Fênix da Noite Estrelada

32 Entre Deuses e Mortais - Parte I


Notas iniciais
Vocês se preparem, porque agora os caps vão ser grandinhos... Espero que tenham paciência ¬¬' Tenham uma boa leitura :)

Os Aliados tinham sido divididos em cinco grupos. Enide, Éris, Galena, Gaya e Relindes.

Os integrantes do grupo Enides ficariam responsáveis pela derrocada do poder Terrorista em sua própria base, que ficava em Moscou, seus atos decidiriam o destino daquela guerra. O grupo contava com aviões para o transporte dos soldados e também contava com caças F-18 para fazer parte do ataque aéreo.

O grupo Éris, como o próprio nome sugere, seria o responsável por gerar o caos nas linhas inimigas. Eles seriam levados de avião para vários pontos atrás das linhas inimigas, onde ficariam tão espalhados durante o combate que os inimigos não saberiam nem mais quem era amigo e quem era inimigo.

O grupo Galena ficaria responsável pela parte naval daquela batalha. Eles invadiriam as praias com veículos anfíbios, enquanto porta-aviões, submarinos e bombardeiros travariam a batalha em pleno mar.

O grupo Gaya ficaria com a batalha terrestre. Cuidariam das fronteiras e lutariam contra as defesas inimigas, tentando a todo custo quebrar as barreiras e realizar uma invasão por terra.

E o grupo Relindes ficaria responsável por cortar cada um dos braços dos Terroristas, que se concentravam na Coreia do Norte, Cuba, China, Sibéria, Argentina e Austrália, eram bases pequenas e que estavam totalmente desestruturadas, não durariam 2 horas na batalha decisiva.

O assalto seria realizado em três fases: uma aterragem de assalto aéreo sobre Moscou com soldados aerotransportados depois da meia-noite, o desembarque anfíbio e os ataques às defesas terrestres ocorreriam uma hora mais tarde, e a batalha marítima, assim como o ataque do grupo Relindes, teria inicio pouco depois. Soldados e material seriam transportados por aviões carregados de tropas e navios, desembarques de assalto, suporte aéreo, interdição naval, fogo naval e de apoio. Todos os relógios estariam ajustados no fuso horário da Rússia

Era quase que um segundo Dia-D, mas aquilo não era uma batalha de homens, aquilo era uma luta entre deuses e mortais, mais do que se podia imaginar estava em jogo naquela batalha.

Grupo Enides – U.S.S. Mauritania, Mar Barents, 23:17

O convés do navio estava apinhado de soldados, todos se preparando para a batalha decisiva.

Seiya de Pegasus já tinha se vestido adequadamente, estava sentado na caixa de sua armadura e encarava o capacete de piloto como se fosse capaz de atravessá-lo com o olhar. O moreno tinha servido a força aérea grega por 2 anos, depois de tantos serviços prestados, principalmente como piloto de resgates, ele foi dispensado, mas agora, em tempos de guerra, nada menos que o normal ele ser piloto de um F-18. Sua missão era escoltar os aviões cargueiros e transportadores. O capacete lhe trazia lembranças, boas e ruins, e lhe lembrava a importância do que estava para fazer.

Alguns dos pilotos mais novos apareceram e tentaram puxar conversa com o, geralmente, alegre Cavaleiro de Pegasus, mas foram “ignorados”, Seiya até tentou dar respostas normais. Não podia negar que estava totalmente alheio a conversa, mas quando ouviu a besteira de que eles – Cavaleiros – poderiam se aposentar de bem com a vida assim que aquela guerra acabasse, ele se sentiu obrigado a sair dali, se não mataria aqueles caras.

Ele pegou a caixa de sua armadura e saio andando na direção de “seu” caça, mas seu comportamento fora questionado e ele apenas olhou por cima do ombro.

¬ Só os mortos conhecem o fim da guerra e, ás vezes, nem eles.

Voltou a andar na direção do caça, ainda tinha que dar um jeito da armadura ficar consigo no cockpit, deixando alguns pilotos pensativos e constrangidos, parecia que só naquele momento, eles perceberam que para um Cavaleiro de Atena, guerras não tinham fim.

