Fênix da Noite Estrelada
41 Vamos Pra Casa?
Notas iniciais
Mesmo estando afastados e tentando a todo custo esconder aquilo dos pequenos, Anna conseguia ouvir com nitidez as costelas do leonino trincando devido a pressão e desespero impostos pelo aquariano em seu peito.
Fazia algum tempo que o russo deixara os filhos afastados em segurança para tentar reanimar o mais velho. Hades ainda possuía o corpo do virginiano e assistia tudo com um certo pesar velado, ele estava cuidando das crianças, mas não fazia nada além disso. Mesmo sendo um ser divino de imenso poder, sabia que o destino uma vez escrito não podia ser alterado.
¬ Imperador Hades.
Olhou para a pequena libriana. Estava muito fraca depois de aprisionar Afrodite, debilitada por tudo o que acontecera, a tendência era ela piorar, mas o olhar continuava determinado e feroz. Ela abraçava os pequenos, que observavam tudo sem entender direito, tentando protegê-los na realidade, apesar de que parecia ser eles quem a protegiam. Ainda não conseguia acreditar que o Oráculo era aquela menina.
¬ Diga criança.
¬ És o senhor da morte. — começou. — Se o senhor quiser, pode revogá-la?
Compreendeu imediatamente o que a menina queria dizer.
¬ As Parcas são quem decidem. Eu apenas recebo os mortos em minha morada. — explicou. — E deixo que meus juízes determinem seus lugares.
¬ Mas se quiser. — teimou. — Pode deter Tanathos?
¬ Tanathos é meu servo. Ele faz o que eu mandar, mas segundo os padrões dele, é claro. — seu tom era de quem falava banalidades. — Ele tem de trazer as almas ao meu reino todos os dias, mas são almas que ele já amanhece sabendo que tem de trazer, almas que as Parcas determinaram a hora. — soltou um suspiro cansado. — Mesmo que eu queira, nada nesse mundo pode revogar uma decisão das Parcas.
¬ E se eu disser que vi dois caminhos? — seu tom era desesperado.
Pensou não ter escutado direito. Ela viu dois caminhos?
Como senhor dos mortos, ele sabia que uma vez cortado o fio da vida pelas Parcas, nem mesmo ele fazendo uso de todo seu poder podia reverter a situação e, por mais que pedissem, o Oráculo nunca conseguia ver dois caminhos para quem estava nas portas da morte. Não existem dois caminhos, existe apenas a morte. Só os vivos possuem mais de um caminho que pode ser visto pelo Oráculo.
Vendo que o deus não estava colocando muito crédito em suas palavras, decidiu prosseguir com seu pedido.
¬ Eles escurecem antes que eu os veja em definitivo, pois estão ligados diretamente com meu destino ou com a morte. — explicou suas visões. — Mas eu os vi, um acaba desse jeito, com meu Otou-san ali inerte e o outro eu vejo ele conosco. — ela fitou profundamente os olhos cor de raio. — Se o senhor quiser, pode trazê-lo de volta? Pode revogar o feito de Tanathos?
¬ Posso. — respondeu cauteloso.
¬ Então, eu lhe imploro, não leve-o. — lágrimas começaram a verter. — Por favor, meu senhor. Adie sua morte, não o tire de nós tão cedo. — um soluço irrompeu pelos lábios infantis. — Por favor, meu senhor.
Os pequenos também começaram a chorar desesperados, se a irmã mais velha chorava, era porque nada estava bom. Ela estava fraca, sabiam muito bem disso, estava muito pálida, tremia e sua respiração era falha, agora também chorava. Não estava nada bom. Nem um pouco. E temiam de verdade pelo que viria a acontecer.
Tinha um coração negro. Não se importava com ninguém. Mas ao ver a dor nos olhos daquelas crianças não conseguiu deixar de pensar no filho a muito perdido. Suspirou.
¬ Eu não posso simplesmente devolver-lhe a vida. — volveu. — Alguém deve estar disposto a sacrificar-se por ele.
A pequena limpava o rosto o mais rápido que podia e, apesar das lágrimas não pararem, tentava acalmar os irmãos.
¬ Alguém deve morrer no lugar dele? — sua voz estava embarga.
