FEITICEIROS
71 A Chave da Confiança - Parte 2
FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 71
A Chave da Confiança — Parte 2
Kazuo caminhou até o irmão com passos arrastados, sentindo o corpo tremer de dor pelos maiores e mais profundos ferimentos que começavam a cicatrizar. Fitou Marie que fitava-o com os olhos vermelhos e caiu de joelhos no chão ao lado do corpo do irmão em frente a jovem, sentindo-se esgotado. Colocou a chave na mão de Shaolin e fechou os dedos frios do irmão em torno do artefato, apertando-a com a suas mãos.
‘Vamos, Shaolin… Acorda.’ Ele murmurou.
Marie engoliu em seco, observando o rapaz olhar para o irmão e esperando alguma coisa. Ela passou a mão no rosto, secando-o e tentou falar alguma coisa, mas não conseguiu.
‘Anda, Shaolin, você já está com a maldita chave. Acorda.’ Kazuo falou com a voz mais dura, apertando mais forte a mão que envolvia a do irmão onde ele havia colocado a chave.
Kazuo fitou o rosto do irmão que mantinha os olhos fechados. Ainda não sentia a aura dele. ‘Anda… Anda…’ murmurou mais uma vez.
Marie respirou fundo e fechou os olhos rapidamente. ‘Kazuo-kun… Ele não vai voltar… Já passou muito tempo.’ Finalmente teve coragem de falar, sentindo a voz falhada.
O rapaz levantou os olhos para ela e franziu a testa. ‘Ele vai voltar. A maldita chave já está na mão dele. Ele tem que voltar.’ Falou entre os dentes.
Marie comprimiu os lábios. ‘Já faz muito tempo… Não tem sinal de vida… das outras vezes, estava fraco, mas tinha alguma coisa. Não sinto a aura dele e…’
‘Shaolin vai voltar!’ O rapaz a interrompeu, fazendo-a se calar.
Kazuo apertou novamente a mão do irmão, olhando para o rosto dele e esperando que o garoto abrisse logo os olhos. Franziu a testa, ficando incomodado em não perceber reação nenhuma dele. Sentia apenas a mão gelada dele assim como sentia um maldito bolo na garganta. Ele tinha visto o irmão. Shaolin tinha o ajudado a derrotar o inimigo. Por que ele não voltava agora?
Kazuo passou a mão no rosto, fechando os olhos de maneira forte sem conseguir acreditar que, depois de tudo, depois de terem derrotado o minotauro… Não! O irmão tinha prometido voltar sempre. Shaolin tinha prometido isso para ele.
‘Kazuo-kun…’ Marie chamou o rapaz, percebendo a aura dele agitada. Soltou um soluço sem querer e apertou as mãos juntas perto dos lábios para evitar que outros saíssem.
O rapaz passou a mão pelos cabelo, finalmente dando-se conta de que não sentia mais a aura do irmão. Shaolin tinha aparecido talvez apenas para ajudá-lo porque, caso contrário, ele e Marie poderiam estar mortos. Ele tinha falhado. Tinha prometido ao pai e a Sakura proteger o garoto e, no final, foi apenas Shaolin que o protegeu. Inclinou o corpo, sentindo o peito doer e encostou a testa no peito do irmão. Nunca pensou que sentiria uma dor tão grande quanto aquela. Preferia mil vezes sentir os tapas e as surras de Midoriko do que sentir aquele aperto no peito.
Marie estendeu a mão e tocou na cabeça do rapaz. ‘Você fez todo o possível.’
Ele não respondeu. Não conseguia responder. Aprendeu, desde pequeno, que não deveria chorar, pois todas as vezes que fizera isso quando criança recebeu um castigo maior. Aprendeu a se controlar desde pequeno e a engolir cada dor em seco, no entanto, agora não conseguia evitar. Nunca imaginou que perder alguém com quem se importasse doesse tanto daquela forma.
Sentiu o peito fisgar mais forte ao lembrar do irmão gritando para ele com fúria quando os dois haviam brigado feio com socos e chutes. Shaolin gritou que ele não tinha ideia do que era perder alguém importante. Inferno de ironia, o irmão ser justamente quem o fez saber exatamente como era enlouquecedor aquela dor.
Tempo tinha razão, naquele universos existiam dores muito mais fortes e desesperadoras que simples ferimentos no corpo, mesmos os mais profundos.
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Shaolin olhou para o irmão e trincou os dentes, conseguia perceber a energia do irmão que estava debruçado sobre o seu corpo. Encolheu os ombros e engoliu em seco. Não queria fazer o irmão sofrer daquela forma novamente. Voltou-se para Chocolove.
‘Chocolove-sama! Como eu faço para voltar?’ Perguntou, olhando sério para o xamã.
O homem soltou um suspiro. ‘Não sei. Você passou muito tempo desconectado do seu corpo.’
Shaolin olhou para o corpo do xamã que estava em posição de buda mais afastado. Fez um gesto em direção a ele. ‘Você também está há bastante tempo desconectado do seu corpo.’
‘Eu estou em estado de transe. É diferente.’ Retrucou.
‘Eu também estava… Pelo menos antes de perder a chave da minha mão.’
‘É diferente. Eu sou um xamã… Você é um feiticeiro. Para você entrar em transe precisava realmente da chave.’
‘Está bem… Mas agora eu não a tenho mais, então me dá outra alternativa.’
Chocolove coçou a cabeça sem saber direito o que fazer. Olhou para Mick que estava ao seu lado sentado, observando o garoto. Mick balançou a cabeça de leve informando também que não sabia o que responder.
Shaolin respirou fundo. Tinha que usar a cabeça. Tinha que se manter calmo. Fechou os olhos rapidamente e depois os abriu, encarando Chocolove.
‘Como é que você fica neste estado de transe?’ Ele perguntou.
‘Isso precisa de anos de experiência e treino.’ O xamã respondeu.
‘Não tenho este tempo. Quero um curso express.’ Ordenou.
‘Curso express?’ Perguntou, arregalando os olhos. ‘Garoto, isso não é hora de fazer piada e olha que sou eu quem estou falando isso.’
‘Eu consigo! Só me fala como você faz!’ Ele insistiu.
Chocolove soltou um suspiro e olhou para Mick. ‘O que você acha?’
O jaguar desviou os olhos do garoto e fitou o homem por alguns segundos.
‘Está bem.’ O xamã falou. ‘Não custa tentar.’ Completou, dando de ombros. ‘Você tem que se concentrar. Se concentrar muito. Parar de ouvir o que está a sua volta, de sentir o que está a sua volta, de perceber o que está a sua volta e apenas se concentrar em você. No seu interior, entendeu?’
‘No meu interior?’
‘Sim, no interior do seu corpo.’
‘Eu estou fora do meu corpo.’ Ele retrucou.
‘Então improvisa mais uma vez. Você é bom nisso.’ Chocolove falou contrariado.
‘Está bem.’ Shaolin falou levantando as mãos para cima como se fizesse um sinal para ele se manter calmo. ‘Eu vou improvisar. Tenho que me concentrar, é isso, né?’
‘Isso.’ Chocolove confirmou.
‘No meu eu interior?’
‘Isso.’ Ele respondeu mais uma vez. ‘Precisa acreditar em você mesmo. Se um xamã não acredita na sua força, o espírito guardião que o auxilia acaba dominando o seu corpo. O xamã deve sempre ter o total controle e confiança em si para conseguir manipular outras almas.’
‘Confiança em mim?’ O garoto perguntou novamente para confirmar.
‘É isso aí.’ Chocolove respondeu. ‘Confiar no que você é capaz e na sua força.’
‘Certo.’ O garoto respondeu.
Ele tinha que se concentrar. Já tinha feito vários exercícios parecidos antes com o pai. Era só relaxar e sentir a magia em volta do corpo, ou no seu caso, no seu espírito ou seja lá o que ele era agora. Inspirou fundo prendendo o ar por alguns segundos e depois expirou devagar. Ouvia o barulho da mata e dos animais, conseguia ouvir os soluços de Marie. Franziu a testa, tentando desconectar deles. Aos poucos começou a ouvi-los mais baixos, como se estivesse se distanciando ou diminuindo o volume de um rádio.
Sentia de maneira forte ainda a energia de tristeza e desespero da prima e, principalmente, do irmão. Trincou os dentes de leve, estava mais difícil de ignorar isso. Inspirou fundo novamente, expirando o ar devagar, sua mente voltava a prestar atenção na dor do irmão. Precisava acreditar que conseguiria voltar, precisava ignorar isso por enquanto para fazer justamente aquela dor passar.
Ele conseguiria, ele sabia que seria capaz de conseguir. Se não fosse capaz, não seria o escolhido para enfrentar tanta merda. O pai o tinha treinado, a mãe o tinha treinado. As cartas o tinham ajudado a se desenvolver. Todos confiavam nele. Por que ele não confiaria nele mesmo? Kasumi estava esperando por ele. Ela confiava nele. O irmão tinha elevado o próprio nível de magia, confiando que ao colocar aquela maldita chave na mão dele, ele voltaria. A prima tinha mantido o escudo erguido para protegê-los porque confiava que ele voltaria.
Aos poucos começou a se distanciar das energias que estavam perto dele. Deixou de sentir as presenças e as energias do irmão e da prima. Não sentia mais a presença de Chocolove e nem de Mick. Não sentia nem mesmo os pés no chão. Parecia que estava flutuando no nada. Sorriu de leve, pensando que a sensação não era de toda ruim; estar naquele silêncio, naquela paz, naquele vazio.
Era como se, pela primeira vez, ele tivesse percepção de cada célula do seu corpo, de cada fagulha de energia que constituía o seu espírito. Sabia exatamente onde ele começava e onde ele terminava. Por alguns segundos sentiu-se tentado a permanecer naquela paz infinita, mas tinha que voltar. Era o que ele queria. Tinha muita coisa ainda para fazer. Tinha ainda muito o que viver antes de finalmente sentir-se bem e realizado naquele estado de paz.
Respirou mais fundo, sentindo agora alguma coisa contra o seu peito dificultando a inspiração do ar e abriu os olhos, vendo o céu azul e o sol forte. Fechou os olhos e sentiu quando, finalmente, a pressão contra o peito diminuiu e foi imediatamente erguido pelos ombros, levantando-o.
Que inferno! Assim não tinha como se manter concentrado. Franziu a testa, incomodado, e já estava pronto para falar um palavrão quando abriu os olhos, encarando o rosto do irmão a sua frente.
