Fênix da Noite Estrelada
33 Entre Deuses e Mortais - Parte II
Notas iniciais
Não importava quantos olhos estivessem voltados para o céu noturno, ninguém conseguia ver os F-18 e os C-130J-30, também conhecidos como “Super Hércules”. O mesmo valia para o mar, já que todos os navios estavam camuflados, aproximando-se vagarosamente de seus alvos. Todos rumavam para o mesmo local, Rússia.
Grupo Enides – C-130J-30(Dragonborn), Espaço Aéreo Russo, 01:11
A porta do Super Hércules se abria vagarosamente, a luz do Sol inundava o compartimento e o horizonte até onde a vista alcançava. Mesmo tendo a visão parcialmente impedida pelo óculos de salto, o astro lhe era totalmente visível e ainda mais belo que o normal. Valia a pena passar por toda a dor de cabeça que era voar em um Super Hércules só para ver uma coisa daquelas. Aliais, não gostava daqueles aviões. Sentia-se preso, isolado e incapaz. Sentimentos que odiava acima de tudo. Porém, isso logo não seria mais problema.
A queda era vertiginosa, as nuvens se desfaziam com a sua passagem. Olhava para os lados, sempre a procura de seus companheiros e sempre os avistava, assim como alguns caças F-18, que os seguiam bem de perto.
Assim que cruzou a nuvem que dividia céu e terra, dia e noite, o mundo a sua volta se transformou. O mesmo sol que banhou seu rosto e lhe deu uma mínima esperança, agora tinha sumido, o mundo se tingiu de negro e cinza, a escuridão e o frio engoliram-no.
“20.000 pés!”
“18.000 pés!”
Era tudo o que ouvia pelo comunicador.
Sentia a chuva cair sem piedade. Sua passagem pelas nuvens tornou-se preocupante, pois via os raios se formando, passando por ele e, muitas vezes, explodindo a alguns metros de si. A ideia de ser atingido por um era apavorante.
Não via muito. Sua visão estava embaçada pelos tons de cinza e a chuva torrente, mau via seus companheiros e não via mais nenhum caça, mas sabia que eram seguidos, conseguia sentir a presença dos pilotos.
Com alguma dificuldade, já conseguia enxergar o topo dos arranha-céus e algumas poucas luzes. Moscou estava logo ali.
“5.000 PÉS!!”
Os paraquedas se abriram. O efeito chicote machucou um pouco, foi quase impossível não gemer de dor, já fazia um bom tempo desde que saltara pela última vez. A queda deixou de ser vertiginosa, porém, não menos preocupante.
Os raios continuavam a explodir a sua volta. O último raio atingiu o paraquedas de um companheiro acima, o tecido se incendiou e sua reação foi espontânea. Antes que o rapaz entrasse em desespero, ele estendeu a mão para o alto, a chuva tornou-se gelo e começou a extinguir o fogo que mal pode surgir, mas que ainda sim conseguiu avariar o paraquedas. O rapaz voltou a cair e pode jurar que sua vida acabaria naquele momento, mas sentiu um punho envolver seu braço com firmeza, impedindo-o de ir ao encontro da morte. Os olhos de um azul gélido expressavam preocupação.
¬ Você está bem? — o rapaz confirmou.
¬ Pode me soltar, Capitão Yukida. — disse através do comunicador. — Ainda tenho o paraquedas reserva.
O mais velho acenou, soltando o rapaz e vendo-o abrir o reserva pouco depois. Teria que ficar esperto para algo do gênero não acontecer com mais ninguém, além do risco de morte, ainda havia a chance de serem descobertos.
Ouviu o comunicador chiar, alguém queria falar com ele.
¬ Relaxe, Hyoga. — ouviu a voz do geminiano mais novo pelo comunicador. — Sei que se preocupa com os soldados, mas deve ter um pouco de fé neles.
¬ Eu tenho fé, Kanon. — respondeu. — Mas... Eles são só meninos, não merecem isso. Não merecem todo esse sofrimento. Não merecem ter que lutar tanto, sem ter certeza de que estarão vivos para ver o amanhã. — sua voz soava nostálgica e triste.
¬ Você também era um menino quando foi obrigado a lutar, Alexei. — mais outro chiado deu a conversa como terminada.
Moscou era uma cidade muito bela, tanto a noite, quanto de dia, mas a guerra tomou-lhe a beleza, transformando-a numa visão lúgubre e aflitiva. A chuva que agora caia, não ajudava em nada essa visão.
Os paraquedas foram abandonados e agora eles corriam pelas ruas, tinham de cercar a cidade e depois começar um ataque massivo. O primeiro soldado inimigo a tombar, caio pelas mãos do aquariano.
O soldado estava de costas, Hyoga se aproximou velozmente, torceu-lhe o braço e chutou suas pernas para que caísse. Ainda segurando o braço do soldado, ergueu levemente o corpo do homem e pisou com força em sua cabeça, quebrando-lhe o pescoço e fazendo o som dos ossos se partindo ecoarem pela rua vazia. Tudo isso em questão de 6 segundos.
