Acordei hoje bem mais cedo do que de costume, às dez horas, com os barulhos de pratos quebrando lá em baixo. Deve ser a minha mãe discutindo com o Robert. O que não me surpreende porque eles sempre brigam. Isso já virou rotina para mim.

Juntei as cobertas que tinham caído no chão durante a noite e fui até o banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes, penteei o cabelo e fitei por algum tempo meu próprio reflexo no espelho manchado da parede do quarto.

Abri com força a porta de correr que estava emperrada. No armário encontrei em meio a garrafas e caixas de pizza uma camiseta regata branca esfiapada, no chão um short jeans azul surrado. Era isso que eu vestiria hoje.

Desci a escada de três em três degraus, quase saltitando, voando para a porta.
Antes que pudesse alcançar a maçaneta uma figura alta e descabelada se projetou em frente à porta branca.

–Aonde você pensa que vai tão cedo? -Era Robert, vestindo seu roupão azul marinho e calçando seus gastos chinelos de couro.

–Vou até a casa da Zoe. –Respondi certa de mim, empurrando o para o lado com uma só mão.

–Vai almoçar lá? –Ele franziu a testa, falando agora num tom sério que não me aplicava medo ou sequer respeito.

–Vou. –Juntei minha bolsa de cima do sofá que ficava ao lado da porta e sem esperar por reprovações tomei meu caminho até o estacionamento da escola.

Zoe, Mandi, Sean e Scott me esperavam no estacionamento. Mandi e Sean empunhavam um par de cigarros e mantinham seus olhares voltados para todos os lugares. Zoe estava aos beijos com Scott. Eles só pararam quando me viram chegar bem próximo a eles.

–E ai Miranda... -Sean estendeu a mão desocupada num cumprimento descontraído.

–E ai! Vocês estão namorando?-Perguntei aflita, deixando que escapassem algumas imagens da noite passada por minha cabeça. Da noite em que eu e Scott passamos juntos em sua casa.

–Não. Só ficando... Sei lá Miranda. –Zoe respondeu despreocupada, agora largando o pescoço de Scott e voltando-se para mim.

–Que isso M, não se preocupa com eles... –Sean me estendia um cigarro entre os dedos de ponta amarelada.

–Então, para onde é que agente vai galera?-Sean sacava um cantil prateado que com certeza estava abarrotado de whisky.

–Vamos almoçar. Estou morrendo de fome. –Mandi, alisou a barriga por um instante em quanto fitava Scott de um jeito misterioso.

–Almoçar a essa hora? –Scott disparou uma gargalhada debochada franzindo as sombrancelhas.

–Que é? Estou com fome... –Ela sentou-se num cordão de cimento que dividia o pequeno jardim do asfalto do estacionamento da escola.

–Ah cara, qual é? –Sean deu alguns passos até ficar cara a cara de Scott franzindo o cenho num tom desafiador.

–Chega! –Coloquei os dois braços entre os dois, ficando assim no meio da confusão.

–Zoe e Scott, se vocês não estão com fome vão fazer outra coisa... Vão dar uma volta por aí. Depois encontramos vocês. –Me voltei para Zoe com um olhar incisivo.

–Vamos Scott... –Zoe colocou a mão em seu ombro e eles saíram caminhando sem destino pela calçada até dobrarem a esquina e saírem da nossa vista.

Caminhamos por mais alguns metros até chegarmos a uma lanchonete. A lanchonete da Marge, a lanchonete onde sempre costumávamos almoçar. Lá eles serviam ótimos hambúrgueres com queijo e o meu preferido Milk-shake de flocos com cobertura de chocolate.

Depois de quase ficarmos sem dinheiro para pagar saímos da lanchonete com as entranhas cheias pela deliciosa comida da Marge. Éramos três nos arrastando caminho a fora até a casa de Sean.

–Entrem, entrem garotas. –Ele abriu a porta num só gesto, ligou a luz e sentou-se no sofá. Aquela não seria a primeira vez que iríamos beber na casa dele, nem a segunda. Nós fazíamos isso quase todas as sextas depois da aula. E hoje sendo sábado teríamos ainda mais tempo para nos embebedar.

Entre um cigarro e outro, um beijo e um sussurro, eu e Sean chegávamos cada vez mais próximos da cama de seu quarto. Aquela sim seria a minha primeira vez com Sean, a primeira vez que transo com meu melhor amigo bêbado em sua casa. É só disso que me lembro.

