“Pra um homem que vai morar sozinho, você tem muita coisa” Olivia bufa, subindo as escadas e segurando uma caixa marcada como FRÁGIL.

“Mamãe me mandou algumas coisas que, segundo ela, vão ser úteis.”

Após um ano separado de Kathy, o divórcio foi finalizado há um mês e meio. Elliot finalmente conseguiu encontrar um apartamento entre as crianças e o trabalho é pequeno, com janelas grandes e absolutamente zero personalidade.

“Uau”, Olivia diz ao entrar. “Pra um apartamento de três quartos, ele é bem pequeno… quer dizer, minimalista.”

“Minimalista é escolha. Isso aqui é divórcio.” Ele larga a caixa no meio da sala; o som ecoa mais do que deveria. “Você veio ajudar ou narrar minha tragédia?”

“As duas coisas.” Olivia pisca pra ele, rindo, e em seguida começa a abrir as caixas. “Por que você tem três cafeteiras?”

“Ganhei, aparentemente, todos querem te dar uma quando você se divorcia.” Randall, Sharron e Joe. Ele não vai questionar nenhum deles porque foi gentil, e isso é quase milagroso vindo dos irmãos.


Olivia abriu outra caixa e segurou uma moldura com uma foto dos filhos. “Você quer colocar isso onde?”

Ele hesitou. “Seria pedir demais você me ajudar a montar a cama primeiro?” Elliot convenceu Olivia a ajudar pagando jantar e sobremesa mas tem certeza de que ela vai pedir o dobro.

“Agora você me deve dois jantares.” ela cruza os braços

“Ainda estou no lucro.” Ele dá um sorriso cínico.

Eles montam em um silêncio confortável por 20 minutos, apenas com Elliot guiando como deveriam fazer, até que Olivia quebra o silêncio.

“Elliot, isso não está encaixando, você está lendo errado”, ela reclamou.

“Eu não preciso do manual.”

Cinco minutos depois, a estrutura caiu com um estalo alto.

Olivia cruzou os braços “Claro que não.”

Ele respirou fundo, segurando o impulso de xingar. Não era só a cama. Era tudo. Era o fato de que aquele apartamento vazio era oficialmente a prova de que sua vida tinha mudado.

Depois de finalmente montarem a cama (com as instruções do manual), cercados por caixas, eles foram para a cozinha tomar uma bebida.

Olivia se apoiou no balcão e o encarou. “Então, como está sendo… oficialmente solteiro?”

Ele passou a mão no rosto. “É silencioso.”

Silencioso demais.

“Silencioso como?”

“Como se alguém tivesse desligado um ruído constante que eu já nem percebia mais.” Ele apoiou os quadris na pia.


Sem crianças correndo. Sem discussões abafadas atrás de portas fechadas. Sem expectativas. Só ele. E os próprios pensamentos, que ele evitava com trabalho há meses.

Ela assentiu. “Você se arrepende?”

Ele a olhou, surpreso com a pergunta. Levou alguns segundos para responder, porque precisava ser honesto.


“Amar alguém também é reconhecer quando você não consegue mais oferecer o que essa pessoa precisa. Esse casamento foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, e eu não podia deixar que ele se tornasse a pior.” Ele engoliu em seco. “Kathy merece ser amada incondicionalmente, e eu não tinha mais como fazer isso.” Porque ele já fazia por outra pessoa. “Ela merece alguém que acorde todos os dias olhando para ela como se ela fosse escolha, não obrigação.”

Ele sabe exatamente como é olhar alguém assim e sabe exatamente quando começou. Não foi em um momento dramático, depois de meses de convivência.


Foi no primeiro dia


Sete anos atrás

Ela entrou na delegacia posicionada, preparada enquanto os outros falavam demais, ela ouvia, enquanto tentavam impressionar, ela analisava e quando finalmente falou, foi direto, claro.

Elliot lembra de ter sentido algo estranho e imediato não atração no sentido simples da palavra, mas reconhecimento. Ele tinha encontrado alguém que operava na mesma frequência que ele.

Ele não chamou de amor disse a si mesmo que era admiração profissional. Que era só o alívio de ter alguém competente ao lado. Ele viu como ela se importava com as vítimas, se dedicava a cada um dos casos e como era leal à parceria deles. Em algum momento no segundo ano percebeu que a amava mais do que podia compreender


Olivia suspirou. “Você também merece ser feliz, Elliot.”

