Existir
4 Capítulo Três
Capítulo três
Era sábado de manhã, mas Sarah não tinha sono, então resolveu voltar naquela loja de CDs. Passou pela porta e andou até a prateleira dos HQs. Folheou alguns em busca dos novos e foi surpreendida quando alguém parou atrás dela.
–Sério que você prefere Marvel? DC é muito melhor.
Ela se virou para ver quem tinha falado isso e acabou trombando com o vendedor derrubando várias revistas. Com as maçãs do rosto em um tom avermelhado, ela se abaixou para juntar o que derrubou. O cara ria da expressão de Sarah. A menina olhou para cima e o sorriso do vendedor era encantador.
–Marvel sem sombra de dúvidas é melhor – ela falou ainda envergonhada. – Temos o Capitão América e o Homem de Ferro.
–Temos Arlequina e Coringa – ele mexeu as sobrancelhas. – Ficou sem argumentos agora né?
–Nós temos o Hulk – ela fez menção ao trecho do filme “os vingadores”.
Os dois sorriram e ele deu um passo para trás para que ela pudesse recolocar as revistas na prateleira.
–Sou Robb, e você?
–Sarah – o sorriso ainda permanecia no rosto dos dois.
O sino na porta estragou o breve momento dos dois e ele voltou para o balcão. A garota continuou olhando as revistas. Pegou umas duas e foi em direção a onde estava o cara. Ela percebeu o olhar da outra mulher no recinto queimar sobre a mesma. Pagou as revistas e saiu da loja. Andou umas três quadras até perceber que esqueceu o celular na banca.
Revirou os olhos e voltou até a lojinha. Entrou e Robb estava entretido com alguma revista, apoiado na bancada. Sarah pigarreou para chamar sua atenção e conseguiu. O cara olhou para trás e tirou o cigarro do meio dos lábios.
–Veio buscar o celular, acertei?
Ela assentiu e sorriu. Eles ficaram se olhando por um tempo até ela ter coragem.
–Que ir ver Homem Formiga no cinema?
–Marvel, cruzes.
–Vamos ou não?
–Claro, que horas? – ele deu um largo sorriso.
–Às oito. Esteja lá.
A garota passou o dia esperando a noite chegar. Quando eram seis horas da tarde, ela tomou um banho. Vestiu um moletom e uma calça jeans, um par de coturnos e uma touca.
–Pai! Dá uma carona?
–Aonde você vai?
–Cinema – ela sorriu.
–Com quem?
–Maisie e Lucie.
–Você mente mal. Com quem você vai?
–Pai!
–Com quem?
–Sozinha.
–Aham – George sabia que ela iria sair com algum garoto.
Após o pai deixá-la na frente do cinema, Sarah comprou sua entrada e ficou esperando por Robb. O filme estava começando e nada. Ela levantou e entrou. Sentou-se na última fileira. Quando apareceu o nome do filme na tela, alguém se sentou ao seu lado.
–Desculpe o atraso – a garota olhou para o lado e viu Robb sorrindo para ela, que devolveu o sorriso. – Quer pipoca?
Depois do incrível filme, os dois ficaram parados na frente do cinema conversando.
–Admita, Marvel é melhor – Sarah o cutucou com o cotovelo.
–Nunca. DC mora no meu coração.
–Ave Maria – Sarah revirou os olhos e suspirou.
–Nem vem. Como você pode gostar da Marvel?
–Do mesmo jeito que eu gosto de maçã do amor. Alias, vou comprar uma, espere aqui.
–Idiota – ele falou rindo.
Robb seguiu-a e também comprou uma maçã. Eles conversaram durante mais um tempo e ele levou-a para casa. Ela entrou sorrindo e seus irmãos logo começaram o coro:
–Sarah tá namorando, Sarah tá namorando.
–Calem a boca, pirralhos – falou a subiu as escadas, pulando alguns degraus.
Foi direto ao banheiro do próprio quarto e abriu o armário. Um pote despencou em cima dela e espalhou algumas coisas no chão. Ela abaixou-se para juntar e acabou cortando os dedos ao pegar uma lamina.
–Droga – ela colocou a mão embaixo da torneira, que limpou o sangue. Ela começou a analisar o dedo e não havia nenhum sinal de corte. A mesma franziu as sobrancelhas e pegou a lamina novamente. Passou a parte afiada sofre o pulso, como costumava fazer. O sangue saiu, mas quando ela limpou nada, nem um sinal de corte. – Mas que...
