Existir

3 Desculpa


A noite chegou e todos estavam sentados em frente à lareira, tomando chocolate quente e olhando filme. Jade se levantou para levar as canecas na pia e George levantou para desligar a televisão e levar as crianças para a cama.

Sarah, que já estava quase dormindo, se arrastou escada acima até seu quarto, o qual estava com a janela aberta e alguns pôsteres haviam descolado da parede e jaziam sobre o chão. Ela estranhou, mas logo então deduziu que deveria ser culpa do vento úmido que entrava no cômodo.

A mesma trancou a janela e fechou as cortinas. Vestiu o pijama e escovou os dentes. O quarto estava escuro, com exceção do abajur ligado na cabeceira da cama. Ela entrou embaixo das cobertas e apagou a pequena lâmpada ao lado da cama.

Seus pensamentos não a permitiram cair no sono logo de primeira, mas depois de alguns minutos desperdiçados lembrando-se da cena de mais cedo, enfim conseguiu adormecer.

O despertador soou logo cedo, tirando-a de seus sonhos. A menina levantou e após um banho rápido, colocou um casaco grosso e um par de botas de inverno. Ao descer as escadas encontrou o pai lendo jornal apoiado na bancada com uma xicara de café na mão.

–Bom dia, flor do dia – ele deu um beijo na bochecha da filha e alcançou uma torrada para ela.

–Bom dia, cão – ela fez menção ao apelido do pai no trabalho.

Os dois únicos seres acordados na casa tomaram o café em silencio. Na hora da saída, ela colocou uma toca preta e um par de luvas. George deixou a filha na escola e dirigiu para o trabalho.

–Tchau filha, boa aula e não arrume confusões.

–Tchau, pai.

Ela fechou a porta do carro e encarou o portão da escola, suspirou e entrou. Fez o pequeno trajeto até a sala de aula em silêncio, acompanhada apenas da musica que tocava freneticamente em seu fone de ouvido.

Parou na porta da sala de aula e observou alguns instantes seus colegas, cada um em seu grupinho. Ficou ali até ser empurrada por alguém.

–Desculpa – a pessoa disse e continuou o papo animado pra dentro da sala.

Helena sentou-se de pernas cruzadas em cima da mesa, acompanhada por Gabe e Cameron. Os três conversavam animadamente, e vê-lo daquele jeito, fazia as borboletas no estomago de Sarah se agitar. Ah, como ela queria abraçá-lo, dizer tantas coisas, mas ela simplesmente não podia. Ao ver o braço dele passar sobre os ombros de Helena, ela simplesmente respirou fundo e caminhou até sua carteira.

–Sarah – Lucie olhou para ela. – Como é a casa nova?

–Incrível – seu rosto se iluminou. – É maior que a antiga, tem uma sacada maneira e uma piscina, que não sei pra que serve se está quase sempre frio, mas enfim, é muito legal, meu quarto é grande e tem um closet espaçoso, que sobra algumas prateleiras vazias – ela respirou fundo enquanto a amiga ria de sua maneira verborrágica de falar, que acontecia quando ela ficava nervosa e bem, Lucie sabia o motivo do nervosismo.

–Sarah! – Maisie pulou em cima da outra e a cadeira deslizou, levando as duas em direção ao chão.

–Mas que droga Maisie! – Sarah gritou rindo. A amiga rolou para o lado e as duas começaram a rir, acompanhadas das outras do grupo.

As aulas se passaram arrastando-se, no fim do dia, ela parou no portão para esperar seu pai busca-la, junto de mais alguns amigos. Todos estavam sentados na escada, mas não sentia como se fizesse parte daquilo. Levantou-se e saiu em silencio. Saiu pelo portão e sentou-se no meio fio. Abraçou os joelhos e mais uma vez se permitiu chorar por quem não merece. Depois de alguns minutos ela sentiu alguém chutar levemente seu pé.

–O que houve? – Cameron perguntou quando Sarah olhou pra cima.

–Nada – ela respondeu e tornou a olhar para baixo.

