Notas iniciais
Boa leitura ;)

Eu dormi mal. Apesar de estar confortavelmente instalado no antigo quarto da minha mãe, que vovô tinha praticamente redecorado. O bege de antes, agora estava branco, e os móveis na realidade eram os que meu pai usava quando tinha minha idade, e que depois que casara com minha mãe simplesmente deixara na casa do meu avô. Tinha black-outs no lugar das cortinas e minha grande janela dava vista pro jardim dos fundos. E havia o fato da minha cama ser king size, um presente surpresa do meu avô, assim como a bola de pêlo cinzenta que dormia no tapete.

Ele havia me entregado uma caixa depois do Franks ir pra casa dizendo um “te vejo amanhã, mano!”.

Eu não tinha a mínima idéia do que ia encontrar lá dentro.

Fiquei pasmo quando uma coisa de cor cinza com um par de olhos azuis como o gelo na Sibéria, me observou com grande interesse. E comecei e rir quando percebi que a raça do cachorrinho era Husky Siberiano, de orelhas pontudas e alertas.

Ele não latiu, só abanou a calda e me lançou um olhar muito respeitoso pra um filhote, por cima da borda da caixa.

Minha nossa, vô! Obrigado!

Ele riu.

Achei que você ia gostar. Esses meninos dão ótimos guardiões, e são obedientes.

Cocei a cabeça do bicho, que abanou o rabo freneticamente.

Que nome vai dar pra ele?

Enruguei a testa, pensativo.

Não sei, mas tem que ser um digno dele.

Tenho certeza de que você vai achar um.

Antes de eu ir dormir ele já tinha um nome. Decidi enquanto procurava minha escova de dentes entre o emaranhado de roupas na mala aberta.

Anúbis. O deus com cabeça de cão.

Espero que você não ache ruim, se não posso trocar...

O filhote me olhou inclinando a cabeça pro lado, como se pesasse o que eu disse. Então abanou o rabo de novo.

Bem, aí estava meu cachorro. Anúbis.

Escovei o dentes, finalmente me sentindo cansado, e pensando em como era bom que meu avô tivesse sido tão incrível me dando aquela camona de presente. Me enfiei em baixo das cobertas e mal coloquei a cabeça no travesseiro eu morri.

Tive uns sonhos muito estranhos. Coisas surreais misturadas com realidade.

Mas o que me acordou de verdade foi uma queimação horrível na minha mão esquerda, parecia estar pegando fogo. Acendi o abajur e a ergui a altura dos olhos.

Engoli em seco.

Que diabos era aquilo?

Havia uma queimadura vermelha e dolorida na pele perto do polegar, como se alguém a tivesse marcado com ferro incandescente.

A princípio não liguei muito. Talvez algum bicho tivesse me mordido sem eu ver, e parte da consequência era aquela.

Voltei a dormir, mas os sonhos se transformaram em pesadelos arrepiantes, envolvendo carros acidentados e um par de olhos vermelhos de dar medo.

O suor escorrendo pelo meu rosto me fez despertar no susto.

Alívio que durou muito pouco quando estendi a mão pra minha escova de dentes na pia do banheiro assim que levantei.

A queimadura.

Que não era mais queimadura.

Havia um sinal nítido na minha mão, formado pela minha pele cicatrizada.

Parecia uma estrela com várias pontas, ou mesmo um sol. Uma completa tatuagem branca.

Fiquei paralisado olhando pra minha mão durante tanto tempo que só voltei a mim mesmo quando ouvi meu celular tocando muito alto.

Voltei correndo pra perto da cama e atendi.

“Bom dia, Plínio!”

Meu Pai do Céu.

Só gente como Francis está acordado antes das seis, ele era doido. Eu sempre dou qualquer coisa pra dormir mais um pouco. Faltava meia hora pro meu despertador tocar.

Você por acaso dormiu Francis?

“Claro que dormi, você não?”, ele riu do outro lado da linha.

Nossa, que grande piada. Levou sorte de eu estar acordado, se não ia ganhar um olho roxo assim que eu visse você — meus olhos não conseguiam parar de focar minha mão.

“Você continua com o mesmo mau-humor de sempre pela manhã!”, ele continuava rindo, inabalável, “ Césão vai te levar pra aula?”

Acho que sim, por quê?

“Pensei que talvez você quisesse ir comigo, meu irmão e minha mãe. Eles estão ansiosos por te ver”

Francis tinha um irmão mais novo chamado André, que agora devia ter uns quinze anos.

A gente vai se ver na escola de qualquer maneira, Franks, e eu não vou na sua casa hoje a noite, no seu aniversário?

“Ah, é mesmo! Cara, tinha me esquecido foi mal, então até depois!”

-Até depois Franks – desliguei o celular abanando a cabeça.

Eu realmente jamais ia conseguir ter amizades normais. Decidi que já que estava acordado ia dar uma utilidade ao tempo de sobra que tinha. Ainda vidrado na marca branca na minha mão, fui tomar banho, na esperança de que talvez fosse tinta e saísse com a água.

E não era tinta porque tampouco saiu no chuveiro.

Dando um gemido frustrado, saí de dentro do boxe. O negócio era fixo, coisa da minha pele mesmo.

Mas que desenho estranho era aquele, por Deus! Era nítido, como se alguém tivesse desenhado cada linha branca precisa na minha palma com um bisturi afiadíssimo.

Cocei a cabeça e fui em direção às minhas malas cheias de roupas emboladas. Peguei as peças menos amassadas, jeans preto e uma camiseta branca, pra não destoar tanto do resto do pessoal na escola, já que meu uniforme de quatro anos atrás não cabia mais em mim e eu tampouco tinha comprado um novo.

Anúbis acordou quando eu estava colocando meus tênis All-Star, também pretos.

E então garoto? Dormiu bem? — indaguei enquanto amarrava os cadarços.

Ele abaixou as orelhas e bateu o rabo devagar.

Sinal positivo. Então era hora de comer.

O peguei no colo e desci as escadas pro andar de baixo. Os quadros nas paredes dos corredores eram os mesmos, pintados pela minha avó, falecida há dez anos. O meu preferido ainda estava por ali também, na sala de estar. Era um lago de patinhos, iluminado pelo pôr do sol.

Eu ficava horas parado na frente da moldura quando era pequeno, olhando pros patos. Passei pela outra sala, que geralmente era usada pra ficar de papo pro ar ou tocar o piano do meu avô. Eu sabia tocar, mas não dedilhava a muito tempo. Talvez porque minha mãe nunca foi fanática por música e arte, como seus pais. Não sei como eles conseguiram gerar uma filha tão desinteressada por essa área, sendo artistas. A única coisa que minha mãe pensava era no Código Penal. Rindo, entrei na cozinha e ataquei os armários de mogno. Pacotes de bolacha, pão integral e de forma, latas de achocolatado, caixas de sucrilhos, açúcar, pacotes e filtros de café e tantas outras coisas acenaram pra mim. Peguei as coisas lógicas né, o filtro e a lata de café e o pão de forma, porque só de olhar pro integral me dava embrulho no estômago. Coloquei em cima da pia de granito e corri pra geladeira. Geléia, geléia...ah, estava lá no fundão. Depois peguei o queijo, presunto e o pote de manteiga.

