Notas iniciais
Leremos nesse capítulo um pouco mais sobre Jade com um pouco de tensão rolando :)

Jade caminhava para o ponto de ônibus rapidamente. Precisava de notícias da sua família. O que ela havia lido no jornal era realmente preocupante. Sua casa não era tão longe dali, mas ir andando também não seria uma opção, já que a rua estava um pouco deserta. Deserta até demais. Além disso, de quem era aquela voz?

Jade passava por isso constantemente, além de ser web designer, cientista da computação e secretária, trabalhava com casos paranormais que envolviam exorcismos. Ela era perita no assunto, havia estudado aquilo por anos, porém, estava de férias do ofício.

O pai dela havia sido um dos melhores exorcistas da França e a mãe passou a trabalhar como cartomante no Brasil, acompanhando o pai da garota após receber uma ligação da Capital Paralela.

– Bon après-midi, mademoiselle. – Um rapaz estranho se aproximava.

– Allô. – falava a moça um tanto desconfiada, olhando para o rapaz com um sobretudo aberto e um emblema familiar nele. – Nos conhecemos?

– Eu conheço você. Fui mandado por seus pais aqui, ou melhor, pela sua mãe. É um prazer conhecê-la. Chamo-me David Ducamus. Fui enviado pela Capital Paralela a pedido do Sr. Vargas e sua mãe. Estamos com alguns problemas em Belém e você foi designada como uma das melhores exorcistas do mun...

– Ei, ei! Espere! – Jade interrompia o rapaz – Minha mãe mandou você? Como ela está? Vocês fizeram alguma coisa com meus pais?

– Não, Srta. Jade, está tudo bem. Ou quase tudo. – David desviava um pouco o olhar – Sua mãe mandou-me atrás de você para lhe trazer notícias sobre seu pai. Ele foi um dos melhores exorcistas que a companhia já teve.

– “Foi”? Como assim “foi”? O que aconteceu? – A moça estava enfurecida, agarrava o sobretudo de David e temia pelo que o rapaz falaria a seguir.

– O Sr. Louis fez jus ao seu nome. Foi um “guerreiro glorioso” e aguentou a missão até o final. Infelizmente ele não resistiu. Porém, sua mãe estava perto para ouvir suas últimas palavras e me pediu para entregar-lhe isso.

David se soltava da moça, que estava com uma expressão surpresa e triste ao mesmo tempo. Ele tirou uma carta com o logotipo da Capital Paralela e puxava levemente a moça pelo braço para o banco mais próximo, para que ela se sentasse.

– Me desculpe por ser tão direto. Eu fui alertado de que você é um pouco cabeça quente e não gosta muito de conversar. O Sr. Louis deixou esta carta antes de partir para sua última missão. Quer que eu leia ou você mesmo faz isso?

Jade demorou alguns segundos até desabar completamente e começar a chorar, levantando e abraçando o rapaz à sua frente, soluçando alto. Não ligava se alguém estava ouvindo, a vergonha não tiraria a dor que sentira sabendo daquela notícia. David a confortou por um momento e logo se soltou da moça, abrindo a carta.

“Minha filha, minha querida Jade,

Seu pai partirá cedo, inconformado de não poder vê-la crescida.

O mundo jamais será da forma como esperamos. Eu não quero nem

imaginar a dor que estará sentindo ao receber essa notícia, porém,

sei que meu anjo é forte e superará logo a situação.

Seja sempre uma pessoa gentil, do jeito que sua mãe e eu lhe ensinamos,

isso será muito importante para você, especialmente no seu futuro trabalho.

Minha preciosa, venha embora para o Brasil, sua mãe precisará de companhia,

ela lhe contará tudo o que precisa saber sobre aquele dia.

E não se esqueça do pouco que eu lhe ensinei sobre exorcismos. Você usará

bastante disso aqui.

O Vargas disse que poderia contar com ele para qualquer coisa.

Então, assim que chegar ao Brasil, vá atrás dele.

Je t’aime. Lembre-se disso para sempre, minha pedra preciosa.

Louis Chevalier”

Jade não conseguia parar de chorar, abriu a bolsa e pegou um calmante, dando um jeito de engoli-lo sem precisar de água.

– Srta. Jade, temos um carro esperando por você, que tal me acompanhar?

David pegava seu telefone para avisar o motorista e quando tenta ligar, nota que o celular está sem sinal e simplesmente desliga.

