeça de leve.

Shaolin abriu um sorriso satisfeito e aliviado.

Kazuo sorriu novamente. O rapaz olhou para cima observando o céu cinza. ‘Só me prometa uma coisa, Shaolin.’ Ele falou e voltou a encarar o menino a sua frente que franziu a testa de leve.

‘Pode falar.’

‘Que você vai sempre voltar daquele transe maluco em que entra.’

Shaolin sorriu de leve, sabia que, no fundo, não poderia prometer isso para o irmão. Respirou fundo e desviou os olhos dele por alguns segundos e depois voltou a fitá-lo. ‘Eu não sei se…’

‘Prometa.’ Kazuo ordenou com a voz dura, olhando-o sério.

O menino assentiu a cabeça de leve. ‘Prometo.’ Respondeu por fim, e como pensou quando fez a mesma promessa para Kasumi, Deus sabe o quanto queria cumpri-la.

Voltaram a caminhar em silêncio. Passaram por algumas praças e pela Universidade por onde várias pessoas caminhavam de forma animada pelo término das aulas naquele dia. Pararam numa lanchonete e o menino pediu dois chocolates quentes para eles. Ofereceu um para Kazuo que olhou para ele, estranhando.

‘Experimenta.’ Shaolin incentivou. ‘É muito bom.’ Comentou, tomando um gole. ‘É a minha bebida preferida e de tousan, também.’

Estavam parados debaixo de um coreto no meio da maior praça da cidade que dava vista para um grande lago e várias estátuas espalhadas pelo gramado. Pela hora, muitas pessoas deveriam estar saindo do trabalho, então havia um corre-corre de pessoas encasacadas pela cidade.

Shaolin observava com interesse a todos, era realmente estranho perceber tantas energias ao mesmo tempo. Soltou um suspiro, constatando novamente que os sentimentos ruins eram os que mais conseguia identificar. Chegava, algumas vezes, a se pegar procurando, de forma desesperada por energias positivas e as encontrava em um grupo de amigos que riam felizes, ou num casal de namorados se beijando, ou em crianças brincando nas poças d’água, mas a maioria das pessoas ainda eram envolvidas por tristeza e nervosismo. Olhou para o irmão que observava ainda o céu.

‘É bem diferente do mundo das trevas, não?’ Ele falou, chamando a atenção do irmão.

‘Sim.’ Respondeu sorrindo. ‘É o oposto.’

‘E você gosta?’

Kazuo balançou a cabeça de leve. ‘Qualquer lugar que seja o contrário daquele lugar de merda é o paraíso para mim.’

‘Verdade.’ Shaolin concordou. ‘Nee-san me contou bastante sobre lá.’

‘Ela me falou que foi um demônio antes de reencarnar.’ Kazuo falou. ‘Ela sabe como é. Não dá para entender porque ela não gosta disso.’ Comentou fazendo um gesto em direção ao céu acinzentado.

‘Porque agora ela não é mais um demônio e sim uma garota.’ Shaolin explicou. ‘Dias chuvosos a lembram muito a cidade onde ela cresceu e o fato de ter passado a infância muito sozinha.’

Shaolin levantou o rosto observando as nuvens cinzentas e a chuva caindo pela cidade. ‘Também não gosto de chuva.’

‘Também lembra de alguma coisa triste?’ Kazuo perguntou.

O menino encolheu os ombros de leve. ‘Mais ou menos isso. Kasumi sempre se sente melancólica... talvez seja por isso que me sinta assim também.’

Ele soltou um longo e pesado suspiro, lembrando-se das inúmeras vezes que, em dias como aquele, a menina desde bem pequenininha, sempre pediu para ficar ao lado dele. Algumas vezes, ele a abraçava e ela simplesmente se deixava abraçar, ficando assim por longos minutos.

Soltou um suspiro, pensando em como ela estaria agora se estivesse chovendo daquela forma no Japão. Gostaria de estar ao lado dela e a manteria em seus braços pelo tempo que ela quisesse.

Kazuo olhou o irmão de esguelha e sorriu de leve. Os pirralhos se gostavam demais. Não comentou nada pois percebeu o semblante triste e a aura agitada de Shaolin. Ele sentia muita falta dela. Ficou em silêncio, apenas observando a chuva e tomando a bebida quente. No fundo, estar ali observando aquelas gotas caírem do céu, tomando a bebida que era a preferida de seu pai e ao lado do irmão… ficando apenas em silêncio já lhe trazia um sentimento de felicidade que não havia sentido antes. Era estranho constatar como era fácil sentir-se feliz naquele universo enquanto era tão miseravelmente infeliz no Mundo das Trevas. Definitivamente não gostaria de voltar para lá.

Shaolin franziu a testa reparando na energia em torno do irmão. Era estranho vê-lo simplesmente ao seu lado, sem fazer nada, apenas observando a chuva e tomando a bebida porém ver a energia radiante de felicidade circular o corpo do rapaz. Olhou para as pessoas novamente caminhando apressadas e envoltas em suas energias ruins e voltou a prestar atenção no irmão. Sorriu de leve, Kazuo poderia dizer o que quisesse sobre ser um demônio e coisa e tal, mas estava verdadeiramente feliz em estar ali… Abaixou os olhos fitando a grama e constatando que o irmão estava feliz em no fundo estar simplesmente ao lado dele. Bem, era assim que deveria ser entre os irmãos, não? Sentia-se feliz em simplesmente estar ao lado de Kasumi quando mais novo, ou ao lado das cartas brincando. No fundo, era legal constatar que sentia o mesmo, apesar do início complicado dos dois.

‘Realmente isso é bom.’ Ouviu Kazuo comentar, referindo-se a bebida quente.

‘Sim. Há outras coisa boas também neste universo.’ Shaolin falou, respirando fundo. Era agora ou nunca. ‘Você deveria experimentar também.’

Ele meneou a cabeça. ‘Acho que sim.’

Shaolin batia a mão de leve na cerca do coreto onde estavam. ‘Hum… Sabe…’ Começou a falar com o tom incerto. ‘Aqui neste universo, quando duas pessoas se gostam, há algumas maneiras de demonstrar isso que são boas também.’

Kazuo olhou para o irmão com a testa franzida. ‘Do que está falando?’

‘Bem… Quando um garoto e uma garota se gostam, eles namoram.’ O menino começou a falar devagar.

Kazuo arregalou de leve os olhos. ‘Ah! Aquele negócio de agarramento?’

Shaolin soltou um suspiro. ‘Você não fala que vai agarrar uma garota, você diz que vai namorar com ela, entendeu?’

Kazuo balançou a cabeça, informando que não tinha entendido.