A todo momento, todos os dias, sacos negros com corpos de homens e mulheres eram mandados para suas famílias, ou, no pior dos casos, para cemitérios públicos e improvisados, onde seriam enterrados em covas rasas sem identificação, sem jamais retornar para o lugar que chamou de lar. Hyoga tinha total consciência disso quando cerrou os olhos do soldado que acabara de matar.
¬ Requiescat in pace. — desejou.
Aos poucos, os arredores da cidade foram sendo tomados, um por um, os soldados foram sendo abatidos. Sim, abatidos. Não existe palavra melhor para o que estavam fazendo, em compensação, existiam muitas palavras piores para descrever. Daquela vez não havia espaço e nem tempo para quem se rendesse. Eles deviam matar. Aquela guerra tinha que acabar e infelizmente acabaria com sangue. Muito sangue.
“Tudo limpo!”
“Tudo limpo!”
Ouvia as respostas pelo comunicador. O tempo de agir era agora e todos esperavam suas ordens de todos os lados da cidade. Só uma ordem era o que bastava para dar inicio ao caos. Dar inicio ao suposto final da guerra.
O aquariano olhou para o céu, só vendo nuvens negras e sentindo a chuva cair impiedosa. Podia não ver, mas sentia os caças e seus respectivos pilotos acima de sua cabeça. Estavam todos ali, apenas aguardando sua confirmação.
¬ Olha... — mais uma vez ele ouviu um chiado e mais uma vez Kanon pronunciou-se. — Eu tô de saco cheio dessa guerra, assim como você. Então, vamos acabar logo com isso.
¬ Você parece muito animado. — volveu com um tom vazio.
¬ Eu?! — a risada do mais velho o pegou de surpresa. – Não, meu caro. Eu só não quero mais ser chamado de herói.
¬ Como assim? — indagou.
¬ Se matarmos uma pessoa, somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis. — explicou. — Um grande pensador chamado Charles Chaplin foi quem disse isso, e essa deve ser uma das verdades mais cruéis do universo. — argumentos não existiam. — Eu não quero ser chamado de herói por ser um assassino.
Deu um logo suspiro e tocou o microfone do comunicador, trocando o canal de comunicação para o dos pilotos de caça.
¬ Seiya. — chamou. — Faça as “honras”.
A ação foi imediata e o tempo precioso começou a transcorrer devagar. Com um último suspiro, o aquariano abandonou sua racionalidade e embrenhou-se na batalha como um animal faminto que procurava o alimento.
Os tiros foram ouvidos por toda cidade de uma hora para outra. Gritos e sons ensurdecedores passaram a ecoar pelas ruas. Os caças agora cortavam os céus e chuva, disparando com precisão mortal. A batalha era mordaz, deixando muitas chagas e feridas para trás, assim como vários mortos. A noite se tornou dia com as bombas que caiam como a chuva e explodiam, fazendo milhares de destroços voarem para todos os lados.
Isso era o que via e ouvia quando olhava para fora do cockpit. O sagitariano estava centrado em sua função de abater inimigos no solo e derrubar aviões ainda em decolagem – o que não era nem de longe uma das melhores funções –, era uma das poucas vezes em sua vida que não faria piadinhas, mas nada o impedia de olhar a seu redor.
Morte e destruição. Era tudo o que via e sentia.
Acabara de abater outro avião. O assistiu cair, assistiu o cockpit se abrir, mas o piloto não podia sair, estava preso, e o assistiu se tornar uma enorme bola de fogo, que o cegou por algum tempo. Outra vida inocente que foi perdida.
Aquela era sua função, seu dever. Alguém tinha que fazer. Porém, toda vez que via os joelhos de algum soldado se dobrarem de forma lenta e dolorosa, assim como via as poças de sangue tingindo o calçamento de vermelho e os corpos se amontoando nas ruas, lembrava-se de maneira condoída dos ensinamentos de Marin. Lembrava-se com vivacidade de tudo o que ela lhe ensinou sobre o amor e justiça de Atena.
Amor. Justiça. Onde estavam? Fugiram? Esconderam-se? Sumiram? Céus! O que estavam fazendo? Em nome de Atena! O que estavam fazendo?
Seiya sempre foi alegre, nunca deixou-se abalar por nada, podia se comportar como um idiota na maioria das vezes, mas aquela era a primeira vez em todos os anos passados de guerra em que sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto ao olhar para fora.
¬ Perdoai-nos. — sussurrou entre lágrimas. — Perdoai-nos.
Aquele pedido não era para um deus ou qualquer outra entidade sobrenatural que regia aquele mundo. Era para todos que tiveram suas vidas roubadas e tomadas pela guerra entre deuses e mortais, pela guerra de uma deusa invejosa e egoísta.
Grupo Éris – 1567km Sul de Verkoiansk, Rússia, 01:16
A lua permanecia soberana no céu cor cobalto ante uma horda de estrelas submissas. Sua luz caia sobre a praça central de uma pequenina cidade do interior russo, com suas pequenas e abarrotadas lojas, agora escuras e silenciosas, se aglomerando a sua volta e tornando o ambiente mais sombrio do que realmente deveria ser. Sua luz também banhava uma silhueta vestida de negro que estava de pé no telhado da pequena igreja que havia na cidade – um homem de porte vigoroso, alto e orgulhoso, que refletia obstinação e, ao mesmo tempo, dor pelo olhar.