Hyoga de Cisne já estava vestido com sua armadura, tinha armas escondidas até nos dentes e já vestia boa parte do equipamento de salto. O aquariano tinha servido o exercito francês por 4 anos e meio, era um fuzileiro e franco-atirador, dispensado com honras após impedir um atentado terrorista que mataria centenas de pessoas e se ferir gravemente, mas nada que o impedisse de exercer seu ofício de Cavaleiro ou militar novamente. Nada além do normal por ele fazer parte do grupo de assalto que invadiria Moscou. Em suas mãos tinha uma foto de Anna, Miguel e Sarah, eles estavam comendo batata frita pela primeira vez na vida e brincavam que as batatas eram barquinhos no potinho de ketchup, uma cena boba aos olhos alheios, porém uma memória carinhosa para o russo.

¬ No que está pensando? — indagaram-lhe.

O loiro virou-se bem lentamente para encarar o amigo. Seiya levava a caixa de sua armadura nas costas e o capacete de piloto estava pendurado sobre o ombro. Hyoga esboçou um pequeno sorriso, estava tão na cara assim a sua perturbação?

¬ No futuro. — respondeu ao amigo, voltando a encarar a foto. — O futuro dependerá do que fizermos no presente. — o outro suspirou.

¬ Ah, meu amigo. — comentou. — Eu nunca penso no futuro, pois ele não tarda a chegar.

¬ De fato, ele não tarda a chegar. — volveu. — Porém é o futuro que definira quem somos.

¬ Nisso eu não posso discordar de você. — o moreno tinha um pequeno sorriso nos lábios.

¬ Nós também!

A afirmação atraio seus olhares até os geminianos gregos. O mais velho estava com a postura um tanto séria de sempre, enquanto o mais novo, como sempre, estava mais alegre, ambos estavam vestidos como os mais novos. Sendo que o mais velho se vestia como o sagitariano e o mais novo como o aquariano, até a Armadura de Gêmeos estava coberta de preto. Os dois caminhavam em suas direções com leves sorriso.

¬ Vamos. — chamou o mais velho dos gêmeos com um sinal de cabeça. — Eu e Seiya temos caças para pilotar, você e Kanon uma cidade para invadir e eles um futuro a construir. — concluiu indicando a foto.

Hyoga ficou em silencio por alguns instantes, apenas encarando os gêmeos gregos e o amigo japonês, depois a foto de seus filhos, por fim sorriu, guardou a foto na armadura e, acompanhado deles, partiu.

Grupo Éris – U.S.S. Dakota II, Mar de Okhotsk, 23:28

Ikki de Fênix tinha acabado de vestir sua armadura e os equipamentos de salto, as armas pegaria depois. Sua missão era saltar dentro do território inimigo e causar o maior caos possível, algo normal, levando-se em consideração que tinha sido um tenente-coronel por 5 anos no exercito francês, um hábil estrategista e excelente fuzileiro, que muito fora castigado e dispensado, quase preso, por sua “má” conduta.

Em outros tempos ele sorriria travesso, no fundo, no fundo adorava gerar um mínimo caos, uma discórdia básica, mas agora sua expressão era tão fria quanto o casco de aço daquele navio. Ele estava na pista de decolagem, sentado sobre alguns tanques de combustível de caça vazios, encarava o horizonte claro com um olhar sem vida.

¬ O que te aflige?

Ikki tombou a cabeça para trás. Shion estava parado atrás de si com um olhar de pura preocupação, ele se vestia como um piloto de caça e nem por isso perdia seu ar de autoridade. Após ter a atenção do leonino, o ariano se deu ao direito de sentar-se ao lado dele, aquele era um claro sinal de que precisavam conversar.

¬ Vamos, conte-me. — exigiu. — Sabe que pode contar o que quiser para mim, não? — Ikki desviou o olhar para o horizonte, mas confirmou. — Então diga-me. O que te aflige?

O leonino pareceu ponderar por alguns instantes. Não queria encher a paciência de Shion com seus problemas, nem queria ficar guardando aquilo para si, ou parecer um idiota se falasse a verdade. Mas aquele era Shion, nele você podia confiar até seus maiores segredos sem ter medo de ser julgado e ainda seria aconselhado com sabedoria.

¬ Kowai. — respondeu em sua língua mãe. — Eu tenho medo, Mestre.

¬ Medo do que? — o tom de voz do ariano permanecia neutro.

¬ Medo da solidão, medo da dor. — ele fechou as mãos em punho. — Tenho medo de perder aquilo que amo e ficar sozinho. — explicou. — Watashi wo kowai. — riu-se logo em seguida. — Isso me torna um covarde, não?