‘Shaolin… Nunca mais me dê uma merda de susto como esse.’ Ouviu o irmão falando com a voz falhada, antes de o abraçar.
Tentou falar alguma coisa para se justificar ou pelo menos perguntar o que tinha acontecido, mas sorriu de leve ao ser abraçado, praticamente esmagado, pelo outro lado, por Marie.
O importante, por ora, era que tinha conseguido voltar. Sentia ainda o corpo dormente e cansado. Na mão que antes tinha a chave sentia apenas o pó agora. E ao pó tudo no final retorna. Pensou para si, rindo. O tal curso express do senhor Chocolove, era bem eficaz. Além dele ser um excelente aluno.
Tentou se afastar para falar para o irmão que estava bem, mas sentiu Kazuo o apertar mais forte entre seus braços, sentia que o corpo dele tremia, provavelmente por dor, estava muito machucado. Fechou os olhos e soltou um suspiro deixando ser abraçado forte por Kazuo. Estava feliz por ter voltado, estava feliz por estar ao lado do irmão novamente.
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Shaolin caminhou devagar, olhando em volta e sorriu de leve ao ver Chocolove sentado em posição de buda com os olhos fechados. Olhou para trás e viu a barraca onde o irmão e a prima ainda estavam dormindo. Kazuo acabou sofrendo alguns ferimentos mais graves e, apesar de ter tomado quase meia dúzia de analgésicos, precisava de mais tempo para cicatrizar dos ferimentos. Não tinha como eles partirem agora. E Marie… Bem… Marie permaneceria com aquela dor enquanto permanecesse com aquela energia. Não tinha muito o que ele fazer, era uma decisão da prima, ele tinha prometido não tocar mais no assunto com ela.
Sorriu de leve, conseguindo ver Mick, the Jaguar ao lado do xamã, agora. Franziu a testa, pensando que era melhor não comentar isso com o pai, sempre ouviu Syaoran falando que esse negócio de ver espíritos não era coisa de feiticeiros como eles. Coçou a cabeça, se ver espíritos era o novo “poder” que ele teria, até que não seria de todo ruim. Ver Mick era bem melhor do que entrar na cabeça das pessoas.
Parou ao lado do jaguar e sorriu de leve para ele. O animal levantou a cabeça e estreitou os olhos nele, depois soltou um suspiro e voltou a se deitar nas patas.
‘Humph.’ O xamã soltou, chamando a atenção do garoto. ‘Não pensei que eu fosse um professor tão bom. Precisa falar isso para o Ren quando o encontrar para ele saber o quanto o meu poder é superior ao dele.’
‘Ah, sim… Seu curso express foi excelente, Chocolove-sama.’ O garoto respondeu.
Ele abriu os olhos e fitou o garoto. ‘Gosto desse negócio de “Chocolove-sama”. Parece que você finalmente… ‘ Ele fez uma pausa. ‘Foi finalmente atingido pelos Ventos do Riso, garoto!!!!’
Shaolin balançou o corpo de leve. ‘Curso express foi ironia. Eu estava nervoso.’
O homem balançou as mãos a frente. ‘Isso não importa… Detalhes. Quando nós aprendemos a rir de situações desesperadoras, elas se tornam menos sombrias e difíceis.’
O garoto ergueu uma sobrancelha olhando para o homem. ‘Bem… Ironia não é bem isso… Mas, tudo bem… Deixa isso pra lá.’ Ele falou e soltou um suspiro. ‘Queria agradecê-lo, se o senhor não tivesse me ajudado, eu talvez não soubesse o que fazer.’
‘Este é um dever de um xamã.’
‘Orientar os espíritos.’
‘Exatamente.’ Chocolove confirmou e olhou de esguelha para ele. ‘Como sabe tanto sobre os xamãs?’
Ele deu de ombros. ‘Sou uma pessoa curiosa.’
Chocolove olhou desconfiado para ele e depois para Mick. ‘Você está vendo o Mick agora, não?’
Ele confirmou com a cabeça. ‘Só não sei se foi o novo “presente”...’ Reteve-se e olhou para o homem. ‘Isso foi ironia também…’ Esclareceu. ‘Enfim… Se foi porque destruí a chave ou porque eu morri.’
‘É, você tava mortinho da silva.’
‘É… Eu sei.’ O garoto confirmou e soltou um suspiro. ‘Espero só que meus pais não descubram isso, senão tô ferrado.’
O xamã soltou um suspiro. ‘Precisa exercitar melhor como trabalhar com seu novo nível de percepção.’ Ele falou. ‘Pode pedir uma ajuda para o Ren quando voltar.’
Shaolin encolheu os ombros. ‘A-acho que não vai ser uma boa ideia. Tousan não gosta dele.’
‘Não o culpo.’ Chocolove falou, assentindo a cabeça. ‘Ele é um cara sem o menor senso de humor. Seu pai tem senso de humor?’ Perguntou, olhando para o garoto novamente.
‘Acho que não.’ Shaolin respondeu, ainda balançando de leve o corpo. ‘Mas eu saberei me virar.’
‘Você é bom de improviso.’ Chocolove falou. ‘Me lembra o despreocupado do Yoh…’ Falou, franzindo a testa e olhando para o garoto. ‘Você não é filho do Yoh, não, né?’
‘Cara!!! Você já me deu dois pais!’ O garoto retrucou. ‘Dá para parar com isso?’
‘Só estou verificando…’ Ele falou com uma mão no queixo. ‘Isso realmente não seria possível porque senão a Anna o mataria…’
‘Bem… É isso. Só queria agradecer mesmo.’ O garoto falou e já estava para se virar antes que o xamã lhe desse um terceiro pai.
‘Hei, garoto!’ Ele o chamou fazendo Shaolin voltar-se para ele. Chocolove fez um gesto em direção a barraca onde estavam a prima e o irmão. ‘A garota ruiva… Ela tem que ficar esperta. Aquilo que ela está carregando no peito não pertence a ela. E a está prejudicando.’
Shaolin soltou um suspiro cansado. ‘É… Eu sei. Mas…’ Ele fitou a barraca. ‘Ela é teimosa pra caramba.’
‘Precisa conversar com ela.’ Ele insistiu. ‘Aquele poder… Para ter, mesmo que apenas parte daquilo, é necessário um treinamento muito grande e intenso. Sem o devido treinamento, não será fácil para ela controlá-lo. Ainda mais pela energia esquisita que ela parece ter primordialmente.’
O garoto voltou-se para o xamã. ‘Aquele poder é xamã?’ Perguntou na lata, sabia que tinha alguma coisa que ainda não estava clara sobre o poder da mãe e estava começando a montar melhor o quebra-cabeças.
Chocolove estreitou os olhos nele. ‘O que você acha?’ Rebateu com outra pergunta.
‘Se estou perguntando é porque não acho nada ainda.’ Ele respondeu e ficou um tempo em silêncio. ‘Mas não sou tonto, é fácil começar a juntar as peças, apesar de não gostarem de falar toda a verdade para você.’
‘Cada um tem seus segredos.’ O xamã rebateu.
‘Eu sei e respeito. Só que…’ Ele fez uma pausa. ‘É um pouco mais difícil quando esses segredos machucam pessoas importantes para você.’
‘Bem colocado.’ Chocolove falou. ‘Mas se você chegar até o final… Quem sabe não terá todas as respostas que está procurando?’
‘Talvez.’ Ele respondeu. ‘Até porque dá para ver que você não vai falar nada, não é?’
‘Nem sempre as pessoas estão preparadas para ouvir todas as respostas às suas perguntas.’
‘Se estamos preparados para perguntar… É porque já pensamos sobre as possibilidades de respostas.’
‘E se a resposta não estiver dentro de suas possibilidades?’
‘O inesperado faz parte das possibilidades. Você tem que estar preparado para enfrentar, ou então… Melhor não fazer a pergunta.’
‘É o ditado… “Pergunta o que não deveria, tem a resposta que não queria”.’
‘É mais ou menos isso…’
O xamã respirou fundo. ‘Você deve saber que tudo acontece de forma gradual, não?’
‘Sim… A evolução deve ser gradual.’
‘Exatamente…’ Ele concordou. ‘Então quando chegar no final, terá as respostas que quer. Se conseguir voltar é porque estava preparado para ouvi-las.’
O garoto respirou fundo. ‘Eu acho que sim.’ Concordou com a cabeça. ‘Vou tentar falar novamente com nee-san. Ela vai me xingar novamente de “pirralho intrometido”...’ Ele deu de ombros. ‘Mas já estou acostumado.’
‘Faz bem… Se gosta mesmo dela, faz muito bem.’ Chocolove repetiu com o rosto sério. Shaolin franziu a testa de leve, para o xamã falar daquela forma, sabia que a vida da prima poderia estar correndo perigo.
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Shaolin batia de leve a mão no joelho que estava flexionado. O pé em cima do assento onde estava no avião do senhor Tao. Estava ansioso para voltar para casa. Queria rever Kasumi logo, estava preocupado com a menina. Tinha ligado assim que chegou no aeroporto para o celular dela, mas não atenderam. Sentia-se nervoso. Precisava rever logo a namorada, não era só questão de saudades agora, era mais que isso. Por muito pouco tinha faltado sua palavra com ela. Pegou o celular de dentro da mochila e tocou na tela algumas vezes até finalmente abrir a foto da garota. Sorriu de leve. Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás batendo no assento, como queria voltar a beijá-la. Tocá-la. Ainda conseguia sentir o gosto amargo do escape que teve da realidade quando a viu encostada numa árvore adormecida e ele estendeu a mão para tocá-la não conseguindo.
Abriu os olhos e olhou para sua mão. Fechou os punhos. O que aquela imagem realmente representava? Por que Kasumi estava sozinha numa floresta com uma katana. E o que eram aquelas manchas na pele dela? As mesma que ele havia visto no corpo dela no último pesadelo com a mãe em que Sonho estava em seu quarto.
Fechou os olhos de forma dolorida lembrando e tentando ainda entender como ela tinha conseguido agir de forma tão rápida e mortal contra aqueles homens. Ela havia conseguido manejar a espada de forma mais certeira inclusive que o pai. Soltou um suspiro e levou uma das mãos a altura do peito, mas nada doeu tanto do que daquela sensação quando ela atravessou seu corpo. Não conseguia mais imaginar-se numa situação como aquela novamente.
Precisava ver Kasumi. Precisava desesperadamente vê-la e abraçá-la. Inclinou a cabeça e olhou para os assentos do outro lado do corredor. Kazuo estava dormindo.
