Everybody hates Pip
25 Ira
Notas iniciais
O tribunal ocupava todo o espaço do vigésimo até o vigésimo terceiro andar, uma discrepância se comparasse a todas as outras alas. Mas era porque ela realmente precisava de espaço, já que papel em grandes quantidades pode ocupar muito espaço. Damien e seus primos eram os responsáveis por aplicar os castigos aos pecadores, mas quem decidia que alma ficava nas mãos de qual demônio era a mulher mais antiga do mundo, que também era a juíza do inferno, contratada pelo próprio Satanás, Lilith.
Primeira mulher de Adão, que não quis se submeter ao homem e por isso foi expulsa do Jardim do Éden apenas um pouco mais cedo que Eva.
Um outro detalhe importante: ela também era a mãe de Damien.
Era um pouco esquisito que fosse ser julgado pela própria mãe? Talvez, mas ela era a única em todo o Inferno apta para o trabalho.
— Então eu vou conhecer a sua mãe…!
Pip estava especialmente nervoso com a novidade. Os dois estavam na recepção do tribunal, o chão era de pedra polida e a parte mais chamativa eram aquelas portas duplas imponentes, com entalhes na madeira. Conseguiu distinguir uma passagem bíblica ou duas no meio dos desenhos.
— Ela é tranquila, sério.
— Tranquila? — O loiro lhe olhou, um pouco chocado. — Eu que te fiz ficar nessa situação, sinceramente-
— Para de se culpar, Pip, a gente já conversou sobre isso. — Segurou a mão dele, sem muita paciência por causa do rumo da conversa e ao mesmo tempo querendo confortá-lo. — A culpa não é sua, eu vou conversar com ela. Na verdade eu até já conversei. A gente vai resolver isso.
Só estava achando estranho que as portas estivessem demorando demais para abrir. Lilith ainda estava ocupada? Damien só gostaria que houvessem algumas cadeiras naquela recepção vazia.
O britânico apertou a sua mão levemente, ainda estava nervoso, mas ao menos parecia ter lhe escutado. Se inclinou para beijá-lo e Pip ficou feliz em retribuir, até mesmo se acalmou. Desde quando eles começaram a agir como um casal? Damien não realmente se importava, mas gostava daquilo tudo mais do que já gostou de qualquer coisa em toda a sua vida.
— Que casalzinho fofo.
Pip rapidamente se afastou, envergonhado, quando Afrodite, a representante da luxúria, empurrou a porta atrás deles, sem cerimônia, e Damien quis, mais que tudo, chutar ela para fora do cômodo. Não sabia nem se ela sequer podia usar roupas tão reveladoras em um tribunal, o vestido vermelho era justo demais e escondia apenas as partes estritamente necessária de pele. Mas demônio não estava sozinha, Ísis, representante da vaidade, entrou enquanto a outra ainda segurava a porta, segurando o longo vestido como se fosse algum tipo de dama.
— O que diabos vocês estão fazendo aqui!?
— A senhorita Lilith também chamou-nos. — Ísis respondeu, enquanto alisava o tecido do vestido, tentando deixá-lo perfeito. — Mas ainda está faltando os outros chegarem.
Merda, não teria a oportunidade de falar sozinho com a sua mãe…!?
— O julgamento vai ser hoje!?
— Sim. — Afrodite estava sorrindo, olhando para Pip. — Você não devia ter trazido ele, tu sabe disso, Damien- Ou, você que apresentar o namorado pra mamãe?
— Vai a merda.
Pip estava quieto, olhando para as duas mulheres e parecendo bastante intimidado com a presença delas. Mas, impressionantemente, o loiro falou:
— Com licença, mas que tipo de julgamento é esse?
— O Damien não explicou-te? — A representante da vaidade questionou, com as mãos postas na frente do corpo em uma postura impecável. Como ela conseguia? — É o julgamento para decidir se ele continua apto para liderar.
— Isso é uma frescura do caralho. — Praticamente rosnou, trazendo Pip mais para perto. Mas ele continuou interessado no que a demônio loira disse.
— Liderar…?
— O Inferno, o Apocalipse — Os cantos da boca dela se curvaram em um sorriso debochado. — Ou o falso profeta esqueceu-se de que nós estamos falando do anticristo?
