Evangelion: Shattered Thresholds

8 Episódio 8: Um Dia Perfeito, Um Desastre Perfeito


Capítulo 61: Ignição / A Chave Roubada do Sorriso dela

A luz da manhã filtrava-se pelas persianas, lançando um brilho quente sobre o quarto de Kai. Seu celular vibrou, arrancando-o do sono. Ele esticou o braço, esfregando os olhos ao olhar para a tela.

Asuka: "Espero que esteja acordado, porque é bom você não se atrasar. 😏"

Um sorriso se abriu em seu rosto. Era hora. Ele se espreguiçou, rolando para fora da cama e respondeu:

Kai: "Ansiosa, é? Bom dia pra você também! Esteja pronta ao meio-dia. E leva um biquíni."

A resposta veio quase imediatamente:

Asuka: "Ah, até parece. Só estou garantindo que você não vai se atrasar nem nada. Meio-dia, então. E por que diabos eu preciso levar um biquíni?

Ele riu, balançando a cabeça. A curiosidade dela já estava acesa, mesmo que ela se recusasse a admitir. Isso era um bom sinal.

Mas antes que o encontro pudesse começar, ele tinha um passo crucial a tomar. E para isso, precisava de Shinji.

Kai digitou rapidamente:

Kai: "Ei, Shinji! Preciso da sua ajuda."

Os pontinhos de digitação apareceram após alguns segundos.

Shinji: "Ah... que tipo de ajuda?"

Kai sorriu de canto. Ele já sabe que não vai ser simples.

Kai: "Você não vai gostar, mas significaria muito pra mim. Sério, vou te dever essa. De verdade."

Pausa.

Shinji: "Isso... não me deixa nada mais tranquilo. O que é?"

Kai se recostou, pensando na melhor forma de dizer aquilo.

Kai: "A Misato não está aí, né? Mas... e o carro dela?"

A resposta de Shinji veio quase na hora.

Shinji: "É, ela não está. E o carro tá aqui. ...Kai, o que você tá aprontando?"

Kai soltou o ar devagar. Tinha que pisar com cuidado agora.

Kai: "Então... preciso que você... encontre a chave do carro pra mim. Nada demais, né?"

Houve um longo silêncio. Então:

Shinji: "Kai. Isso é literalmente roubo."

Alguns segundos depois, outra mensagem:

Shinji: "...Por quanto tempo você precisa?"

Kai sorriu. Isso não foi um não.

Kai: "Só por hoje! Devolvo antes do sol se pôr. Antes dela voltar. Ela nem vai perceber. É para... um encontro com a Asuka."

A resposta de Shinji foi imediata:

Shinji: "Um encontro? Com a Asuka?? Você tá arriscando a fúria da Misato por isso??"

Outra pausa.

Shinji: "...Tá. Mas se a gente for pego, a culpa é toda sua."

Kai ergueu o punho no ar com um sorriso vitorioso e digitou depressa:

Kai: "Chego aí em uma hora, beleza? Muito obrigado mesmo!!! Te devo essa! Qualquer coisa que você precisar, conta comigo."

Shinji: "Tá, tá. Só chega logo antes que eu mude de ideia."

O plano estava em movimento. Agora, ele só precisava se aprontar.

Kai passou pela rotina matinal com agilidade — banho, café da manhã, arrumar a mochila. Preparou seus ovos mexidos de sempre, aproveitando um instante de simplicidade antes que o dia começasse. O plano era ousado, talvez até imprudente, mas era exatamente por isso que Asuka ia adorar.

Antes de sair, ele conferiu a mochila:

Sunga? Ok.

Lanches? Ok.

Roupas extras? Ok.

E, mais importante, aquela pequena caixa. Uma caixa que ele vinha guardando havia algum tempo. Sua mão demorou um pouco sobre ela antes de colocá-la na mochila. Só de segurá-la, o coração já acelerava.

Com tudo pronto, pegou a mochila e saiu, o coração disparado de expectativa.


Ao chegar no apartamento de Shinji, bateu de leve. A porta se abriu com um rangido, revelando um Shinji bem hesitante, chaves do carro balançando entre os dedos.

"Não acredito que estou fazendo isso," murmurou Shinji, já com cara de arrependido. "É bom você devolver isso inteiro."

Kai sorriu, pegando as chaves. "Relaxa, cara. E se ela descobrir, você finge que não sabia de nada. Eu assumo tudo. Valeu mesmo!"

Shinji suspirou, esfregando as têmporas. "É, é... Só não seja pego, tá? E não bate o carro."

Kai girou as chaves nos dedos, confiante. "Que isso, Shinji, confia um pouco em mim."

Shinji o encarou sério. "É isso que me preocupa. Eu confio."

Kai apenas riu, dando um tapa no ombro do amigo antes de seguir até o carro da Misato.

Ao sentar no banco do motorista, respirou fundo, apertando o volante com as mãos.

Olhou pelo retrovisor, vendo seu próprio sorriso nervoso. Aquilo podia dar errado de tantas maneiras... Mas se funcionasse, talvez fosse inesquecível. E talvez... talvez significasse mais do que ela jamais admitiria.

Era isso. Tudo estava pronto.

Agora só faltava buscar Asuka — e provar que hoje seria o melhor encontro da vida dela.

Hora de fazer valer a pena.

Capítulo 62: Velocidade / Coordenadas Desconhecidas

As ruas de Tokyo-3 passavam borradas enquanto Kai conduzia o carro da Misato pela calmaria da manhã na cidade. Seus dedos tamborilavam suavemente no volante, a antecipação pulsando em suas veias. Aquilo não era só um encontro—era uma fuga. Uma que ambos precisavam desesperadamente.

Antes de ligar para Asuka, ele pegou o celular e enviou uma mensagem rápida:

Kai: "Você está pronta? Preciso avisar: podemos nos meter em encrenca com isso. Última chance de desistir."

A resposta veio quase imediatamente.

Asuka: "Se a gente não se meter em encrenca, nem vale a pena. Onde você está?"

No momento em que ele terminou de ler, a porta do apartamento dela se abriu. Ela saiu, examinando a rua. Seus olhos azuis penetrantes o encontraram dentro do carro da Misato e, por uma fração de segundo, ela hesitou—antes de abrir um sorriso lento e travesso.

Ela se aproximou com os braços cruzados, inclinando a cabeça. "Não acredito. Você realmente roubou o carro da Misato?" Sua voz tinha algo entre descrença e admiração.

Apoiando-se na porta do passageiro, ela espiou o interior, então entrou no carro com um sorriso confiante. "Eu sabia que esse encontro ia ser interessante, mas isso? Isso pode realmente ser divertido. Certo, gênio. Onde vamos?"

Kai sorriu ao engatar a marcha. "Ah, você vai ver. Preparada pra uma road trip? Trouxe o que eu te pedi? A gente vai sair de Tokyo-3."

Asuka arqueou a sobrancelha, mas o sorriso não desapareceu. "Sair de Tokyo-3, é? Agora tá falando sério." Ela deu um tapinha na mochila. "Sim, sim, estou com o maldito biquíni. Você deu sorte de eu estar de bom humor, senão te faria implorar pra eu usar."

Ela jogou o cabelo sobre o ombro e prendeu o cinto. "Certo, homem misterioso, me impressione. Mas se isso acabar sendo uma droga, vou te fazer sofrer o caminho todo de volta."

Kai riu, ligando o motor. "Então, pronta pra uma aventura? Desde que chegou aqui, qual foi o lugar mais longe que você foi pra fora da cidade?"

Asuka se recostou, observando a paisagem urbana desaparecer à distância. Deu de ombros.

"Não muito longe, pra falar a verdade. A NERV nem deixou a gente ir em uma viagem escolar pra Okinawa — a Misato vetou como se a gente fosse um bando de criancinha." Revirou os olhos. "Mas depois que eu acabei com a raça daquele Anjo sozinha, ela deixou a gente relaxar num onsen perto do Monte Asama. Vapor, água quente... até que não foi ruim." Ela lançou um olhar com um sorrisinho. "Por quê? Vai me mostrar um mundo totalmente novo, é isso?"

Kai riu, aumentou o volume da música e se recostou. "Relaxa, Asuka... hoje a gente esquece da NERV."

Por um momento, ela ficou em silêncio, encarando a estrada aberta. Então, seu sorriso suavizou levemente. "Tá bom. Acho que posso me dar o luxo de esquecer tudo isso... só por hoje."

Com a estrada se estendendo à frente, Kai decidiu finalmente revelar seus planos.

"Bem... tá bom. Vou contar. Eu tava louco pra sair de todos aqueles prédios cinzentos e da chatice da NERV por um tempo. Então... procurei lugares onde a gente pudesse viver uma pequena aventura, sabe? Fazer trilhas, nadar em cachoeiras e rios. Sentir um pouco de liberdade de verdade! Quando vi as fotos desse lugar, não tive dúvida, tinha que te levar lá. Vamos pras Cachoeiras de Kawazu."

Asuka piscou, pega de surpresa. Olhou pra ele, depois para a estrada, processando o que ouvira. Por um momento, não disse nada—só absorveu a ideia.

Então, sorriu. "Hah. Você realmente pensou nisso tudo, hein?" Cruzou os braços, inclinando a cabeça como se estivesse tentando conter a empolgação. "Cachoeiras, trilha, nadar... Isso é—" ela hesitou por um segundo antes de voltar o olhar pra ele, com a voz carregada de desafio, "—realmente muito legal."