Depois de inspecionar atentamente a região abaixo, escolheu seu alvo, ou melhor, avistou seu alvo, um simples soldado inimigo que tremia com o frio que fazia aquela noite, e sorriu ladino. Assim que o soldado se aproximou da igreja, sentiu-se ir de encontro ao chão e a escuridão o tomar. Foi fácil derrubar aquele soldado, ainda mais fácil levá-lo a inconsciência e ainda tirou a sorte grande dele estar usando uma mascara para se proteger do clima, assim como um longo e grosso casaco de frio.
Arrastando o soldado para dentro da construção religiosa, tirou-lhe o casaco, mascara e o fuzil, trancou-o no confessionário, que estava relativamente quente, e saio de lá perfeitamente vestido como um soldado inimigo. Voltou a escalar a pequena igreja, dessa vez, ficando no topo de seu campanário.
Mirou a praça com atenção por mais alguns minutos, levou uma das mãos aos lábios e soltou um assobio baixo e penetrante. Em resposta, sob o seu olhar, primeiro um, depois três, então uma dúzia e por fim vinte homens, todos vestindo roupas inimigas semelhante as dele, alguns com mascaras, outros não, todos com fuzis e armas de seu próprio batalhão, emergiram das ruas escuras e das arcadas em direção à praça.
¬ Acabei de receber a confirmação que todos os grupos estão prontos. — ouviu a voz do libriano que pilotava um dos caças muito acima de sua cabeça através do comunicador. — Só falta você confirmar para que o caos se instale por todo o território russo.
O homem olhou para baixo, para os rostos ansiosos que o miravam, pálidos ao luar. Saltou e aterrissou agachado e em segurança no meio do grupo. Com expectativa, reuniram-se ao seu redor. Levantou-se e encarou cada um dos presentes.
¬ Todos sabem o que fazer? — questionou.
Recebeu sorrisos e acenos em resposta. Tocou seu comunicador com um sorriso discreto e que tentava transmitir alguma confiança.
¬ Dohko. — chamou. — Eu alguma vez te decepcionei? — ouviu uma risada longa e grossa do outro lado.
¬ Quer em ordem cronológica ou alfabética, Fênix?! — seu tom era brincalhão.
¬ Oe, jiji! — reclamou. — Eu ainda tenho salvação sabia? Mas até lá, vai anunciar que podemos começar.
¬ Você é uma figura interessante, Ikki. — comentou. — Pena que é forçado a fazer essas coisas.
O grupo se espalhou, todos foram na direção do mesmo acampamento militar que ficava próximo a pequena cidade, mas por lados diferentes. Entraram sem problemas no acampamento, chegaram a ser cumprimentados por alguns guardas, no centro do acampamento de frente para a fogueira, todos foram chamados a atenção. Somente o leonino entendia o que lhes era dito, estavam brigando com eles por terem saído de seus postos sem seus turnos terem acabado e é claro que eles, especialmente o moreno, não estavam gostando nem um pouco, já era um pé no saco quando algum superior seu – lê-se Camus de Aquário – lhe chamava a atenção, um superior inimigo e servo de Afrodite então...
O leonino não tinha paciência para ficar escutando, ignorando por completo o seu interlocutor, rumou até a fogueira mais próxima, pegando um galho em chamas e voltando ao mesmo lugar. Quando lhe fora questionado o porque da “tocha”, um sorriso tristonho, como de quem pede desculpas, enfeitou seu rosto por debaixo da mascara tão igual ao dos demais. Ikki simplesmente atirou a “tocha” para trás, acertando uma tenda, esta, por sua vez, se incendiou rapidamente e antes que os demais terminassem de processar o ocorrido, ele abriu fogo contra tudo e todos, sendo seguidos por seus homens.
Foi o que bastou para o caos se instalar e ele nem tinha gastado o pente inteiro. Quase não fez nada, seu estrago foi grande ao ponto dele poder até mesmo sentar e admirar o tumulto que causara, e ele só não o fez por saber que acabaria levando um tiro.
Em questão de minutos, o acampamento não passava de um amontoado de corpos, feridos e cinzas. Por um momento houve dúvida em suas ações, não era certo deixar tantos homens a mera sorte, mas a guerra ainda estava longe de acabar, não podia fazer nada por eles. Antes que essas dúvidas voltassem, saio correndo em direção ao norte.
Enquanto seus companheiros não chegavam, foi com dor no peito que ele se sentou e assistiu o fogo se alastrar, os caças terminarem o serviço que ele deu início e os inocentes serem obrigados a fugir. A visão já era de fazer qualquer um se sentir perturbado, o som e o cheiro então nem se fala. Aos poucos, seus companheiros, a maioria deles pelo menos, começaram a chegar no ponto de encontro.
¬ Capitão Amamiya. — chamou um dos soldados. — Nós realmente precisamos deixá-los? — ele olhava para trás, vendo as chamas se alastrarem e consumindo tudo em seu caminho, incluindo os feridos.
