Everybody hates Pip
23 Avareza
Notas iniciais
Nandah tinha certeza que aquilo funcionaria muito melhor se Daeriit estivesse no seu lugar junto de Nero, para falar com Invemon. Mas o maldito estava ocupado com algo no mundo humano, ocupado demais para contribuir com o plano de acabar com Damien ou simplesmente acompanhar o namorado em alguma coisa.
Eles estavam subindo pelo elevador do complexo de escritórios onde as fichas de todas as almas que já entraram ou iriam entrar no inferno estavam organizadas e catalogadas, mantendo e enviando as almas para uma das sete alas no inferno onde ficariam por toda a eternidade. Porém aquele método não funcionava tão bem quanto deveria em teoria, já que uma grande parte as almas humanas ficavam na espera até suas “fichas” serem catalogadas e mandadas, que consistia no fogo inferno que se estendia até onde a vista alcançava e muito mais, a única paisagem que qualquer janela poderia ter. E, antes das almas serem mandadas para o local que deveriam ir, elas eram analisadas uma segunda vez por um único demônio de patente alta e exatamente por só existir esse demônio que o processo demorava tanto e o inferno parecia sempre sobrecarregado.
— Por que o seu namorado não pode vir mesmo? – A representante da avareza questionou mal humorada, observando a tela acima dos botões informando o andar que estavam com os braços cruzados em impaciência. Faltavam dez.
— Ele está ocupado… – Nero responde dando os ombros, ele estava encostado na parede do elevador oposta de onde Nandah ocupava com ambas as mãos nos bolsos do moletom preto e um pouco grande demais para o seu tamanho, que mais parecia uma espécie de pijama com aparência extremamente confortável. – Eu acho.
— Você não tem medo do Daeriit estar te traindo nesse momento?
O representante da preguiça revirou os olhos e bocejou, cobrindo a boca no processo, enquanto a avareza sustentava um sorriso provocativo nos lábios.
— Trair como? A gente nem tá junto pra começar… Essa conversa está me dando sono.
— Tudo te deixa com sono…
Não demorou muito mais tempo para as portas metálicas se abrirem no vigésimo segundo andar, que era a ala de Invemon. Ao saírem do elevador se depararam com um corredor não muito longo com uma única porta fechada no final dele. Nem para tentar parecer normal ele se esforça, não deixou de pensar com uma ponta de deboche. Em poucos passos, com Nandah na frente e Nero um pouco mais atrás, chegaram próximos o suficiente para que ela pudesse abrir a porta sem nenhum tipo de cerimônia. O local lembrava um tipo de escritório bem simples, com pouca mobília de cores escuras e uma estante de repleta de livros atrás da única mesa ali. O representante da inveja estava lá dentro como o esperado, sentado em uma cadeira atrás da mesa lendo o que parecia um livro, ele sequer desviou o olhar com a chegada repentina dos outros dois, mas em poucos segundos falou:
— A educação mandou lembranças.
— Não temos tempo para educação. – O único demônio do sexo feminino retrucou rudemente, entrando na sala seguida do outro.
— Não discordo. – Deixou o livro fechado sobre a mesa e olhou na direção dos outros dois, sério. – Então vocês realmente querem a minha ajuda? Isso é novidade.
— Eu sei, também não levei a sério quando aceitaram a sua ajuda, mas fazer o que?
Nandah não escondia o quanto não aprovava aquilo, o único pensamento que lhe tranquilizava era como logo iria poder se livrar para sempre Invemon, nunca mais veria o maldito rosto dele nem o seu sorriso detestável, coisa que era obrigada a ver naquele momento.
— Que bom que nós temos um acordo.
— Se você apenas pensar em fazer alguma coisa – Nero falou pela primeira vez desde que entraram ali, quando virou a cabeça na direção dele e viu que as suas feições eram tão ameaçadoras quanto suas palavras, não conseguiu evitar um meio sorriso. Encostado na parede com as mãos ainda dentro dos bolsos, o demônio encarava diretamente Invemon, com os olhos vermelhos brilhando por baixo na franja. – eu mesmo faço questão de acabar com você.