O irmão realmente tinha gastado muita energia, tanto para elevar sua magia de forma explosiva como para se recuperar. Precisou de dois dias, praticamente dormindo direto, para conseguir finalmente ter os primeiros ferimentos cicatrizados completamente. Soltou um suspiro. Agora tinha ideia da agonia que ele deveria sentir quando voltava daqueles transes e sentia-se tão cansado dormindo por horas.
Sorriu de leve, feliz por, no final, o irmão ter conseguido derrotar o inimigo independente de sua ajuda ou não, aquela luta tinha sido muito difícil e sentiu-se realmente orgulhoso quando reparou que o rapaz tinha usado muito do que aprendeu com o pai e até com ele mesmo. Kazuo tinha evoluído muito e de forma muito rápida em técnica ou não conseguiria manipular tão fácil duas espadas. Se o pai o tivesse visto lutando também sentiria muito orgulho.
Suspirou e franziu a testa, observando a prima que estava no assento ao lado, admirando o irmão, enquanto ele dormia. Nunca imaginou ela com aquela cara de tonta, mas não era apenas isso. Abaixou a perna e inclinou o corpo a frente. Não era apenas admiração boba de apaixonada, era tristeza. Marie estava muito triste. Isso não fazia muito sentido, considerando que eles estavam voltando para casa e todos estavam, de maneira geral, bem. Estreitou os olhos nela e percebeu que uma das mãos da prima estava na altura do peito dela onde a luz multicolorida pulsava e a outra afagava de leve os cabelos de Kazuo.
Soltou um longo suspiro, sabia que estaria entrando numa batalha, mas não dava pra fugir dela para sempre. Andava preocupado demais com a prima depois da conversa que teve com o senhor Chocolove.
‘Nee-san…’ Chamou a prima que desviou os olhos de Kazuo e olhou para Shaolin. Ele reparou que ela estreitou os olhos nele, provavelmente já tinha ideia do que ele começaria a falar. Engoliu em seco. ‘Hum… Você precisa entender que é humana agora; não é mais uma carta da kaasan.’
Marie bufou, afastou a mão de Kazuo e sentou de forma correta na poltrona. ‘Você prometeu não tocar mais no assunto.’ Ela quase rosnou para ele.
‘Eu realmente prometi.’ Ele confirmou. ‘Mas… Não dá para a gente ficar indiferente ao que acontece com quem é importante para nós.’
‘Olha só, pirralho…’ Ela falou inclinando o corpo para poder encarar Shaolin de frente. ‘Quando você decide entrar naquele transe doido lá, não tem ninguém que faça você desistir, e não adianta tentar discutir. Então… Não se meta na decisão dos outros.’
Ele respirou fundo, a aura dela estava bem agitada. ‘Eu tinha todas as informações…’ Ele reteve-se por alguns segundos. ‘Quase todas as informações sobre o que aconteceria comigo. E precisava arriscar porque precisava ser feito…’ Ele desviou os olhos dela por um momento e voltou a fitá-la com o rosto decidido. ‘Mas isso não tem nada a ver com o que está acontecendo com você. Não compare as duas coisas. Você está tomando uma decisão baseada em medo.’
‘Medo?’ Ela perguntou em tom irônico. ‘Quem falou para você que eu estou com medo, pirralho?’
Ele inclinou o corpo, estreitando os olhos nela. ‘Eu não preciso que alguém me fale.’
‘Tá lendo a minha mente?’ Ela perguntou, arregalando os olhos de leve. ‘Cadê aquele seu discurso politicamente correto?’
‘Eu não preciso ler sua mente. Dá para ver que você está morrendo de medo de alguma coisa só pela maneira que você está olhando para nii-san a última hora.’ Ele respondeu. ‘Eu não sou tonto.’
‘Você é um pirralho muito metido.’ Ela retrucou.
‘Não tem porquê você ter esse medo todo de abrir mão de algo da sua outra vida. Você é humana agora. Você não é mais uma carta ou um demônio.’ Ele falou com a voz firme.
‘Você está concluindo as coisas de forma errada só porque tem parte das informações… E porque é muito metido.’
‘Eu não estou concluindo nada. Eu estou tentando fazer você entender o risco que está correndo por se agarrar com unhas e dentes a uma coisa da sua outra vida nesta.’
‘Eu não vou abrir mão disso agora.’ Marie rebateu.
‘Por que não?’ Shaolin perguntou. ‘Isso não lhe pertence. Isso é uma carta de kaasan.’
‘Ela me deu.’
Shaolin franziu a testa, encarando-a. ‘Ela realmente deu para você quando era uma carta ou ela foi obrigada a entregar isso para evitar alguma coisa?’
Marie arregalou os olhos de leve e engoliu em seco. Desviou os olhos do primo e apertou mais forte o peito com as duas mãos, querendo proteger aquele sentimento. Encolheu os ombros de leve. Realmente, Vácuo havia obrigado Sakura a entregar uma parte do sentimento mais importante para ela para que fosse transformada em carta Sakura. Foi uma imposição. Um sacrifício que tanto Sakura quanto Syaoran estavam dispostos a fazer um pelo outro.
Balançou a cabeça de leve, sentindo os olhos arderem. ‘Não. Ela me entregou e agora… Agora é meu.’
‘Esta energia não está lhe fazendo bem.’ Shaolin falou de forma firme.
‘Foi isso que me salvou.’
‘Talvez quando você era uma carta. Você não é mais.’
‘Não se meta na minha vida!’
‘Hei! O que está acontecendo aqui?’ Kazuo perguntou, tinha acordado ouvindo a discussão da namorada com o irmão e ao sentir a aura dela se agitar de tal forma que ficou impossível continuar dormindo.
Os dois se calaram e viraram os rostos. Kazuo olhou de um para o outro e franziu a testa, incomodado.
‘Vocês dois estavam discutindo. O que está acontecendo?’
‘O seu irmão é um pirralho metido.’ Marie respondeu entre os dentes. ‘Se metendo na vida dos outros.’
Shaolin soltou um outro longo suspiro e balançou a cabeça de leve. A prima era muito cabeça dura. ‘Sua namorada é teimosa demais.’ O garoto rebateu.
Kazuo endireitou-se na poltrona, olhando novamente de um para outro. Era comum ver os dois trocando farpas, mas não brigando daquela forma. Na verdade, era a primeira vez que realmente ouvia um falando com o outro de forma dura. Respirou fundo.
‘Desembuchem. Os dois.’ Ele falou sério e se irritou ainda mais com o silêncio dos dois. ‘Olha… Eu não sou idiota. Ouvi parte do que estavam quase gritando um com o outro.’ Virou-se para Marie. ‘Que energia é essa que o Shaolin disse estar lhe fazendo mal? E por que não quer abrir mão dela?’
Marie arregalou os olhos e desviou o olhar dele. ‘Ele não sabe do que está falando.’
‘Ele pode não saber, mas você sabe.’ Ele retrucou. ‘E eu não aguento mais ver você desta maneira, sem me contar o que está acontecendo.’
‘Não está acontecendo nada.’ Ela falou entre os dentes.
Ele franziu a testa. ‘Eu não sei se fico bravo por você mentir para mim ou por achar que eu sou um idiota.’
Marie encolheu os ombros. Shaolin lhe pagaria por ter tocado no assunto e feito com que discutisse com o namorado, sentindo-se encurralada. Não dava para continuar com a mesma resposta de antes. Soltou um suspiro.
‘Eu… Eu estou esperando chegar no Japão para descobrir exatamente o que está acontecendo comigo.’ Ela conseguiu falar. Não era totalmente uma mentira, era apenas uma parte da verdade. Estava mesmo esperando para encontrar com Sakura e Syaoran e suplicar que eles não lhe pedissem de volta aquele sentimento.
Kazuo soltou um suspiro. ‘E por que você acha que vai saber o que está acontecendo com você no Japão? Você vai devolver essa energia para a pessoa a quem pertence, não é?’
‘Devolver?’ Ela soltou sem querer. ‘Não sei é necessário devolver.’
‘Se está lhe fazendo mal, então precisa devolver.’ Ele foi firme.
‘Você não entende.’ Ela sussurrou.
‘Se você não falar, não tem como entender.’
Shaolin olhou para os dois e suspirou, não queria colocar a prima naquela situação, mas, se tinha alguém que poderia colocar juízo em Marie, só poderia ser o irmão. Além disso… Ele estreitou os olhos na energia multicolorida no peito da prima. Ela estava, de alguma forma, associando aquela energia a alguma coisa de que não queria abrir mão agora… Desviou os olhos dela, lembrando-se do que tinha visto quando se aproximou na energia.
Arregalou os olhos de leve, lembrando-se do que a própria prima havia lhe contado sobre a ida da mãe ao mundo das trevas atrás do pai. Ela tinha ido com a mãe porque era a líder do grupo, a mais forte e a mãe precisava de um suporte, já que era humana, para sobreviver no mundo das trevas. Então Khala’a havia incorporado na mãe. Só que para isso o senhor Chocolove falou que era necessário um intermediário. No caso, dele como era um feiticeiro, precisava do suporte da chave para entrar naquele estado de transe. Talvez o “intermediário” entre a mãe e Khala’a fosse justamente aquela energia, aquela carta de coração alado.
Shaolin abriu o cinto de segurança e foi até a prima, parando a frente dela, que levantou os olhos, assustada. ‘Você está associando isso com o que sente. É isso, não é? Você não entende que é humana agora? E, mesmo que não fosse humana, por que acha que não seria capaz de ter este sentimento por si própria?’
Marie olhou para o primo e franziu a testa. ‘Você não entende nada de demônios. Não se meta no que não entende.’
‘Ele…’ Shaolin apontou para o irmão. ‘É um demônio, não é? Então, como é que ele gosta de você sendo um?’
‘De que merda você está falando, Shaolin?’ Kazuo perguntou, já se irritando por se sentir perdido em algo que tinha certeza que era importante para ele.
Ela encarou o primo novamente. ‘Ele é um meio-demônio!’ Marie retrucou.
Kazuo franziu a testa. ‘Aquele bicho feio falou aquela merda para tentar me distrair.’
‘Talvez não.’ Marie disse e parecia, de certa forma, esperançosa para que aquele fosse realmente o caso.
‘Eu sou um demônio.’
‘Você não conseguiu se transformar, mesmo elevando sua magia de forma explosiva.’ Ela observou. ‘Você não consegue se transformar.’
Kazuo se ajeitou na poltrona, incomodado. Ela tinha razão, ele realmente tinha elevado o nível de magia dele como nunca antes, deveria ter se transformado, não é?
