Eyes
7 Os meus átomos e os seus átomos
Notas iniciais
O tecido branco brincava com o vento enquanto uma Aime radiante e perfeita girava em frente as escadarias. Algumas poses para dezenas de fotos, então ela subiu pelas escadas frias finalmente e chegamos até nossa vez na fila do cartório. Ela havia colocado sua jaqueta com os spikes nos ombros, mas ainda assim continuava adorável e linda como uma noiva. Talvez não a noiva que eu imaginava que teria. Porém sem dúvidas a melhor que eu poderia ter.
Fornecemos nossas identidades e o homem nos diz que para dar entrada ao processo de casamento, teríamos de esperar 24 horas. Aime ficou imensamente desapontada. Ela disse ao homem do cartório que queria se casar e que tinha certeza de que eu era o homem. Mas o sistema era aquele e não podia ser mudado.
—- Nós já estamos casados no mundo espiritual —- Disse enquanto dava de ombros, quando andávamos por um dos corredores vazios do prédio.
Foi quando meu celular tocou. Era Lucy. Ela já havia me ligado cinco vezes e eu estava irritado com aquilo. Se havia ignorado as cinco vezes anteriores, por que ela continuava tentado? Quando atendi, porém, sua notícia me deixou empolgado — mais empolgado do que qualquer outra coisa poderia me deixar naquele dia. Ela havia encontrado uma espécime de minhoca propensa a desenvolver um olho, o que significava que poderíamos começar o processo do zero e finalmente dar início ao nosso grande experimento. Estava tão entusiasmado, que nem percebi o quanto Aime havia se afastado de mim quando desliguei. Corri até ela.
—- Quem era?
—- Lucy, a minha assistente. A minha parceira... —- Minhas mãos estavam tremendo. Eu estava cheio de adrenalina. —- Tenho que ir para o laboratório, agora! Quer vir comigo?
—- No dia do nosso casamento?! —- Aime exclamou aborrecida.
—- Tecnicamente, não é o dia do nosso casamento. E já estamos casados para sempre no mundo espiritual, não é?
Ela fez que sim. Sua expressão não era das melhores, ainda assim.
—- Aime, vamos comigo? É importante.
—- Claro —- Seus salto altos voltaram a fazer barulho nos pisos de mármore com velocidade.
—- Aime... Não... Não fica chateada... —- Puxei-a pelo braço. —- Vamos colocar as alianças! —- Precisei de algo para remediar a situação.
—- Eu não quero! Da má sorte!
—- Eu não acredito em sorte. Eu acredito que nós nos conhecemos desde sempre.
Lentamente, ela se virou para mim.
—- Você jura?
—- É... Quando o Big Bang aconteceu, todos os átomos no universo foram esmagados juntos em um pequeno ponto que explodiu. —- O pequeno objeto prateado com a pedra azul deslizou de dentro da caixinha. —- Então meus átomos e seus átomos estavam certamente juntos lá e, quem sabe, provavelmente estiveram juntos várias vezes nos últimos 13.700 milhões de anos. Então meus átomos conheceram os seus átomos e eles sempre se lembraram dos seus átomos... —- Puxei a mão delicada de Aime, e o anel lhe serviu perfeitamente no anelar. —- Meus átomos sempre amaram os seus átomos.
Sorri olhando para ela. Senti um calor no peito, percebendo sua emoção ao ouvir os meus votos. Ainda assim a minha parte cientista estava incomodada, querendo correr para o laboratório depressa. Aime avançou para me beijar. Mal consegui sentir seu gosto. Puxei-a pelo braço novamente, rumando apressado para a direção da saída.
***
—- Eu não acredito em Deus, Mia.
Pensei que ela fosse parecer surpresa. Isso não aconteceu. Ainda havia o brilho em seu semblante inteiro.
—- Bem, ele acredita em você.
Eu ri. De fato, ninguém jamais havia me dito algo daquele tipo. Por mais incrível que pudesse parecer, aquela era uma tirada nova.
—- Nós temos internet no centro comunitário —- Contou ela. —- Quando Erin me disse que você estava vindo me estudar, me senti importante. Não sei porquê —- Deu de ombros com um sorriso tímido, a mão se erguendo para colocar o cabelo atrás da orelha. “É isso, eu te desvendei”, penso. —- Encontrei um pedaço do seu livro e li alguns capítulos. Achei chato e não continuei...
Sinto vontade de rir com sua sinceridade. Porém, não quis atrapalhar seu discurso nem distraí-la. Apoiei a mão fechada no queixo e continuei olhando para ela enquanto prosseguia:
—- Você conseguiu provar que um olho pode ser construído em laboratório. E daí? Eu não sei muito sobre isso, mas acho que clones... Os clones já existem, não é mesmo? Eles clonam animais nos laboratórios...