–Não foi nada. Vamos lá pra dentro – a garota simplesmente negou com a cabeça. – Vem – ela negou novamente. – Então fica aí – ele voltou para dentro.

Ergueu a cabeça e respirou fundo. Não tinha por que ela ficar ali, então levantou e começou a caminhar pela neve fofa. Estava escuro e escorregadio, mas ela não se importou, pois morava perto. Seus passos deixavam marca sobre a camada branca que cobria a rua.

Chegou a casa e subiu direto para o quarto. Não chorava mais, mas ainda doía. Tomou um banho e deitou embaixo das cobertas. Estava conversando com Maisie quando recebeu uma mensagem dele. Era simples e curta. Dizia “O que houve? É sério.”.

“Tenho mania de gostar de quem não dá a mínima para mim.” – ela respondeu. E acabou a conversa. Duas batidas sutis na porta e ela se abriu.

–Filha? – George falou baixinho.

–Oi pai – ela murmurou sem tirar os olhos do celular.

–Tudo bem?

–Uhum.

–Então por que você está chorando?

–Não estou chorando.

–Ah, vai dizer que agora está trabalhando como palhaça.

–Só não quero conversar.

–Se não quiser ir à aula amanha, só me avisar.

–Tudo bem pai.

–Tudo bem mesmo?

Ela assentiu. Ele sorriu e fechou a porta. As luzes foram apagadas e ela tentou dormir. Sarah sentiu algo gelado envolver seu corpo, mesmo estando sob uma expeça camada de cobertores. Um tremor passou pelo corpo da garota. Ela tentava respirar e inutilmente se debater, era como se alguém a estivesse pressionando contra a cama. Quando ela pensou que seria o fim, ouviu um barulho alto vindo do closet, então o aperto soltou e o ar voltou aos seus pulmões.

Acendeu o abajur e apertou forte o edredom. Depois de tomar coragem, ela desceu da cama e, com passos trêmulos chegou ao armário. Abriu a porta e a cena com que se deparou era desconcertante. Suas gavetas e prateleiras, sempre tão organizadas, agora jaziam sobre suas roupas que estavam atiradas ao chão. Caminhou por entre os entulhos em busca de alguma resposta, mas não deduziu nada.

Saiu da peça e trancou a porta. Tornou a deitar-se e desta vez dormiu, sem interrupções.

No outro dia, acordou ainda assustada, mas decidiu não contar para ninguém o que houve. Tomou seu café da manha e foi para a escola. Tinha tudo para se um dia normal, mas não ia ser.

As aulas da manhã foram um tanto produtivas, porém, o problema estava no intervalo do almoço. Sarah não estava com fome, então preferiu ficar na sala de aula. Enquanto suas amigas não voltavam, resolveu vagar pelos corredores da escola. Foi sua pior decisão.

Subiu o primeiro lance de escadas e estava se encaminhando para o segundo quando viu o que não devia. Ah, aquele casaco preto. Ela tentou correr, mas suas pernas traíram-na. Ela pode observar bem sua expressão quando eles encerraram o beijo e ele encostou a cabeça no ombro de Helena. Cameron abriu os olhos e viu Sarah, com os lábios tremendo. Finalmente suas pernas permitiram-na correr. E ela o fez. E ela correu até o banheiro, se trancando na ultima cabine.

A raiva tomou conta de seu ser quando ela desferiu o primeiro soco contra a parede. A dor sobre os nós dos dedos era intensa, mas após o quarto golpe já não era mais sentida. A menina só parou de atacar o azulejo quando viu uma fina linha escarlate escorrer preguiçosamente até atingir o piso.

Sarah apressou-se para limpar a mancha para que ninguém visse. Ligou a torneira e deixou que a água fizesse o trabalho de lavar o sangue de sua mão.

–Sarah?! – Maisie entrou correndo no banheiro, acompanhada de Lucie e Jess.

A garota escondeu a mão o mais rápido que pode enquanto suas amigas abraçavam-na.