Plínio

Sinto muito pelo que aconteceu com seus pais, deve estar sendo bem difícil pra você, eu posso dizer isso no sentido mais literal porque também já perdi alguém que eu amava, o meu pai. Mas você tá careca de saber disso.

Então vou te dizer uma coisa, não vou amenizar nada, você me conhece ,sou um cara realista: a dor vai embora, mas nunca a saudade, ela só tende a aumentar com o tempo. Mas o que importa é que uma a ferida sara e a gente pode seguir adiante, mesmo sem as pessoas especiais de nossa vida. Sinto sua falta pra cassete.

Seu amigo Franks

Era a cara do Franks, escrever carta em vez de telefonar, ou passar um e-mail. Não sei o que eu estava esperando de alguém que tinha ganho todos os concursos de redação que me lembrava. Só tinha que escrever carta mesmo. Dei um sorriso ao olhar o papel recebido há quase oito meses atrás e depois ergui os olhos pra paisagem fora da janela do ônibus.

Com toda a certeza que eu tinha em me chamar Plínio de Castro Médici, eu sabia que Francis daria um jeito de se enfiar no fusca do meu avô e iria me esperar na rodoviária.

Era bom mesmo que aparecesse, eu tinha muitas malas pra carregar. E muita saudade junto também.

A saudade que Franks disse que ia aumentar com o tempo, depois que a dor fosse embora. Na verdade ela ainda tinha um pequeno canto no meu coração, mas eu procurava esquecer dela ali, nas sombras, pra não reabrir a ferida que ainda cicatrizava.

Tinha acontecido há sete meses atrás.

Eu não quis ir junto até a festa de aniversário de um dos amigos do trabalho do meu pai, mas ele e mamãe foram, resmungando que um cara de dezesseis anos não podia só ficar trancado no quarto fazendo cálculo de Matemática, deixando a vida passar, mesmo que eles tivessem muito orgulho de ter um filho com notas dignas de alardear pra todos os conhecidos.

Eu tinha me limitado a rir e acenar enquanto meu pai dava partida no Citroën de cor cinza e deixava a garagem , com minha mãe gritando que não iam chegar tarde.

Só que eles nunca voltaram.

Porque a chuva era torrencial, deixou a pista molhada e escorregadia, e apesar de meu pai ser excelente motorista, isso não fez com que ele conseguisse desviar do outro carro que veio direto em cima do seu querido Citroën e que fez com ele e mamãe me deixassem acordado até quase a meia-noite, pois quando diziam que voltariam cedo, eles sempre voltavam. Estava a ponto da histeria porque nenhum dos celulares atendia. E fui levado direto pro hospital a base de calmante direto na veia quando a polícia apareceu na minha casa avisando que... bom, o que tinha acontecido. Quem foi me resgatar foi meu padrinho e melhor amigo do meu pai, Maurício. Digamos que ele só não precisou de uns calmantes também porque tinha que se manter forte pra me acalmar. Foi ele que cuidou de tudo : o velório, o enterro e tals. Eu simplesmente parecia estar preso no fundo de um lago muito profundo, me movendo muito lentamente, quase me arrastando. Eu não via nada, não sabia de nada e não sentia nada. Parecia que eu tinham morrido também. Nem sequer conseguia chorar.

A cada vez que meu celular tocava, a primeira coisa que pensava era “São eles! Voltaram pra dizer que tudo não passou de um mal entendido!”, mas nunca eram eles. Mesmo que eu passasse quase todo meu tempo livre na porta da casa do Maurício, ou espiando pra fora da janela desejando, querendo, implorando que eles voltassem, isso nunca aconteceu.

Estava sentado no degrau mais baixo da entrada da porta que dava pra garagem quando realmente pareci acordar. Foi a voz preocupada do padrinho no telefone, ali na sala, que me fez prestar atenção:

- Ele está bem fisicamente, mas César, o garoto não fala mais, faz tudo como se fosse um robô, estou com medo de que isso tenha afetado ele mais profundamente do que tinha pensando. O que você acha que devo fazer?