Shaolin franziu a testa de leve, pensando em como falar, mas era complicado. Arregalou os olhos de leve e pegou o smartphone de dentro do casaco. Entrou no aplicativo e fez uma pesquisa para encontrar as cenas românticas que queria. Kasumi junto com a mãe, a tia e Marie o tinham obrigado a assistir com elas tantos filmes românticos água com açúcar que, pelo menos, agora poderiam ser úteis para ele explicar para o irmão.

‘Olha.’ Shaolin falou, colocando na tela cheia e mostrando para o irmão que inclinou a cabeça, observando na tela do celular a cena de um casal que se encontrava, correndo um até o outro, declaravam-se e depois se beijavam.

Kazuo franziu a testa olhando para a cena e depois para o irmão. ‘Isso é o agarramento que eu vi oyaji fazer com a sua mãe.’ Comentou, fazendo o irmão estreitar os olhos nele.

‘Não coloca kassan no meio.’ O menino falou, incomodado.

Kazuo concordou com a cabeça. ‘Bem… Então… É normal fazer isso com quem a gente gosta?’

Shaolin concordou com a cabeça. ‘Sim. Quando você gosta de uma garota, você demonstra isso beijando-a, entendeu?’

‘Mas este não é o tal contato específico para reprodução? Eles…’ Falou, apontando para a cena congelada do casal se beijando. ‘Eles estão querendo se reproduzir, não?’

Shaolin ajeitou o corpo. Coçou a bochecha e mesmo que não quisesse sentiu o rosto esquentar, mas tinha prometido explicar e pelo jeito o irmão precisava saber. Para quem acreditava que quando sonhava com uma garota era porque ela logo teria um filho dele, as coisas eram bem complicadas de entender.

‘Hum… Ainda não.’ Ele falou devagar. ‘O primeiro passo é este. Os casais se beijam e depois… Com o tempo… Bem…’ Ele comprimiu os lábios, sentindo-se constrangido. ‘Com o tempo e tendo a certeza que se gostam, que se amam, que querem realmente ficar um com o outro, eles… Eles dormem juntos.’

‘Dormem juntos?’ Kazuo franziu a testa. ‘Ah! Ela invade os sonhos dele enquanto dorme?’

‘Não!’ Shaolin esclareceu de imediato. ‘Dormir junto é uma expressão… Mais suave… Enfim… Eles… Finalmente, fazem o tal contato especial.’

‘E como é esse contato?’

Shaolin sentiu novamente o rosto esquentar. Respirou fundo e pensou que seria como se estivesse dando aula de biologia para o irmão. Sim, era melhor pensar assim. ‘Quando um homem e uma mulher querem ter filhos eles tem relação sexual.’ Falou devagar.

‘Acasalamento?’

‘Não se fala acasalamento.’ Shaolin repreendeu o irmão. ‘Eles fazem amor… Transam… Enfim… Eles se unem de… de forma a serem um ser apenas e…’

‘Ele se unem?’

‘É… Unem-se de forma intensa.’ Shaolin repetiu, fitando um ponto qualquer sem encarar o irmão, pois sabia que estava vermelho. ‘Há troca de carinhos, ficam nus, tocam-se e se aproximam tanto um do outro, ficam bem próximos um do outro, até se unirem.’ Ele suspirou, tentando se acalmar para explicar direito. ‘Para os seres humanos, o ato de reprodução é prazeroso e, por isso, também é algo que os casais que se amam fazem com frequência, sem necessariamente a intenção de terem filhos.’

Kazuo franziu a testa, começando a entender. ‘Ficam nus?’

‘Na maioria das vezes.’ Shaolin esclareceu. ‘Bem… Tem casais que não ficam completamente… Depende de cada caso.’

‘E é prazeroso?’

‘Sim... Muito.’ Ele falou. ‘Mas é mais prazeroso e intenso quando você apenas faz com quem ama. Por quem você tem sentimentos verdadeiros e não com qualquer um.’

‘Ah! Por isso você ficou tão bravo quando pensou que oyaji teve o contato especial com a Midoriko.’

Shaolin suspirou e assentiu com a cabeça. ‘Exatamente. Como é algo que se deve ter apenas com uma pessoa especial, não aceitei a suspeita de tousan ter feito isso com outra mulher que não fosse kassan. Eles se amam. É um amor tão grande que eu não sei se existe outro igual.’

Kazuo concordou com a cabeça e depois arregalou os olhos de leve, pensando em algo. ‘Só uma pergunta: se eles se unem e viram um só, como é que fazem para se separar depois? E se separarem de forma errada?’

Shaolin cobriu o rosto com a mão e balançou a cabeça. ‘Não tem como isso acontecer, Kazuo.’ Suspirou, desconsolado. Pelo visto o irmão não entendeu inteiramente o que ele disse, achou que precisava de algum material mais didático para tentar explicar. ‘De qualquer forma, antes de ter o contato especial, precisa namorar. Então, por enquanto, você só precisa se preocupar em demonstrar que gosta dela. E com beijos.’

Kazuo sorriu de leve e levou a mão até a face onde Marie havia lhe beijado. ‘Marie me deu um beijo no rosto.’ Ele comentou e Shaolin sorriu de lado.

‘Isso é um sinal de que ela gosta de você.’ O menino comentou.

‘A Marie beijou a sua testa quando você estava dormindo, então ela gosta de você também.’ Ele falou incomodado.

‘É diferente. Não é a mesma coisa. Existem outros tipos de sentimentos que são demonstrados com um beijo. Há beijos diferentes.’

‘Kasumi também me beijou.’ Ele falou.

Shaolin franziu a testa. ‘Que história é essa?’

‘No rosto.’ Ele falou apontando com o indicador para a bochecha.

O garoto endireitou o corpo tentando disfarçar o incômodo. Era ciumento e pronto! Já sabia disso.

‘Ela me considera um irmão mais velho.’ Kazuo falou sorrindo de leve.

Shaolin deu um longo suspiro e tentou relaxar os músculos do pescoço. ‘O mesmo que entre eu e nee-san, entendeu?’

‘Acho que sim.’ Ele falou de forma sincera. ‘É como você.’

Shaolin sorriu de leve e balançou a cabeça. ‘Kasumi é melhor que eu.’ Olhou para o irmão e desviou os olhos, sentindo-se novamente envergonhado. ‘Ela desde que soube sobre você nunca se importou por você ser um demônio, filho de Tousan… ou coisa assim…’

Kazuo meneou a cabeça. ‘Ela não tem medo de nada.’ Falou rindo.

Shaolin sorriu de leve. ‘Você tem razão, ela não tem medo de nada.’ Soltou um suspiro. ‘Bem diferente de mim…’ Falou soltando um suspiro dolorido e fitando um ponto qualquer do gramado a frente deles. ‘Eu estava morrendo de medo dela ter medo de mim.’

