Existir
2 Mudança
–Nossa nova casa é linda – Jade passou o braço por trás de seu marido que a apertou. As crianças passaram correndo por eles, com o intuito de explorar o novo lar.
–Nossa, que emoção, mais uma mudança, estou super feliz – Sarah, a primogênita, ironizou ao passar pelo portão.
–Dá para você parar de reclamar e aproveitar pelo menos uma vez na vida minha filha? – George bagunçou os cabelos da garota.
–Prometo que vou me esforçar – ela falou e continuou se arrastando para dentro de casa.
–Ela se acostuma – a morena ao seu lado suspirou. Seus olhos castanhos tinham aquele mesmo brilho de quando eles se conheceram. Seus lábios perfeitos, nem tão grossos, nem tão finos, curvados em um belo sorriso. A pele, com seu bronzeado natural, que era invejado por muitas, estava linda assim como ela.
A beleza de sua mulher não era tão superior a sua. Quarenta e três anos, mas com o mesmo charme dos seus vinte e tantos. O cabelo começava a ficar grisalho e os olhos azulados deixavam seu rosto ainda mais bonito.
Os dois entraram na casa, ainda abraçados. Era realmente uma propriedade enorme e incrível, fora uma das melhores aquisições do mesmo, ficando logo atrás do monomotor que ele considerava como um filho.
Subiram para a suíte do casal, o maior quarto da casa. Tinha uma cama enorme e uma porta de vidro. A sacada tinha a vista de toda a área de lazer. Também tinha um Closet, já recheado com as roupas de Jade.
–Pai! Mãe! – Os gêmeos entraram chorando e se agarrando nas pernas dos adultos.
–O que foi? – O mais velho perguntou acariciando os cabelos pretos do filho.
–Sarah disse que tem um fantasma no sótão.
–Por que você está fazendo isso? – Jade olhou com severidade para a filha.
–Papai mandou eu me divertir – ela deu de ombros.
–Não precisava assustar seus irmãos.
–Já vai começar mãe? – Sarah revirou os olhos e saiu.
A mulher olhou para o marido como quem diz “Sua vez de apagar o incêndio”. Ele logo captou a mensagem e seguiu a menina até seu novo quarto. Tinha apenas uma cama e um monte de caixas espalhadas pelo amplo ambiente.
–Filha, você devia parar de brigar com sua mãe por qualquer coisa – o homem afagou os cabelos castanhos da menina.
–Que culpa eu tenho se tudo o que eu faço ela contraria?
–Dê uma chance para a sua mãe.
–Você realmente não entende, né pai – a garota suspirou. – Durante todo o tempo que você fica fora, ela está pouco se lixando se estou viva ou não, sequer se importa se estou indo pra escola, onde eu durmo.
–Minha filha, quando sua mãe descobriu que estava grávida, eu tinha acabado de sofrer um acidente e estava em coma, não foi uma época muito fácil, dá um desconto pra ela.
–Pai – ela se sentou irritada na cama. – Já faz quinze anos que isso aconteceu.
–Tudo bem, encerramos o assunto, só tenta não brigar tanto com ela.
–Vou tentar.
–Quer ajuda? – Ele perguntou apontado para as caixas.
–Se quiser – ela deu de ombros.
Então eles passaram o resto da manhã desempacotando roupas e pertences de uma adolescente normal. Depois de colar todos os pôsteres na parede, os dois desceram para almoçar rindo e quase rolando escada abaixo.
–O que tem para o almoço? — Um dos garotos perguntou puxando a barra do avental da mãe.
–Pizza.
Sentaram-se à mesa e compartilharam uma pizza de rúcula com tomate seco. Durante a tarde, Sarah saiu para conhecer o novo bairro, especialmente uma loja de discos e HQ’s. Ao abrir a porta, um sininho tocou indicando sua entrada. O atendente que estava debruçado no balcão lendo uma revista ergueu a cabeça e apagou o cigarro que pendia de seus lábios.
–Em que posso ajudar a senhorita?
–Estou dando uma olhada – ela avaliou uma pilha de discos em uma prateleira – qualquer coisa te chamo – ela sorriu e ele retribuiu com um aceno de cabeça e um leve sorriso de canto de boca.
Como estiveram de mudança, ela não precisou ir à aula, mas pelo trajeto até sua casa, acabou passando na frente da escola enquanto os alunos estavam saindo. E foi aí que ela o viu, abraçado com sua amiga. Sarah era apaixonada pelo seu amigo e mesmo que ele soubesse, continuava a machucá-la com suas ações, mesmo que não fosse sua intenção.
Ela olhou vagamente para a grade branca da escola e começou a caminhar mais rápido, antes que alguém a visse. Abriu o portão de casa e entrou correndo, os olhos estavam começando a marejar. Aos tropeços ela chegou até seu quarto e trancou a porta, largou as revistinhas em cima da cômoda e deslizou pela porta até o chão.
As lágrimas quentes molharam seu rosto, deixando sua pele clara em tom avermelhado sobre as bochechas e a ponta do nariz. Secou o rosto com a manga da jaqueta e sacou o celular no bolso. Digitou uma mensagem para sua irmã de coração, desabafando mais uma vez sobre sua “mania de gostar de quem não gostava dela”. Antes de terminar de se recompor, a porta quase fora destruída pelos socos de seus irmãos caçulas.
–Sarah, tá nevando, vamos fazer um mega boneco que nem aquele que a gente fez no natal – a voz de John encheu o quarto da alegria contagiante daquela criança de cinco anos.
Ela abriu a porta e se deparou com os dois meninos fantasiados de super-heróis. John vestido de Batman e Justin de Homem Aranha. Ela sorriu para eles que agarraram suas mãos.
–Ei, esperem eu colocar uma roupa mais quente, se não vou pegar resfriado e passar pra vocês, daí ficaremos todo mundo com o nariz escorrendo – a garota falou em tom brincalhão e os irmãos fizeram caretas.
Depois de vestir um moletom de lã que fora presente de natal de sua avó, um par de luvas e uma toca, ela desceu saltitando acompanhada dos dois meninos. A neve não era tanta, mas já cobria o gramado na frente da casa. Depois de muita neve empilhada, o boneco tomou forma.
–Olha só que obra de arte, ele já tem um nome? – George perguntou parado no portão.
–É Peter – os dois gritaram em uníssono.
–Peter parece estar com frio – o pai se aproximou dos três. – Que tal por esse cachecol nele?
O mais velho tirou o próprio cachecol e enrolou em volta do amontoado de neve, causando um sorriso em todos os presentes ali.
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