Falso profeta? Que tipo de apelido pejorativo era aquele!?
O britânico estava prestes a fazer mais perguntas quando, mais uma vez, a porta de acesso para a recepção abriu. E, para o desgosto de Damien, mais dos seus familiares entraram. A representante da avareza, Nandah, e o representante da preguiça, Nero, os demônios que, para começo de conversa, mataram Pip. Nero estava igual ao que se lembrava, o mesmo blusão azul escuro de sempre, mas Nandah havia trocado o vestido vermelho por um preto, colar de tachinhas, luvas pretas sem dedos e usava o cabelo solto.
Era a primeira vez que os via desde que Pip havia morrido… E Damien sentiu vontade de bater nos dois, de matá-los.
Estava começando a ficar com raiva.
— Então aqui está você, coisinha, com o seu cavaleiro de armadura brilhante. — Nandah gargalhou. — Pelos sete infernos, isso vai ser mais fácil do que eu tava pensando.
— Você acha?
Nero soou entediado, mas conhecia ele o suficiente para saber que não estava. O bocejo dele, de sono real, não enganava.
Damien queria ser civilizado, realmente queria já que Pip estava por perto, mas ninguém parecia disposto a cooperar.
…
Pip não estava confortável, Deus, estava muitas coisas: nervoso, ansioso, com medo, incerto e confortável com certeza não era uma delas. Todos os primos de Damien eram intimidantes das suas maneiras, até mesmo o preguiçoso Nero.
O que aquele julgamento significava? Ainda não havia entendido bem, mas estava com aquele pressentimento ruim de que fosse pior do que parecia…
— Mas se o Damien perder o julgamento-?
— Fim. — Nandah lhe interrompeu e fez aquele gesto com o indicador pela própria garganta, mas sorria. — Tudo acaba, ele morre.
— O que!?
Acabou levantando a voz e mundo olhou na sua direção, mas àquela altura não conseguia ligar para essa atenção. Até mesmo Damien parecia surpreso. Como assim morte!?
— Eu já te falei do "código de conduta de demônios", lembra? — E ela foi listando com os dedos à medida que falava. — Tem que odiar Deus e tudo que Ele representa, odiar a Terra e as criações Dele e repudiar os humanos, que são sua imagem e semelhança. Se ele não pode fazer o básico que um demônio faz, então serve para que?
— Admiro a sua coragem, Damien, mas eu não ficaria aqui pra tentar a sorte… — A representante da luxúria comentou. — Claro, se isso não for só burrice.
— Calem a porra da boca!
Então, subitamente, mais alguém entrou e esse pecado capital – assim como a Afrodite. – Pip nunca havia visto antes. Ele era o mais alto, largo e tinha um lado da cabeça raspado, de aparência era, de longe, o mais intimidante de todos. Daeriit, o representante da gula, caminhou com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta para perto do resto dos primos e parecia estar especialmente tranquilo.
— O que eu perdi?
— Nada realmente, só tá faltando o Invemon dar as caras. — Nero respondeu.
A mente de Pip ainda estava cheia com a nova informação e agora tinha ficado ainda mais preocupado que antes. Damien seria condenado à pena de morte!? Aquilo sequer era possível? Todos naquele cômodo desejavam a morte dele…? Virou o rosto para o anticristo, vendo-o apenas de perfil mas percebendo na hora a irritação dele.
De repente sentiu estar em uma posição a parte, alheio a tudo aquilo que não entendia bem, mas queria entender. Para ajudar Damien, porque aquele sentimento de impotência só era ruim demais.
Quando menos o loiro esperava, o último dos demônios entrou. Invemon era o representante da inveja e Pip havia tido a oportunidade de ver ele e Damien trocarem duas palavras, mas lembrava que o anticristo não havia ficado a vontade na presença dele. Terno vermelho, uma gravata vermelha mais chamativa e o cabelo penteado para trás davam àquele demônio um ar mais adulto que o resto. Mas o sorriso cheio de dentes afiados e pontudos conseguia ser realmente assustador.
Descobriu que Daeriit tinha aquele mesmo sorriso quando ele falou algo com Nero.