– Sacrebleu. O que está acontecendo com essa porcaria? – tentava religar o aparelho quando algo empurrou David para trás com uma força gigantesca, fazendo com que ele batesse numa árvore.

Uma risada assustadora se aproximava de Jade. O ar ficara pesado. Ela havia escutado aquela risada mais cedo, levantou-se e olhou para trás e se deparando com um homem alto, com os dentes cerrados de forma que ficassem pontudos.

– Ah, Jade...eu te observei por tanto tempo. Finalmente vou poder me declarar para você, mon cherry – o rapaz possuía olhos de cores diferentes, um azul e um vermelho. Ele puxou o ar profundamente. – Mon Dieu! Esse cheiro de medo me deixa excitado. Como será que reagirá a filha do grande Louis Chevalier numa hora dessas? – Após uma piscada de Jade, o rapaz estava atrás dela, colocando a mão em seu pescoço, alisando-o até o queixo dela.

– Ufa! A viagem do Brasil até a França foi realmente cansativa...mais ainda esperar você crescer. É verdade, eu não conseguiria dar conta do Louisinho – falava aquilo num tom debochado.

– Fille de pute! Quem você acha que é? – deu uma pisada forte bem no meio do pé do sujeito com seu salto fino.

O homem soltava um urro de dor e acabava soltando a moça, que começara a correr em direção a David. Logo era parada por um soco do jovem que a seguia. Jade caiu de cara na neve que mais parecia um iceberg. A vista dela ficou turva e voltou a olhar para o jovem, que passava a língua sobre o lábio superior, com uma cara maliciosa. Foi então que ouviu um barulho de tiro e viu que o homem cairia em cima dela.

Ao cair sobre Jade, o rapaz falou algo no ouvido da garota, com a mesma risada debochada de sempre.

– Acho bom você se preparar, sua vadiazinha. Matar seu pai foi uma das coisas mais simples que já fizemos. Essa foi a lição por ele ter metido o nariz onde não deve. – o homem tossiu um pouco de sangue que, ao bater no chão, respingou no rosto de Jade. – Tudo começou com aquele filho da puta do Alan Sarraf! Ver a cara de desespero do Louis foi magnifique. Quem diria que a Amanda conseguiria tascar esse peixe grande. – Cuspiu mais um pouco de sangue e saiu de cima da garota. Levantou-se e saiu correndo.

David tentou atirar várias vezes no jovem possuído, porém, sua cabeça girava devido ao impacto que recebeu ao ser lançado. Ao se aproximar de Jade, notou que a garota estava desmaiada.

Enquanto estava inconsciente, teve um sonho com seu pai. Ele estava sorridente, mas por pouco tempo. Estavam em frente a um prédio chamado Manoel Pinto da Silva. Louis entrava e logo se encontrava com uma mulher estranha, uma moça loira, mas o rosto estava embaçado. Não se podia ouvir o diálogo entre ela e o pai, mas algo definitivamente estava errado. Eles começaram a subir as escadas, Jade ia atrás, até que chegaram ao terraço e seu pai sentou-se com as pernas para a rua.

Jade, então, começou a gritar desesperadamente por seu pai e notou que ele não podia ouvir. A imagem da mulher que estava conversando com Louis começara a ficar distorcida e olhou para a garota com uma cara assustadora e passou a andar em direção a ela. Jade ficou aflita e soltou um grito desesperador, fazendo seu pai finalmente virar-se para ela.

Louis por fim, deu um sorriso para a filha e ela pôde ler seus lábios pronunciando “tome cuidado. Je t'aime, mon ange”. A garota não acreditava no que via e saiu correndo para o parapeito. Ao olhar para chão, viu seu pai banhado em sangue. Quando tentou gritar, a mulher voou em cima de Jade e agarrou seu pescoço. Enfim, a moça acordou assustada, se debatendo um pouco. David tentou acalmá-la.

– Jade, calma! Sim, ela acordou. – estava falando com alguém ao telefone.

A moça se acalmava um pouco e percebeu que estava em um carro.

– Para onde estamos indo? – Ela coçava os olhos – Onde está aquele sujeito? – Olhava para David com preocupação.

– Ele acabou fugindo, Srta. Não sabemos para onde ele foi. Consegui acertar um tiro apenas. Minha cabeça ainda estava rodopiando quando tentei disparar mais balas no desgraçado. Estamos indo até sua casa. – voltava a falar no telefone – O que? Ah, só um momento. É para você. – entregava o celular na mão da moça.

