Everything has changed
4 Capítulo 4
As ideias de Darcy não agradaram Elisa, pois envolviam, por exemplo, demonstrações explícitas de afeto, algo que ela era totalmente contra.
— Por que você acha que ficar encostando em mim vai fazer com que os dois acreditem no nosso namoro? – ela perguntou, tentando fingir indignação.
— É isso que casais apaixonados fazem, Elisabeta. Eles não se desgrudam. – ele disse, como se fosse algo que tinha que ser óbvio pra ela também.
— Mas eu sou uma moça de família. – ela respondeu, como se ele tivesse que ter pensado nisso antes.
— Mas moças de família beijam também!
— Quem falou alguma coisa sobre beijar? Estávamos falando de… er… sei lá, você me dar a mão às vezes.
— Bom, eles não vão mesmo acreditar assim. Você quer que seja realista ou não? – ele questionou.
— Eu consigo fingir muito bem, obrigado. – ela ponderou. – Mas acho que você está certo. Mãos dadas às vezes não vão atrapalhar. Sem beijos!
Elisa achava que os dois tinham que contar pra Jane e Camilo do relacionamento falso, pois os dois estavam morando na mesma casa e obviamente eles desconfiariam. Darcy não gostou da proposta.
— Se contarmos pra Camilo e Jane eles vão abrir a boca e espalhar pra alguém e ai você vai continuar com sua mãe te importunando. – Darcy refletiu.
Fazia sentido, de alguma forma, mas Elisa achava impossível que Jane fosse acreditar, especialmente depois de todos os olhares secretos dela pra Elisa sempre que Darcy falava alguma coisa.
— Bom, eu acho que Jane vai desconfiar, porque a gente conversa e ela sabe como eu me sinto realmente sobre você. – Elisa admitiu.
— E como você se sente realmente sobre mim? – Darcy tinha um olhar divertido nos olhos.
— Ela sabe que eu te odeio, digamos assim.
— Você me odeia? Mas você aceitou minhas desculpas. – ele parecia genuinamente triste.
— Darcy, quem em sã consciência iria acreditar que nós dois, que vivíamos discutindo sobre todos os assuntos possíveis, estamos namorando? Dona Margareth tudo bem, ela não me conhece e eu consigo fingir que estou apaixonada pelo meu “noivo” – ela desdenhou –, mas minhas irmãs, meus pais? Essa não foi uma boa ideia.
— Mas seus pais e suas irmãs não te veem há meses. E eu tenho certeza que Jane vai acreditar. — ele a desafiou.
— E eu tenho certeza que não! – ela revidou. – Eu acabei de falar com ela que preciso de um pretendente pra festa. Ai aparece você do nada.
— A gente pode contar pra eles semana que vem. – ele disse. – Durante essa semana você tem que agir como se estivesse interessada no que eu falo e não me dar patadas toda vez que eu abrir a boca. E ai semana que vem, quando falarmos que estamos namorando, Jane vai acreditar.
— Eu não dou patadas sempre que você abre a boca. – Elisa revidou. – É porque às vezes você tem opiniões muito estúpidas.
— Eu te garanto que quase todas as nossas opiniões são parecidas, mas eu acho que você discute comigo esperando que eu vá te beijar de novo. – ele sorriu.
— Como você ousa! – Elisa se levantou, pronta pra sair sem acordo nenhum.
— Elisa... – ele segurou o braço dela. – Era um treinamento e você falhou! Você não pode sair do quarto quando seu namorado sugere um beijo!
— Darcy, se você fizer algo assim na frente de alguém, eu vou dizer que seu hálito está insuportável e falar pra você escovar os dentes, meu amor. – ela voltou a se sentar, pois apesar da brincadeira, Elisabeta estava mesmo desesperada.
— Jane não vai acreditar. Mesmo que eu seja o exemplo da boa educação que tive. Ela vai desconfiar.
— Jane vai acreditar porque acredita no amor e no melhor das pessoas. Ela e Camilo estavam namorando depois de dois dias juntos. Nós dois nos conhecemos há mais de um ano. Você vai ver. – ele a desafiou.
— Acho bonitinho você achando que conhece minha irmã melhor que eu.
— Então vamos fazer uma aposta: se Jane acreditar, a gente usa a minha ideia de demonstrações públicas de afeto – sem beijos, porque eu posso conceder essa parte. Se ela não acreditar, a gente conta pros dois da mentirinha e eu te acompanho no casamento de Mariana e você me acompanha no baile e depois cada um vai pra um lado e acabou. – Darcy concluiu, parecendo um pouco chateado com a segunda opção.
— Por que você é tão obcecado com apostas? É algum problema de gente rica?
— Parece que alguém não confia tanto assim nas reações da própria irmã… – ele disse.
— Está apostado! – ela ia ganhar, é claro. Saiu dali rapidamente e deixou Darcy com um sorriso abobado no rosto.
xxx
Darcy e Elisa estavam se comportando estranhamente bem e passando muito mais tempo juntos. Jane estranhou um pouco, porque Elisa estava pronta para matar Darcy no primeiro dia, mas ela sabia que a convivência da irmã com o cunhado seria boa pra resolver esse último pequeno empecilho que pairava sobre sua felicidade plena. Camilo achou perfeitamente normal e já tinha dito pra Jane várias vezes que as implicâncias dos dois eram implicâncias de amor, que um dia eles perceberiam isso. Desconfiava, inclusive, que o amigo já tinha percebido, mas não baixava a guarda porque a cunhada também não baixava. Convivência era o remédio pros dois.
Os dois caíram numa rotina sem perceber. Darcy chegava em casa mais cedo que ela e ficava na biblioteca lendo alguma coisa, até que ela chegava – um momento cada dia mais esperado por ele –, conversava com ele sobre seu dia e sobre as notícias do jornal, sobre as entrevistas para sua coluna e passou a contar com a sua opinião pra ter mais ideias para a redação.
— Você não é tão insuportável quando concorda comigo. – Elisa disse um dia.
— Eu só concordo com boas ideias, você sabe. Eu te disse que nossos ideais eram parecidos. Se suas ideias fossem ruins, eu não iria concordar. – ele replicou. Ele provavelmente iria concordar, pois queria agradá-la.
— Ei, eu acho que tem um elogio escondido ai! – ela sorriu.
Elisabeta estava surpresa consigo mesma. Não devia ser tão fácil conviver com Darcy, ela tinha guardado uma mágoa por tanto tempo e ela sempre jurou que foi pelo que aconteceu com Jane, mas depois de alguns dias, ela percebeu que não se lembrava mais o porquê de tanta raiva. Ele estava errado, mas não era de todo absurdo que ele tivesse tentado proteger Camilo e ela tinha certeza que se estivesse no lugar dele, faria a mesma coisa.
Os dois continuavam discutindo como sempre fizeram, mas era mais amigável agora. Elisa sabia que ele a respeitava e passou a apreciar mais o senso de humor de Darcy, uma mistura perfeita, como o próprio dono: meio britânico, meio brasileiro.
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