Olhei pra trás, na direção dele, que obviamente pensava que eu não estava dando a mínima, como vinha fazendo há quatro meses de convivência. Ele balançava a cabeça afirmativamente.

- Sim, sim, claro, vou falar com ele. Mas vou levá-lo ao psicólogo de qualquer maneira, ele precisa sair dessa!É difícil, eu sei, também não tenho mais meus pais, e se ele perdeu o pai, eu perdi praticamente um irmão e uma grande amiga, mas ele está vivo, e tem que agir como um.

Vivo. Eu estava vivo.

Eles não.

Perdidos, pra sempre.

Agarrei a borda fria do concreto do degrau onde estava sentado.

Vivo. Mortos.

Eles nunca voltariam pra casa.

Porque estavam mortos.

Vieram antes que eu pudesse contê-las. Amargas, transbordando quatro meses de luto negado. E também porque eu finalmente via a preocupação que estava dando a mais alguém que era importante pra mim,agindo como um morto-vivo.

Não era justo que eu continuasse assim. Era melhor aceitar os fatos, já que estavam ali, claros como água. Assim como minhas lágrimas. Que em vez de assustarem meu padrinho, fizeram ele murmurar enquanto me abraçava pelos ombros a apoiava o queixo no topo da minha cabeça:

- Graças a Deus... você precisava fazer isso...você reagiu...meu deus, obrigado...

- Des-s-s-s-sculpe...- pedi, mal conseguindo falar, pela força dos soluços, que vinham de forma tão arrasadora quanto as lágrimas.

- Não tem que pedir desculpas por nada Plínio...

- Eu tenho dado muit-t-t-to trabalho não tenho?

Ai meu Deus. Eu devia estar perecendo um bebezinho. Que constrangedor.

- Não, Plínio. Eu só estava preocupado, você não estava agindo...bem...normalmente. — Maurício me deu palmadinhas no ombro.

- Desculpe...mas...é q-q-q que...n-a-a-ão sei...parec-c-c-ia que nada disso estava acontecendo comigo...eu queria tanto que eles voltassem... — funguei dramaticamente – Mas isso não vai acontecer...

- Infelizmente não meu garoto... Mas você não está sozinho. Tem a mim e o seu avô. Que até propôs uma coisa, mas não sei se você vai topar...

Limpei os olhos na manga da blusa. Minha mãe teria um derrame cerebral se visse isso.

- O quê é?

- Bom, ele disse pra mim perguntar se você não quer, sabe, ficar lá com ele um tempo, voltar pra sua cidade natal, foi lá que você viveu até os doze anos afinal...

- Hum...E-Eu posso pensar nisso depois? — agora tudo que eu queria era me esconder no meu quarto. Devia estar parecendo meio louco. — Quero...preciso...

- Vá pro seu quarto, menino.- ele sorriu pra mim, de um jeito compreensivo.

- Obrigado... — levantei devagar – Por tudo que fez...

- Não agradeça Plínio. Só seja o de sempre.

Devolvi o sorriso.

- Prometo que vou fazer isso.

- Ótimo – ele deu um soco leve no meu ombro.

Depois desse dia não houve mais lago profundo e coisas de morto-vivo. Eu voltei a viver. Como meus pais iam querer que eu fizesse. Retomando meus contatos primeiramente.

Não tinha amigo algum em Curitiba, mesmo estando morando ali a quatro anos desde que meu pai tinha sido transferido no emprego, sabe como é emprego público. E minha mãe tinha se dado bem, sendo a advogada brilhante de sempre. Apesar de todo esse tempo, o máximo que eu tinha era um colega mais chegado, uma coisa bem superficial.

Meu melhor amigo, desde que éramos bebes tinha ficado em Serpentina, cidade onde nasci. Conversamos ao telefone muitas vezes ao longo do mês, assim como fiz com meu avô materno, César.

