A chegada do circo da Fórmula 1 ao Circuit de Barcelona-Catalunya marcava o prazo final dado a Marco Santoro. Caminhões do fornecedor italiano haviam chegado no meio da noite trazendo as novas caixas de fibra de carbono. O novo assoalho, o difusor remodelado e as entradas de ar reformuladas — tudo pago do bolso do próprio projetista — foram montados às pressas.

Marco andava pelo box como se estivesse prestes a apresentar uma obra de arte no Louvre.

— Este é o pacote que vai nos colocar no meio do grid — dizia ele, batendo no terno e ajustando os óculos enquanto encarava Eduardo. — Fluidez perfeita. Sem turbulência no eixo traseiro. O carro finalmente está à altura da minha engenharia.

Os Treinos na Espanha: A Máscara Cai de Novo

Quando Nico e Kevin foram para a pista no TL1 sob o sol da Catalunha, o cronômetro trouxe a resposta fria e matemática: o carro continuava uma tragédia.

O VT-01B reformulado era ligeiramente mais rápido em reta, mas o equilíbrio aerodinâmico continuava completamente arisco. A traseira soltava nas curvas de média velocidade e, para piorar, o novo assoalho agora fazia o carro quicar violentamente nas retas.

Hülkenberg recolheu para o box após apenas cinco voltas. Tirou o capacete com o rosto vermelho de raiva e jogou as luvas sobre o painel de telemetria.

— É a mesma porcaria, Marco! — disparou Nico, sem o menor filtro. — Você só mudou o problema de lugar! Agora o carro quica nas retas e continua sem tração nas saídas de curva! É um desastre!

Kevin saltou do cockpit logo em seguida, batendo a porta da garagem ao passar.

— Nós perdemos três semanas e milhares de euros para andar no mesmo lugar! Esse chassi é um nado sincronizado no seco!

O Desespero na Sala de Reunião

Com a equipe eliminada novamente no Q1 e os carros amargando as últimas posições do grid para o GP da Espanha, a reunião pós-classificação no motorhome da Vortex GP virou uma guerra declarada.

Eduardo estava de pé, com as mãos na cintura, encarando a tela dos tempos com os olhos vermelhos de cansaço.

— Três semanas, Marco — disse Eduardo, a voz falhando de desespero. — Você disse que o problema eram os garotos e que seu pacote novo resolveria tudo. Nós trouxemos dois dos pilotos mais experientes do grid. Onde está o meio do grid que você prometeu?!

Marco Santoro, em vez de baixar a cabeça ou admitir o erro de cálculo no túnel de vento, deu uma risada curta e debochada. Cruzou os braços e olhou para Nico e Kevin com um desprezo olímpico.

— O problema nunca foi o chassi, Eduardo — soltou Marco, com uma serenidade venenosa — O problema é que você gastou o orçamento da equipe para trazer dois pilotos em decadência.

O silêncio na sala foi instantâneo. Kevin deu um passo à frente, cerrando os punhos, mas Nico o segurou pelo braço.

— O Kevin foi chutado da Haas porque não conseguia entregar resultados sob pressão — continuou Marco, caminhando calmamente pela sala — E o Nico... por favor. O Nico tem o recorde histórico de mais corridas na Fórmula 1 sem nunca ter pisado num único pódio na carreira. Mais de 170 corridas e NENHUM pódio! Vocês trouxeram dois veteranos velhos, ultrapassados, que perderam o apetite e a coragem de pilotar um carro no limite!

Eduardo sentiu o chão sumir sob seus pés. O estômago deu um nó violento.

— Cala a boca, Marco... — murmurou Eduardo, em choque com o nível da canalhice.

— Eu não vou me calar! — bradou Marco, encarando Eduardo. — A minha engenharia é de nível de campeonato mundial. Se esses dois velhos não conseguem tirar tempo do carro, é porque o braço deles cansou. Eles vieram para a Vortex apenas para se aposentar colhendo um salário fácil!