¬ Não conseguiríamos tirar todos de lá a tempo, seriamos consumidos pelas chamas também. Infelizmente, teremos que deixá-los nas mãos do destino. — respondeu distante, com as chamas refletindo em seu olhar.
Ikki suspirou e com um último olhar para as labaredas vibrantes que criou, um último olhar para o monstro devorador de homens que gerou, deu as costas e começou a correr para a próxima área, que também já devia estar um verdadeiro caos.
Por mais que o plano estivesse dando certo, os poucos soldados inimigos que conseguiram se manter em meio ao ataque surpresa, conseguiram se reunir e agora, tentavam a tudo custo manter suas posições, ao mesmo tempo em que tentavam retomar o terreno perdido. Algo difícil quando não se sabe em quem atirar e ainda ter que se preocupar com os caças acima de suas cabeças, nem seus helicópteros os salvavam. Isso quando não tinham que sair correndo como loucos das ferozes chamas do Cavaleiro de Fênix.
Era o seu dever como soldado, nunca como Cavaleiro de Atena, fazer o que fazia. Mas nem de longe ele estava gostando de matar inocentes por culpa de uma deusa mimada e egoísta, e dessa vez ele não estava culpando Atena.
Dohko de Libra também não gostava em nada do que era obrigado a fazer, era o mesmo que jogar tudo o que aprendeu e tudo o que ensinou pela janela, mas tinha que fazer. Ele nem mais atirava, deixava que os outros o fizessem, apenas observava de longe e em poucos momentos reagia.
¬ Mestre Dohko. — chamou-lhe pelo comunicador. — O Mestre Shion quer saber se o senhor está bem. Seu cosmo está muito irregular.
¬ Eu estou ótimo, Mu. — respondeu. — Eu só estou sentindo compaixão.
¬ Compaixão?
¬ Do grego antigo “sofrer”. — explicou. — Eu tenho compaixão por você. Eu sofro por você.
¬ Você sofre por eles, Mestre Dohko? — seu tom era levemente curioso.
¬ Mais do que me lembro já ter sofrido por alguém.
O olhar do libriano logo foi atraído para uma imensa massa de fogo com a forma de uma ave. Ikki pelo jeito estava fazendo um senhor estrago.
¬ Sabe... — comentou. — Certa vez me disseram que se o mundo acabasse, ele acabaria em fogo ou gelo. Hoje vejo que se ele de fato acabar, acabará mergulhado na irá dos deuses e na ignorância dos homens.
Grupo Galena – U.S.S. Messenger, Mar de Kara, 01:35
¬ FOGO INIMIGO!! FOGO INIMIGO!!
Antes que a artilharia os atingisse, os disparos ensurdecedores dos canhões conseguiram interceptar os projeteis no ar, gerando explosões gigantescas.
Todos corriam de um lado para o outro nos navios, gritando e obedecendo ordens, atirando e recarregando, calibrando e mirando. Marinheiros usavam as metralhadores presentes no passadiço para atirar em botes na água e nos navios inimigos, os canhões disparavam contra o fogo inimigo tentando se defender, os radares travavam seus alvos antes de dispararem cargas mortais, os botes eram lançados ao mar para combater outros botes e invadir navios ou avariá-los, ordens eram dadas e seguidas por todo o navio.
Era uma batalha naval violenta, em dados momentos lembrava as batalhas navais da antiguidade, onde trirremes se chocavam uns contra os outros no intuito de despedaçar a embarcação inimiga e homens invadiam as naus para lutar cara a cara.
Os navios Encouraçados davam o seu melhor, projetados para serem verdadeiros sacos de pancada, e mesmo sendo considerados dinossauros, eram navios de grande porte que aguentava tudo ao mesmo nível em que destruíam. Também tinha os Contratorpedeiros, projetados para serem velozes e mortais no ataque, eram como o famoso Exterminador do Futuro, feitos para detonar com tudo. Os Porta-aviões não ficavam muito atrás não, podiam não ter o mesmo poder de fogo dos demais navios, mas conseguia se defender com maestria e seus caças faziam boa parte do trabalho. Já os Submarinos eram o top de linha, ninguém podia contra um, mas quando achado era destruído imediatamente. Maquinas mortais e antiquadas que tiveram suas origens nas épicas batalhas navais, mas que cumpriam seus papéis com eficiência até os dias atuais.
¬ Fomos atingidos! — em segundos a onde de choque foi sentida, fazendo muitos se desequilibrarem. — Temos um rombo no casco, Senhor! — afirmou um dos homens.
Alguns navios estavam afundando, dava para ver a água adentrando-os pelas falhas no casco, mas nem por isso deixaram de lutar, muitos outros tinham rombos em seus cascos e não paravam de combater por nada, agora seu navio era um deles.
¬ O timoneiro estava no convés por ordens minhas... — olhou para o homem caído ao seu lado. — Assuma o leme! — ordenou.
¬ Sim, Senhor. — respondeu em tom de quem já estava acostumado a uma vida daquelas, em outra situação, este homem poderia estar até rindo.
¬ Fogo rápido e continuo! — exigiu dos demais.
