–Miranda, Miranda! Abre a porta. Abre logo. –Era o senhor Schneider batendo na porta. Agora isso já era rotina para nós dois. Às oito e meia todos os dias ele vinha até o meu quarto contar tudo o que estava acontecendo lá fora. O que eu não podia ver com os próprios olhos.

–Entre senhor Schneider... Esta aberta. –Sussurrei. Há essa hora todos ainda estavam dormindo e ninguém podia saber que ele era meu aliado nessa guerra contra meus pais e as rígidas regras da escola.

–Será hoje... –Seus olhos encontraram os meus e pareceram faiscar naquele momento. Ele parecia feliz. Estava muito animado com alguma coisa.

–Sean disse que será hoje o dia da fuga de vocês. Ah, seu irmão, George também vem. Ele brigou com sua mãe por sua causa e agora esta morando junto com Sean no apartamento que os pais deram a ele. –Ele ainda sussurrava, mas agora se mantinha contido para não gritar.

–Verdade? –Indaguei sorrindo. Mal acreditava naquelas palavras. Finalmente estaria livre para viver e para em fim respirar ar puro novamente.

–Não será fácil, mas vocês devem tentar... Pelo que eles já planejaram a fuga será à noite. Você deverá colocar fogo no seu dormitório para que as portas se abram, só assim conseguira sair. Vista-se como uma serviçal. Avise sobre o incêndio e quando as portas se abrirem você sai com o disfarce. Nós três estaremos esperando por você do lado de fora para ajudar na fuga.

–Isso é arriscado de mais. Nós nunca iremos conseguir... –Sacudi a cabeça em sinal negativo. Todo aquele plano era fantástico de mais no papel, mas e em prática? Quero dizer e se eles nos pegassem?

–Aprenda uma coisa Miranda: quem não arrisca não petisca... –Ele segurou minha mão com força mostrando o quanto me apoiava naquela situação. Ele era mesmo um grande amigo.

–Obrigada senhor Schneider! –Retribui a seiva ao segurar sua mão. Só naquele momento percebi o quanto precisamos de amigos na vida, verdadeiros amigos. Eles sim fazem do nosso inferno um paraíso.

–Deixe-me ir agora. Esta quase na hora da senhora Goors passar com a sineta pelos dormitórios. Não poderemos mais nos ver até a hora da fuga, então boa sorte querida. Fique com deus e peça a ele que lhe ajude... –Ele soltou minha mão, bateu a porta e se foi. Só pude ouvir seus passos estalando no assoalho de madeira do corredor.

Bom dia diário. É hoje o grande dia. É por isso que acordei cedo. Preciso muito me preparar para por o plano em prática corretamente. Não será nenhum pouco fácil, mas é como certo amigo me ensinou: quem não arrisca não petisca.

Espero que tudo dê certo... Se der tudo certo não nos veremos mais, nunca mais diário. É bom nos despedirmos. Para o sim e para o não, até logo meu amigo.

A tarde passou devagar, muito devagar. O tempo parecia estar sendo marcado por uma ampulheta ao invés de um relógio, esperando que os grãos de areia caíssem depressa.

Em fim a noite caiu com toda sua intensidade sobre Hall Rosem. A lua era cheia e se parecia com uma bola de futebol prateada em meio a um campo de futebol negro. Os jogadores eram as estrelas, espalhados por todo o campo.

Só recebi a confirmação de iniciação do plano quando todas as portas se bateram em uníssono. Significava que já eram dez horas da noite. Agora eu deveria avançar.

Esquivei-me misturando as sombras até o armário da serviçal, senhora Goors. Lá estava a primeira peça do quebra cabeça: um uniforme reserva. Apanhei-o de imediato correndo em passos silenciosos até a cozinha.

A luz estava desligada e ao liga-la percebi uma forma indefinida aninhada a uma cadeira. Era a senhora Goors que dormia com a cabeça tombada para trás. Estava ressonando e parecia nem tem percebido minha presença.

Desliguei a luz por forma de prevenção e fui tateando até encontrar uma caixa de fósforos em cima da bancada ao lado da cadeira onde a velha dormia. Parecia uma arapuca armada para me pegar no flagra, mas foi mal sucedida.