Ele queria muito ter seu neto perto dele, ainda mais agora que era só isso que lhe restava da filha e do genro que tanto gostava. Meu estômago deu um nó doloroso quando ouvi isso. Achei que poderia começar a chorar de novo. Só não o fiz porque Francis invadiu a ligação, na chamada em espera, pra me perguntar pela enésima vez se minhas malas já estavam prontas.

Mas não era bem assim, eu tinha meu padrinho. O meu segundo pai. Só que claro que Maurício não era bem o modelo de estabilidade, era DJ, e sabe, tinha deixado de ir trabalhar em vários lugares pra cuidar de mim. Não me esqueci desse detalhe. Foi isso mais que tudo, que influenciou na minha decisão.

- Você tem certeza, Plínio? — Maurício questionou, o olhar azul rutilando de preocupação.

- Absoluta – assenti com a cabeça, resoluto.

Ele não insistiu na pergunta, só deu um leve sorriso saudoso.

- Você tem a firmeza da sua mãe. Não vou insistir pra você ficar, embora eu queira. Como sua mãe, você já tomou a decisão, e muito bem refletida, como seu pai fazia. — ele espalhou meus cabelos. — Vou sentir saudade, a casa vai ficar vazia sem você menino.

- Você supera – eu ri, mordiscando um pedaço da maçã que tinha na mão.

Toda a preparação pra mudança levou mais dois meses, os das férias de verão. Meu avô tinha me matriculado na minha velha escola, o Coronel Abílio Schultz. Então eu estava chegando, um dia antes das aulas começarem. Maurício já tinha me ligado duas vezes, pra saber se eu estava bem e se a viagem não dera nenhum contratempo.

Então eu só esperava a uma hora restante, das quatro de viagem transcorrer, relendo minhas correspondências e os e-mails no meu leptop. Presente de aniversário de dezesseis anos do meu pai. Suspirei e passei a mão no meu cabelo, que o vento da janela revirava. O que não fazia diferença, visto que sempre tinha sido bagunçado. Não sou muito fã de escova de cabelo.

Espiei meu reflexo no vidro da janela. Todo mundo dizia que eu parecia com minha mãe. Os mesmos cabelos castanhos e os traços de rosto. Mas meu pai também estava ali. No meu emaranhado de cachos e no castanho claro dos meus olhos. Os dois eram parte de mim. Sorri com esse pensamento, era reconfortante, assim como as árvores que ladeavam a estrada pela qual eu tinha passado pela última vez pra ir embora rumo a capital.

O sol já estava se pondo, dando áurea dourada a tudo ao alcance de seus raios. Fechei a tampa do leptop e guardei na minha mochila de escola.

Escola.

Devia ter bastante novidade por lá depois de quatro anos fora. Mesmo que Serpentina não fosse nenhuma metrópole. Com trinta mil habitantes era meio difícil.

Peguei no sono antes que pudesse perceber, e só acordei quando senti uma rajada de vento particularmente fria demais bater no meu rosto. Já estava escuro lá fora, e apesar de ser verão mesmo assim o vento estava gelado. A placa de Bem – Vindo à Serpentina apareceu à frente no momento que puxei o vidro e fechei a janela.

Vi o rio brilhando abaixo da ponte por onde o ônibus passava. O reflexo da lua resplandecente batia contra a água,parecendo uma verdadeira pintura. Era incrível como o céu estava limpo, negro como veludo.

Aquela vista me deixou com uma sensação confortável.

Eu estava voltando pra minha verdadeira casa. Me mantive imóvel na poltrona, apenas olhando pra fora, sorrindo de um jeito meio bobo pra todos os cantos conhecidos, onde eu tinha passado os meus inicias doze anos de vida. Muita coisa tinha mudado, mas outras continuavam a mesma.

Como a Rodoviária de Serpentina. A mesma construção antiga, só com umas pequenas alterações e os ônibus mais modernos. Coloquei minha mochila nas costas e tirei do bagageiro o resto dos meus pertences. Duas malas de viagem cheias, muito cheias. E ainda tinha mais três dentro do bagageiro externo do busão. É um tremendo machismo achar que só mulher carrega um monte de malas.