Nico Hülkenberg deu um passo à frente. Não gritou, não avançou. Apenas encarou Marco com um olhar tão frio que fez o projetista dar meio passo para trás.

— Eu posso nunca ter subido no pódio, Marco... — disse Nico, a voz pausada e mortal — ...mas eu já pilotava carros de F1 a 350 km/h quando você ainda desenhava rascunhos no papel. Se esse carro fosse bom, até um piloto de testes faria tempo nele. Mas ele é uma lixeira com rodas. E a culpa é inteiramente do seu ego.

Nico olhou para Eduardo, e o olhar do alemão dizia tudo: a equipe estava completamente destruída por dentro.

Marco pegou sua pasta e caminhou em direção à saída, virando-se na porta com o último veneno:

— Boa sorte na corrida amanhã, Eduardo. Quando os seus dois 'campeões' terminarem em 21º e 22º de novo, não venha bater na porta da minha sala de engenharia.

Quando a porta bateu, Eduardo caiu sentado na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos. Ele tinha demitido Gustavo e Rafael — dois garotos que amavam a equipe e pilotavam com a alma — para entregar o destino da Vortex GP nas mãos de um sociopata arrogante que agora destruía a moral dos dois únicos veteranos dispostos a ajudar o time.

A Vortex GP não estava apenas sem ritmo na pista; estava sangrando por dentro.

O domingo do GP da Espanha transcorreu como um velório a 300 km/h.

No grid de largada, o clima no box da Vortex GP era insustentável. Marco Santoro passou o dia trancado na sala de telemetria, recusando-se a olhar na cara dos pilotos. Nico e Kevin alinharam nas duas últimas posições, cumpriram a corrida com um ritmo burocrático e arrastaram os carros até o fim, terminando em 20º e 21º lugar, a duas voltas do vencedor.

Quando a equipe retornou à sede em São Paulo para uma trégua de duas semanas antes do GP de Mônaco, Eduardo sabia que a Vortex GP não aguentaria mais um final de semana naquele estado.

A Decisão no Galpão Vazio

Na terça-feira à noite, sozinho na fábrica e encarando a foto de Gilberto pendurada na parede do escritório, Eduardo tomou a decisão que deveria ter tomado meses atrás. Ele pegou o telefone e ligou para o investidor principal do consórcio.

— Eduardo, já vimos o resultado em Barcelona, disse o executivo antes mesmo que Eduardo falasse — O Santoro nos enviou um relatório dizendo que o Hülkenberg e o Magnussen não estão entregando o prometido...

— O Santoro está demitido — cortou Eduardo, com uma firmeza que nem ele sabia que tinha.

Um silêncio pesado se fez na linha.

— Ficou louco, Eduardo? Ele pagou as últimas atualizações do próprio bolso! Se você demitir o projetista-chefe agora, os patrocinadores caem fora!

— Podem cair — sustentou Eduardo, com a voz calejada. — O carro do Santoro é uma fraude perigosa que quase fez dois veteranos baterem. Ele manipulou os dados, mentiu sobre o sim e destruiu o ambiente da equipe. A Vortex GP é minha responsabilidade. Se for para a gente falir e fechar as portas, vai ser fazendo as coisas do jeito certo, não ajoelhado para um arrogante.

Antes que o investidor pudesse protestar, Eduardo desligou.

Ele caminhou até a sala de engenharia, juntou todos os relatórios e pen drives de Marco Santoro em uma caixa, lacrou a porta e trocou a fechadura.

Na manhã seguinte, Eduardo pegou o carro e dirigiu até um pequeno kartódromo no interior de São Paulo. Ele sabia exatamente onde encontrar os dois garotos.

Ao encostar o carro perto da pista, viu Gustavo e Rafael de macacão, sentados no capô de um reboque, tomando água após uma bateria de treinos. Eles haviam voltado para a estaca zero, buscando patrocínio no automobilismo regional para tentar salvar o que restava de suas carreiras.

