Uma semana depois...

Damon estava sentado de frente para mim. Estávamos sentados em cima de uma toalha de piquenique xadrez. Estávamos no que parecia ser a antiga fazenda abandonada em que eu e George brincávamos quando eu era criança e morava com papai.

Era verão e a grama estava alta. O céu era de um tom laranja que às vezes parecia roxo escuro, devia ser final de tarde. O rádio a pilhas que estava entre a cesta de piquenique e o prato de sanduiches tocava Thinking of you.

–Quer mais um sanduiche? –Seu cabelo loiro arruivado dançava com forme o vento. Seu sorriso era radiante. O ar tinha perfume de rosas, as rosas que estavam plantadas em fileiras num canteiro a alguns passos dali.

–Não, obrigada. –Eu vestia um lindo vestido de renda branco que cobria meus joelhos. Acariciei o tecido por algum tempo.

–Trouxe você aqui para uma coisa especial... –Ele mexeu no bolso da jaqueta de couro. Houve um estalar de papel por um momento, depois ele tirou a mão do bolso e estendeu um pequeno pacote coral. Desembrulhei-o com destreza em alguns segundos. Dentro dele havia outra caixa, era azul marinha e pequena. Dois anéis dourados estavam acomodados dentro da caixa aveludada.

–Miranda Carter aceita se casar comigo?

Em um piscar de olhos tudo que existia ali tinha desaparecido e a única coisa que eu via em minha frente era meu irmão George, sentado em uma cadeira na cabeceira da mesa.

–Até que em fim a bela adormecida despertou...

–George para onde o Sean foi? -Juntei o cabelo da almofada e fiz um coque com as mãos.

–Ele foi depor. O seu professor de história, senhor Schneider veio chama-lo hoje de manhã. O Sean ficou preocupado em deixar você sozinha e me chamou...

–Ah, que horas são?

–Meio dia.

–Meio dia?

–É. Porque a surpresa?

–Não, nada. Vou preparar algo para agente comer.

***

Hoje se completam sete dias desde o incêndio que todos acham que matou Miranda. Haverá um memorial em homenagem à Miranda. Seus amigos e familiares farão discursos relembrando-a.

-Melanie você ainda tem o celular do George?

-Tenho. Vou pegar meu celular... Só um minutinho senhora Carter.

Melanie é ex-namorada de George e ainda sofre pelo rompimento, mas mesmo assim deixou que a mãe de George ficasse em sua casa por um tempo. É uma boa pessoa, porém solitária e infantil.

-Alô George! É a mamãe. Por favor, não desligue.

-O que quer mãe?

-Sabe que hoje faz uma semana de falecimento... –As lágrimas impediram que ela concluísse. –... Vamos fazer uma cerimônia em memória da sua irmã, Miranda. Por favor, venha querido.

-E quanto ao Jeremy, ele não pode acompanhar você?

-Meu filho o Jeremy foi morar na Inglaterra e sua irmã se foi. Agora só me resta você querido.

-Tudo bem mãe. Vou estar ai...

-Vai ser as quatro, na igreja. Sabe onde fica não é?

-Sei. Até logo! –O telefone bateu, ele desligou. Parecia não sentir mais sentimento algum por mim. Acho que o único sentimento que ele sente agora é ódio.

-Obrigada querida. Agora vamos nos arrumar. Você me acompanha?

-Sim senhora Carter.


***

Aquele sonho foi tão real. Meu deus! Nós dois juntos de novo, frente a frente. Tudo bem, eu admito que ainda sinta alguma coisa por ele... O que eu sinto por ele é diferente do que eu sinto pelo Sean, é diferente do que eu sentia pelo Daniel, é diferente de tudo que eu já senti por um cara.

-Miranda! –George mexia a mão freneticamente em frente ao meu rosto fazendo sinal para que eu despertasse do transe.

-Oi? O que foi George?

-Você nunca ouve o que eu falo não é mesmo? –Ele acariciou meu rosto com as costas da mão e depois sorriu.

-É. Me desculpe.

-Tudo bem. Mas por favor, agora me ouça! –Ele franziu o cenho e silenciou por um momento, perdido em pensamentos. –A mamãe me ligou dizendo que hoje haverá uma cerimônia em sua memória senhora “morta”. E é claro que eu vou ter que ir... Vai ficar bem sozinha?

-Acho que sim... –Por um momento um turbilhão de lembranças passou por minha mente. Elas vinham desde os tempos em que mamãe e papai moravam juntos, meu primeiro beijo na sexta série, o primeiro cigarro, a primeira vez..., até aquele incêndio no internato.

-Você não tem talvez algum amigo de confiança que possa ficar aqui no apartamento com você?

