Fênix da Noite Estrelada
4 Sobrevivendo ao Deserto do Coração
Notas iniciais
Partiram a noite, deixando suas armaduras no Santuário, e chegaram ao destino dois dias depois, Em Pleno Meio-Dia! Mas qual é o mal de chegar meio-dia em algum lugar? Simples, não é nada bom estar no meio do Deserto do Sahara em pleno meio-dia...
E as coisas já estavam ruins no carro que Saori contratou para deixá-los no meio do deserto. Tinha dia que Ikki se perguntava o porque de servir uma deusa maluca que gostava de bancar a inútil e fazê-los de capacho/escravos? Ah, sim. Ela protegia a Terra e todos que nela viviam, inclusive seu irmão, – mas levando em consideração que na última Guerra Santa, Hades possuiu Shun, ela não está fazendo um bom trabalho – e precisava deles para dar apoio moral e psicológico. Que vida bela...
¬ Porque se jogar do carro? — Hyoga podia fazer a expressão mais dura do mundo, que não iria disfarçar a indignação em sua voz.
¬ Porque se o carro parar, vamos ficar atolados na areia fofa. — Ikki explicava como se estivesse desenhando para uma criança. — Ao invés de dois, teremos três trouxas tentando se manter em pleno deserto!
Nem o motorista, nem Hyoga tiveram tempo de se manifestar. Ikki tinha empurrado Hyoga e agora os dois estavam rolando duna abaixo, enquanto o carro se distancia em direção a cidade ou vila mais próxima.
¬ Você é louco? — Hyoga ainda cuspia areia quando gritou com Ikki. — Podíamos ter morrido seu animal!
Ikki estava de pé, avaliando o estado do loiro, totalmente descabelado, suado e nervoso, em circunstâncias diferentes, daria para dizer que ele estava fofo.
¬ Morremos? Não! — a ironia era o seu tom de voz predominante. — Então levanta dai que temos que nos achar e para isso precisamos estar no topo da duna.
Hyoga foi agarrado pelo braço e arrastado até o topo de uma duna, onde tinha uma visão privilegiada de areia, areia, uma pedra enorme, areia, areia, areia e areia. A conclusão, estavam em algum lugar, no meio do Sahara em pleno meio-dia. A única coisa que via de diferente naquele mar de areia era uma pedra enorme.
¬ Aqui o calor e a desidratação são seus piores inimigos, e a água sua melhor amiga. — Ikki andava na direção da pedra. — A temperatura máxima de dia é 53°C e a noite a mínima é -18°C, provavelmente a hora que mais vai lhe agradar. — e ainda arrastava Hyoga. — E a melhor parte é que ficaremos aqui por 4 meses.
Ele se sentia um boneco sendo levado de um lado para o outro. Mas que droga! Desde quando ele deixa ser arrastado pelos outros, principalmente Fênix? Ele desvencilhou-se com violência e endireitou a postura. O que Camus diria se o visse desse jeito? Certamente lhe daria um puxão de orelha e falaria que ele só estava causando vergonha a si mesmo.
¬ Eu não sou tolo, Fênix. — ditou o encarando com seriedade. — Isso não é um joguinho, nem uma estadia. Qual o motivo de estarmos aqui?
¬ Sobrevivência. — respondeu a no mesmo tom. — Você está aqui para aprender a sobreviver nas piores situações. E vez ou outra vou impor tarefas para você.
¬ Que tarefas?
¬ Escolhas. — resumiu tudo em uma só palavra.
¬ Vai aplicar alguma dessas tarefas aqui?
¬ Não. — sua voz soava irritada. — Gastei tudo o que eu tinha no deserto com os demais Cavaleiros de Bronze, mas seu trunfo está esperando em outro lugar. Aqui você só deve se manter vivo.
¬ E que papel você tem nessa história toda?
Ikki sorriu brejeiro e se aproximou muito, ao ponto de Hyoga sentir a respiração quente dele contra seu rosto. Estava começando a questionar o porque de Ikki se aproximar tanto das pessoas e com tanta frequência, se bem que aquilo era só com ele, como já tinha percebido.
¬ Sou seu carrasco e salvador nos dois anos que estão por vir. — aquele sorriso não morria nunca?
¬ Pois bem. — é mais fácil ignorar. — Por onde começamos?