‘Eu… Eu acho que eu só não precisei me transformar.’ Ele retrucou.
Ela deu um suspiro. ‘Sua magia estava elevada demais. Se você se transformasse, aconteceria naquela hora.’
‘Estava me apoiando na magia do Shaolin.’ Ele falou e olhou para o irmão que encolheu os ombros de leve.
‘Pode até ser que estivesse...’ O garoto respondeu. ‘Mas sua magia estava elevada. Se não estivesse num nível alto não teria como transformar a minha espada. Principalmente por ser um artefato celestial que é contrário à sua própria energia.’ Shaolin respirou fundo. ‘Na verdade, considerando isso, provavelmente para você tê-la transformado e usado-a com facilidade, sua magia estaria num nível muito acima.’
Kazuo se ajeitou na poltrona novamente. ‘Eu só manipulei a sua espada porque você me ajudou.’
Shaolin coçou a bochecha, não sabia como dizer isso para o irmão, mas era melhor falar a verdade. ‘Não é bem assim. Eu realmente posso ter lhe ajudado, principalmente no início, mas no plano que eu estava não dava para fazer muita coisa.’
‘Eu ouvi você! Vi você!’ O rapaz falou encarando o irmão.
‘Mais um indício de que sua magia estava muito elevada.’ O garoto confirmou sorrindo de leve.
‘A sua espada deve ter impedido a minha transformação.’ Kazuo falou sorrindo de leve ao achar uma ótima explicação.
‘A espada não impediria sua transformação.’ Marie interrompeu. ‘É o guerreiro que manipula a espada e não a espada que manipula o guerreiro.’
‘E o que vocês dois estão querendo dizer com isso?!’ O rapaz quase gritou incomodado olhando para a namorada e depois para o irmão. ‘Que aquele chifrudo falou a verdade? Que eu sou um meio-demônio? Impossível! Midoriko é um demônio feminino, oyaji é um demônio… Ou pelo menos era um… Ou sei lá se…’ Ele se reteve por um segundo. ‘Só se ele não for o meu pai…’
‘Hei!’ Shaolin gritou para ele, olhando o torto. ‘Você é meu irmão. Você é a cara de tousan. Não pensa merda!’
Os três ficaram em silêncio, até o garoto soltar um suspiro. ‘Tousan tinha natureza originalmente humana. O espírito dele nunca deixou de ser humano. Talvez... Isso justifique.’
Kazuo passou a mão pelos cabelos incomodado. ‘Isso é ridículo. Eu não sou um meio-demônio. Isso não existe.’
‘Você é limitado, hein?’ Shaolin comentou.
Kazuo encarou o irmão. ‘Este negócio de meio-demônio e coisa e tal é apenas para justificar…’
‘Justificar o quê?’ Shaolin interrompeu o irmão, olhando feio. Já tinha ideia do que o irmão falaria. ‘Você está num relacionamento com ela.’ Ele apontou para a prima. ‘Cuidado com o que vai falar.’ Alertou o irmão. Kazuo poderia ser seu irmão mais velho, mas considerava Marie como sua irmã, não permitiria que nenhum rapaz falasse o que Kazuo estava para soltar.
Kazuo calou-se e endireitou o corpo. Olhou para a namorada e estranhou por ela estar quieta daquela forma agora.
‘Ela é humana.’ Shaolin falou e soltou outro suspiro. ‘Ela foi um demônio. Está num corpo humano agora. E sinceramente, independente disso, de ser um demônio ou um humano, sentir o que vocês sentem um pelo outro é indiferente.’ Ele falou e sorriu de leve. ‘Na verdade, há relacionamentos entre humanos que não são nem parecidos com o que vocês dois têm.’
Marie encolheu mais os ombros apertando as mãos contra o peito de forma compulsiva, desesperada. ‘Demônios não são capazes de amar.’ Ela falou com um fio de voz.
Kazuo engoliu em seco e abaixou os olhos.
Shaolin rodou os olhos e balançou a cabeça de leve. ‘Eu conheço 52 demônios que moram comigo que amam tanto a mim, como a minha mãe e o meu pai.’ Ele retrucou.
Marie sentiu os olhos arderem e passou a mão no rosto secando a lágrima teimosa que saia pelo canto dos olhos. ‘Se eu abrir mão disso… Vou estar abrindo mão da capacidade de amar.’ Ela confessou finalmente o seu medo.
Kazuo arregalou os olhos de leve entendendo o que ela estava querendo dizer com aquilo. Comprimiu os lábios e bateu os dedos no joelho tentando se manter calmo, mas sabia que sua aura estava agitada. ‘Se isso estiver lhe fazendo mal…’ Ele começou a falar com a voz controlada. ‘Se manter isso em você está lhe provocando tanta dor…’ Ele calou-se por alguns segundos e respirou fundo. ‘Se é o que precisa ser feito, então é o que deve ser feito.’ Respondeu por fim, fazendo a jovem não se controlar mais.
Shaolin olhou para os dois e balançou a cabeça de leve. ‘Isso não vai acontecer.’
Kazuo fitou o irmão com o rosto sério. ‘Como pode afirmar isso?’
‘Porque no final... Tudo vai dar certo.’
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Shaolin passou a mão no rosto e piscou algumas vezes tentando identificar onde estava. Era dia claro. O sol brilhante e o céu azul faziam a temperatura estar agradável. Ouviu um suspiro e olhou para o lado observando o perfil belo da jovem parecida com Kasumi. Ela estava parada embaixo de uma árvore perto da entrada principal da capital. Sorriu de leve observando-a com um vestido rosa, os cabelos estavam presos e o rosto maquiado tampando as marcas no belo rosto. Estava linda. Franziu a testa pensando que sempre a viu com a roupa negra e proteções de luta, nunca vestida daquela forma como uma garota normal.
Apesar dela está linda, o rosto estava sério e fechado. Reparou que ela bateu de leve na cintura e soube que ela estava com aquela maldita katana escondida no vestido. Reparou que ela tirou um pedaço de papel, o leu novamente e franziu a testa.
‘Tem algo errado…’ Ouviu-a sussurrar. ‘Tem algo fora do padrão.’
Entendeu o porquê dela estar preocupada. Estava em alguma missão possivelmente enviada por… pela Boss. Shaolin balançou a cabeça de leve, lembrava-se da mulher de cabelos curtos brancos e um tapa olho. Ela era a chefe que também lhe dava missões.
Kasumi começou a caminhar e ele foi atrás dela, sabia que como naquele outro maldito escape ela não o via. Provavelmente estava num pesadelo. Ou não?
A jovem passou pelo portão principal da cidade e começou a caminhar pela população. Shaolin foi atrás dela, observando com interesse o lugar que lhe era familiar. Estava começando a entender melhor o que estava acontecendo. Reparou que ela parou de repente e observou um cartaz de “Procura-se” preso no muro da cidade. Arregalou os olhos, ao reconhecer a foto dela de perfil e o nome em baixo.
‘Akame.’ Leu em voz alta, já sabendo que não seria ouvido. Kasumi então era Akame? Quem era Akame e por que estavam a caça dela viva ou morta. ‘Night Raids’. Leu abaixo do nome em negrito.
Kasumi balançou a cabeça de leve com um sorriso sarcástico no rosto. ‘Militares idiotas.’ A ouviu falando e voltando a caminhar.
Shaolin inclinou a cabeça de lado, reparando na jovem que caminhava a frente dele. Não era alta, o corpo era bem feito, apesar de coberto pelo vestido. A aparência era frágil como uma delicada princesa e o rosto era tão belo quanto de um anjo. Não dava mesmo para acreditar que ela estava sendo procurada viva ou morta daquela forma.
‘Que lugar estranho…’ Constatou apressando o passo para se aproximar mais de Kasumi… ou Akame. Percebeu quando um rapaz passou por ela, falando algo sobre a beleza da jovem. Endireitou o corpo, incomodado. Estava com vontade de lhe dar um soco, mas pelo visto só o olhar que a jovem deu para ele já fez o rapaz entender que havia mexido com a garota errada. Sorriu satisfeito. Realmente Yuo-ji-san tinha razão quando falava que Kasumi era capaz de dar um chute bem dado no traseiro de qualquer moleque metido a príncipe encantado.
Ela parou em frente a um estabelecimento e levantou o rosto, soltou um suspiro e entrou nele. Era uma livraria. Era a livraria de Lubback! Veio a sua mente o rapaz de olhos e cabelos verdes. Lembrava-se dele! Lubback era gente boa, mas era um tarado. Não gostava quando ele tentava espiar as garotas tomando banho. Sim! Lembrava-se dele. Balançou a cabeça de leve, focando no que estava fazendo. Agora precisava ficar perto de Kasumi e protegê-la. Não sabia direito como ainda.
Ela cumprimentou o atendente e falou que gostaria apenas de observar os títulos para ver se algum lhe interessava. O rapaz falou que ela poderia se sentir a vontade e qualquer dúvida, chamá-lo.
Kasumi andou de forma tranquila pelos corredores estreitos entre as prateleiras. Reparou que alguns outros clientes também estavam fazendo o mesmo que ela falou que faria. Apenas vendo os títulos ou folheando algum que tivesse lhe chamado mais a atenção.
Shaolin reparou que a aura dela estava mais agitada. Estava tensa. Tentava disfarçar, mas ele a conhecia bem demais. A porta da loja se abriu e um homem de cabelos negros, quase azulados, e olhos azuis entrou no local. Estava vestido de roupas casuais. Ele olhou para os lados depois de cumprimentar também o atendente e logo Shaolin reparou que ele estava era a procura de Kasumi. Quem ele era? Sentiu aquele incômodo no peito quando suas suspeitas foram confirmadas e viu que o rapaz caminhou em direção a Kasumi que o olhou de relance.
Ele a segurou pela mão e a puxou junto, caminhando de forma decidida para o fundo da loja. Reparou que uma senhora soltou uma risadinha e falou algo sobre jovens apaixonados ou algo assim. Trincou os dentes. Por que Kasumi não empurrava o idiota para longe dela? Por que deixava ele ficar tão próximo a ela daquela forma?
Fechou mais ainda o rosto quando percebeu que ele a segurou pela cintura quase a abraçando. Inferno. A aura de Kasumi estava agitada, ele conseguia perceber isso, ela se sentia desconfortável, mas por que permitia? Droga!
Chegaram no final da loja e ele a empurrou de costas contra a parede, abraçando-a.
‘Avise-me quando ninguém estiver olhando.’ Ele sussurrou ao ouvido dela.