‘Por ter um irmão demônio, né? Não deve ser legal mesmo…’

O menino balançou a cabeça de leve. ‘Eu fui um idiota. A natureza não tem nada haver com o caráter. Há seres humanos capazes de atrocidades inimagináveis para você.’

Fitaram-se.

‘Ela me falou sobre isso.’ Kazuo comentou.

‘E ela está certa… como sempre.’

O rapaz sorriu. ‘Gosto dela… como gosto de você.’

Shaolin sorriu de volta. ‘O mesmo digo sobre você e nee-san. Sem vocês aqui…’ Ele encolheu os ombros de leve. ‘Não seria capaz de seguir nesta missão.’

Sorriram de forma sincera um para o outro e Shaolin conseguiu perceber a energia que envolvia os dois. Definitivamente a vida não teria mais a mesma graça sem Kazuo ao lado dele.

‘E de que forma você gosta da Kasumi?’ Kazuo perguntou quebrando o silêncio.

Shaolin desviou os olhos dele, batendo de leve na cerca do coreto. ‘As coisas entre eu e Kasumi mudaram… Éramos como irmãos antes, pelo menos era o que eu e ela pensávamos…’ Soltou um suspiro e olhou de esguelha para o irmão que o observava com a testa franzida. ‘Nos conhecemos desde que nascemos, sempre fazíamos quase tudo juntos… Porém, com o tempo…’ Balançou a cabeça de leve. ‘Bem, não sei o que aconteceu direito, mas mudou ou a gente começou a entender que o que sentimos um pelo outro é diferente do que irmãos sentem um pelo outro.’ Fechou brevemente os olhos e voltou a abri-los observando a praça. ‘Eu não queria aceitar isso porque achei que seria melhor para mim e, principalmente, para ela continuarmos como amigos.’

‘E o que mudou?’

Ele sorriu de leve. ‘A gente se gosta de forma diferente… Da forma que se quer ficar junto.’

‘Mas vocês já não faziam tudo juntos?’ Arregalou os olhos. 'Ah entendi… Muito juntos… Até virar um só, não é?’

Shaolin encolheu os ombros constrangido e sentia o rosto em chamas. 'Hum… Só ficar perto um do outro, Kazuo.’ Respondeu por fim.

‘Então vocês realmente ficaram de agarramento?’

Shaolin endireitou o corpo. ‘Não é bem agarramento. Já falei para você que não é legal falar desta maneira. Você não fica de agarramento com uma garota. Você a namora.’

‘Hum… Então ela é mesmo sua namoradinha?’ Ele falou, rindo.

‘É… Agora ela é minha namorada.’ Ele confirmou sério. ‘Mas isso não é brincadeira. A gente não deve brincar com os sentimentos. Pode se machucar e machucar os outros.’

Kazuo inclinou o corpo, fitando o irmão sério. ‘Você já a beijou dessa maneira?’ Perguntou, fazendo um gesto em direção a tela congelada do smartphone do garoto.

Shaolin desviou os olhos dele, sentindo o rosto esquentar novamente. ‘O assunto aqui não sou eu.’

‘Beijou ou não?’

‘Beijei.’ Ele respondeu e olhou o irmão. ‘E, se o seu irmão mais novo já fez isso, um marmanjo como você deveria criar coragem de uma vez e fazer o mesmo com a garota de quem você gosta, entendeu?’

‘De quem você está falando?’ Kazuo perguntou, arregalando os olhos.

Shaolin estreitou os olhos nele. ‘Você realmente não sabe de quem eu estou falando, Kazuo?’

‘Eu não gosto de nenhuma garota dessa maneira aí que você está falando.’ Kazuo respondeu. ‘Não pretendo ter filhos, nem ter contato especial e essas coisas.’

‘Eu também não pretendo ter filhos agora.’ Shaolin falou. ‘Você não entendeu a parte de que estar com a pessoa que se gosta é bom?’

‘Sim… Mas…’

Shaolin suspirou novamente. ‘Então, não tem ninguém que faz com que você fique com o coração acelerado, ou sinta um frio no estômago, ou que faça você sorrir só por se encontrar com ela? Não tem ninguém que só em você a olhar já se sente bem pra caramba? Ou que você se pega admirando, pensando em como ela é bonita?’

Kazuo ficou em silêncio ouvindo o irmão. Shaolin o olhou de esguelha com um sorriso de lado.

‘Aquela pessoa que, só em segurar na sua mão, faz você se sentir tão bem que todas as sensações ruins à sua volta se tornam menos assustadoras. Vai dizer que realmente não sente nada disso por uma certa garota, Kazuo?’

Kazuo arregalou os olhos de leve e sentiu o rosto queimar. Endireitou o corpo. Ficou em silêncio alguns minutos, processando tudo que o irmão falou.

‘Hum… Então… Quando… A gente gosta de uma garota desta forma, demonstra isso com um beijo igual…’ Pigarreou e apontou para o telefone do irmão, onde ele havia mostrado o vídeo. ‘Igual o que você me mostrou aí?’

Shaolin assentiu com a cabeça e Kazuo ficou novamente em silêncio, desviou os olhos, observando apenas a chuva cair do céu. Shaolin apoiou os dois antebraços na cerca do coreto e ficou em silêncio esperando o irmão assimilar tudo que ele tinha falado. Voltou a observar as energias que agora conseguia ver de forma tão nítida.

‘E é tão bom assim como você falou?’ Kazuo perguntou finalmente.

Shaolin sorriu de leve. ‘É, sim.’ Respondeu e soltou um suspiro, lembrando-se dos beijos que deu em Kasumi, tinha vontade de beijá-la de novo e muitas outras vezes.

‘E depois se tem o contato especial?’

Shaolin olhou para o irmão. ‘Não é de forma imediata. Foi o que falei, você primeiro namora… Demonstra que gosta da garota, beijando-a… Hum… Abraçando-a. Depois… Aí, sim… Mas tudo deve ser aos poucos.’ Ele tentou explicar. ‘Tudo tem seu tempo.’

‘Você já teve o contato especial com a Kasumi?’

‘Não!’ Ele quase gritou, olhando para o irmão e depois, desviando os olhos dele com o rosto em chamas. ‘Ainda não.’

‘Mas vocês já estão namorando há algum tempo, não é?’

‘Não.’ Ele repetiu, encolhendo os ombros constrangido. ‘Somos muito novos ainda.’

‘Mas se você já a beijou então o próximo passo não seria…’

‘Sim… Mas isso não é assim imediato, Kazuo. É um passo muito grande.’ Ele falou, coçando a bochecha, constrangido. ‘Eu e Kasumi somos muito novos para dar este passo. Tudo tem um tempo certo.’ Ele sorriu de leve, tentando controlar a vermelhidão do rosto. ‘A gente pode namorar por muito tempo antes de… Hum… Antes disso acontecer.’

