Eyes

6 O encontro


Notas iniciais
Acho essa cena bonita, principalmente o diálogo. Peça importante no contexto da história. Boa leitura!

O silencio já durava mais do que o normal. Eu sabia que ela estava acordada e de olhos abertos, porque podia perceber o movimento de suas pálpebras ao piscar. Me deitei ao seu lado, esperando que alguma coisa viesse. Aime estava deitada de bruços, com as mãos unidas debaixo da bochecha. Seus cabelos claros cobriam parte de suas costas nuas, e o resto dos fios pendiam em mexas sobre seu rosto. Delicadamente, eu as afastei. O silencio ainda estava lá. Estava pronto para quebrá-lo, quando ela o fez:

—- Você me promete uma coisa?

—- Prometer uma coisa?

—- Uhum.

—- O que?

—- Prometa.

—- Eu não posso prometer se você...

—- Promete primeiro!

—- Eu cumpro as minhas promessas...

—- Tudo bem então, eu não vou dizer —- Ela cobriu totalmente o rosto, virando-o na direção do travesseiro. Suspirei.

—- Tudo bem. Eu prometo.

Seu rosto voltou a posição anterior num segundo. Um sorriso divertido e rápido surgiu em suas feições, mas logo a seriedade estava estampada em seu semblante como antes. Parecia um assunto sobre o qual ela já havia pensado muito.

—- Eu quero que você me queime. Eu não quero apodrecer num caixão quando eu morrer.

—- Ah... Quer dizer, cremar?

—- Uhum.

—- Não... Eu não acho uma boa ideia, ser cremado —- Minhas mãos deslizam por suas costas, e logo estão em seus cabelos, afagando-os.

Aime rola na cama, de modo que posso me aproximar mais. Coloco meu corpo sobre o dela, enquanto seus olhos continuam curiosos sobre minha figura. Eu amava e odiava isso. Quando ela tentava desvendar algo em mim, quando não havia nada para ser desvendado...

—- Por que?

—- Imagina se no futuro os cientistas descobrirem alguma forma de nos reconstruir através do nosso DNA.

—- Eu vou ser bem clara com você... —- Consigo sentir suas pernas contornarem meu corpo, a ponta de seus dedos segurando meu rosto, impedindo-me de avançar para um beijo. —- Eu não quero isso.

—- Eu me reconstruiria primeiro —- Comecei, com um sorriso pequeno enquanto avançava devagar. —- Depois te reconstruiria, então perguntaria: Você quer ficar viva? E se você dissesse não, então eu mataria você. E então me mataria.

Nós dois explodimos em uma gargalhada, enquanto ela finalmente permite que eu volte a beijá-la. Tomo um momento para o fôlego e para continuar com meu argumento:

—- Mas seria melhor se ficássemos juntos pra sempre, reconstituídos...

Ela está olhando para mim. No entanto, parece distante. Num lugar onde não consigo alcançá-la. Sinto um medo terrível de perder Aime de qualquer maneira. Sinto um arrepio estranho percorrer meu corpo da cabeça aos pés. Por que chegamos num assunto tão mórbido? Não quero falar sobre morte. Quero viver isso. Quero viver o meu amor por essa garota linda. Quero garantir que ela seja minha...

—- Você tem dificuldade em deixar ir —- Meus pensamentos são quebrados por sua voz doce e serena. Tenho certeza que meu medo está presente nas minhas feições. Porque ela sorri como se quisesse me confortar. Então continua: —- Não se preocupe. Nós vamos nos encontrar de novo.

Eu a beijo. Seguro seu rosto com as duas mãos. Adoto mais uma dose de silencio. Então pergunto:

—- Você quer casar comigo?

***

Mia estava faminta. Duas tigelas de morangos com quase nada de açúcar. Enquanto a observava comer, me peguei fascinado por aquela garota pelo que parecia ser a milésima vez. Não de um jeito sexual ou mesmo romântico. Eu apenas gostava dela, dos seus modos, de suas maneiras. Penso sobre o momento em que a encontrei deitada no jardim, a vontade que tive de beijá-la. Parece algo repulsivo pra mim agora, apesar de não negar que exista muita beleza na garota. No entanto, estou certo de que aquele desejo surgiu do ponto em que eu enxerguei nela a sombra de Aime. Diante de mim fazendo barulho com o talher na tigela de porcelana só existe uma garota magra e alta de dezesseis anos que pouco sabe sobre a vida.