Ele a encara enquanto ela balança a garrafa de cerveja, ela está olhando para a pia.

“Eu sou Liv.” Ela ergue uma das sobrancelhas, e ele sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que devia. “Meus filhos estão saudáveis, consegui recuperar a relação com minha mãe, tenho trabalho.” Elliot, em algum momento, vai contar para ela que pretende pedir transferência. “E minha parceira está segura.”

Ela sorriu de lado. “Você sabe que não é disso que estou falando.”

“Olha, eu não pretendo namorar, se é disso que se trata.”

Olivia revirou os olhos. “Duvido!”


“Como um homem recém-divorciado, posso afirmar que não é uma possibilidade.”

Porque a única possibilidade que ele consegue imaginar tem os olhos dela, o jeito dela e a voz dela ecoando nesse apartamento.

“Para Elliot, não é como se você fosse se casar e ter mais cinco filhos. Você deveria sair e namorar.”

Ele soltou um riso baixo.

“Eu posso sair e me divertir sem precisar que sejam encontros românticos. Você deveria seguir seus próprios conselhos, Olivia.” Ele sabia que ela não estava namorando sabia porque ela estava ali, num sábado à noite, ajudando ele a montar a cama.

“Não, estamos falando de você.” Ela se afastou para a sala, e ele a seguiu quase automaticamente.

“Você que ainda quer filhos, então vamos falar de você.” E ali estava a parte feia dele, a parte que sente algo próximo de repulsa só de imaginar ela se casando com outro homem, tocando outro homem, construindo uma vida que não o incluía.

Olivia bebe um gole longo de cerveja. “Eu posso ter filhos de outras formas. Não preciso necessariamente casar.”

Ele sabe, mas o sistema nem sempre facilita para mulheres solteiras.

“Você merece sua chance de ser mãe, mas agências de adoção sempre darão prioridade para casais.” Olivia merece isso mais que qualquer um, e não é justo que ela não consiga.

Ela fungou. “É, eu sei…”

E antes que o cérebro dele pudesse intervir, a boca se moveu.

“Eu me casaria com você.”

Olivia levantou a cabeça abruptamente.

Oh, meu Deus

Ele não pensou


Não calculou.


Não racionalizou


Só saiu.

“Se um dia você quiser adotar, eu me casaria com você.”

Ele consegue ver. Consegue visualizar. Essa sala com brinquedos espalhados. Ela sentada no chão. Um bebê no colo. É tão fácil. Tão claro. Tão assustadoramente certo.

“Deixa de besteira, Elliot.” Ela não aceitaria, ele sabe, mas ele vai lhe dar uma chance para ter o que precisa.

“Se daqui a cinco anos você ainda estiver solteira, eu vou pedir você em casamento aqui nessa sala, e nós vamos adotar um bebê.”


“Ai, Elliot, pelo amor de Deus, para de falar.” ele acha que ela está ficando vermelha

“Estou falando sério.” Ele engole em seco. “Mas, se você quiser antes, também podemos.”

Ele está oferecendo a própria vida como se estivesse oferecendo ajuda para carregar caixas.

“Se eu disser que vou pensar no seu caso, você cala essa boca?”

“Você tem cinco anos para pensar.”

Ele a encara fixamente.

“Nem parece o homem que, dois minutos atrás, disse que não queria namorar”

Ele deu de ombros finalmente desviando o olhar. “O que a gente não faz pelos parceiros, né?”

Parceiros.

Ele se esconde atrás da palavra.

“Eu me caso com você.” Ela diz como se estivesse brincando. Mas há descrença ali. Como se não acreditasse que alguém escolheria aquilo por ela.

Ele escolheria.

Escolheria todos os dias.

No fundo, Elliot sabe que ele daria os rins, daria o sobrenome, daria uma família. Daria estabilidade, daria futuro, daria qualquer coisa que ela pedisse.

Ele já deu o coração.

Ela só ainda não percebeu.

E talvez ele também não tenha coragem suficiente para dizer em voz alta que não é sobre adoção.

É sobre o fato de que, se existe um futuro que faça sentido para ele, Olivia está em todos os cenários.


Notas finais
perdão tenho menor vocação para criar capas