Existe Um Lugar
16 Parte 16
O recado dado por Zelão era simples: coronel Epaminondas queria ver o filho. Ferdinando acompanhou o capataz, muito contrariado, pois imaginava qual era o assunto: Gina, claro. O casamento era no dia seguinte, e com certeza o pai faria um último esforço para demover o rapaz da ideia de casar com a filha de Pedro Falcão. Enquanto caminhava, Ferdinando pensava em todos os argumentos possíveis para rebater cada palavra do coronel, afinal, ele só não casaria com Gina se estivesse morto. E o pai não iria querer isso... não é?
Quando entrou em casa, viu espantado o pai sentado no sofá da sala; Epaminondas parecia saído de um deserto, tamanho o abatimento. Parecia que as últimas semanas haviam sido um verdadeiro inferno. Ferdinando lembrou da briga que tiveram antes de sair de casa novamente. “Em se tratando de Catarina, com certeza deve ter sido quase um inferno”, pensava o rapaz.
– E então? – disse o coronel. A voz autoritária continuava a mesma – Essa loucura de casamento continua mesmo?
Ferdinando suspirou.
– Loucura nada, coronel. E sim, o casamento é amanhã.
Epaminondas olhou para o filho, que não o chamou de pai. E balançou a cabeça, desgostoso.
– Desde que ocê saiu daqui, que Catarina me mantém no quarto de hóspedes. Há semanas que não a vejo, nem a Pituquinha. Tudo por sua causa e daquela roceira.
– Aquela roceira tem nome, coronel – retrucou Ferdinando, duro – É Gina. E o senhor deveria reconsiderar o meu casamento, já que lhe trará mais benefícios do que desgosto.
Os olhos do pai do rapaz se arregalaram ao ouvir as últimas palavras do rapaz.
– Benefícios? Que benefícios um casamento ruim como o seu poderia me trazê, Ferdinando?
– Ara, senhor coronel Epaminondas... – e enquanto dizia essas palavras, o rapaz circulou pela sala até ficar atrás do sofá onde o coronel se sentava – Numa palavra só: ELEIÇÕES.
– E o quê que as eleições têm de a ver com isso? – perguntou Epaminondas, abismado.
– Senhor meu pai – continuou o rapaz – Imagine dois homens de influência política muito grande como o senhor e o seu Pedro Falcão.
– O quê que tem?
– Imagine agora, o seu filho, eu, com a filha dele, Gina, casando na Igreja amanhã pela manhã. Duas forças políticas unidas pelo casamento E... Em ano de eleições para a prefeitura.
– Mai isso... – E Epaminondas se levantou devagar do sofá – Mai ieu num havia pensado nisso!
E o coronel agitava os braços, mais do que animado, falando da BRILHANTE ideia de Ferdinando em casar com a filha de seu EX-inimigo político.
– Catarina! Catarina! Venha aqui, vamos nos preparar para um casamento!
E enquanto Epaminondas subia as escadas, Ferdinando abria um sorriso de canto, com uma expressão de missão cumprida.
– Amanhã, Gina... Amanhã! – murmurava satisfeito.
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