Ela se recostou, o sorriso se ampliando. "Acho que subestimei você, Kai. Não achei que você tivesse tanto espírito de aventura. Mas não pense que isso significa que vou pegar leve. Se você cansar no meio do caminho, vou te deixar pra trás."

Seus olhos, no entanto, contavam outra história. Havia ali uma empolgação genuína—talvez até felicidade. Ela claramente estava ansiosa por aquilo.

Depois de um momento, ela o encarou novamente, fingindo casualidade. "Então, essas cachoeiras... Melhor que elas sejam tão incríveis quanto você tá prometendo."

Kai sorriu, aliviado ao ver o entusiasmo dela. "Ah, estou contando com isso! O único problema do meu plano era como chegar lá. Aquela região toda ficou praticamente abandonada desde o Segundo Impacto. Sem gente, sem sinal de celular, sem estações de trem funcionando, só mato. Por isso tive que ‘pegar emprestado’ o carro da Misato. Mas imaginei que você não ia ter medo das consequências se ela descobrisse, né?"

Os olhos de Asuka se arregalaram por um instante antes de ela explodir em gargalhadas. "Espera—A Misato realmente não sabe que você pegou o carro?! Meu deus, Kai, você é completamente maluco!" Ela recostou-se, balançando a cabeça, visivelmente impressionada. "E eu achando que eu era a imprudente!"

Ela sorriu, cruzando os braços. "Com medo? Por favor. Como se eu fosse ter medo daquela beberrona desleixada. Se alguma coisa, isso só deixou o dia ainda mais interessante!"

Então, inclinou levemente a cabeça, os olhos se estreitando com diversão. "Mas se ela descobrir, é você quem vai levar toda a culpa, entendeu?" Ela apontou um dedo pra ele. "Não vou ficar de castigo porque você foi idiota o bastante pra achar que isso era uma boa ideia."

Kai riu, sentindo a adrenalina crescer. "Ah... acho que você vai estar tão encrencada quanto eu... talvez até o Shinji, o coitado."

Asuka bufou. "Ah, por favor. Vou botar a culpa toda em você. A Misato gosta demais de mim pra ficar brava por muito tempo. Mas você? Ah, você tá ferrado."

Ela esticou os braços atrás da cabeça, olhando pra paisagem rural à frente. "Tá bom, Kai. Tenho que admitir—isso tá bem melhor do que eu esperava."

Enquanto Kai continuava dirigindo, ele lhe ofereceu alguns lanches. Asuka pegou um deles e desembrulhou sem hesitar. Jogou alguns na boca e o olhou descontraída.

Kai sorriu de canto. "É bom você acompanhar o ritmo! Eu vou estar em casa ali. Trilhas, mergulho em cachoeira... meu irmão e eu fazíamos isso direto, antigamente."

As palavras escaparam antes que ele pudesse segurá-las. Fazia tempo que não falava do irmão—não assim. Mas, por algum motivo, com ela, aquilo não parecia pesado.

Asuka ergueu a sobrancelha, o sorriso se alargando. "Ooooh, é mesmo? Então você acha que só porque cresceu no meio da selva vai levar vantagem?" Ela se inclinou um pouco pra frente, os olhos brilhando com desafio. "Acho que isso significa que vou ter que te vencer no seu próprio jogo, né, selvinha?"

Os olhos de Kai se arregalaram ligeiramente, uma expressão meio irritada, meio incrédula cruzando seu rosto. "Ah não, não, não. Selvinha? Sério?" Ele balançou a cabeça com firmeza, tirando uma das mãos do volante por um segundo pra fazer um gesto de reprovação. "Ah, qual é, isso foi péssimo. Você não vai me chamar assim."

O sorriso dela só se alargou, e a voz ganhou um tom docemente zombeteiro. "Por quê? Vai dizer que o fortão não aguenta uma zoadinha?" Ela se recostou, triunfante, cruzando os braços enquanto lançava um olhar cheio de malícia. "Agora que eu vi que você odiou, com certeza vai ser assim que vou te chamar. Selvinha."

Kai soltou um gemido dramático e aumentou o volume da música pra tentar abafar a provocação. Manteve os olhos na estrada, mas de vez em quando lançava um olhar de lado pra ver a reação dela. Apesar de tudo, um sorriso começou a se formar em seus lábios. Vê-la tão à vontade, rindo sozinha, claramente se divertindo com o incômodo dele — ele percebeu que não trocaria momentos assim por nada.

Ela parecia feliz. Verdadeiramente feliz. E por agora, isso era o suficiente.

Capítulo 63: Corrente Selvagem / Salto de Fé

A estrada tinha desaparecido atrás deles, substituída por nada além de árvores imponentes e o rugido distante da água em queda. A última curva revelou toda a glória da vegetação exuberante das Cachoeiras de Kawazu. A natureza estava tomando conta da infraestrutura arruinada, com placas antigas e meio destruídas espalhadas por todo lado. O ar era diferente ali — limpo, fresco, carregado com o cheiro de musgo e terra. A luz do sol atravessava o dossel das árvores, lançando padrões dourados salpicados pelo chão.

Asuka se inclinou para frente, os olhos se arregalando levemente ao contemplar a vista. "Uau…" ela murmurou, alto o bastante para Kai ouvir.

Ele sorriu. Missão cumprida.

Parando numa pequena clareira, ele desligou o motor. "Fim da estrada. Mas não se preocupe, a diversão só está começando."

Asuka saiu do carro, espreguiçando-se com os braços erguidos, o corpo arqueando levemente enquanto inspirava fundo o ar da montanha. "Certo, guia turístico, qual é o plano? Caminhada? Nadar no rio? Ou a gente só se joga na cachoeira e vê quem sobrevive?"

Kai sorriu de lado, pegando sua mochila e exibindo tudo o que tinha preparado — garrafas d'água, lanches, um mapa, kit de primeiros socorros, o essencial. Depois, colocou um boné na cabeça e apontou para a floresta densa à frente.

"Ok! Primeiro a gente pega aquela trilha. Vai ser puxado, mas dizem que a vista da cachoeira principal no final é incrível! Além disso, tem umas menores no caminho que são perfeitas pra mergulhar."

Asuka arqueou uma sobrancelha, avaliando os preparativos. "Hã. Você realmente planejou tudo isso." Ela sorriu de lado. "Nada mal, Kai. Mas se acha que uma trilha complicada vai me atrasar, é porque ainda não prestou atenção direito."

Ela pegou uma das garrafas de água e abriu com um estalo. "Beleza então, vamos nessa. Mas trate de acompanhar o ritmo — se molengar, eu deixo você pra trás."

Kai riu enquanto ela tomava a dianteira, pisando firme na trilha com confiança. As árvores os engoliram, o caminho serpenteando morro acima por entre a vegetação espessa. O som das cachoeiras ao longe se misturava ao farfalhar das folhas, tornando o lugar quase outro mundo. Um que parecia familiar para Kai.

Kai tentou acompanhar o ritmo, percebendo rápido que Asuka não era só papo — ela era naturalmente atlética, os passos leves e seguros conforme lidava com o terreno irregular. Ele sorriu, acelerando para ficar lado a lado.

"Como é que você também é boa nisso? Não é possível!"

Asuka olhou para trás, sem nem parecer ofegante. "Hah! Achou que eu era só uma garota da cidade? Por favor." Ela saltou sobre um tronco caído com facilidade, sem perder o ritmo. "Treinei a vida inteira pra ser a melhor — seja pilotando um Eva ou escalando uma montanha idiota, não faço nada pela metade."

Ela virou o rosto para ele, o sorriso se abrindo mais. "Além do mais, não foi você quem disse que isso era a sua praia? Não era pra você estar na frente?"

A trilha ficou mais íngreme, as árvores mais fechadas. O rugido da cachoeira aumentava, sinal de que estavam perto. Asuka acelerou, claramente se esforçando pra continuar na dianteira.

"Tch, já tá ficando pra trás?" ela provocou, lançando um olhar por cima do ombro. "E eu achando que você ia me mostrar como se faz!"

Foi o suficiente para acender a competitividade de Kai.

Kai sorriu. "Não é só uma garota da cidade, né? Tá bom, você pediu."

Com isso, disparou pela trilha.

Os olhos de Asuka se arregalaram por um segundo antes do fogo competitivo reacender. "Ah, nem a pau!" Ela correu atrás dele.

Subiram a trilha feito foguetes, desviando de raízes, saltando sobre pedras, se provocando a ir mais rápido. A cachoeira já rugia perto, o ar mais frio com o borrifo da água. Então, sem aviso, Asuka saiu da trilha.

"Atalho!" gritou, lançando um sorriso desafiador por cima do ombro.

O coração de Kai deu um salto. Aquilo não fazia parte da rota que ele tinha estudado. Hesitou por um segundo antes de resmungar: "Asuka! Esse não é o caminho, sua maluca!"

Mas ela não ia parar. Ele não tinha escolha.

Com um suspiro, seguiu atrás.

O terreno ali era mais acidentado, inclinado e definitivamente fora do plano. Kai empurrou a vegetação, galhos batendo em seu rosto. O som da água correndo estava perto — muito perto.

De repente, Asuka parou bruscamente à sua frente, quase perdendo o equilíbrio.

"Whoa—!"

Kai mal conseguiu parar a tempo. Estavam na beirada de um desnível. Lá embaixo, uma cachoeira menor desaguava numa piscina cristalina, cercada por rochas pontiagudas.

Asuka olhou para baixo, depois para ele, o sorriso se alargando. "Acha que dá pra pular daqui?"

O estômago de Kai virou. O penhasco não era absurdo, mas ainda assim era alto. A água parecia funda... provavelmente.