Shion pareceu se surpreender, deu até para se notar o pulo que ele deu com a pergunta e a careta que misturava confusão e indignação tomar seu rosto por segundos, o leonino chegou a temer a resposta do mais velho. Para sua surpresa, Shion começou a rir como se tivesse escutado uma piada muito boa, riu por um longo tempo e demorou para se acalmar, depois de se recompor deixou como rastro da gargalhada um sorriso.

¬ O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não. — comentou alegremente.

O ariano pode ver a expressão do leonino se contorcer em meio a duvida, certamente não estava entendendo a mensagem que o mais velho queria passar, mas como um bom "pai", Shion colocou-se a explicar.

¬ O medo nos deixa em alerta, prontos para qualquer coisa, ele nos dá saídas, portas e janelas por onde escapar ou atacar, irreverente a situação e com honra. — sua expressão ficou um pouco dura, para conotar a diferença entre o medo e a covardia. — A covardia nos torna tolos e inúteis, acabamos por nos tornar seres mesquinhos e sem honra alguma. — voltou a sorrir, pousando a mão no ombro do leonino. — Você não é covarde, Ikki Amamiya. — afirmou. — Você só tem medo.

¬ Mas esse é o problema, Mestre! — volveu exasperado.

¬ Não. — balançava a cabeça bem devagar. — Esse nunca será o problema. — ditou. — O medo é algo normal de todo ser humano, todos tem medo de algo, desde coisas aparentemente tolas, até coisas realmente relevantes. — explicou. — Dizem que o medo é o pai da moralidade, mas eu acredito que ele seja o pai da coragem.

Mais uma vez, a expressão do moreno se contorceu em confusão. Shion soltou um pequeno riso, Ikki estava meio burrinho naquele dia, mas ele sabia que preocupações em demasia, como as que o moreno vinha tendo, realmente te deixam mais burro.

¬ Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo. — o ariano, em contra mão de seu signo, tinha uma santa paciência. — Você é corajoso, Ikki. Poucos fariam metade do que você já fez pelas pessoas amadas e até por si mesmo. — elogiou descaradamente e sem reservas. — Mas principalmente, a coragem é a aceitação do medo. Você o sente agora, mas assim que entrar naquele avião, pode acreditar que ele ira sumir, pois todo o seu ser sabe que o medo lhe será útil apenas como combustível, o importante é fazer todo o possível para proteger aqueles a quem você ama.

Ikki deveria agradecer aos deuses por Shion existir. O leonino nunca seria capaz de definir o quão grande era sua gratidão para com o ariano, nem quão grande era sua divida para com o mesmo, só sabia que, talvez, um dia o recompensaria por tudo o que ele fizera. Porém, no momento, havia uma pergunta que queria ser verbalizada e respondida.

¬ Mestre... — chamou cauteloso. — Você está com medo? — ele abaixou a cabeça e desviou-a para o lado, como se fosse capaz de se esconder do mais velho só com isso.

¬ Muito. — respondeu sem pudor algum, o que assustou o leonino, fazendo-o se virar de imediato para o ariano. — Também tenho medo da dor, medo de ficar sozinho. Choro todos os dias ao pensar que aqueles a quem tenho possam sofrer de alguma forma, possam partir. — confessou. — Eu vi todos vocês crescerem, e mesmo que muitos não me vejam assim, eu tenho cada um de vocês como a um filho ou irmão, pensar que um de vocês possa deixar este mundo me faz sofrer. — Ikki podia jurar que via lágrimas contidas no olhar do mais velho, que lhe sorriu encorajador. — Mas não é por isso que deixarei de acreditar em vocês ou me tornarei um covarde egoísta, muito pelo contrario, farei uso desse medo, o tornarei minha força, para que assim eu possa protegê-los.

Ikki não sabia como, mas aquelas palavras de Shion tocaram-lhe o coração e a alma de alguma forma, o leonino se esforçava para não chorar na frente do mais velho, que lhe mandava um olhar cheio de significados profundos.

Shion sempre teve um coração enorme, ou melhor, sempre teve um coração de pai. Ele sempre tinha a solução, como uma lanterna, que mostra a direção, sua “intuição paterna” jamais se perderia, antes mesmo de conhecer Ikki ou qualquer outro de seus “protegidos” direito, ele os conhecia tão bem quanto uma mãe conhece o filho antes de nascer. Ele bem sabia o que fazer, apenas abriu os braços.

Aquilo foi o que bastou para toda resistência construída pelo moreno cair por terra, ele abraçou o mais velho em meio a lágrimas sem pudor algum e foda-se quem tivesse vendo.