Hum, agora, onde será que vovô guardava as panelas? Eu ia precisar de uma frigideira, porque Seu César não gostava de microondas, então teria que me virar de outra maneira pra fazer meu misto quente matinal. Era eu quem geralmente preparava o café dos meus pais, apesar de levantar depois deles. Os dois sempre ficavam correndo pela casa procurando papéis do escritório ou pastas com processos judiciais, pra se lembrar de que tinham que comer se não quisessem desmaiar de fome no horário de expediente. Então como o bom filho prestativo e agradecido que sempre fui, eu fazia a comida. E até porque gosto de cozinhar.

Meu avô apareceu na cozinha no instante exato em que eu tirava a frigideira – estava embaixo da pia – do fogão, chiando e estalando com o queijo derretido dentro, que raspei com uma faca e joguei em cima de uma das fatias de pão.

Então minha filha e meu filho – ele sempre chamava meu pai de filho também – conseguiram fazer um neto que cozinha também?

Qualquer um sabe fazer misto quente vô – respondi, fechando o sanduba com outra fatia de pão e empurrando o prato pro lado dele na mesa de madeira.

Não...- ele aspirou o ar e eu ri – De jeito nenhum. O que você colocou aqui dentro além de queijo?

Presunto – encolhi os ombros e escorreguei o meu queijo pro meu pão – Deixo a frigideira na pia?

Sim, depois que eu te levar pra aula eu lavo a louça suja.

Ele esperou pacientemente eu me acomodar na minha cadeira, depois de pegar o bule de café no fogão, pra comer.

Depois de dar a primeira mordida, meu avô sorriu por cima da borda da xícara do café e me olhou de um jeito engraçado.

O que foi? O queijo queimou? Posso...

Não tem nada errado com a comida Plínio, só estou pensando no quanto você está parecido com meus filhos. Em especial com seu pai.

Arregalei os olhos surpreso. Ele já tinha feito o mesmo comentário quando desembarquei do ônibus, mas eu não tinha levado muito a sério. E também porque todos os amigos dos meus pais só de olhar pra mim, estalavam os olhos e gritavam pra minha mãe, “Meu Deus, Carolina, ele é sua cara!”. E engraçado era que ela sorria e respondia, “Mesmo? Pois eu acho que parece demais com o Cilas”. Esse tipo de conversa em geral me fazia sentir vontade de me esconder num buraco e nunca mais aparecer, sempre odiei ser o centro das atenções. De qualquer forma não importava mais. Não tanto, já que era meu avô que estava ali e eu nunca mais seria salvo pelo meu pai que revirava os olhos dizendo, “Parece com os dois, ponto final. Plínio, pode ir buscar minha pasta lá em cima no escritório?”. Eu costumava subir as escadas como um foguete, mais do que agradecido.

Mamãe dizia que eu parecia com ele também, embora todo mundo que aparecesse lá em casa teimasse em falar que eu parecia com ela – respondi, perdendo repentinamente um pouco da fome e largando meu misto no prato.

Vovô enrugou a testa.

Desculpe, Plínio, sei que ainda é doloroso pensar neles, eu também sinto muita saudade...

Abanei a cabeça e tentei sorrir um pouco.

Tudo bem vô, não esquenta. Onde foi Anúbis? — olhei ao redor e pros meus pés. Ele estava ali a um minuto, depois de ter comido uma espécie de papinha de leite e pão que fiz pra ele, visto que não tinha achado ração pra cachorro em parte nenhuma da casa.

Anúbis? Foi o nome que deu pro cachorro?

Aham – enfiei a cabeça debaixo da mesa. Nada.

Um ótimo nome – um latido alegre se ouviu do lado de fora da casa – Acho que ele está no jardim dos fundos. Deve estar se divertindo com os gnomos de gesso!

Você deixou a porta aberta? — aquilo foi um choque e tanto. Em Curitiba se você deixar qualquer porta da sua casa aberta, corre o risco de encontrar só as paredes quando chegar.

Eu sempre deixo as portas abertas, Plínio – ele pareceu achar meu espanto desproporcional – Vá buscar seu cachorro antes que ele destrua minhas roseiras, ontem ele conseguiu mascar todos os pés de tomate da horta.

Eu ri.

E você ainda me diz que ele é obediente?

Vovô piscou um olho verde.

Estava esperando o domador chegar. Tire o pestinha da minha horta.

Levantei ainda rindo e me dirigi a porta dos fundos. Ela não estava totalmente aberta, estava encostada, com espaço suficiente pro meu cachorro sair sem precisar fazer muito esforço.

Anúbis estava mesmo na horta, tentando acabar com as cebolinhas verdes.

Pisando com cuidado pra não atolar meus pés na terra fofa o puxei pelo rabo peludo e o ergui pro colo.

Ele me deu um olhar mau-humorado, como se eu tivesse interrompido uma atividade muito importante.

Vai se acostumando, quem manda agora sou eu garoto – bati com um dedo no focinho dele, que fungou, como se duvidasse das minhas palavras.

Sorri, afagando suas orelhas.

Paga pra ver então – o coloquei debaixo do braço e percebi que minhas novas vizinhas já estavam acordadas. E que qualquer pessoa que estivesse dormindo ainda ia acabar acordando com o barulho de uma música muito alta, que vinha da direção da casa cor-de-rosa. Era Backstreet Boys, e eu só sabia que era “The Call” porque minha mãe era fã dos caras.

Meu pai eterno, elas deviam quase derrubar a casa quando davam festas.

Levei Anúbis pra dentro e subi no quarto pra pegar a mochila. Estava na hora de rever o Abílio Schultz.

Deixamos meu cachorro na cozinha, acompanhado de um pote de plástico com água. Vovô disse que ia comprar as coisas necessárias pra ele a tarde, quando eu voltasse. Não podíamos deixar o baixinho sozinho por muito tempo ou ele ia acabar com o jardim.

O fusca estava quase fora da garagem quando uma garota da república saiu correndo pela porta da frente, parecendo chateada. Ela derrubou metade dos livros que tinha nas mãos antes mesmo de chegar perto do portão, e quando chegou, derrubou o celular.

Meu avô manobrou até parar na frente da calçada.

Algum problema Angélica?

Ah. Então essa era a tenista obsessiva. A gêmea.

Pois não parecia nenhuma das duas coisas.

Não tinha cara de quem praticava exercícios e sim de quem não perdia um bom show de rock a julgar pelas mechas vermelhas sobre os cabelos escuros ondeados até os ombros,e a grande quantidade de rímel e lápis preto nos olhos cor de âmbar.