‘Só quando você quiser ter filhos?’

O menino soltou um suspiro. ‘Não… Quando for a hora. Quando eu e ela quisermos. Como eu lhe falei, os casais apaixonados fazem sem necessariamente quererem ter filhos.’

‘Porque é prazeroso?’

‘Exatamente. Não deixa de ser uma forma de… Hum… De fazer algo bom com a pessoa que se ama. Mas tem que ser na hora certa.’

‘Você quer fazer isso com ela?’

‘Somos muito novos.’ Repetiu nervoso. ‘Isso deve ser feito com responsabilidade. Um dia… Em algum momento no futuro vai acontecer.’ Ele sorriu. 'Eu tenho certeza que ela é a pessoa mais importante para mim.’

Kazuo olhou para o irmão que estava olhando para as pessoas passando pelo parque.

‘Kasumi é uma pirralha muito legal.’ O rapaz falou e Shaolin confirmou. ‘Não a faça sofrer.’

Shaolin virou-se para Kazuo, encarando-o. ‘Nee-san também é uma garota legal, Kazuo. Pense exatamente no que você sente por ela.’

Ele soltou um suspiro. ‘Gosto dela. Ela não é tão legal comigo como a Kasumi, mas… Não sei… Foi o que você falou, é bom olhar para ela. É bom estar ao lado dela.’

‘Então acho que já entendeu o que sente por ela, não?’

‘Acho que sim…’

Kazuo observou o irmão que evitava olhar para ele. Sorriu de leve, voltando a observar a chuva. ‘Deve ser interessante. Acho que vou tentar.’ Disse, sorrindo de leve.

Shaolin olhou de esguelha para o irmão e soltou um suspiro de alívio, tendo conseguido, finalmente, fazer Kazuo entender e tomar a iniciativa. Desencostou-se da proteção que estava apoiado. ‘Acho que podemos voltar agora.’ Ele sugeriu e o rapaz concordou.

Caminharam de volta para o hotel em silêncio. Shaolin parou em frente ao hotel e olhou para cima, percebendo a presença da prima.

‘Então, você entendeu o que tem que fazer, não é?’ Ele perguntou para o irmão.

Kazuo assentiu com a cabeça. ‘Acho que sim.’ Falou e assim como o irmão procurou a presença da jovem. ‘Vou beijá-la, assim que eu a encontrar.’ Disse, sorrindo de leve.

Shaolin rodou os olhos. ‘Não…’ Levou uma das mãos até o rosto, balançando a cabeça de leve. ‘Não é assim.’

‘Isso tem muitas regras.’ Ele falou incomodado.

‘Você não vê os casais se beijando na frente de todo mundo… Quer dizer… Às vezes…’ Pensou que com o irmão era melhor ser prático e direto. ‘Faça isso quando estiver sozinho com ela, entendeu?’

‘Sozinhos?’

‘Isso.’ Ele confirmou. ‘Só você e ela.’ Depois pensou um pouco e olhou para o irmão com o rosto sério. ‘Mas… Presta atenção, não é para forçar. Se ela recuar, você não força, entendeu bem isso?’ Falou com o tom severo.

Kazuo assentiu com a cabeça, olhando para o irmão.

‘Ótimo.’ Shaolin falou, coçou a cabeça, pensando que o pai estava lhe devendo uma. Aquele tipo de conversa deveria ser ele a ter com o irmão, com certeza ele saberia explicar melhor as coisas.

Ele tentou fazer o seu melhor, considerando que não tinha muita experiência e a sensação de constrangimento constante. Esperava sinceramente que tivesse ajudado o irmão a entender as coisas. Bocejou, sentindo-se cansado. Tinha ficado quase o dia todo na rua, observando as pessoas. Começou a caminhar em direção a porta giratória do hotel e Kazuo foi atrás dele.

‘Shaolin…’ O irmão o chamou, fazendo-o voltar-se para ele. ‘Hum…’ Kazuo fez uma pausa, fitando o irmão. ‘Obrigado.’ Agradeceu finalmente.

Ele sorriu para o rapaz. ‘Não tem de quê. Irmão é pra essas coisas.’ Comentou, voltando a caminhar em direção a entrada do hotel. Atravessou a porta giratória e abafou mais um bocejo. Fechou os olhos rapidamente e pensou como estava sentindo saudades de Kasumi. Sorriu de leve, nunca imaginou como doía tanto estar afastado da bela menina de olhos castanhos-avermelhados. Esperava que ela estivesse bem, apesar de sentir de maneira que não conseguia explicar direito uma certa apreensão no peito. Fechou o sorriso e franziu a testa enquanto caminhava decidido em direção ao seu quarto. Queria logo terminar com aquilo. Queria logo que Gabriel lhe desse a localização da próxima chave. Queria o quanto antes rever Kasumi e sentí-la entre os seus braços.

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Kasumi caminhava devagar junto com o grupo de estudantes que seguiam para suas residências depois das aulas. Onora estava ao seu lado falando sem parar. Ela era aluna nova na escola e adorava Kasumi. Ela gostava de falar demais e Kasumi mantinha-se sempre quieta ouvindo. Então a menina de cabelos curtos simplesmente a adorava.

Kasumi olhou para o lado e estreitou os olhos num vulto parado perto de uma das árvores do parque que passavam em frente agora. Franziu a testa de leve. Andava desconfiada de alguma coisa nos últimos dias e isso estava a irritando tanto quanto os malditos pesadelos.

‘Está tudo bem, Kurogane-chan?’ Ela ouviu lhe perguntando.

Virou-se para Onora e forçou um sorriso. ‘Tudo bem. Estou reparando apenas… hum… enfim… estou olhando apenas para o parque.’ Respondeu.

Onora alargou o sorriso. ‘Você gostaria de fazer um dia um piquenique comigo?’ Perguntou ansiosa e encolheu os ombros de leve. ‘Sou nova na cidade… Não conheço muitas pessoas.’

‘Hã…’ Kasumi foi pega de surpresa. O momento estava complicado para ela. Soltou um suspiro. ‘Está bem… marcamos um dia.’

‘Oba!’ Onora exclamou alegre.

Kasumi olhou para além do rosto da jovem. Estavam passando agora por algumas lojas de rua e pelo reflexo de uma das vitrines, novamente ela reparou no mesmo vulto que caminhava de forma tranquila no outro lado da calçada. Ainda não conseguira ver bem as feições do rosto dele, mas conseguia ver de forma bem fraca a luz que o circulava.