Faço que sim com a cabeça.
—- O que eu quero dizer é... Nenhuma criação humana é capaz de se assemelhar a criação de Deus. Você pode construir olhos, pode construir pessoas... Mas você não pode construir almas.
Percebo que minha mão já está baixa, meu humor já não era mais o mesmo. Quanto mais Mia falava, mais afetado eu ficava. Era exatamente como Aime. Porém, agora, depois de tudo o que aconteceu, eu me sinto mais vulnerável. Mais frágil para essas palavras. Decerto já ouvi ataques de religiosos. Não sou mais um garoto de vinte e dois anos desconhecido. Sou um cientista de renome, responsável pelo feito citado por Mia. Ainda assim, a parede antes sólida do jovem estudante de biologia molecular havia se desgastado com o tempo. E agora eu podia senti-la ruindo. Imagino como seria se fosse Aime falando comigo agora. Imagino se daria mais valor a suas ideias ao invés de apenas considerar uma bobagem fantasiosa e idiota. Em alguns momentos de loucura, imagino que daria minha vida inteira e tudo que já construí, apenas para tê-la de volta.
—- Vamos mudar de assunto —- Sugiro.
—- Você é casado? —- Ela não espera muito tempo para rebater. —- Com aquela moça do computador...
Uma imagem fria e distante de Lucy se acende e logo se apaga. Lembro do dia em que estava chorando no chão do antigo apartamento de Aime. Rodeado por fantasmas e lembranças traiçoeiras que queriam acabar comigo. Lucy expressou sua preocupação. Disse que precisava de mim. Ela disse que precisava de mim. “Nós começamos algo grande, e preciso de você para terminarmos.” Essas foram as palavras dela. Olhei bem para ela e percebi que depois de Aime, era o melhor que eu poderia ter. Era o que eu deveria ter. Então a puxei e a beijei. O tempo todo, eu desejei que quando abrisse os olhos Aime estivesse nos meus braços ao invés de Lucy. Mas mesmo cego eu conseguia sentir que não era o gosto dela, o cheiro dela ou o calor dela.
—- Sim —- Finalmente respondo. —- E eu tenho um filho. Tem o mesmo nome que eu. Jacob.
—- Vi fotos de você e da sua família no seu website. Eu o vi. É um bebê lindo.
—- Obrigado. Ele é mesmo.
Essa era a vida que meus pais disseram que eu deveria ter. A vida que eu planejei. Uma bela mulher com as mesmas visões e ideias. Um filho lindo e saudável. Uma casa grande num bairro luxuoso. Por que, então, eu não conseguia ser cem por cento feliz? Por que havia esses momentos em que me sentia tão miserável? Eu convenci a mim mesmo de que aquilo era impossível. Ser feliz. Mas os momentos de felicidade dos quais eu me recordo estão sempre queimando nos lugares mais remotos do meu cérebro. Eu fui plenamente feliz uma vez. Com ela... Então os meus porquês sempre me trazem para a mesma conclusão.
—- Quando Erin me falou sobre você, eu senti algo. Ansiedade, medo... Mas coisas boas também. Me lembrei do meu pai. Dos meus sonhos. Alguém vindo de tão longe para me ver... Eu sempre quis viajar e conhecer o mundo, doutor Saunders. Pensei que não iria conseguir sequer falar com você. Mas você parece um amigo pra mim.
Estou admirado e assustado ao fim de seu discurso. Ela é linda. Ela é incrível. Mia merece sim ser dona desses olhos fantásticos agora.
Não consigo me concertar tão depressa. Não sei se conseguirei me concertar pelo resto da noite, na verdade. Não quero deixar essa garota pra trás. Percebo que só quero o melhor para ela. Fico repetindo o resultado na mente. 44%, inconclusivo. 44%, inconclusivo. Inconclusivo. Nada de especial. Os números não mentem. Estou deixando minhas emoções aflorarem demais. Deve ser este o motivo... O sentimento de conexão com essa garota. Isso, e mais a condição dela. De ser tão adorável e bonita. De me lembrar de coisas felizes também.
—- Você vai conseguir, Mia. Suas estrelas... Seus sonhos. Você vai conseguir todos eles nas suas mãos. Eu vejo isso quando olho para você.
Fico animado com o sinal de um sorriso genuíno e bonito que começa a surgir no rosto da jovem. Também fico feliz em perceber que eu estava sendo sincero naquilo que acabara de lhe dizer. Podia enxergar aquilo com total clareza.
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