Exspectare
2 silencio
6 MESES DEPOIS
Há experiências que só se compreendem vivendo-as, e ver a pessoa que você ama morrer é uma delas. É como se o tempo se quebrasse; cada músculo trava, cada respiração pesa, e o mundo inteiro se torna uma sombra pesada ao redor de você. Depois disso, tudo que resta é um eco sombrio, um vazio que corrói por dentro, lembrando que nada mais será como antes. Olivia foi ferida, ela não morreu, mas foi o que ele viu e nada nunca mais será o mesmo. Gitano golpeou seu pescoço e em segundos ela estava no chão não havia menor possibilidade dele fazer qualquer coisa a não ser correr até ela, entretanto quando fez essa escolha uma criança morreu e o pior e que ele não se arrepende.
“Como você pôde deixar ele chegar tão perto de você?”
“Eu não posso ficar o tempo todo vendo se está tudo bem com você, né?”
“Seu filho da puta! Você sabe que não é verdade.”
Cuidar e proteger as vítimas sempre fora sua prioridade, era instintivo, uma obrigação silenciosa que carregava consigo. Mas, em algum momento, Olivia tomou esse posto. Não porque precisasse ela era capaz, competente, uma policial inteligente que sabia se proteger mas mesmo sabendo que ela podia se cuidar sozinha, o corroía por dentro que em algum momento o tiro poderia não passar primeiro por ele.
Elliot começou a fazer terapia logo após o divórcio, uma exigência de Kathy para poder compartilhar a guarda dos filhos. No começo, odiava cada minuto. Sentia que se expor, falar de si mesmo para um estranho, era humilhante e desnecessário. Tentava se fechar, responder com respostas curtas, fingir que estava apenas cumprindo um requisito. Mas, aos poucos, algo começou a mudar. Jeff não pressionava, apenas ouvia, e Elliot começou a perceber que podia colocar suas preocupações em palavras sem ser julgado. Cada sessão trouxe clareza sobre pensamentos que antes se embaralhavam em sua mente, sentimentos que ele nem sabia que carregava. O que era para ser apenas dez encontros obrigatórios se transformou em duas sessões por mês, não por imposição, mas por escolha.
“Você me disse que falou com o psiquiatra da unidade.”
“Não adianta você também me dizer que não foi minha culpa. Eu sei que não foi, entendo que… que eu tive que fazer uma escolha difícil e bla bla bla.” Elliot caminhava pela sala de Jeff, passando a mão na cabeça, exasperado. “Eu… eu não consigo deixar de sentir que falhei.” Proteger Olivia sempre fora um reflexo natural, que nunca interferiu no trabalho.
“Falhou com o trabalho?” Os olhos de Jeff acompanhavam Elliot dar passos largos ao redor de sua sala.
“Também.”
“Com quem você falhou além do trabalho, Elliot?”
O consultório fica na casa de Jeff, e ele atende em sua sala, cujas três paredes são preenchidas por estantes de livros. Jeff adiciona móveis de acordo com a necessidade de cada paciente. Elliot gosta de aliviar o estresse através do movimento, então Jeff mantém apenas os assentos para os dois, deixando o restante do espaço livre para que Elliot caminhe conforme seu nível de tensão e hoje é um dos piores dias.
“Com Olivia.” Elliot para em frente à estante dos fundos.
“Me conte o que aconteceu com sua parceira.”
Elliot nunca havia dito abertamente ao Jeff o que sente por Olivia, mas tinha absoluta certeza de que não precisava; ele sabia.
“O suspeito que estávamos perseguindo machucou ela.” Elliot lutava contra a pressão que a vontade de chorar fazia sobre ele. “E eu… eu não pude fazer nada…”
Mesmo de costas, Jeff pode dizer o esforço que Elliot faz para continuar. “Não foi nada sério. Ela ficou bem depois, mas…”
“Mas você não.” Jeff entende que Elliot estava de luto, mesmo enquanto ela ainda respirava.
Elliot vira-se para encarar Jeff, com olhar aflito. “É como se ela tivesse morrido.” Jeff conhecia essa expressão, já a tinha visto em conjugues que perderam seus amados repentinamente.
“Em outro momento, eu fui feito refém por esse mesmo assassino que feriu Olivia e…” Jeff percebe Elliot hesitar, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.
