Everybody hates Pip
24 Gula
Notas iniciais
Pip estava muito bem acomodado no sofá, lendo um romance de Charles Dickens, o livro Grandes Esperanças. Estaria mentindo se falasse que nunca havia lido aquela obra antes, pelo menos algumas vezes, mas a leitura nunca se tornava menos estranha, pois era como se estivesse lendo sobre uma outra versão da sua própria história na Inglaterra – uma curiosamente mais plausível para quaisquer que sejam os padrões de normalidade. De todo modo, aquilo não tornava a leitura menos apreciável em qualquer aspecto, talvez um pouco assustadora pelas inúmeras coincidências, mas não o suficiente para lhe impedir de aproveitar a história.
Como o loiro estava concentrado no livro não notou imediatamente a presença de Damien na sala. Demorou alguns segundos antes de Pip perceber que tinha companhia, só o tempo que o moreno levou para andar até o sofá e se sentar do seu lado. Interrompeu a leitura e virou o rosto naquela direção, viu que ele lhe encarava e por isso sorriu, pois estar com Damien era muita coisa, e nenhuma delas era sinônimo de algo ruim.
— Estou atrapalhando?
— De maneira alguma. – Fechou o livro com o marca páginas e colocou o objeto de lado, no braço do sofá. – Eu já li esse um monte de vezes.
— E o seu favorito?
— Não realmente, mas me identifico com ele. – Respondeu, simpático como nunca conseguia deixar de ser. – E você Damien, o que está fazendo?
Damien deu os ombros e se encostou no sofá, de um jeito preguiçoso e entediado, também um pouco pensativo, mas isso podia ser só impressão de Pip. Ele levou alguns breves segundos para responder, e o tédio na voz combinava muito bem com a postura:
— Eu tava falando com o meu pai. – Colocou o braço sobre os ombros do loiro, mas com o olhar fixo em algum ponto aleatório da parede, como se fosse a coisa mais interessante do mundo. – Sobre o que tá acontecendo. – Naquele ponto virou a cabeça na direção de Pip e continuou, com mais seriedade que antes. – Ele falou que eu preciso ir no Tribunal e eu não tô com a menor vontade de aparecer lá.
— Tribunal?— Pip encarou Damien de volta, com algum receio no olhar. – Você fez algo de errado?
— Tava me perguntando isso agora mesmo, mas parece que sim, eu fiz. – O riso foi sarcastico e o anticristo coçou o nariz com as costas da mão depois que virou o rosto para frente. – Pena que eu não me importo.
O britânico teve vontade de falar alguma coisa, mas acabou desistindo porque não sabia o que e o silencio reinou por alguns segundos. Não entendia nada daquilo que Damien estava falando, mas queria entender e por isso, no final das contas, acabou perguntando:
— Mas… O que você fez de errado?
— Aparentemente, gostar de você.
Ah sim, de algo assim Pip lembrava. Quem havia falado algo muito parecido, a Nandah, o Nero ou a Ísis? Não conseguia se lembrar exatamente e isso também não importância o suficiente, o que realmente era relevante era que, mais uma vez, a culpa era sua. Virou o rosto para frente e abaixou a cabeça, sem jeito. Damien, mais um vez, estava com problemas por sua culpa. Não conseguiu não se sentir mal, e, pelo visto, o outro notou:
— Phillip.
E quando ele lhe chamou pelo nome a súbita vermelhidão no rosto, o nervosismo e a surpresa foram reações que não conseguiu reprimir. Não estava acostumado a escutar o seu nome falado de um jeito tão casual, com tanta normalidade, nem mesmo vindo daquela pessoa em especial. Devagar ergueu o rosto e olhou para o anticristo.
— Sim?
— Você sabe que não têm motivo para você se sentir culpado, não sabe? – Era um questionamento e, ao mesmo tempo, uma afirmação. Exatamente o que o loiro precisava ouvir.
