Expresso para o Fim da Vida

2 ANTES - Cap.1 - O Primeiro Ato


Notas iniciais
Gente, essa aqui é o primeiro capítulo da primeira parte do livro, chamada ANTES. Aqui mostrarei o passado do personagem Theo, para que vocês se familiarizem com ele logo de primeira. Tudo na visão do próprio, é claro. Então, boa leitura.

A história é a seguinte: eu não consigo ficar parado no mesmo lugar por muito tempo e é por isso que estou em constante movimento. Talvez você me veja correndo sobre uma pista de pregos, ou então flutuando dentro de uma piscina de álcool, ou por que não pulando de paraquedas de cima de um prédio? Uns acham que sou louco e que não tenho amor à vida, só pelo simples fato de não conseguir permanecer parado. Mas vale o risco. Prezo uma aventura e sou inimigo da rotina. Não tenho paciência para ficar tendo sonhos. Eu simplesmente os faço.

E quer saber? Tenho orgulho de mim mesmo por não ter medo do perigo. Porque o medo de estar em perigo é bem pior que o perigo em si. O medo de estar em perigo te impede de ver a vida com outros olhos, de se aventurar pelos cantos da Terra, de fazer o que se tem vontade de fazer. Ter medo de estar em perigo te impede de ser feliz. E ainda bem que não desejo ser feliz, porque “desejar” significa “ainda não ter”, e felicidade eu tenho de sobra.

Esta não é uma história sobre o perigo.

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Eu não era um garoto normal. Enquanto os garotos normais brincavam com as suas miniaturas de carros e choravam quando uma rodinha saía rolando, eu brincava com carros de verdade, daqueles grandões mesmo, sempre trocando os pneus e encerando os vidros dos veículos da vizinhança. Meu pai me influenciava muito, sempre me dizendo que eu tinha um dom incomum e que, quando eu crescesse, seria um dos melhores mecânicos do país. Ele sempre me arrumava carros de pessoas que eu não conhecia para encerar, e no final do dia, me dava uma parte do dinheiro que ele arrecadava com isso.

Mamãe odiava tudo e não aceitava nem um pouco que eu trabalhasse duro assim. Sempre dizia que o meu lugar era em casa, brincando de carrinhos, desde que não fossem de verdade, fazendo o que uma criança normal deveria fazer. Os dois sempre acabavam discutindo ao final do dia. Mamãe gritava para papai, alegando que ele estava trocando a minha infância por uns meros trocados, e papai gritava para mamãe, dizendo que só estava me mostrando como a vida adulta era.

Mas o fato era que eu nem ligava para o trabalho em si e sim para os carros. Sempre sonhava em poder dirigi-los, em poder navegar pelas ruas e acenar para as pessoas, sentado no banco do motorista. Conseguia até imaginar meu nome impresso em uma carteira de habilitação e meu rosto de felicidade estampado em uma foto 3x4.

Aos dez anos de idade, eu sonhava em ser motorista.

E foi desse sonho que o meu primeiro ato de aventura surgiu.

Esta não é uma história sobre carros.

Eu havia acabado de completar onze anos, quando decidi dirigir um veículo pela primeira vez. Eu sabia mais ou menos como se dirigia, pois sempre observava as pessoas ligarem seus carros, darem a marcha, manobrá-los e estacioná-los. Mas quais eram as chances de uma criança de dez anos de idade dirigir um carro sem que fosse pega? Quase 0% de chances.

Mas as chances não importavam, porque, correndo o risco ou não, eu estava disposto a tentar.

As três únicas opções de escolha que eu tinha não eram muito aconchegantes. A primeira era dirigir o fusca velho do tio Ernie, que me fazia engolir fumaça sempre que era posto para funcionar. O carro tinha uns trinta anos de vida e provavelmente me deixaria na mão na primeira esquina em que eu parasse, então descartei esta opção. A segunda era dirigir a picape suja de meu pai, que engolia mais gasolina do que eu engolia comida. O problema era que papai havia saído com ela no dia e só voltaria ao entardecer, então também descartei esta opção. E a terceira e última era dirigir a minivan de Chelsea, que havia acabado de sair da funilaria, toda pintada de rosa-pink. O único obstáculo era a própria Chelsea, que circulava pela casa atenta a qualquer travessura minha, pronta para ligar para mamãe e me dedurar.

Então esperei ela cair no sono e dormir estirada no sofá de casa, e corri para a garagem, abrindo silenciosamente o portão eletrônico. Como minha irmã tinha uma ”inteligência invejável”, ela sempre deixava a chave na porta da minivan. E isso facilitou bastante na hora de invadir o veículo cor de rosa. Já estando dentro, engatei a chave na entrada e a girei, fazendo a minivan estremecer e relinchar.