Se a intenção era se passarem por um casal de enamorados estavam conseguindo. Shaolin constatou irritado.
Kasumi olhou sobre o ombro direito dele, atenta às pessoas da loja. Assim que reparou que ninguém mais reparava neles, deu o aviso e sentiu quando ele a empurrou, passando finalmente pela entrada do esconderijo dos Night Raids.
Kasumi tateou a parede de pedra e apoiando-se, desceu as escadas que sabia que existia. O rapaz foi atrás dela, fazendo o mesmo, após fechar de forma cuidadosa a entrada secreta.
‘Está cheirando a mofo.’ Ele reclamou e tampou a boca e o nariz com um lenço para evitar um espirro.
‘Está há muitos anos fechado.’ Kasumi respondeu e logo ela conseguiu achar o interruptor de um abajur que os iluminaria o suficiente para não chamar a atenção de ninguém dentro da loja.
‘As paredes são espessas para serem antirruídos, mas não é recomendável trocarmos informações aqui.’ Kasumi falou olhando para o rapaz e cruzando os braços sobre o peito. ‘Onde está a General Najenda?’
‘Ela não pôde vir.’ Ele respondeu, olhando em volta. ‘Então aqui era o famoso esconderijo dos Night Raids… humph… bem nas fuças do Primeiro Ministro.’
‘Por que está aqui, Wave?’
Wave! Isso! Este era o nome dele. Shaolin pensou batendo a mão de leve na testa. Sabia que o conhecia. Ele era um inimigo… não… ele mudou de lado. Balançou a cabeça de leve, estava ainda confuso com o que se lembrava de forma esporádica. Os dois eram amigos? Achava que sim… lembrava-se de ter lutado ao lado dele e contra ele… também…
‘Najenda está doente.’ Ele respondeu. ‘Você sabe… quando ela deu parte da sua força para Susanno durante a luta dele contra Esdeath…’
Kasumi fechou os olhos e assentiu com a cabeça, sabendo do que o rapaz estava falando. ‘Ela está tão doente assim?’
‘Não está bem. Está com os movimentos comprometidos, apesar da mente lúcida. Estão querendo obviamente substituí-la no comando da ditadura.’
Shaolin ouviu a jovem estalar a língua e mostrar irritação. Ficaram em silêncio. Ele desviou os olhos de Kasumi que ainda tentava aceitar a informação que recebia e voltou-se para Wave. Franziu a testa ao reparar que ele estava admirando a jovem e ao vê-lo sorrindo de leve.
‘Está muito bonita, Akame.’ Ele falou fazendo a jovem arregalar os olhos e fitá-lo por um segundo, logo depois desviando o rosto vermelho, pelo embaraço do elogio inesperado. ‘Você lembra muito Kurome... Você é tão linda, tão forte e tão impressionante quanto ela.’
Kasumi encolheu os ombros de leve, constrangida. ‘Você me lembra muito Tatsumi.’ Ela comentou fitando um ponto qualquer no chão.
Shaolin aproximou-se de Kasumi, irritado. ‘Hei… vai embora! Tá fazendo o quê aqui com esse cara?’ Perguntou irritado, mesmo sabendo que não estava sendo ouvido.
Wave estreitou os olhos nela e se aproximou devagar. ‘Vocês… vocês tinham… enfim…’ Soltou um suspiro. ‘Lembro-me dele intervindo quando vocês duas lutaram… e depois quando ele…’ Desviou os olhos dela. ‘Ele a abraçou antes de morrer...’
‘Hum…’ Ela murmurou incomodada. ‘Ele está morto.’
Shaolin abaixou o rosto e franziu a testa forçando-se a se lembrar de algo. Então era isso realmente que estava acontecendo? Ele estava morto. Passou a mão pelos cabelos, começando a montar aquele bizarro quebra-cabeça de sua mente.
‘Ainda pensa nele?’ Ouviu Wave perguntar e levantou o rosto esperando também pela resposta da jovem.
Observou que ela virou o rosto para evitar que Wave a fitasse diretamente e respirando fundo.
‘Todos os…’ Ela reteve-se controlando a voz que tinha saído embargada. Pigarreou. ‘Todos os dias lembro dos meus companheiros que morreram…’ Comprimiu os lábios e engoliu em seco na tentativa ainda frustrada de tentar não passar emoção. ‘Que morreram lutando por um país melhor.’ Finalmente completou a frase.
Shaolin sorriu de forma triste observando os belos olhos castanhos avermelhados brilhantes pelas lágrimas que ela recusava a permitir que saíssem de seus olhos. Ela era forte demais. Poderiam pensar que era fria, mas ele a conhecia bem o suficiente para saber o quanto a pergunta tinha mexido com ela.
Ficaram em silêncio algum tempo, até ela soltar um suspiro irritada e balançar a cabeça de leve, voltou a fitá-lo com o rosto sério. ‘Se Najenda está doente desta forma, por que não convocam eleições de uma vez e implantam a democracia como o plano inicial?’ Voltou a ser objetiva e focar na missão, como sempre. Shaolin pensou ainda observando com admiração. Era como Kasumi… Não tinha mais dúvidas, aquela jovem a sua frente, Akame era sua Kasumi.
‘Não temos o apoio da maioria dos militares. Muitos querem continuar com a ditadura.’ Wave respondeu.
‘Assim apenas mudamos o poder de mãos. A ditadura seria apenas para implementar a república.’
‘Eu sei disso. E continua a ser nossa meta, mas…’ Wave reteve-se alguns segundos e balançou a cabeça de leve. ‘O ser humano sempre será corruptível.’
‘Inferno…’ Ela falou entre os dentes e deu dois passos na direção dele, encarando-o, a aura dela estava explodindo de irritação. ‘Muitos morreram, sacrificaram-se para que o Império fosse derrubado e uma nova era surgisse. Uma Era de paz e igualdade! Não vou permitir que o sacrifício deles tenha sido em vão.’
‘E não serão!’ Wave falou rapidamente. Tentou tocar o ombro dela, mas ela afastou-se.
Ficaram em silêncio alguns minutos. Shaolin e Wave acompanhavam os movimentos suaves de Kasumi que tentava controlar a raiva e a tristeza pelas notícias sobre Najenda e sobre a República.
‘Vou assumir o lugar de Najenda.’ Wave falou, fazendo-a voltar a fitá-lo.
‘Acha que está preparado?’
‘Tenho que estar. Como você mesma falou, não posso deixar que o sacrifício de tantos, e de Najenda, sejam em vão. Vou assumir e tentar implementar a democracia que ela não conseguiu ainda.’
Ela assentiu. ‘Confio em você.’ Declarou séria. ‘Terá a minha lealdade assim como Najenda.’
Wave desviou os olhos dela por alguns segundo e depois voltou a fitá-la de forma profunda.
‘Quero você ao meu lado.’ Falou, fazendo-a franzir a testa, sem entender.
‘Como eu falei, estarei ao seu lado.’ Ela repetiu e arregalou os olhos quando ele deu alguns passos parando a sua frente e segurando o braço dela de maneira firme.
‘Quero você ao meu lado.’ Repetiu novamente de maneira firme. ‘Fisicamente. Não tem porque você se manter nas sombras como está agora. Você virá comigo, darei um jeito de não tocarem em você.’
Shaolin olhou de um para o outro, tentou duas vezes empurrar Wave para soltar Kasumi quando ele a segurou pelo braço. Queria-o longe dela. Sabia exatamente o que ele estava propondo. Como teve coragem de fazer isso? Ele não dizia que amava a irmã dela? Não era seu amigo?! E agora estava se aproximando de Akame?!!!
Kasumi inclinou a cabeça de leve. ‘Do que está falando? É muito mais vantajoso que eu permaneça nas sombras. Além disso… concedendo o perdão aos Night Raid poderá ser usado como desculpa para não aceitarem você como substituto de Najenda.’
‘Não importa!’ Ele falou com o tom de voz mais alto, fazendo-a arregalar os olhos. Sentiu ele segurar seu outro braço e assustou-se mais ainda quando fora pega de surpresa pelo homem que abaixou o rosto e tocou seus lábios nos dela.
‘O quê?!’ Shaolin gritou. Passou pelos dois, irritado. ‘Solta ela, Wave!’ Tentou novamente afastá-lo dela. Que merda! Que inferno!
Kasumi piscou os olhos, tentando entender o que estava acontecendo e assim que o susto passou empurrou-o com força, afastando-o.
‘O que pensa que está fazendo?’ Ela perguntou entre os dentes. ‘O que pensa que está fazendo, Wave?! Enlouqueceu?’
‘Não! Quero me casar com você!’ Falou de uma vez com o rosto sério.
Ela não sabia nem o que falar, tamanho foi a surpresa pela proposta dele.
‘Kurome não está mais entre nós… Ela não voltará. Não posso ficar preso ao que sentia por ela. Preciso continuar minha vida.’ Ele começou a falar. ‘Já se passaram mais de dez anos, Akame.’
‘Dez anos?’ Ela repetiu franzindo a testa de leve, não tinha se dado conta que havia se passado tanto tempo, não era a toa que havia percebido o quanto Wave estava diferente, não era mais um rapaz de 18 anos. Nas ocasiões que eles se viam, sempre era de maneira rápida e normalmente em frente ao túmulo de Kurome.
‘Sim… Quero me casar. Ter uma família, filhos… reconstruir este país para eles. Não posso ficar preso eternamente a um fantasma.’
Ela levou a mão até o rosto e balançou a cabeça de leve. ‘Por que está me falando isso?’
‘Por que quero me casar com você.’ Ele respondeu e a viu fitá-lo novamente com os olhos assustados. Sorriu de leve. ‘Como eu lhe disse… você é tão extraordinária quanto ela…’
Shaolin sentiu o peito fisgar ao reparar que a jovem estava com o rosto vermelho encabulada. A declaração de Wave tinha atingido ela. Afastou-se dos dois tentando controlar a maldita raiva que sentia por estar como um fantasma apenas assistindo a mulher que amava sendo pedida em casamento por outro homem, já que ele estava morto! Inferno! Ele estava morto!
‘Por que não Akame?’ Wave perguntou com a voz doce.
Ela abaixou o rosto e levantou a mão direita levando até o rosto cobrindo-o.
‘Você é a única pessoa no mundo que eu confio.’ Wave voltou a tentar argumentar. ‘E a única pessoa a quem acredito que conseguiria entregar meu coração.’
Kasumi balançou a cabeça de leve, sentindo os olhos arderem novamente. ‘Por que isso?’