Ao verem Eduardo se aproximar, o clima gelou. Gustavo fechou o rosto imediatamente. Rafael apenas suspirou, balançando a cabeça.

— Vocês têm todo o direito de mandar eu ir embora — começou Eduardo, parando a alguns metros de distância, sem saber onde colocar as mãos. — Eu vim aqui como homem, olhar nos olhos de vocês e dizer que fui um covarde.

Gustavo se levantou do capô, cruzando os braços.

— Veio tripudiar, Eduardo? O Hülkenberg e o Magnussen já colocaram a equipe no pódio como o Santoro prometeu?

— O Santoro é um mentiroso — admitiu Eduardo, baixando a cabeça. — O carro novo é pior que o antigo. Ele jogou a culpa em vocês, jogou a culpa no Nico e no Kevin, e eu caí na lábia dele porque estava desesperado com o dinheiro dos investidores. Eu demiti ele hoje de manhã.

Rafael franziu a testa, surpreso com a revelação.

— Você demitiu o cara que pagava as peças?

— Demiti. E se a equipe fechar depois de Mônaco, pelo menos eu durmo de consciência limpa — Eduardo olhou nos olhos de cada um deles. — Eu não posso devolver o tempo que vocês perderam. Nem posso prometer que tenho um carro competitivo agora. Mas eu devia essa verdade a vocês. Vocês pilotavam com o coração e honravam a memória do Gilberto. Eu esqueci disso por um tempo. Me desculpem.

Gustavo e Rafael se olharam. A mágoa ainda estava ali, profunda e viva, mas a honestidade crua de Eduardo quebrou a barreira do ressentimento.

— E o que você vai fazer em Mônaco, senhor? —perguntou Rafael — Mônaco sem projetista e com um carro que quica nas retas é suicídio.

Eduardo deu um sorriso triste.

— O Nico e o Kevin disseram que vão correr Mônaco na raça. Vão voltar o carro para o acerto do ano passado, o 'tanque de guerra' do Gilberto. Lento, pesado, mas que não joga ninguém no muro. Depois disso... seja o que Deus quiser.

Gustavo deu um passo à frente, olhando para o chão por um segundo antes de encarar Eduardo.

— O 'tanque' não era o carro mais rápido — disse Gustavo. — Mas era o nosso carro. Diga pro Nico e pro Kevin tomarem cuidado na curva do Casino. A traseira dele ainda rabeia se eles pisarem na zebra molhada.

Eduardo assentiu, sentindo um nó na garganta.

— Eu vou avisar. Obrigado, garotos.

A reação de Marco Santoro quando a notícia da demissão chegou foi exatamente o escândalo que todos esperavam.

Ao tentar passar pela catraca do circuito de Monte Carlo na quinta-feira de treinos, o credenciamento do projetista apitou vermelho. Segurança informada, acesso negado. Quando percebeu que suas caixas de ferramentas já haviam sido despachadas para a Itália e que seu nome fora removido do sistema da FIA, Santoro surtou na entrada do paddock.

Ele aos gritos acusava Eduardo de "amadorismo latino" e prometia processar a equipe até o último centavo. Do lado de dentro do box, ouvindo a confusão ecoar pela ruela estreita de Mônaco, Kevin Magnussen apenas sorriu, pegou um copo de café e fez um aceno irônico pela janela para o italiano.

A Volta às Origens: O "Tanque" em Mônaco

Sem projetista-chefe, a equipe recorreu ao plano de emergência: desfaçar todas as atrocidades aerodinâmicas que Santoro havia feito e regredir o VT-01B exatamente para a configuração mecânica deixada por Gilberto no ano anterior.

O carro perdeu a pouca velocidade de reta que tinha, mas ganhou de volta aquilo que Mônaco exige mais do que qualquer outro circuito no mundo: previsibilidade e obediência.

Quando Nico Hülkenberg e Kevin Magnussen saíram para o Treino Livre nas ruelas do principado, o alívio pelo rádio foi imediato.

