Examinis
2 Injusto
Notas iniciais
Arranquei algumas páginas desta baboseira. Creio eu que o fiz quando estava bêbado, então irei conta-la novamente.
Continue lendo.
Há algumas semanas atrás, recebi uma folha de papel rabiscada da minha mãe. Ela é uma cidadã americana e muito engraçada. Na mesma semana, havia apaixonado-se por um canal de educação e alimentação familiar na televisão, e um programa sobre como educar o seu filho adolescente a chamou a atenção. No primeiro episódio, conta a forma mais descontraída de realizar um programa de atividades para os adolescentes. Claro que estava errado... claro. Errado, porém muito engraçado. No papel, continha algumas ideias de como curtir o final de semana com os coleguinhas de forma divertida e sem se envolver em tentações ou pecados. No sábado, eu agradeci a ela e disse que ia sair para tomar um ''Sorvete radical com o melhor amigo''. De certa forma, eu entendia o lado de minha mãe. Não conseguiria me imaginar viúvo, sem parentes próximos, sem vizinhos agradáveis e com um filho único como eu mesmo. Seria bastante estranho.
De fato, nós até passamos em frente à sorveteria (quando falo nós, digo Jake e Fênix), mas não pedimos sorvete nenhum. O dia estava nublado e frio demais para esse tipo de coisa. Em cima da sorveteria, havia um bar de sinuca e lazer que costumávamos ir. Logo de primeira vista, era um lugar além de sujo, muito desagradável. Porém, não para nós. O clima obscuro e a falta de limpeza nas mesas de plástico davam um clima especial, e costumávamos ir até lá todos os fins de semana para beber cerveja e apostar com sinuca e poker com uns caras. Os caras eram, de fato, uma gangue cujo faziamos parte. Não entendi bem a pronúncia de primeira, mas o significado era alguma coisa em francês, como cocaína ou drogas.
Estava tentando encaçapar a bola preta dentro do buraco, Fênix havia apostado todas as suas fichas naquilo, o que era equivalente em cento e cinquenta euros, quando um outro grupo se amontoou na entrada do tal bar. Passando os olhos, não consegui reconhecer ninguem, até porque todos utilizavam máscaras. Alguns com máscaras de palhaço, porém a grande maioria usavam uma da rainha da Inglaterra sorrindo. Sabiamos o que estava por vir, e por isso já estávamos preparados. Ninguém realizou um único movimento.
Eu que deveria começar com aquilo. Fitei todos os integrantes do grupo e apertei com força o taco que segurava. Dei uma olhada rápida em todos os que me cercavam. Um dos líderes que se posicionava a minha direita, Alex, deu um sinal com os dedos. Avancei ligeiro sobre um rapaz um pouco mais alto que eu, que utilizava uma máscara de palhaço, e o atingi com o taco em seu pescoço. Após isso, os outros que estavam comigo também avançaram. Aquilo se chamava briga entre grupos, por motivos pessoais. Naquela vez, haviamos os afrontado propositalmente quando invadimos um casebre solitário que era denominado o ponto de encontro deles, há poucos dias antes do acontecido, e destruimos boa parte do que havia ali. Então, eles nos procuraram para ter a sua vingança. Eu era novo naquela coisa toda, mas Fênix, que participava faz anos, costumava me dizer há tempos que a partir do momento em que você se envolve com uma coisa dessas você tem que decidir entre matar a covardia, ou a covardia te matar.
Não pude olhar muito bem à minha volta enquanto tentava me livrar de um dos caras, porém percebi que alguns ali não iam desistir fácil. Fênix fez vários sinais consecutivos com os dedos, enquanto fazia um mais fraco sangrar até desistir. Um sinal de paz, seguido de uma mão fechada e o dedo indicador para baixo. Tinha aprendido o significado daquilo no momento em que entrei naquela coisa: eles não estavam aqui somente por vingança, mas eles queriam algo mais. Naquele momento, o que tinhamos de mais importante naquele local era exatamente 250 gramas de maconha, três mil euros em notas e uma arma calibre 38 novíssima que haviam ganho em apostas com outros grupos. Apertei com força a gola de outro cara e me preparava para atingi-lo, quando Alex veio até mim e enfiou um saco plástico dentro de meu casaco. Já que era responsabilidade minha de ter começado, era também de responsabilidade minha carregar o que eles queriam. Por um momento pensei o por quê de ter adentrado naquela gangue. Olhei aos arredores, e não avistei ninguém me observando. Logo, corri o mais depressa possível para a minha esquerda, onde estava a saída de emergência.