Acordei atrasada! — ela respondeu em tom lamurioso.

Atrasada? Com o som ligado no último volume? A garota devia ter péssima audição ou um sono MUITO pesado.

As meninas já foram com o ônibus e o próximo só passa dez pras sete agora... — ela estava fora do portão, e não conseguia parar de derrubar coisas. Agora era um Ipod que caíra no chão.

Suba aí Angélica, não vou deixar você chegar atrasada – ouvi as portas destravarem.

O suspiro dela foi audível.

Seu César, ainda bem que existem pessoas como você nesse mundo! — ela exclamou abrindo a porta do banco de trás com entusiasmo. Vi mochila, cadernos, Ipod e celular voarem em cima dos bancos – Pé na tábua!

Meu avô riu e fez o que ela disse, enquanto vi pelo retrovisor Angélica vasculhar a mochila e sacar de lá de dentro com ar vitorioso um tablete de Trident.

Vai um chicletinho aí minha gente? — ela esticou dois no espaço entre os bancos do motorista e do carona, onde eu estava.

Vovô fez uma careta aterrorizada.

Não, obrigado meu anjo, tenho muito zelo pelos meus dentes.

Ela olhou pra mim.

E você, Plínio?

Fiquei encarando ela como um idiota, pego de surpresa por ela saber meu nome. O que pensei no segundo seguinte não era nada surpreendente visto que suas amigas deviam ter lhe contado sobre mim, o neto do Seu César. Então estava na cara que eu era o Plínio, dã.

Ah, tá, obrigado – peguei o chiclete e enfiei na boca.

Eu sou Angélica, irmã da Dalith e amiga do monte de doidas que moram comigo – o sorriso dela era radiante – Amélia disse que você era bem gato.

Vi meu avô espremer os lábios pra conter a risada.

Eu? Devo ter ficado roxo de vergonha! Eu sentia meu rosto pegando fogo. Mas não me rendi, eu nunca me rendo, nem quando esse tipo de coisa acontece.

Qual delas era Amélia?

Uma de cabelo preto espetado pra todo lado, é minha melhor amiga!

Dei um sorriso leve.

Diga a ela que agradeço o elogio.

Ela piscou um dos olhos fortemente pintados.

Pode deixar que mando o recado, só não se assuste se ela te convidar pra sair qualquer dia desses...

Minha cara queimou de novo.

Angélica parecia ser bem diferente da irmã pelo que estava vendo.

E por que ela convidaria?

Ué, porque você é uma gracinha de cabelo enrolado, foi o que ela me disse! — Angélica riu, enchendo o carro com o som – Se eu fosse você sairia com ela, Amélia é mais disputada do que água no deserto, e não é qualquer um que consegue chamar sua atenção.

Prometo pensar no assunto – respondi sufocando uma vontade doida de rir. Era alguma coisa no jeito como ela falava, dava tom de humor pra todas as palavras que dizia.

De repente uma voz gritou muito alto, e era uma música que eu conhecia bem, já que gostava de ópera.

A ária da Vingança, cantada pela Rainha da Noite, em A Flauta Mágica. Esse era o toque do celular de Angélica.

Ah meu Deus, é Maísa … — o resmungo dela foi aborrecido – O que é? — atendeu a voz ainda mais irritada.

Não sei porque, mas tive que segurar o riso mais uma vez. A garota parecia ter colocado o dedo na tomada, era incrível, até o modo de gesticular era muito expressivo e ...dramático. Como uma atriz em cena, mas de um jeito totalmente autêntico.

Pensei que ela nem deveria usar maquiagem alguma no rosto, ia chamar atenção de qualquer maneira, só pela personalidade.

Eu já entendi Isa, não precisa ficar repetindo, e nem ficar gritando, eu não sou surda! — os olhos dela chispavam de raiva. Percebi que não iria querer estar perto daquela garota quando ela tivesse um acesso de fúria. Ela bateu o flip do celular e o jogou dentro da mochila – Era só o que me faltava! Aquela bruxa dos infernos me aprontar!

Meu avô que se mantivera calado até aquele minuto, enrugou a testa.

Meu bem, seja lá de quem você esteja falando ou o que tenha feito, não merece ser chamada desta maneira...

Vovô viveu num tempo em que as garotas eram um pouco mais sutis em seu ódio. Mas ele já devia ter se acostumado com o fato de que as meninas do século vinte e um xingam tanto quanto os meninos!

Angélica arregalou os olhos de um jeito cômico e acenou a cabeça veementemente.

Acredite Seu César, esta merece o apelido, porque ela é mesmo uma bruxa dos infernos!

Vou conhecer a dona do apelido? — questionei, curioso.

Ah, você vai e vai logo saber do que estou falando quando chamo aquela nojenta de bruxa!

Então ele atendeu outra ligação, parecendo mais feliz. Só sei que era de um cara chamado Adriano, foi isso que ela suspirou quando atendeu.

E de fato conheci mesmo. A tal da garota.

E devo acrescentar que bruxa dos infernos é um xingamento até leve demais.

Foi quando desci do fusca, na frente dos portões da escola.

Eram os mesmos, de ferro e muito altos,só que agora não haviam dois blocos de salas de aula e o ginásio. Agora eram cinco! Estava absolutamente gigante!

Até mais tarde ,vô! — acenei, quando ele passou ao dar a volta com o carro, buzinando.

Valeu pela carona, Césão!

Outra buzinada e lá se foi ele.

Seu avô é um amor, um verdadeiro cavalheiro! — Angélica comentou abrindo um sorriso de dois bilhões de volts – Sempre ajuda a gente a carregar as compras!

É, ele é mesmo o melhor! — ajuntei devolvendo o sorriso.

Ela arregalou os olhos ainda sorrindo grande.

Que fofs, você tem covinha! É muito charmoso, sabe, covinhas?

Meu Deus. A garota era mesmo fora de série. E pior que tudo que falava era sincero, dava pra ver só pelo modo como dizia.

Ahm, eu nem sabia que tinha covinha – pisquei aturdido, e olhei pros lados, procurando pelo Francis, mas nessas horas parece que ele nunca aparece!

É, mas você tem! — então fechou a cara no mesmo segundo – Lá vem a coisa! Ui!

A “coisa” em questão era uma tremenda gata de cabelo loiro e olhos azuis de cílios longos, um show!

Em geral eu não julgo o livro pela capa, embora a garota fosse realmente digna de um babador embaixo do queixo.

Que história é essa do seu grupo de teatro deixar a Pâmela de fora da peça? — a garota veio direto pra cima de Angélica, os cabelos cor de ouro brilhando sedosos no sol.

Angélica ergueu uma sobrancelha, em desafio.

Desculpe, mas ela não foi bem no teste Amanda, quem vai ser a Julieta é a Maísa.