Então, finalmente, Nandah lembrou do motivo para o representante da preguiça odiar tanto o outro demônio e teve absoluta certeza de que ele estava falando sério, e não teria nenhuma preguiça sobre cumprir com aquela ameaça disfarçada de aviso. Apesar de as palavras descaradamente intimidantes, o representante da inveja não demonstrou ter sido, de qualquer forma, afetado por elas. O sorriso falso continuava enfeitando-lhe o rosto enquanto respondeu com uma ironia muito bem oculta, que deu a garota vontade de rir.
— De onde você tirou que eu tentaria algo?
~ DIP ~
Pela primeira vez Pip parou para pensar: Como será que todos haviam reagido a sua morte? O mais provável era a indiferença da maioria, ou talvez uma satisfação doentia de alguns, daqueles que falavam tantas vezes que odiavam o loiro, demonstrando isso sempre que podiam com vários tipos de agressões — tanto físicas quanto verbais — e deixando claro que seria melhor se o loiro estivesse simplesmente morto. Por mais horrível que isso seja, será que eles estão felizes o suficiente com a minha morte…? Logo tratou de afastar aqueles pensamentos, afinal, nada daquilo possuía qualquer mínima importância agora que se encontrava no inferno, sentado no sofá da sala do apartamento do anticristo, junto com o mesmo.
A televisão em cima do baixo móvel de madeira estava ligada em um volume baixíssimo, nela era transmitido alguma notícia de algum canal do mundo humano. Pip teve a oportunidade de escolher o canal entre os incontáveis por todo o mundo, de todos os países, escolhendo a BBC, pois passava um jornal. Pelo que havia entendido, o seu antigo professor do quinto ano, senhor Garrison, havia se candidatado à presidência dos Estados Unidos e a comentarista falava mal dele. Muitas coisas haviam acontecido desde sua morte, percebeu, porém sem realmente ver alguma relevância agora que não estava mais lá. No momento suas questões eram outras e não envolviam um homem que em seu discurso falava “vamos foder esses malditos canadenses até a morte”.
Olhando por um lado, talvez Pip realmente estivesse melhor morto.
No momento Damien olhava desinteressadamente para a televisão, com um braço posto sobre os ombros do loiro e ambos em um silêncio confortável, apenas aproveitando a companhia um do outro. Mas isso não significava que o loiro ainda não estava com várias perguntas em mente, sobre tudo que havia acontecido.
— Damien?
— Hm? – Resmungou, virando a cabeça na direção de quem havia-lhe chamado.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Você já fez. – Ele abriu um leve sorriso, com uma ponta de ironia. Normal.
— Eu queria saber… – Pip segurou a manga longa da camisa preta, porém de um tecido fino, que o outro havia lhe emprestado mais cedo apenas para ter algo onde pudesse ocupar as mãos enquanto encarava Damien de volta. – Bem, sobre tudo?
Ele bufou, mas não parecendo particularmente irritado, ao menos não por Pip ter perguntado, era algo mais para o incomodado.
— Tudo é tão vago…
— Eu queria saber porquê de você ter sumido naquela época… – Falou meio baixo demais, se arrependendo quase no mesmo segundo de ter perguntado. – S-sei que não é da minha conta, mas…
— Foi por insistência de uma pessoa. Você não a conhece. – O anticristo respondeu antes que o britânico pudesse completar a frase. – Ela insistiu que eu voltasse para cá exatamente porque os meus primos estavam indo para o mundo humano.
O loiro nem teve tempo de abrir a boca para fazer uma nova pergunta, pois Damien foi mais rápido:
— Como você tá me interrogando – Abriu um pequeno sorriso quando o outro ficou visivelmente sem jeito. – acho que eu também posso fazer uma.
— Pois faça. – Retrucou, tentando muito soar natural.
— Tem uma coisa que eu sempre quis saber, onde você mora em South Park?
E, de repente, Phillip se sentiu desconfortável em estar ali, virou o rosto de volta na direção da televisão e um silêncio estranho pairou no ar por vários segundos, tempo que o anticristo ficou lhe encarando, com um tipo de dúvida crescente em seu olhar, certamente percebendo o seu súbito desconforto com aquela pergunta. Pip também tinha os seus assuntos complicados, coisas que não gostava de falar, segredos desagradáveis e assuntos os quais sentia vergonha, onde era a sua antiga “casa” conseguia se encaixar em quase todos esses requisitos.