Os canhões dispararam sem clemencia em seus alvos, dava para sentir o convés do navio tremer toda vez que as cápsulas de um dos gigantescos projeteis era expelida da arma e ia de encontro ao chão. Uma, duas, três e assim sucessivamente.
Navios explodiam ao seu redor quando atingidos em pontos cruciais da embarcação, desde um canhão – que podia gerar uma explosão ainda maior que a original – até a casa de máquinas – o coração do navio. Via amigos e inimigos indo pelos ares em imensas bolas de fogo que lançavam destroços e corpos para todos os lados, para sumir logo em seguida em questão de segundos, as vezes minutos, deixando como único rastro uma massa negra de gases que logo se dissipavam.
¬ Atacar! — ordenou com mais intensidades ao ver mais um navio sumir nas águas. — Força total!
Seu navio deixava um rastro de ondas revoltas enquanto avançava para o alcance do inimigo mais próximo.
¬ Preparar armas! — foi para de junto do timoneiro. — Vamos derrubá-los! Não podemos deixar que continuem a nos massacrar!
¬ Senhor! — chamaram-lhe um marinheiro. — Há homens na água! — gritou-lhe ainda com os binóculos sobre o rosto. — São os homens do U.S.S. Entreprise!
Ele correu até o homem no passadiço e tomou-lhe os binóculos apenas para confirmar a visão, pelo menos cem homens estavam a deriva.
¬ Todo leme a boreste! — gritou.
¬ Todo leme a boreste. — confirmou o outro.
Ele voltou-se para o marinho mais próximo e que tinha acabado de chegar.
¬ Tire aqueles homens da água. — seu tom não dava espaço para segundas opções.
¬ Sim, Senhor! — mal entrou e já estava saindo.
Os homens que subiram ao convés estavam, em sua grande maioria, muito feridos e não poderiam voltara a combater tão cedo, porém os que ainda tinha fôlego saíram correndo atrás de si a procura de seus novos postos e ordens.
¬ Procuramos o Comandante Shiryu ou o Subcomandante Isaak. Onde eles estão no momento? — eram o que sempre perguntavam.
¬ Estão na ponte. — e sempre recebiam a mesma resposta.
Todos já tinha suas respectivas funções quando outro impacto menor fora sentido por todo o navio. O aquariano, que estava no leme, pareceu pouco se incomodar, afinal aquela era uma batalha naval, a terra de ninguém era o mar, o lugar que um dia chamou de lar. Por outro lado, o libriano já estava começando a ficar irritado.
Quando travaram o primeiro navio inimigo no radar, sua ordem foi única e pode ser ouvida com vivacidade por toda a embarcação.
¬ ABRIR FOGO!!!
Todas as armas disponíveis no contratorpedeiro que comandava foram disparadas ao mesmo tempo. Em pouquíssimo tempo, o navio inimigo tinha se transformado numa gigantesca bola de fogo e agora eles navegavam através de seus destroços até o próximo alvo, liderando toda a frota.
Os ombros do libriano estavam tensos, seus olhos serrados e a respiração pesada. Odiava o mar. Odiava tirar vidas inocentes. E agora, além de estar tirando vidas inocentes, estava dando-as de presente ao mar. Tinha ódio e tristeza em seu coração. Como chegou a aquele ponto?
¬ Shiryu. — chamou-lhe o aquariano. — A culpa disso não é sua.
¬ Vai me dizer que eu não posso culpar o mar? — indagou com desdém.
¬ Não. — volveu. — O culpado aqui é da deusa Afrodite. O mar é apenas o campo de batalha. — ditou. — O mar tira, mas também devolve. O mar recebe, mas também dá. O mar vai saber retribuir todo o mal gerado por essa maldita deusa. — por um instante, o libriano podia jurar ter visto uma lágrima.
¬ Espero que o mar escute as suas palavras.
O mar tira e recebe, devolve e dá. O mar é valente e sabe pagar aqueles que o fizeram pecar.
Grupo Gaya – Fronteira Russa, Ucrânia, 01:40
Aquela visão o deixava absurdamente mal e ele nem sabia dizer de que forma, já que eram de todas as formas possíveis. Mesmo estando dentro de um helicóptero, com destino a retaguarda inimiga, a metros e metros do chão, tudo parecia absurdamente próximo.
Lembrava em muito a guerra de trincheiras. Ambos os lados combatiam a distancia, a chuva implacável transformava o campo num verdadeiro pântano tamanho o lamaçal, nenhum soldado era louco o bastante para cruzar a Terra de Ninguém, e os poucos loucos que o faziam eram obrigados a correr em zigue-zague para fugir do fogo(amigo e inimigo) e ainda tinha que se preocupar com a artilharia(amiga e inimiga).
O cheiro forte de morte impregnava tudo e todos, era impossível de livrar daquele cheiro. O único lugar que conheceu e que tinha um cheiro semelhante era o Inferno. Era degradante, sentia ânsia.
Eles estavam matando quem nunca viram, quem nunca lhes fez nada e era capaz que morressem por nada. Por nada estavam derramando sangue. Em favor de que? De que? Ele nem mais lembrava, tinha certeza que quando aquela guerra acabasse ele seria um dos muitos homens que teriam que fazer tratamento para traumas decorrentes da guerra. Na verdade, ele lembrava muito bem a razão, mas se negava a acreditar que estava fazendo tudo aquilo por amor e justiça. Céus!! Aquilo era uma guerra!! Como poderiam estar salvando pessoas se ao mesmo passo eles matavam milhares?!
