Boa noite, diário! Hoje era o dia da visita, mas ninguém veio me visitar, ninguém. Então passei o dia todo trancada aqui, nesse quarto estranho e medonho em que tenho de dormir.

O inverno já chegou aqui. Ontem à noite dormi com a janela aberta para que o vento frio e a neve invadissem meu quarto congelando meu corpo, mas não consegui. Paige veio até o meu quarto trazer uma xícara de chocolate quente e viu a janela aberta.

Acho que eles conseguiram, conseguiram mudar meu jeito de pensar. Parabéns, aqueles cretinos transformaram uma vadia drogada em uma santa solene.

É diário, faz três meses que estou sóbria, três meses sem cigarro, álcool, sexo ou maconha. O que será de mim agora, hein? Quando sair daqui eu irei direto para o convento mais próximo de casa que eu encontrar.

Imagine, até apreendi o que é o amor! E estou amando. Sean Ian Becker pode esperar por mim que serei sua. Ai, às vezes nem eu mesma acredito nisso, não acredito que tenha me tornado tão diferente aqui.

Uh, acho que estou ficando louca. Parece à voz do meu professor, Ivan. Deus é mesmo ele. Vou abrir a porta. Tomara que ele não seja um maníaco tarado. Até mais diário.

–Senhor Schneider? –Abri apenas uma fresta da porta para que pudesse enxergar se era mesmo ele.

–Posso entrar Miranda?-Ele sorria discretamente, parecia envergonhado.

–Pode. Entre... –Respondi meio sem jeito abrindo a porta aos poucos.

–Desculpe vir ao seu quarto a essa hora da noite, mas só queria avisar você de que um amigo seu ligou, Sean. Acho que era esse seu nome. –Ele me fitava com seus olhos azuis gélidos que agora pareciam amigáveis. Apenas assenti.

–Ele ligou para o telefone da escola, mas não somos autorizados a passar ligações às alunas. Pedi que ele ligasse para o meu celular mais tarde, prometi que passaria o celular para você. –Ele sorriu estendendo a mão que continha seu telefone celular.

–Obrigada. –Retribui o sorriso. O celular já estava ligando para Sean que de imediato atendeu.

***


–Miranda é você mesmo? –Mau acreditei que era ela. Meu deus, depois de três meses sem vê-la.

–Sou eu Sean. Esta tudo bem? –Sua voz falhava a cada vez que dizia meu nome. Ela precisava de alguém ao seu lado. Estava passando pelo pior momento de sua vida e seus pais não avisaram a ninguém.

–Esta tudo bem aqui, mas e você? –Repliquei com o coração cada vez mais acelerado.

–Eu vou ficar bem, um dia... Talvez quando eu estiver bem longe daqui... –Ela parecia angústiada, triste. Ah, como eu queria estar agora ao seu lado.

–Vou tira-la daí Miranda. Eu prometo! Nem que seja a última coisa que eu faça.

–Não pode! Ninguém pode. –Ela desabou em lágrimas. Toda aquela vontade de seguir em frente, de ser forte e não demonstrar os sentimentos havia sumido.

–Miranda não perca as esperanças... Esse homem que deixou que nos falássemos é uma boa pessoa e, pode nos ajudar. –Sua respiração oscilava.

–Sean, escute! Tenho de desligar, não posso mais falar. Escute, eu amo você. Quando sairmos nós dois ficaremos... –A ligação caíu, e junto dela meu coração se partiu.

O que eu faria agora? Como a tiraria daquele mausoléu sem ser descoberto por ninguém? Como viveria sem tê-la ao meu lado. E depois que a tirá-se de lá, onde viveríamos?

Tantas perguntas sem respostas, tantos problemas sem solução, tanto amor reprimido. Tudo isso por culpa de duas pessoas ignorantes que ao invés de conversarem civelmente a castigaram impiedosamente.

A noite passou em claro para ambos. Havia muito com o que se preocupar. Enquanto a neve caía seus corações se tornavam cada vez mais gélidos. Só o que os dois desejavam era um ao outro e nada mais.

***

–Miranda acorde! É segunda, temos aula... –Uma mão afagava carinhosamente meu cabelo. Era Paige que já estava pronta para a escola.

–Não estou bem Paige. Não quero ir hoje. –Contestei do mesmo modo que falava com minha mãe quando queria faltar à escola.

–Tudo bem, só se levante do chão. Esta nevando lá fora. –Nem eu mesma havia me dado conta de que tinha adormecido no chão em meio às lágrimas e aos cobertores, contemplado os flocos de neve caírem do céu.

Miranda dormiu pelo resto do dia, desta vez na enfermaria. Estava queimando em febre, precisava de cuidados. Era febre de amor. Uma febre causada pela angústia de estar presa a um lugar onde ninguém a queria bem.

Sua mãe já estava arrependida de tê-la colocado lá, mas seu padrasto não permitia que ela a buscasse. Não gostava dela, nunca havia sentido por ela nada parecido com amor ou afeição.

George, seu irmão havia se separado de sua esposa voltando assim a viver com sua mãe e Robert, seu padrasto. Foi George quem deu o telefone do internato a Sean. Assim como ele era contra matricula da irmã em Hall Rosem.

–Mãe! Por que você e o Robert matricularam a Miranda em um internato a quilômetros daqui sem o meu consentimento? –Cruzei os braços parando em sua frente. Meu coração pulsava surdo de ódio.

–Filho... essa não é uma guerra sua e portanto não deve se intrometer. –Ela largou o prato que enxugava na mesa e subiu as escadas em direção a seu quarto. Seca.

–A Miranda é minha Irmã e por isso, sim, eu devo me intrometer. -Fui atrás dela em passos largos.

–Acha que é fácil para mim abandoná-la naquele local sem nem ao menos saber como ela esta? –Lágrimas tomaram seus olhos. Por um momento ela pareceu se importar com tudo aquilo.

–Acho que sim. Se não fosse você não teria a deixado lá. –Respondi sério. Não me importava com suas desculpas.

–Então acha que sou eu a culpada? Queria que ela estivesse grávida ou que eu fosse a responsável pelos atos de uma drogada?

–Você não entende mesmo. Com que ela podia conversar? Me diga! Robert o padrasto que ela mal conhece? A mãe que não se dá o trabalho de ouvir o que ela esta dizendo? Ou o irmão que age como uma criança de dois anos?

–Já chega George! Não admito que ofenda seu irmão desse modo.

–Tudo bem. Continue assim e verá o que ele se tornará. Depois a errada ainda é a Miranda...

–Seu irmão é velho de mais para ser comparado à Miranda.

–Pena que não tenha mentalidade condizente com a idade...

–Foi ele que contou sobre tudo que sua irmã fez. Ele sim é ajuizado.

–Oh, imagine se não seria ele o fofoqueiro da vez.

–Não fale assim do seu irmão!

–Sei porque age desse modo com ele... Porque ele é filho do Robert. O único filho que conseguiu ter com Robert.

–Do que esta falando?

–Estou falando da noite que você e Robert passaram juntos. Eu tinha nove anos... Só depois fui entender.

Ela respondeu com um tabefe que estalou em minha face.

–Saia daqui! Saia!

–Estou indo... Fique tranquila.