Notas iniciais
Não comece a ler isso, antes de jogar um pouco de sal por trás dos ombros. Assim, você terá tanta sorte quanto eu mesmo, que não o fiz. Por isso, ouço passarinhos à noite e barulhos de ondas do mar no centro da cidade. Aliás, meu nome é Jake.

Não me sinto confortável para contar a minha própria história. Ai você me pergunta: então pra quê contá-la, afinal? Porque o interior de meu corpo me diz que eu preciso compartilhar os meus piores e melhores momentos de minha vida, antes que ela chegue. A morte. Aquela que todos tem medo, porém não eu. Eu já fui melhor amigo desta criatura que muitos tentam evitar, e acredite, ela tem cheiro de baunilha e raspas de tronco de árvore em tardes de inverno.

O começo das aulas foi quando tudo começara, claro. Sou estudante, mais específicamente no último ano do ensino médio, prestes a me formar. Três quartos dos estudantes que me cercam desde ano passado, quando ainda era novato, acham que esse é o melhor momento da vida deles, a hora em que finalmente se livram da escola e tem um baile de primavera perfeito, como nos filmes de comédia romântica de hoje em dia. E o que sobrou dos três quartos são nada mais, nada menos que três perdedores que nunca tiraram nota maior que sete na média. Infelizmente, afirmo que faço parte com orgulho desse grupo. Claro, não vou negar que é confortante saber que falta poucos meses para me livrar de todo esse peso emocional que é o ensino médio, não vejo a hora de receber o meu diploma e nunca mais ver a cara de professor nenhum.

– Uma moeda pelos seus pensamentos. — Me ofereceu a jovem ao meu lado. Estendeu um centavo em minha frente e jogou-a em seguida. Tentaria me conter se fosse outra pessoa, mas era Emily, a minha melhor amiga. Uma criatura pequena, raquítica, só pesava trinta e sete quilos por causa dos cabelos louros volumosos e do peso dos seus neurônios. Não havia percebido a sua presença até então, e não forcei os meus olhos a se virarem, de tão cansado que me posicionava. Havia passado a noite em claro, pensando em alguma coisa em específico, cujo esqueci antes mesmo de chegar em minha memória.

– Já parou para pensar o quão estranho as palavras soam quando demasiado as pronuncia? — Um outro assunto surgiu antes mesmo separar os meus lábios ressecados para a responder. Já não era mais Emily, mas o outro que pendia o corpo ajoelhado na cadeira, em uma posição que visto de onde estava era muito desconfortante. Ali estava o meu melhor amigo e irmão de todas as horas desde os sete anos de idade, Fênix. Nunca havia parado para perguntar qual o seu verdadeiro nome, mas era esse que o jovem sempre afirmou para qualquer um. Era um filho de zé ninguém, uma bagunça por completo. Pela primeira vez então, parei de fitar o assoalho da sala e levantei a cabeça para conferir os dois. O ruivo de quase dois metros de altura dava um sorriso irônico, típico de sí mesmo. Suas longas madeixas que o distinguia de qualquer outro rapaz caiam sobre os ombros, parecendo que estava a entrar em chamas.

Emily nunca parecia diferente, pelo menos não na única parte em que mais noto, o sorriso. Ainda parecia um tanto curiosa para saber o que o meu eu interior consistia em refletir sobre, mas nem eu sabia mais o que era. Seu curto vestido floral destacava ainda mais os ossos com melanina que ela insistia em falar que eram pernas. Um certo desleixo no batom vermelho fazia com que os seus lábios parecessem desproporcionais, o que me fez arrumá-los com a ponta do meu dedo indicador. Me perguntei se eu sempre costumava parecer assim todas as manhãs, desarrumado, porém especial.