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto juvenil. E as famílias daqueles homens? E as famílias desesperadas que aguardavam o retorno de seus filhos com lágrimas sofridas escorrendo por seus rostos tristes? Como viver com o peso de tantas vidas destruídas? Como o peito doía só de imaginar...
Balançou a cabeça como que para se livrar de um feitiço, respirou fundo e tentou se acalmar, tinha que lembrar das palavras do virginiano mais velho. Pondere. Enxergue. Escolha.
¬ CAPITÃO AMAMIYA!! — chamaram-lhe por cima do som das hélices. — TEM CERTEZA?!
¬ EU TENHO QUE ABRIR CAMINHO!! — respondeu. — QUANTO MAIS RÁPIDO TOMARMOS ESSA PARTE DA FRONTEIRA, MAIS CEDO A GUERRA ACABA!! — com dificuldade pode ouvir o riso do piloto.
¬ O SENHOR É MUITO OTIMISTA!!
¬ A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE!! — volveu. — AQUI É O MEU PONTO!!
¬ AINDA ESTAMOS NA LINHA DE FRENTE!!
¬ SEGUNDO O MEU IRMÃO... — sorriu de costas para a porta aberta. — LUGAR PERFEITO PARA SE INICIAR UMA BAGUNÇA!!
O piloto não teve tempo de responder, o virginiano já estava em queda livre. Ao tocar o solo sentiu-se dolorido, tinha que admitir.
Seus olhos brilhavam num tom de verde que lembrava em muito o bronze envelhecido. Mesmo não sendo algo de que gostasse, ele atacava sem dó nem clemencia, eram muitos e não podia haver tréguas. As correntes não paravam um minuto se quer, estavam sempre defendendo-o e revidando com violência.
Ele corria pelo campo de batalha inimigo, não podia se dar ao luxo de parar, tinha que fazer o maior estrago possível naquele projeto em andamento de Inferno. Não queria matar, não iria matar, se recusava a fazer tal coisa. Ele lutaria, mas não mataria. Porém, a pressão sobre ele estava aumentando, mais e mais soldados vinham para cima dele, não podia com tantos de uma vez, eram muitos para lidar sozinho.
Mesmo sendo um dos mais fortes Cavaleiros de Bronze, mesmo que outros afirmassem que ele era muito mais forte do que aparentava ser, ele foi tombando aos poucos. Eram muitos que o atacavam e de várias formas distintas, não dava para negar que eram criativos. Eles estavam colocando-o de joelhos, eram muitos tiros e explosões. Aquilo estava exigindo demais de seu ser e sabia que o estado em que se encontrava era culpa sua.
Quando atacava, ele não matava, ele apenas jogava os soldados para longe. Os mesmos soldados que o atavam impiedosamente agora, eram, em sua maioria, os mesmo que ele tinha jogado longe e conseguiram se levantar atrás de vingança ou seguindo ordens.
Ele não queria matar. Ele ponderou muito sobre isso, enxergou todas as possibilidades e decidiu assumir os riscos de não matar o inimigo. Mas em compensação, todos os presentes queriam sua cabeça numa estaca. Ele tinha que admitir, sua situação estava complicada, na melhor das hipóteses ele aguentaria por 2 horas.
A artilharia, ou seja, as baterias de canhões ficavam na retaguarda – cerca de 10km atrás das linhas de frente – e disparavam pouco antes da ofensiva das tropas, isso quando uma bomba não caia sobre a própria tropa já que a sincronia não era o que se pode chamar de perfeita. Podia ser algo ultrapassado o uso de canhões, mas enquanto as linhas de frente não fossem quebradas, os tanques ficariam atrás dos canhões esperando sua vez.
O homem responsável pelo abrir e cessar fogo fazia o seu melhor, porém, isso estava começando a ficar difícil, pois a visão de Shun ajoelhado e com dificuldades para se defender não saia de sua mente.
¬ Tenente! — chamou. — Pegue um rifle carregado e cinco pentes!
O rapaz estava ajudando a carregar um dos canhões, assim que ouviu ser chamado, terminou sua tarefa o mais rápido que podia e foi correndo na direção do virginiano com o que lhe fora pedido. Bateu continência, enquanto o homem a sua frente gritava “fogo” e mais uma bateria de disparos ecoava pelo campo de batalha e além.
¬ Coronel! — estendeu-lhe a arma e os pentes de bala.
O homem de penetrantes olhos azuis, que por alguma razão os deixava fechados quase o tempo todo, virou-se para o rapaz e negou o que lhe era estendido com uma careta.
¬ A arma é pra você. — explicou. — Soube que é um excelente atirador. Por isso quero que me proteja.
¬ Mas Senhor, eu... — ele não tinha ideia do que dizer. — Eu... — ele pousou a mão no ombro do rapaz.
¬ Você agora é o responsável pelo abrir e cessar fogo. — ditou firme. — E. Não. Erre.