— Meu Deus, isso sim é um carro de corrida! — exclamou Magnussen, raspando o pneu no guard-rail da curva Sainte Devote com precisão milimétrica — Ele é pesado nas trocas de direção, mas a traseira tá presa no chão! Eu sei exatamente o que ele vai fazer!

— Box, avisem ao time que a instabilidade sumiu, reportou Hülkenberg, contornando a icônica Loews sem precisar dar um único tranco no volante. — O motor não anda nada na reta, mas a gente consegue atacar a pista sem medo de morrer a cada curva.

Nos boxes, os mecânicos voltaram a trabalhar com o sorriso no rosto. A alma da equipe, moldada na raça e na simplicidade do projeto original de Gilberto, parecia ter retornado ao box da Vortex GP.

Classificação no Limite do Guard-Rail

Em Mônaco, velocidade de ponta não vale quase nada; o que importa é a coragem do piloto de passar a milímetros do metal sem tirar o pé. E com dois veteranos cascas-grossas pilotando um "tanque" extremamente dócil e resistente, o milagre voltou a flertar com a equipe brasileira.

Na classificação de sábado, enquanto equipes com carros mais potentes e ariscos (como a Haas e a Williams) lutavam para não bater nas barreiras de proteção, Nico e Kevin desenhavam a pista como se fossem veteranos de rali.

A cada volta, os dois raspavam a carenagem nos muros de Mônaco, tirando tinta das lâminas de aço. O VT-01B aguentava os toques nos guard-rails sem quebrar a suspensão, exatamente como Gilberto havia projetado.

Quando a sessão do Q1 terminou, o box da Vortex explodiu em um grito contido de alívio:

13º Lugar: Nico Hülkenberg

15º Lugar: Kevin Magnussen

Eles não tinham o carro mais rápido do grid, mas tinham uma máquina em que podiam confiar cegamente nas ruas mais perigosas do planeta.

Domingo: Sobrevivendo em Monte Carlo

A corrida de domingo foi um exercício de paciência e sangue frio. Mônaco é um circuito onde ultrapassar é praticamente impossível, e Hülkenberg e Magnussen fizeram de seus carros duas barreiras intransponíveis.

Nico segurou um pelotão babando por ultrapassagens durante 78 voltas. Nas poucas vezes em que o pneu traseiro deslizou na curva do Casino — exatamente o ponto sobre o qual Gustavo e Rafael haviam alertado — a estabilidade do chassi antigo permitiu que Nico corrigisse no braço sem bater.

Ao final das 78 voltas angustiantes, sem cometer um único erro e aproveitando as batidas que naturalmente acontecem nas ruelas do principado, a Vortex GP cruzou a linha de chegada de cabeça erguida:

11º Lugar: Nico Hülkenberg (à porta dos pontos!)

12º Lugar: Kevin Magnussen

No parque fechado, Nico e Kevin saíram dos cockpits exaustos, mas sorridentes. Eles caminharam direto até Eduardo e o abraçaram.

— O carro do seu falecido amigo é um trator, Eduardo — disse Magnussen, dando um tapa forte no terno do chefe de equipe. — A gente não pontuou por um triz, mas hoje deu prazer de pilotar de novo.

— Nós temos uma base sólida para trabalhar agora - completou Hülkenberg, olhando para a garagem limpa, sem a presença tóxica de Santoro. — Sem surtos de grandeza. Só engenharia de verdade e pé no fundo.

Eduardo olhou para o bico do carro, onde a frase "Obrigado, Gilberto" continuava intacta sob a poeira de borracha de Mônaco. A equipe ainda estava quebrada financeiramente e precisava resolver a situação dos pilotos para o futuro, mas a dignidade da Vortex GP finalmente havia sido restaurada.

O gesto de Eduardo no kartódromo não apagou magicamente o trauma da demissão injusta, mas reacendeu algo que parecia morto nos dois garotos: o sentimento de pertencimento à história da Vortex GP.