Amanda riu sem emoção e deu um olhar de desprezo pra Angélica.

A Maísa? Julieta? Pelo amor de Deus, menina! A Pâmela faz aulas de teatro desde criança.

E daí? Aparentemente ela não tem um pingo de talento...

Epa. Aquilo não estava começando bem. Em sua distração Angélica estava segurando a barra da minha camiseta, torcendo-a, a tensão óbvia.

Então Francis apareceu, vindo de dentro da escola, andando lentamente pelo corredor coberto.

Graças a Deus!

Escuta aqui, pirralha, eu quero Pâmela na peça e ponto final, entendeu?

Epa. Aquilo ali estava esquentando.

Amanda estava curvada sobre Angélica, o rosto a centímetros do dela, a expressão ameaçadora.

Vai fazer o quê se eu não acatar, hem? — Angélica rusgou, a voz nem parecendo a dela, as chispas nos olhos pareciam mais labaredas.

Ahm, meninas, desculpe interromper, aparentemente é importante, mas a gente não podia tratar disso civilizadamente?

Amanda finalmente pareceu me notar. Pô, eu tinha que tomar uma atitude, aposto que as duas iam se pegar se eu não tivesse aberto o bico!

Quem é você?- ela me espiou de cima a baixo, os lábios cor-de-rosa entreabertos, e a expressão um tanto arrogante.

Ergui as sobrancelhas pra ela.

Meu nome é Plínio, e você não está agindo com muita educação.

Ela fez um muxoxo superior.

Quem você acha que é pra falar assim comigo? — Amanda deu uma risada maldosa – Se enxerga!

Se você não calar a boca agora eu vou te meter a mão, sua cobra! — gritou Angélica, entrando na minha frente.

Uau. A gente tinha se conhecido a vinte minutos e ela já estava tentando me defender? Isso era bem legal da parte dela, mas eu não ia permitir que ninguém brigasse.

Não precisa de nada disso Angélica, vamos entrar, já ouviu dizer que a pior ofensa é a indiferença? — puxei o braço dela e a posicionei do meu lado de novo, então olhei friamente pra Amanda – Sabe, você realmente devia aprender a ter um pouco mais de respeito pelos outros, caso contrário não vai conseguir muita coisa com elas.

Ai meu deus, era só o que faltava, um novato tentando me dizer o que fazer! — ela riu e depois me lançou um olhar completamente venenoso – Acorda, aqui tem regras meu bem, e é melhor você ir se acostumando...- ela virou os olhos azuis como safira pra Angélica – Você está avisada, Pâmela vai estar nessa peça ou vamos ter uns pequenos contratempos – ela deu um passo e os olhos estreitaram, furiosos – A próxima vez que me chamar de cobra sua vaca, eu te arrebento – então sua expressão mudou completamente ao ver algo.

Oi, Franks, tudo bem?

Pela madrugada, que garota mais idiota. Isso comprova que pessoas aparentemente lindas podem mesmo ser monstros perversos por dentro. Como Amanda.

Tudo bem e você?

Ah, muito trabalho, sabe como é... — ela encolheu os ombros despreocupada, com um sorriso doce no rosto- Ser presidente do Grêmio é bem complicado...

Olhei pra Angélica do meu lado, boiando.

Ela é louca pelo Francis – ela disse, à guisa de esclarecimento.

Ah, agora minha visão ficou mais clara – sussurrei na orelha dela – Ele por acaso sabe que ela é uma tremenda filha da puta ?

Sabe, mas Franks não gosta de ser mau-educado, você mais do que eu deve saber disso.

Suspirei.

É, eu sei.

Depois de Amanda tomar no mínimo uns dez minutos da atenção do Francis, ela finalmente se foi ao ver uma amiga chegar, e Angélica soltou os cachorros no segundo seguinte.

Essa bandida! Ela vai ver só uma coisa, ninguém me ameaça! — ela respirava com força, parecendo um touro prestes a chifrar alguém – Ai, que raiva! — bateu o pé no chão, e depois bufou – Tudo bem, tudo bem, eu estou calma, sou uma pessoa controlada e sensata...

Francis fez um barulho de ronco e eu olhei pro lado. Controlada?

Ela percebeu que estávamos segurando o riso, porque revirou os olhos e disse:

Eu posso sonhar não posso? — o tom era de riso – Ei, mana, aqui!

Virei o rosto na direção em que ela olhava, e vi a garota de cabelo cor de mel e simpática da noite passada acenando, e correndo pra nós.

Bom dia! — ela abraçou Francis assim que nos alcançou. Quando ela pulou pra irmã, percebi que ele a olhava de um jeito engraçado, e tinha um sorriso gigante na cara.

Hummm...Acho que eu tinha descoberto “a garota que não era fácil”.

Que eu soubesse Francis nunca tinha tido preferência pelas “donzelas em perigo”.

E Dalith parecia ser tudo isso. Baixinha, delicada e com uma expressão doce e ingênua nos olhos. O tipo de menina que parece precisar de um cavaleiro andante pra socorrê-la de eventuais perigos.

Bem ,aparentemente meu melhor amigo tinha cansado das “bem resolvidas”.

Que parecia ser o perfil da Angélica.

Ah, sim. Aquela não precisava que alguém brigasse por ela.

Ela mesma usava armadura e puxava a espada.

Oi, Plínio! — Dalith beijou meu rosto. Uhm, ela cheirava à bala de morango. Não tinha reparado no perfume de Angélica, talvez não estivesse usando. — Seja bem vindo!Como se sente?

Surpreso! — respondi, notando que ela fechava os olhos quando sorria. Eram castanhos e grandes – Essa escola tá parecendo uma universidade!

Você não viu nada — Francis disse, se aproximando de Dalith e colocando o braço nos ombros dela.

Apertei os lábios, tentando me manter sério. Aquilo tinha sido pra mim.

Traduzindo o braço por cima de Dalith: “Caia fora, eu vi primeiro!”, ou “Se aproxime e fique sem dentes!”.

Só que ele não precisava enviar essa mensagem subliminar pra mim. Dá um tempo, ela era bonita, mas não era por isso que eu ia querer alguma coisa. Embalagem todo mundo pode ter, conteúdo é outra coisa. Embora eu duvidasse que Dalith não tivesse. Só que, enfim, ela não fazia meu tipo.

Então vamos indo e mostramos as novidades pro Plínio no caminho, preciso falar com Isa o mais rápido possível! — Angélica se manifestou, batendo com certa fúria nas teclas do celular. Ela parecia comigo, digitava menagens na velocidade da luz.

O que aconteceu? É de novo aquela história do teatro? — indagou Dalith com o rostinho delicado franzido.

É, sim, e agora tem aquela ameba das trevas pra piorar a situação! — respondeu a irmã, fazendo um beicinho de irritação muito engraçado – Víbora! Quer que a Pâmela seja a Julieta!