Por mais que isso talvez não tivesse mais tanto peso assim por agora estar morto, não tinha muita vontade de falar sobre, não gostava de lembrar de questões não agradáveis, especialmente quando estas pareciam simplesmente não importar. Afastou-se do outro, retirando o braço dele dos seus ombros e respondeu com toda a honestidade do mundo:
— E-eu não quero falar sobre isso…
— E por que não?
— A gente pode falar sobre outra coisa? – O tom da sua voz por um triz não se assemelhou a uma súplica. – Não gosto de falar sobre isso, Damien.
O silêncio reinou por pouco menos de um minuto, tempo que o casal ficou se encarando com alguma estranheza. O loiro desejava muito que o anticristo apenas não insistisse naquilo, mas logo ele questionou:
— É tão ruim assim?
— E acho muito ruim…
— Certo, você não precisa falar nada se não quiser… – Ele tentou sorrir, ocultando muito bem a curiosidade que possivelmente sentia e também mais alguma coisa.
— Obrigado. – Retribuiu o sorriso, um agora mais tranquilo do que anteriormente.
Quando Damien se aproximou novamente de Pip o loiro não se afastou, permitindo que ele colocasse o braço sobre seus ombros mais uma vez. Apreciava daquela aproximação, estava imensamente aliviado por o assunto de antes ter sido encerrado daquela forma e por ele ter entendido tão bem, respeitado o pouco do que não gostaria de compartilhar, o que, na verdade, nem era tanta coisa assim. Apoiou a cabeça no local entre o ombro e o pescoço de Damien, procurando por um pouco mais de aconchego ao mesmo tempo que voltou a prestar alguma mínima atenção sobre o que passava na televisão, nada além de uma propaganda de comida que não conseguiu identificar do que era, pois logo o outro mudou de canal, passando por vários rapidamente até finalmente parar em um que parecia ser de um filme e colocar o controle no braço do sofá.
— Quer ver alguma coisa?
— Isso tá bom.
Bônus: Enquanto isso, em South Park…
Um cobertor grosso cobertor verde, com aparência antiga e cheio de fiapos soltos, era a única proteção de Tweek contra a neve que caía do lado de fora da velha picape que, no momento, era o seu único abrigo. De algum modo Craig havia conseguido pegar no sono a pelo menos uma hora atrás, sentado no banco do motorista em uma posição que, ao menos, não parecia ser das mais confortáveis, daquelas que as pessoas ficam com torcicolo depois de acordar — sabia que, mesmo que ele ficasse, só falaria algo se a dor fosse absolutamente insuportável. Porém, ainda sim, estava em um sono profundo e tranquilo de um jeito que beirava ao assustador. Ele apenas aparentava estar calmo demais, como se absolutamente não tivessem nenhum tipo de problema, enquanto o loiro não conseguia fechar os olhos por muito tempo por causa do medo.
Se alguém os achasse ali? Um policial? Como eles explicariam o que estavam fazendo dormindo em um carro escondido no lixão?! Ou pior, se um assaltante aparecesse ali? Ele poderia machucar Craig! Matá-lo! Existiam tantas, tantas possibilidades de coisas ruins que poderiam acontecer ali que apenas o simples pensamento deixava Tweek em estado de alerta, nervoso e perturbado o suficiente para não considerar dormir uma opção.
Uma parte de si estava arrependida de ter falado para os seus pais a verdade, eles haviam reagido muito pior do que nunca sequer chegou a imaginar. Ambos pareciam ser tão compreensivos, tão calmos e relaxados demais para expulsar um filho de casa por causa da sua orientação sexual! O loiro havia sido posto para fora a dois dias, com nada mais que as roupas do corpo e tudo que fez por um bom tempo foi chorar dentro daquela picape na companhia de Craig. O moreno não reclamou nem por um segundo e muito menos pareceu incomodado, ele lhe confortou, lhe abraçou, tentou fazer com que parasse de chorar, mas, em nenhum momento, disse que ficaria tudo bem. Pois ele só prometia o que sabia que poderia cumprir, e os dois sabiam que não estava tudo bem.
Sentia falta dos seus pais, queria que as coisas voltassem a ser como eram antes… Virou a cabeça na direção de onde o outro dentro do carro dormia tão sossegado, ver essa cena lhe fez sorrir, um sorriso fraco e pequeno, mas ainda era algo.
Apesar de tudo, Tweek não estava arrependido de começar algo com Craig.
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