¬ Por onde acha, loiro? — inquiriu de forma sarcástica. — Só uma dica. Para se “refrescar” o corpo sua, ou seja, perde água. Com o calor que esta fazendo agora, eu estimo uma perda de... uns dois litros por hora?! — riu-se. — É muito, até mesmo para um Cavaleiro. Especialmente para um que foi criado no gelo.
Hyoga decidiu ignorar o sarcasmos de Ikki e seguir caminho até a pedra. Verificou se tinha espaço o bastante para os dois, o que de fato tinha, só não podiam levantar demais a cabeça, mas de resto, seria um bom abrigo. Agora tinha outro problema, água. Ikki parecia pouco se importar, também, ele estava acostumado com o calor e aquele sol não o derrubaria tão fácil. Em compensação, Hyoga estava com a cabeça trabalhando a mil, para achar água teria que procurar, mas se afastar era perigoso, podia se perder, como se guiaria naquele mar de areia? Há! Mas é claro, é só fazer uso do cosmo.
Como se lesse seus pensamentos, Ikki, que tinha acabado de se enfiar debaixo da pedra na intenção de cochilar, disse:
¬ E nem tente usar o cosmo. — Hyoga o olhou imediatamente. — Saori nos fez o favor de tomar parte do seu cosmo, você agora é tão fraco quanto uma criança de 3 anos. Então recomendo que poupe o que lhe resta, vai precisar...
Ikki não disse mais nada, só fechou os olhos e apoiou a cabeça nas mãos cruzadas atrás do pescoço. Ótimo!! E agora!?
Suspirou derrotado. Teria de se virar, ainda mais com um leonino fazendo jus ao seu signo e dormido preguiçosamente no meio do dia, tal qual um leão de verdade. Subiu a duna mais próxima e procurou todo e qualquer sinal de água, e quão grande foi sua surpresa ao encontrar areia? Por favor, sintam a ironia. Sem sinal de poços beduínos ou oásis. Parecia uma brincadeira de mal gosto inspirada naquele maldito dilema de que quando que precisa muito de algo, você nunca o tem por perto, mas quando você não quer nem saber, parece que aquilo é encontrado em todas as esquinas.
Colocou-se a andar. O pior que podia acontecer era se perder, tinha que manter a esperança de que caso se perdesse, Ikki o procuraria. O Fênix não podia ser tão mau assim, podia?
Andou, andou e andou. E o sol escaldante era a única testemunha de seu esforço. Chegou a pensar que morreria de calor, ou fome, coisa que estava começando a incomodar, antes de achar qualquer coisa que não fosse areia.
Quando finalmente encontrou uma “fonte” de água, já devia ser de tarde, mas o sol era tão impiedoso que não tinha como saber se era manhã, dia ou tarde. E quase, quase, teve um treco ao ver que o fundo do poço, sua “fonte” de água, só tinha areia escura. Espera... Escura?!
Hyoga não pensou duas vezes, pulou no poço, o que logo se mostrou ser uma escolha horrorosa. Como ele pretendia cair e levantar intacto sem o cosmo? Quando caio, sua reação foi automática, a mão foi para o pé torcido. Mesmo com dor, ele examinou superficialmente o pé, se tivesse quebrado era Atena que o ajude, mas se tivesse apenas torcido, torcido feio, era só colocar no lugar. Hyoga colocou o pé no lugar sem muito esforço, mas segurar o grito de dor foi o que mais exigiu dele.
Machucado ou não. Hyoga começou a cavar a areia escura, em pouco tempo encontrou o verdadeiro ouro do deserto, água. Aquela água estava longe de ser potável e ainda estava misturada com areia, como beberia dela então? Fácil. Química Básica, Separação de Misturas – que Camus fez questão de enfiar na cabeça dele, junto com Literatura, Etiqueta, História, Geografia, Matemática, Física, Biologia, Línguas e por ai vai. Hyoga tirou a camisa, pegou a areia encharcada de água, colocou-a sobre a camisa, deu um nó, reunindo toda lama em um só ponto, e colocou-se a sorver da água através da camisa. Repetiu processo até sua sede, que não era pouca, estar saciada.
Agora ele tinha outro problema. Como sairia daquele poço? Não tinha corda, não tinha escada, não tinha nada para ajudá-lo a subir, nem Ikki estava ali, – o maldito ainda devia estar cochilando debaixo da sombra daquela pedra – o jeito era subir o poço na marra, 15 metros de escalada íngreme sem fazer uso do cosmo. Vestiu a camisa suja de lama, o que era muito bom, pois a lama podia ter até 50% de água, ajudando a evitar a desidratação, e começou a escalar.