‘Porque… oras… porque precisamos continuar nossas vidas. Precisamos continuar o trabalho daqueles que se foram. Porque…’ Ele soltou outro suspiro. ‘Porque sei que além de ser fascinado por você como era por Kurome, poderei amar você como um dia a amei. E farei de tudo para que você… que você seja capaz de me amar como amava-o.’
Permaneceram em silêncio por alguns minutos. Wave esperando a resposta da jovem, e ela tentando entender o que fazer. Tentando saber o que era o certo. O que deveria ser sua missão. Será que Najenda tinha mandado o recado para o encontro para que ela e Wave pudessem conversar? Será que Boss estava lhe dando uma missão? Casar-se com Wave seria esta missão para protegê-lo enquanto assumisse a república? Será que era isso?
Shaolin arregalou os olhos, conseguia saber ou ler a mente dela e era enlouquecedor constatar que ela estava cogitando aceitar a oferta, mesmo que fosse para cumprir uma missão.
‘Eu… eu…’ Ela começou a balbuciar.
Shaolin gritou irritado, tentando de alguma forma extravasar sua frustração e raiva. Ela aceitaria a merda da proposta dele! Merda! Como ele sempre imaginou ela tentaria ser feliz com outro homem. Não tinha porque ela ficar lhe esperando para se verem pouquíssimas vezes no meio de uma luta entre demônios que era quando podia intervir no plano inferior. ‘Inferno!’ Gritou novamente empurrando um objeto qualquer que estava perto dele. Nem se deu conta que havia conseguido fazer o objeto ser lançado longe provocando um barulho seco quando caiu no chão com força, assustando-os.
Kasumi sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Olhou para os lados como se procurasse por alguém. ‘Preciso ir embora.’ Declarou.
‘Deve ser apenas um rato.’ Wave tentou tranquilizá-la e esperando pela resposta da jovem.
Ela deu um passo para trás e levantou o rosto encarando o homem. ‘Sinto muito. Não posso aceitar. Não é justo nem comigo e nem com você vivermos a sombra de Kurome e Tatsumi. Vamos deixá-los descansar em paz.’
Wave trincou os dentes. ‘E o que é justo, Akame? É justo você continuar viver como uma criminosa?!’
‘Eu sou uma criminosa.’ Ela rebateu. ‘Matei mais pessoas que qualquer um na época do Império. Talvez tantos quanto Esdeath. Não tenho como mudar o passado. O que posso fazer é ajudar você e os outros a continuar a erguer este país, tornando-o justo para todos.’ Falou de maneira firme. ‘Eu sempre seguirei o caminho que o meu coração me alertar que é o correto.’ Declarou, virando-se e se afastando de Wave que cerrou os punhos.
‘Akame…’ Ele ainda a chamou.
‘Você é um bom homem, Wave. Ache uma boa mulher para constituir uma família. Kurome ficaria muito feliz em saber que você está feliz. E eu também.’
‘E por que não com você?’ Rebateu mais uma vez.
‘Porque… não há possibilidade de felicidade para mim.’ Respondeu por fim, caminhando para a saída do cômodo, quando ouviu novamente o barulho de um objeto ser arremessado longe, virou-se para trás e fitou Wave que acabara descontando a raiva daquela forma.
‘Como eu lhe falei, serei fiel a você. Assuma assim que Najenda não conseguir mais manter o controle. Mande-me os nomes dos que devem ser eliminados. Najenda lhe ensinará como me contactar para enviar as missões.’ Orientou-o, começando a subir a escadas de pedra que levavam para a parte de cima do estabelecimento. Esperava sinceramente que Wave encontrasse a felicidade, pois sabia que era isso que Kurome desejaria para ele.
Shaolin levou uma das mãos até o rosto secando-o pelas lágrimas de desespero que havia derramado por medo dela aceitar a proposta dele. Desespero ou raiva… nem sabia mais. Inferno!
Observou Wave ainda caminhando de um lado para o outro inconformado com a recusa da jovem a sua proposta.
‘Droga…’ Ouviu o homem soltar entre os dentes enquanto passava a mão pelos cabelos. ‘Eu faria você feliz, Akame… tenho certeza disso.’ Ainda falou fazendo Shaolin novamente mal se controlar de raiva dele ou de não poder dar-lhe um soco por aproximar-se daquela forma de Akame.
Olhou para cima vendo o vulto da moça finalmente sair de maneira sorrateira do esconderijo dos Night Raid, deixando Wave sozinho. Correu até ela. Seguiria, protegeria-a de tudo… de todos. Atravessou a parede de pedras sem problemas e logo encontrou o corpo pequeno passando pelos corredores da livraria e desviar de alguns clientes. Saiu agradecendo o atendimento de forma polida e discreta, apenas informando que não achou nada de interessante na loja.
Shaolin novamente foi obrigado a secar o rosto, pelas malditas lágrimas de ódio que havia derramado enquanto presenciava a conversa dos dois. Não soube nem como conseguiu mover aquele maldito objeto tamanho era seu desespero quando pensou que ela aceitaria a proposta de Wave.
Logo estava ao lado dela que caminhava depressa pelas ruas da capital. Ela estava com o rosto baixo, pensou que seria perigoso ela estar sozinha. Pelo que havia constatado a Capital ainda não havia se tornado um lugar seguro. Os militares estavam medindo forças em vez de realmente se preocuparem em melhorar a vida do povo e controlar a violência.
Kasumi estava linda vestida como uma jovem normal. Mesmo tentando ser discreta era impossível não chamar a atenção masculina. Não era a toa que Wave havia lhe proposto aquele absurdo. Merda! Ele era seu amigo! Não deveria cobiçar daquela forma a mulher que ele amava! Balançou a cabeça de leve pensando que Wave também não sabia dos dois… Ele tinha sido um idiota de descobrir que a amava apenas quando estava morrendo. Inferno!
Assim que a jovem virou a esquerda, numa rua deserta, apareceram três vultos. Ela soltou um suspiro contrariado. Queria ir para casa. A conversa com Wave havia feito com que ela lembrasse de momentos que tentava desesperadamente superar.
Os três homens se aproximaram dela com sorrisos maliciosos.
‘Olá bonequinha…’ Um falou com os olhos vidrados nela. ‘O que uma linda jovenzinha como você está fazendo sozinha a esta hora? Não sabe que é perigoso? Existem lobos muito maus loucos para comer menininhas como você?’
Shaolin trincou os dentes novamente. Idiotas. Vermes que deveriam ser eliminados da humanidade. Eram muito piores que demônios.
‘Saiam da minha frente.’ Ela falou irritada. Eles não a tinham encontrado num bom momento. Continuou a caminhar sem se intimidar, assustando os três com a atitude dela.
‘Você é minha. Gosto de garotas destemidas assim…’ Disse um brincando com uma adaga na mão esquerda. ‘Vou adorar rasgar sua roupa e depois você toda.’
Kasumi percebeu quando ele se aproximou dela pela direita, segurou o punho dele, e puxando com força ao mesmo tempo que levantava a perna para com uma joelhada quebrar o braço do homem que soltou a adaga e gritou de dor. Os outros dois apesar do susto inicial pela reação da garota que julgaram indefesa, logo se aproximaram dela armados com faca e tacos.
‘Use Murasame! Use esta maldita katana de uma vez!’ Shaolin não se conteve em falar, mesmo sabendo que ela não o ouvia. ‘Acabe logo com eles!’
Ele não entendia o porquê dela não puxar a espada e acabar com aqueles vermes de uma vez, se fossem demônios, ele mesmo faria isso, mas como infelizmente eram humanos não podia intervir. Aquele tipo de ser humano era pior que muitos demônios que havia combatido. Irritava-o aquela limitação.
Kasumi abaixou-se desviando da investida de um deles que tentou acertá-la com o pedaço de madeira, esticou a perna e girou o corpo atingindo com força as pernas dele que caiu no chão, sem nem saber o que tinha acontecido. Ela se levantou e virou o corpo, fazendo o segundo que se aproximava correndo e irado de raiva passasse por ela, sem nem ao menos conseguir resvalar a lâmina da faca nela. Ergueu o braço e atingiu um cotovelada com força na costas dele que foi ao chão, na hora gritando de dor.
Kasumi pisou na mão dele, fazendo-o soltar a faca e se abaixou para pegá-la, olhou de soslaio para a direita vendo o primeiro que a atacou e que estava agora com o braço quebrado tentar fugir. Ela jogou a faca, rodando no ar e pegando-a pela lâmina, apenas para mirar melhor e soltar na direção dele acertando-o na nuca e fazendo-o tombar no chão morto.
Novamente percebeu a investida do que tinha o pedaço de madeira nas mãos como arma tentar lhe atingir. Desviou de todas as investidas cada vez mais furiosas dele, ainda mais reparando o rosto apático dela. Como se ele fosse absolutamente nada. Ele atingiu um poste com força quebrando a madeira em duas. Uma metade ficou nas mãos dele e a outra seria lançada longe, se ela não fosse rápida o suficiente para pegá-la e em dois movimentos rápidos cravar a parte pontiaguda formada pela quebra da madeira no pescoço do homem, espirrando sangue e sujando o belo kimono que ela usava, antes do corpo cair no chão se contorcendo antes de finalmente ficar estático e sem vida.
Ela soltou um suspiro cansado. Caminhou até o terceiro que tentara duas vezes se levantar para fugir, mas deveria ter duas ou três costelas quebradas pelo golpe fortíssimo dela. A mão que ela tinha pisado com força com o tamanco devia estar quebrada. Ele se arrastou pedindo clemência para ela.
Kasumi caminhou devagar em direção a ele, tinha que finalizar com ele para não ter testemunhas de que a viram na capital. Detestava quando imploravam pela vida miserável deles sendo que ela sabia que eram capazes de tirar com requintes de crueldade a vida de qualquer um que fosse mais fraco que eles.
Era melhor ser rápida, logo os guardas apareceriam devido aos gritos dos idiotas. Em dois passos alcançou o grande homem e, segurando a cabeça dele de forma firme a virou, ouvindo o barulho seco já conhecido dela pela quebra do pescoço. Soltou-o, vendo-o tombar a frente.
Ouviu ao longe passos, e deduziu que seriam a guarda. Voltou ao seu caminho. Queria sair o quanto antes da Capital. Queria o quanto antes apenas tomar um banho e dormir mesmo que em volta de seus pesadelos.
Shaolin observou os três corpos dos grandes homens jogados sem vida no chão. Sorriu de leve, entendendo finalmente que Kasumi optou por não usar Murasame pois os corpos seriam encontrados e logo perceberiam que eles foram envenenados pela perigosa teigu. Ela não queria deixar pistas de que esteve na capital. Ela era incrível. Não tinha como não ser fascinado por ela.
