Exorcistas: Cidade Das Trevas
1 Prólogo
Notas iniciais
Vaticano, sábado, 17h40min.
A missa havia acabado há pouco tempo, a tarde estava calma demais até mesmo para um lugar como este. Tudo corria bem. As pessoas estavam partindo para suas casas após uma gratificante missa com o Papa.
A Basílica Papal de São Pedro ainda estava lotada. Vários turistas estavam um pouco frustrados por não poderem tirar fotos ou gravar qualquer coisa no interior da santa igreja. Nesta ocasião, parece que os sete bilhões de seres humanos da Terra estavam presentes ali, pois era difícil se locomover. Logo após a missa, o Papa resolveu aparecer para aqueles que não conseguiram acompanhar a missa e logo começou o encontro, citando algumas passagens da Bíblia.
Luca Carminati estava tomando um café não tão longe da igreja. Um rapaz alto, com cabelos lisos penteados totalmente para trás, com uma barba cerrada e seus olhos tinham um tom azulado que definitivamente lembrava o oceano. Logo pegava algum jornal brasileiro para olhar as notícias. Luca falava português fluentemente. Por quê? Tinha familiares no Brasil e precisava entender bem para se comunicar.
Finalmente Luca dá seu último gole e logo levanta, para olhar o relógio.
– Buona notte. O café estava magnífico. Importa-se se eu ficar com este jornal? – Sua voz era um tanto comum, nem tão grave, nem aguda. Logo tirava o dinheiro da carteira e colocava ali em cima da mesa.
– Sem problemas algum, meu bom rapaz. É todo seu. – o dono da cafeteria soltava um sorriso ao pegar o dinheiro e logo voltava aos seus afazeres.
Luca se dirigia à Praça São Pedro e logo viu a multidão embasbacada olhando para o Papa, como se estivessem vendo o próprio Deus. Era possível ouvir muitas pessoas chorando, rezando, rindo. Ele decidiu que ali não seria um bom lugar, mas procurou algum lugar para sentar-se e logo pegou o jornal e se deparou, mais uma vez, com a notícia um tanto estranha, na capa:
“Belém sofre com a maior onda de doenças já existente no Brasil”
Ele parou um pouco para pensar e lembrou que esse era o nome da cidade onde sua família residia. Também leu que o desemprego reinava naquela área. Pensou em pegar seu telefone para verificar como seus familiares estavam, mas ao meter a mão no bolso do sobretudo, percebeu que havia esquecido seu celular em casa. Soltou um xingamento para si e parou para prestar um pouco de atenção no que o Papa estava falando.
O mesmo comentava sobre algumas passagens do Apocalipse, o que deixou Luca bem surpreso, mas ouvia com calma quando notou que outro rapaz, de sobretudo preto, com um emblema estranho estampado nele e um chapéu que quase cobria seu rosto estava virado para a sua direção, parecendo estar observando-o. Luca olhava discretamente o rapaz e, após algumas piscadas, o homem sumiu como num passe de mágica. Ele coçou os olhos e logo voltou a ler o jornal. Após um tempo, levantou-se e começou a caminhar para o ponto de ônibus mais próximo, era hora de voltar para casa.
Toulose, sábado, 11h40min.
– Merde, hoje é sábado. Por que diabos eu estou programando e diagramando essas porcarias? – Resmungava Jade Chevalier, era uma moça de altura mediana, tinha os cabelos loiros bem claros e seus olhos faziam jus ao primeiro nome. Sua pele era branca como a neve. Além de ser webdesigner e cientista da computação, era a secretária do seu chefe.
– Não se preocupe, Jade. Hoje temos poucas coisas para fazer. – Respondia Gisele, dando um sorrisinho cínico para a moça, zombando da reclamação dela. – Você sabe como o chefe é. Tudo tem que ser feito quando ele quer e na hora.
Logo entrava um rapaz na sala, alto e robusto, olhando para Jade.
– Chevalier, a sua família reside em que país mesmo? – perguntava o chefe, num tom de preocupação.
– A...minha família mora no Brasil, chefe. Aconteceu algo? – Jade notou o tom de preocupação e logo sentiu algo estranho.
– Aparentemente está havendo uma epidemia em uma das cidades lá. Aquela que acontece o tal do círio de Nazaré ou sei lá como se chama. Você sabe, aquela festa religiosa. – o rapaz era ateu, não sabia de muita coisa sobre.
– A cidade se chama Belém. Minha família mora lá...
Jade se dirige ao computador e logo começava a procurar informações em sites brasileiros de notícia, os quais ela entendia muito bem. Ela nasceu na França e foi bem jovem para o Brasil, aprendeu a ler e escrever lá. Teve um pouco de dificuldades com o francês quando retornou ao país natal. A moça arrepiava-se a cada vez que lia as notícias em sites diferentes.
“Belém sofre com a maior crise de doenças, trazendo várias pessoas à morte de formas estranhas. O desemprego também é um dos fatores que está reinando na cidade, devido a cortes”.
A moça logo pegou o telefone e começou a discar o número da família quando um número totalmente estranho aparece no seu celular. Jade, sem saber o que fazer, atende na esperança de que seja alguém da família.
– Alô? Mãe? – falava a mesma, com um tom de desespero.
Ela ouvia uma respiração do outro lado, sabia que tinha alguém ali. Logo ouvia uma risada aguda e debochada.