Mesmo sem certeza… ele olhou para Asuka, viu o brilho selvagem nos olhos dela, e não conseguiu dizer não.

"Agora abre caminho, sua doida!"

Com isso, correu e saltou.

Por um instante, o tempo parou. O vento no rosto, o som da água, a sensação de liberdade total.

Então—

Splash!

A água gelada foi um choque, mas Kai emergiu rápido, rindo e ofegante.

Lá em cima, Asuka se debruçou sobre a beirada, sorrindo.

"Minha vez!"

"Asuka, espera—!"

Tarde demais.

Ela se lançou do penhasco, braços abertos. "Wooohooo!"

Caiu com perfeição, desaparecendo sob a superfície antes de surgir segundos depois, jogando os cabelos molhados para trás com um sorriso vitorioso. "Hah! Falei que ia ser divertido!"

Nadou até ele, as gotas brilhando sobre a pele. "Admite — isso foi bem melhor do que seu plano seguro!"

Kai apenas riu, ainda cheio de adrenalina. "Plano seguro?! Sério mesmo?" Ele parou, surpreso. "Você fala como se estivéssemos só num passeio no parque."

Asuka espirrou água nele com um deboche. "Isso porque você é mole, selvinha. Achei que você fosse o especialista aqui!"

Kai nadou até a borda e se puxou para fora, colocando a mochila no chão antes de tirar a camisa encharcada. "Droga... molhou tudo."

Virou-se de costas, fingindo checar os pertences. Mas os pensamentos estavam acelerados. Ela estava ali — radiante, selvagem, livre — e tudo parecia inegavelmente real.

Asuka veio logo atrás, saindo da água com graça natural. "Tsc. Culpa sua por não esperar que eu tornasse tudo mais emocionante." Tirou a camisa molhada, revelando o biquíni por baixo, e se espreguiçou. "Mmm, isso tá incrível. Bem melhor do que ficar presa em Tokyo-3 o dia inteiro."

Kai mal ouviu. Virou-se pelo som, mas congelou — lá estava ela, banhada pelo sol dourado, gotas escorrendo pela pele. O biquíni listrado de vermelho e branco combinava perfeitamente com sua personalidade incendiária. Os cabelos ruivos e molhados emolduravam os olhos azuis e um sorriso suave, descontraído.

Sua respiração falhou. Não conseguiu evitar encarar. Talvez por um segundo a mais do que o necessário para passar despercebido.

Asuka congelou por um momento, ainda arrumando o cabelo. Então, rapidamente, bufou e espirrou água nele com um sorriso de canto. "Tch! Não seja um pervertido! Age como se nunca tivesse visto uma garota de biquíni antes."

Mas ela não se afastou. Nem tentou se esconder.

Ao contrário, inclinou a cabeça levemente, observando a reação dele, um leve rubor subindo pelas bochechas.

"E então?" disse por fim, tentando soar arrogante. "Vai ficar aí babando ou vamos aproveitar o lugar de verdade?"

Capítulo 64: Ápice / Uma Estrela para Recordar

Kai terminou de espalhar suas coisas ao sol para secar, sacudindo as últimas gotas d'água que ainda grudavam em sua pele. Ele apontou para as pequenas cascatas à frente, com os poços brilhando sob a luz do sol.

"Agora eu quero aproveitar esse lugar que você encontrou! Não quer também? Aposto que chego lá antes de você."

Antes que Asuka pudesse responder, ele se lançou de volta na água, mergulhando suavemente em direção às cascatas.

O fogo competitivo de Asuka acendeu na hora. "Ah, é? Veremos!"

Ela mergulhou logo atrás, cortando a água com uma velocidade surpreendente. Sua risada se misturava com as braçadas enquanto nadava para alcançá-lo, a água fria correndo ao redor deles. O isolamento pacífico do lugar tornava tudo quase onírico—sem NERV, sem responsabilidades, só a emoção da corrida, o fluxo da água e o sol acima.

Kai olhou de lado no meio do nado. Asuka estava ali, seu sorriso visível mesmo por entre a água em movimento. Nem pensar que vou deixar ela ganhar.

Com um último impulso, ele estendeu a mão—seus dedos tocando a pedra primeiro.

Vitória.

Ao se virar para Asuka, ela emergiu ao seu lado, jogando o cabelo molhado para trás com uma bufada frustrada. "Tch! Não acredito!" Ela jogou água nele, estreitando os olhos. "Você trapaceou."

Kai apenas riu, balançando a cabeça. "Você já devia saber que eu não um mosca morta que você pode usar de capacho, né?"

Asuka cruzou os braços, flutuando no lugar. "Tsc. Tá, tá, mas não deixa isso subir à cabeça." Então, um brilho de divertimento cruzou seu olhar. "Na próxima eu ganho."

Ela se recostou numa das pedras, olhando para as cachoeiras com uma expressão mais suave. "Mas tá bom… admito que esse lugar é incrível."

Kai inclinou a cabeça, observando-a. "E agora? Outro desafio?"

Ela sorriu de canto. "Vai me arrastar pra mais uma ideia maluca?"

Kai olhou para o ponto mais alto da cachoeira. "Eu tava pensando… se a gente subir ali, dá pra ver o lugar inteiro. Talvez até além. O que acha?"

Asuka acompanhou seu olhar, os olhos se estreitando com interesse. Um sorriso lento surgiu em seu rosto. "Hah! Agora você tá falando a minha língua."

Ela se espreguiçou, girando os ombros. "Um pouco perigoso, um pouco imprudente… Eu gosto disso." Então lançou um olhar desafiador. "Mas nem pense que vou deixar você chegar antes de mim. Você pode ter vencido na natação, mas escalada? Isso é comigo."

Antes que Kai pudesse responder, ela já estava se agarrando nas pedras. "E aí? Vai vir ou vai ficar aí parado?" Sem esperar, começou a subir.

Kai balançou a cabeça, rindo. Ela realmente não espera por ninguém, hein?

Ele a seguiu de perto. Ela era rápida, ágil, mas as pedras molhadas dificultavam tudo. Pela metade do caminho, ela errou um apoio com o pé.

Seu pé escorregou.

Ela arfou, o corpo tombando para trás—mas antes que caísse, Kai estendeu a mão, segurando firme seu pulso. Por um momento, ela ficou suspensa no ar.

Então, com um puxão forte, ele a estabilizou contra a parede de pedra.

Seguiu-se um silêncio tenso.

A respiração de Asuka falhou por um instante, seus dedos apertando a pedra. Então—

"...Tsc. Eu tinha isso sob controle." Tentou soar indiferente, mas a hesitação antes de se mover de novo contava outra história.

Kai sorriu de canto. "Vai chorar agora? Acompanha aí!"

Imediatamente, o fogo nos olhos de Asuka reacendeu. "Você que sonha que eu vou chorar, perdedor!"

Ela praticamente disparou até o topo da escalada, avançando com renovada intensidade. Kai teve dificuldade para acompanhá-la—dessa vez, ela era mais rápida, movida por pura determinação.

Quando finalmente chegou ao topo, ela se virou, olhando para ele com um sorriso vitorioso. "Cadê a cara de bonzão agora, hein?"

Kai rangia os dentes, puxando-se pelo último trecho. Ele pegou a mão estendida dela, deixando que ela o puxasse pelo último apoio. "Muito engraçado, senhorita `quase-morri-ridiculamente'."

Asuka bufou. "Tsc. Foi um risco calculado. E ainda ganhei, então cala a boca."

Mas nenhum dos dois estava mais pensando em vencer—não com a vista que os envolvia.

As montanhas se estendiam sem fim em todas as direções, cobertas por um tapete verde e dourado sob o sol da tarde. E ao fundo, bem distante, estava Tokyo-3—pequena, quieta, quase pacífica vista daquela altura.

Asuka deu alguns passos à frente, colocando as mãos na cintura enquanto observava o horizonte. Por um momento, não disse nada, apenas encarou o vasto mundo à sua frente.

"Sabe… isso aqui é legal mesmo," murmurou enfim.

Kai soltou o ar, sentando e apoiando os braços nos joelhos. "Você queria algo inesquecível… isso serve?"

Asuka sentou ao lado dele, os braços esticados atrás da cabeça. "É… acho que sim."

Por um tempo, nenhum dos dois falou. Só o vento soprando, o som distante das cachoeiras abaixo e o céu aberto acima. Tranquilo. Diferente de tudo que costumavam sentir em Tokyo-3.

Então, Asuka cutucou seu braço. "Mas nem pense que isso significa que você me impressionou pra sempre, Kai." A voz era provocativa, mas mais suave que antes. "Você ainda tem que levar a gente de volta antes da Misato matar a gente, então nada de relaxar agora."

Kai sorriu, enfiando a mão no bolso. Sentiu a pequena caixa, fria sob seus dedos.

"Antes da gente descer… quero que fique com isso. Pra garantir que não vai esquecer."

Ele estendeu a caixa.

Asuka piscou, pega de surpresa. "Hã?" Olhou para a caixa com desconfiança. "Isso é alguma pegadinha? Se pular um sapo disso aí, eu juro—"

Mas havia curiosidade em sua expressão ao pegar a caixa. Lentamente, ela levantou a tampa.

A luz do sol refletiu no colar de prata ali dentro, seu delicado pingente em forma de estrela brilhando suavemente sobre o veludo.

Pela primeira vez, Asuka ficou sem palavras.

Ela encarou o colar, os dedos pairando sobre ele como se não soubesse o que fazer. "Você…" Engoliu seco, lançando um olhar para ele, sua típica valentia vacilando. "Você comprou isso pra mim de verdade?"