‘Acho que vou parar nesta loja para comprar…’ Kasumi falou de repente parando em frente a uma lojinha de conveniência. Onora parou ao lado dela, olhando-a de forma interrogativa. ‘Hum… comprar… acho que…’ Levantou os olhos para finalmente ver o letreiro da loja. ‘Vinho doce de arroz e… gengibre…’ Completou e forçou um sorriso. ‘Preciso fazer molho Teriyaki, já está quase acabando lá em casa.’

Onora abriu um sorriso enorme. ‘Você sabe fazer?! Você é tão prendada, Kurogane-chan! Poderia me ensinar um dia?’

‘C-claro…’ Kasumi falou tentando se afastar dela. ‘Podem continuar… Eu volto sozinha.’

‘Hei vai aonde Kurogane-chan?!’ As duas meninas ouviram Shimizu perguntando enquanto aproximava delas se afastando do grupo de estudantes.

Kasumi rodou os olhos. ‘Eu vou apenas no mercado. Podem continuar. Volto sozinha.’

‘É perigoso voltar sozinha.’ O garoto comentou.

Kasumi comprimiu os lábios, andava sem paciência. Pensou que com apenas dois ou três movimentos era capaz de deixar o moleque chato desacordado e assim livre dele.

‘Não!’ Ela replicou com a voz dura. ‘Eu voltou sozinha. Quero fazer as minhas compras em paz.’ Falou sabendo que estava sendo indelicada. Soltou um suspiro vendo o rosto decepcionado de Onora. Voltou-se para ela e segurou a mão da menina entre as suas sorrindo de leve. ‘Shimizu-kun acompanhará você até sua casa, pois ele é um menino muito gentil e um cavalheiro, não é?’ Falou e virou-se para o garoto que arregalou os olhos.

‘Hã…’ Ele fora pego de surpresa. Não era bem isso que ele queria fazer. Olhou para as duas meninas a sua frente e soltou um suspiro. ‘Claro.’ Respondeu a contra-gosto.

‘Obrigada, Shimizu-kun.’ Onora agradeceu com o rosto corado.

‘Por nada.’ Ele replicou.

‘Ótimo! Até amanhã!’ Kasumi soltou afastando-se dos dois e entrando no mercado. Cumprimentou o atendente e observou de forma discreta o casal de colegas pondo-se a caminhar na mesma direção que seguia o grupo de estudantes. Soltou um suspiro aliviado.

Pegou uma cesta para colocar algumas coisas qualquer e observou pelo reflexo da porta transparente dos refrigeradores, o cara misterioso parado em frente a loja. Parecia indeciso no que faria. Observou que ele foi para a lateral da loja, provavelmente esperando que a garota saísse para voltar a segui-la. Estava com aquilo já lhe irritando demais. A primeira vez que havia reparado nele e em outros dois que andavam seguindo-a estava com a mãe, depois que saíram da consulta médica que Tomoyo a levou para verificar a saúde da filha. Trincou os dentes. Se um daqueles idiotas se aproximassem da mãe ou do seu pai, Miguel que a perdoasse mas já tinha perdido pessoas demais na sua vida passada para aceitar perder agora como Kasumi.

Perguntou para uma das funcionárias da loja se havia um banheiro que pudesse usar. A jovem logo indicou para Kasumi que agradeceu caminhando até a parte de trás da loja. Perfeito. Deixou a cesta com as compras num dos balcões junto com a pasta escolar e entrou no banheiro trancando a porta. Olhou para a pequena janela e estreitou os olhos nela. Fechou a tampa do vaso e subiu, alcançando a janela e a abriu o máximo possível. Não era o ideal, mas dava para passar por ela. Olhou para a parede contrária a da janela e viu o registro de água do banheiro. Usou como apoio para conseguir alcançar a janela.

Olhou para fora e bem como imaginou lá estava o cara encostado num dos carros estacionados, olhando fixamente para a entrada da loja e provavelmente esperando que ela saísse por lá. Sorriu de lado. Idiota. Pensou enquanto dava impulso com a perna direita para conseguir passar pela janela. Tinha habilidade para aquele tipo de situação bizarra que se encontrava. Caminhou devagar em direção ao cara, tentando não fazer barulho e olhando para o chão a fim de encontrar alguma coisa que pudesse ajudá-la. Passou pelas lixeiras do mercado e encontrou um pedaço de cano ou algo assim dentro dela. Pegou o objeto. Não era bem o que imaginava, mas ponderou que era pesado o suficiente para o que precisava.

Parou atrás de um dos carros mais próxima ao homem que acendeu um cigarro e soltou um suspiro irritado, provavelmente por estar ali parado esperando a garota sair para continuar a persegui-la.

Kasumi passou no estreito espaço entre o muro e um dos carros. Pegou algumas pedrinhas no chão e jogou a primeira acertando um dos latões de lixo produzindo o barulho que queria para chamar a atenção do cara. Ele virou-se e franziu a testa olhando para as latas e estranhando. Voltou a prestar atenção a saída da loja. Kasumi jogou a segunda pedrinha provocando o mesmo barulho e voltando a se abaixar para não ser vista por ele. Fez isso mais duas vezes até o cara se irritar e sair do seu lugar de tocaia para se aproximar das latas de lixo.

Assim que passou por Kasumi, ela se levantou, pisou no parachoque do carro próximo para lhe dar altura suficiente e com o impulso girou o corpo dando lhe força extra acertando-o na nuca e fazendo-o cair no chão. Olhou para a rua e esperava que ninguém tivesse percebido. Era melhor ser rápida, talvez tivesse alguma câmera de segurança no local e poderia chamar a atenção de alguém. Foi até o cara e verificou a pulsação dele, não estava morto, apenas com um baita machucado na cabeça. Ele tinha sorte que ela não tinha lhe acertado mais abaixo onde sabia muito bem que seria fatal. Virou o cara e olhou os bolsos dele procurando alguma pista.

Era óbvio que era um estrangeiro, pelas feições do rosto que agora observava com facilidade. Encontrou uma carteira e a abriu, procurando alguma identificação. Não achou nada, apenas dinheiro local e cartões. Bateu de forma rápida nos bolsos tentando encontrar alguma outra coisa e no bolso interno do casaco encontrou finalmente algum documento do cara.

‘Stato della Città del Vaticano.’ (Estado da Cidade do Vaticano) Sussurrou, franzindo a testa, não precisava saber italiano para saber da onde o cara era. A pergunta era porque ele estavam atrás dela. Colocou de volta o documento e olhou em volta. Logo o cara acordaria, era melhor voltar, pagar as compras e ir embora para casa o quanto antes. Tinha que tentar entender o que estava acontecendo, mas sabia que aquilo estava relacionado a Shaolin e isso apertava mais ainda o seu coração com relação a segurança dele.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Marie olhava desconfiada para Kazuo que estava sentado à sua frente. Estavam jantando no restaurante do hotel novamente. Shaolin tinha comido alguma coisa quando chegou ao hotel e agora estava dormindo.