¬ Arigato. — foi tudo o que conseguiu dizer.

Aquela cena era até engraçada, o ariano mais velho chegou a sorrir. Shion sempre soube o que fazer. Em relação aos demais Cavaleiros, ele jamais se enganava se algo estava errado, se um eles fizesse um único drama, se tentasse despistar, ele sempre descobria os segredos e sabia como ajudar. Nele todos podiam confiar, era incrível como dia após dia ele era capaz de amar aqueles jovens, definitivamente, Shion era o pai daqueles jovens que nunca tiveram um pai de verdade e o segundo pai daqueles que tiveram.

No momento, sua prioridade era acalentar Fênix, até os mais fortes precisavam de apoio algumas vezes. Shion sabia que o que assolava Ikki era o medo de perder Hyoga – como dito a algum tempo, Milo nunca foi bom em esconder segredos – ou falhar com ele e, é claro, aquele medo também se aplicava com seu irmão e seus filhos – é, Milo nunca foi bom com segredos.

Shion era um bom “pai”, ajudaria Ikki a se apaziguar e ainda ficaria em silencio sepulcral em relação à aquelas lágrimas, manteria segredo até mesmo da própria Atena. Mas falando em segredos...

¬ Mu. Dohko. — os dito cujos sentiram um frio insano subir-lhes a espinha com o tom do mais velho. — Se contarem isso para alguém que possa ferir o orgulho de Ikki, eu juro que arranco a língua dos dois. — ditou firme.

Eles só estavam passando por ali quando viram aquela cena um tanto quanto incomum. Mu até quis ir embora e fingir que não viu nada, mas Dohko não negaria sua curiosidade e não pretendia se dar mal sozinho, acabou arrastando o ariano consigo para um esconderijo de onde poderiam continuar observando a cena icônica. Ao ouvirem a voz de Shion e ao cruzarem olhares com ele, a história não foi outra, saíram correndo pelo bem de seus coros. Dohko que o diga, chegou a passar por cima de Mu para fugir da ira de Shion, que não tinha por habito desfazer promessas, só que acabou atraindo a ira do mais novo por conta disso, e aquilo acabou se tornando uma perseguição. Shion só pode desaprovar a cena com um suspiro.

¬ E eles foram tão bem recomendados...

O comentário arrancou risos do leonino. O mais velho sorriu, era bom ver um de seus filhos felizes.

Grupo Galena – U.S.S. Messenger, Mar de Kara, 23:45

Shiryu de Dragão não gostava do mar, não se sentia bem nele, porém foi o lugar que melhor se encaixou. Ele seria comandante do navio, juntamente com Isaak, mesmo nunca tendo sido chamado, alistou-se, mas, para sua sorte, foi dispensado por excesso de contingente.

Porém, isso não mudava o fato de que não apreciava o mar como deveria. Ele se agarrava à amurada do barco como se pudesse cair a qualquer minuto. O mar não lhe trazia boas lembranças.

¬ Shiryu! — ouviu ser chamado. — O que faz aqui? Logo será nossa vez de agir!

Isaak, por outro lado, parecia muito bem no meio do nada, conhecido como mar. Ele não parecia nem um pouco incomodado com a ideia de estar em um navio, ou no meio do mar, só parecia preocupado com o que se sucederia dali a 1 hora.

¬ Estou tentando me acalmar. — respondeu simplesmente.

Isaak era “irmão” de Hyoga, e como o russo mais velho, era uma ótima pessoa para se ter uma conversa, tanto que chinês e finlandês já eram amigos de longa data. E por ser um amigo tão “antigo” assim, Isaak sabia que o buraco em que o libriano se meteu era bem mais fundo.

¬ Percebi. — comentou. — Segura a amurada como se sua vida dependesse dela.

¬ Até onde eu saiba, a amurada exista para evitar que caiamos no mar. — volveu. — Então eu acho que sim, minha vida depende dela.

Shiryu segurou a amurada com mais força ainda, isso não passou despercebido pelo aquariano, que não demorou a ligar os pontos e perceber a gravidade da situação.

¬ Você odeia o mar? — sua pergunta vinha carregada com um “q” de descrença.

¬ Shì de. — confirmou em sua língua mãe.

¬ Porque? — o aquariano não era por habito curioso, mas aquela história realmente o intrigou.

