Excluídos
20 Capítulo 20- O colorido da vida
Quarto mês de gestação. Fomos ao médico essa manhã. Estou esperando uma menina. Ainda não planejamos um nome. O Peter preferia sempre preferiu uma menina mesmo. O meu braço esquerdo parou de "funcionar" totalmente. Não sinto, não mexo, ele está ali, mas não é útil. O médico me falou que o tumor não atinge o bebê em noventa por cento dos casos.
Peguei meu celular na bolsa no consultório mesmo e liguei para todos avisando sobre a ótima notícia. O Peter não tirava aquele sorriso lindo dos lábios. É engraçado pensar que durante anos, eu planejei conversas, momentos e beijos sob a chuva com meninos antes de ir dormir. Chorava só com a ideia de não poder construir uma família com um menino assim como o Peter. Apesar de tudo, as surpresas me encantam mais que as falas que construí na minha cabeça. Eu tenho tudo agora, e mesmo assim não sei se estou usufruindo da melhor maneira. Os olhos claros do Peter com um olhar carinhoso, seus abraços quentes e confortáveis e seu sorriso que já estou cansada de escrever sobre. Tudo isso parece perfeito. O Peter é o meu namorado, o pai da minha filha, o amor que jamais irei esquecer, mas um vazio ainda me acompanha sempre que me deito. John ainda faz falta.
Na escola, os meninos ainda chamam o Daniel e o Chris de bichas. Isso me deixa incomodada, afinal por quê eles se importam com a relação alheia? "Eles podem escrever em neon no céu: Daniel e Chris são bichas. Nós não ligamos mais para eles." Disse o Chris de mãos dadas com o Daniel no corredor da escola uma vez. Uma das frases mais românticas que já ouvi. Mesmo com o mundo conspirando contra, as pessoas lutando para destruí-los, tantos desafios, tantas risadas e ainda sim eles continuam se amando sem uma briga sequer. Eu realmente admiro muito a coragem deles.
A Angel sempre acompanhava a Rachel nos narcóticos anônimos. De lá pra cá, ela nunca mais usou drogas. "Depois que usamos uma vez, jamais esquecemos. A vontade nunca se vai, mas me livro dela assim que penso em vocês, pessoal." Falou a Rachel uma vez na escola. Fiquei orgulhosa dela, ela consegue vencer as drogas, não só uma vez, mas todos os dias quando a vontade a atormenta. Há boatos de que a Rachel e a Angel estejam namorando, porém elas nunca me contaram. Não importa, se for verdade, um dia elas me contam.
Todas essas cenas se passam pela minha cabeça. Esses últimos anos foram os mais difíceis, mas os melhores da minha vida. Conheci pessoas incríveis, vivi momentos fabulosos, chorei... de ri, briguei e me desculpei, enfim, consegui ver coisas que jamais sairão da minha cabeça. Sabia que o tumor não ia ficar satisfeito só com meu braço; agora, ele quer tirar minha visão. Ele quer deixar meu mundo escuro, no último exame que fiz, minha visão já foi afetada em setenta e cinco por cento. Ainda consigo ver, às vezes tudo fica mais cinza, vou ter que me acostumar com a escuridão eterna. Eu vou sentir saudades do rosto do Peter — do seu sorriso que não vou descreve-lo de novo- das mais altas árvores, do azul encantador do céu, dos livros que me faziam rir e chorar, vou sentir saudades de cada coisa que eu consegui ver, mas que não vou poder desfrutar disso novamente, em breve. Enquanto não fico totalmente cega, vou usar minha visão para guardar cada momento que nunca irá sair da minha cabeça. Ainda não contei aos meus amigos, ms eles percebem pela minha momentânea perda de visão. Antes disso acontecer, eu vou ler um livro que jamais poderia morrer sem lê-lo, Querido John.
"Eu vou te amar de qualquer jeito. Porque no fundo, eu sei que você está ai me amando." Foi o que o Peter me disse quando viu o resultado do meu último exame. O médico disse que minha visão irá se espira depois do nascimento da minha filha, agradeci, afinal eu quero mais que tudo ver o rosto da minha filha. Será que ela ser como o pai? O impostante é que eu estava vendo o suficiente.
-Como você consegue ter tanta falta de sorte, Laura? — Questionou a Sarah;
-Eu não me sinto com falta de sorte. Me sinto a pessoa mais sortuda desse mundo. Tenho tudo o que preciso para me fazer feliz. — Respondi, o que a fez ficar chocada com a resposta, afinal ela aparenta ter tudo e ainda está por aí brigando com todos que encontra.
O tempo parecia que estava voando, a cada dia que se passava era um dia a menos. O Peter prometeu me levar no parque onde comemos Cupcake e paquecas, aquele era um dos meus lugares favoritos no mundo, o meu favorito era dentro do abraço do Peter. A Angel e a Rachel finalmente me contaram sobre o "namoro" da duas. Coloquei entre vírgulas, porque não é bem um namoro ainda. Elas estão experimentando a ideia. Super aprovo a ideia. Isso me faz pensar que somos tão diferentes, mas nos amamos mais que tudo. Chris e Daniel são gays, Peter e eu héteros, Angel e Rachel podem ser lésbicas. Todas essas diferenças só serviram para nos unir.
Hoje, o Oliver veio me pedir desculpas pelas fotos que ele tirou de mim quando fui visita-lo. Acho que quando a pessoa está com problemas, cujo a sociedade julgam mais sérios as pessoas ficam com pena. Isso é desprezível, afinal solidariedade é diferente de pena. Entretanto, eu aceitei as desculpas. Nem me lembrava mais disso. A felicidade tirou da minha mente todas os momentos que a tristeza roubou.
Quinto mês de gravidez. Hoje, tive um pesadelo — ou sonho, não sei classifica-lo-. O John aparecia e ficava sussurrando repetidas vezes " Laura, noventa e três." Isso me perturbou durante alguns minutos até que acordei assustada. O que era noventa e três? Acho que não era nada demais, apenas um sonho/pesadelo. Que seja, logo voltei a dormir.
Fale com o autor