‘Ele realmente está bem?’ Marie perguntou pela segunda vez para Kazuo que levantou os olhos para ela. ‘Ele parecia bem à tarde. Ele reclamou de alguma coisa enquanto estavam passeando pela cidade?’

‘Ele está bem.’ Respondeu. ‘Está apenas cansado.’ Repetiu. ‘Caminhamos bastante pela cidade. Até que ela não é tão feia como eu tinha pensado assim que chegamos.’

Marie batia os dedos de leve na mesa. Estava ainda preocupada com o primo. Na verdade, vivia preocupada com ele. ‘Ele não deveria ter saído o dia inteiro.’ Ela suspirou. ‘Mas é um pirralho teimoso demais.’

Kazuo desviou os olhos dela por alguns segundos, lembrando da conversa que teve com o irmão, sentiu o rosto esquentar e tentou disfarçar.

‘Falei com otousan hoje pela manhã.’ Ela disse, de repente, fazendo-o voltar a fitá-la. ‘Ele disse que está estudando… tentando achar alguma solução para a situação do Shaolin-kun.’

Kazuo ergueu de leve as sobrancelhas, o pai dela não gostava nem um pouco dele e não tentava nem disfarçar. ‘Tomara que ele encontre.’ Falou por fim.

‘Sim…’ Ela concordou. ‘Aposto que ele deve estar enfurnado naquele escritório, em volta daquele monte de livros velhos e cadernos de anotações deixados por Clow-sama.’ Falou com a voz chateada. Soltou outro suspiro incomodada. ‘Vamos ver se, pelo menos agora, Clow-sama pode nos ajudar nisto…’

‘É… Oyaji, às vezes, falava desse tal de Clow.’ Kazuo comentou. ‘Parecia que… sei lá… às vezes é difícil entender as reações humanas. As Cartas não gostavam muito de falar sobre ele.’

Marie franziu a testa. ‘Clow-sama era um baka.’ Ela falou por fim, erguendo o queixo. Estava como rosto duro. ‘Era um mago muito limitado nos seus conhecimentos sobre demônios. Espero que, pelo menos com relação a magia em seres humanos, ele saiba mais e tenha deixado alguma coisa para nos ajudar agora.’

‘Seu pai também não gosta muito de seres como eu.’ Ele falou, desviando os olhos dela novamente. ‘Lembro-me bem de quando eu o conheci.’

Ela sorriu de leve e de forma triste. ‘Ele está se esforçando.’ Ela respondeu. ‘Eu sei disso.’

‘Tomara.’ Ele falou por fim, ficando em silêncio depois.

Marie estreitou os olhos no rapaz, achando-o mais quieto que de costume. ‘Você está bem?’

Kazuo olhou para ela. ‘Estou.’ Respondeu simplesmente.

Marie franziu a testa. ‘Está muito quieto. Shaolin-kun contou alguma coisa que o deixou preocupado? Ele está realmente bem?’

O rapaz respirou fundo e soltou o ar devagar, pensando no que responder. Era claro que a conversa com o irmão o deixou preocupado, apreensivo, ansioso e nervoso. Só que não poderia dizer isso para ela, mas, pelo jeito, ele era péssimo em tentar disfarçar isso. Nunca fora muito bom. Sempre dizia o que pensava sem medir muito as palavras. Levou vários tapas de Midoriko quando era mais novo por isso e, pelo jeito, deixou o irmão constrangido e irritado diversas vezes pelo mesmo motivo. Sempre fora direto e, pelo que entendia sobre aquele universo, as coisas não poderiam ser tão diretas assim. Na verdade, eram complexas demais para ele.

‘Hei!’ Marie voltou a chamá-lo. Estava com o rosto preocupado. ‘Em que está pensando?’

‘Hum… Na conversa que eu tive com o meu irmão.’ Respondeu.

‘Ele está sentindo alguma coisa, não é?’ Marie arregalou os olhos de leve.

O rapaz negou com um gesto. ‘Ele parece bem.’ Respondeu. ‘Está mais desperto.’

‘Sim…’ Marie respondeu, voltando a estreitar os olhos nele. ‘Mas o que ele falou para deixá-lo tão preocupado desta forma? O que você está escondendo de mim?’

Kazuo olhou para Marie a sua frente e franziu a testa de leve. Sentiu o rosto esquentar. Desviou os olhos e viu que tinha várias pessoas no restaurante. O irmão tinha recomendado estar a sós com ela. Pigarreou. ‘Eu não posso dizer aqui. Tem muita gente.’

Marie olhou desconfiada para ele, desviou os olhos do rapaz e olhou em volta, reparando nas pessoas e as viu distante, não escutariam a conversa deles. Além disso, a probabilidade delas os entenderem era mínima. Ajeitou-se na cadeira incomodada, ansiosa e nervosa. Será que era tão mais grave do que estava imaginando. Que inferno!

‘Você já terminou, não?’ Ela perguntou e o viu confirmar com a cabeça. Fez um gesto com o braço, chamando o garçom e pedindo que trouxesse a comanda para ela assinar e eles saírem do restaurante.

O rapazinho logo veio com o que foi solicitado e ela assinou, já se levantando e olhando para Kazuo.

‘Vamos?’ Chamou-o, sendo seguida por ele. ‘O que é tão importante assim? Você está me deixando nervosa…’ Ela comentou, irritada, já pensando no pior e caminhando com passos rápidos em direção ao quarto dela. Abriu a porta e, assim que o rapaz entrou, ela a fechou, encarando-o séria. ‘O que aconteceu? Desembucha logo, Kazuo-kun!’

‘Eu gosto de você.’ Ele falou de uma só vez.

Well, you done, done me and you bet I felt it

(Bem, você acabou comigo e pode apostar que senti isso)

I tried to be chill but you're so hot that I melted

(Tentei ficar frio, mas você é tão quente, que derreti)

I fell right through the cracks, now I'm trying to get back

(Caí nas rachaduras, agora estou tentando me recompor)

Marie arregalou os olhos, chegando a dar um passo para trás com o susto. Balançou a cabeça de leve, achando que tinha ouvido mal. Não era bem isso que estava esperando ouvir. Estava esperando o rapaz dizer que Shaolin estava morrendo, com dor, sentindo, sei lá… Que a vida dele estava acabando, enfim… Pensou em tantas coisas terríveis naqueles últimos minutos que realmente achou que entendeu mal.

‘O que você disse?’ Perguntou incerta.