“Ele me usava como escudo contra Olivia.” Elliot inclina a cabeça, como se o pescoço pesasse demais. “Pedi pra ela atirar.” Ele respira fundo.
“É comum situações como essa em campo para vocês?” Jeff precisava saber com que frequência Elliot passava por esses picos de ansiedade quando envolvia a parceira e, principalmente, sobre essa tendência suicida sempre que ela corria perigo.
“Nosso trabalho é perigoso, assim como o de qualquer outro policial. Apesar disso, nós dois juntos nunca passamos por algo parecido.” Elliot se machucou muitas vezes, quase contraiu HIV, perdeu a conta de quantos tiros de raspão levou, e Olivia também passou por momentos difíceis. Mas nenhum dos dois havia visto o outro quase morrer.
“Você falou com ela sobre tudo isso?” Jeff não precisou de muito para entender que Elliot vinha de uma família onde a comunicação não era uma ferramenta para a solução de problemas.
“Sim, não foi bom.” Ele lembra de insinuar que a culpa foi dela e, ao se lembrar disso, contrai a mão, como se a lembrança fosse dolorosa, e caminha de volta para o sofá, no meio da sala.
Jeff espera ele sentar. “Elliot, a morte impõe o desespero do definitivo. Vocês são parceiros há mais tempo que a média dos parceiros na maioria das unidades, e o relacionamento de vocês naturalmente vai além do profissional, são amigos e você quase a perdeu.”
“Só preciso que esse sentimento pare, para que eu possa continuar trabalhando sem esse peso… O que eu faço?”
“Você chora!”
Elliot olhou confuso, as lágrimas brilhando em seus olhos.
“Elliot, quando estamos sofrendo e angustiados, nós choramos. Se permita sentir, como foi quase perdê-la.” As lágrimas, que antes resistiam nas bordas, finalmente cederam.
“Olivia é importante para você. Deixe-a saber que se importa.”
Jeff dá o tempo que Elliot precisa, mas ele não demora. Mesmo com o progresso que fizeram desde a primeira sessão, Elliot não se permite ser vulnerável por muito tempo.
“Lembra da nossa conversa sobre minha transferência, há uns meses?” Jeff tentou não expressar alívio ao ouvir Elliot mencionar a transferência, pois, para Jeff, isso era algo que Elliot deveria ter feito há anos. Ele é perfeito para a SVU, mas a SVU exige um preço que Elliot não tem mais como pagar.
"Tentar."
“Acho que chegou a hora.”
Assim que Elliot deixa a casa de Jeff, vai direto para a delegacia, pois precisa falar com capitão e ainda tem papelada esperando por ele, sempre tem. A primeira pessoa que vê é Munch, sentado e bebendo aquele café forte e intragável que ele mesmo faz. Elliot olha para o escritório do capitão e percebe que vai precisar de um pouquinho mais de tempo.
Ele vai até sua mesa, senta e sente o cansaço no fundo, como um peso que se arrasta com ele. Olha pra frente. Olivia ainda está de folga, ela quase sempre usa todos os dias que pode. Ele chegou antes, sabendo que, para fazer o que tinha de fazer, ela não poderia estar ao alcance de seus olhos. Se estivesse, não conseguiria.
“Munch, como está o humor do capitão?”
“Diria que feliz, já que ele não precisou olhar pra essa sua cara feia.” Elliot finge gargalhar e se levanta em direção ao escritório. “Capitão, tem um minuto?”
Cragen ergue os olhos devagar. “Elliot, eu deixei bem claro que você estava de folga.”
“Acabei de chegar e vim direto falar com você,” ele mente.
“Diga.” Cragen tenta arrumar a papelada em sua mesa.
“Decidi que vou pedir transferência.” Ele estufa o peito na tentativa de parecer sério e decidido, mas se assusta com o pulo de Cragen da cadeira. “Ah não, você também? Que diabos aconteceu com vocês?”
“O quê?” Elliot inclina a cabeça, confuso.
“Olivia pediu um novo parceiro.” Elliot sente o ar sair de seu peito.
“Elliot, você tem certeza disso?” Agora ele tem mais certeza do que nunca.
“Absoluta.” Ele precisa falar com ela agora.