Logo apareceu um dos seus companheiros para levar a alma deles para serem julgados.
O certo seria seguir com ele, mas virou o rosto observando o vulto de Akame começar a desaparecer ao longe.
‘Estou louco para levar aquela ali para ser julgada.’ Ouviu o anjo comentar referindo-se a jovem de cabelos negros. ‘Ela é pior que qualquer demônio.’ Completou.
‘Vá cuidar do seu trabalho.’ Ele falou contrariado começando a se afastar.
‘Não virá comigo, Azrael?’
‘Tenho mais o que fazer.’ Respondeu contrariado.
‘Reportarei isso a Miguel.’ O outro ameaçou.
‘Faça o que quiser.’ Ele respondeu já correndo na direção por onde Akame havia partido. Queria ficar ao lado dela, mesmo que ela não pudesse vê-lo, ouvi-lo ou senti-lo. Queria estar apenas ao lado dela, já que não poderia senti-la novamente entre os seus braços.
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Shaolin acordou levantando-se do futon onde estava dormindo no quarto do irmão. Levou uma das mãos ao rosto e sentiu que estava molhado ainda pelas reminiscências do pesadelo, ou lembrança, ou escape… ou sabe-se lá o que foi aquilo que reviveu.
Fechou os olhos e respirou devagar tentando fazer o coração voltar a bater de forma regular. Levou a mão até a altura do peito apertando de leve a camisa que estava vestindo. Ainda sentia o coração dolorido demais. Precisava ver Akame… quer dizer, Kasumi. Precisava vê-la desesperadamente.
Abriu os olhos e viu que o irmão ainda dormia. Kazuo estava exausto. Levantou-se e se trocou de forma rápida. Enquanto descia as escadas da casa e digitava uma mensagem no celular para Kasumi se encontrar com ele. Ficou observando o display de forma nervosa, esperando a resposta dela que logo chegou, informando que o encontraria no lugar que ele havia proposto em poucos minutos.
Tentou ainda fazer o café, mas desistiu. Estava nervoso demais. Deixou um bilhete na geladeira para o irmão e logo saiu da casa, caminhando de forma rápida em direção ao parque onde se encontraria com ela finalmente e tentaria minimizar aquela sensação do coração estar sendo esmagado que resultou daquele maldito pesadelo.
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Kazuo abriu os olhos e fitou o teto do quarto. Do seu quarto. Soltou um suspiro, espreguiçando-se de forma confortável. Realmente, sentira saudades de dormir naquela cama, principalmente, depois de passar tantas noites em camas de hotel ou no saco de dormir ou, ainda, dormindo na poltrona do avião. Sorriu de leve, pensando que era cômico sentir saudades daquele quarto, considerando que dormia ali há pouco tempo comparado com o tempo que viveu no mundo das trevas. Era realmente fácil se acostumar com coisa boa.
Fitou o teto e levou as mãos para trás da cabeça, apoiando-a. Não sentia a presença do irmão, olhou de esguelha para o lado, vendo o futon e as cobertas que o garoto tinha colocado no quarto dele naquela noite dobradas em um canto. Marie havia dormido no quarto de Shaolin. Franziu a testa, reparando que não sentia a presença do irmão em lugar nenhum da casa, nem perto dela. Era fácil demais perceber a aura do garoto, principalmente depois que voltou da quinta chave. Virou o rosto e olhou o relógio, eram quase oito da manhã. Onde o pirralho teria ido?
Soltou outro suspiro e sorriu de leve, fechando os olhos e percebendo a presença da namorada no quarto ao lado. Queria que ela tivesse dormido com ele, como quando estavam acampados, mas ela ficou tão vermelha quando ele propôs isso e Shaolin saiu pigarreando pela casa que achou melhor não tocar mais no assunto. Eram regras demais para ele. Não conseguia entender todas elas.
Pensou que seria melhor tentar entendê-las depois, com calma. Ontem, realmente, estava muito cansado. Irritado também. A conversa deles durante o voo não tinha sido muito legal. Franziu novamente a testa e tirou uma das mãos de trás da cabeça, observando-a. Conseguia ver a aura púrpura circulando-a, estava mais forte.
Tampou os olhos com o braço e respirou fundo, soltando o ar devagar. O irmão e Marie tinham razão, ele tinha elevado sua magia a um nível que nunca antes fora obrigado a elevar. E não só a magia, mas a força e a agilidade, também. Estava tão desesperado em arrancar aquela maldita chave do corpo daquele bicho feio que não tinha se dado conta do que tinha feito.
Sorriu de leve, lembrando quando o irmão comentou que não tinha sido coragem que o fez enfrentar aquele bando de exorcistas idiotas sozinho, mas o pânico por poderem matá-lo. Também não tinha mérito a sua elevação de força, ela também fora causada por desespero e pânico com medo do irmão não voltar daquele transe doido e medo daquele bicho feio machucar Marie. Engoliu em seco, pensando que, por muito pouco, o escudo da feiticeira não tinha cedido aos potentes golpes do demônio superior. Por muito pouco.
Estava com fome. Muita fome. Levantou-se da cama e caminhou devagar até o armário para trocar de roupa. Desceu as escadas para o primeiro andar, estranhando aquele silêncio na casa. Sempre quando acordava, as cartas já estavam pela casa quase o enlouquecendo com a barulhada e a bagunça.
Caminhou até a cozinha e viu um bilhete do irmão preso na geladeira, informando que tinha saído para resolver um assunto e voltava antes das nove.
‘Humph.’ Murmurou arrancando o bilhete da geladeira. ‘Que assuntos um pirralho como o Shaolin tem para resolver agora pela manhã?’ Pensou em voz alta. Será que Gabriel tinha lhe solicitado alguma coisa? Detestava… Não… Odiava aquele anjo. O cara não aparecia para ele porque sabia que levaria um murro no meio da cara, então, como era covarde, aparecia apenas para o irmão.
Shaolin tinha, pelo menos, deixado parte do café da manhã feito. Pelo jeito estava realmente com pressa em sair. Abriu a geladeira e pegou o que queria, colocando em cima da mesa. Sentou na cadeira e começou a tomar o café, pensando que estava com saudades do pai e de Sakura. Ficar naquela casa sozinho não tinha a mesma graça. Franziu a testa de leve pensando que não sentia falta de Midoriko, na verdade, pensar nela lhe dava até calafrios. Gostaria de rever Arthas e dizer para o grandão que estava tudo bem com ele, talvez até estivesse sentindo falta dele, mas era diferente.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Era estranho o que sentia agora. Conviveu pouco tempo com Shaolin para se sentir tão ligado ao garoto. Shaolin foi a primeira pessoa que viu assim que chegou naquele universo e nunca pensou que se sentiria tão desesperado quanto quando pensou que o garoto tinha morrido. Quando sentiu o peito dele se mexer depois de tanto tempo parado, quase explodiu de alegria.
Tinha alguma coisa estranha naquela relação, na verdade… Era estranho o que sentia pelo pai também. Verdade que nunca havia sequer imaginado encontrá-lo, mas sempre o imaginou completamente diferente do que era. Quer dizer, ele era forte como sempre lhe encheram os ouvidos. Alargou o sorriso, pensando na esposa do pai, Sakura, ou como o Arthas sempre a chamava bem longe de Midoriko, a Feiticeira. Shaolin tinha sorte de ter uma mãe como ela.
Sentiu a presença de Marie se movimentando pela casa, indicando que ela tinha acordado. Finalizou o suco que tinha no copo e estava se levantando quando a viu chegar na porta da cozinha. Estava com o rosto pálido como era de costume nos últimos dias.
‘Bom dia.’ Ele a cumprimentou.
Ela desviou os olhos dele por um segundo, voltando a fitá-lo novamente e abrindo um sorriso tímido. ‘Bom dia.’
‘Sente-se…’ Ele pediu indicando a cadeira com um gesto. ‘Eu preparo o café da manhã para você.’
‘Não precisa…’ Ela falou rapidamente. ‘Estou sem fome.’ Completou, fazendo-o franzir a testa.
‘Não é possível. Você não come direito há quase dois dias.’ Ele retrucou.
Ela balançou a cabeça de leve. ‘Estou sem fome.’ Repetiu.
‘Não se sente bem, né?’ Kazuo perguntou, estreitando os olhos nela.
Marie abaixou o rosto de leve. ‘Vou mandar uma mensagem para Sakura-ba-san, perguntando se ela se importa de me emprestar algumas roupas. Não gostaria de passar em casa. Otousan deve estar ainda uma fera comigo.’
Kazuo percebeu que ela fugiu do assunto. Soltou um suspiro contrariado. Já estava farto de regras humanas. Caminhou até a garota e a pegou pelo braço, forçando-a a se sentar na cadeira. Marie arregalou os olhos para ele, assustada.
‘Você vai comer o que eu colocar na sua frente, entendeu?’ Ele falou sério. ‘Se não come, fica doente. No seu caso, mais doente. A regra é clara.’ Ele completou, afastando-se para servir o café para a garota que ficou sentada quieta observando-o de esguelha.
Kazuo colocou o copo de suco, além de pão e outras coisas na frente da namorada e olhou para ela.
Marie levantou os olhos e assentiu com a cabeça, já pegando o copo e tomando o suco, mesmo que a contragosto. Reparou que o rapaz sentou na cadeira do outro lado da mesa, observando-a. Na verdade, verificando se ela realmente comeria o que ele tinha colocado na sua frente, impossibilitando-a de usar Apagar ou Movimento ou qualquer outra magia para fazer desaparecer o alimento. Comeu contrariada, mas comeu, fazendo-o se sentir satisfeito.
Assim que ela finalizou o café, ele sorriu de leve. ‘Já está até menos pálida.’ Ele comentou, fazendo-a sorrir e balançar a cabeça de leve.
‘Onde está o pirralho?’ Ela perguntou.
‘Shaolin deixou um recado dizendo que tinha que resolver uma coisa, mas voltaria antes das nove.’ Ele respondeu.
Ela franziu a testa. ‘Desde quando ele tem assuntos para resolver?’
Kazuo soltou um suspiro. ‘Espero que Gabriel não tenha nada a ver com isso. Aquele anjo só coloca o Shaolin em roubada.’
Marie franziu a testa de leve. ‘Mas ele teria que nos avisar e não sair assim do nada. Este seu irmão anda metido demais.’