Before the cool done run out, I'll be giving it my bestest

(Antes que o frio passe, eu darei o meu melhor)

And nothing's gonna stop me but divine intervention

(E nada, além de uma intervenção divina, vai me parar)

I reckon it's again my turn to win some or learn some

(Eu acho que é a minha vez de ganhar ou aprender algo)

Kazuo respirou fundo sem desviar os olhos dela. ‘Que eu gosto de você.’

Ela olhou desconfiada para ele, perguntando-se o que ele realmente estava querendo dizer com aquilo. ‘Certo…’ Ela falou devagar, endireitou o corpo sentindo-se encabulada pelo olhar fixo do rapaz na sua direção. ‘Hum… E eu falei que gostava de você também.’ Ela disse em tom incerto, sem saber direito se eles estavam falando da mesma coisa.

Kazuo abriu um sorriso enorme, fazendo-a sentir o rosto esquentar. ‘Então… Estamos namorando, não é?’

But I won't hesitate no more, no more

(Mas não vou mais hesitar, não mais, não mais)

It cannot wait, I'm yours

(Isso não pode esperar, eu sou seu)

Marie arregalou os olhos, abriu a boca para falar alguma coisa, mas não sabia direito o que dizer. Estava pronta para perguntar da onde ele tinha tirado aquela ideia maluca. Quando se assustou ao vê-lo se aproximar, enlaçando-a pela cintura, e abaixar o rosto, tocando seus lábios nos dela. Sentiu o coração bater de forma acelerada e a pernas fraquejarem de maneira que nunca pensou que sentiria. Kazuo a segurou mais firme pela cintura, mantendo os lábios colados nos dela.

Ela fechou os olhos e entreabriu os lábios, começando, finalmente, a retribuir o beijo. Envolveu-o pelo pescoço, acariciando de leve os cabelos da nuca do rapaz, fazendo-o estremecer e apertando-a ainda mais contra o corpo dele. Marie deu um passo para trás, puxando-o com ela, para buscar o apoio da porta atrás de si, tentando contornar as pernas bambas.

Well, open up your mind and see like me

(Bem, abra sua mente e veja como eu)

Open up your plans and damn, you're free

(Considere outros planos e caramba, você se libertará)

Look into your heart and you'll find love, love, love, love

(Olhe para seu coração e encontrará amor, amor, amor)

Kazuo provou a maciez dos lábios dela e o gosto deles era maravilhoso. Sentiu quando a língua dela passou de leve pelos lábios dele, aumentando o prazer que ele sentia. De forma instintiva, fez o mesmo, fazendo elas se tocarem e aprofundando o beijo com sofreguidão. Sentiu o corpo dela tremer de leve assim como o dele. O ar faltou nos seus pulmões, obrigando-o, contra a vontade, a afastar-se dela apenas por alguns segundos e ouviu-a suspirando, provavelmente, também sentindo a mesma falta de oxigênio.

Ele abriu os olhos rapidamente e a viu ainda com os dela fechados, a face rubra e os lábios entreabertos. Sorriu de lado. O irmão tinha razão. Aquilo era realmente bom demais. Voltou a se aproximar dela e, novamente, tomou os lábios da jovem, beijando-a. Levantou as mãos, puxando-a para se afastar da porta e levantou as mãos, passando-as pelas costas dela e sentindo os fios longos roçarem nas costas de suas mãos.

Listen to the music of the moment people dance and sing

(Escute a música do momento que as pessoas cantam e dançam)

We're just one big family

(Nós somos só uma grande família)

And it's our God-forsaken right to be loved

(E é nosso direito divino sermos amados)

Loved, loved, loved, loved

(Amados, amados, amados, amados)

Novamente sentiu falta de ar, obrigando-o a afastar seus lábios dos dela, mas recusava-se a deixar de sentir o gosto dela. Deslizou os lábios beijando, de leve, o rosto lindo de Marie e sentindo a suavidade da pele dela. Percebeu quando ela puxou de leve os cabelos da sua nuca e soltou um gemido quando ele alcançou o pescoço dela beijando-o de forma suave. Respirou fundo, inalando o perfume entorpecente dela, e pensou por um momento como tinha sido bobo em ter demorado tanto para fazer aquilo.

Desde que a tivera entre seus braços assim que atravessara a brecha que o trouxe para aquele universo, já deveria ter se dado conta de que queria novamente senti-la contra seu corpo.

Passou a mão pelos cabelos dela, sentindo os fios macios entre seus dedos e sentiu quando ela puxou o rosto dele para que pudesse beijá-lo nos lábios novamente.

So I won't hesitate no more, no more

(Então não vou mais hesitar, não mais, não mais)

It cannot wait, I'm sure

(Não posso esperar, tenho certeza de que)

There's no need to complicate, our time is short

(Não há necessidade de complicar, nosso tempo é curto)

This is our fate, I'm yours

(Esse é o nosso destino, eu sou seu)

Afastaram-se por falta de ar, mas ainda permaneceram abraçados. Marie repousou a cabeça no ombro de Kazuo, tentando recuperar o fôlego. Ficaram em silêncio por algum tempo tentando assimilar o que aconteceu entre eles.

D-d-do you, but you, d-d-do

(Você, mas você, vai)

But do you want to come on?

(Mas você quer vir?)

Scooch on over closer dear

(Aproxime-se, querida)

And I will nibble your ear

(E vou dar uma mordidinha na sua orelha)

Marie finalmente se afastou de Kazuo e fitou o rosto do rapaz. Estreitou os olhos nele, concluindo, de forma óbvia, que a atitude dele havia sido resultado da conversa com o irmão. Kazuo não tinha nem ideia de como era qualquer relacionamento entre humanos quando havia chegado neste universo. Lembrava-se da conversa constrangedora que eles tiveram quando os dois irmãos ainda estavam brigados e não se entendiam.

Kazuo franziu a testa de leve, incomodado com o olhar direto dela sobre ele. Por alguns segundos, perguntou-se se tinha feito certo ou não, tinha sido bom demais para ele, mas o silêncio fez com que ele começasse a se sentir nervoso.

I've been spending way too long checking my tongue in the mirror

(Gastei muito tempo olhando minha língua no espelho)

And bending over backwards just to try to see it clearer

(E me inclinando para trás para tentar vê-la mais claramente)

But my breath fogged up the glass

(A minha respiração embaçou o vidro)

And so I drew a new face and I laughed

(E então desenhei um rosto novo e ri)

Marie sorriu para ele e balançou a cabeça de leve. ‘Acho que estamos namorando.’ Ela finalmente respondeu a pergunta que ele fez antes de beijá-la.

Ele sorriu de volta. ‘Sim… Só namorando. Nada de contato especial.’

Ela sentiu o rosto esquentar novamente e desviou os olhos dele. ‘Só namorando.’ Repetiu.