¬ Não necessariamente. — respondeu. — A pessoa que aceitar deve doar todos os anos que ele viveria normalmente. Por exemplo, se ele fosse viver 70 anos, mas morresse com 20 anos e alguém estivesse disposto a tal sacrifício, os 50 anos que faltam seriam tirados dessa pessoa e dados a ele. — explicou. — É muito raro sobreviver e quando acontece a pessoa não vive muito tempo.
Anna forçou-se a engolir o choro e limpou o rosto. Abraçou os irmãos com mais força, vendo o desespero do loiro em reanimar o moreno e, mais uma vez, decidiu arriscar tudo.
¬ Quanto tempo um ser abençoado pelos deuses vive?
¬ Dependendo do ser... — pensou um pouco na resposta. — Até a eternidade.
¬ Quanto tempo o Oráculo vive?
O deus a encarou incrédulo. Ou aquela menina era um dos seres mais malucos que teve a oportunidade de conhecer, ou era um dos únicos seres no mundo realmente capazes de fazer tudo por quem ama.
¬ Está realmente a cogitar nisso criança? — indagou.
¬ Quanto tempo eu viverei? — repetiu a pergunta em um tom mais ousado.
¬ Um Oráculo vive o tempo que seu corpo resistir. — ditou. — Isso geralmente leva 200/400 anos. Mas não respondeu-me, língua afiada. — seu tom era de ameaça.
¬ Estou disposta a tal sacrifício. — respondeu ainda no mesmo tom, não estava com paciência para discutir etiqueta com um deus. — E gostaria de fazê-lo agora.
A menina então levantou-se um tanto cambaleante, pedindo aos irmãos que ficassem exatamente onde estavam. Eles ficaram bravos, não queriam deixá-la, mas ela manteve-se firme e os convenceu a ficar apenas assistindo. Abraçaram-na com força e se sentaram de mãos dadas, tentando engolir o choro e deixar que os adultos resolvessem a situação. Nesse meio tempo, o senhor dos mortos havia se aproximado dos Bronze.
¬ Afaste-se. — pediu e fora ignorado. — Afaste-se!
Uma força invisível arremessou o aquariano para longe do corpo de Fênix. Ele ainda derrapou um pouco do chão antes de parar frente aos filhos gêmeos, ele tentou voltar, mas continuava a ser empurrado na direção contraria. Era como se a palavra tivesse tomado vida própria, o que não era tão absurdo de se pensar, pois os gregos sempre acreditaram que as palavras tinham um poder ainda maior que qualquer outra força.
¬ Venha criança.
Estendeu a mão para Anna, que caminhava de forma torta em sua direção, respirava com dificuldade e para tudo exigia um esforço titânico da menina. O aquariano tentou agarrá-la, mas sentiu algo batendo com muita força em sua mão, impedindo-o de chegar a filha.
¬ Anna! — chamou-a, nada vindo do Imperador do Inferno podia ser bom. — O que está fazendo? — ela segurou a mão do deus quando fraquejou e este a deitou do lado do leonino. — ANNA!!
Ela mirou o mais velho, procurando a alma no olhar, tentando transmitir o quanto de positividade fosse possível. Tinha lágrimas presas nos olhos da pequena, tinha dia que se esquecia de toda a dor que ela um dia sentiu. Tinha dia que se esquecia que ela era uma criança. Olhou para baixo quando sentiu os gêmeos se prenderem a sua cintura, eles choravam tão preocupados quanto o mais velho. Voltou a encarar os olhos violáceos.
¬ Vai ficar tudo bem. — uma lágrima escorreu pelo rosto alvo da menina. — Vai ficar tudo bem.
Não sabia dizer o que o deus estava fazendo. Ele sussurrava palavras ao vento, enquanto os corpos do leonino e libriana levitavam um ao lado do outro. Suas bocas e olhos se abriram, por eles saiam luz e uma espécie de névoa saia de suas bocas. O deus agora parecia “brincar” com essas névoas, as misturando e modelando como bem entendia. Mas o que diabos ele estava fazendo? Logo, parecia que os acontecimentos estavam sendo rebobinados. As névoas voltavam para o interior dos corpos, as bocas e olhos se fechavam, e os corpos voltavam lentamente ao chão, distantes entre si.
O deus se afastou, passando pelo aquariano sem lhe dar muita atenção. Este, por sua vez, estava chocado com o que acabara de presenciar, só foi despertar quando sentiu a mão do amigo, ainda possuído pelo deus, em seu ombro.
¬ Esta feito. — afastou-se novamente. — Agora dê a ele um motivo para viver.