Saí um pouco trôpego do veículo e abri meu maior sorriso. Podia sentir que talvez ele ultrapassasse os limites do meu rosto ao vislumbrar meu avô parado a pouca distância. Tive vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, ao retribuir meio precariamente o aceno animadíssimo do Francis. Que estava de óculos de sol em plena oito da noite. Comecei a rir. Isso era tão Franks.

O cabelo preto era o mesmo, assim como os brancos do vovô também. E os olhos azuis estavam ali, mesmo com os óculos encobrindo. E os verdes do meu avô, como tinham sido os da minha mãe.

- Que bom que você voltou – ele disse numa voz emocionada ao tirar uma das malas da minha mão e me abraçar – Está tão grande. E parecido com seu pai.

- Pra mim ele tá parecendo que saiu do meio de um vendaval! — discordou Francis me dando uma pancada no ombro – Enfiou a cabeça num ventilador é?

Me virei pra ele largando a outra mala no chão ,e dei um bom cascudo em sua cabeça.

- Vá tomar banho de soda! — resmunguei – Não, não vá, Franks. Faça algo útil, se mande buscar minhas outras malas no bagageiro principal.

Ele revirou os olhos, já com os óculos na cabeça.

- Continua o mesmo pé no saco de sempre... — ele abriu um sorriso – Mesmo assim vou buscar as malas da moça...

Antes que eu tivesse chance de dar mais um murro naquela cabeça de cabelos pretos, Franks se mandou na direção do ônibus, rindo.

Meu avô sorria como se visse o sol. Era tão bom de ver aquela expressão. Ele e Maurício agora eram a única família que eu tinha, e saber que eles me amavam era...era...de...bem,era bom pra cassete!

- Fez boa viagem? Você parece um pouco cansado...

- Não, estou me sentindo bem, eu dormi um pouco no ônibus... Agora quero saber como você está vô... — eu apoiei a mão no ombro dele, observando Franks levar um baile das minhas malas cheias. Eu era a moça, hem? Hehe...

- Fico mais aliviado de ter você aqui comigo Plínio – ele sorriu – Debaixo das minhas asas.

Eu ri também.

- Aliás eu tenho uma surpresa pra você. De aniversário, bem atrasado.

- Sério? O que é?

Meu avô desatou a rir. Era como ver minha mãe rindo.

- Não seria surpresa se eu te contasse seria?

Franzi as sobrancelhas lhe lançando um olhar de suspeita.

- Dessa vez passa. Mas olha lá o que vai aprontar hem...

Franks chegou, resfolegando e levantou seus olhos azuis pra mim depois de largar as malas no chão.

- Pelo amor de Deus! O que você trouxe dentro dessas coisas? Tijolos?

- Se liga, eu estou me mudando, queria que eu deixasse minha coleção de cd's pra trás?- respondi, enquanto pegava minhas duas primeiras malas e seguia meu avô pra fora do terminal.

Francis virou os olhos pra cima e sorriu.

- Sugiro que você venda uma boa parte deles pra comprar roupa, as pessoas ainda não podem andar peladas pelas ruas...

Não consegui segurar a risada. Era o velho Francis de sempre.

O fusca branco do vovô estava parado do outro lado da rua, e depois de acomodar as bagagens (uma das malas foi no banco da frente, de carona!) partimos pro bairro de Chorinho, onde ficava a casa do meu avô. E a minha antiga casa, que tinha sido vendida.

- Vô, quem comprou a minha casa, você sabe?

Ele me olhou de um jeito divertido pelo espelho retrovisor.

- Conte a ele, Francis.

Me virei automaticamente pra ele, que me encarou com o mesmo ar de diversão do meu avô.

- Agora é uma república, e só de garotas!

Pensei por alguns segundos. Bom, aquilo certamente era divertido! Chorinho de certo nunca tinha visto tanta movimentação! É que o bairro costumava ser tão calmo que chegava a monotonia.