– Hihihi...ah, Chevalier. Como é bom poder ouvir a sua voz de novo, já estava com saudades dessa voz me expulsando de volta para o inferno. – falava aquela voz não familiar para ela, logo desligando o telefone.
A moça ficava sem entender e logo pegava o telefone para tentar contatar sua família. A mão já estava tremendo, logo seu chefe depositava um copo com água em sua mesa.
– Jade, tenha calma. Você pode ir para casa se não estiver bem. – falava o chefe um pouco preocupado com a garota – Lá você pode tentar falar com sua família.
– Obrigada, Pierre – começava a arrumar sua bolsa, jogando todas as coisas lá dentro, bebia a água que estava com um pouco de açúcar e logo saia do escritório, mandando um beijo para Gisele. – Mais tarde conversamos, mon ange.
Akihabara, domingo, 5h40min
O dia já estava quase nascendo quando Yoshihiko Matsuo estava se preparando para caminhar com seu tio, um kenshi, 8° Dan que já estava se arrumando para o treino matinal no seu dojo. Ele era um rapaz de estatura mediana, com cabelos e olhos negros, seu cabelo era curto e espetado.
– Ohayou gozaimasu, ojisan. – soltava um bocejo e ia caminhando até o banheiro para lavar seu rosto e notava que o tio estava sentado na frente da TV, vendo as notícias internacionais, quando um repórter da NHK citava um caso que estaria ocorrendo numa cidade chamada Tomé-açu.
“...E aqui podemos ver claramente como a crise de doenças de Belém se espalhou para as outras cidades do estado do Pará, como na colônia japonesa de Tomé-açu.”
A notícia mostrava pessoas com vários sintomas de diversas doenças, manchas pelo corpo, tosse e até mesmo pessoas desmaiando.
– Yoshihiko, pegue esse telefone agora, ligue para sua mãe. Eu preciso sair correndo, mande lembranças. – dizia o velho que levantava e se direcionava até a cozinha, lavando louça do café.
– Sim, senhor, ojisan. – Yoshihiko ficara um pouco assustado, afinal, seus pais moravam ali naquela cidade e depois parou para pensar que não recebia notícias dos mesmos há alguns dias.
O rapaz chegou próximo do telefone e o mesmo começou a tocar inesperadamente. Ele tomou um susto e pegou o telefone.
– Moshi moshi? Yoshihiko falando.
– Ah, Matsuo. Espero te ver logo, estou maluco para ver sua cara de sofrimento. Como seria o garoto mimadinho sem seus pais? – falava a voz do outro lado, soltando uma risada maléfica após o comentário, após a risada, desligou na cara do garoto.
Yoshihiko mais uma vez olhou para o telefone sem entender muito, estava acostumado com trotes e ouvir aquilo fazia parte do seu cotidiano, afinal, a profissão dele fazia com que ouvisse coisas assim. Ele era um exorcista. Fez uma ligação e, enfim, sua mãe atendeu.
– Alô? Casa dos Matsuo. – falava Kyoko num tom feliz.
– Okaasan, sou eu. – o garoto parecia estar aliviado.
– Yoshi! Que surpresa você me ligar. Que tal dar uma treinada no seu português? – a mulher soltava uma risada feliz, ela era uma mestiça, por isso falava o idioma tão bem.
– Ah, tudo bem. – Yoshihiko mudava de idiomas, passando a falar em português. – Como estão você e o papai? Eu soube que está tendo uma onda infernal envolvendo doenças aí por perto.
– Estamos bem, meu filho, porém, seu pai foi desempregado sem motivo aparente...ele apenas chegou no trabalho e foi mandado de volta. Várias coisas estranhas estão acontecendo depois que houve aquela desgraça em Belém. – a moça mudava o tom de voz feliz por um assustado.
– O que aconteceu, mãe? – perguntava o filho, já preocupado.
– Estava acontecendo um tipo de marcha religiosa e no ápice dela, alguém subiu em um prédio e jogou-se do mesmo, passou por vários dias na televisão aqui e seu pai voltou de Belém correndo, ele ainda está um pouco traumatizado, viu tudo de perto. Mal consegue dormir, toda noite ele se lembra do acontecimento. Diz que não entende o porquê de tudo aquilo. Tanta gente rezando e louvando a Jesus e de repente, um acontecimento desses estraga toda a festividade...eu só espero que este rapaz descanse em paz.
– Isso é realmente bastante estranho. – o jovem olhou para o relógio e tomou um susto. – Ah, okaasan, eu preciso ir. Vou acabar perdendo minha caminhada matinal e logo preciso ir para a igreja, o dia está lotado hoje.
– Meu filho, tome cuidado com tudo por ai, mande lembranças para seu tio, diga-o que estamos com saudades.
– Mandarei lembranças. Jaa, mata. – desligou o telefone e foi terminar de se arrumar.
Yoshihiko vestiu seu sobretudo e logo pegou seu crucifixo, colocando-o para dentro. Algo na cabeça do rapaz ecoava, era a voz que ligara mais cedo. Ele estava determinado a saber o que era aquilo.
Notas finais
Buona notte - Boa noite
Merde - Merda
Mon ange - Meu anjo
Kenshi - lutador de kendô
Ohayou gozaimasu - Bom dia
Ojisan - Tio
Moshi moshi - Alô
Okaasan - Mãe
Jaa, mata - Até mais.
Esperamos que você curta!
Fale com o autor