Sua voz estava mais baixa que o normal. Sincera.

Kai assentiu. "Sim. Eu tava guardando há um tempo. Você… gostou?"

O olhar de Asuka permaneceu no colar por mais alguns segundos antes de pegá-lo com cuidado. Ela hesitou, passando o polegar sobre a estrela antes de murmurar, "Tsc. Não é feio."

Mas não havia sarcasmo, nem zombaria. Apenas algo não dito em seu tom.

Então, como se lutando para dizer, ela completou: "Quero dizer… é. Eu gostei."

Ela virou a caixa para ele, empurrando de volta em suas mãos. "E aí? Vai ficar sentado aí ou vai me ajudar a colocar?"

Um leve rubor subiu até suas orelhas enquanto ela levantava o cabelo.

Os dedos de Kai se moveram com cuidado. Não era só sobre o colar—era sobre o jeito como ela confiava nele naquele momento, mesmo que nunca fosse admitir. E isso significava tudo.

Ele fechou o colar ao redor de seu pescoço. "Pronto. Vira, deixa eu ver."

Ela virou, os dedos passando instintivamente sobre o pingente. "E aí? Como ficou?"

Kai sorriu. "Uau… ficou perfeito. Eu sabia que era perfeito pra você."

Asuka bufou de leve, mas seu sorriso era mais suave dessa vez. Desviou o olhar, brincando com o pingente.

Então, quase baixo demais para ouvir—

"Valeu, Kai."

Kai sorriu, olhando para Asuka enquanto o vento brincava com seu cabelo, o pingente em forma de estrela refletindo a luz do sol. Ainda podia sentir o calor das mãos dela de instantes atrás.

"Então… consegui superar nosso último encontro ou não?"

Asuka inclinou a cabeça, fingindo pensar, os dedos ainda passando levemente pelo colar. Então, ela sorriu. "Hmmm… foi legal, eu acho." Lançou-lhe um olhar provocativo. "Talvez um pouco melhor que o da outra vez. Mas sei lá… você colocou a barra lá no alto, Kai. Pode ter tornado impossível superar esse."

Ela se inclinou um pouco, os olhos brilhando com desafio. "Acha que consegue fazer melhor ainda da próxima vez?"

Kai riu. "Ai, meu Deus… por que eu continuo fazendo isso comigo mesmo?"

Ele se recostou, admirando a paisagem, sentindo a brisa fria contra a pele.

E então—

Um som.

Profundo. Distante. Pesado.

Nada natural.

Seu sorriso desapareceu. "Ah não… será que vai chover?"

Capítulo 65: Trajetória de Retorno / O Céu Cai Novamente

Ele voltou o olhar para o horizonte, estreitando os olhos, tentando entender o que estava ouvindo.

Outro som. Distante, mas forte.

O sorriso de Asuka vacilou. "Você ouviu isso também?"

Não era trovão. Nem vento. Era outra coisa — algo em movimento. Algo gigantesco.

Kai focou na cidade distante. Estava longe, mas seus olhos captaram movimento — algo colossal se aproximando de Tokyo-3. E dentro da cidade, duas figuras humanoides muito menores já estavam em ação. Era distante, mas ele conseguia dizer. Uma delas, inconfundivelmente, era a Unidade-01. A outra... a Unidade-00.

Seu estômago se revirou. "É o que eu estou pensando?"

Asuka seguiu seu olhar, e ao ver, seus punhos se fecharam. "Tsc. Um Anjo. Claro. Justo na única vez em que conseguimos fugir de toda essa merda, isso acontece." Ela se virou para ele, os olhos queimando de frustração. "Precisamos voltar. Agora."

Sua voz era firme, autoritária — mas por baixo havia algo mais. Um lampejo de algo não dito. Preocupação? Medo? Culpa? Ou talvez apenas a sensação de que haviam cometido um grande erro.

Kai hesitou por apenas um segundo. Queria dizer algo — queria segurar aquele momento com ela só um pouco mais. Olhou em seus olhos.

O olhar que ela lhe deu — era raro. Aberto. Silencioso. E ele desejou que o tempo parasse, só por mais um segundo.

Mas o rugido distante do Anjo roubou qualquer chance disso.

Asuka se afastou. "Sem tempo pra isso agora, Kai. Vamos."

Eles desceram o caminho rochoso o mais rápido que podiam sem rolar montanha abaixo. A escapada perfeita agora parecia uma corrida contra o tempo. Quando chegaram até suas coisas, o som distante de sirenes ecoava fracamente pelo vale. A batalha já havia começado.

Asuka vestiu suas roupas por cima do biquíni, as mãos se movendo apressadas. "Vamos ter que dirigir feito loucos se quisermos chegar a tempo."

Kai pegou o celular. Sem sinal.

"Eles vão ficar uma fera..." murmurou, checando de novo em vão. "Espero que o Shinji e a Rei consigam segurar as pontas até a gente chegar."

Asuka resmungou, vendo que seu celular também não tinha sinal. "Droga. Estamos completamente isolados." Cerrou os punhos, os olhos fixos na linha do horizonte. A batalha já não era apenas um ruído distante — era real, e eles estavam longe demais.

"Tsc. Se eu estivesse lá, essa luta já teria acabado." Pegou sua mochila e olhou para ele. "Precisamos ir. AGORA."

Correram até o carro da Misato, jogando as mochilas no banco de trás enquanto Kai se jogava no banco do motorista. Suas roupas ainda estavam úmidas, as mãos apertando o volante com força.

"Desculpa, Asuka. A culpa foi minha."

A mão de Asuka apertou o apoio da porta. "Tch! Não começa com essa baboseira agora, Kai!" Sua frustração cortava a tensão, mas havia urgência por trás. Preocupação. "Só dirige!"

E ele dirigiu.

O carro da Misato rugiu ao ligar, os pneus levantando poeira enquanto Kai acelerava, forçando o veículo mais do que ele jamais fora feito pra aguentar. As curvas da estrada montanhosa passavam voando, cada segundo parecia uma eternidade perdida.

Quanto mais se aproximavam de Tokyo-3, mais o ambiente mudava. O céu parecia mais pesado. O chão parecia vibrar. E então, finalmente —

Bzzt.

O celular de Kai vibrou.

Finalmente —

Sinal. Restaurado.

Uma enxurrada de mensagens e chamadas perdidas surgiu na tela. Misato, Shinji, até Ritsuko. Urgentes. Desesperadas.

Asuka abriu o celular, pegando uma das mensagens mais recentes de Misato:

"ONDE DIABOS VOCÊS ESTÃO?! VOLTEM PRA NERV, AGORA!!!"

Um segundo de silêncio.

Asuka soltou o ar com força, apertando o cinto de segurança. "A gente tá tão ferrado."

Ele não discordou.

Apenas pisou fundo no acelerador.

Tokyo-3 os esperava. E a batalha também.

Capítulo 66: Zona de Colapso / Sem Tempo a Perder

O carro era um borrão, rasgando o trecho final da estrada enquanto Tokyo-3 surgia à frente. As mãos de Kai apertavam o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, forçando o motor ao seu limite absoluto. O momento com Asuka — a fuga pacífica, o pingente prateado refletindo o sol — ainda estava fresco em sua mente. Mas já começava a escorregar, afogado pelas sirenes ensurdecedoras à distância.

A respiração de Kai estava pesada, seus pensamentos correndo mais rápido que o carro. Eu prometi que estaria lá por ele. E agora não estou.

"É melhor responder a mensagem dela!" ele disparou, a voz tensa de frustração. "Diz que vamos chegar em uns vinte minutos."

Asuka pegou o celular, digitando rápido enquanto os pneus guinchavam numa curva fechada. "Tô nisso. Só tenta não matar a gente antes de chegar."

Ela apertou “enviar”, lançando um olhar tenso para ele. "Pronto. Agora pisa fundo. É melhor a gente não perder toda a ação."

Mas Kai não estava pensando na batalha. Ele estava pensando em Shinji. Em Rei. Na promessa que fizera — de estar lá por Shinji se ele precisasse. E agora, ali estava ele, ainda fora da cidade, enquanto o amigo lutava sozinho.

Ele cerrou o maxilar, o pé pressionando com mais força o acelerador. "Não se preocupa, tá? A gente vai chegar a tempo. Como eu odeio essas malditas coisas."

A expressão de Asuka endureceu. "É, entra na fila. Eles sempre aparecem na pior hora possível."

Pela primeira vez, ela não devolveu com uma piada sarcástica. Em vez disso, soltou um suspiro tenso. "O Shinji vai aguentar até a gente chegar. Ele sempre aguenta. E quando a gente chegar, vamos despedaçar aquela coisa."

Ela cerrou os punhos. "Não vou deixar um Anjo acabar com o meu dia."

O celular de Asuka vibrou com força. Ele olhou para a tela.

Misato.

"Apenas cheguem, AGORA. Shinji e Rei estão em combate. Eles precisam de reforço."

Asuka leu a mensagem. "Merda… precisamos ser mais rápidos."

As luzes de emergência da cidade piscavam à distância. O campo de batalha estava cada vez mais perto.


A primeira coisa que viram ao entrar em Tokyo-3 foram dois chicotes de energia cortando arranha-céus. Detritos e pedaços de prédios choviam pelas ruas, forçando Kai a desviar e empurrar o carro ao limite.

"MERDA!" Kai gritou entre os dentes, os olhos cravados na zona de combate à frente.

A imagem era aterrorizante. Shinji, arremessado contra um prédio, imóvel. O Anjo se aproximava, sua forma grotesca e insetoide pronta para atacar de novo.