-Não precisa George. Valeu.

-Tudo bem... Você é quem sabe.

-George eu quero ir com você. –Eu não seria justa se deixasse que todos continuassem sofrendo com uma mentira que eu inventei. A coisa certa a fazer era subir naquele púlpito e contar toda a verdade. Só assim eu acabaria com esse sofrimento.

-Ei Miranda você pirou?

-Não George. Não é justo que essas pessoas fiquem sofrendo por uma das minhas mentiras idiotas.

-Caramba! Será que você não entende que se aparecer lá eles vão responsabiliza-la pelo incêndio e ainda joga-la em um reformatório?

-Mas George...

-Não, você não vai. Isso seria suicídio. Ouviu?

-Sim.

-Bom mesmo. Agora eu tenho que ir. Não abra a porta para ninguém e não fale com ninguém. Estamos entendidos?

-Estamos... –Eu me sentia como uma criança que fica sozinha pela primeira vez e tem de obedecer ao papai ou então fica de castigo.

O relógio marcava quatro horas quando a porta se fechou. Vesti uma das jaquetas de Sean fechada até em cima, depois a única meia calça que eu tinha e nos pés um all star dois números maior que o meu. Sim, eu iria ao memorial e revelaria a verdade a todos. Nem que isso custasse a minha liberdade ou até a minha cabeça.

Segui George até a igreja me embrenhado em meio a cada árvore ou obstáculo que surgia no caminho. A rua estava deserta, a maioria das pessoas dali me conhecia desde os sete anos e com certeza não faltariam ao memorial.

As três primeiras fileiras estavam tomadas por pessoas vestindo preto. Estavam de costas e por isso eu não conseguia reconhecer ninguém. O padre ainda não tinha chegado para dar inicio a cerimônia. Aproveitei o tempo para subir a escada que levava ao andar superior sem ser percebida.

-Estamos aqui reunidos para a celebração da missa de sétimo dia de Miranda Carter. Essa jovem era estudante e tinha apenas dezessete anos quando os desígnios do destino cruzaram seu caminho...

Algumas horas se passaram até que o padre acabasse de rezar a missa e desse espaço para que os outros falassem. A primeira foi minha mãe, logo depois meu irmão George, minha avó Betty, meu tio Derek e outros parentes de quem eu não me lembro.

Os discursos seguiam um padrão. Todos eles diziam “Ela era tão jovem para morrer” ou então “Ela era uma ótima menina. Pena que tenha morrido de forma tão trágica.”

Os discursos pareciam estar sem sentimentos ou frios demais para mim até chegar à vez de Daniel McCracken, meu primeiro namorado. Havia uma janela no andar de cima, era pequena, mas eu podia vê-lo lá de cima. Ele chorava tanto que às vezes ele até parava de falar porque soluçava tanto que ninguém o entendia.

-Nós nos conhecemos na quinta série. Ela nunca foi alguém ruim, nunca foi de desprezar ninguém. Eu era nerd na quinta série e ela sempre conversava comigo mesmo quando todos me excluíam... Na sexta série eu mudei, ela também e então nós nos apaixonamos e namoramos por um tempo. Ela sempre foi tão doce e legal. Não é justo uma garota tão linda morrer dessa forma. Não, não...

Nossa! Coitadinho dele. Ainda me lembro da época em que namoramos, ele também era legal. E olha pra nós dois agora? Ah, não dá para olhar pra mim porque estou morta! Caramba, eu não aguento mais isso. No final desse memorial eu vou descer lá embaixo e contar a verdade de uma vez por todas.

Uh! Agora é a hora. Todos acabaram de falar. Então eu vou descer as escadas, caminhar até o púlpito, pegar o microfone e contar tudo. Lá estava eu caminhando entre os bancos, desviando dos pés das pessoas, a cabeça baixa quase se encostando ao chão para que ninguém me reconhecesse.

-Primeiro quero pedir desculpas pela dor e pelo sofrimento que causei a todos vocês. Depois quero explicar e contar a verdade sobre tudo que aconteceu comigo na ultima semana. –Os olhares eram pasmos, alguns piscavam, outros gritavam meu nome e meu irmão escondia a cabeça entre as mãos parecendo estar tendo um ataque de raiva. Engoli em seco e continuei. –Minha mãe Janet e meu padrasto Robert me matricularam em um interneto para meninas a quilômetros daqui. Sem saber bem o porquê disso eu passei três meses em um pandemônio sem poder sequer me comunicar com meus pais, amigos ou parentes. Graças a um professor e meu melhor amigo eu consegui fugir de lá. Mas para isso eu tive de atear fogo no meu dormitório, o que explica o incêndio e o fato deles acharem que eu morri.