Como do nosso cotidiano, nos silenciamos e ouvimos desatentos as conversas que nos rondavam. Não era muitos os jovens que estudavam conosco, porém o barulho que faziam dava a ilusão de que estavamos em uma luta livre de um bando de orangotangos. Da minha orelha direita, conseguia ouvir um grupo de jovens de cabelo platinado e unhas cor-de-rosa discutindo sobre o que utilizar no Homecoming, que ocorreria na próxima semana. Já tinha até me esquecido de tal evento. Não sou mais um calouro, mas de toda forma nunca formei laços de amizade com ninguém, a não ser Fênix, meu melhor amigo de infância desde os meus sete anos, e Emily, que me apareceu no meio do ano passado e praticamente fez um milagre em minha vida. Então, o jeito mais lógico de pensar era apenas não ir, já que festas de boas vindas para os novatos na maioria das vezes exige um par, e opcionalmente do sexo oposto. Certo?

– E o Homecoming? — Pensei trinta vezes antes de insistir em puxar novo assunto. Não queria, mas insisti.

– O que tem o Homecoming? — Fênix me perguntou, arqueando uma sobrancelha ruiva para mim — Você não quer ir, não é?

Agora, não mais. Eu sabia o que aquela pergunta significava. Entrei no ensino médio há três anos atrás, e em nenhum dos três tinha ido a nenhum evento sequer desta. Aquela expressão em seu rosto significava que achava que eu estava ficando louco. Dei um espaço de tempo para pensar na resposta que me parecesse menos confusa para o momento.

– E os senhores não vão? — A loira, que até então se permanecia calada, tomou uma posição na conversa. Balanceei a cabeça fazendo um sinal negativo, e instantâneamente ela me deu três batidas de leve na testa, com a sua mão. — Eu estava esperando que me convidassem. Por isso eu não aceitei o convite de ninguém.

Era estranho. Em metade de um ano Emily conseguira fazer mais amigos que eu conseguira fazer em minha vida toda. Poderia muito bem estar junta ao resto do grupo das platinadas, discutindo sobre a vida dos famosos, porém ela preferia ficar conosco. Eu não conseguia entender o motivo. Acho que ela viu o que os outros não viam em nós dois. E o que nem ao menos eu mesmo via.

– Convidassem?

– Sim... um, ou outro. Ou os dois. — Ela deu um daqueles sorrisos que valiam um milhão de dólares em barras de ouro. Hesitei, continuei calado. Foi quando ela nos chacoalhou com as mãos, o rosto implorando que tomássemos uma decisão — Vai ser legal... se lembrem, é o último ano no ensino médio. Vamos lá! — Me lembrei que sem nós, certamente ela não ia. Não tinha par. Na verdade, não tinhamos par.

– Não. — Fênix não pensou duas vezes. Ele tinha certo trauma, após ser humilhado em público pela amiga que tinha convidado para o baile do ano passado. A minha covardia me impediu de abrir a boca. Me virei para o rosto decisivo de um, depois para o de decepção de outro. Queria dizer como a minha cara estaria naquele momento, mas não consegui achar descrição para a mesma.

Emily bateu uma ou duas vezes na mesa, levantou-se e dialogou consigo mesma em alguma língua estrangeira, talvez francês. Pela expressão em sua face, ninguém gostaria de saber o que ela estava falando. Logo após, ouviu-se os seus passos ecoarem pela sala, até sumirem de repente. Deveria ter ido para uma mesa na frente, não tive coragem de olhá-la naquele momento. Continuei a fitar o chão.

...

Não seriamos tão facilmente convencidos para ir ao tal baile, e assim, resolvemos não ir, mesmo sem nenhuma intervenção humana de Emily. Sabiamos que a jovem estava muito mais do que irritada com a nossa decisão fora de hora, até porque a culpa era por parte nossa. Então, estavamos os três, como de costume, sentados em fileira. O modo de que nos sentávamos era de acordo com nossa altura, de um jeito estranho nós decidimos fazer aquilo desde que nos conhecemos. Então, era sempre desse jeito: Primeiro, Fênix. Eu no meio, e Emily, a mais baixa, no final. Talvez não fosse só por altura, talvez fosse também pelo tamanho do cabelo. Era um fato quase que engraçado que a forma que os meus melhores amigos fugiam do senso de padrão mundial, eram exatamente o contrário, um homem de cabelos longos e ruivos, e uma loira com o cabelo raspado por uma máquina três. As vezes, me imaginava o mais normal dali, mas sinceramente não era.