Antes que o rapaz pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, o indiano já estava correndo pela terra de ninguém no intuito de socorrer o jovem japonês.
Ficava alternando entre uma corrida e o uso da velocidade da luz, tinha que chegar o quanto antes. Muitos tentaram impedir seu progresso, mas de nada foram úteis, foram derrubados e ficaram inconscientes, isso quando o rapaz que fora encarregado de protegê-lo não abatia um de seus atacantes.
Chegou ao destino fazendo uso de golpes simples, sempre procurando acertar os joelhos de todos os atacantes na intenção de quebrar o osso, teria acabado mais rápido se não tivesse que se preocupar com os tiros, afinal ele ainda era um homem. Era nessas horas que a Barreira de Cristal do amigo ariano fazia falta.
Quando metade dos inimigos já tinham ido ao chão gritando de dor pelos ossos partidos e esmigalhados, o mais velho abandonou a tática de atingir as pernas e partiu para ataques corpo a corpo mais eficientes, com sua velocidade superior, foi fácil derrubar o restante deles, estes estando armados ou não. Olhou ao seu redor, muitos estavam imóveis tamanha a dor, outros tinham desmaiado devido a mesma dor, outros mal se mexiam e alguns estavam mortos. Ele não tinha coração, era o que alguns pensavam, mas ninguém tinha ideia do quanto ele se afetava com tudo aquilo. Desde menino ele sentia a dor do mundo, a dor daqueles homens, ele só aprendeu a aguentá-las.
Voltou seu olhar para o menor, que ainda estava tentando se apoiar sobre os joelhos, enquanto suas correntes giravam velozmente ao seu redor, tentando protegê-lo a todo custo, e atacando como podiam. Aproximou-se devagar, sabia o quão perigosas podiam ser aquelas correntes, conseguiu ficar frente a frente com o rapaz sem ser atacado, ou melhor, sem ser atingido, porém, assim que ergueu a mão para tocá-lo, ele tinha se descuidado e a corrente o acertou na parte detrás da cabeça. A corrente tinha feito um corte feio. Sentiu o sangue escorrer e manchar o cabelo.
Quando a corrente voltou a atacar, ele conseguiu pegá-la e agora a segurava com força para não correr mais nenhum risco. A corrente continuou a defender o pequeno, enquanto arranhava sua armadura, tentando se soltar. Teve um dado momento que a corrente cortou-lhe a mão, não esperava por aquilo, e gemer de dor foi uma reação natural.
Seu gemido tinha atraído a atenção do menor, que até então estava de cabeça baixa e olhos fechados.
¬ Shaka?! — sua surpresa chegava a ser palpável.
O mais novo logo tratou de recolher as correntes, que mesmo agitadas o obedeceram. Olhando a sua volta percebeu o estrago do loiro e ainda percebeu outro detalhe.
¬ Céus!! — exclamou alarmado. — Shaka, o seu cabelo!! A sua cabeça!!
¬ Não se preocupe com isso agora. — tentou acalmá-lo. — Eu vim te ajudar.
¬ Doshite?! — perguntou levemente indignado.
¬ Ora, vamos! — ele pareceu levemente irritado. — Jamais deixarei um companheiro sozinho na batalha! E não venha reclamar, você está de joelhos, Shun! Seu irmão arrancaria meu fígado se algo acontecesse com você e eu passaria pela vida me sentindo culpado por não ter feito nada, por ter sido covarde! E uma coisa que eu nunca vou aceitar é ser chamado de covarde!
O pequeno abaixou a cabeça envergonhado, aquele era seu dever, sabotar as defesas inimigas e tinha falhado miseravelmente, fato confirmado por ter precisado da ajuda do mais velho. Este por sua vez estava irritado com ele, só que não por ter “falhado” e sim por ele ter achado ruim do mais velho estar ali o ajudando.
¬ Eu sou fraco... — abaixou ainda mais o rosto.
¬ Ei! — ergueu o rosto do mais novo. — Você não é fraco. Você ponderou e escolheu. Escolheu lutar sem matar, mas por um acaso conseguiu ver o estrago que fez?!
Shaka o forçou a se levantar e o arrastou para o local em que ele caio do helicóptero, onde encontraram um estrago ainda maior ao do virginiano mais velho. Vários soldados inconscientes, armas e defesas destruídas, nenhum morto, apenas alguns poucos feridos e muitos soldados que decidiram simplesmente sair correndo. Conforme andavam de volta, a visão se repetia, Shun definitivamente tinha feito mais que o maior.
¬ Consegue sentir? — o mais velho tinha parado de andar e tinha o rosto virado na direção das linhas inimigas mais afastadas. — Estão batendo em retirada. — isso explica porque ninguém os impediu de ficar andando. — Devemos segui-los e capturá-los de acordo com o plano. Nossos soldados já estão até vindo. — ele nem se quer olhou quando apontou por cima do ombro e nem precisava, os urros eram bem audíveis. — O que você escolheu?
O menor levou algum tempo para entender o que o mais velho tinha perguntado, já que ainda estava tentando processar os fatos a sua volta.
¬ Hãn? — foi tudo o que pode verbalizar.