Com um pé dolorido, escorregando e/ou caindo a cada dois minutos, Hyoga só conseguiu sair daquele poço horas depois. Enquanto subia, só se repreendia por ter sido tão tolo, estava gastando energia desnecessariamente e naquele lugar, energia gasta por nada era o mesmo que suicídio.
Era noite e ele não se importou nem um pouco de deitar na areia por algum tempo, ainda mais com aquele vento gelado brincando com seus cabelos, vento de que ele tanto gostava, definitivamente, aquele frio era seu melhor amigo no momento.
¬ Poços são as melhores fontes de água num deserto, ainda mais poços beduínos. — aquela voz... — Mas são péssimos lugares para se ficar preso, ainda mais quando não se tem como sair. — suspirou e dignou-se a olhar o leonino nos olhos.
¬ O que você quer, Fênix? — perguntou entre tragadas de ar.
¬ Ah, patinho... — sorriu inocente, coisa que não combinava com ele. — Assim você me magoa. Só estou aqui para te dizer que vamos acampar ali agora. — ele apontava para uma pedra, que para Hyoga não estava ali antes e nem tão perto do poço daquele jeito, ou teria visto.
¬ Você trouxe essa pedra pra cá não foi? — indagou de olhos fechados.
¬ É loiro, mas diferente do dito popular, não é tão burro assim. — como é que é? — Isso é bom.
Hyoga estava morrendo de raiva naquele momento. Odiava aquele estereótipo e parecia que todo mundo gostava de irritá-lo com esse historinha de loiro burro. Olhava para Ikki com uma evidente vontade de matá-lo, misturada com uma leve tristeza pelo comentário descabido. Ikki se aproximou de Hyoga e se curvou para frente, estudando a expressão dele com um olhar indecifrável.
¬ Recomendo que não faça essa cara, ainda mais corado como está. — saio andando. — Algumas pessoas são péssimas com autocontrole...
Hyoga agora fazia uma careta engraçada. Tinha entendido uma coisa, mas se recusava acreditar pelo simples fato de estar lidando com Ikki de Fênix, não com o irmão caçula, Shun, que era só umas mil vezes mais fácil de se interpretar.
Teve que respirar fundo três vezes para recuperar sua indiferença habitual.
¬ A quanto tempo está aqui?
¬ Estou admirando seu esforço a duas horas. — Ikki sorriu brejeiro.
POR DEUS!! Não é nem Zeus, tem que apelar pra Deus mesmo!! Aquele homem só sabia sorrir assim?! Ikki gostava de ver os outros fora de si, não tinha outra explicação lógica ou racional para aquele comportamento e sorriso.
Hyoga não perguntou mais nada. Sabia que Ikki não o socorreu por duas únicas razões, ele estava ali para sobreviver, não ser socorrido, e também, Fênix parecia se divertir com desgraça alheia, principalmente a dele. Achou melhor descansar, nem se preocupou em comer, o cansaço estava pior que a fome.
Horas mais tarde, Hyoga dormia profundamente e Ikki estava assando seu jantar, um podre lagarto que teve a infelicidade de cruzar o caminho do moreno. Ikki alternava o olhar entre o fogo crepitando e o homem dormindo um pouco mais a frente, era quase impossível desviar os olhos do aquariano, estudava cada detalhe do rosto e corpo do russo com tanta atenção que mais parecia estar enxergando o que se passava no coração e mente dele. O que aquele patinho “feio” tinha de tão especial para atrai-lo tanto? Suspirou.
¬ Sei que estão ai. — disse para as sombras. — Se mostrem logo, pois meu humor não é o mais agradável.
¬ Amor... amor... amor... — uma das vozes cantarolou.
As duas pessoas que os observavam sentaram-se cada uma de um lado de Ikki, colocaram os braços em torno de seus ombros e sorriram cúmplices.
¬ Admita. — disse o mais velho. — Você está louco pelo patinho.
¬ Vai se fuder, Saga. — Ikki voltou sua atenção para o fogo.
¬ Olha como fala com meu irmão, Fênix. — ditou o mais novo. — O único que pode fazer a festa aqui sou EU!
¬ Kanon. — chamou. — Por favor, contenha-se.
¬ Arg. — revirou os olhos. — Mas agora é serio. — voltou-se para Ikki. — Tente ser mais gentil. Todo mundo gosta de gentileza de vez em quando.