- Espero que elas já tenham tirado os vizinhos do sério, se não, não vai ter a mínima graça! — exclamei com uma risada e olhando pra fora.

As ruas estavam mudadas, lojas novas haviam surgido e no lugar dos lugares que lembrava ser rua de chão agora tinha asfalto. Bom, muito bom.

- Na verdade agora Chorinho parece aqueles campus de universidade de filme norte-americano – continuou Franks com empolgação – Tem festas quase todo final de semana! E você não acreditaria no tamanho que nossa escola tem, está tomando quase um quarteirão inteiro por conta das reformas que vem sofrendo desde que você saiu...

- É como dizem, as coisas só acontecem depois que você cai fora... — abanei a cabeça, fazendo uma expressão falsamente ofendida.

- Vou te apresentar a galera nova, você vai adorar as Gêmeas, Angélica e Dalith, elas são da república.

- Ué, repúblicas não são só pra universitários? Desde quando gente da nossa idade mora fora da casa dos pais? — aquilo me deixou francamente surpreso.

Franks deu de ombros.

- Bom, a república que antes era sua casa é feita de meninas do ensino médio que decidiram sair de casa mais cedo, e todas são bacanas!

- Você já deve ter dado seu tiros, e com certeza acertou pra saber – eu dei um sorriso de malícia pra ele, que me imitou.

- Na verdade meus tiros andam meio que errando os alvos ultimamente...

Arregalei os olhos pro Franks.

- Isso sim é que é novidade!

Desde sempre as garotas tinham tendência de vir aos bandos atrás do Francis , num piscar de olhos. Eu sempre fiquei sabendo, mesmo a distância, quando ele se metia em roubadas – tipo namorar duas ao mesmo tempo – e quando era descoberto eu ria pra caramba. Francis ria junto ao me contar , porque mesmo apanhando algumas vezes – a base de bolsadas e uns raros casos de soco no olho – ele sempre acabava redimido aos olhos das meninas e tudo terminava bem.

- É que tenho um alvo fixo agora, e ela não é o que eu chamaria de pessoa fácil. — ele explicou, colocando os óculos de sol na gola da camiseta pólo – E você, ó grande amigo celibatário?

- Ainda no celibato e me sinto feliz assim – respondi e pra reforçar assenti com a cabeça

- Talvez você mude de idéia, não é César? — Francis sorriu com jeito conspirador pro meu avô.

Os olhos dele brilharam e me fixaram.

- Sim, talvez.

Balancei a cabeça e virei os olhos pra lua no céu, sentindo o vento bater no meu rosto com suavidade.

Sim , eu já tinha tido namoradas, lógico, mas nunca foi nada que realmente mexesse com as minhas estruturas psicológicas e hormonais, como acontecia com o Franks. E todas as três acharam caras melhores pra elas, o que me deixa feliz. Pra mim se eu estava namorando estava bom, e se não, estava bom também. Pra que eu ia ficar me estressando?

O chalé do meu avô ainda era o mesmo, a não ser pela cerca de madeira nova, pintada de branco. Ao lado dela estava minha ex-casa, de dois andares, e agora pintada de ...rosa-claro.

É, moravam meninas ali, não dava pra negar.

Algumas delas estavam no jardim, e pela cerca baixa observavam com curiosidade, eu,vovô e Franks descarregarmos as malas.

- Ei, Franks! — gritou uma voz feminina daquela direção – Esse aí de cabelo enrolado é aquele seu amigo que estava vindo pra cá?

Levantei a cabeça espantado e depois me virei pro Francis de sobrancelhas erguidas. Meu avô apenas deu um sorriso de lábios, retribuiu os acenos de algumas das meninas e entrou pra dentro, arrastando duas das minhas malas – e ele tem sessenta anos!

Francis sorriu pra mim e ergueu os olhos pras garotas.

- É sim, Maísa, por que não pula a cerca e vem se apresentar?

Eu sabia! Aquilo era um complô dele e do meu avô,claro!