Mirou o leonino e depois a libriana, ambos inertes e sem expressar sinais de vida. A preocupação agora era dividida entre os dois.
¬ E minha filha?
¬ Fraca. — respondeu. — Mas ficará bem.
O aquariano desvencilhou-se dos filhos pequenos e correu até leonino e libriana, sendo seguido de perto pelos pequenos. Verificou o estado da menina rapidamente e concluiu que ela estava bem, deixou-a com os irmãos, que zelavam por ela como verdadeiros guarda-costas.
¬ Minha missão aqui terminou e meu acordo foi cumprido. — comentou o deus enquanto observava de longe. — Andrômeda. — chamou pelo verdadeiro ocupante daquele corpo. — Vamos. Acorde. Volte para junto dos que precisam.
Aos poucos, os cabelos deixaram de ser negros e os olhos azuis, voltaram a ser castanhos e verdes, respectivamente. Podia não estar sob o controle de seu corpo, mas Shun já estava a par da situação, então deixou o irmão com o aquariano, enquanto cuidava dos sobrinhos um pouco afastado.
O moreno não estava muito diferente, ainda parecia um cadáver, mas Hades disse que ele só precisava de uma razão para viver. Uma? O aquariano daria quantas fosse necessário.
¬ Quando eu te conheci, a minha maior vontade era torcer o seu pescoço. — soltou um riso. — E aparentemente, você queria a mesma coisa. Mas... mas aos poucos, eu comecei a enxergar um amigo em você. — ele apertou a mão do leonino. — Com o passar do tempo percebi que realmente éramos amigos, e aos poucos, comecei a me sentir diferente quanto a você. Só passei a notar tais mudanças no dia em que você me desejou “Feliz Natal” e me deu um livro de presente, Um Hotel na Esquina do Tempo, lembra? — quem procurasse, poderia achar o tal livro na cabeceira do aquariano. — Isso foi a quanto tempo? Nem sei, só sei que eu ainda estava tratando o meu olho esquerdo.
Um soluço o interrompeu, preferiu esperar se acalmar. O que tinha para falar não podia dividir o espaço com soluços. Parou um pouco e somente minutos depois voltou a falar.
¬ Depois disso, eu comecei a pensar: “Nossa! Ele sempre lutou para nos ajudar, sempre está nos apoiando e protegendo, ele nem para e pensa nas consequências, só nos ajuda. Mas... O que eu faria por ele!?”, no mesmo instante obtive a minha resposta, “Moveria montanhas para alcançá-lo.” — Hyoga nem percebeu as feições de Ikki se torcerem levemente por segundos. — Depois que descobri tudo que o impedia de sorrir e comparei com a minha dor, pensei: “Definitivamente, isso é uma coisa que nos separa em todos os sentidos, então como eu seria capaz de fazê-lo sorrir?”, novamente, obtive minha resposta de forma imediata, “Alteraria o mar do tempo para não deixá-lo, para fazê-lo feliz”. Depois que Anna surgiu em nossas vidas, lembro que você a negou no começo, mas eu vi como você ficou ao meu lado, como você começou a zelar por ela, pensei: “Mesmo não tendo nenhuma ligação com ela, mesmo ela não sendo nossa, mesmo isso não sendo da conta dele, ele está aqui. Está aqui me apoiando, me protegendo e fazendo o mesmo por ela, a menina que passei a chamar de filha. E acredito saber o porque”, comecei a pensar que era a minha consciência falando, “Pois ele tem dignidade e honra calcadas em seu ser, ele jamais me abandonaria, muito menos com uma criança da qual ele se julga responsável. E se algum dia ele se encontrar em situação semelhante, eu serei o primeiro a ajudá-lo”. O tempo passava e as inúmeras perguntas e afirmações cresciam. Eu percebia que o amor que eu tenho por você é muito maior do que imaginava.
Puxou o corpo para junto de si, aninhado-o carinhosamente no peito.
¬ Eu tinha medo, mas logo pensava: “Ikki não deixaria eu sentir tais coisas, ele certamente daria um tapa na minha cabeça e diria: Mesmo se tiver medo, viva a vida, não desista agora, continue em frente! Não pense que vou facilitar ou te deixar ficar ai de corpo mole!” — ele imitava a voz do mais velho. — “Se um dia ele precisasse de consolo, como os que ele sempre me dá, o que eu faria!? — O abraçarei quantas vezes for preciso.”, ou então, “Ele faz tudo da melhor forma que pode, sempre tentando beirar a perfeição, e geralmente é algo feito para nós. E o que eu faço por ele!? — Posso não ser perfeito, mas faço o meu melhor”.