–Filha?
–Oi, mãe – ela escondeu a lamina.
–Posso conversar contigo?
–Claro.
As duas sentaram na cama e a mãe começou.
–Quem era aquele cara que te trouxe?
–Meu colega, mãe.
–Seus colegas não dirigem.
–Tudo bem, é um amigo.
–Onde você o conheceu?
–Por que resolveu se importar agora?
–Sempre me importei com você, Sarah. Pode me contar onde conheceu ele, não vou te xingar, nem proibir de ser amiga dele, só me conta.
–Ok – ela se deu por vencida. – Ele é o vendedor da loja de CDs.
–Ele faz mais alguma coisa, além disso?
–Faculdade de arquitetura.
–Hum, e o que vocês fizeram hoje? – A mulher sorriu para a filha e a cutucou com o cotovelo.
–Assistimos um filme e discutimos entre Marvel e DC.
–Que?
–Nada, mãe, nada.
–Olha, filha, agora é conselho de mãe: só faça o que você estiver a fim, não deixe ele te forçar a nada.
–Mãe!
–Ah, e usem camisinha, não quero ser avó tão cedo.
–Mãe! Nós não vamos transar, somos amigos.
–Ah ta, então esquece essa conversa – Jade levantou e estava saindo, mas parou na porta. – Qual o nome dele mesmo, filha?
–Robb.
Ela assentiu e saiu. Sarah voltou a encarar o braço em busca de algum sinal de que tinha sido cortado e nada. Respirou fundo e caminhou até a janela. Abriu as cortinas e ficou olhando a água da piscina se mexer preguiçosamente. Então ela avistou um vulto correndo. Uma gargalhada assustadora entrou em seus ouvidos e um arrepio passou em sua espinha. E, num piscar de olhos, não tinha mais nada lá embaixo.
Sarah mordeu o lábio fechando a cortina, desceu as escadas até a cozinha em busca de comida, pegou algo e sentou-se no sofá ao lado dos irmãos que jogavam videogame.
–O que vocês estão jogando?
–O jogo do Lego. – respondeu Justin.
–Hum. Não tá na hora de vocês dois estarem dormindo não?
–Ah mana, deixa a gente ficar mais um pouco.
–Dou um chocolate pra cada um se vocês forem dormir.
–Sério? – Os dois olharam pra ela.
–Sim, mas é segredinho nosso.
Os dois largaram os controles e subiram correndo. A garota desligou a tevê e pegou dois bombons do pote. Entregou um pra cada garoto e foi pro quarto. Esperou a luz do quarto dos pais ser desligada para sair.
Trancou o portão e começou a caminhar sem rumo pelas ruas escuras. Tinha andado umas três quadras quando sentiu a mão de alguém em seu ombro. Ela se virou abruptamente com o coração acelerado.
–Meu Deus, não me assusta desse jeito! – ela praticamente gritou.
–Desculpa – ele riu. – Mas o que você está fazendo na rua uma hora dessas?
–Andando, e você?
–Fugindo.
–De que?
–Da vida – Robb suspirou e olhou para cima. – Quer um? – ele ofereceu um cigarro para Sarah.
–Não, obrigada – ela deu um meio sorriso e ele deu de ombros. – Por que você fuma? – ela perguntou enquanto eles caminhavam lado a lado.
–Para ter um câncer de pulmão e morrer.
–Que? – A menina parou e fez uma expressão engraçada de confusão.
–Tô brincando – ele riu. – Só fumo para acalmar.
–Então você está com sérios problemas de nervosismo, porque sempre que chego à banca você tá fumando – ele deu uma risada gostosa. – Por acaso aquela garota que entrou na loja e ficou me fuzilando com os olhos enquanto conversávamos é sua namorada?
–Não, nunca a vi antes – ele deu de ombros.
–Então você é solteiro?
–Sim. Por quê? Está interessada? – Sarah corou rapidamente e abaixou o rosto. Robb passou o braço em volta dela e apertou-a. – Eu tô brincando, não precisa ficar com vergonha.
Os dois caminharam por mais um tempo. Já era madrugada quando eles pararam na frente do portão da casa dela. Despediram-se com um breve abraço e ela entrou.
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