O libriano só pode suspirar, o mar lhe tirou tanta coisa, lhe fez tanto mal, deveria ou não revelar o motivo naquele rancor? Pelos deuses! Era Isaak! Ele era um Camus/Hyoga Junior, se algo de importante lhe fosse confiado, ele certamente faria jus a confiança nele depositada.

¬ Eu e minha mãe vivíamos do mar. — revelou. — Ela pescava ostras e eu ajudava no que podia. Quando eu era menino, Mitsumasa Kido estava passeando de barco com a neta, Saori, na praia onde eu e minha mãe vivíamos.

Shiryu inclinou-se sobre a amurada, de forma que pudesse deitar a cabeça e fora imitado pelo aquariano que lhe dava toda a atenção do mundo acompanhada com um certo nível de seriedade.

¬ Saori tinha um brinquedo, não sei qual, que ela amava acima de tudo. Nesse passeio, ela se apoio na amurada para ver os golfinhos que ali passavam, mas o barco em que estavam teve que desviar subitamente de um um golfinho que apareceu a sua frente e o tranco fez com que ela soltasse o brinquedo.

¬ Deixe-me adivinhar. — interrompeu o menor. — Ela infernizou o velho até ele achar o brinquedo. — ele confirmou.

¬ Ele praticamente montou equipes de busca na praia onde eu morava para achar o maldito brinquedo. — explicou. — Minha mãe, gentil como era, quis saber o porque de Saori estar chorando, após saber a razão, ele fez um acordo com Mitsumasa Kido. Ele me daria uma vida digna em troca do brinquedo de Saori. — o chinês soltou um riso falso. — Acho que ela atormentou tanto o velho, que ele aceitou sem pensar duas vezes e na frente de um monte de gente.

Ele fechou os olhos com força e se calou ao sentir lágrimas queimarem-lhe os olhos. Era algo doloroso de se lembrar.

¬ E então?

¬ Minha mãe mergulhou atrás do brinquedo, eu a acompanhei com um barquinho a remo que tínhamos e Mitsumasa Kido a acompanhou de longe com seu barco. — contou. — Minha mãe disse ter encontrado o brinquedo, disse que ele tinha ficado preso entre os corais e que estava num lugar profundo, onde só pescadores de ostras e mergulhadores com tanques de oxigênio seriam capazes de chegar.

¬ Sua mãe mergulhou atrás do brinquedo, não foi? — mais uma confirmação.

¬ Minha mãe tinha longos cabelos negros semelhantes a seda, pareciam os cabelos de uma princesa mesmo com as dificuldades da vida. — seu olhar se tornou nostálgico por alguns instantes. — Minha mãe recuperou o brinquedo, ele chegou a superfície sem problemas, porém, minha mãe não. Pulei na água sem pensar e nadei até as profundezas do recife, encontrando minha mãe com os cabelos presos nos corais. Ela tentava se soltar, mas a cada mecha solta, outras cinco se prendiam, eu tentei ajudar a qualquer custo, mas meus cabelos, que já eram longos naquela época, também se prenderam aos corais. Minha mãe me ajudou a soltá-los, mas me impediu de ajudá-la, tive que recorrer ao ar três vezes depois disso, ignorando as perguntas desesperadas de Mitsumasa Kido e sua tripulação.

Isaak pode ver lágrimas escorrerem pelo rosto do mais velho, de forma lenta e sofrida, mas nada disse, apenas escutou.

¬ Na quarta vez que mergulhei, minha mãe não estava mais lá, não estava mais preza aos corais. — afirmou com a voz embargada. — Eu assisti a correnteza a levar embora e vi seu corpo afundar no abismo. — concluiu. — Depois que voltei a superfície, acho que o Kido se sentiu culpado o bastante para cumprir metade da promessa que fez a minha mãe, o resto é história.

Ficou em silencio, sabia que o libriano precisava se seu silencio, não de sua pena. Apenas quando percebeu que ele havia se acalmado é que se deu ao luxo de falar.

¬ Suponho que o mar também tenha tirado seu pai. — comentou.

¬ E dois irmãos mais velhos. — completou.

É... Definitivamente o buraco era mais fundo, mas aquela não era hora para se lamuriar, eles tinham uma obrigação e deviam cumpri-la.

¬ Não vou te contradizer ou oferecer meus pêsames. — expressou-se. — Mas eu aprendi que os deuses ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele espelharam o céu.

¬ O que quer dizer?