¬ O que você ponderou e escolheu? — perguntou pacientemente.
Shun voltou a correr o olhar pelo lugar, vendo a diferença entre o que ele fez e o que o mais velho tinha feito quando foi ajudá-lo. Shaka matou pessoas sem pensar duas vezes para chegar até ali e tinha feito um grande estrago, mas ele não matou ninguém e tinha conseguido um pouco mais.
¬ Eu... — hesitou. — Eu escolhi não matar.
Quando voltou a encarar o mais velho levou um pequeno susto, Shaka sorria de canto. Viu-o tocar o comunicador e chamar pelos soldados, que perguntaram quais eram as ordens, ao que o indiano respondeu:
¬ Na cabeça é perfeito, mas no joelho funciona do mesmo jeito.
Aquela frase tinha tirado um pequeno sorriso do Amamiya mais novo. O mais velho tinha acolhido sua escolha de braços abertos.
Jamiel – 01:42
Anna estava de cabeça baixa, já tinha ousado até demais e tinha certeza de que se abusasse mais um pouquinho, sua cabeça não ficaria mais grudada ao pescoço por muito tempo. Seus braços voltaram queimar e lágrimas teimosas queriam escorrer por seu rosto infantil, mas ela jamais as permitiria.
¬ Não gostei de você, menina. — comentou a voz milenar. — Você me lê como se eu fosse um livro aberto.
Anna desvendou seus convidados em uma hora, coisa que nenhum outro conseguiu em séculos. Não que eles não gostasse da menina, até gostaram do jeito dela, só não gostavam era da habilidade dela de encontrar e revelar até as coisas mais bem guardadas. Só conheceram uma pessoa que fosse assim, mas ela morreu muito tempo atrás, mas ao conhecer aquela menina, ideias diferentes começaram a brotar em suas mentes.
¬ O que, na cultura em que nasci, é um sinal de pureza. — respondeu com um mínimo sorriso e um mínimo ar de submissão.
Eles ficaram em silencio por algum tempo, Anna realmente os tinha pego desprevenidos, nem mesmo aqueles seres que se diziam oniscientes, onipotentes e onipresentes, foram capazes de prever o que a menina desejava, tanto que sua proposta causou espanto e verdadeira duvida nos presentes. Era loucura! E o pior, Anna estava disposta a levar aquilo até o fim. Demorou para conseguir convencê-los de que aquela ideia podia dar certo.
¬ Aceitarei sua proposta. — respondeu após o longo período de silencio. — Mas a advirto de que pode trazer consequências graves. Sem contar que irá dever favores.
A pequena libriana ergueu a cabeça, cravando um olhar assustadoramente profundo em seus convidados. O olhar da menina foi capaz de deixá-los desconfortáveis, fazia muito tempo que tinham visto um olhar tão carregado de sentimentos quanto o de Anna. O olhar era um misto de coragem, determinação, astúcia, inteligência, calculo, frieza e, um sentimento totalmente destoante, carinho.
¬ Eu não me importo. — ditou firme. — Guerras são Guerras. E eu só quero que essa acabe.
Catedral de São Basílio, QG Vênus Maxima, Rússia, 01:43
Aquela não era uma situação normal. Não esperavam por aquilo e, por mais que tivesse uma boa ideia do que fazer, tinham de consultar sua soberana antes de fazer ou pensar qualquer coisa.
¬ MINHA SENHORA! — era madrugada, tinha que gritar se quisesse sua atenção. — MINHA SENHORA!
Não tinha por habito o fazer, mas adentrou o suntuoso cômodo sem pedir permissão alguma. Encontrou sua senhora muito bem desperta, vestida com sua armadura e acariciando uma das muitas pombas brancas que possuía – seus maiores símbolos.
¬ Para que tanta pressa, Mars? — indagou despreocupada.
Ele curvou-se com a respiração entrecortada. Podia ser uma situação inusitada, porém, aquela ainda era sua senhora e devia-lhe obediência, assim como respeito. Acalmou-se para falar.
¬ Minha Senhora. — prosseguiu com cautela. — Estamos sendo atacados.
¬ E... — ela parecia muito mais interessada na pomba.
¬ Suas ordens, minha Senhora. — pediu.
A deusa jogou a cabeça para trás, numa longa e melodiosa risada, que ecoou por todos os lados catedral. Sabia que o homem atrás de si estava longe de ser tolo, mesmo assim, ele lhe devia uma quantia tão grande e intensa dos mais variados sentimentos, que estava apenas aguardando o próximo passo de sua senhora.
Ela olhou por cima do ombro com um sorriso que era capaz de tirar o rumo de qualquer homem. Colocou-se a caminhar na direção do mesmo, seu andar era lânguido, a postura altiva e charmosa, para quem estava acostumado a sua presença, esse comportamento era perfeitamente normal, mas ai do mero mortal que a olhasse sem achar que não se renderia a sua beleza. Abaixou-se, de forma a ficar da altura do Flecha.
¬ Ora... — ergueu-lhe o olhar com o indicador. — Deixem de ser bonzinhos.
Um sorriso delineou os lábios da homem.
¬ Com todo prazer, minha Senhora.
A guerra só estava começando...
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