¬ É, Ikki. — o mais velho confirmou. — Ouça a voz da experiência. Eu e Kanon passamos por poucas e boas na nossa vida, sabemos muito bem do que estamos falando.
¬ Vocês são dois incestuosos, isso sim. — sibilou o leonino. — E outra. Como podem ter tanta certeza de que eu gosto desse tufo loiro?
Os gêmeos riram com gosto, parecia que tinham acabado de ouvir uma piada.
¬ Ora, Ikki. Já vimos muitos olhares apaixonados na nossa vida. — comentou o mais novo.
¬ O seu é um olhar velado de amor, carinho e paixão, todos sentimentos avassaladores. — completou o mais velho.
¬ Falou o guru do amor que teve de trancafiar seu amado irmão, pois este estava se comportando mal, e ficou louco por não ter quem comer. — Ikki comentou incisivo e sarcástico.
¬ Snif... Ai. Essa doeu. — disse o mais novo.
¬ Cala-se, Kanon! — o mais velho rosnou.
¬ Você é tão fácil de atingir, Saga... — riu-se o mais novo. — Mas não viveria sem você. — sorriu charmoso.
¬ Antes que comecem a festa... — Ikki intrometeu-se. — Lembrem-se de que estou aqui e não vou tolerar os dois rolando e se pegando na areia.
¬ Pra que? — inquiriu o mais novo. — Temos quarto e cama nos esperando. Só estamos fiscalizando vocês por ordens da chatolina da Atena, que é uma senhora yaoista, mas suspeito que isso se deva ao fato que além de deusa, ela é uma garota “normal”. — deu de ombros. — Mas enfim. Ele tá louca pra ver vocês se pegando.
¬ É deve estar louca mesmo. — Ikki jamais perderia a oportunidade de falar que Saori é maluca, mas como é ela quem paga as contas dele e ele não é nem um pouco burro, o melhor era segurar a língua.
¬ Ok, senhor durão. — brincou o mais novo. — Mas faça um favor para nós e a si mesmo. Olhe bem para aquela beldade loira, que só perde pro Saga, e...
¬ Vocês são gêmeos idênticos. — cortou o leonino. — Ou seja, esta chamando a si mesmo e ao seu irmão de beldade. Sabia que a humildade também faz bem de vez em quando?
¬ Eu não falei que ele era inteligente? — o mais novo sorria divertido para o irmão. — Continuando. E diga o que acha sobre este maravilhoso russo.
Ikki decidiu atender o pedido dos gêmeos e observou o aquariano adormecido por um tempo.
¬ Ele é bonito. — concluiu. — Uma fortaleza de gelo que esconde milhares de sensações e sentimentos, uma fortaleza que quero derrubar a todo custo. Uma fortaleza gélida, mas bela.
Os gêmeos sorriram e beijaram as bochechas do leonino ao mesmo tempo. Ikki era um turrão mau humorado com um coração gentil que era frequentemente deixado dentro de um potinho de maionese ao lado da cama quando ele levantava, mas nem ele podia negar que Hyoga era bonito.
Os gêmeos ainda ficaram ali mais um pouco para atormentá-lo, chegaram a pedir para experimentar o lagarto assado, mas antes de ir embora, Kanon lhe deu um telefone militar, naqueles que tem sinal em qualquer lugar do mundo, e disse que Shun ligaria a qualquer hora do dia, até ai tudo bem. No minuto em que os dois foram de fato embora, Ikki quase deu graças aos céus.
O dia seguinte não foi muito diferente do anterior. Hyoga se mostrou bem resistente para surpresa do leonino, mas foi muito engraçado vê-lo procurar comida. Ele tinha conseguido pegar dois lagartos, um venenoso e o outro comestível, mas amargo que nem o cão. Quando Hyoga começou a cuspir a carne do primeiro lagarto, é que Ikki se manifestou.
¬ O gosto podre pode significar que era um animal venenoso. — Ikki, que estava de olhos fechados e descansando na sombra após buscar água no poço, abriu um olho para ver Hyoga. — A regra é: Na dúvida, cuspa.
Mais engraçado ainda foi quando Hyoga andou em círculos por 20 minutos a procura de comida, coisa que estava pior de se achar do que água. Ikki por fim se apiedou do aquariano, quando este passou por ele uma quinta vez.
¬ O vento dominante é o do noroeste, que molda as dunas em uma única direção, ou seja, a parte mais íngreme delas está voltada para o sudeste. — porque ele explicava as coisas como se falasse com uma criança? — Com isso em mente, você se orienta no Deserto do Sahara. Nos outros desertos do mundo, o vento dominante é o do sul.