–Ei, Miranda acorda... –Acordei com a voz de Sean, era delicada e ao mesmo tempo urgente. Ele estava coberto pelo lençol branco de sua cama deixando apenas uma parte do peito de fora, me fitando, os olhos azuis brilhando, parecia agora tão feliz.

–Que horas são? –Me envolvi em um edredom que havia caído no chão e corri para o banheiro. Precisava avisar meus pais de que chegaria tarde ou preocuparia minha mãe.

Tomei um rápido banho quente, me vesti da mesma roupa que antes usava e prendi o cabelo a um elástico que mantinha no pulso. Ao abrir a porta me dei de cara com ele, ficamos tão próximos a ponto de quase nos beijarmos. Desviei o olhar baixando a cabeça, na verdade eu sentia vergonha. Vergonha só de olhar para ele e pensar que nós...

Era tão difícil para mim, difícil como não foi com nenhum dos outros garotos. Talvez seja tão difícil pelo fato de sermos amigos, melhores amigos. Mandi? Só agora eu me dei por conta de que Mandi não estava lá, não no andar superior.

Desci as escadas num ritmo frenético, e se Mandi tivesse caído pela bebida e se machucado? E se tivesse saído na rua andando naquele estado para deus sabe onde? Finalmente a encontrei no banheiro, chorando apoiada a parede, com o rosto encostado nos joelhos.

–O que houve? Você se machucou? –Percorri sua cabeça em busca de algum ferimento, em busca de sangue, mas não o encontrei.

–Eu estou grávida... –Ela sacudiu a cabeça como quem quer se libertar de um pesadelo, ela apenas chorou por horas a fil. Sem dizer nada ela se levantou tremula, tive de segura-lá para que não se espatifasse no chão.

–Ei, você não esta morta, não esta doente... –Segurei sua mão agora sentada ao seu lado no sofá da sala. Podia ouvir lá em cima o barulho de a água cair, Sean ainda tomava banho.

–Você só vai ter um filho... –Conclui num suspiro prolongado, dando ênfase a palavra final.

Ouvi os passos acelerados de Sean na escada, ele sorria com um ar exuberante, pena que à medida que se aproximava o sorriso perdia o brilho e, por fim o sorriso se fechou dando lugar a uma expressão de pavor.

–Mandi, o que aconteceu? –Ele se aninhou ao seu outro lado sobrepondo a mão em seu ombro. Sean era mesmo uma pessoa muito querida; a única pessoa que agora parecia pelo menos tentar compreender a situação.

–Não foi nada... –Ela entrelaçou os dedos em minha mão, soltou um olhar que parecia dizer ,”por favor, não fale nada” e baixou a cabeça de tristeza. Interpretei o olhar, mas não pude fazer nada além de deixá-los ali e tomar o rumo de casa.

Após alguns segundos de caminhada eu magicamente estava em casa. Antes que eu experimentasse a maçaneta Robert, meu padrasto abriu-a com um ar arrogante e reservado.

–Chegou cedo, hoje... –Ele deu alguns passos até chegar à parede que ficava atrás da porta, quase se colocando atrás dela. Ele ainda vestia o roupão azul marinho de hoje cedo.

–Hum, onde está a Janet, minha mãe...? –Especifiquei. Agora procurava por ela em todo o cômodo, mas não a encontrava.

–Está lá em cima...deitada. –Ele fechou a porta num estrondo e em seguida jogou-se na poltrona antiga de couro branco.

–Vou vê-la. –Sem esperar por uma réplica subi a escada como um gato sagaz. Já tinha certa prática. Adquirida com anos e anos de subidas, descidas e tombos.

Espiei por entre o vão da porta entre aberta. Ela estava deitada, mas não parecia dormir, estava imóvel, parecia chocada. Não prossegui, não podia e não queria. A verdade é que nunca gostei lá muito da minha mãe. Para mim ela é a responsável por esse monstro do Robert morar aqui. Nunca vou perdoá-la, nunca.

Assentei me em minha cama, pensativa. Toda aquela tarde não parecia ser verdade, tudo aquilo parecia ser apenas um sonho, mas não era e, eu precisava me conscientizar disso antes que fosse tarde.

Eu sou fria de mais para estar apaixonada pelo Sean. Tenho certeza de que não seria capaz disso. Sei muito bem diferenciar os sentimentos. Sei bem até de mais.