Então é por isso que ela estava aqui? Bem que parecia estar havendo algum desentendimento quando cheguei...Não se meteu com ela não é Angélica? — Francis franziu as sobrancelhas pretas.

Angélica olhou pra mim, pedindo ajuda.

Ela foi bastante grossa, mas ajudei Angélica a resolver as coisas – respondi, surpreendendo Franks, que me olhou espantado.

Olha só, Galahad volta a ação! — brincou, depois de passado o choque.

Eu não costumava me meter em discussões, a não ser quando achava que o resultado não estava sendo justo. E a atitude da Amanda tinha me irritado muito.

Que bom Plínio! Não gosto da idéia da minha irmã desencadeando a terceira guerra mundial com a Amanda, ela pode realmente ser má! — comentou Dalith, apoiando o queixo no ombro do Francis.

Eu também...- sussurrou Angélica dando uma risadinha travessa e me piscando um dos olhos faiscantes.

Não duvidei por um milésimo de segundo que ela podia se defender muito bem sozinha. Não mesmo.

A sineta tocou alto, o que me fez sorrir. Eu estava de volta.

Gente, vamos andando! — chamou Dalith.

Nós quatro seguimos portão adentro.

A minha classe tinha trinta e cinco alunos. Alguns velhos conhecidos, outros total desconhecidos. Francis, Dalith e Angélica arrastaram uma carteira pra mim, nos fundos da sala, perto das janelas. Amélia também era minha colega de classe, fez questão de me dar um beijo estalado no rosto e perguntar se eu tinha alguma coisa pra fazer no fim de semana.

Rindo, pensei que Angélica bem que tinha me avisado.

Não, não tenho – respondi, pendurando a mochila na minha cadeira. Dalith e Franks estavam conversando baixinho ali ao lado. Angélica estava implicando com alguém no celular.

Beleza! — Amélia piscou os cílios longos e cheios – Então você não vai negar um passeio, vai? — ela se inclinou por cima da minha carteira, com um sorriso convidativo no rosto.

Dava pra sacar o que Angélica queria dizer com “bem concorrida”, todos as caras da sala olharam quando ela entrou na sala, com expressões de quem via um copo d'água no meio do deserto.

E agora olhavam pra mim, com alguma indignação, porque eu, o recém-chegado tinha lhes roubado a atenção de Amélia.

Só que eu não tinha culpa de nada. A única coisa que eu sabia e sentia, era o meu rosto ardendo. Devia estar igual a um ketchup.

Mas jamais sem saber o que dizer.

Na verdade acho que não precisamos caminhar ou deixar pro fim de semana, é só você pular a cerca, somos vizinhos, lembra? — ergui as sobrancelhas e abri um sorriso pra ela, apesar de ainda sentir as bochechas pegando fogo.

Amélia sorriu de volta, mostrando fileiras de dentes brancos e retos.

Não tinha pensado nessa possibilidade... — ela colocou um dedo nos lábios vermelho-escuro, num gesto de reflexão.

Dava pra entender também porque os caras quase literalmente babavam só de olhar pra ela. Amélia, fora seu cabelo preto e curto, espetado pra todo lado, os olhos cor de mel, o sorriso bonito, ainda tinha um corpo de dar ataque cardíaco. Era totalmente feita de curvas! Eu estava até suando um pouco!

E mais um pouco pra finalizar (sim, além de tudo que já foi citado).

Amélia tinha algo que deixava a pessoa hipnotizada, sem ter como escapar dela, ou de olhar pra ela.

Ela tinha charme. E era a feminilidade personificada, mesmo com o cabelo curto.

Boa! Gostei! Passo lá a tarde! Tenho permissão pra pular pela sua horta e levar um filme pra gente assistir? — ela dava uns saltinhos, contente.

Isso TUDO era pra mim?

Eu tinha morrido, e ido pro Paraíso!

Tem sim, pule a cerca perto das duas horas, vamos ter a tarde inteira – falei, não sentindo mais calor nenhum na cara. Estava seguro demais pra isso. — Brigadeiro ou pipoca?

Meu anjo, o que você quiser! — ela mostrou os dentes brancos, num sorriso que ocupou quase o rosto inteiro.

Na verdade acho que você vai ter que cancelar isso – interrompeu a voz de Angélica, com alguma ponta de impaciência – Estamos com problemas na peça.

Ah, fala sério!

É mesmo, fala sério! — me virei pro lado direito, entortando a boca pra Angélica, que ergueu uma sobrancelha.

Esqueceu que é responsável pelo cenário, Mel? E parece que alguns deles andaram meio que se desmontando...

Como assim? Tudo estava perfeito! — os olhos de Amélia luziram, chocados. — Fui verificar ainda ontem à noite!

Angélica deu a ela um olhar misterioso.

Eu sei, mas aparentemente há alguns minutos atrás eles pareceram mudar de estado...

Amélia puxou o fôlego, o peito subindo e descendo. Meu Deus, era bom que ela não fizesse isso muitas vezes, ou iria parar no hospital da próxima vez.

Aquela filha de Satã, ela me paga! — rusgou, como um verdadeiro lobo furioso – Ela vai ficar sem as mãos, a filha da mãe, por sequer tocar nos meus painéis!

Estava explicado porque Angélica e ela eram amigas, afinal.

O mesmo temperamento colérico.

Sério, aquilo estava começando a me assustar um pouco.

Ei meninas, souberam da festa que Priscila vai dar neste sábado?

Uma garota de cabelos ruivos encaracolados, muitas saradas no rosto e um par de olhos verdes como esmeraldas chegou e se enfiou no corredor entre a minha carteira e a de Angélica.

É mesmo! — Amélia bateu com a mão na testa e depois me olhou sugestivamente – Me acompanha? Vou estar usando um vestido novo muito lindo...

Entortei os lábios, num sorriso enviesado.

Uma coisa de cada vez garota – falei calmamente.

A ruivinha me deu uma encarada.

Ah, Plínio, que bom te ver!

Ergui as sobrancelhas pra ela, numa pergunta muda.

Ela riu, mostrando covinhas e o aparelho de borrachinhas coloridas nos dentes. Claro! A primeira que tinha falado comigo na noite anterior, Maísa.

- Ah, oi, desculpe, demorar pra te reconhecer, estava muito escuro ontem... — eu ri.

Isso é ótimo pra namorar! — outra garota pulou ali pra perto, com um cabelo que descia pelas costas em ondas cor de nanquim, uma boca carnuda linda e olhos cor de chocolate.

Minha nossa, da onde saia tanta menina???

Oi, Plínio – ela inclinou a cabeça em saudação – Sou Diana – voltou os olhos brilhantes na direção do Francis e Dalith – Franks! Onde está seu irmão? Preciso falar com ele imediatamente!

Meu amigo sorriu de um jeito malicioso.

Não era pra estar com você?

Obviamente não está, como pode perceber, por isso estou perguntando! — ela riu, os olhos se fechando em fendas de um jeito gracioso.

