A atmosfera na garagem da Vortex GP na manhã seguinte era uma mistura bizarra de curiosidade, constrangimento dos mecânicos e uma tensão sufocante.

Quando Kevin Magnussen e Nico Hülkenberg cruzaram a porta do box vestindo os macacões cinza e preto improvisados — ainda sem os patrocínios pessoais bordados — o paddock inteiro da Fórmula 1 parou para olhar. Ter dois dos veteranos mais respeitados e cascas-grossas do grid na equipe caçula era uma jogada que ninguém esperava.

Marco Santoro os aguardava de braços cruzados no centro da garagem, ostentando um sorriso vitorioso.

— Bem-vindos à Vortex GP, senhores — disse Marco, em tom professoral, apontando para as telas de telemetria. VT-01B é um projeto arrojado. Nós reestruturamos o fluxo de ar para compensar as perdas impostas pela FIA. Ele exige precisão milimétrica e agressividade controlada. O simulador indica que é o melhor chassi que esta equipe já construiu.

Nico Hülkenberg, ajustando as luvas com uma calma irritante, apenas olhou de canto de olho para o monitor de dados e deu uma risada irônica de canto de boca:

— Simulador de F1 é lindo, Marco. Mas até hoje eu nunca vi um computador ter que fazer a Curva 10 com a pista a 45 graus e o vento de cauda.

Kevin Magnussen nem esperou o discurso terminar. Colocou o balaclava, ajeitou o capacete e caminhou direto para o carro #20. Antes de entrar no cockpit, olhou para Eduardo, que acompanhava tudo em silêncio ao fundo:

— Eduardo, se esse carro for meio segundo mais lento que a Haas do ano passado, eu nem ligo. Só preciso que a traseira não tente me matar na frenagem.

— Descubra você mesmo, Kevin, respondeu Eduardo, engolindo em seco.

As luzes verdes do pit lane acenderam para a sessão de testes privados. Kevin saiu primeiro, seguido por Nico poucas voltas depois.

No box, Marco Santoro mantinha a cabeça erguida, esperando que os dois veteranos cravassem tempos de volta dominantes para provar sua tese de que o problema eram os jovens brasileiros.

Mas a física da pista não perdoa arrogância.

Nas primeiras três voltas voadoras, a imagem da câmera onboard do carro de Hülkenberg mostrava o alemão lutando desesperadamente com o volante. Ao entrar na Curva 4, a traseira do VT-01B desgastou de forma violenta. Hülkenberg precisou de todo o seu reflexo de 180 GPs na F1 para dar uma chicoteada no volante e evitar que o carro rodasse no asfalto.

Pelo rádio, a voz de Magnussen veio primeiro, sem nenhum filtro:

— Jesus Cristo! O que é isso?! O carro tá sambando! Toda vez que eu toco na zebra, a pressão aerodinâmica traseira simplesmente DESAPARECE!

Logo em seguida, a voz de Hülkenberg entrou na frequência da equipe, fria, mas cortante como uma lâmina:

— Box, box, box. Parem o carro. Essa porcaria tá inguiável.

Os dois carros recolheram para a garagem simultaneamente. O barulho dos motores V6 silenciou, deixando apenas o som dos ventiladores de resfriamento e um silêncio constrangedor no box.

Hülkenberg soltou o cinto de segurança, tirou o volante e saltou do cockpit com uma expressão de extrema irritação. Magnussen veio logo atrás, batendo as luvas na carenagem.

Marco Santoro tentou dar um passo à frente, segurando a prancheta:

— Calma, pessoal. Os dados mostram que vocês entraram muito rápido no Setor 2, se vocês ajustarem o ângulo de entrada...

— Cala a boca, Marco! —,esbravejou Magnussen, apontando o dedo na cara do projetista. — Eu tenho quase 120 corridas nas costas nessa categoria. Eu sei quando um carro tá sem pressão aerodinâmica e sei quando um projeto é uma aberração! A traseira tá flutuando porque o seu difusor novo cria uma bolha de ar sujo nas rodas traseiras!

Hülkenberg se aproximou de Eduardo, ignorando a existência de Marco, e falou em tom sério:

— Eduardo, os seus dois garotos tinham razão.

O silêncio na garagem pesou. Eduardo arregalou os olhos.

— O piloto novo pode não ter vocabulário técnico, mas ele sente o carro, continuou Hülkenberg, cruzando os braços e encarando Santoro — Você destruiu a única coisa boa que esse chassi tinha, que era a estabilidade traseira. O motor Renault já é fraco, e agora o carro é perigoso nas curvas. Se a gente alinhar esse carro desse jeito no GP do Bahrein, nós vamos passar vergonha e arriscar um acidente grave.

Eduardo ficou totalmente pálido. Ele olhava para as telas de telemetria tentando achar um engano, mas os gráficos de fluxo de ar mostravam exatamente o que Magnussen e Hülkenberg haviam acabado de descrever no braço.

Eduardo olhou para Marco, depois para as vagas vazias onde Gustavo e Rafael costumavam sentar, sentindo um soco no estômago. O orgulho de um engenheiro arrogante tinha feito a Vortex GP demitir dois pilotos talentosos e leais por causa de um erro de cálculo que ele se recusava a admitir.