— Estou muito atrasado? — O demônio da inveja deixou as duas mãos atrás das costas depois que a fechou a porta. Ninguém no local parecia apreciar muito a chegada dele.
— Não precisava nem ter vindo.
— Assim você me deixa chateado, Damien.
Invemon sorriu e Damien praticamente rosnou para ele. O anticristo também adquiriu uma postura mais defensiva, se colocando à frente de Pip. Mesmo com todos presentes, as grandes portas não se abriram como todos estavam esperando.
Todos se separaram na sala. Nandah, Nero e Daeriit para um lado, Afrodite e Ísis para outro e Invemon ficou sozinho, mas entretido o suficiente com um livro. Mesmo assim a tensão espessa no ar não desmanchou e muito menos a postura alerta. E Pip? O pobre garoto francês — quero dizer, britânico. — ainda estava apreensivo com a situação, com o cenário.
De repente o anticristo falou, mais baixinho, enquanto apertava sua mão com carinho:
— Vai dar tudo certo, Pip.
Queria muito conseguir acreditar totalmente naquela promessa.
~ DIP ~
Quando as portas se abriram, arrastando no chão com um barulho que fez um calafrio passar pelo corpo de Pip, praticamente todos olharam naquela direção ao mesmo tempo. Nandah foi a primeira que se dispôs a entrar, ainda reclamando da demora. Nero e Daeriit foram depois, Pip tinha a impressão de que eles eram mesmo próximos como Nandah insistia que eram. Afrodite e Ísis entraram em seguida, o salto que a representante da luxúria usava realmente fazia barulho enquanto ela caminhava. Por último, enquanto fechava o livro, Invemon passou pelas portas.
Então, finalmente, de mãos dadas com Damien, os dois também entraram. As portas se fecharam lentamente, fazendo o mesmo barulho que antes. Lá dentro o lugar era muito, muito maior do que Pip achou que seria.
Haviam de gavetas escritório metálicas à esquerda e a direita, várias, uma ao lado da outra e todas rentes ao teto alto, mas o espaço para circular entre elas elas não deixava que o ambiente fosse apertado e formavam um tipo de corredor. Lâmpadas incandescentes estavam penduradas no teto e o piso era de uma madeira escura e áspera. Também tinham papéis, pilhas de papéis pelos cantos, folhas soltas no chão. Pip fez o seu melhor para não pisar em nenhuma delas, mas era uma tarefa praticamente impossível.
Escutou Damien falar baixo, como se estivesse pensando alto:
— Esse lugar tá uma bagunça maior do que eu me lembrava…
No final do corredor tinha uma daquelas mesas de juiz, de tamanho regular, simples e só um pouco maior de largura. Em um canto haviam duas pilhas grandes de papéis e um porta retrato no outro, assim como canetas sem tampa, lápis e carimbos. Olhando o conjunto do local todo, mais parecia um escritório bagunçado do que realmente a sala de um juíz.
As coisas no Inferno ainda conseguiam surpreender Pip.
— Damien?
Subitamente uma mulher havia aparecido atrás da mesa. Ela tinha o cabelo preto e liso, arrumado de um jeito bagunçado para trás com um prendedor de cabelo, olhos verdes e a pele clara, branca de um jeito mórbido, parecendo que nunca havia visto o Sol na vida. A cor quase dava para confundir com a camisa social de botões que ela vestia.
Era Lilith, juíza do Inferno e mãe de Damien. Se Pip pudesse admitir, ela não era nada como o loiro tinha imaginado.
— Por que você não me avisou que viria-? — No meio da frase ela parou e olhou para todos os presentes, estreitando os olhos. Segundos depois soltou um "ah" de compreensão. — Você avisou sim, eu que estou com a cabeça cheia…
— O julgamento vai ser hoje!?
— Sim, Damien, vai. Culpe os seus primos, que, aliás, eu lembro que avisei sobre eles, mas nãão, você não pode me escutar.
Damien revirou os olhos e a outra única a expressar algum tipo de reação foi Nandah, que riu alto até demais.
— Mas então — Quando os olhos afiados de Lilith pararam em Pip, o garoto quis se encolher. — esse garoto é o Phillip que eu ouvi tanto falar?
Diferente do que tinha imaginado, ela sorriu simpática.
— Bem, vamos começar com isso logo.
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