‘Bem… Daqui a pouco ele estará de volta e explica direito o que foi fazer. Eu vou ligar para o pai para avisar que vamos encontrá-los assim que o Shaolin chegar.’ Ele falou, caminhando em direção ao telefone quando percebeu que Marie, ao se levantar, segurou-se na borda da mesa. Abaixou os olhos e respirou fundo. ‘Você precisa resolver isso também de uma vez.’
When it's black
(Quando está escuro)
Take a little time to hold yourself
(Tome um pouco de tempo para abraçar a si mesma)
Take a little time to feel around
(Tome um pouco de tempo para notar o que está em volta)
Before it's gone
(Antes que se vá)
Marie tremeu de leve, sabia do que o namorado estava falando. Engoliu em seco, segurando mais forte a beirada da mesa e ficou em silêncio por alguns segundos. ‘Eu lhe devo uma explicação.’
‘Deve sim.’ Kazuo confirmou com a voz firme.
You won't let go
(Você não vai desapegar)
But you still keep on falling down
(Mas você ainda continua caindo)
Remember how you saved me now
(Lembre-se de como você me salvou agora)
From all of my wrongs, yeah
(De todos os meus erros, yeah)
Ela se virou para ele e o fitou de forma profunda. ‘Eu-eu gosto muito de você, Kazuo-kun.’ Marie falou, sentindo a voz falhada.
‘Eu também gosto de você.’ Ele falou. ‘E é justamente por isso que me incomoda tanto vê-la assim, tão fraca e com tanta dor.’
And if there's love, just feel it
(E se existe amor, apenas sinta-o)
And if there's life, we'll see it
(E se existe vida, veremos)
This is no time to be alone, alone, yeah
(Essa não é a hora de ficar sozinha, sozinha, yeah)
I won't let you go, oh, no
(Eu não vou te deixar ir, oh, não)
Ela desviou os olhos dele. ‘Quando eu era Khala’a e me libertei da prisão onde Clow-sama me lacrou, para que Sakura-ba-san me transformasse em carta Sakura era necessário que ela me desse algo muito valioso. Como uma troca entre demônios. Você sabe…’
‘Sim… Eu sei como é o esquema do Mundo das trevas.’ Ele a cortou.
Ela confirmou com a cabeça. ‘Eu sabia que aqui neste lugar, os humanos valorizavam muito os sentimentos, então, como preço por aceitar a nova insígnia, eu exigi que ela me desse o sentimento mais valioso dela naquele momento.’ Marie falou e passou a mão no rosto, não queria chorar, queria apenas contar toda a história para ele. Mesmo que ela não fosse nem um pouco bonita. Não queria que ele a entendesse, até porque ela mesma sabia que agora estava pagando pelos erros que tinha cometido no passado. ‘Eu estava com raiva por ter ficado tanto tempo selada e sozinha. Como se estivesse morta… Mas viva ao mesmo tempo.’
‘Não deve ter sido muito legal.’ Ele comentou.
Ela confirmou com um gesto.
Say those words
(Diga essas palavras)
Say those words like there's nothing else
(Diga essas palavras como se não houvesse mais nada)
Close your eyes and you might believe
(Feche seus olhos e você poderá acreditar)
That there is some way out, yeah
(Que há alguma maneira de escapar, yeah)
‘Não foi.’ Marie soltou com um fio de voz. ‘Eu apenas repassei parte desta raiva que eu tinha para quem deveria ser o meu novo mestre.’ Marie apertou as mãos no peito. ‘Antes dela me transformar em carta Sakura e, finalmente me entregar o preço que eu exigi, aconteceu uma coisa extraordinária.’ Ela falou, olhando para ele e sorrindo de leve. ‘Uma carta… Ou seja lá o que surgiu na minha frente e se juntou a mim. Era uma energia linda. Algo que eu nunca pensei que poderia sentir quando toquei de leve aquela energia.’ Marie desviou os olhos dele novamente. ‘Você sabe que demônios não são capazes de desenvolver seus sentimentos, somos movidos apenas por instinto de sobrevivência e… Alguns… Também por…’ Ela reteve-se, encolhendo os ombros de leve.
‘Eu sei.’ Kazuo falou sem desviar os olhos dela. ‘Disparo me falou de Khala’a. Na verdade, outras falaram de você como Esperança.’
Marie confirmou com a cabeça.
‘Falaram-me que ela era um demônio superior muito forte e inteligente. Que todas eram suas seguidoras e foi por isso que Clow-sama a selou, por temer tanto o seu poder. E também foi por isso que ela, como líder delas, tomou a decisão de acompanhar Sakura de volta ao mundo das trevas atrás oyaji.’
‘Era minha obrigação como líder delas e, também, uma obrigação para com os meus mestres.’
‘E ela fez um ótimo trabalho pelo que me falaram. Os dois voltaram, não?’
Open up
(Abra)
Open up your heart to me now
(Abra seu coração para mim agora)
Let it all come pouring out
(Deixe tudo se derramar)
There's nothing I can't take
(Não há nada que eu não possa aguentar)
Marie encolheu os ombros e balançou a cabeça de leve negando. ‘Não consegui manter a conexão até o final.’ Ela deu um suspiro e o fitou novamente, franzindo a testa de leve e depois desviou os olhos dele ainda com o rosto sério.
‘O que foi?’ O rapaz perguntou, reparando que a aura dela se agitou de repente.
Ela balançou a cabeça de leve. ‘Nada… Eu pensei em uma coisa… Mas… Acho que… Não sei… Talvez esteja ficando louca. Não sei direito o que são lembranças de Khala’a ou o que são apenas desejos de Marie.’ Ela soltou um suspiro. ‘Estou falando de mim mesma na terceira pessoa.’ Disse, levando uma mão até a cabeça e fechando os olhos.
And if there's love, just feel it
(E se existe amor, apenas sinta-o)
And if there's life, we'll see it
(E se existe vida, veremos)
This is no time to be alone, alone, yeah
(Essa não é a hora de ficar sozinha, sozinha, yeah)
I won't let you go, oh, no
(Eu não vou te deixar ir, oh, não)
Kazuo se aproximou dela, parando a sua frente. Ele levantou o braço, tocando o queixo dela de leve e fazendo-a levantar o rosto. Marie abriu os olhos, contemplando-o. Ele era lindo. Como ela gostava dele. Por que logo agora tinha que abrir mão de usar aquele sentimento que ela tinha guardado com tanto cuidado por tanto tempo?
‘Khala’a deve ter sido um demônio realmente muito poderoso, mas eu gosto de você agora. Não a conheci antes. Eu gosto da maneira como você sorri de forma irônica para mim, ou como você luta contra os adversários. Gosto também de quando você fica brava e franze a testa e me olha, como se estivesse prestes a invocar sua magia e me fazer voar para longe ou desaparecer ou ainda tentar cortar minha cabeça…’
Marie riu e tentou abaixar o rosto, mas ele a impediu.
If your sky is falling
(Se o seu céu estiver caindo)
Just take my hand and hold it
(Apenas pegue minha mão e segure-a)
You don't have to be alone, alone, yeah
(Você não tem que ficar sozinha, sozinha, yeah)
I won't let you go
(Eu não vou te deixar ir)
‘Eu gosto de você, Marie. E, se esta energia que Khala’a obrigou Sakura a entregar a ela está fazendo mal a você, eu prefiro que você deixe de gostar de mim do que permanecer com ela.’
A jovem engoliu em seco, sentindo as lágrimas, que bravamente tentava controlar para não rolarem de seus olhos, transbordassem. Kazuo levantou o outro braço, tentando secar o rosto da namorada com a mão e sorriu para ela.
And if you feel the fading of the light
(E se você sentir as luzes enfraquecerem)
And you're too weak to carry on the fight
(E você estiver muito fraca para continuar na luta)
And all your friends that you count on have disappeared
(E todos os seus amigos com quem você conta desaparecerem)
I'll be here night going, forever holding on, oh
(Estarei aqui à noite, para sempre aguentando, oh)
Marie se jogou nos braços dele, escondendo o rosto contra o peito do rapaz e abraçando-o, ao mesmo tempo que se agarrava a sua camisa. ‘Eu não quero deixar de sentir isso por você. Eu não quero…’ Ela murmurou entre soluços.
Kazuo sorriu de leve e a abraçou com carinho. Passou a mão nos cabelos dela, sentindo os fios longos e macios. Se ela deixasse de gostar dele, ele faria de tudo para que ela voltasse a gostar dele novamente. Pediria ajuda para o irmão, para o pai, para entender aquele mundo humano cheio de regras, mas ele aprenderia. Ele aprenderia para fazer com que ela voltasse a gostar dele e pudesse senti-la entre os seus braços e beijá-la, novamente.
And if there's love, just feel it
(E se existe amor, apenas sinta-o)
And if there's life, we'll see it
(E se existe vida, veremos)
This is no time to be alone, alone, yeah
(Essa não é a hora de ficar sozinha, sozinha, yeah)
I won't let you go, oh, no
(Eu não vou te deixar ir, oh, não)
Franziu a testa de leve e forçou o afastamento de Marie que ainda relutou um pouco. Quando ela levantou o rosto, ele abaixou o dele para que encostasse os seus lábios nos dela.
If your sky is falling
(Se o seu céu estiver caindo)
Just take my hand and hold it
(Apenas pegue minha mão e segure-a)
And you don't have to be alone, alone, yeah
(Você não tem que ficar sozinha, sozinha, yeah)
I won't let you go, no, no, yeah
(Eu não vou te deixar ir, não, não, yeah)
A jovem retribuiu o beijo e, logo, entreabriu os lábios para que ele aprofundasse o beijo. Sentiu quando ele a segurou de forma firme pela cintura com o braço direito enquanto a mão esquerda dele tocava de leve seu rosto e, depois, passava os dedos pelos seus cabelos. Ela não queria deixar de beijá-lo. Como ela poderia abrir mão de sentir o que ele despertava nela daquela forma tão intensa. Agarrou-se às roupas dele, enquanto sentia seu corpo encostado ao dele. Ela não tinha dúvidas… Ela o amava demais e a ideia de perdê-lo doía muito mais do que qualquer coisa que pudesse sentir por se recusar a devolver a Carta de Sakura.
I won't let you go, no, I won't let
(Eu não vou te deixar ir, não, eu não vou deixar)
I won't let you go, no, I won't let
(Eu não vou te deixar ir, não, eu não vou deixar)
I won't let you go, no
(Eu não vou te deixar ir, não)
Won't let you go
(Não vou te deixar ir)
Continua.
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