O Anjo — de aparência cefalópode, com dois apêndices bioluminescentes cor-de-rosa em forma de chicote de energia — avançava sobre a Unidade-01. Shinji acabara de se levantar, movendo-se devagar demais. O Anjo já preparava outro ataque. Os chicotes de energia se projetaram na direção dele.

Então — um borrão azul.

Rei.

A Unidade-00 colidiu com a Unidade-01, empurrando-a para fora do caminho a tempo. Os chicotes, destinados a Shinji, atingiram Rei em cheio, envolvendo-se e esmagando sua armadura, derretendo-a.

Uma explosão sacudiu o campo de batalha. O Eva-00 foi lançado para trás, a armadura soltando fumaça.

Os olhos de Kai se arregalaram. "Merda — REI!"

O painel do carro tremeu — chamada chegando. Asuka atendeu sem hesitar. "MISATO!"

A voz de Misato explodiu pelo viva-voz. "ONDE DIABOS VOCÊS ESTÃO?! Corram pra base AGORA! O inimigo está mudando o padrão de ataque — não podemos esperar!!"

Asuka apertou o celular com força. "Estamos quase chegando! Só mantenham eles vivos até a gente entrar nos nossos Evas!!"

"Sem desculpas — pisem fundo!" Misato rosnou antes de desligar.


A última curva — o túnel de acesso subterrâneo da NERV estava logo à frente.

Kai puxou o volante, lançando o carro em uma curva apertada, desviando por pouco de um caminhão destruído deixado no Evacuação. Os pneus guincharam enquanto o veículo mergulhava no túnel em alta velocidade.

Asuka já soltava o cinto, pronta para saltar assim que parassem. "Se prepara, Kai — vamos nos conectar aos Evas assim que botar o pé lá dentro!"

Os olhos de Kai permaneciam fixos na estrada à frente. A adrenalina corria em suas veias, mas algo mais profundo roía por dentro — culpa. Ele tinha baixado a guarda. Achou que, por um dia, podia ser feliz com Asuka.

Tinha sido egoísta.

A imagem de Shinji sendo lançado pela cidade queimava em sua mente. Ele havia prometido. E estava longe, brincando de herói nas montanhas, atrás de algo que nunca deveria ter colocado em primeiro lugar.

"Asuka… vamos fazer isso juntos, tá?" Sua voz era firme, carregada de peso. Ele apertou ainda mais o volante. "Você viu o que aquilo fez com o Shinji e a Rei. A gente vai junto. Luta junto. Sem heroísmo."

Asuka olhou para ele. Pela primeira vez, não havia um sorriso debochado, nem arrogância. Parecia analisá-lo, tentando medir o quanto ele estava falando sério.

"Juntos," ela disse, revirando os olhos. "Vamos acabar com aquela coisa. Sem vacilos."

Os portões da base se abriram à frente, os seguranças mal registrando a aproximação antes que eles atravessassem em disparada. Os pneus guincharam quando Kai fez o carro parar bruscamente no hangar de emergência.

Asuka não perdeu um segundo. Abriu a porta com força e disparou em direção aos elevadores. "Anda, lesma! Vamos salvar aqueles idiotas gostem ou não!"

Kai vinha logo atrás, o coração martelando como um tambor de guerra.

O interfone ganhou vida assim que entraram. A voz de Maya, carregada de urgência, ecoou pelos corredores. "A Unidade-01 caiu novamente! Shinji não responde! Temos sinais de emergência do Eva-00, mas a Rei—"

A voz de Misato cortou o ruído. "Evangelions 02 e 04— PREPAREM PARA LANÇAMENTO IMEDIATO!"

Kai e Asuka entraram na sala de troca de roupa, arrancando as roupas e vestindo os plugsuits em tempo recorde. As sirenes ecoavam no ar. Toda a base tremia com a força de mais uma explosão ao longe.

Quando os últimos selos dos trajes se travaram, eles trocaram um último olhar.

Sem mais tempo.

Sem mais erros.

Eles correram para os plugs de entrada. O campo de batalha os esperava.

Hora de lutar. Juntos.

Capítulo 67: Impacto no Núcleo / O Que Quase Perdemos

O LCL pulsava ao redor de Kai enquanto o Eva-04 disparava pelos trilhos de lançamento. Seus dedos se fecharam com mais força nos controles, a adrenalina jorrando em suas veias. A voz de Ritsuko crepitou pelo comunicador.

"Kai, um aviso antes de atingir a superfície—os sistemas da parte inferior das pernas do Eva-04 ainda estão em restauração parcial. Os pés protéticos estão estáveis, mas a sensibilidade do feedback está elevada. Você pode sentir dor neural residual durante movimentos de alto impacto."

Kai respirou fundo. "Entendido. Não pode ser pior do que antes, certo?"

"Você diz isso agora," murmurou Ritsuko. "Apenas não deixe a adrenalina mascarar danos estruturais. Ainda precisamos dessa unidade funcional."

Assim que os restritores se soltaram, ele escaneou o campo de batalha.

Tokyo-3 era uma zona de guerra. Fumaça e fogo saíam das ruínas de prédios desmoronados, e ruas inteiras haviam sido abertas com precisão cirúrgica. E no centro de tudo—o Anjo.

Uma forma esguia e serpentina flutuava acima dos escombros, seu corpo lavanda brilhando sob o sol do fim de tarde. Sua silhueta simétrica ondulava com uma calma estranha. De cada lado de seu corpo se estendiam dois chicotes de energia brilhantes, balançando como fitas na água. Era antinatural, grotesco, e pior—estava vencendo.

À esquerda de Kai, o Eva-02 pousou com um impacto estrondoso, o solo rachando sob seu peso.

"Asuka, vamos nessa!" gritou Kai, apertando ainda mais os controles.

A voz dela estalou no comunicador, feroz e pronta. "Chega de brincadeira! Vamos acabar com essa coisa!"

Adiante, o Eva-00 jazia presa sob os escombros, sem se mover. o Eva-01 cambaleava ali perto, um dos braços mal levantado enquanto o chicote de energia do Anjo abria mais um sulco na armadura de seu peito. A respiração ofegante de Shinji chiava pelo comunicador.

A voz de Misato explodiu pelo rádio.

"Kai! Asuka! Ganhem tempo pra tirarmos o Eva-00 dali!"

O Anjo girou no ar, pairando com facilidade inquietante enquanto sua cabeça sem rosto se voltava para eles. Seus chicotes se acenderam—dois feixes cor-de-rosa estalaram no ar, ambos mirando direto em Kai.

Ele desviou por pouco. Um dos chicotes rasgou o asfalto a poucos centímetros do pé do Eva-04. O impacto enviou uma onda de dor crua e ardente pelas pernas de Kai.

Ele cerrou os dentes, soltando um silvo. O feedback dos nervos danificados disparou, exatamente como Ritsuko havia avisado.

"Nem pensar em recuar agora," murmurou Kai para si mesmo. "Eu consigo."

Mesmo que doa. Mesmo que eu tenha que me arrastar. Não vou ficar parado olhando.

Ele não hesitou. Correu, disparando seu fuzil contra a monstruosidade, tentando chamar sua atenção e afastá-la de Shinji e Rei. Os disparos ricochetearam no Câmpus A.T. cintilante do Anjo em faíscas inúteis. "Misato! Conta tudo sobre essa coisa! O que sabemos?!"

"Designação: Shamshel," respondeu Misato rapidamente. "Usa tentáculos de energia que cortam e queimam tudo. Combate corpo a corpo é perigoso, mas armas de fogo não funcionam sem neutralizar o Campo A.T.!"

Outro movimento rápido—ambos os chicotes convergiram sobre Kai. Não sobre Asuka. Não sobre Shinji. Nem sobre Rei. Kai se abaixou, e a dor voltou com força quando os pés do Eva-04 tocaram o solo com uma intensidade que os protéticos não conseguiam absorver totalmente. Uma careta distorceu seu rosto—mas seus olhos fixaram-se em Shamshel.

"Asuka!" gritou Kai ao desviar de um golpe, o chicote do Anjo esmagando o asfalto onde ele estava um segundo antes.

"Tô dentro!" veio a resposta, enquanto o Eva-02 saltava sobre um ônibus destruído. Sua faca progressiva brilhava na luz enquanto ela se lançava, cortando a base do apêndice de Shamshel. O golpe acertou—mas em vez de sangue, uma explosão de luz e plasma surgiu, e o chicote recuou, reformando-se rapidamente.

"Mas que merda?!" rosnou Asuka. "Essa coisa se regenerou!"

A voz de Ritsuko entrou, afiada e clínica. "Seu corpo é fortemente blindado e os tentáculos se regeneram. Mas o núcleo está exposto—logo atrás da estrutura óssea no centro do corpo principal! Vocês precisam chegar perto!"

Kai semicerrrou os olhos—ali estava. Fraco, mas brilhando. Um orbe carmesim meio enterrado no torso do Anjo.

"Asuka, flanqueia e abre caminho," ordenou Misato. "Kai, finalize com um golpe direto no núcleo. Sem erros."

Kai sorriu, empunhando sua faca progressiva. "Agora sim! Asuka, abre essas costelas pra mim."

Asuka deu um sorriso torto. "Tsc. Tenta me acompanhar, novato."

O Eva-02 desviou com agilidade, mesmo entre os escombros. Kai respirou fundo—e então correu direto na direção do Anjo.

Shamshel se elevou, sentindo a aproximação. Seus chicotes se estenderam em arcos selvagens, abrindo sulcos profundos no solo. Kai desviou de um, depois de outro, mal conseguindo manter o Eva-04 de pé.