Já foi olhar no Ginásio? Vocês geralmente ficam se agarrando por lá... — Francis ampliou o sorriso.

Há, há, que engraçado. Nós não ficamos nos agarrando, nós namoramos comportadamente, como jovens apaixonados que somos.

Franks virou os olhos e eu e Dalith rimos.

Vocês estão ficando uns bregas isso sim. Vá no Ginásio, ele deve estar lá, e se não estiver vá na biblioteca, é o segundo lugar preferido dele.

Diana deu um pulinho feliz e ergueu os dois polegares pra ele.

Valeu, cunhado, fui!

Ei, você não tem aula não? — Dalith perguntou, a carinha de princesa desconfiada.

A primeira de Educação Física do ano, não é maneiro? — Diana girou nos calcanhares, lançando os cabelos no ar, e rindo e acenando, saiu pela porta.

Continuei olhando pra porta, completamente abismado. As garotas de Serpentina eram todas meio malucas agora, era isso, não tinha outra explicação.

Ela também mora com vocês? — perguntei pra Angélica interrompendo uma conversa entre ela, Amélia e Maísa, sobre, bom, perucas.

Ela abanou a cabeça.

É, ela é a mais nova do bando, tem quinze pra dezesseis, e namora com o Dé.

Nossa. O tímido e inteligente André. O filho bom moço. Sorri por dentro. Certas coisas nunca iriam mudar, e constatar isso me deixava feliz, muito feliz.

A primeira aula foi de Inglês. A segunda de Matemática e a terceira de Artes.

No intervalo pude rever o irmão mais novo do meu melhor amigo.

Levei um susto e tanto!

Que foi? Parece que viu um fantasma, cara! — ele ria, me dando uma batida de mão no braço.

Onde estão seus óculos? — perguntei ainda chocado.

Aposentei, agora uso lentes – ele apontou um dedo pros olhos azuis, como os do irmão mais velho, só que mais claros, assim como os cabelos.

Percebo!

Ele sorriu do jeito tranquilo que eu me lembrava.

E então? Como está sen...

Amor!!!!!!!!!!!!

Um borrão de cabelos longos nanquim passou voando e se atirou sobre André antes que ele pudesse terminar de falar.

Ele ria cheio de felicidade ao amparar Diana quando ela se pendurou em seu pescoço.

Calma linda, quer me quebrar, é?

Não sei porque, mas aquela cena me deixou um pouco pra baixo.

Eu vou deixar vocês... — murmurei fazendo um aceno com a cabeça pro André.

Ele ergueu o polegar pra mim, e tentava não rir, quando a namorada encheu seu rosto de beijos.

Falou! Nos vemos! Ei garota, assim você me sufoca! — ele gargalhou.

Eu precisava mesmo sair com alguém.

Na hora que tive esse pensamento Amélia surgiu no pequeno pátio, acompanhada de Angélica que chorava aos soluços, enquanto Maísa a envolvia num abraço.

O que será que aconteceu?

Olhei pro lado. Franks finalmente voltara, parando de bancar o príncipe encantado e deixando Dalith respirar um pouco.

Não sei, mas coisa boa não é – respondi, sentindo uma pontada estranha no peito ao ver as lágrimas escorrerem pelo rosto da minha nova amiga.

Elas se aproximaram rapidamente, Amélia com cara de quem podia cometer homicídio e Maísa ainda em sua posição de consolo, o olhar tristonho.

Senti um impulso doentio de consolá-la também.

Talvez eu andasse mais sensível ao sofrimento alheio, considerando o que eu tinha passado.

O que foi anjo? — Francis se aproximou dela.

Angélica nos fitou, o rosto arrasado.

Ele me traiu, Franks! Acabei de pegá-lo no banheiro do salão com a Pâmela! Ele me trocou por aquela serva das trevas!

O maxilar do Francis de repente ficou muito tenso.

Eu fiz o que estava ao meu alcance, a puxei dos braços da Maísa pro meu lado.

Quem é esse cara?- perguntei pra ela, que enfiou o rosto na minha camiseta.

Aquele que você me ouviu falar no telefone, hoje cedo... — ela respondeu com voz abafada.

Coloquei um braço por cima dela, afagando suas costas com a mão.

Isso mostra que ele não te merece, Angélica.

E-E-Eu s-s-sei... — ela deu um engulho e voltou a chorar com toda a força que tinha.

Ah, não acredito nisso! — Franks me chamou a atenção pela voz fremindo de raiva – Caia fora!

Um garoto loiro e alto vinha vindo.

Adriano.

Só pela expressão de culpa no rosto dava pra notar.

O que você quer? Já não fez o suficiente? — cuspiu Maísa, com um tom de desprezo que me espantei dela ser capaz de produzir.

Não se meta, isso é entre eu e Angélica — o rosto culpado se transformou numa máscara de frieza ao olhar pra Maísa.

Franks e Amélia estavam prestes a soltar um enxame de insultos, como abelhas raivosas, pelas bocas, eu percebia pelo rosto dos dois, mas fui tomado por um impulso tão grande de fúria que nem sei de onde ela veio, então me adiantei aos dois.

É melhor você sair daqui, Adriano... — alertei, minha voz saindo de um jeito ameaçador.

Meus amigos me olharam com um misto de alarme e choque nos rostos.

Não entendi o por que disso, não enxergava nada, tudo que eu sabia era do meu sangue gelado, correndo nas minhas veias, espalhando minha cólera pelo corpo inteiro.

Vai fazer o que? — ele zombou, os olhos claros luzindo de ceticismo – Espero que você não tente me bater, sei me defender muito bem...

Eu não estou nem um pouco preocupado com isso, colega, vou adorar quebrar o seu queixo- Angélica segurava a barra da minha camiseta, com olhos preocupados. Eu tinha ido na direção dele sem perceber.

Deixa pra lá, Plínio, não vale a pena...

Anjo, vamos conversar, eu juro que posso... — Adriano começou, olhando pra ela em súplica.

Explicar? Não, você não pode. Agora saia daqui – ela respondeu com agressividade, agarrando meu braço fortemente com as mãos.

Qual é, amor? Aquilo não foi nada! — ele tentou se aproximar dela, tocar nas mãos dela que me seguravam.

Nada!? Você é louco, seu nojento! — Amélia exclamou, com asco na voz.

Cale a boca, idiota! — Adriano mandou de volta.

Ei, fica na tua, cara! Aqui é dois contra um! — crocitou Franks, respirando com força. Isso era péssimo sinal pro Adriano.

Não, não é – rusguei, sentindo uma vontade louca de esmigalhar o rosto de modelo de capa de revista dele.

Agora eu sabia que tinha platéia. Via as pessoas ao nosso redor pelo canto do olho. O pátio perto da biblioteca estivera quase vazio, mas aparentemente seus poucos ocupantes haviam chamado os amigos do pátio principal.