Minhas pernas continuavam se movimentando, ágeis, mas minha cabeça só fazia implorar para que eu parasse. Não a ouvi e continuei caminhando, agora um pouco mais lentamente pelo cansaço, mas continuei até chegar ao meu quarto.

Uma lufada de vento bateu na janela jogando violentamente um monte de flocos de neve que acertaram em cheio o vidro, aquilo fez meu coração disparar de susto. Mesmo assim prossegui com o plano.

Agora colocaria em prática a segunda parte do plano: o incêndio e por fim a fuga. Seria simples de mais se ninguém visse ou ouvisse nada. Acendi a luz do quarto que iluminava apenas a metade das paredes cinza do quarto. Não havia nada em que pudesse por fogo, só havia uma colcha de retalhos azul marinho.

Ah, a colcha de retalhos! Como não pensei nisso antes? Rasguei num só gesto um pedaço da colcha. Aquele retalho já era suficiente para começar o incêndio. Abri a caixa de fósforos que mantinha dentro do avental branco e apanhei um. Puf! O retalho já queimava e se fazia ouvir por um barulho de tecido se rompendo.

Imediatamente encostei o nas cortinas brancas de renda que em um segundo adquiririam uma tonalidade laranja avermelhado. Lá estava o inicio do incêndio. Agora era só jogar o retalho e o fósforo no chão e quando eles se encontrassem... Eu estaria bem longe dali.

–Fogo! Fogo! Esta havendo um incêndio no segundo andar, na ala dos dormitórios. É no quarto sessenta e quatro. Acho que tem uma aluna lá. Vá! Depressa. –Acordei o guarda aos gritos. Estava vestida como uma serviçal e ele com certeza não havia me reconhecido.

–Ah, me desculpe senhora. Estou indo, estou subindo. Fique ai! Fique ai senhora! Pode ser perigoso... –Ele subiu as escadas tastaviando, ainda não estava bem acordado.

Aproveitei a ausência e apertei no botão que dizia “portas” e em seguida “portão principal de saída”. Funcionou! As portas se abriram revelando um jardim tomado pela neve. Era o mesmo jardim pelo qual eu havia entrado no dia em que cheguei aqui. O caminho de pedra que existia no meio do jardim estava coberto pela neve.

Sem bem enxergar ou saber para onde devia ir corri em direção a uma luz. Era a luz de uma lanterna, era a luz da lanterna que Sean segurava na mão direita. Meu deus! Era mesmo ele, não só ele, mas sim os três e estavam me esperando alem do portão de saída.

Corri o máximo que pude sem me preocupar em olhar para trás. Agora eu só queria escapar dali e me sentar ao lado de Sean em frente a uma lareira com uma xícara de chocolate quente nas mãos.

Nenhum guarda ia poder me parar agora. Eu estava alem dos portões, nos braços de Sean. Eu estava respirando ar puro novamente. Sentia-me com um pássaro que foge da gaiola para viver do seu próprio modo a vida.

–Sean! Achei que não fosse vir me buscar... –Seu casaco de couro preto estava tomado pela neve, mas mesmo assim agarrei-me a ele como uma criança se agarra à mãe.

–E eu achei que nunca mais fosse ver você novamente... –Ele me puxou para mais perto dele dando-me um delicado beijo na testa. Era o mesmo beijo que meu pai me dava. Doce, suave, como uma brisa.

–Desculpem interromper, mas temos que atravessar toda a estrada até chegarmos ao seu apartamento... Não é Sean? –Era o senhor Schneider que como sempre juntava o sentimento a racionalidade. Era sempre assim que ele agia, pensando e nunca por impulso... Diferente de mim.

–Ele tem razão M... –George agora nos separava e me conduzia para perto dele com uma mão em minhas costas. Era tão bom vê-lo novamente... Depois de três anos separados ele voltara.

Corremos por entre os bancos de neves que se formaram pela nevasca da noite passada. Já deveriam ter passado-se algumas horas desde que abandonamos a escola, mas parecíamos estar caminhando em circulo.

–Onde estamos agora Ivan? –George questionava agora ao lado do senhor Schneider. Mantinha o cenho franzido e parecia descontente com toda aquela caminhada sem fim.

