Ferdinando não cabia em si de tanta felicidade quando chegou em casa. Como já era tarde, todos já haviam jantado, provavelmente o Coronel Epa estava em seu escritório. Devagar, subiu as escadas, procurando não fazer muito barulho. Estava feliz demais e não queria que o pai estragasse isso também.

Pensando no que acabara de acontecer, a verdade é que nos últimos dias ele havia ido até o trigal dos Falcão para ver Gina. Andara por toda a extensão da plantação procurando pela jovem, esperando uma oportunidade de falar com a ruiva. Contudo, quando a via, ela estava sempre acompanhada de Viramundo, o que despertava a sua raiva. E ficava com mais raiva ainda quando ouvia o violeiro tocar e cantar, e Gina, meio tímida, acompanhando em segunda voz. “Ara”, pensava, “ele não sai de junto dela não?”. Mas agora...

Enfim, ele sabia que ela o amava. Ela mesma havia lhe dito isso, e o havia beijado... “Aaah, o beijo de Gina”, pensava Ferdinando enquanto deitava na cama, “que coisa mais divina era aquela boca querendo a minha!”

Fechou os olhos, relembrando cada momento vivido naquela plantação... o cheiro do corpo dela, uma mistura de terra e trigo... os cabelos ruivos e cacheados, macios ao toque de suas mãos... a respiração dela, ofegante, enlouquecedora. Se não fosse a chegada de seu Pedro e os outros, ele teria ultrapassado todos os limites e a teria feito mulher ali mesmo, em meio à terra, paixão comum dos dois.

– Minha... a teria feito minha... Minha Gina. – sussurrou Ferdinando para si mesmo.

– Ferdinando? – chamou Catarina à porta do quarto – Ocê só chegou agora?

– Boa noite, Catarina... – disse Ferdinando, levantando-se da cama – Sim, cheguei agorinha há pouco.

– E posso saber onde é que o sinhô se encontrava até essas hora?

Os lábios de Ferdinando se abriram num sorriso. Ele olhou nos olhos da madrasta, que pôde contemplar o brilho daqueles olhos azuis.

– Ocê foi vê a Gina, não foi?

O rapaz começou a rir. A ruiva realmente o deixava diferente, ele se sentia diferente. Catarina, perspicaz como era, já conseguia identificar o jeito que o enteado ficava quando encontrava a moça.

– Pelo visto, correu tudo bem, num é memo?

– Ieu diria quase – observou Ferdinando, divertido – A bem da verdade, ieu quase que tomei um tiro do pai dela, seu Pedro Falcão...

Catarina pôs as mãos na boca, espantada.

– Mas pru causa de quê, Ferdinan...? Não! Num vai me dizê que ocê beijou ela ôtra veiz?

– Eeeehnn, num foi bem ieu, ieu, mas acredito que a ordem dos fatores num altera o produto, num é memo, minha cara? O que importa de ocê sabê é que ela, finalmente, disse que me ama. E tanto quanto que ieu amo aquela jaguatirica.

Ferdinando suspirou, enquanto dava as costas para a madrasta, indo em direção á janela.

– E ela me beijou, Catarina... Por vontade própria. Ieu num forcei ela, como da outra veiz. Foi ela. Ela me puxou pela gola da camisa – Ferdinando fechou os olhos, suspirando e sorrindo – e me deu o beijo mais doce que existe nesse mundo. Naquela hora, só ela existia pra mim, nada mais.

Uma lágrima solitária rolou pelo rosto do rapaz. Catarina sorria, emocionada.

– Ieu senti, Catarina... Senti de verdade, ali, naquele momento, o que era um beijo de amor. De amor verdadeiro. Nunca havia sentido nada igual antes, mai agora ieu sei. É o que sinto pela Gina, e ela sente por mim. É por isso que... Que eu pedi a mão dela em casamento pro pai dela.

Catarina abriu a boca, mas não saiu palavra. Ferdinando sabia que a madrasta não aprovava seu envolvimento com a “roceira”, como Catarina costumava chamar Gina, mas também sabia que teria o apoio dela para o desafio que estava por vir.

– Ah, Ferdinando... – comoveu-se Catarina, por fim – Ocê tá perdido!

– Ieu tô? – retrucou o rapaz – Acho que tô memo. Perdido de amor por aquela uma...

– Ocê tá perdido memo! – falou uma voz cavernosa atrás de Catarina – Perdido das ideia!