Ele suspirou, ainda aguardava o outro abrir os olhos. Não queria nem imaginar se ele não os abrisse.
¬ Eu pensava e penso, quase que inconscientemente: “Embora eu sangre, abrirei meu coração para ele. Estarei sempre ao lado dele, e, espero, que ele sempre esteja ao meu lado”. — ele soltou outro riso. — Eu estou louco! — seu tom voltou a ficar embargado. — Mas... mas...
Aquilo estava preso em sua garganta, ele não parava de enrolar, não queria colocar aquilo para fora e mesmo assim aquilo queria sair. Mas precisava falar, ele tinha que falar, ao mesmo tempo em que desejava ardentemente que Ikki o ouvisse, queria que não ouvisse, ainda tinha alguma vergonha afinal.
¬ Foram tantas as coisas que eu perdi, e tantas as coisas que eu amei... Desde o dia em que o conheci, minha vida mudou. Então antes que tudo acabe, antes que nossas vidas acabem, eu quero te dizer uma coisa. — Hyoga se permitiu sorrir. — Eu queria me livrar da dor dormindo abraçado ao seu perfume, eu não quero que desista dos seus sonhos, mas quero que compartilhe dos meus, assim como compartilharei dos seus. Você repentinamente se tornou um homem aos meus olhos e não importa quantas vezes eu olhe para você, essa visão se torna mais e mais fixa. Mesmo dormindo eu zelo por você, mesmo estando exausto eu ainda estarei aqui para te proteger e cantar em seu nome. Desde o dia em que o conheci eu acabei me apaixonando por você. Eu amo você. Desde que passamos a conviver eu amo você. Depois de todos esses anos eu aprendi a amar você ainda mais. Mesmo que se passe um milhão de anos eu ainda amarei você. Desde o dia em que o conheci, a minha vida não só mudou, ela se transformou e se afogou em música, uma sinfonia muito estranha tocada pelo coração. Eu quero que saiba, que este coração te pertence. — Hyoga levou a mão até o coração. — Eu não quero que você morra. Pode ser egoísmo meu, mas eu não quero. Eu quero que você fique comigo, com Anna, com Miguel, com Sarah, com Shun, com Camus, com Milo, com Atena, com todos.
Mais outro movimento repentino e que, mais uma vez, passou despercebido.
¬ Você deve lutar Ikki! Você deve lutar por sua vida, se não por mim, pelos outros, por si mesmo, por sua família, por nossos filhos! — ele tocou o rosto do mais velho. — Você é o único homem a quem nossos filhos chamariam de Pai, e o único homem a quem eu honraria, a quem eu amaria. — instintivamente, com a outra mão, tocou o próprio peito, onde residia uma cicatriz muito antiga e que agora possuía novos significados. — Sabia que Cisnes escolhem um parceiro para vida inteira? Sabia também que eu já escolhi o meu? — questionou. — Então, por favor, não desista da sua vida. Não desista daqueles que te amam.
Esperou, mas nada acontecia. Será que todas aquelas reações eram os últimos espasmos do corpo? Sentia lágrimas se formarem e escorrerem. Com muito receio, se inclinou sobre o mais velho e depositou um beijo em seus lábios, se afastou e colou as testas. Suas lágrimas agora banhavam o rosto moreno e a dor estava começando a chegar.
¬ Eu devia ter gravado, porque pra ouvir isso novamente eu vou ter que morrer de novo. — pronunciou-se a voz rouca.
Em questão de instantes, o azul gelo cruzou com o azul índigo e sensações engraçadas começaram a surgir. Soltaram alguns risos, se sentiam como adolescentes apaixonados.
O leonino sentou-se com a ajuda do mais novo e dirigiu-lhe um sorriso. Logo pediu sua ajuda para ficar de pé, em seguida, apoiado no ombro do companheiro, caminhou até a família. Anna ainda estava inconsciente nos braços do virginiano, que chorava de alegria em ver o irmão vivo. Sarah e Miguel apenas observavam um tanto espantados os pais se aproximarem.
O leonino colocou-se de joelhos, segurou o aquariano pela cintura e sorriu com lágrimas presas ao restante da família.
¬ Vamos pra casa?
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