“Vou fazer algumas ligações, mas isso pode levar um tempo. Até lá, você fica com o Fin.”
"OK."
“Agora, por favor, converse com Olivia e resolvam isso. Não quero nenhuma briga nos corredores dessa delegacia, entendeu?” O tom endurece, mas o sentimento não é autoritário, quase é paternal.
A lentidão do trânsito se estendia diante dele, congestionado, veículos imóveis que brilhavam sob o céu escuro, e sua irritação latejava no mesmo ritmo das luzes vermelhas que piscavam. A chuva, que antes era tímida, agora se fazia persistente e fria, tamborilando no teto do carro como dedos impacientes, enquanto buzinas estridentes rasgavam o ar. Ele apertava o volante com força, os nós dos dedos pálidos, sentindo crescer no peito a frustração de saber para onde estava indo. Cada avanço mínimo parecia zombar de sua ansiedade. Ele precisava entender como fora tão fácil para ela romper a parceria deles, quando ele passou meses apenas pensando se realmente deveria pedir transferência.
Ele bate na porta, e cada batida ecoa mais dentro dele do que no apartamento.
Silêncio.
Ele percebe a presença dela chegando perto da porta.
“Abre, Olivia, eu sei que você está aí.”
“Elliot, vai pra casa, não temos que conversar hoje.”
Ele cerra os dentes. “Você pediu um novo parceiro.”
Ela abre a porta imediatamente.
O olhar dela está duro, mas os olhos estão cansados.
“Por que você não me contou?” Ela abre espaço para ele entrar.
Ela fica calada, e desvia o olhar para o chão, onde seus pés descalços estão pressionados contra o piso. “É o melhor pra nós por um tempo...” Ela diz ‘nós’, mas soa como sentença unilateral.
Ele vê o ferimento novamente, e a raiva cresce dentro dele, mas não contra ela. “Quando você ia me contar? Quando a gente voltasse ao trabalho e você estivesse ali, sentada em frente ao Munch... como se eu não merecesse saber antes?” Ela fica em silêncio. “Você me devia uma explicação, Olivia... Nós ainda somos amigos, ou eu fui o único que acreditava nisso?”
“Para, Elliot, você está dramatizando.” Ela tenta amenizar, mas ele é como um carro sem freio vindo na direção dela.
“Quer saber, eu iria te contar amanhã, mas vou facilitar pra você. Minha transferência vai ser daqui a alguns dias, e você terá todo o espaço que precisa.” Ele vai em direção à porta.
“Você O QUÊ?” Ela avança atrás dele, o segurando pelo braço.
Ele vira e a encara, com o rosto a centímetros do dela. “Eu vou sair da unidade, mas ainda assim te deixaria saber antes.” Ela sente o ar escapar do seu pulmão, sua testa se franze, a boca se abre, e ela se afasta dele.
“Você é inacreditável, eu pedi distância, não um adeus. Você simplesmente pediu transferência como se isso fosse igual.” Elliot volta para perto dela, segurando seu olhar.
“Não, não é no entanto, meus motivos nada têm a ver com você. Eu nunca iria me afastar.” Com o olhar ainda preso ao dela, ele diz: “Você é minha amiga, minha melhor amiga. Não é uma possibilidade me afastar de você.”
Olivia respira com dificuldade, mas faz o possível para não deixar ele perceber. “Elliot, você estava lá, você me colocou naquela posição. Você me obrigou escolher te matar.” Olivia vira de costas para ele, em frente ao sofá. “Eu não vou ficar lá pra ver você morrer.” A voz dela sai mais baixa do que pretendia.
Ele fica em silêncio, sentindo o aperto no peito e a distância entre eles aumentar. Parado na porta, olhando para ela ainda de costas, desenhando círculos no encosto do sofá. Ele reconhece que esteve pensando apenas em si mesmo, sem considerar como tudo aquilo a afetava. “Vamos dar o tempo que nós dois precisamos.” Ele mente parcialmente. Não precisa de espaço; na verdade, ele precisa estar ainda mais perto, sentir com as próprias mãos que ela está viva.
Mas, se ela precisa disso, ele dará.
Olivia vira-se e ele vê seus olhos brilhando com raiva e mágoa. “Sim, é o que devemos fazer.”
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