"Agora!" ordenou Misato.

Com um grito feroz, Asuka saltou por trás, cravando os braços do Eva-02 fundo na carapaça de Shamshel. Com força bruta e pura teimosia, ela puxou—abrindo a camada externa, o núcleo reluzindo como uma ferida, exposto e vulnerável.

O Anjo gritou—um uivo harmônico e antinatural. Os chicotes se debatiam, um deles cortando um prédio ao meio.

Kai não parou. Movido pela dor. Movido pela raiva. Levantou a faca progressiva bem alto. Sua voz rugiu pelo comunicador.

"TOMA ESSA, SEU MERDAA—!!!"

A lâmina do Eva-04 mergulhou no núcleo.

Uma onda de resistência o atingiu—energia densa e crepitante—mas ele forçou, empurrando a lâmina ainda mais fundo. Trincas se espalharam pela superfície do orbe, pulsando mais intensamente a cada segundo.

O Anjo estremeceu, seus braços chicoteando e depois falhando, seu corpo convulsionando no ar. "Isso!" gritou Asuka. "Gira a faca, Kai! Acaba com ele!"

Com um último grito de força, Kai cravou a lâmina até o cabo e torceu. O núcleo se despedaçou, detonando numa onda de energia brilhante que lançou o Eva-04 para trás, contra os escombros.

Uma onda de choque varreu o campo de batalha.

E então—silêncio.

A voz de Misato, agora carregada de alívio, finalmente rompeu o silêncio. "Anjo neutralizado... Bom trabalho, vocês dois."

Asuka resmungou, seu Eva ereto ao lado do dele. "Tsc. Você teve sorte com aquele golpe, mas caramba, foi satisfatório."

Uma voz fraca crepitou no comunicador. "Vocês... conseguiram..."

Shinji.

Kai mal o ouviu, seu corpo ainda vibrando com o pós-choque da batalha. Mas então seu foco voltou de imediato.

"Shinji! Rei!" ele chamou, virando o Eva-04 na direção deles.

O Eva-01 estava tombado contra um prédio em ruínas, sua armadura roxa chamuscada e danificada. Seu plug de entrada acabara de ser ejetado. O Eva-00 de Rei jazia estático, parcialmente soterrado em detritos.

A voz de Shinji, fraca mas audível, surgiu. "Eu... eu tô bem... acho... Rei?..."

A voz de Misato estalou de volta. "Os sinais vitais da Rei estão estáveis. O plug dela está intacto, mas não estamos recebendo resposta."

O Eva-00 se mexeu levemente, mas não foi além disso.

Asuka, já conduzindo o Eva-02 até Rei, franziu a testa. "Droga, o sistema de liberação dela está travado! O Anjo deve ter danificado algo."

Kai não hesitou. Correu com o Eva-04 até o lado de Asuka, sacando sua faca progressiva. "Desculpa, Rei. Sei que vai doer."

Com um golpe firme, sua lâmina rasgou a blindagem ao redor do plug, faíscas voando enquanto o metal cedia. Asuka se juntou a ele, usando a força bruta do Eva-02 para arrancar a escotilha.

Um estalo alto—a blindagem cedeu.

O plug de entrada foi ejetado com força, rolando pelo campo de batalha. Por um longo momento, nada aconteceu.

Então Kai olhou para o chão e viu movimento: Shinji estava lá embaixo, correndo em direção ao plug da Rei.

Do alto, Kai assistiu enquanto Shinji tropeçava até o plug, escalando com as mãos nuas pela lateral. Suas mãos arranhavam o metal chamuscado. Ele tremia, mas de um jeito diferente. Com uma determinação que Kai nunca tinha visto nele antes. Alcançou a escotilha—sem energia, sem assistência remota. Shinji firmou o corpo, e com um grito cru e desesperado, começou a forçar a abertura com as próprias mãos, queimando em carne viva. Ignorava a dor. O aço gemeu sob o esforço.

Finalmente—a escotilha se abriu com um estalo.

Kai não viu o que aconteceu em seguida. Apenas a luz vermelha de emergência e o LCL fluindo para fora.

Um minuto passou. Dois. Pareciam uma eternidade.

Então, Shinji saiu do plug, segurando Rei pelos braços.

Kai não conseguia ouvir se diziam algo, mas havia algo na maneira como estavam ali, só os dois, que dizia mais que qualquer palavra.

A cabeça de Rei repousava levemente no ombro de Shinji, seu corpo mole de exaustão. Shinji não a soltou.

Ele não tremia mais.

A fumaça girava ao redor deles. Os destroços rangiam. Em algum lugar distante, o fogo estalava. Mas ali embaixo, naquele círculo silencioso no meio do caos, era como se o tempo tivesse parado.

Kai observava, incapaz de desviar o olhar.

Ele não sabia o que aconteceu entre eles naquele plug. Não ouviu as palavras, não viu o momento—fosse o que fosse. Mas sentiu. Algo aconteceu ali. Algo importante.

Ele viu na maneira como Shinji a segurava—não como quem venceu uma batalha, mas como quem quase perdeu algo que não sabia que importava até quase ser tarde demais.

E ele entendia exatamente esse sentimento.

Kai olhou para Asuka no monitor. Ela encontrou seu olhar, e pela primeira vez, não houve palavras—apenas alívio silencioso.

A voz de Misato enfim voltou, mais suave agora. "Certo, vocês dois. Voltem para o debriefing. Vocês mandaram bem."

O comando foi registrado, mas as mãos de Kai continuavam congeladas nos controles. Ele olhava a devastação abaixo—os incêndios, as ruínas, as figuras quietas de Shinji e Rei de pé no meio dos escombros. Quase os perderam. Quase perderam tudo. E onde ele estava quando a luta começou? Nadando em cachoeiras, rindo, com a mente a quilômetros de distância, perdido em um dia perfeito. A culpa o atingiu com a força de um golpe de Anjo, fria e pesada no estômago.

Ele olhou para o monitor com o feed de Asuka. Ela estava em silêncio, seu sorriso triunfante ausente. O olhar fixo na cena abaixo, com uma expressão de alívio misturada com outra coisa... algo que se parecia muito com a mesma culpa que ele sentia.

Ele precisava dizer algo. Qualquer coisa para romper o peso repentino e esmagador de tudo aquilo.

"Bem..." começou, a voz saindo como um pigarro desajeitado. Ele limpou a garganta e tentou de novo, forçando um sorriso que não sentia. "Pelo menos... foi inesquecível, né?"

A cabeça de Asuka virou imediatamente para o monitor, os olhos se estreitando enquanto o encarava. "Você é idiota?" ela disparou, com a voz afiada como de costume. "Olha em volta. O Shinji e a Rei quase morreram porque não estávamos aqui. Lê o clima por um segundo, seu imbecil!"

O canal se fechou, deixando-o no silêncio repentino da cabine.

Capítulo 68: Pós-missão / O Preço da Paz

No momento em que os plugs de entrada foram ejetados, a realidade os atingiu. As luzes de emergência piscando, as sirenes distantes das equipes de resgate trabalhando nos Evas-01 e 00, a tensão silenciosa no ar.

Kai manteve a cabeça baixa ao sair do plug, o peso do que estava por vir afundando sobre ele. A adrenalina da batalha se fora. A euforia da vitória, o alívio de ter salvado Shinji e Rei—tudo desapareceu diante do que os esperava agora.

Ele pegou o carro dela.

Eles ficaram completamente fora de alcance enquanto um Anjo atacava.

Saíram da cidade, abandonaram seus postos, sem qualquer aviso.

Asuka saiu do plug ali perto. Sua voz, agora sem o fogo de batalha, estava baixa e firme. "Nem começa com esse papo de se sacrificar, Kai. Eu consigo ouvir você se afundando aí dentro."

Ele não respondeu. A mente girava, imaginando qual punição os aguardava. Talvez nunca mais me deixem pilotar. Talvez seja o fim.

"Me escuta," ela insistiu, o tom suavizando apenas o bastante para ele notar. "Se você acha que vou deixar te chutarem fora por causa disso, é mais burro do que eu pensava. Salvamos a pele deles hoje. Salvamos o Shinji e a Rei. É isso que importa." Ela fez uma pausa e, quando falou de novo, sua voz era quase um sussurro. "Ei... eu me diverti hoje. Não vou deixar tirarem isso da gente."

O comunicador chiou, cortando seus pensamentos.

"Chega de papo, vocês dois. Relatem-se para o debriefing. E Kai?"

Uma pausa. Uma pausa pesada.

"Precisamos conversar."

Kai engoliu em seco. Isso era péssimo. E o tom de Misato confirmava. Ele sabia que seria enviado de volta ao Brasil por causa disso. Ou pior.

Asuka o olhou de lado, pressionando os lábios. "Vish. Isso vai ser divertido."


Misato os esperava fora da doca, braços cruzados, o pé batendo com impaciência.

Asuka murmurou: "Ih. Esquece o que eu disse. Você tá ferrado." Depois de um segundo, acrescentou: "Quer dizer, nós estamos ferrados."

Misato não disse nada. Apenas os encarou.

Então, finalmente—

"Andem. Agora."

Asuka cutucou o braço de Kai. "Você primeiro, herói."

Kai gemeu. "Ei! E aquele papo de `nós'?"

Asuka deu um sorriso torto. "Tsc. `Nós' tipo `vou estar ali para vou assistir você levar bronca'."

Apesar de tudo, Kai quase riu. Quase. Mas a realidade o manteve sério enquanto alcançavam Misato.

