Escutei alguns gritos vindo da sala. Não sei porque me assustei com isso, já deveria estar acostumada com meus pais brigando frequentemente, as vezes por minha causa.
Desci e fiquei sentada em um dos degraus da escada, escondida para não me verem.

— Ela não pode ser modelo para sempre, um dia a beleza acaba! — gritou meu pai, com os olhos fixos na minha mãe.

— Mas é isso que ela gosta de fazer. Deixe ela!

— Ela ainda é uma criança.

— Ela tem 18 anos- minha mãe argumentou.

Por sorte, eu herdei essa calma dela. Admirava como ela lidava com os problemas, a postura que ela tinha no meio de brigas e discussões era invejável.

— E quando ela não tiver mais idade suficiente para ser modelo? Ela vai fazer o que? — prosseguiu meu pai. Sua voz já estava tão alterada, que até me assustei.

Me encolhi na escada, e abracei minhas pernas. Continuei olhando os dois, pela brecha que tinha encontrado.

— Ela está trabalhando e ganhando o dinheiro dela, mas também está estudando.

— A questão, é que ela não vai ser mais modelo e fim do assunto. — ele ergueu as mãos, como se aquilo já tivesse feito.

Não aguentei mais ouvir a briga, subi novamente para o meu quarto com lágrimas nos olhos e me joguei na minha cama. Caramba! Eles não poderiam deixar a minha vida profissional em paz? Eu estudo e vou pegar o meu diploma, mas eu gosto de ser modelo e é isso que eu quero. Meu pai tinha que pensar nisso também.

* * *

Não tinha notado que acabei dormindo no meio dos meus pensamentos.Acordei desesperada com um barulho de carro em alta velocidade, pelo visto estava saindo da garagem. Olhei no relógio e eram 2:20 da manhã. Desci as escadas correndo pra ver o que tinha acontecido com os meus pais, e lá estava minha mãe sentada no sofá, chorando.

Mãe ? — disse me aproximando. Ela secou rapidamente as lágrimas — O que aconteceu?

—Não, nada — ela disse, ainda com a voz embargada pelo choro.

— Se fosse nada você não estaria chorando.

— Esquece, ok? — se virou pra mim, ainda secando as lágrimas que caiam.

— Não, cadê o meu pai? — perguntei preocupada, e sentei ao seu lado.

— Eu não sei — seus olhos se encheram de lágrima novamente.

— Ei, calma — a abracei — Vai ficar tudo bem mãe, tenho certeza. Afinal, sempre ficou, certo?

Dei um sorriso encorajador. Ou pelo menos, tentei.

— Será ? — ela me soltou, me encarando logo depois.

— Eu acho que sim. Mas também, toda semana vocês brigam, tem que dar um jeito nisso, não acha?

— Acho, mas não precisa se preocupar comigo, tudo bem? — falou, e sorriu sem mostrar os dentes.

— Mas mãe... — suspirei frustada por ela não me deixar ajudar.

— Mas nada minha filha! Vai deitar, está tarde. — disse passando a mão no meu cabelo.

Como não tinha jeito, assenti dando-lhe um beijo na bochecha. Subi para meu quarto novamente, e lá fiquei.

* * *

Escutei o alarme do meu celular ecoar o quarto. Ainda com os olhos fechados, deslizei meu dedo pela tela do aparelho, desligando o despertador. Levantei preguiçosamente, indo direto para o banheiro.

{...} Depois de 30 minutos desci.

— Bom dia mãe! — dei um sorriso, puxando uma cadeira para sentar.

— Bom dia flor do dia — ela parecia bem — Fiz panqueca. — falou

— Ah, obrigado! — Dei um daqueles sorrisos novamente, e peguei meu prato, colocando as panquecas no mesmo- Cadê meu pai?

— Eu ainda não sei, ele não deu notícias.- disse, logo deixando sair um suspiro pesado.

— Daqui a pouco ele aparece de novo — garanti.

—Ele deve estar em uma daquelas pousadas onde sempre fica. Qualquer coisa eu vou atrás dele.

— Isso ai — eu disse colocando uma garfada na boca, logo ouvir o telefone tocar.

— Eu atendo — minha mãe avisou, indo até a sala.

Não prestei muita atenção na conversa por que eu estava olhando pela janela, enquanto me deliciava das panquecas. Céus! Estavam realmente boas. Mas quando eu olhei para minha mãe, a cara dela não estava muito boa. Ela desligou o telefone rapidamente, sentando no sofá com a mão no peito.

Levantei rápido e fui até ela.

— Mãe, você está bem ? — não obtive respostas- MÃE! — Gritei, fazendo ela me olhar dessa vez.

— Filha, eu sinto muito — se levantou e me abraçou forte. Eu não entendi, mas a envolvi com meus braços da mesma maneira.