¬ O mar não é um obstáculo: é um caminho. — explicou. — E como todo caminho, por vezes ele é cruel, por vezes ele é brando, o que se perde nele ou se cria dele são coisas com imenso valor. O mar espelha o céu, pois ele quer ser como o céu, porém, o mar é o mar, ele tira e ele dá. Pense comigo. — pediu. — O mar nos da maravilhas e nos tira tesouros, sendo muito cruel, tal como a vida, mas o que o céu nos dá?

¬ Esperança. — respondeu.

¬ Uma tolice na minha opinião. — afirmou. — Não gosto de esperanças, gosto de certezas. E esse é o X da questão! — agora sim ele tinha confundido o libriano. — O mar sempre nos deu a certeza de que nos tiraria algo, assim como daria algo, mas o céu nunca deu certeza alguma.

O libriano ergueu uma sobrancelha, já estava começando a duvidar da sanidade mental do aquariano. Mas que merda ele estava falando? Onde o mar era bom naquela porra de história?

Vendo que sua credibilidade estava relativamente baixa, Isaak resolveu concluir sua “missão”.

¬ O mar tem seus mistérios, Shiryu. Ele sempre está presente em nossas vidas, mesmo que não o notemos. — ele colocou a mão no ombro do amigo e saio. — Pense um pouco meu amigo. Se o mar não lhe tirasse sua mãe, você jamais teria Dohko, Shurei, nem nossos amigos, e só os deuses sabem o que seria de você. Nunca olhe o mar com ódio, pois ele te olha como o céu.

¬ Mas que raio você esta falando? — indagou.

Isaak olhou para trás com um sorriso. Só um homem livre como ele seria capaz de amar e entender o mar.

¬ Isso você terá de descobrir sozinho. — riu-se. — Mas agora nós temos que ir. Você é o comandante, esse navio não anda sem você. Vamos logo para nossos postos, depois você vira filosofo e passa o resto de sua vida ponderando sobre o mar. Vamos trabalhar vagabundo! — aquela afirmação o fez torcer o nariz.

O libriano deu-se ao luxo de suspirar. Isaak era Isaak afinal, mas, de certo modo, ele não tava errado. Decidiu fazer o que o amigo deu a entender, concentre-se no presente, depois faça o que quiser, só não odeie aquilo que não entende, pois muitas vezes ele fez mais por você do que qualquer outra coisa.

Grupo Gaya – Fronteira Russa, Ucrânia, 23:50

A noite estava nublada e nem mesmo as barracas atrás das arvores eram capazes de manter o frio do lado de fora.

Shun de Andrômeda estava terminando de vestir sua armadura, a cada peça encaixada ao corpo, um suspiro era solto. Odiava lutar. Odiava guerras. Tanto que deu graças aos deuses por ter sido dispensado pela sua fisionomia pequena e delicada, não era exatamente a figura de um militar, diga-se de passagem. Então porque se sentia tão preparado e decidido a lutar? Porque não se sentia mal com a ideia de matar alguém?

¬ Porque você compreende a atual situação. — Shun virou-se de imediato na direção da voz.

¬ Shaka?!

O virginiano mais velho fazia uso de sua armadura, que, assim como a do menor, estava coberta por um tecido escuro. Ele tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo alto, mantinha os olhos fechados como de costume e vinha em sua direção exalando uma pequena aura de serenidade.

¬ Porque você vai matar se tiver que matar. — continuou. — Porque você vai derramar sangue se preciso e não sentirá remorso por isso. — Shun ficou em choque por alguns instantes, quem era aquele e o que ele fez com Shaka?!

¬ C-como pode afirmar uma coisa dessas?! — sua indignação chegava a ser palpável. — Você não odeia lutar também?!

O indiano agora estava frente a frente com o japonês, eles já tinham quase o mesmo tamanho. Por um momento, Shaka se perdeu em memorias, onde a visão que tinha de Shun era de uma criança, de um menino adorável que se preocupava com todos e era tão puro quanto a água de uma nascente. Se pegou perguntando quando o menor cresceu tanto e se tornou um homem.

¬ Eu entendo sua dor, sua dúvida. — disse ao retornar para o presente. — Sei que como uma pessoa que prefere aderir a paz, você não gosta de nada que envolva a palavra ou o ato de “lutar”. — ele procurou pela mão do mais novo e a segurou. — Mas é por sua atual situação que eu afirmo com certeza de que você será o próximo Cavaleiro de Virgem. — os olhos de Shun cresceram como um par de bolas de basquete.

¬ Nani?