Ela soltou o ar devagar—deliberadamente—antes de finalmente falar. "Vocês têm ideia do tamanho da encrenca em que estão?"

Asuka murmurou: "Uma vaga ideia..."

O olhar de Misato se intensificou na hora. "Chaves do carro. Agora."

Asuka se inclinou levemente, sussurrando: "Foi bom te conhecer, Kai."

Kai entregou as chaves tentando não rir de Asuka. "Para. Você vai me matar."

Os olhos de Misato se estreitaram. "O que disse?"

Asuka se endireitou na hora. "Nada, senhora."

Misato suspirou, esfregando as têmporas. "Kai. Você primeiro. Tem algo a dizer antes que eu decida se vou te jogar fora do Geofront com as próprias mãos?"

Kai respirou fundo. "Em minha defesa, não era pra você ficar sabendo de nada. E não teria sabido, se não fosse pelo Anjo."

O olho de Misato estremeceu. "Ótimo. Sua defesa é que você planejou cometer furto qualificado e esperava que eu fosse distraída o suficiente pra não perceber?"

"Claro que não!" retrucou Kai, rápido demais. "O Shinji me disse que você estaria fora o dia inteiro representando a NERV numa demonstração da ONU de um novo sistema automatizado de armas. Como você parecia tão investida em tornar os Evas obsoletos, achei que não ia precisar do carro hoje."

A expressão de Misato passou da raiva para uma fúria incrédula. "Investida? Eu estava lá pra falar contra aquela catástrofe ambulante, seu idiota! Todo aquele programa era um desastre esperando pra acontecer." Ela soltou uma risada curta e sem humor. "Felizmente, graças ao Shamshel redecorando a cidade, a ONU adiou indefinidamente o projeto inteiro. Então acho que você não precisa mais se preocupar em ser substituído por uma máquina que pelo menos segue ordens." Ela se inclinou, a voz baixa e ameaçadora. "Por que eu tô explicando isso pra VOCÊ?"

Kai não tinha resposta.

Misato cruzou os braços. "Kai. Você roubou meu carro. Saiu da cidade. E ficou completamente fora de alcance enquanto um Anjo atacava. Tem ideia da gravidade disso?"

Asuka se sentou ereta de repente, claramente ciente de que era tão culpada quanto. Ela pigarreou. "Em nossa defesa—"

O olhar de Misato cortou até ela. "Nada disso. Você estava junto. Está no mesmo buraco."

Asuka bufou, mas não discutiu.

Misato se inclinou, a voz agora muito mais perigosa. "Antes de decidir a punição, uma pergunta. Onde exatamente vocês estavam?"

Os olhos se estreitaram. "E por que as roupas de vocês cheiram a água de rio?"

Kai trocou um olhar com Asuka. Depois, expirou devagar. Sabia que Misato os puniria, mas o que realmente temia eram os superiores—principalmente Gendo Ikari. Se ele descobrisse...

Kai engoliu em seco e murmurou: "Bem... eu peguei sua chave emprestada... e levei a Asuka pra..."

Baixou a voz. "Cachoeiras de Kawazu..."

Silêncio.

Misato apenas encarou. Depois, muito lentamente, apertou a ponte do nariz e suspirou.

"Você—" Ela soltou o ar bruscamente, balançando a cabeça. "Cachoeiras... de Kawazu? Você levou meu carro até a Península de Izu? DURANTE UM ESTADO DE EMERGÊNCIA?!"

Kai fez uma careta. "Tecnicamente, a emergência ainda não tinha começado—"

Misato gemeu. "Vocês são inacreditáveis."

Ela andou de um lado para o outro por um instante, resmungando, e então se virou para eles com expressão firme.

"Certo. Vocês estão de castigo. Um mês."

Os olhos de Asuka se arregalaram. "O quê?!"

"Sem fliperama. Sem karaokê. Sem encontros. Vocês vão pra escola, pra NERV e pra casa. E só."

Kai assentiu, aliviado. "Isso... é justo."

Misato se inclinou de novo, a voz sombria. "Mas essa é só a punição da Misato. Se o Comandante Ikari decidir que quer falar com vocês sobre isso? Vocês estão por conta própria."

Asuka se enrijeceu um pouco. Até ela sabia que Gendo Ikari não era alguém com quem se quisesse arrumar briga.

Misato suspirou, exausta. "Sumam da minha frente. Os dois. Antes que eu transforme isso em dois meses."

Kai abaixou a cabeça, recuando devagar. "Sim, senhora. Desculpa, senhora."

E então, em voz baixa, murmurou: "Mas a gente destruiu aquela coisa..."

A cabeça de Misato virou na hora. "O que foi que disse?!"

Asuka quase não conteve o riso ao puxar o braço de Kai e arrastá-lo pra fora da sala.

Assim que a porta se fechou atrás deles, ela explodiu numa gargalhada.

"Kai, seu completo idiota! Não acredito que você disse aquilo!"

Kai riu, balançando a cabeça. "Não consegui evitar."

Ela deu uma cotovelada de leve nele, ainda sorrindo. "Um mês de castigo, hein? Nada mal. Podia ter sido pior."

Kai se encostou na parede do corredor, ainda sorrindo com a reação dela. "Com certeza! Um mês? Qual é, aposto que a Misato já fez pior que a gente quando era mais nova."

Asuka sorriu. "Tsc. Provavelmente. Mas não quer dizer que ela vai pegar leve com a gente."

O sorriso de Kai vacilou um pouco. "O que me preocupava de verdade eram os superiores... tipo o Gendo. Seria uma péssima maneira de me apresentar. Depois disso, fiquei com medo de que ele questionasse minha posição como piloto. Sou o novato, afinal... Vai saber se ele não tem uma fila de substitutos esperando."

Asuka revirou os olhos. "Ah, por favor. Se o Gendo quisesse te substituir, já teria feito isso. Aquele cara não é de dar segundas chances."

Ela se encostou na parede ao lado dele, inclinando levemente a cabeça. "E convenhamos, você acha que é o primeiro piloto de Eva a sumir por algumas horas? A NERV é uma zona metade do tempo. Se bobear, estão é agradecendo por você ter voltado a tempo de lutar."

Ela deu um leve empurrão nele com o ombro. "E sejamos realistas, eles não têm exatamente um exército de pilotos na reserva."

Seu sorriso se alargou. "Então para com essa neura. Você está preso com a gente, Kai. Querendo ou não."

Kai não conteve o sorriso. "Olha só você! Toda reconfortante! Deve ter gostado mesmo do encontro!"

Asuka imediatamente fechou a cara, o rosto ficando levemente corado. "Tch! Não se ache!" Cruzou os braços e desviou o olhar, mas ele percebeu que ela tentava esconder um sorriso.

Depois de um instante, ela jogou o cabelo por cima do ombro e o olhou de lado. "Não que eu esteja dizendo que você manda bem nisso ou algo assim, mas... acho que não estaria totalmente contra outro encontro. Algum dia. Talvez."

Então, o sorriso voltou. "Assumindo que não envolva sair da cidade de novo, seu idiota."

Kai riu. "É... um mês de castigo. Tempo de sobra pra planejar o próximo."

Asuka riu pelo nariz. "Hah! Melhor usar esse tempo com sabedoria. Da próxima vez, espero nada menos que perfeição." Ela o cutucou. "E talvez... menos roubo de carro."

Esticando os braços, ela parecia razoavelmente satisfeita consigo mesma. "Aliás, conhecendo você, aposto que vai passar o mês inteiro se gabando de como esse foi `incrível'."

Com um olhar travesso, acrescentou: "Mas não se preocupe—vou fazer questão de te lembrar quem foi que realmente tornou ele inesquecível."

Kai riu, mas seus pensamentos foram para outro lugar. Shinji e Rei. Eles realmente se machucaram hoje.

"Sabe... a gente devia ir ver como o Shinji e a Rei estão. Se não fossem eles, a coisa teria sido bem diferente."

O sorriso de Asuka sumiu um pouco, e ela cruzou os braços, desviando o olhar. "Tsc. É... acho que você tem razão." Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos. "O Shinji provavelmente precisa de alguém pra tirar ele daquela espiral autodestrutiva de sempre."

Ela olhou para Kai, depois deu de ombros. "E a Rei... duvido que ela se importe, mas tanto faz. Ela se ferrou também. Melhor ver o estrago."

Com isso, começaram a caminhar em direção ao ambulatório. "Vamos antes que a Misato arrume outro jeito de torturar a gente."

Mesmo tentando parecer indiferente, Kai sabia que ela se importava—só não queria admitir.


Quando chegaram ao ambulatório, o ar estava pesado. Shinji estava deitado em um dos quartos, ligado a monitores, olhando fixamente para o teto. Do outro lado, Rei permanecia tão imóvel quanto sempre, como se descansar fosse apenas mais uma função programada.

Asuka espiou primeiro o Shinji, os braços cruzados. "E aí, Terceira Criança! Já morreu?" A voz era cortante, mas Kai sabia que ela estava checando se ele estava bem, do jeito dela.

Shinji piscou, virando a cabeça na direção deles, a expressão indecifravél. "Estou bem..."

Asuka revirou os olhos. "Não parece." Olhou para Kai como se o desafiasse a dizer algo antes que ela piorasse as coisas.

Kai deu um passo à frente. "Ei, cara. A gente ficou realmente preocupado. E queríamos pedir desculpas por não estarmos lá."

Ele lançou um olhar para Asuka. "Não é, Asuka?"

Asuka bufou, cruzando os braços, mas após um momento, suspirou. "Tsc. É, é… Deveríamos ter chegado antes." Ela desviou o olhar rapidamente. "Obviamente você precisava desesperadamente da nossa ajuda."

