Existe Um Lugar
15 Parte 15
A moça estava diante do espelho, apenas de toalha, o cabelo preso num coque. Estava escolhendo a roupa que vestiria, já que toda a arrumação do vestido havia lhe tomado tempo desde o momento em que acordara. Felizmente, havia tirado o vestido, que sua mãe levara para outro cômodo. E enquanto escolhia a roupa, ela mirava-se no espelho, outra vez admirando suas formas femininas. À vezes fazia isso, tentando encontrar sua beleza... E estava tão entretida que não percebeu a porta do quarto abrindo devagar.
Ferdinando mal conseguia respirar. Lá estava Gina diante do espelho, apenas de toalha, como naquele dia que ela saíra correndo do banheiro com Juliana atrás. Naquela hora, ele a vira apenas de relance; mas agora tinha a chance de vê-la como a mulher que era, não a menina, ou a moça, mas a mulher – que seria sua no dia seguinte.
Quis entrar e pegá-la de surpresa, enlaçá-la com os braços e beijá-la, mas sabia que não podia, ainda. Porém, ela estava tão incrivelmente inconsciente de sua sensualidade, que quando ela virou de costas para o espelho, ainda com a face mirando o próprio reflexo, sem perceber deixou a toalhar lhe desnudar um dos seios. Ferdinando levou uma das mãos aos dentes, precisava controlar-se. Ele a queria demais, queria amá-la como se deve amar uma mulher, mas do jeito certo, com aliança no dedo e papel assinado. Gina seria sua esposa, seria a mulher de toda a sua vida, não aventura de uma noite. Ou dia, no caso. Fechou a porta devagar e também devagar foi embora da casa dos Falcão, indo em direção à escola, cujo quartinho Juliana havia emprestado. No caminho encontrou Viramundo, que àquela altura já havia voltado para a casa de seu Giácomo e para Milita. Cumprimentou educadamente o violeiro, mas sem dizer palavra.
Já no quartinho da escola, Ferdinando deitou-se na cama, relembrando os últimos momentos. Gina seminua diante do espelho, sem perceber mostrando a ele o que o aguardava na noite de núpcias, fazia brotar um sorriso nos lábios do rapaz, uma mistura de vários sentimentos, entre eles amor, satisfação e desejo. Ferdinando se sentia o homem mais sortudo da face da Terra, porque sua noiva era a mulher mais bonita que já conhecera. Dos pés à cabeça.
– Aaaara! – disse Ferdinando, agarrando o travesseiro – Que ieu tô lôquinho pra sentir a Gina junto d’eu! Mais um dia... Mais um dia... Mais um dia e farei dela a minha mulher!
Batidas na janela do quartinho o fizeram despertar de seu devaneio. Levantou-se, contrariado, para abri-la, e qual não foi sua surpresa ao ver o capataz de seu pai.
– Bas tarde, patrãozinho. – disse Zelão – Vim lhe trazê um recado do coroné.
Fale com o autor