Sem tempo hábil para redesenhar a traseira antes da luz verde do GP do Bahrein, não havia milagre possível: o final de semana teria que ser na base do improviso e do braço.

Eduardo chamou Marco, Nico e Kevin para uma conversa de emergência atrás dos tapumes da garagem. A arrogância de Marco havia desmoronado, substituída por um suor frio no rosto. O projetista sabia que sua reputação no paddock estava por um fio.

— Não dá pra fabricar peças novas em 48 horas — disse Eduardo, a voz carregada de uma frieza que Marco nunca tinha visto nele. — O que a gente faz agora, Marco?

Marco ajeitou a postura, puxando o colarinho da camisa, olhando para os dois veteranos com desprezo enquanto eles o encaravam com mais desprezo ainda.

— A gente vai ter que recuar a asa traseira no limite do regulamento e subir a altura do solo — ordenou Marco, frio, calculista — Vai piorar ainda mais a nossa velocidade de reta, mas deve dar um pouco mais de sustentação nas curvas rápidas. É um paliativo.

Kevin deu um riso sarcástico.

— Ou seja, vamos ser os mais lentos na reta E os mais lentos na curva. Genial.

Vendo a tempestade perfeita se desenhar e temendo ser demitido ou processado por quebra de contrato, Marco deu um passo à frente e apelou para a única coisa que poderia salvar sua pele com Eduardo e os investidores:

— Eu assumo a responsabilidade! — disparou Marco, erguendo as mãos.— Eduardo, ouça. Eu tenho contatos com fornecedores de fibra de carbono na Itália e acesso a um túnel de vento independente. Eu vou arcar do meu próprio bolso com os custos de produção do novo pacote de atualização para o GP da Espanha. Cada centavo de refazer esse assoalho e o difusor vem da minha empresa de consultoria. Só me dê esse final de semana para mitigar o dano.

Eduardo encarou o italiano por longos segundos. A proposta era tentadora para uma equipe estrangulada financeiramente, mas o gosto amargo na boca não passava.

— Você vai pagar até o último parafuso, Marco — cravou Eduardo. — Mas neste final de semana no Bahrein, você vai sentar no computador e ouvir cada palavra que o Nico e o Kevin disserem pelo rádio sem dar um único piado.

Marco assentiu a contragosto. Se tinha algo que ele odiava era ter que ouvir sugestões de quem ele considerava abaixo de si.

A classificação no sábado sob os refletores de Sakhir foi um martírio anunciado. Com o carro configurado para "modo de sobrevivência" — mais alto e com uma carga aerodinâmica improvisada —, o VT-01B era uma tartaruga nas retas.

21º Lugar: Nico Hülkenberg (+3.1s)

22º Lugar: Kevin Magnussen (+3.4s)

Na corrida de domingo, o que se viu foi uma aula de pilotagem defensiva dos dois veteranos. Hülkenberg e Magnussen usaram toda a experiência acumulada em anos de F1 para manter o carro na pista. Eles não atacavam as zebras, freavam metros antes do habitual e poupavam os pneus traseiros que derretiam a cada saída de curva.

— Esse carro parece um barco a vela em dia de tempestade — ironizou Magnussen pelo rádio na volta 20, enquanto segurava um pelotão desesperado atrás de si na raça.

— Mantenha a posição, Kevin. A Haas atrás de você tá sem freio — avisou o engenheiro.

Enquanto as equipes de ponta travavam suas batalhas no topo, Nico e Kevin travavam uma guerra particular contra a própria máquina. Sem cometer um único erro e aproveitando três abandonos por quebra de motor de equipes rivais, os dois cruzaram a linha de chegada em um melancólico, porém heroico, 17º e 18º lugares.

Após a corrida, enquanto os mecânicos desmontavam os carros exaustos, Hülkenberg se aproximou de Eduardo no lounge da equipe. O alemão pegou uma garrafa d'água e olhou para o chefe de equipe com sinceridade:

— Fazer 57 voltas naquele carro foi o maior treino físico da minha vida, Eduardo. Mas eu e o Kevin conseguimos trazer as duas máquinas inteiras para a garagem.

— Obrigado pelo trabalho, Nico. Vocês foram gigantes hoje — respondeu Eduardo, sinceramente grato.

— A gente faz o nosso trabalho — Nico deu um tapinha no ombro de Eduardo e fez uma pausa, olhando nos olhos do brasileiro. — Mas me diz uma coisa... como aqueles dois garotos brasileiros conseguiram guiar essa aberração durante três dias inteiros de testes sem jogar o carro no muro?

Eduardo travou. A pergunta entrou como uma faca em seu peito.

— Eles guiavam no coração, Nico. No coração e na raça.

Hülkenberg apenas assentiu em silêncio e caminhou para o motorhome, deixando Eduardo sozinho com o remorso.

Pela primeira vez na temporada, Marco Santoro estava no fundo do box, quieto, no telefone com a Itália encomendando os novos moldes de fibra de carbono. Mas para Eduardo, nem todo o dinheiro do mundo e nem o melhor pacote aerodinâmico da Europa apagariam o fato de que ele tinha traído a memória de Gilberto e a lealdade de Gustavo e Rafael.