O indiano chegou a soltar um pequeno riso com o espanto do menor. Shun podia ter a idade que quisesse que no fundo sempre seria aquele garotinho adorável que se preocupava com todos.

¬ Em momentos de paz convém ao homem serenidade e humildade, mas quando estoura a guerra deve-se agir tal como um tigre. — ditou. — Nós, Cavaleiros de Virgem, somos sempre obrigados à lutar, mesmo não gostando, luto porque devo, não porque quero. — explicou. — Nós vivemos em dois mundos, um de paz e um de guerras. Nós sabemos ponderar melhor do que qualquer outra pessoa. Nós possuímos a habilidade de enxergar mais que os outros, porém, há vezes em que somos cegados, algumas vezes por vontade própria. — ele entristeceu-se por alguns instantes ao lembrar-se de como, anos atrás, Saga foi capaz de cegá-lo. — E mesmo assim, sempre recuperamos a nossa visão. — voltou a compostura habitual. — Como Mestre Shion costumava nos dizer: Tolo não é aquele que não enxergar, é aquele que se recusa a enxergar.

¬ Não estou entendendo...

Definitivamente, para o menor, Shaka falava um idioma desconhecido, porém, o indiano era paciente e como tal, faria uso de toda sua paciência para explanar as dúvidas do jovem. Shaka sentou-se, sem soltar a mão de Shun, obrigando-o a se sentar frente a frente.

¬ Shun. — pegou sua outra mão. — Preste atenção no que lhe direi. — exigiu. — Você é a alma mais pura deste século. Você é o futuro Cavaleiro de Virgem. — afirmou convicto. — Mas você sabe me dizer o porque?

¬ Iie... — Shun, por outro lado, parecia bem confuso.

¬ Como eu disse antes, todos os Cavaleiros de Virgem tem o dom de ponderar. — volveu. — Nós somos capazes de julgar. Sabemos diferenciar momentos de necessidade de momentos de futilidade. Sabemos diferenciar o mentiroso do verdadeiro. Sabemos diferenciar o certo do errado. Sabemos diferenciar a paz da guerra. Portanto somos quem melhor reage as intemperes da vida, sabendo o momento de nos mantermos em paz e o momento de nos transformar em verdadeiras maquinas de combate, ou seja, sabemos quando nosso poder é necessário e de que forma ele é necessário. — explicou resumidamente.

A cabeça do menor doía, era muita informação por hora. O que o maior queria? Eles estavam prestes a entrar em um campo de batalha. A mente de Shun estava muito longe do que se pode definir como “afiada” naquele momento.

¬ Hãn?! — foi tudo o que conseguiu.

Shaka suspirou desanimado. De fato, o que ele queria e esperava? O único que refletia sobre a vida antes de uma batalha era ele, mas tudo bem, Shun aprenderia isso em breve.

¬ Você está bem burrinho hoje, não? — brincou, soltando um risinho. — O que eu quero dizer é: — voltou com a postura seria depois do sorriso sem graça do mais novo. — Não se sinta mal pelo que pode vir a acontecer, guerras são assim, mas é nelas que demonstramos nossa verdadeira força e nosso verdadeiro coração. — ele apertou as mãos de Shun, que achou necessário devolver o aperto. — O que está acontecendo com você é uma espécie de teste, sua alma está impondo-lhe escolhas, cuja as quais, você deve fazer uso de seu dom de ponderar e saber escolher o certo. Ou seja, se for preciso matar e não houver outra alternativa, você deve matar. Se algo deve ser sacrificado e não houver outra alternativa, sacrifique. Se pelo bem maior você deve fazer o que é errado, faça. — Shaka sentia que o japonês estava em choque com as afirmações, não era para menos, o indiano estava exigindo que ele fosse contra tudo o que defendia. — Eu também não gosto dessa linha de raciocínio, também não gosto de nada disso, mas muitas vezes, esse tipo de escolha tem de ser tomado. Então, peço-lhe que escolha com cuidado e que escolha o certo. — justificou-se, soltando a mão direita do menor e tocando sua testa com o dedo indicador. — Você, Shun, é o próximo Cavaleiro de Virgem, meu pupilo, a quem passarei todo o meu conhecimento e saber, mas tenho apenas mais um pedido a lhe fazer.

¬ Q-qual? — a essa altura do campeonato, Shun estava apavorado com as próximas palavras de Shaka.