E o dia correu dessa forma. Ikki se divertindo com a desgraça alheia e Hyoga tentando se convencer de que congelá-lo era uma péssima ideia. A hora mais leve do dia foi quando Ikki estendeu-lhe um telefone militar dizendo:
¬ Shun quer falar com você.
Hyoga pegou o telefone e se afastou, foi para junto do poço e se encostou no murinho que o cercava.
¬ Alô?
¬ Hyoga! — ouvir a voz alegre do virginiano do outro lado da linha o fez sorrir. — Como você tá? O Nii-san me contou que você tá mancando.
¬ Eu tô bem, Shun. — Ikki linguarudo. — Só acho que trinquei o pé.
¬ Como é? — indagou preocupado. — E ainda tem a cara de pau de dizer que tá bem?! Isso pode ser sério!
¬ Mas eu tô bem, Shun. — tentou convencer o menor.
Essa discussão ainda durou alguns minuto até que o Amamiya mais novo fosse convencido pelo russo.
¬ Tá bom. Tá bom. — ditou. — Vou acreditar em você. Mas me diga... como você tá?
Hyoga enrijeceu com a pergunta, sabia muito bem o sentido daquela pergunta e engoliu seco, mas resolveu contar a verdade ao amigo.
¬ Tentando me convencer do contrario.
¬ Contrario de que homem? — Hyoga mordeu seu lábio inferior.
¬ Você sabe...
¬ Ah, não! — a voz do outro lado parecia irritada. — Você não tá me dizendo isso! — negou com veemência. — Hyoga, esta me dizendo que vai deixar sua chance de ser feliz ir embora?
¬ Feliz?! — ele quase engasgou de tão indignado que se sentiu. — Feliz onde? Sou tratado como um nada, esperando um coração tão seco quanto esse deserto me amar, esperando algo, um sinal, uma palavra, qualquer coisa. — ele abaixou a cabeça e seu tom se tornou triste. — Shun, isso não é felicidade! Felicidade é amar e ser amado. Não é ficar tentando amar alguém que só te faz sofrer.
Pode ouvir o amigo suspirar do outro lado da linha, era como se ele pudesse provar do mesmo sentimento, o que não deixava de ser verdade. Shun não só sentia, como, na maioria das vezes, tomava a dor dos outros para si.
¬ Alexei... — Hyoga congelou, Shun só o chamava assim quando a coisa estava feia mesmo. — Certa vez eu desisti do amor como você está fazendo agora, pelo simples fato de ver aquela pessoa como uma irmã e achar que ela me amava assim. — a dor na voz do mais novo chegava a ser palpável. — Me arrependo até hoje dessa escolha e vê-la com outro alguém só faz tudo piorar. — o silencio reinou por um tempo. — Eu não desejo essa dor nem mesmo ao meu pior inimigo. — Shun tem inimigos?! — Por isso não quero que desista. Não quero que fique como eu. — a voz dele mudou, possuía força e coragem, de fato Shun era um exemplo, ele podia tomar a dor dos outros, mas jamais priorizava as suas. — Como seu companheiro, como seu irmão, como seu amigo, eu só quero te ver feliz.
Hyoga suspirou derrotado. “O mundo está perdendo um ótimo orador.” Pensou consigo mesmo. Shun sempre o convencia com seus discursos, mesmo que estes fossem confusos. Ele olhava para o céu estrelado, mas naquele momento ele só queria ver a lua, então se desencostou do murinho e ficou de costas para o acampamento improvisado.
¬ Acredita mesmo que a felicidade um dia vai me achar? — perguntou mirando o bela senhora do céu noturno.
Ouviu Shun soltar um risinho do outro lado da linha.
¬ Ela já achou. — ouvir a resposta o fez sorrir involuntariamente.
Quando se deu conta, já estava rindo com o virginiano.
Hyoga mal desconfiava de Ikki fitava-o já fazia um tempo, enquanto mexia com o fogo. Ele tentava entender o que era aquilo que sentia sempre que estava perto do loiro, o que era aquela necessidade de se tornar alguém importante para o aquariano, o que era aquela vontade insana de alcançar seu coração.
¬ Eu vou derrubar estes muros e vou tocar seu coração, Cisne. — jurava para si mesmo. — Seu coração pode ser um deserto, mas eu vou alcançá-lo. Custe o que custar.
Fale com o autor