Tentava enfiar a sacola no bolso embutido do casaco enquanto descia depressa as escadas, porém ao tocar a ponta dos pés no chão, fingi que nada estava a acontecer e andei normalmente. Não deixaria que as pessoas que circulavam ali soubessem do que acontecia ali em cima.
Enxuguei o sangue do nariz com a palma da mão. Engraçado, não me lembro de ter levado um soco no nariz.
Andei rastejando os olhos de um lado para o outro. Eu era novo ali ao redor, basicamente ninguém prestava atenção em meus passos. Certo? Errado. Fui abordado por um rapaz esquisito, que saiu me puxando pelo braço. De primeira, pensei que fosse um estuprador. Logo, pensei em dizer: calma ai, amigão! Entra na fila. Mas ai me recordei de que estava com um pacote muito do suspeito enfiado em meu casaco, e provavelmente aquele adulto era um dos que o queriam. Dei uma cotovelada em seu rosto e consegui me soltar do desconhecido, isso em questão de segundos. Quando mal percebi, estava correndo novamente, desta vez fugindo do que me perseguia.
Tentei o tanto que pude me desviar o máximo possível daquele sujeito, mas era impossível. Já estava em outra rua, um pouco mais deserta, mas ele continuava me perseguindo, metros de distância atrás. Tentei me desviar, correndo para a ponte em que eu e meus amigos costumavamos ir para relaxarmos e ficarmos bêbados. Já estava interditada faz algum tempo, mas a nossa entrada praticamente nenhum ser além de nós enxergávamos. Saltei alguns blocos de pedras até chegar no meu destino, e parar logo no meio da estrada para tomar fôlego.
Havia alguns minutos que me posicionava no mesmo lugar, precisava retomar todo o ar que havia perdido durante a corrida. Feito isso, continuei andando até quase o final da ponte, pegando outra entrada que dava em outra rua, perto da casa de Emma. Quando o rapaz esquisito me tocou no ombro. Olhei pelos cotovelos, só para checar. O homem branco, jovem de quase dois metros de altura me apontou uma faca discretamente em meu estômago.
O meu coração acelerou.
Eu realmente não sabia o que estava fazendo, juro.
Recolhi o pacote, lentamente, que estava em no meu bolso embutido. Mas, ao invés de entregá-lo, apenas a segurei pela alça. Enquanto, retirava outra coisa com a mão direita. Fingi que ia entregar o saco com tudo.
Mas ao me virar, atirei no cara. Um clique, apenas. E a bala atravessou o seu tórax como uma flecha pontiaguda atravessaria uma maçã. Antes de cair ao chão, ele conseguiu enfiar o que segurava em suas mãos no lado direito de minha barriga.
Me ajoelhei para suportar o peso do meu corpo, e acabei por desmaiando no chão daquela ponte.
Abri os olhos pesadamente, enquanto alguém berrava o meu nome várias e várias vezes. Algumas mechas de cabelo vermelho caiam no meu rosto enquanto sentia alguma coisa me chacoalhando, o que me fez acordar. Havia escurecido rápido. Me levantei o mais depressa possível, meus olhos se arregalaram. Poderia ter jurado que aquilo era um pesadelo, se não sentisse uma dor incontrolável subindo no meu corpo após ter me movimentado. Gritei um xingamento, e bati a cabeça no asfalto frio novamente. Olhei a minha volta, alguns conhecidos me cercavam. Fênix se posicionava ao meu lado, feições de desespero tomavam o seu rosto. Mais a longe, mas não tão longe, Alex estava parado em frente ao sujeito que provavelmente não estava mais vivo, um de seus pés pisando com desgosto o tórax do desconhecido. Eu não conseguia ouvir nada além de ruídos devido aos gritos de dor que o meu corpo me faziam dar a cada intervalo de cinco segundos. Pus a mão no começo do ferimento, próximo a virilha, e retirei lentamente o objeto que me irritava. Ligeiramente, algumas lágrimas desceram pelo meu rosto, mas eu sabia que no fundo não era daquela dor física.
Eu tinha matado um cara. Foi o que eu tentei dizer pra mim mesmo.
- Estou orgulhoso de você, rapaz. — Alex insistiu em me dizer, e foi tudo o que eu consegui ouvir. Após isso, me lembro de um ou outro ruído de desespero do ruivo a minha frente. Ele gritava palavras soltas, como ''bem'', ''certo'' e ''fodido''.
Depois disso, não me lembro de mais nada daquele dia. Acho que eu desmaiei novamente.
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