I guess what I'm saying is there ain't no better reason

(Acho que, o que estou dizendo, é que não há razão melhor)

To rid yourself of vanities and just go with the seasons

(Para se livrar da vaidade e deixar a vida te levar)

It's what we aim to do, our name is our virtue

(É o que almejamos fazer, o nosso nome é a nossa virtude)

~*~KK~*~

But I won't hesitate no more, no more

(Mas não vou mais hesitar, não mais, não mais)

It cannot wait I'm yours

(Isso não pode esperar, eu sou seu)

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Shaolin acordou sentindo-se satisfeito. Olhou para o lado e viu que o irmão ainda dormia na outra cama. Levantou-se e sorriu, tinha novamente se encontrado com a mãe e Gabriel. O Anjo havia lhe dado o paradeiro da quarta chave.

Arrumou-se e pensou que, depois que tomasse café, ligaria para Kasumi. Só para ouvir a voz dela. Aquela conversa toda com o irmão ontem tinha deixado-o com mais saudade ainda da menina. Sorriu, lembrando-se da sensação de sentir os lábios dela nos seus. Não mentiu para o irmão, era realmente muito bom. Esperava que o rapaz tivesse, finalmente, dado o primeiro passo, apesar de que a energia que vibrava em torno do corpo dele mostrava imensa felicidade e isso era bom sinal.

Saiu do quarto, deixando Kazuo dormindo e fechou a porta já encaminhando-se para o restaurante para tomar café.

‘Movimento.’ Ouviu a voz da prima e franziu a testa, abriu os olhos e encontrou-se no quarto dela.

Marie estava olhando para ele com os braços cruzados e o rosto sério. ‘Você é um pirralho muito metido, sabia?’

Shaolin cruzou os braços e levantou o queixo, devolvendo a encarada da prima. ‘O que eu fiz desta vez?’

Ela se aproximou sem tirar os olhos dele, mas sentindo o rosto esquentar. ‘Você… Você instruiu o seu irmão…’

‘Ah!’ Shaolin soltou e sorriu para ela, mas logo fechou o sorriso, tentando ficar sério. ‘Kazuo é mais velho que eu, não tem porque você concluir as coisas desta forma.’ Ele deu de ombros. ‘Por que eu o instruiria e para quê?’

‘Não se faça de sonso, Shaolin-kun, que eu o conheço muito bem. Kazuo-kun nem tinha ideia do que era beijar e abraçar e muito menos sabia o que era namoro.’

O menino bem que tentou se segurar para não sorrir, mas não conseguiu. Estreitou os olhos na prima. ‘Ele a beijou, foi? E você gostou, nee-san?’

‘Hei!’ Marie exclamou arregalando os olhos e corando. ‘Você é um pirralho muito metido, sabia? E malicioso!’ Falou, com vontade de dar uma coça no primo. ‘Você não tinha o direito de ter feito isto.’

Shaolin franziu a testa. ‘Você é tímida demais para tomar a iniciativa e Kazuo não entende como as coisas funcionam aqui. O que eu fiz foi apenas esclarecer as coisas para ele. Como eu havia prometido para ele que faria.’

‘Você instruiu seu irmão a me beijar. Ele não tinha ideia do que é isso.’

Shaolin encarou a prima e a olhou sério. ‘Acho que você é que, pelo visto, não tem ideia do que é isso, senão não estaria agora me acusando desta forma. Ele não fez nada que você não quisesse. Eu fui bem claro e o adverti para não forçar nada e eu duvido que ele faria isso. Então…’ Shaolin olhou mais sério ainda, fazendo a jovem se assustar. ‘Para de ter medo desta maneira.’

‘Eu não estou com medo.’ Ela falou entre os dentes.

‘Então… Deixa as coisas acontecerem, nee-san.’

‘Quem você pensa que é, pirralho, pra ficar me dando conselho sentimental? Acha que, só porque tem uma namoradinha, agora pode ficar instruindo seu irmão a ser Don Juan?’

Shaolin deu um passo à frente e encarou a prima ainda com o rosto sério. ‘Você gosta dele e ele gosta de você. Você tem ideia de como esta droga toda que a gente está vivendo vai terminar, nee-san?’

Open up your mind and see like me

(Bem, abra sua mente e veja como eu)

Open up your plans and damn, you're free

(Considere outros planos e caramba, você se libertará)

Ela arregalou os olhos novamente surpresa com o tom dele. Não conseguia ainda se acostumar com ele agindo daquela forma.

‘Você não tem a menor ideia de como isso vai terminar. Você não sabe se eu vou sobreviver até a última chave, não sabemos quem teremos que enfrentar até chegar nela, não temos ideia de quanto tempo minha mãe vai continuar conseguindo segurar a onda. Isso aqui tudo pode acabar, e aí? Kazuo pode ter que voltar para aquela merda de lugar de onde ele veio, você pode nunca mais vê-lo e vai querer mesmo ficar se fazendo de difícil? Acredite em mim, é uma merda estar longe da pessoa que se gosta e quanto mais tempo longe, pior se sente. Não passa! Não melhora!’ Ele falava sério, deixando-a desnorteada. ‘Então… Em vez de ficar me enchendo o saco, vê se aproveita para estar junto de quem você gosta enquanto puder.’

Look into your heart and you'll find that the sky is yours

(Olhe para seu coração e você verá que o céu é seu)

So please don't, please don't, please don't

(Então por favor não, por favor não, por favor não)

Marie deu um passo para trás, olhando ainda assustada para o primo. ‘Quem é você e o que fez com o pirralho?’

Shaolin soltou um suspiro incomodado, deu a volta e começou a caminhar em direção à porta do quarto da prima para sair e, finalmente, tomar o seu café da manhã.

‘Gabriel apareceu e disse que a próxima chave é a de Pedro. Precisamos ir para o Vaticano.’ Ele informou, tentou abrir a porta, mas não conseguiu. Voltou-se para a prima. ‘Dá para destrancar?’

Marie bufou contrariada. Fez um gesto com a mão, destrancando a porta e possibilitando que o menino a abrisse e saísse, batendo-a mais forte que o necessário.

There's no need to complicate

(Não precisa complicar)

Cause our time is short

(Porque nosso tempo é curto)

Marie ainda ficou um tempo observando a porta fechada, sentindo-se contrariada. ‘Pirralho metido.’ Soltou e franziu a testa. Pensou por alguns segundos nos beijos que Kazuo lhe deu e abriu um sorriso tímido. ‘Humph… Pelo menos conseguiu instruir o irmão direito.’ Falou satisfeita.

This is, this is, this is our fate, I'm yours!

(Esse é, esse é, esse é nosso destino, eu sou seu!)

Continua.

Notas finais
Música do Capítulo: I´m Yours (Eu sou seu) by Jason Mraz