Ainda passava a mão na cabeça, que pesadelo foi aquele? Pediu a Deus que jamais tivesse outro daqueles.

– Alô?

– Chevalier, espero que esteja bem – era uma voz calma, de uma pessoa, sem dúvidas, mais velha. – Quero encontrar logo com você aqui no Brasil. Temos muito a conversar devido ao acidente com o seu pai. Enquanto você não vem, escondemos sua mãe em um lugar onde nem Satã vai encontrá-la. Posso garantir a você que ela está bem.

– Ahn? Quem está falando? – Seu português tinha um sotaque afrancesado e sua voz estava trêmula, porém, feliz ao receber aquela notícia.

– Meu nome é Cezar Vargas. Seu pai trabalhou para mim por bastante tempo. Foi uma perda gigantesca para a Capital Paralela. Agora espero poder contar com o legado que ele deixou.

– E meu pai? Ao menos deram um enterro digno a ele?

– Seu pai foi um dos melhores exorcistas que já tivemos na companhia, como eu já falei. Tenho certeza de que ele está descansando em paz, onde quer que esteja. Bem, vamos ao assunto principal – Cezar limpou a garganta ao pigarrear. – Não poderia deixar você de fora, afinal, não queríamos envolver sua mãe sozinha na situação, apesar de ela também não querer que contatássemos com você. Venha para o Brasil hoje mesmo para começar as investigações sobre a morte de seu pai.

– Mas, Sr. Cezar, como deixarei minhas coisas aqui? Meu trabalho, minha vida? Além disso, tenho certeza que você tem exorcistas melhores por ai, por que tem de ser eu?

– Pelo simples fato de que esse foi o último pedido do seu pai. Acredito que David já tenha lhe entregado a carta que Louis deixou a você. Ele não citou isso, mas pediu para mim, antes mesmo de escrever. Nem mesmo sua mãe sabe disso. Ela só queria que você vivesse uma vida comum. Sei que isso não acontece ai, devido ao seu emprego paralelo. Ou estou errado? – falou o homem, confiante.

A moça mordeu o próprio lábio inferior.

– Não, você está totalmente certo...

– Quanto ao seu emprego e sua vida aí, já cuidamos de tudo. Agora vá para casa e arrume sua mala. Um avião já está esperando por vocês.

– Tudo bem – assentiu a moça, ainda confusa.

Jade não entendia bem o porquê de seu pai querer que ela fosse atrás de quem ou que o matou, mas por algum motivo, ela queria investigar. Faria isso mesmo que não lhe pedissem.

Quando colocou os pés em casa, desabou em lágrimas mais uma vez. Tudo estava acontecendo rápido demais na vida dela. Foi direto para o quarto e pegou sua mala. Começou a jogar todas as roupas que nela. Após encher uma, pegou a outra e colocou o restante de roupas e coisas importantes, como fotos e alguns documentos. Alguma coisa dizia que ela não voltaria para esta casa.

Após sair, Jade trancou a porta. David ajudava a moça com as malas, levando-as até o carro. Quando chegaram à rua, a moça viu um rapaz deitado no chão, morrendo de frio.

– Está pronta? – David perguntou para a moça que definitivamente não prestou atenção na pergunta.

– Me dê um minuto. – Dirigiu-se até o rapaz. Agachando-se em frente a ele – Hey, você. Está com muito frio?

O homem assentia. Era possível ver que estava tremendo. Jade olhou para a chave mais uma vez, lembrou-se do que seu pai havia escrito na carta, fechou os olhos, deu um sorriso e pegou a mão do rapaz, colocando a chave em sua mão.

– Ela é toda sua – apontou para a residência, levantou-se e foi em direção ao carro.

David estava sorrindo, parecia um tanto feliz com a atitude da moça.

– Seu pai realmente foi um ótimo homem. Criou um anjo – deu duas tapinhas no ombro da garota e virou-se para a janela.

Jade olhou uma última vez para tudo aquilo.

– Adieu, France.

Notas finais
N.T.:

Bon après-midi, mademoiselle - Boa tarde, senhorita.
Je taime - Eu te amo
Sacrebleu - "Merda"
mon cherry - "meu amor"
Mon Dieu - "Meu Deus"
Fille de pute! - Filho da puta!
Magnifique - Magnífico
mon ange - Meu anjo
Adieu, France - Adeus, França.

No próximo capítulo, falaremos sobre o 3° protagonista, Yoshihiko :D