–Para você é senhor Schneider. –Ele sorriu em tom de brincadeira. –De acordo com este mapa estamos a oitocentos metros do apartamento do Sean. Bem, é o que diz o mapa... –Ele garantiu sacudindo o mapa em um tom de diversão maior ainda.

–Oitocentos metros? –George indagou ainda mais furioso do que antes, curvado para frente como se estivesse passando mal.

–Calma gente! Será só uma questão de tempo até chegarmos lá... –Sean desvestiu sua jaqueta de couro e a pôs por sobre meus ombros para que eu me mantivesse aquecida. Agradeci com os olhos.

–Ah, tempo... Nós não podemos pegar um carro e irmos para o seu apartamento onde é quente e não estamos correndo o risco de estarmos sendo perseguidos por guardas e professores malucos? –Todos seguiram alguns passos nem ligando para as palavras e reclamações de George. Oh, George... Continuava o mesmo teimoso de bom coração que eu havia conhecido. Mas era verdade, não poderíamos continuar o caminho em um carro porque as estradas estavam fechadas pela nevasca e só abririam quando amanhecesse.

Finalmente estávamos na cidade, recebidos pelas luzes já acesas dos postes. Já deveriam ser cinco ou talvez seis da manhã, quem sabe nenhum de nós tinha relógio. As ruas ainda estavam vazias e a luz das casas apagadas não devia passar das cinco da manhã.

Já estávamos em frente à porta do apartamento de Sean quando uma onda de cansaço me tomou. Não houve tempo para me apoiar a aluguem e eu só lembro-me de tudo ter ficado escuro...

-Miranda! Miranda meu amor esta tudo bem? –Sean foi a primeira pessoa que vi ao acordar. Havia me tomado nos braços, mas agora já estávamos dentro de seu apartamento.

-Estou... Foi só um mal estar que já passou. –Me apoiei em seu ombro e me levantei lentamente até estar novamente em pé. O que será que havia de errado comigo? Deve ser só o cansaço adicionado a fome...

-Tudo bem então. Mais mesmo assim procure ficar sentada ou deitada. Você caminhou de mais hoje e esta se alimentando direito? –Ele se mantinha apoiado a mim, queria me segurar se eu desmaiasse novamente. Suas pupilas estavam dilatadas e ele parecia assustado e ao mesmo tempo feliz por estarmos juntos novamente.

-Não, eu não comi nada hoje. –Em alguns minutos Sean preparou algumas torradas e também uma porção de ovos mexidos com bacon. Ele sabia mesmo cozinhar.

-Ficaram ótimos... –Dei uma ultima garfada e agradeci com um abraço. Era tão bom estar de volta, ali ao seu lado novamente. Sei que nós nunca voltaríamos a ser o que éramos, mas sempre manteríamos um os segredos do outro. Seriamos sempre acima de namorados amigos.

-Então cadê o George e o senhor Schneider? –Questionei olhando em volta o pequeno, mas organizado apartamento que nos cercava.

-Eles foram tomar café da manhã e achar um hotel para descansarem. –Ele me puxou para que eu caísse em seu colo. Ele sorriu de um modo malicioso e angelical. Era o mesmo modo que Damon sorrira para mim da primeira vez que nos conhecemos.

-Eu amo você e sempre vou ama-la Miranda Carter. –Senti um tremor percorrer meu corpo dos dedos até o pescoço. Era o tremor que ele provocava em mim quando nossos lábios se tocavam. Com certeza era amor, agora eu sabia.

-Eu também o amo e nunca vou deixa-lo novamente. Eu prometo! –Seus olhos brilharam naquele momento revelando sua felicidade, a verdadeira felicidade que só podia ser criada pelo amor.

Difícil e impossível parar... Lá estávamos nós deitados lado a lado na cama, dois apaixonados, inconsequentes. Como eu nunca havia percebido que ele me amava? Como nunca percebi que éramos tão iguais? Nós sempre nos completamos... Nas bebidas, nas festas, nos gestos, em tudo.





Notas finais
Desculpem a demora na produção textual, mas estou enfrentando vários problemas. Conto com sua compreensão, leitor(a).