– Gina... – disse a professora, segurando as mãos da jovem – Como você pode estar se sentindo tão pra baixo? Ferdinando te ama do jeitinho que você é, deveria estar feliz!

– É que ieu num sei, mai num parece certo – retrucou Gina.

– É por que ele é rico e você é pobre, como já me falou uma vez?

– Tumbém! – respondeu a moça – Queria que ele fosse que nem ieu, pronto! Mai num é! Como é que pode?

– Pode que ele te ama!

Juliana ajeitava o cabelo de Gina enquanto falava.

– Sabe, eu estava observando ontem enquanto ele se explicava, os olhos dele brilhavam tanto, Gina, pareciam duas estrelas! Ferdinando estava tão repleto de felicidade quando disse que você havia se declarado, a voz dele tão suave quando te pediu em casamento!

Gina olhava para Juliana, ainda confusa.

– Mai pru quê ieu?

– Ora, Gina! – disse Juliana, impaciente – E alguém nessa vida escolhe quem vai amar? Você já não disse que ama o Ferdinando?

– É, ieu disse...

– Então!

Gina bagunçava os cachos, como se fosse arrancar os próprios fios.

– Aaaara, ieu já nem sei o que disse! Já nem sei o que fiz!

– Bom, agora é tarde. – retrucou a professorinha – Ah, antes que eu me esqueça, seu pai foi mais o Viramundo pra lida e eu e Dona Tê iremos até as Antas.

– Ara, pru causa de quê que ocês vão pras Anta?

– Ora, Gina, comprar seu enxoval! – respondeu Juliana, rindo. Gina queria perguntar o que era enxoval, mas a amiga a interrompeu antes que falasse – Eu só vim mesmo te avisar, seu pai disse que você não precisa ir pra lida hoje. E dona Tê deixou o almoço preparado.

– Mai o quê que ieu vô fazer aqui dentro de casa, sozinha?

– Fique aí sendo noiva!

Minutos depois, Gina estava completamente só em casa, mais que contrariada. Foi até o jardim de casa e deitou em cima da grama, descontente com o ócio em que se encontrava. O céu azul límpido, com poucas nuvens, com aquele azul que lembrava os olhos do filho do coronel, aqueles que quando fitavam os seus era como... era como...

– Ai, que ieu num quero pensá! – e levantando-se rápida e raivosamente, andou apressadamente para casa...

E quando adentrou a sala, viu que Ferdinando estava lá.

– Bom dia, Gina. – cumprimentou Ferdinando, sorrindo. Gina sentiu as bochechas aquecerem, porque a primeira coisa que viu no rapaz, depois dos olhos, foi a boca.

– Bom... bom dia, Ferdinando! – disse a ruiva, tentando se controlar.

– Cadê todo mundo?

– Meu pai tá na lida mais o Viramundo e a mãe foi mais a Juliana lá pras Anta, comprar um tal de enxovar!

Ferdinando riu com a resposta de Gina. Estava na cara que ela não sabia do que enxoval se tratava. Mas preferiu não comentar sobre isso, para não constrânge-la.

– Ara, do que ocê tá rindo?

– De felicidade, minha querida. Felicidade porque finalmente ocê vai ser minha mulher.

O rapaz se aproximava cada vez mais da ruiva enquanto pronunciava tais palavras. Gina virou de costas para ele, que acariciou as pontas dos cabelos dela.

– Estamos noivos, ieu quase num acredito!

– Craro, ocê num deixou ôtra escolha. Foi falando aquelas coisa tudo, convencendo o pai e a mãe! Ocê é pior que uma cobra peçonhenta!

– Ara... – disse Ferdinando no ouvido de Gina – Não fale assim que me magoa, Gina... E ieu vim aqui só pra lhe ver, pra deixá meu dia feliz...

– Ara, pru quê?

– Briguei com meu pai ôtra vez, por sua causa.

– Minha causa? Como assim?

– Meu pai não aceita nosso casamento – e Ferdinando levou as mãos à cintura de Gina, que permanecia de costas para ele –, então ele me expulsou de casa e me deserdou.

Ferdinando suspirava enquanto acariciava a cintura da moça. Gina fechava os olhos, tinha que resistir.

– Saí de casa que nem da ôtra veiz, com uma mão na frente, ôtra atrás. Quer dizê, nem tanto assim, tenho umas economias que vai dar pra me sustentar sozinho por um tempo até arranjar uma ocupação...

O rapaz mal conseguia se conter de tanto desejo. Os cabelos de Gina roçavam em seu rosto, e ele só conseguia pensar no beijo do dia anterior, e da sensação de ter o corpo dela tão junto ao seu. Queria tudo aquilo novamente. Precisava sentir o gosto dela outra vez.

– Então, ocê ficou pobre?... – perguntou Gina, inesperadamente.

Ela sentiu a cabeça de Ferdinando assentir afirmativamente. A jovem finalmente virou-se para ele, e o rapaz pode ver seu rosto, as bochechas coradas, e aquela boca tão tentadora. Gina levou uma das mãos até o rosto dele, e o acariciou, passando levemente os dedos pela lado de sua face. Ferdinando sorria enquanto sua noiva fechava os olhos, num consentimento que não necessitava de palavras. Ela queria o que ele queria.

– Meu amor... – sussurrou Ferdinando antes de beijar Gina.