Era inconcebível pro meu melhor amigo pegador e pro Seu César que tinha namorado até miss na juventude que eu, ficasse sem companhia feminina.

Dei a ele meu olhar de alerta. Era bom que ele parasse agora ou ia pra escola no dia seguinte parecendo um urso panda de um olho só.

Posso até ser considerado calmo e até meio nerd, mas eu podia fazer valer minhas aulas de boxe e tae kwon do, ah, eu podia!

Só que Francis tinha tendência em ignorar meus sinais de perigo eminente com seu típico revirar de olhos.

- Ele não vai estar na escola amanhã? — ela sorria pra nós dois e mesmo a distância o sorriso parecia extremamente caloroso. Os cabelos dela eram ruivos e cacheados, e só não consegui saber a cor dos olhos porque bom, estava escuro e a luz da varanda onde ela e as outras estavam sentadas em poltronas e sofás de vime não iluminava o suficiente pra isso.

Franks separou os lábios mas eu fui mais rápido.

- Na verdade vou sim. — respondi e ergui uma sobrancelha pro Franks. Ele revirou os olhos.

- Então nos apresentamos todas amanhã – uma voz doce e gentil disse – Não podemos deixar Angélica de fora.

Ela apareceu ao lado da Maísa. Tinha os cabelos num tom de mel, que caíam pelos ombros com suavidade. Também fiquei sem saber qual era a cor dos olhos.

- Onde ela está?- indagou Franks enquanto eu tirava mais uma mala de dentro do fusca.

- Nas aula de tênis, só volta às dez e meia.

- Diz pra ela que isso ainda vai virar obsessão.

- Eu já disse, e alguma vez Lica escuta o que a gente diz?

- É. Não. — a voz do Franks era risonha – Mas quem quiser pode ir se apresentando, ou estão com vergonha?

Coloquei a mala no chão no mesmo instante que outra voz de garota respondeu.

- Pra que fazer hoje o que se pode fazer amanhã?

- Esse ditado não tá um pouco distorcido? — questionou Franks em tom provocativo.

A garota estava atrás de Maísa, sentada numa poltrona na posição de índio. Tinha cabelo preto e curto, todo repicado.

- Por que você não cala essa boca, Francis?

Todas as outras riram e Franks fez o mesmo. Eu sorri na direção das meninas e ergui o polegar em sinal positivo pra garota de cabelo esfiapado.

- Valeu, ele tava precisando de uma dessa, me encheu o saco a viagem toda pra cá!

- Disponha! — ela respondeu me dando uma piscadela.

Francis estreitou os olhos pra mim e depois pra ela.

- Vocês já ouviram falar que lingüiça tem volta?

Todo mundo explodiu na gargalhada.

- Boa noite meninas! — desejou Francis com seu sorriso brilhante – Nos vemos amanhã!

- Boa noite, Franks!

- E seja bem vindo de volta, Plínio!

Olhei pra trás e sorri pra todas elas.

- Obrigado!

- De nada!

Eu ri de novo e entrei na casa atrás do Francis, que carregava minha penúltima mala.

- Como você reparou, uma delas não estava em casa, Angélica é a irmã gêmea da Dalith, só vai conhecê-la amanhã.

- Mas que diferença vai fazer? Ela não é gêmea da outra?

- Elas não são idênticas, são fraternais. Ah, e Diane também não estava ali – ele sorriu de modo misterioso – Deve estar dentro da casa com...

Ele parou de falar.

O encarei incrédulo. Ele não podia me deixar curioso daquele jeito! Era cruel, meu ponto fraco.

- Pode ir falando!

Franks riu.

- Amanhã você vai saber de tudo, prometo.

Enruguei a testa e apontei um dedo pra ele.

- Eu vou cobrar.

- Sempre pago minhas dívidas.

Abanei a cabeça e sorri. Francis seguiu na minha frente.

Olhei pra lua de novo antes de fechar a porta.

Juro que até ela parecia estar me dando boas vindas...