¬ Nunca deixe de sorrir. — o indiano falou em um fôlego só. — É mais fácil obter a paz desejada com um sorriso do que à ponta de uma espada. — novamente, um aperto nas mãos. — Prometa-me que jamais deixará de sorrir.

Shun estava com a expressão mais impagável desse mundo. Se o indiano estivesse de olhos abertos, certamente teria caído na gargalhada.

Shun precisava de tempo para pensar. Primeiro ele dizia que se tivesse que fazer algo que não gostasse, fizesse, mas fizesse direito para não ter que fazer de novo. Depois dizia que aquelas eram escolhas difíceis, mas que muitas vezes tinham de ser tomadas. Agora dizia que com um sorriso ele podia evitar toda e qualquer desgraça? Vontade de rir não lhe faltou. Céus!! Shaka andou usando alguma substancia ilícita e ninguém ficou sabendo?! Por Atena!! Onde estava a cabeça daquele homem?!

Foi então que se lembrou do que o mais velho disse a poucos instantes. Os Cavaleiros de Virgem, estavam presos a duas vertentes, a um mundo de luz e um de trevas. Se olhasse por esse ponto de vista, era possível entender o que Shaka queria dizer.

Shun passou algum tempo pesando nas palavras do mais velho. O escuro em seu peito se desmanchava aos poucos e logo seu caminho começou a se iluminar. Ele lutaria sem hesitar.

¬ Prometo. — respondeu com a mesma convicção do mais velho.

Shaka sorriu com a resposta e, para sua surpresa/susto, ele abriu os olhos, revelando um par de safiras brilhantes. Ele sorria orgulhoso, o que assustava um pouco o menor, que não estava acostumado a ver aquele lado do mais velho. Shaka se ajoelhou e se aproximou de Shun, estalando um beijo em sua testa e voltando a posição original fezendo alguns “sinais” na frente do rosto do rapaz.

¬ Que Buda guie teus passos nesta batalha e o proteja de todo o mal, seja ele interior ou exterior. — recitou.

Shun e Shaka se levantaram e se cumprimentaram. Eles lutariam sem hesitar.

Jamiel – 00:00

Anna sentia seus braços queimarem. Desde que amarrara aquelas faixas em seus braços, ela os sentia queimarem, mas agora aquela dor de queimadura estava quase insuportável.

A dor era tanta que ela nem percebeu como e quando saio da torre, só sabia que tinha saído. Deu alguns passos a frente, como se fosse receber alguém, a noite estava muito escura, não dava para ver nem um palmo na frente do nariz, e estava cruelmente fria, ela só usava uma camisa e uma calça, mesmo assim, o frio não lhe atingia de forma alguma, a queimação em seus braços era pior. Somente quando a dor se tornou quase insuportável, ela caio de joelho e não gritou, muito pelo contrario, se controlou, principalmente agora que estava frente a frente com seus convidados.

¬ Até quando vão ficar na penumbra? — rosnou de dor. — Saiam logo! Não vem que estão me matando?

¬ Então foi você quem nos chamou aqui? — uma voz profunda, milenar ela diria, reboou pelo ambiente.

¬ Foi ela sim, meu senhor. — agora era uma voz submissa de mulher.

¬ O que você quer menina? — exigiu outra voz de homem, igualmente profunda, porém mais envolvente. — Não sabe que estamos tentando enterrar nosso passado? Porque chamou por aqueles que dormem?

¬ Fale por você. — volveu de forma mal educada a primeira voz.

Uma pequena discussão se iniciou, mas ninguém dentro da torre sabia e nem deveria saber que a menina estava ali fora, nem mesmo Kiki que parecia um membro da Guarda Suíça de tão atento que era as coisas ao redor. Os braços dela doíam e aquela discussão tola estava dando dor de cabeça, sua mente estava explodindo com o tanto de coisas que vinham.

¬ Calem a boca! — a exigência calou todos os presentes, não por respeito, mas por indignação.

¬ Como ousa? — a voz de mulher soou irritada. — Tem ideia com quem est...

¬ Eu sei com quem estou falado! Agora cala boca e me escuta! — a dor já era tanta que ela se esforçava em não chorar, mas isso não impediria a menina de encontrar as almas de seus espectadores e encará-las com intensidade, pode parecer loucura, mas ela realmente estava vendo a alma deles. — Eu quero falar com vocês e se preciso, eu quero propor um acordo.

Notas finais
E vocês realmente acham que eu ia perder a oportunidade de puxar saco do meu signo? Nem morta ;p Espero que tenham gostado :) Bjs. L :3