Eu ia me encrencar de verdade se não acabasse com aquilo. Pela segunda vez eu estava me metendo. Mas meu senso de justiça era maior que a cautela.

Pela última vez, cara, saia daqui – avisei de novo, prestes a me soltar do aperto de Angélica, meus dentes trincados a ponto de poderem se quebrar.

Só vou se Angélica me acompanhar – ele respondeu de modo insolente.

Respirando fundo, tentando recuperar um pouco da minha sanidade, olhei pra baixo, pra Angélica.

Você não pode ir, ele não tem direito de te pedir nada – falei, ainda num tom raivoso demais, pra ser considerado razoável. Ela pareceu debater por alguns segundos, virando a cabeça de mim pro namorado. Quero dizer, ex-namorado.

Se eu não for promete não socar ele? — ela sussurrou, subindo na ponta dos pés pra chegar perto da minha orelha direita.

Suspirei pesadamente. Tinha algo dentro de mim que gritava pra partir o modelete em mil pedaços, pra ele nunca mais conseguir andar. Mas ainda restava um pouco de juízo, e esta parte ganhou a luta.

Muito bem, como você quiser.

Ela sorriu, os olhos vermelhos indo na direção do Adriano.

Hoje não, agora não, me deixe em paz – disse, com entonação decidida.

Você ouviu, suma daqui – minha voz voltou um pouco ao tom de frieza que eu costumava usar em situações críticas.

Adriano me lançou um olhar assassino.

Tem volta, colega, tem volta...- depois pra Angélica, num tom ameno – Nós temos que conversar, tá? Me procure.

Angélica não disse nada. Só continuou agarrada na barra da minha camiseta.

Com uma olhada de puro ódio pra mim, Adriano deixou o pátio, seguido de olhares e cochichos. E eu fiquei, alvo de olhares e cochichos.

Hum, hum, hum. Não sei se aquele duelinho tinha sido bom pra minha reputação, ainda mais no meu primeiro dia de escola.

Encolhi os ombros pra mim mesmo, que a reputação vá a merda.

Ser útil a alguém valia mais.

Tudo bem galera, o show acabou! Caiam fora! — mandou Franks com visível ar de homicida ainda. Creio que isso deve ter ajudado a espantar o pessoal.

Amélia e Maísa correram na minha direção, pegando uma em cada braço de Angélica.

Você precisa de alguma coisa?

Quer um lanche da cantina?

Mas ela não prestava atenção nelas, estava de olhos fixos no meu rosto.

Plínio, espero não ter te metido em encrencas, eu ia detestar ser responsável por alguma briga...- ela parecia arrasada, o que me deu ainda mais raiva daquele cara. A garota era legal demais pra merecer ter a confiança estilhaçada da pior maneira.

Dei a ela um sorriso despreocupado.

Não esquente sua cabeça com isso, Angélica. Ele merece mesmo umas porradas.

Nisso ele está absolutamente certo! — Amélia sorriu e piscou pra mim.

Angélica não se deixou levar. Tinha jeito mesmo, de quem se apega com tudo no que pensa.

Por favor, fique longe dele, ele sabe se defender, Plínio. Não quero nada de pancadaria. Só...- os olhos dela se encheram de lágrimas — ...paz, pra mim poder reorganizar as idéias.

Filho da puta! Se tem uma coisa da qual tenho verdadeiro nojo é falta de fidelidade e lealdade. Um pensamento estranho pra um cara da minha idade, e que vive numa época em que isso parece não ter valor nenhum, mas se eu aprendi algo com meus pais é o de tentar ser íntegro em cada momento da sua vida. É uma prática que levo a sério ( ou tento, mesmo que eu enfie o pé na jaca às vezes).

Tudo bem, Angélica, não vou me meter com ele em respeito a você. E só por isso, porque ele precisa mesmo levar uma cabeçada.

Ela riu, enquanto Francis lhe entregava um lenço. Ele sim, anda com lenços no bolso.

Ah, depois o Galahad sou eu.

Você conseguiria fazer isso? — questionou Maísa, piscando meio surpresa.

Franks se adiantou.

Acredite, ele pode transformar Adriano numa massa disforme e ensanguentada, mas ele não vai fazer isso.

Não, não vou. Não pratiquei boxe pra usar desse jeito. Mas...

Amélia entortou os lábios num sorriso de boca.

Sempre há um caso de exceção – ela disse.

Encolhi os ombros, sem dar resposta.

A sineta dando fim ao recreio tocou.

Vamos indo, pelo que ouvi dizer é Educação Física agora – Franks saiu do meio das meninas, que seguiram na frente e veio ficar ao meu lado, alguns passos mais atrás – Mandou bem, ele precisava que alguém baixasse aquela crista.

Por que Angélica namora ele? — indaguei, genuinamente curioso – Meu, só de olhar pra ele dá pra notar que não é do tipo que dá segurança.

Francis suspirou, e depois deu de ombros devagar.

Ela gosta dele, Plínio, e você sabe que não dá pra escolher algo assim.

É, não dá mesmo... — olhei pros meus pés e depois pra ele – E então, ainda continua um perna de pau?

Franks me encarou, o olhar cético.

Você vai ver só quem é o perna de pau!Aposta?

Quanto?

Dez.

Fechado.

Prepare sua carteira, é óbvio que vou dar goleada.

Ergui as sobrancelhas.

Tô pagando pra ver...

Ele perdeu. Nunca foi tão fácil abocanhar dez reais. Francis fez dois gols, eu três. Suponho que sendo mais alto e portanto tendo pernas mais compridas, corro mais rápido, o que foi uma ajuda muito útil. Angélica passou o restante das aulas quieta, anotando tudo que tivesse no quadro, sem responder as perguntas sobre Adriano que muitas das meninas vinham lhe perguntar se era verdade.

Eu também ignorei os outros garotos que vinham me perguntar se eu tinha mesmo dado uma lição no ex da Angélica. Isso eu consegui em parte com a ajuda da Amélia, que mandava todo mundo cuidar de suas vidas e nos deixar em paz. A última aula foi de Geografia,e na saída, eu, Franks, Amélia, Maísa, Dalith e Angélica fomos surpreendidos por uma aglomeração no outro lado da rua. Tinha até um furgão com o slogan da rede de televisão local a SerpenTV.

Que diabo é isso? — perguntou Francis, espichando o pescoço – Até a televisão está aqui!

É mesmo – Amélia dava pulinhos, pra ver se conseguia ver além das mochilas e cabeças dos nossos colegas – Mas seria bom se as pessoas saíssem da frente!

Em vez de ficarmos aqui como cinco patetas, por que não atropelamos todo mundo e vamos dar uma olhada? — sugeriu Angélica com ar de quem adoraria empurrar alguém pra extravasar o que tinha acontecido com ela na hora do recreio.

