Expresso para o Fim da Vida

3 Capítulo Dois - Segundo Ato parte um


Notas iniciais
Posto a segunda parte amanhã (13/04) quando eu estiver em casa - estou viajando - e poder liberar mais capítulos.

Mamãe era obcecada por colégios internos. Tipo, ela passava dias e noites procurando pela web informações sobre os melhores internatos do país. Analisava os preços, calculava a distância, pensava e repensava na quantidade de roupas que eu teria de levar se eu fosse para um. Ela era superobcecada.

Uma vez, quando eu tinha oito anos, ela tentou se tornar amiga de uma empresária famosa, que tinha um filho matriculado em um renomado colégio interno do país. Chegou a ir a sua casa e teve a cara de pau de pedir a ela que conseguisse uma vaga para mim junto ao filho dela, no mesmo quarto que ele, com os mesmos benefícios e serviços. A empresária se irritou e a mandou para fora aos insultos. Mamãe saiu humilhada da casa da mulher, que ainda disse que nunca deixaria o filho rico se misturar com alguém pobre como eu.

Aquilo foi a gota d’água para a saúde mental de mamãe. Ela já vinha enfrentando sérios problemas de cabeça, e aquilo só piorou tudo. Naquele mesmo dia, papai ficou possesso quando soube e gritou a noite inteira com ela. Ameaçou-a com um cinto e cuspiu em sua cara uma série de insultos e palavrões. E desde então, ela entrou em depressão profunda e parou de insistir em me colocar em um internato.

Até que eu fiz o que fiz, e a chama obsessiva dela voltou a crescer. Depois da prisão de meu pai, mamãe pareceu se libertar do casulo depressivo no qual ela se encontrava e varou as noites na internet, utilizando todas as ferramentas de buscas que conseguiu encontrar. Visitou sites, mandou e-mails para representantes e ligou para as mais variadas instituições particulares do mundo. Mas com o meu histórico agressivo, a resposta era sempre não. Até que ela o encontrou.

O Internato Saint Laurence.

O St Laurence era um dos internatos masculinos mais prestigiados de país naquela época, talvez pela sua reputação impecável e seu modo “divertido de ensinar”, como diziam os panfletos. O internato atraía jovens de todos os cantos do mundo, e o número de matriculados quase sempre ultrapassava o número máximo de alunos permitidos na instituição.

O problema era que, para conseguir uma matrícula no St Laurence, o jovem devia ter um dos três requisitos necessários: 1) Ser um super nerd e conseguir fazer um simulado monstro de duzentas questões, envolvendo todos os tipos de perguntas, com o mínimo de acertos sendo cento e cinquenta, para ganhar uma bolsa gratuita; 2) Estar disposto a pagar dez mil reais por mês à instituição, garantindo todos os serviços do colégio, desde quartos Premium à organização de festas e shows fora do campus. 3) Ou ser um jovem irresponsável, imaturo e que tivesse um histórico agressivo, porém arrependido de seus atos, para fazer parte do Programa de Jovens Arrependidos em Busca da Luz, que acontecia internamente numa ala afastada do resto dos alunos, cercada de religiosos de mentes-fechadas.

Mamãe não hesitou em momento algum. Achou a ideia de me matricular no PJA uma maravilha, já que eu receberia o ensino adequado a minha idade e ainda de sobra seria convertido para a Luz. Aquilo era o sonho dela. Sem velhinhas mortas, sem carrinhos destruídos, sem ninguém preso. Apenas eu, contido em um lugar cheio de religiosos, que me tornariam um homem de verdade.

Mas aquele era o ponto de vista dela. Não o meu.

Esta não é uma história sobre religiosos.

Aliás, tudo depende do ponto de vista. É tipo aquela história: toda coisa ruim pode ser considerada boa aos olhos de uns e toda coisa boa pode ser considerada ruim aos olhos de outros. Tudo depende do ângulo no qual se é observado. Olhar por todos os ângulos permite-nos formular uma opinião mais concreta sobre a coisa em questão. O problema é quando as pessoas de mentes-fechadas e limitadas só conseguem enxergar um ângulo apenas e acham que o único ponto de vista correto é aquele que elas conseguem enxergar. E então, como se não bastasse, acham-se donas da razão e descriminam as pessoas de mentes-abertas, que conseguem ver além de um único ponto, o que acaba as levando para uma guerra falha de opiniões divergentes.

É a mesma coisa que eu disser que não acredito em Deus e uma penca de religiosos voarem para cima de mim, prontos para me entupirem de palavras e versículos. É tão lastimável ver as pessoas não respeitarem o ponto de vista das outras, que chega a ser cansativo. E eu estou dizendo tudo isso porque eu já sofri muito nas mãos de pessoas assim e sei como é triste não poder expressar seu ponto de vista sem que você seja esculachado, ou no mínimo, trancado em uma solitária.

E sim, eu já fui trancado em uma solitária.

Mas vamos por partes.

Esta não é uma história sobre pontos de vista.

Quando o tão esperado dia chegou, mamãe começou a pular de alegria, sentindo-se realizada. Só faltou ela se esconder dentro de minha mala e ir comigo para internato, que ficava às incríveis trezentas milhas longe de casa. Mamãe fez questão de pagar caro na passagem de avião, usando quase todas as suas economias. Até porque não era todo dia que o seu único filho viajaria para o outro lado do oceano pacífico, para estudar em um colégio interno durante um ano inteiro, com direito a aulas religiosas e trabalhos árduos durante a tarde, sem direito a descanso e diversão. Destinado a seguir um único ponto de vista: o deles.

Eu meio que não tinha opção. Mesmo se eu fosse uma criança que gritava, esperneava e chorava quando queria ou não algo – o que eu não era de jeito nenhum, só pra deixar claro, enfim –, mesmo se eu fosse uma criança escandalosa, eu teria que ir de qualquer jeito para onde minha mãe quisesse que eu fosse. Eu estava sem saída.

Mas quando eu entrei no avião, depois de uma longa despedida cheia de beijos e lágrimas desenfreadas de minha mãe, senti um pouco de paz misturado com um pouco de excitação. Tipo, eu estava indo para outro país, ver novas pessoas, explorar novos lugares, descobrir novas coisas. Eu estava começando a ver o mundo em nova perspectiva. Em um novo ponto de vista. E quando o avião subiu ao céu, percebi que estava vendo o mundo em um novo ângulo, totalmente diferente de tudo o que eu já tinha visto. E foi daí, desse ângulo recém-descoberto, desse novo ponto de vista que surgiu a mim, que o meu segundo ato de aventura nasceu. E ninguém iria me parar.

Disso, eu tinha certeza.

Esta não é uma história sobre ângulos.

Notas finais
Favoritem e comentem, pessoal. Até mais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.