Apesar de gostar de estar próximo à ela, tudo acaba amanhã. Mia vai voltar para o lugar que ela tinha como casa, e eu vou pegar um avião de volta à Nova Iorque, aos Estados Unidos, à Lucy e ao meu filho. E toda a história com Aime continuara presa onde sempre deveria ter estado, num passado longínquo de dezesseis anos atrás.

Por volta de uma hora da manhã naquela noite, meus olhos se abrem diretamente para a cama, onde só vejo uma montanha de lençóis esparramados.

—- Mia?

Levanto-me do sofá, percebendo que as portas de vidro da varanda estão abertas, e a cortina está dançando com o a brisa da noite. Ando depressa até lá, e encontro a garota na ponta dos pés sobre o parapeito — as mãos apoiadas no concreto, metade do corpo pendendo para a queda no abismo do outro lado. A princípio, congelo com um bombardeio de memórias que me atingem violentamente. Depois, mal percebo o quão rápido meus braços envolveram sua cintura e a puxaram para longe dali. A garota se assustou, soltando um grunhido aborrecido ao perceber o que acontecera.

—- Você quer morrer?! —- Meu tom não era alto, mas sem dúvidas era furioso.

—- Só estava olhando as estrelas! —- Protestou. O som de sua risada veio em seguida. —- Seria um bom jeito de morrer. Tentando tocar uma estrela.

Minha expressão está amarga, carrancuda. Eu consigo sentir tudo se fechar. Quero gritar com ela, mas nada além de um “Não faça mais isso” sai da minha boca. Ainda sinto toda a adrenalina, o medo e o gelo no estômago. Eu não podia perdê-la. Eu não podia perdê-la de novo...

—- Doutor Jake?

—- Jake.

—- Jake. Pode me soltar agora?

Afasto meus braços imediatamente. Mia se vira na minha direção, e coloca uma mexa do cabelo comprido atrás da orelha. Tomo notas em minha mente, confirmando que aquilo é uma de suas marcas registradas. Só não entendo a ocasião.

—- Eu só estava admirando...

Suspiro.

—- Tudo bem. Não consegue dormir?

—- Não.

—- Nós podemos ficar acordados e conversar, se você quiser.

—- Tudo bem pra mim.

Eu estava pensando em retornar ao quarto, mas Mia logo deixa seu corpo desabar em uma das cadeiras que se encontravam ali, diante de uma pequena mesa redonda de vidro. É impressionante como faz calor aqui, nessa época do ano, até mesmo de noite. Puxo a outra cadeira para mim, é uma boa ideia, afinal.

—- Então, você gosta das estrelas... —- Comento.

Mia encara suas mãos por um tempo, antes de colocar aqueles seus olhos nos meus. “Porque você roubou os olhos dela?” Eu queria ter coragem para perguntar. Aquela galáxia não pertencia à ela. Aquele brilho, aquela beleza absoluta e aquelas cores intensas não deveriam estar no rosto de Mia.

—- Meu pai costumava repetir algo para mim... —- Seus olhos se estreitam enquanto um sorriso se desenha abaixo em seus lábios. Mas os meus olhos ainda estão focados nos dela, incapazes de capturar perfeitamente qualquer outra coisa. —- Ele dizia: Se as pessoas passassem mais tempo olhando para as estrelas, elas viveriam suas vidas de forma diferente. Eu tento entender...

—- Seu pai era um homem sábio. Creio que ele se refere a grandeza das coisas. Do universo.

—- Como somos pequenos, diante de todas as outras criações de Deus —- Ela sorri empolgada para mim. —- Também penso que tenha algo haver com isso.

Há um novo brilho em seus olhos enquanto ela continua me encarando, esperando que eu diga algo. Decido ficar calado por alguns minutos, porém o suspiro pesado e cansado teima em sair pelos meus lábios. Ela é só uma garotinha, eu lembro a mim mesma. Uma criança. Exatamente como Aime parecia quando falava sobre essas coisas místicas estúpidas.

Notas finais
Me deixe saber se gostou s2