— Desculpe-
— E nem para se desculpar. – Damien interrompeu, estava sério e ficou com o rosto assim por dois segundos, no máximo, então, subitamente, essa expressão se desfez com um sorriso. E ele riu. – Não dá pra escutar você pedindo desculpas por qualquer coisa, sério, Pip. Se estivesse no meu lugar, veria como é insuportável.
Pip apenas riu sem jeito, pois quase soltou um desculpe involuntário, como sempre. Nunca reparou realmente que pedia muitas desculpas, talvez mais vezes que o necessário e em momentos que nem sempre precisava. Talvez fosse uma mania um irritante? Nunca parou para pensar nisso e não iria, não naquele momento.
Damien de repente ficou quieto e aquele semblante pensativo estava de volta, de um jeito mais claro que antes. O rosto estava virado na sua direção, mas o olhar e os pensamentos pareciam estar longe. Isso preocupou Pip, que deu um beijo no rosto, na bochecha, – a pele era um pouco quente demais e naquela altura os dois tinham intimidade mais que o suficiente. – antes de chamá-lo com um tom baixo:
— Damien, tem mais alguma outra coisa? – O anticristo olhou na sua direção e, por um instante, parou para pensar na palavra certa antes de continuar. – Você parece um pouco distante.
— Eu só tô pensando, é uma merda isso tudo.
— Essa história de tribunal…?
— Também. – Bufou descontente. – É uma merda que você vá conhecer ela desse jeito.
~ ~ ~
A mesa posta na frente de Nero era a coisa que chamava mais atenção do ambiente escuro inteiro. Retangular, grande, de madeira e bonita, que aparentava ser bastante pesada e antiga, com dez cadeiras da mesma madeira escura distribuídas, cinco de cada lado, todas com uma distância considerável uma das outras. O detalhe realmente chamativo era a comida. Pelo menos três tipos de massas diferentes, duas carnes – havia um leitão assado inteiro posto mais ou menos no meio. – duas tortas salgadas e uma travessa grande de salada. Apenas um exagero de comida, bem típico de Daeriit, para falar a verdade. Não poderia esperar menos do representante da gula, ele era sempre exagerado em tudo.
E o próprio demônio estava sentado à mesa, debruçado, devorando o leitão com as mãos, rasgando a carne com os dentes afiados e meio irregulares, como se a sua vida dependesse de comer a carne do animal morto. Talvez bem parecido com o sentimento que Nero tinha diante de não fazer nada. Era uma grosseria que ele não tivesse lhe esperando para o jantar, mas não o julgaria por isso. Quase pensou em não aparecer para ficar dormindo, mas no final das contas era necessário que fosse.
Daeriit tinha um jeito que parecia animalesco, selvagem, muito mais evidente que o outros pecados. Cabelo preto feito piche, bagunçado e com uma franja em cima dos olhos vermelhos, uma parte do lado direito da cabeça era raspado e a orelha visível levemente pontuda. Era um homem grande, realmente bastante alto e de ombros largos, o mais forte em aparência entre todos os outros. A cor predominante em suas roupas era o preto e a camiseta de manga comprida tinha uma gola redonda.
Nero havia acabado de chegar, estava sozinho com o outro demônio e se fosse qualquer um dos seus outros primos, não teria sequer passado pela porta. Mas não era. Depois de alguns segundos observando Daeriit ignorar sua chegada, comer feito um animal selvagem, perguntou entediado:
— Demorei tanto assim para você não ter esperado?
Finalmente o demônio prestou atenção na sua presença, até mesmo se ajeitou e levantou o olhar, para então limpar a boca com a manga comprida e abrir um sorriso. Havia muito pouco que lembrasse algo humano naquele sorriso.
— Ora, sente-se, ainda tem bastante. – Daeriit fez um gesto para a mesa, indicando os vários lugares vagos. – Acho que é o suficiente.
Fale com o autor