Não é má idéia mana, mas não precisamos empurrar ninguém pra passar – disse Dalith, arregalando os olhos pra irmã, com expressão severa.

Dane-se – Angélica encolheu os ombros e foi indo – Querem fazer o favor de andar!? — ela ordenou virando a cabeça pra trás ao notar que não a seguíamos.

Todos nós corremos na direção dela, tentando ao máximo não pisar no pé de ninguém e caso o fizéssemos pedíamos desculpas, mas é que estávamos seguindo uma maluca de pedra que não sabia conter a curiosidade. E admitamos, nem os amigos da garota maluca de pedra.

Acabamos perto do furgão da TV, onde a repórter entrevistava um homem de óculos, que parecia muito feliz.

Sem dúvida é um grande ganho para a comunidade e para a história da nossa cidade, além do que será transportado para o museu, onde todos poderão ir ver – o homem dizia a moça que segurava o microfone.

Então o acesso será pra todos? — ela questionou com um sorriso polido.

Com certeza!

Alguém puxou meu braço.

Olha aquilo – Maísa fez um sinal de cabeça pra frente .

Olhei naquela direção.

Era apenas um terreno baldio, mas que estava a pleno vapor, com gente correndo pra lá e prá cá por sua extensão, enquanto uma escavadeira abria caminho pela terra, com a ajuda de mais uns caras com pás.

Angélica só faltava pular o muro de tanta excitação, estava curvada sobre ele, os olhos esbugalhados. Amélia e Francis conversavam um com o outro, os rostos cheios de dúvidas. Dalith, logo que a repórter – uma loura muito gata – abandonou seu entrevistado, praticamente subjugou o cara pra um relatório completo, já que balançava as mãos entusiasmada e falava sem parar. Bem, que ela e Angélica eram irmãs gêmeas não dava pra negar.

Ela voltou correndo pro nosso lado.

Vocês nem vão acreditar!

O que foi? — perguntamos eu e Maísa ao mesmo tempo.

Acharam um artefato arqueológico, aqui! Não é demais?

Nossa! E já está famoso! Você perguntou o que é?

Nem ele sabe exatamente do que se trata – respondeu Dalith, observando os homens cavarem com avidez.

Afinal de contas, quem é ele? — perguntei, percebendo que o homem de óculos e a repórter tinham voltado a conversar, mas em off.

Professor Jefferson, do curso de História da UES – ela respondeu sem tirar os olhos do trabalho do pessoal no terreno, onde mais montes de terra apareciam a cada segundo.

Bem, não é de se espantar que ele esteja aqui – eu dei risada – É isso que historiadores fazem, resgatam o passado. Mas ele não sabe mesmo o que é?

Eu estava curioso mesmo, porque parecia ser algo bem valioso, se considerarmos como os caras com as pás jogavam terra pra cima a toda velocidade.

O departamento recebeu um telefonema esses dias, um grupo de jovens estava aqui fazendo sei lá o que, e parece que um deles tropeçou sem querer numa pedra que tinha umas escritas engastadas esquisitas. Então ligaram pra universidade e eles vieram pesquisar no local, e descobriram que as escritas esquisitas engastadas eram na verdade um dialeto italiano. E que diziam que ali jazia a maldição das aberrações do mundo.

Arregalei os olhos pra ela. Minha nossa, o negócio era forte então? Maldições das aberrações do mundo? Uau. Isso era bem coisa de Idade Média.

Estava escrito isso? — Maísa parecia pasma do meu lado – Caracoles! Parece coisa de filme de terror!

E não acabou ainda! — Dalith bateu palmas e depois as uniu como se rezasse – Parece que até onde eles conseguiram traduzir estava escrito assim: Aqui jaz a maldição das aberrações do mundo, de onde só os seus legítimos senhores a libertarão... E aí eles não conseguiram saber o que mais estava escrito, a pedra está muito desgastada pelo tempo...

Você, hem, já sabe o que vai fazer de faculdade?

Dalith me olhou confusa.

Não, por que?

Devia fazer Jornalismo, vai se dar muito bem! — exclamei com veemência. Ela piscou os olhos e colocou a mão no queixo.

Hum, não tinha pensado nisso... — o olhar dela ficou vago.

Eu e Maísa rimos.

Franks, Angélica, e Amélia vieram nos fazer companhia, derrapando um pouco antes de pararem.

Já souberam? É uma escavação arqueológica! — Angélica falou, o entusiasmo em cada sílaba.

Vamos ficar famosos! — exclamou Francis, quase derrubando a mochila dos ombros.

Ao olhar pra ela, não sei porque cargas d'água lembrei do meu avô. Eu tinha que ir esperá-lo na frente do portão da escola!

Pessoal eu tenho que ir, meu avô vai chegar logo, qualquer novidade me avisem! Afinal – olhei pras meninas – vocês moram ao lado da minha casa!E você – Franks abriu um sorriso quando o encarei – Obviamente tem meu celular, e vai me atormentar mesmo que não tenha novidade nenhuma.

Pode apostar!

Tchau, pessoal – balancei a cabeça e rindo atravessei a larga rua, na direção da escola.

Avistei o carro do meu avô estacionado apenas um pouco mais distante dos portões. Me apressei, mas antes que eu chegasse lá, um vento estranho bateu sobre mim, e minha mão ardeu como se estivesse em chamas.

Au! — a ergui e os pêlos da minha nuca se arrepiaram ao ver o que acontecia no lado da minha palma.

A marca que aparecera durante a noite estava em carne viva, brilhando vermelha nos contornos do que eu identifiquei naquele segundo ser mesmo um sol. Puta merda, parecia que alguém estava forçando um pedaço de brasa pela minha pele. Assoprei, pra ver se parava, mas continuou igual.

Então uma sensação estranha me tomou. Me fez olhar pra trás, na direção da escavação. A sensação parecia querer me impelir pra lá de novo, como se algo vital estivesse lá, algo de que eu precisava...

Chaqualhei a cabeça, afastando essa idéia maluca. O que poderia ter naquele lugar que eu precisava? Que eu soubesse nada. A não ser que eu precisasse de terra, e eu não precisava.

O fogo na minha mão se apagou, a marca voltando a aparência de corte de bisturi.

Algum problema filho? — perguntou vovô quando entrei no carro, e jogava a mochila no banco de trás.

Dei um sorriso que esperei ser displicente.

Nada não, só o susto de estar tudo tão mudado.

Ele me deu uma palmadinha solidária no ombro.

Logo você pega o ritmo de volta – e deu a partida no fusca.

Discretamente, observei a marca e engoli em seco.

Aquilo não era mordida de bicho, de jeito nenhum. E não saber o que era me dava um nó na garganta.

Se fosse pra ter respondido ao meu avô com sinceridade eu teria dito só isso:

Sim, vô, estou com problemas, mas não sei explicar, porque não sei do que se trata.

Notas finais
espero q tenham gostado
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.