Shinji piscou, surpreso com a sinceridade—especialmente vinda de Asuka. Mexeu-se levemente, sua voz ainda baixa. "Tudo bem… Vocês chegaram a tempo. É isso que importa."

Ele olhou para Kai. "E vocês venceram. Isso é o mais importante, certo?"

Kai soltou o ar. "É, a gente acabou com a raça aquela coisa, mas isso não é tudo que importa. A gente deixou vocês sozinhos lá fora por muito tempo, e eu prometi que não faria isso. Não foi minha melhor decisão. Desculpa."

Shinji balançou levemente a cabeça. "Você não precisa se desculpar. Não é como se soubessem que um Anjo ia atacar." A voz era calma, mas havia algo na forma como ele disse aquilo que doía.

"Além disso," ele acrescentou, olhando para as mãos, "eu que congelei. Se a Rei não tivesse entrado na frente..."

Asuka bufou. "Ah, por favor. Como se fosse a primeira vez que você congela numa batalha. Supera isso, Terceira Criança."

Kai tentou aliviar o clima. "E obrigado por pegar as chaves, cara!"

Shinji suspirou, mas havia um traço de humor em sua voz. "É, é… Mas não me peça mais nada por um tempo."

Rei, na cama ao lado, silenciosa até então, finalmente falou. "Você… não foi impedido de pilotar, foi?"

Kai fez uma pausa, sua voz baixando um pouco. "...Não. Estranhamente, nenhuma punição dos chefões."

Ele olhou para baixo por um segundo antes de acrescentar, mais quieto, "Pra ser sincero… parece que só a Misato realmente se importou com o fato de a gente não estar lá."

Asuka inclinou a cabeça. "Huh. É verdade. Ninguém falou nada sobre tirar a gente do dever."

Shinji assentiu. "Acho que enquanto a gente for necessário… eles não podem se dar ao luxo de tirar pilotos da rotação."

Asuka bufou. "Tsc. Como se eu fosse deixar algum velho me dizer o que fazer."

Ao saírem da ala médica, ela virou-se para Kai. "E aí? Acha que aguenta um mês de `prisão domiciliar'?"

Kai suspirou. "Do jeito que tá, parece só vou te ver na escola e na NERV. Isso vai ser um saco."

Asuka bufou, de braços cruzados. "Tsc. O quê, já tá com saudade de mim? Você ficou mesmo grudado em mim como um cachorrinho perdido esses últimos dias."

Mas havia algo mais em sua expressão—algo que dizia que ela talvez concordasse.

"É, é, vai ser um saco," ela murmurou. "Mas tanto faz. Não é como se a Misato pudesse vigiar a gente todo segundo do dia." Ela deu um sorrisinho. "Vamos dar um jeito. Quer dizer, você obviamente vai precisar da minha ajuda pra sobreviver esse mês."

Kai se perguntou se ela tinha razão. A Misato certamente não poderia vigiá-los o tempo todo… Mas e a NERV?

Enquanto caminhavam, Asuka cutucou o braço de Kai. "E então, o que agora? A gente só vai pra casa feito duas crianças obedientes e cumpre nossa sentença de um mês?"

Kai olhou para ela, sua expressão mudando. "Eu tenho… algo em mente. Mas… se eu estiver certo… não é mais brincadeira de criança."

A diversão, as provocações, as cachoeiras iluminadas de verão—tudo aquilo parecia distante agora. O que ele começava a suspeitar não era apenas perigoso. Parecia… errado. Como se algo estivesse acontecendo por baixo de tudo.

Asuka ergueu uma sobrancelha, intrigada. "Oh? Agora você conseguiu minha atenção."

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Seu sorriso se alargou. "Muito bem, manda ver. O que exatamente você tá planejando, ó mestre do caos?"

Capítulo 69: Pós-luz / No Silêncio, Começamos

Asuka se inclinou levemente para frente, braços cruzados, desafiando Kai a impressioná-la.

"É melhor que isso valha a pena, Kai. A Misato não vai se contentar em só deixar a gente de castigo se formos pegos fazendo coisa pior."

O tom era provocador, mas o entusiasmo era inconfundível. Ela já estava comprometida, mesmo sem saber os detalhes.

Kai permaneceu em silêncio no início, enquanto continuavam a caminhar pelos corredores da NERV. Asuka lançou um olhar de lado para ele, com os braços agora cruzados atrás da cabeça.

"E aí? Não vai me deixar no vácuo, né?"

Kai esboçou um leve sorriso.

"Lá fora. Vamos esperar até sairmos daqui."

Asuka bufou, impaciente, mas acelerou o passo, claramente ansiosa para deixar a NERV para trás. Assim que pisaram lá fora, no entardecer que começava a sumir, ela se espreguiçou, olhando para ele com expectativa.

"Certo, senhor mistério," começou ela, com a voz carregada de uma ameaça brincalhona, "se isso for algum plano meloso de romance, eu te jogo de uma ponte."

Kai riu suavemente, ficando mais sério em seguida.

"Desculpa te decepcionar, mas não é romântico dessa vez. É sério, e talvez perigoso."

A expressão de Asuka ficou séria na hora.

"Perigoso?" Ela o observou de perto, a curiosidade e a preocupação se misturando. "Fala logo."

Ele baixou o tom da voz, cauteloso.

"Você não achou o dia de hoje... estranho?"

"Estranho?" Ela deu uma risadinha cética. "Você quer dizer, além de termos convenientemente perdido todos os alertas sobre um ataque de Anjo?" O olhar dela se estreitou. "Espera. Você acha que isso foi de propósito?"

Kai assentiu, sério.

"Exatamente. Pensa bem, a NERV rastreia tudo. Inclusive nossos celulares, talvez até o carro da Misato. Eles poderiam ter nos achado em minutos, mas não fizeram nada. A gente viu a batalha por pura sorte. É como se alguém quisesse a gente fora do caminho. Ou pior, quisesse o Shinji sozinho lá."

O rosto de Asuka se fechou, a raiva fervendo sob a superfície.

"Você tá dizendo que isso foi intencional? Que alguém lá de cima na NERV deixou o Shinji enfrentar aquele Anjo sozinho pra quebrar ele?"

"Talvez," murmurou Kai. "A Misato foi a única que sequer deu uma bronca na gente. Se quebramos o protocolo, não deveriam ter punido a gente de um jeito mais sério? Mas nada aconteceu. E tem aqueles testes que fizemos... não sei. Sempre fico com a sensação que somos só peões que não precisam saber de nada."

Ela soltou o ar com força.

"Você acha que o Gendo queria forçar o Shinji a perder o controle de novo, igual quando o Eva-01 ficou louco?"

Kai franziu a testa.

"Faz sentido. Talvez ele soubesse que o Shinji reagiria diferente com só a Rei por perto. Seja o que for, tem algo que a gente não tá vendo."

"Droga," sussurrou Asuka, a voz baixa. "Eu odeio ficar no escuro. Se o Gendo tá manipulando a gente, precisamos descobrir qual é o jogo antes de virarmos os próximos alvos."

"Exato," disse Kai, firme. "Não podemos deixar que controlem nossas vidas assim."

Asuka encontrou o olhar dele, a determinação clara em seu rosto.

"Então, qual é o plano?"

"Conversar com o Shinji e a Rei," respondeu Kai, com decisão. "Eles estão no centro disso tudo. Podem saber de algo que a gente não percebeu."

Asuka assentiu, pensativa.

"A Rei sempre age como se soubesse mais do que deixa transparecer. E o Shinji... ele geralmente tá perdido nos próprios pensamentos, mas se alguém tá sendo manipulado, é ele."

Kai concordou.

"Asuka... se a gente descobrir algo realmente... errado. E aí?"

Ela parou, a seriedade voltando aos olhos.

"Aí mostramos pra eles que não somos só peões."

Kai sorriu de leve, a determinação brilhando no olhar.

"Juntos?"

"Juntos," ela repetiu com firmeza.

Kai olhou para as luzes da cidade, a voz mais baixa, pensativa. "Ficar de castigo pode ajudar. Dá uma desculpa pra gente se manter discreto. Só vamos pra NERV e pra escola. Na escola, falamos com o Shinji e a Rei. Na NERV, investigamos quietos. Esse é o plano por agora."

Asuka assentiu, aprovando. "Agir como bons pilotinhos enquanto desvendamos a verdade. Nada mal." Ela parou diante da porta do seu apartamento, virando-se para ele com um sorriso desafiador. "Tá pronto pra isso, parceiro?"

Kai retribuiu o sorriso, confiante.

"Tô. Preciso de respostas. E, pra ser honesto, queria que o dia de hoje tivesse terminado diferente."

O sorriso dela suavizou um pouco. "É... eu também."

Ela virou-se para entrar no apartamento, mas olhou por cima do ombro com um sorriso maroto. "A gente compensa isso depois."

Kai riu baixinho enquanto ela desaparecia lá dentro. "Ai, Asuka..."

Caminhando de volta pra casa, o silêncio tomou conta. O cansaço bateu assim que entrou em casa. Tomou um banho rápido, pronto pra desabar na cama, mas antes mandou uma última mensagem:

"😘"

O celular vibrou segundos depois.

Asuka: "Nem começa a amolecer agora. 😏 Vai dormir, idiota."

E então, de surpresa, mais uma mensagem:

Asuka: "...Boa noite, Kai."

Kai sorriu com carinho e bloqueou o celular. O dia estava longe de ter sido perfeito — mas, naquele instante silencioso, ele sentia que tinha valido a pena.