Estavamos sentados sobre uma ponte sem grade, nossos pés se movimentando no ar enquanto observavamos uma grande extensão de água logo apaixo dos mesmos. Não tinhamos muito medo de cair, além do local estar deserto a tal hora da noite, significava que tinhamos extrema confiança um pelo outro a ponto de estarmos centímetros de distância de cair, porém sabiamos que não iamos.

Tomei um gole demorado do líquido contido na garrafa de cerveja direto do gargalo, e a entreguei para Emily, que fez o mesmo. Era uma noite tão movimentada, porém tão quieta. Não queriamos falar nada, nem eu, nem ele, nem ela.

– Vamos. — Eu abri a boca, e logo após isso, me levantei de uma só vez.

– Para onde? — Fênix me fitava levantar, quase que me fuzilando com os olhos.

– Não vamos ficar sem fazer nada em uma plena sexta feira, não é? — Não sabia de onde havia retirado tanta atitude. É isso o que alguns goles de alcool fazem com um jovem de dezessete.

– Mas... para onde?

Vi os dois se levantarem, uma ponta de disposição surgia em Emily.

– Para todos os lugares.

Foi essa a última frase que me lembro ter dito. Após isso, pelo que me lembro, corremos, bebemos, fomos a duas ou três festas underground diferentes, fomos expulsos de um bar, fugimos de um policial negro... e então eu apaguei. E acordei na minha cama. Poderia ter acordado com um sorriso no rosto, não fosse por um pesadelo estranho que tive em três horas de sono profundo.

Eu estava sentado em algo que poderiamos definir como uma poltrona de madeira sem alcochoamento nenhum. Haviam pregos ali, para que os pedaços de pau se segurassem uns nos outros. Eu não conseguia muito bem saber o que estava acontecendo, e não conseguia ver nada mais que o escuro. Parecia que estava vendado, porém conseguia enxergar a mim mesmo e a poltrona. Me assustei ao perceber que as minhas mãos e pés estavam ensanguentados, e o meu pescoço jorrava mais alguns pingos de sangue, que desciam até sujar a minha camisa cinza. Tentei me levantar para perguntar o que estava acontecendo, porém alguma pressão me fez com que eu continuasse ali, naquela posição desconfortável. Logo, uma dor incontrolável tomou conta dos meus pés, e ao fitá-los, logo percebi do que se tratava. Marcas de tiros e rasgões os deixavam irreconhecíveis. Desceram algumas lágrimas de meu rosto ao me ver daquele jeito; Tentei gritar por ajuda, mas as minhas cordas vocais pareciam ter sido retiradas, não saia nada mais que sangue da minha boca.

Uma sombra surgiu mais ao longe, não reconhecia a mesma. Logo, outra veio junto. E mais outra. Ao total, foram quatro sombras. Um sorriso que definia o meu desespero surgiu nos cantos de minha boca, e foi ai que eu percebi que os desconhecidos não iam me ajudar. Eles que haviam criado tudo aquilo. Ao se aproximarem, percebi a forma não humana de tais. Usavam roupas de gangsters, mas as suas feições não eram humanas. Pareciam os demônios de capas de CD de um album de black metal. Suas caras eram deformadas, um tinha as cavas dos olhos vazias. A única coisa em comum de um para o outro era que todos tinham chifres imensos, que se contorciam em seu meio.

O que aparecera primeiro havia balbuciado alguma frase em outra língua, parecido com Russo. Consegui ouvir um pouco do que outro deles disse, era algo parecido com ''o sacrifício está perto''. O que aquilo queria dizer? O que eu tinha a ver com aquilo? Que merda, como eu queria gritar naquele momento. Chamar os meus amigos, perguntar onde eles estavam naquele momento. Quando se aproximaram mais ainda, eu acordei.

E dei graças a deus por ter acordado. Não queria participar de sacrifício nenhum. Obrigado, Deus, se é que você continua ai, por ter sido nada mais que um sonho.

Chequei os meus pés, só para ter certeza.