Existe Um Lugar
9 Parte 9
– Ocê perdeu o juízo, Ferdinando? – perguntou o Coronel Epa – Enrabichado por aquela uma fia do Pedro Falcão? Ocê já se esqueceu do que ieu já lhe disse?
– Não, meu pai – disse o rapaz, carrancudo – Mai me discurpe, o senhor não manda no meu coração.
Coronel Epa ergueu os braços, adentrando o quarto do filho.
– Nada do que o senhor me diga, meu pai, vai mudar o que sinto, – continuou Ferdinando – ieu vou casar com a Gina, vou fazer dela a minha mulher, e nada, nem ninguém vai me impedir de ficar pra sempre com a mulher que eu amo!
– Olhe, que tar ocês ter essa conversa pra mais tarde? – perguntou Catarina, tentando acalmar os ânimos.
– Ferdinando, Ferdinando – disse o coronel, ignorando a esposa – aquela uma não é muié pr’ocê, é uma ignorante como todos daquela vila, um homem como ocê, se enrabichar por uma roceira daquela, não tem o menor cabimento!
– Não fale assim da Gina, meu pai!
– Como é que pude ter um filho assim, ocê sabe quanto que ieu investi em ocê? No mínimo era pr’ocê casá com a fia de um político renomado da capitar, não com uma qualquer...
– NÃO FALE ASSIM DA GINA!!!
Ferdinando derrubou alguns objetos que estavam em cima de uma escrivaninha quando gritou. Coronel Epa e Catarina arregalaram os olhos, o rapaz nunca havia agido assim.
– Ieu vou falar de uma vez por todas, meu pai e ouça bem: ieu amo a Gina, mais do que tudo nessa minha vida, e vou me casá com ela.
– Entonce, o senhor ponha-se daqui pra fora...
– Epaminondas! – interveio Catarina – Não faça isso, por favor!
– Ponha-se daqui pra fora, porque fio meu num casa com qualquer uma!
– Muito bem! – disse Ferdinando, indo em direção do armário de roupas – Entonce ieu vou embora. Mai saiba, meu pai, que vou triste, triste pruquê o senhor não entende o que é amor de verdade.
– Epaminondas! – disse Catarina, nervosa, mexendo as mãos – Ocê ficou caduco de veiz? Mandá seu fio embora só pruquê ele ama a fia do Pedro Falcão?
– E ocê acha pouco, Catarina? Acha pouco?!
– Acho! Acho sim, seu fio merece ser feliz com a muié que escolhê!
– Amor? Quem falou em amor aqui, Catarina? Amor num serve de nada! É uma perda de tempo!
– O que ocê ta dizendo, Epaminondas? – perguntou Catarina, estreitando os olhos.
– Num adianta, Catarina, meu pai num vai mudá de opinião, e ieu também não, entonce...
– Amor num serve de nada? Perda de tempo? – retrucou Catarina – Entonce o que ocê acha que tô fazendo casada c’ocê?
Epaminondas percebeu que havia mexido no vespeiro.
– Responda, meu pai... – disse Ferdinando, sorrindo – Mai escolha bem as suas palavras!
Epaminondas arregalou os olhos, sabia que qualquer palavra faria Catarina explodir como fogos de São João.
– Ocê me responda, Epaminondas Napoleão!
– Ieu... Ieu num acho nada! O que nóis dois temo de a vê com a loucura do Ferdinando?
– Escolheu errado, meu pai.
– OCÊ TÁ PERDIDO, EPAMINONDAS! HOJE OCÊ DORME SOZINHO!
E Catarina saiu porta afora, com o marido nos seus calcanhares. Ferdinando continuava retirando as roupas do armário, a mala já aberta sobre a cama. No dia seguinte, sairia daquela casa para viver uma nova vida...
Afinal, seu Pedro Falcão havia concedido a Ferdinando a mão de sua filha Gina. E era por isso que, apesar da briga com o coronel, o engenheiro agrônomo não havia perdido o brilho de seus olhos nem o sorriso aberto.
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