E até aí, eu me saí super bem.

Até que acelerei.

Esta não é uma história sobre minivans.

Até a primeira esquina, tudo bem. Nada de lixeiras despedaçadas, plantas esmagadas e postes caindo. Nada de pessoas gritando e correndo. Nenhum sinal da polícia. Para falar a verdade, até que eu estava dirigindo bem. Não como um motorista de verdade, com carteira de habilitação e tudo. Era tipo um motorista de carrinho de bate-bate.

Um desgovernado motorista de carinho de bate-bate.

Quando atravessei a primeira esquina, os problemas começaram a surgir. De um lado, um caminhão de rações vinha em direção contrária. (lembro até o nome da marca da ração: Peteleca). Do outro lado, um carrinho de cachorros quentes. (ele tinha o formato de uma salsicha, o que sempre atraía os cachorros da vizinhança para ele). Desviei do caminhão, mas não consegui desviar do carrinho. E quando vi, dúzias de pães e salsichas voavam pelo capô, junto com dois potes cheios de catchup e mostarda, que caíram por cima dele, deixando o vidro da minivan todo pintado de vermelho e amarelo. Instintivamente, acionei os para-brisas, que tentaram limpar a sujeira e só pioraram a bagunça.

A única saída era frear. Mas lá se iria a minha aventura. Todo o tempo gasto com carros. Todo o esforço para pegar a minivan. Então decidi continuar, mesmo que no final eu terminasse caindo dentro de uma vala qualquer. Acelerei mais ainda.

E logo, a segunda série de desastres surgiu. À frente da minivan, a cena mais clichê dos filmes de ficção: uma velhinha atravessando a rua com o seu andador. No caso dos filmes, sempre havia um super-herói para salvá-la da morte certa. Só que eu não me encontrava em um filme de super-heróis. E não haveria nenhum para salvá-la.

Eu teria de ser o seu super-herói.

Esta não é uma história sobre super-heróis.

Hoje em dia, a velhinha do andador já deve estar com uns dez anos de idade depois de reencarnar. Provavelmente, deve estar por aí brincando de boneca ou de carrinho em um outro país, falando uma outra língua, vivendo novamente a sua vida, sem lembrar de nada da vida passada. Sem lembrar que, num dia de verão de 2005, um garoto maluco, dirigindo uma minivan cor de rosa, não desviaria de um cachorro e consequentemente, mandaria ela pro beleléu. Sem lembrar que não surgira nenhum super-herói para salvá-la.

Pobre coitada!

Esta não é uma história sobre velhinhas.

No fim das contas, tirando o fato ter dado um prejuízo danado ao dono do carrinho de cachorros quentes, como também um prejuízo moral à família da velhinha, eu havia me saído muito bem dirigindo. Fala sério, nenhuma criança de onze anos dirigia melhor do que eu.

Mas também, provavelmente, nenhuma criança de onze anos apanhou tanto quanto eu. Quando minha aventura acabou, depois de bater a minivan numa grande árvore do jardim principal do bairro, a barra forçou para o meu lado. Papai ficou uma fera. E não digo fera no sentido de “furioso”. Digo fera no sentido banal da palavra mesmo. Só faltou ele ficar verde e falar “Eu sou o Hulk”.

Se não fosse por mamãe, papai teria me espancado até a morte. Eu certamente teria ficado na mesma “Fila de Desembarque do Fim da Vida” que a velhinha do andador tinha ficado. Provavelmente na hora que chegasse a minha vez, ao invés de receber um vale-paraíso, eu receberia um vale-inferno. E triste, veria a velhinha rindo de mim e andando sem o andador em direção à luz, enquanto eu ia direto para o “forninho”.

Ah, que velhinha safada.

Esta não é uma história sobre filas de desembarque.

A primeira aventura da minha vida pôde ser resumida à: 1) destruir um carrinho de cachorros quentes, depois 2)matar uma velhinha de andador, e então 3) bater a minivan em uma árvore, para no final 4) ser espancado pelo meu pai e 5)chamar a atenção da polícia, resultando na inesperada 6) prisão dele.

E quando nada poderia piorar a situação em que eu me encontrava, uma bomba explodiu sobre minha cabeça: 7) eu teria que ir para um colégio interno.

Um colégio interno a milhas de distância de casa.

Mas esta não é uma história sobre colégios internos.

Notas finais
Então, o que estão achando galera? Espero que tenham gostado e se familiarizado um pouco mais com o carismático Theo. Deixem comentários dizendo o que acharam do jeito dele e o que gostaram nesse primeiro capítulo. Nos vemos no próximo, que sairá excepcionalmente na Páscoa. Bjos :D